O Divino e o humano no tempo e na história: Um testemunho de fé

Quanto à história da Igreja, que se poderia cometer o erro de desprezar, eu devo acrescentar que sua função é enciclopédica: ela tem a honra de ser constantemente requisitada e ocupa um posto legítimo dentro do ensinamento cristão. − Karl Barth [1].

A concepção cristã de tempo, mesmo com as suas variações, influenciou diretamente todo o mundo ocidental. A compreensão de que o tempo tem um início, meio e fim era totalmente estranha às culturas pagãs. A questão da história e do tempo é fundamental para o Cristianismo pela sua própria constituição.

O Cristianismo é uma religião de história. Elimine, por exemplo, a historicidade dos 11 primeiros capítulos de Gênesis, e estaremos mutilando o sentido das Escrituras e, por isso mesmo, os fundamentos da fé cristã. Pelo fato de a Criação ter ocorrido na história, bem como a Queda, a promessa (Gn 3.15) e o Dilúvio, é que tudo o mais faz sentido. Se a Queda é apenas uma lenda, porque precisaríamos crer na encarnação, morte e ressurreição de Cristo como fato histórico? Bastaria a criação de outra lenda para, quem sabe, remediar o que fora inventado anteriormente. A revelação dá-se na história. Qual o sentido de Deus falar e agir na história e, ao mesmo tempo, fornecer por meio de sua Palavra uma história mentirosa, cheia de equívocos e erros? Grande parte dos ensinamentos doutrinários das Escrituras provém de fatos históricos, não apenas de proposições doutrinárias [2].

Insistimos: o Cristianismo não se ampara em lendas, antes, em fatos os quais devem ser testemunhados, visto que têm uma relação direta com a vida dos que creem. O Cristianismo é uma religião de fatos, palavra e vida. Os fatos, corretamente compreendidos, têm uma relação direta com a nossa vida. A fé cristã fundamenta-se no próprio Cristo: O Deus-Homem. Sem o Cristo Histórico não haveria Cristianismo [3]. A sua força e singularidade estão neste fato, melhor dizendo: na pessoa de Cristo, não, simplesmente, nos seus ensinamentos [4]. O Cristianismo é o próprio Cristo. A encarnação é toda e inclusivamente missionária: o Verbo fez-se carne e habitou entre nós (Jo 1.14).

Bavinck (1854-1921) corretamente destaca a singularidade de Cristo para o Cristianismo:

Ele ocupa um lugar completamente único no Cristianismo. Ele não foi o fundador do Cristianismo em um sentido usual, ele é o Cristo, o que foi enviado pelo Pai e que fundou Seu reino sobre a terra e agora expande-o até o fim dos tempos. Cristo é o próprio Cristianismo. Ele não está fora, Ele está dentro do Cristianismo. Sem seu nome, pessoa e obra, não há Cristianismo. Em outras palavras, Cristo não é aquele que aponta o caminho para o Cristianismo, Ele mesmo é o caminho [5].

Se as reivindicações divinas e redentivas do Jesus Cristo histórico são verdadeiras como de fato são, a mensagem do evangelho deve ser anunciada ao mundo para que aqueles que crerem sejam salvos.

Noll resume bem ao dizer que: “Estudar a história do cristianismo é lembrar continuamente o caráter histórico da fé cristã” [6].

Sem o fato histórico da encarnação, morte e ressurreição de Cristo, podemos falar até de experiência religiosa, mas não de experiência cristã. A experiência cristã depende fundamentalmente destes eventos [7]. Quando focamos o nosso olhar na experiência, corremos o risco de perder a dimensão da essência, do referente, que é Deus. Neste processo, como escreveu Barth (1886-1968), “a passagem da experiência do Senhor à experiência de Baal é curta. O religioso e o sexual são extremamente semelhantes” [8].

Jesus Cristo é o clímax da revelação. É a Palavra final de Deus. Nele, temos não uma metáfora ou um sinal, antes, temos o próprio Deus que se fez homem na história. “Jesus Cristo é a revelação final e especial de Deus. Porque Jesus Cristo era verdadeiramente Deus, ele nos mostrou mais plenamente com quem Deus era semelhante do que qualquer outra forma de revelação. Porque Jesus foi também completamente homem, Ele falou mais claramente a nós do que pode fazê-lo qualquer outra forma de revelação” [9].

A História da Igreja, bem como da Teologia, tem um lado divino: Deus dirige a História e, um lado humano: os fatos compartilhados por todos nós que a vivemos. Os atos de Deus, na História, não são objeto de análise do historiador. Não somos Lucas, inspirados infalivelmente por Deus, apresentando uma interpretação inspirada. A relação entre a história e a teologia é extremamente complexa e de difícil interpretação [10]. Além disso, é preciso delimitar a esfera de domínio do historiador e do teólogo. Somos homens comuns, que procuramos estabelecer métodos, examinar documentos, fazer-lhes perguntas e interpretá-los a bem da melhor compreensão possível do que aconteceu.

Nesse sentido, a História é uma ciência social “cujo objeto é o conhecimento do processo de transformação da sociedade ao longo do tempo” [11]. Ela tem como pressuposto a consciência de determinada ignorância – aliás, a consciência da ignorância é um requisito fundamental para o historiador – para a qual buscaremos uma solução [12].

Contudo, não captamos o fato absolutamente. Ele, como “conhecimento autêntico e seguro”, sempre nos escapa [13]; compreendemos, sim, as nossas versões dos fatos que julgamos ser coerentes com eles. No entanto, há uma interação mutativa: as evidências interferem em nossa cosmovisão e esta, por sua vez, fornece-nos novos cânones – provisórios é verdade – de aproximação das mesmas evidências que, agora, podem já não ser consideradas evidências.

O estudo do passado, se devidamente compreendido, ainda que não exaustivamente, pode nos levar a reavaliar as nossas próprias suposições que, em muitos casos, são “crenças correntes” [14] já tão bem estabelecidas que julgávamos acima de qualquer “suspeita”. O grande historiador contemporâneo Georges Duby (1919-1996), colocou isto de forma bela e ao mesmo tempo angustiante: “Todo historiador se extenua para conseguir a verdade; essa presa escapa-lhe sempre” [15].

A História da Igreja, por exemplo, é uma ciência que não está atrelada a nenhuma ciência em particular. Como ciência histórica, deve apresentar um quadro histórico e cronológico dos principais fatos da vida da Igreja do período analisado. Para que isso seja feito com clareza, tornam-se necessárias fontes documentais. Nelas, passamos a nos alicerçar para exaurir as informações de cada época, a fim de formular um quadro interpretativo coerente com os documentos disponíveis.

Na história temos a revelação dos atos de Deus. Deus age ordinariamente por meios dos fenômenos “naturais”. Isso faz parte de nossa fé. No entanto, enquanto historiador, o cristão deve avaliar os documentos e elaborar suas hipóteses a partir desses fenômenos esforçando-se para que as suas conclusões não sejam gratuitas. Que Deus nos abençoe. Amém.

São Paulo, 08 de novembro de 2018.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] Karl Barth, Esboço de uma Dogmática, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, p. 12.

[2] Veja-se, por exemplo: Francis A. Schaeffer, Nenhum conflito final: a Bíblia sem erro em tudo o que ela afirma, Brasília, DF.: Monergismo, 2017, p. 13-33.

[3] Georges Duby (1919-1996), dentro de uma perspectiva puramente histórica, admite: “O Cristianismo, que impregnou fundamentalmente a sociedade medieval, é uma religião da história. Proclama que o mundo foi criado num dado momento e que, num outro, Deus fez-se homem para salvar a humanidade. A partir disso, a história continua e é Deus quem a dirige” (Georges Duby, Ano 1000, ano 2000, na pista de nossos medos, São Paulo: Editora UNESP.; Imprensa Oficial do Estado, 1999, p. 16). “Os historiadores insistiram com justeza sobre o fato de que o cristianismo é uma religião histórica, ancorada na história e se afirmando como tal” (Jacques Le Goff, Tempo: In: Jacques Le Goff; Jean-Claude Schmitt, coords. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Bauru, SP.; São Paulo, SP.: Editora da Universidade Sagrado Coração; Imprensa Oficial do Estado, 2002, v. 2, p. 534). “O cristianismo, como também a religião de Israel, da qual ele nasceu, se apresenta como uma religião histórica de forma absolutamente concreta, em comparação à qual nenhuma das outras religiões do mundo pode se equiparar – nem mesmo o Islã, apesar de este se aproximar mais do cristianismo e do judaísmo, nesse sentido, que qualquer outra religião” (Christopher Dawson, Dinâmicas da História no Mundo, São Paulo: É Realizações Editora, 2010, p. 343). Do mesmo modo: Marc Bloch, Apologia da história, ou, O ofício do historiador, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, p. 58).

[4] Veja-se: Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 23ss. “Qualquer coisa que se apresente como cristianismo, mas que não insista na absoluta e essencial necessidade de Cristo, não é cristianismo. Se Ele não for o coração, a alma e o centro, o princípio e o fim do que é oferecido como salvação, não é a salvação cristã, seja lá o que for” (D. M. Lloyd-Jones, O supremo propósito de Deus: Exposição sobre Efésios 1.1-23, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 143).

[5] Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 311.

[6] Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2000, p. 16. Vejam-se também: Clyde P. Greer, Jr., Refletindo Honestamente sobre a História: In: John F. MacArthur Jr. ed. ger. Pense Biblicamente!: recuperando a visão cristã do mundo, São Paulo: Hagnos, 2005, p. 400-401.

[7] Cf. J. Gresham Machen, Cristianismo e Liberalismo, São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 77.

[8] Karl Barth, A Palavra de Deus e a Palavra do homem, São Paulo: Novo Século, 2004, p. 217.

[9] James W. Sire, O Universo ao Lado, São Paulo: Hagnos, 2004, p. 40.

[10] Ver: Michel De Certeau, A Escrita da História, 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002, p. 33ss.

[11] Nelson W. Sodré, Formação Histórica do Brasil, São Paulo: Brasiliense, (1962), p. 3.

[12] Veja-se: R.G. Collingwood, A Idéia de História, Lisboa: Editorial Presença, (s.d.), p. 21.

[13] “O homem sente necessidade absoluta de chegar ao conhecimento autêntico do que verdadeiramente aconteceu, ainda que tenha consciência da pobreza dos meios de que para isso dispõe” (Johan Huizinga, El Concepto de la Historia y Otros Ensayos, 4. reimpresión, México: Fondo de Cultura Econômica, 1994, p. 92).

[14] Veja-se: Quentin Skinner, Liberdade antes do Liberalismo, São Paulo: Editora UNESP/Cambridge, 1999, p. 90.

[15] Georges Duby, O Prazer do Historiador: In: Pierre Nora, et. al. Ensaios de Ego-História, Lisboa: Edições 70, (1989), p. 110.

Deus transcendente e pessoal: O Deus conosco

Todos os povos ou puxam Deus panteisticamente para baixo, na direção daquilo que é criado, ou o elevam deisticamente, colocando-o infinitamente acima da criatura. Em nenhum dos casos se chega a uma verdadeira comunhão, a uma aliança, a uma religião genuína. No entanto, a Escritura insiste em ambos: Deus é infinitamente grande e condescendentemente bom; Ele é soberano, mas também é Pai; Ele é Criador, mas também é Protótipo. Em uma palavra, Ele é o Deus da aliança. − Herman Bavinck.¹

As Escrituras não tratam a Deus panteística nem deisticamente como normalmente ocorre com o pensamento pagão ao longo da história. Antes, nos mostra tal qual ele se revela.

Esta revelação encontra eco em nós pelo fato de Deus o fazer em categorias compreensíveis à nossa mente, já que Ele se “acomoda” à nossa compreensão.

A despeito do pecado, continuamos sendo a imagem de Deus, carregando conosco o senso do divino, sendo, portanto, incuravelmente religioso. Além disso, temos o seu Espírito que nos ilumina para podermos ter uma compreensão verdadeira das Escrituras.

As Escrituras não gastam tempo discutindo sobre as “provas da existência de Deus”, antes, nos apresentam um Deus que fala e age. Muito do seu agir é agenciado por sua palavra que cria, recria e transforma (Gn 1.1; 2.4).

Por meio de Isaías, Deus faz registrar: “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e vivificar o coração dos contritos” (Is 57.15).

A Palavra de Deus nos ensina que Deus não pode estar limitado pelo universo, que é sua criação: Deus é infinito e, por isso, é imenso e eterno, transcendendo de forma perfeita todas as limitações espaciais e temporais, que são próprias da criatura, não do Criador, entretanto, Deus está presente em todas as suas criaturas e em todos os lugares. Com isso não queremos dizer que Deus esteja presente no mesmo sentido em todas as suas criaturas. Deus está em todo ser de acordo com a natureza deles; assim, afirmamos que Deus habita de uma forma no homem e de outra no mundo orgânico, de outro no mundo inorgânico, etc. A forma como Deus está em nós, no seu povo, é diferente da forma como Ele habita nos incrédulos. Deus está presente agindo soberanamente numa interminável variedade de maneiras.

Desta forma, afirmamos a transcendência de Deus, negando com isso o panteísmo; e, afirmamos a imanência de Deus, partindo de um fato real: a Revelação de Deus, negando, portanto, o deísmo.

A fé cristã crê que a criação de todas as coisas o foi pela vontade livre, que nos é inacessível, e soberana de Deus. Ao mesmo tempo, crê que esse mesmo Deus sustenta a realidade, se revela, e se relaciona pessoalmente conosco.

O Deus criador não abandona a sua criação. Deus continua presente. Por isso, ele continuará dirigindo o nosso país e a nossa vida. Que isso nos encoraje e console. Amém.

São Paulo, 08 de novembro de 2018.
Rev. Hermisten M.P. Costa

 


¹ Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 580.

Deus não está em silêncio

As Escrituras não são especulativas. A Bíblia é um livro descritivo, normativo e extremamente prático. Aliás, não há livro mais próximo e relevante às situações concretas da vida do que a Bíblia. Ela não discute, por exemplo, sobre a existência de Deus ou faz abstrações de sua natureza e essência, antes parte do pressuposto da existência de Deus. Mais do que uma teoria ou abstração, as Escrituras nos põem em contato com o Deus vivo e pessoal, que age e fala. É o Deus que se relaciona e cuida de seu povo. “A Escritura, em sua totalidade, é o próprio livro da providência de Deus”, resume Bavinck (1854-1921)¹.

“Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus”, escreveu Moisés (Sl 90.2). Moisés por revelação direta de Deus, registra de forma inspirada (2Pe 1.20-21), narrando os atos criadores de Deus, sem se preocupar em falar com mais detalhes a respeito daquele, que mediante a sua Palavra, faz com que do nada surja a vida, criando o universo, estabelecendo suas leis próprias e, avaliando a sua criação como boa. Moisés apenas apresenta o Deus Todo-Poderoso exercitando o seu poder de forma criadora, segundo o seu eterno propósito. Deus existe – este é o fato pressuposto em toda a narrativa da Criação. Deus cria segundo a sua Palavra e isto nos enche de admiração e reverente temor: a Palavra de Deus é o verbo criador que manifesta a determinação e o poder de Deus (Gn 1.1,26-27; Sl 33.6,9; Jo 1.1-3; Hb 11.3), o qual criou as coisas com sabedoria (Pv 3.19).

As Escrituras nunca tratam de Deus de forma impessoal ou abstrata, mas, como o Deus infinito-pessoal que se revela.

Obviamente o Deus das Escrituras não é um deus criado pela imaginação do homem projetando em sua criação seus desejos e vícios, o que facilmente conduz da idolatria ao ateísmo.

Deus não se deixa invadir pela razão humana, ou mesmo pela fé. Ele se dá a conhecer livre, fidedigna e explicitamente. Deus se revela a si mesmo como Senhor². E “Senhorio significa liberdade”³. Conhecer a Deus é um privilégio da graça que tem o seu início sempre no Deus Trino (Mt 11.27;1Co 12.3).

Conheçamos e prossigamos em conhecer a Deus, o nosso Senhor e Pastor (2Pe 3.18; Sl 23.1). Amém.

São Paulo, 08 de novembro de 2018.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 


¹Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 607.

²Ver: Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 181,186ss. 

³K. Barth, Church Dogmatics, Edinburgh: T. & T. Clark, 1960, I/1, p. 306.

O Senhor e seus pensamentos inatingíveis: a angústia do profeta

“Quão grandes (ld;G”) (gadal), SENHOR, são as tuas obras! Os teus pensamentos (hb’v’x]m;) (machashabah) (desígnios, intentos) que profundos!” (Sl 92.5).

Os seus desígnios, por serem verdadeiros e provenientes do Deus santo, sábio, justo e soberano, são inumeráveis, profundos e eternos: “O conselho do SENHOR dura para sempre; os desígnios (hb’v’x]m;) (machashabah) do seu coração, por todas as gerações” (Sl 33.11).

Aqui já nos deparamos com algo grandioso demais para nós. Pensamos sempre em termos de causa e efeito e, dentro das categorias tempo e espaço repletos de circunstâncias geográficas, culturais, sociais e pessoais. Curiosamente foi dentro dessas categorias tão importantes para nós, que Deus se revelou.

O salmista nos diz que os desígnios de Deus permanecem para sempre. Ou seja: muito do que podemos ver nessa vida não esgota nem mesmo aspectos do seu governo e propósito. Por isso, muitas vezes nos angustiamos com o que consideramos passividade, indiferença, demora de Deus ou, por presumir um fim que julgamos ser o melhor dentro de nossa lógica bastante consistente, pensamos.

Não foi justamente isso que enfrentou o profeta Habacuque?

Tempo e espaço determinam muitas de nossas prioridades conforme as circunstâncias. Em boa parte das vezes tais circunstâncias são elaboradas pela mistura de ambos os elementos conforme a nossa fórmula caseira de relacionar tempo e espaço.

Por isso, em nossa incompreensão e incertezas diante desses elementos, o tempo pode nos parecer, como ao angustiado poeta argentino Jorge L. Borges (1899-1986), uma “ilusão”¹. No entanto, sabemos, que ele é implacável em sua caminhada e transitoriedade. Mas, não nos esqueçamos, está sob a direção de Deus.

Quando estamos apressados, tudo parece demorado. Quando estou com tempo disponível, as distâncias ficam mais curtas. O relógio, em nossa mente, pode ser romanticamente domesticado, mas, o que de fato não ocorre concretamente.

Conforme a nossa base de avaliação comparativa circunstancial, posso dizer que algo é longe ou perto. Rápido ou demorado. Já observaram como uma viagem de duas horas é longa a partir, digamos, da primeira hora de percurso? Já uma viagem de 8 horas, você nem sequer considera a primeira hora porque ainda faltam muitas outras.

E a refeição servida no restaurante? Faz diferença o tempo de espera quando você está com fome, sozinho e, sem celular. Aliás, este é imprescindível. A sua percepção é diferente se estiver tranquilo, sem muita fome e com uma boa prosa ou conversando no zap? Mais tarde você conversará pelo zap com quem agora está com você à mesa…

Da mesma forma, como temos uma dimensão mais imediatamente material da realidade, tendendo a circunscrevê-la a isso apenas, os propósitos de Deus podem nos parecer demorados ainda que estejam perfeitamente sob à sua preservação, domínio e controle.

O profeta Habacuque viveu numa época extremamente difícil. O seu livro foi escrito por volta do ano 605 a.C., durante o reinado de Eliaquim, filho de Josias. Nesse período, o reinado de Eliaquim era apenas simbólico, pois quem de fato mandava em Israel era o rei egípcio, Faraó-Neco, quem inclusive destronou o antigo rei, irmão de Eliaquim, Jeocaz – levando-o para o Egito aonde viria falecer (2Rs 23.34) –, colocando Eliaquim no enfraquecido trono e, como sinal do seu poder, mudou o nome de Eliaquim para Jeoaquim.

O reinado de Jeoaquim (609-598 a.C.) ocorreu durante o ministério de Jeremias e Habacuque. Jeoaquim para pagar os tributos exigidos por Faraó, impôs pesados impostos sobre o povo de Israel (2Rs 23.35), construiu também prédios luxuosos com trabalho escravo, sendo descrito por Jeremias como um homem vaidoso, egoísta, ambicioso, violento e corrupto (Jr 22.13-18). O seu reinado foi marcado pela decadência moral e espiritual do povo, sendo as reformas feitas pelo seu pai Josias, gradativamente esquecidas.

Nesse contexto encontramos o profeta Habacuque [“Abraço ardente” (?)]², um fiel profeta de Deus, que tinha perguntas profundas, as quais revelavam a sua preocupação com o povo de Judá, bem como o desejo de entender a dura realidade dos fatos. Nesse livro nos deparamos com o profeta em conflito com a própria mensagem de Deus: Habacuque demonstra ter dificuldade em compreender o desígnio de Deus.

O povo estava em pecado: Violência, contenda, litígio, afrouxamento da lei, injustiça etc. (Hc 1.3-4). Ele orava constantemente ao Senhor, que aparentemente não o ouvia. A não percepção da manifestação de Deus causa-lhe angústia e incompreensão (Hc 1.2-3).

Agora Deus se revela a Habacuque, determinando a sua “sentença” [()af&am) (masã’), “oráculo”, que tem o sentido metafórico de “peso” e “fardo”. Temos o anúncio de julgamentos pesados contra o povo e o poder imperial (Hc 1.1). O fato de essa palavra ser usada já no primeiro verso, à semelhança de Naum (Na 1.1) e Malaquias (Ml 1.1/Zc 12.1), indica a severidade da mensagem. Essa forma figurada de falar a respeito de Israel não era estranha ao Antigo Testamento (Nm 11.11,17; Dt 1.12).

Contudo, a resposta de Deus foi por demais surpreendente para o profeta. Deus mostra que não está indiferente aos acontecimentos, mas, que levantaria os caldeus para oprimir aqueles opressores descritos pelo profeta (Hc 1.5-11). Aqui Habacuque se depara com a questão da santidade de Deus e a prevalência do mal. Como Deus, sendo justo, poderia castigar os injustos por intermédio de outros mais injustos ainda? O profeta desabafa:

Não és tu desde a eternidade, ó SENHOR, meu Deus, ó meu Santo? Não morreremos. Ó SENHOR, para executar juízo, puseste aquele povo; tu, ó Rocha, o fundaste para servir de disciplina. Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar; por que, pois, toleras os que procedem perfidamente e te calas quando o perverso devora aquele que é mais justo do que ele? Por que fazes os homens como os peixes do mar, como os répteis, que não têm quem os governe?  A todos levanta o inimigo com o anzol, pesca-os de arrastão e os ajunta na sua rede varredoura; por isso, ele se alegra e se regozija. Por isso, oferece sacrifício à sua rede e queima incenso à sua varredoura; porque por elas enriqueceu a sua porção, e tem gordura a sua comida. Acaso, continuará, por isso, esvaziando a sua rede e matando sem piedade os povos? (Hb 1.12-17).

Mesmo que não possamos ter clareza quanto ao propósito de Deus em todos os atos da história, não podemos duvidar dele. Deus sustenta e controla o seu povo e os seus inimigos. Não há força neste mundo que não esteja sob a sua preservação e domínio. O fato de não entendermos perfeitamente os propósitos de Deus, é inteiramente natural afinal, Deus é o Senhor Eterno e Onisciente; os caminhos de Deus não são os nossos caminhos; a sua mente é inescrutável (Is 55.8,9; Rm 11.33).

A nossa mente finita não consegue compreender exaustivamente as perfeições de Deus. O limite de nosso conhecimento é determinado pela revelação. A revelação de Deus também não é completa no sentido de abarcar total e exaustivamente o ser de Deus. Porém, Deus se revela como de fato é. Portanto muitíssimos de seus atos soberanos nos escapam. O finito não pode comportar o infinito! No entanto, podemos conhecer a Deus genuína e verdadeiramente à luz de sua autorrevelação. Podemos conhecer a Deus genuinamente, porém, não exaustiva e absolutamente.

Deus é soberano na utilização dos seus meios. Ele usa sábia e soberanamente os meios que quer. Aqui ele usou os caldeus para disciplinar a Judá (Hc 1.12/Is 10.5-6). Deus é senhor dos meios e dos fins!

Os caldeus por certo atribuíam as suas vitórias aos seus poderosos feitos (Hc 1.11,15,16); eles não entendiam que por meio de sua própria e voluntária maldade havia a direção de Deus para o fim proposto. Os seus caminhos são com frequência incompreensíveis à nossa razão. As nossas categorias são finitas e, portanto, limitadas.

Pois eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa, que marcham pela largura da terra, para apoderar-se de moradas que não são suas. (Hc 1.6).

Não és tu desde a eternidade, ó SENHOR, meu Deus, ó meu Santo? Não morreremos. Ó SENHOR, para executar juízo, puseste aquele povo; tu, ó Rocha, o fundaste para servir de disciplina. (Hc 1.12).

Os caminhos de Deus são eternos. (Hc 3.6).

Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR. (Is 55.8).

O livro do profeta Habacuque reflete o conflito entre a fé do profeta e a amarga experiência vivida. Como Deus pode permitir isso? Esta é a questão do profeta.

O livro objetiva mostrar que ainda que Deus tivesse usado uma nação pagã para disciplinar o seu povo, mais tarde, Deus mesmo destruiria os caldeus devido a sua idolatria e perversidade extrema, resultante de sua própria deliberação.

No entanto, não devemos nos precipitar. A aparente demora de Deus em nos atender visa nos estimular à prática perseverante da oração. Aprendo a perseverar perseverando.

Deus tem o domínio preciso de todas as coisas. Ele é o senhor do tempo e da eternidade; do espaço e do infinito.

Habacuque começa o livro trazendo um “fardo” (Hc 1.1): a sentença de Deus. Depois revela a sua incompreensão diante dos fatos que estão ocorrendo. Até que ele enquadra corretamente o problema dentro daquilo que tinha certeza absoluta: Deus é Todo-Poderoso, Eterno, Autossuficiente e Santo. O profeta então orou, colocando diante de Deus toda a sua perplexidade. Descansou em Deus e aguardou atentamente a sua resposta: tirou os olhos do problema e volveu-os para Deus (Hc 2.1). Deus lhe responde. Agora Habacuque mais maduro em sua fé, encerra o livro com uma palavra de confiança renovada, reafirmada, mesmo em meio a possíveis provações.

Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação. O SENHOR Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente. (Hc 3.17-19).

Aprendamos com o profeta essa lição: conheçamos o nosso Deus, entreguemos-lhe a nossa perplexidade e angústia, seja ela qual for, e aguardemos confiantes a sua resposta: Ele certamente responderá! Posso não saber o que me espera amanhã, porém, não posso ter dúvida do que me espera na eternidade. Um detalhe: o amanhã, como todos os nossos dias, está envolvido no propósito eterno de Deus.

O Deus incompreensível em sua extensão, nos ama – disso sabemos bem –, por isso, cuida graciosa, pedagógica e paternalmente de nós. Os seus caminhos são eternos! Os seus pensamentos são inatingíveis. Que Deus nos capacite a nele confiar. Afinal, esse Deus é o nosso pastor. De nada mais precisamos. Amém

São Paulo, 08 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten M.P. Costa

 


¹Jorge L. Borges, História da Eternidade, Buenos Aires: Emecé Editores, (6. impresión), 1969, p. 29.

²O significado do seu nome é incerto. Pode ser derivado de uma palavra hebraica que significa abraço (“abraçar” ou “ser abraçado”) ou, “lutador”, conforme tradução de Jerônimo, considerando que Habacuque lutou com Deus. Tem sido especulado também que a derivação do seu nome poderia vir do acadiano, designando alguma planta ou árvore denominada pelos assírios de hambaqûqu. No entanto, esta planta ainda não pôde ser identificada. (Para maiores detalhes, veja-se: P.A. Verhoef, Habacuque: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 2, p. 11-12 (especialmente).

O nosso Senhor é supremamente grande. Adoremos ao Senhor!

Nosso Deus é incomparável! Aprendemos isso nas Escrituras. No entanto, nos Salmos, com objetivos didáticos, encontramos costumeiramente termos comparativos para Deus a fim de realçar aspectos do seu caráter que são superlativamente incomparáveis.

Deus se vale desse recurso para falar de aspectos de sua natureza de modo que possamos entender, ainda que parcialmente, considerando obviamente os limites humanos.

Um dos termos empregados pelas Escrituras para realçar a soberania de Deus e a maravilha de suas obras, é a palavra grande (lAdG”) (gadol) e suas variações. Analisemos alguns aspectos da grandeza de Deus e como isso traz implicações para a nossa vida:

 

Porque o SENHOR é o Deus supremo (lAdG”) (gadol) e o grande (lAdG”) (gadol) Rei acima de todos os deuses. (Sl 95.3/77.13; 96.4; 99.2).

Grande (lAdG”) (gadol) é o Senhor nosso e mui poderoso; o seu entendimento (hn”WbT.) (tebunah) (= inteligência, aptidão, habilidade) não se pode medir. (Sl 147.5).

Esse é o Deus conhecido intimamente pelo seu povo: Conhecido ([d;y”) (yada’) é Deus em Judá; grande (lAdG”) (gadol), o seu nome em Israel” (Sl 76.1).

Vemos aqui a importância de conhecer a Deus. Entretanto, o conhecimento de nossas limitações é resultado da revelação de Deus. Somente por graça podemos conhecer o que conhecemos e termos uma dimensão de que há muito o que conhecer (2Pe 3.18). Somente assim poderemos compreender que a suprema grandeza do Senhor o dignifica como devendo ser louvado por nós e, demonstra também, que o nosso culto deve ser caracterizado pela consciência de que adoramos ao Senhor que é grande.

A sua natureza e os seus poderosos e misericordiosos feitos devem nos conduzir ao culto. É por isso que a nossa adoração deve ser precedida pela reflexão sobre Deus e a sua grandeza. A nossa adoração reflete como vemos a Deus e o quanto consideramos os seus feitos. A prática adoracional é precedida por uma questão teológica e vivencial. O nosso culto deve ser determinado não pelo nosso gosto, mas pela grandeza de Deus conforme revelada na Escritura. Essa compreensão é comum aos salmistas:

 

Grande (lAdG”) (gadol) é o SENHOR e mui digno de ser louvado, na cidade do nosso Deus. (Sl 48.1).

Porque grande (lAdG”) (gadol) é o SENHOR e mui digno de ser louvado, temível (arey”) (yare) mais que todos os deuses. (Sl 96.4).

Grande (lAdG”) (gadol) é o SENHOR e mui digno de ser louvado; a sua grandeza (hL’WdG>) (gedullah) é insondável (rq,xe !yIa;) (ayin cheqer) (Sl 145.3).

Portanto, o nosso culto, pelo seu sublime objetivo e conteúdo, deve ter uma conotação missionária, visto que o grande Deus é o seu motivo e propósito. A adoração deve ser um testemunho para todos do quão grande é o nosso Senhor:

 

Engrandecei (ld;G”) (gadal) o SENHOR comigo, e todos, à uma, lhe exaltemos o nome. (Sl 34.3/Sl 40.6; 69.30; 70.4).

Bendize, ó minha alma, ao SENHOR! SENHOR, Deus meu, como tu és magnificente (ld;G daom.) (gadal meod): sobrevestido de glória e majestade. (Sl 104.1).

Louvai-o pelos seus poderosos feitos; louvai-o consoante a sua muita grandeza (ld;G” bro) (gadal rob). (Sl 150.2).

 

Os seus grandiosos feitos devem ser anunciados:     “Falar-se-á do poder dos teus feitos tremendos (arey”) (yare), e contarei a tua grandeza (hL’WdG>) (gedullah) (Sl 145.6).

Por vezes, em momentos de dúvida e abatimento, devemos considerar a nossa história de vida. Com demasiada frequência o presente parece ser a única realidade, nada o tendo precedido. Assim, o agora assume a conotação em nossa limitação psicológica, de eterno presente. A amnésia da fé esvazia a nossa possibilidade de esperança. Por isso mesmo, pode nos causar muita tristeza, senso de solidão e, pior: ingratidão para com o Senhor.

O considerar as obras de Deus é, com muita frequência, um estímulo a confiar e a continuar confiando. Deus nos chamou, nos guiou e preservou. Ele é o Deus grande que opera maravilhas em nossa vida e na de nossos irmãos. Ele não é um marqueteiro de suas bênçãos. Devemos apreciar os seus atos de bondade em nossa rotina de vida. Ele se faz presente não somente em eventos grandiosos aos nossos olhos, como quando compramos a nossa casa, nos casamos, somos admitidos em um emprego, temos nossos filhos, somos aprovados em nossa Monografia (Dissertação ou tese), ou nos restabelecemos de grave enfermidade. A grandeza de Deus se revela também nas pequenas coisas de nossa cotidianidade. O rotineiro pode se tornar para nós uma grande bênção quando somos privados temporariamente dele e, posteriormente, voltamos àquilo que nem sequer avaliávamos. Devemos, portanto, nos alegrar em seus feitos e descansar em suas promessas.

Samuel quando deixa de ser juiz de Israel, porque o povo desejava ter um rei, se despede. Recapitula brevemente a história da Israel e, no final, lhe diz: “Tão-somente, pois, temei ao SENHOR e servi-o fielmente de todo o vosso coração; pois vede quão grandiosas (lAdG”) (gadol) coisas vos fez” (1Sm 12.24).

Esse sentimento é comum aos salmistas. Davi considerando os feitos de Deus e o fato de que Ele ouve as suas orações, escreve: “Pois tu és grande (lAdG”) (gadol) e operas maravilhas; só tu és Deus!” (Sl 86.10).

O salmista refletindo sobre as suas grandes obras se dispõe a adorar a Deus em companhia dos fiéis: “Aleluia! De todo o coração renderei graças ao SENHOR, na companhia dos justos e na assembleia. Grandes (lAdG”) (gadol) são as obras do SENHOR, consideradas por todos os que nelas se comprazem” (Sl 111.1-2)

Em outro momento, o salmista considerando a misericórdia de Deus revelada em suas singulares maravilhas, rende graças: “Ao único que opera grandes (lAdG”) (gadol) maravilhas (al’P’) (pala), porque a sua misericórdia dura para sempre” (Sl 136.4).

Davi canta com alegria a magnificente misericórdia de Deus que se manifestou em livramento e alento de sua alma:

Render-te-ei graças, SENHOR, de todo o meu coração; na presença dos poderosos te cantarei louvores. Prostrar-me-ei para o teu santo templo e louvarei o teu nome, por causa da tua misericórdia e da tua verdade, pois magnificaste (ld;G”) (gadal) acima de tudo o teu nome e a tua palavra. No dia em que eu clamei, tu me acudiste e alentaste a força de minha alma. (Sl 138-1-3).

Quando o salmista recapitula a história de Israel do deserto, marcada pelo cuidado e provisão de Deus, bem como pela desobediência do povo, um aspecto destacado é o esquecimento dos grandiosos feitos de Deus: “Esqueceram-se de Deus, seu Salvador, que, no Egito, fizera coisas portentosas (lAdG”) (gadol) (Sl 106.21).

A certeza da grandeza de Deus deve alimentar e fortalecer a nossa fé: “Com efeito, eu sei ([d;y”) (yada’) que o SENHOR é grande (lAdG”) (gadol) e que o nosso Deus está acima de todos os deuses” (Sl 135.5).

Os feitos grandiosos de Deus, por vezes, são reconhecidos até mesmo pelos estrangeiros: “Quando o SENHOR restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha. Então, a nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua, de júbilo; então, entre as nações se dizia: Grandes (ld;G”) (gadal) coisas o SENHOR tem feito por eles” (Sl 126.1-2).

Esse é o nosso Deus. É o nosso Pastor e Rei. Ele é grande! Os seus atos de misericórdia são grandiosos e nos acompanham diariamente. Contemos as bênçãos de Deus e lhe prestemos culto com coração agradecido.

São Paulo, 6 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten M.P. Costa

O Senhor Altíssimo, mas não distante

Uma expressão usada por vezes como um nome para Deus é Altíssimo. Deus está acima de todas as coisas. Esta é uma forma poética de dizer que Deus é o Senhor soberano acima de tudo. Ele é o Altíssimo eternamente. Ele não se confunde com as outras divindades tribais e locais, criadas pela imaginação humana e limitadas pelos seus domínios, que expressam a pecaminosa engenhosidade humana em formar seus deuses a sua imagem.

Antes, o Senhor é o Altíssimo sobre todos os poderes e sobre a criação, obras de suas mãos.

Esse foi o ponto que, durante fortíssima tempestade, assustou os experientes marinheiros diante do profeta Jonas, que se identificava como alguém que temia ao Senhor criador de todas as coisas: “Sou hebreu e temo ao SENHOR, o Deus do céu, que fez o mar e a terra” (Jn 1.9/Jn 1.16).

Nos salmos lemos Davi cantando com gratidão: “Eu, porém, renderei graças ao SENHOR, segundo a sua justiça, e cantarei louvores ao nome do SENHOR Altíssimo (!Ayl.[,) (elyon)(Sl 7.17/Sl 47.2).

Aqui temos a combinação dos nomes: Senhor e Altíssimo, enfatizando a sua realeza sobre todas as coisas e todos os supostos deuses. (Veja-se: Sl 97.9).

“E reconhecerão que só tu, cujo nome é SENHOR, és o Altíssimo (!Ayl.[,) (elyon) sobre toda a terra” (Sl 83.18/Sl 92.8), escreve reverentemente o salmista.

Na relação cultual com Deus, é comum a ideia de que o povo deve subir ao templo. A questão não é apenas topográfica, mas, de natureza essencial: Deus é o Senhor Altíssimo, perfeito em toda a sua natureza e relações; nós somos criaturas dependentes de sua misericórdia. Ele habita o alto e o sublime (Sl 57.15).

Davi então ora: “A ti, SENHOR, elevo (af’n”) (nasa’) a minha alma” (Sl 25.1). Mesmo sabendo que as armadilhas estão embaixo, o salmista olha continuamente para cima, porque somente o Senhor o pode livrar: “Os meus olhos se elevam continuamente ao SENHOR, pois ele me tirará os pés do laço (tv,r,) (resheth) (rede)(Sl 25.15).

Os arrogantes, em sua visível e decantada prosperidade, motejam do Altíssimo. Os fiéis, inseguros, ainda que por um momento, se encantam com o sucesso de seu caminho sem Deus. Essa foi a experiência do salmista ao se fascinar com o visível progresso do ímpio em meio a sua arrogância e aparente impunidade (Sl 73.3.8-11).

No entanto, ainda que o ímpio não creia, ou até mesmo os servos de Deus, em momento de fraqueza diante de circunstâncias adversas, poderem cair em um ateísmo prático, negando o seu poder, ele continua sendo o que é eternamente: O Altíssimo onipotente.

No salmo 97 temos um convite a louvar ao Senhor, que é o Altíssimo sobre toda a criação e sobre todos os deuses criados pelos homens:

1Reina o SENHOR. Regozije-se a terra, alegrem-se as muitas ilhas. 2 Nuvens e escuridão o rodeiam, justiça e juízo são a base do seu trono. 3 Adiante dele vai um fogo que lhe consome os inimigos em redor. 4 Os seus relâmpagos alumiam o mundo; a terra os vê e estremece. 5 Derretem-se como cera os montes, na presença do SENHOR, na presença do Senhor de toda a terra. 6 Os céus anunciam a sua justiça, e todos os povos veem a sua glória. 7 Sejam confundidos todos os que servem a imagens de escultura, os que se gloriam de ídolos; prostrem-se diante dele todos os deuses. 8 Sião ouve e se alegra, as filhas de Judá se regozijam, por causa da tua justiça, ó SENHOR. 9 Pois tu, SENHOR, és o Altíssimo (!Ayl.[,) (elyon) sobre toda a terra; tu és sobremodo elevado acima de todos os deuses” (Sl 97.1-9).

O Senhor Altíssimo é o Deus conosco que jamais nos desampara. A consideração desse fato deve nos confortar e conduzir ao culto. Portanto, com fé e reverência cultuemos ao Senhor Altíssimo! Amém.

São Paulo, 05 de novembro de 2018.
Rev. Hermisten M.P. Costa

A “fé explícita” e a necessidade de uma fé consistente

A Reforma Protestante no seu período de consolidação teológica, se deparou com a necessidade de sistematizar a sua fé distinguindo-se não simplesmente do grande outro que seria a igreja católica romana, mas, também, aprofundar e pontuar aquilo que a diferenciava de outros grupos protestantes. Considerando a autonomia individual proclamada pela Reforma, estes ensinamentos deveriam ser inteligíveis ao cristão mais simples, para que ele pudesse filiar-se à igreja, conhecendo o que ela cria e ensinava.

Calvino (1509-1564) já combatera a “fé implícita” (fides implicita) – que era patente na teologia católica –, declarando que a nossa fé deve ser “explícita” (fides explicita). Ou seja: o fiel deve conhecer aquilo que crer. No entanto, ressalta que devido ao fato de que nem tudo foi revelado por Deus, bem como à nossa ignorância e pequenez espiritual, muito do que cremos permanecerá nesta vida de forma implícita.

Calvino depois de um extenso comentário, nos diz: “Certamente que não nego (de que ignorância somos cercados!) que muitas cousas nos sejam agora implícitas, e ainda o hajam de ser, até que, deposta a massa da carne, nos hajamos achegado mais perto à presença de Deus, cousas essas em que nada pareça mais conveniente que suspender julgamento, mas firmar o ânimo a manter a unidade com a Igreja. Com este pretexto, porém, adornar com o nome de fé à ignorância temperada com humildade, é o cúmulo do absurdo. Ora, a fé jaz no conhecimento de Deus e de Cristo (Jo 17.3), não na reverência à Igreja” (J. Calvino, As Institutas, III.2.3).

Em outro lugar: “Que costume é esse de professar o evangelho sem saber o que ele significa? Para os papistas, que se deixam dominar pela fé implícita, tal coisa pode ser suficiente. Mas para os cristãos não existe fé onde não haja conhecimento” (João Calvino, Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 1.2), p. 25).

Pelas palavras de Calvino, podemos observar a necessidade latente do ensino e estudo constante da Palavra de Deus, a fim de que cada homem, sendo como é, um ser responsável, tenha condições de se posicionar diante de Deus de forma consciente. A fé explícita é patenteada pela igreja por intermédio do ensino da Palavra.

Entende que a prática de afastar o povo da Palavra, mantendo-o na ignorância, é uma atitude anticristã e altamente prejudicial: “Daqui se faz evidente que espécie de cristianismo existe dentro do papado, onde não só é a crassa ignorância exaltada em nome da simplicidade, mas também o povo é rigidamente proibido de buscar o real discernimento” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 5.14), p. 143). Ao mesmo tempo lamenta que nem todos, mesmo tendo oportunidade, têm usado deste privilégio: o estudo das Escrituras: “A Palavra de Deus, a única norma do genuíno discernimento, a qual é aqui declarada como indispensável a todos os cristãos. Mesmo entre os que já foram libertados de tão diabólica proibição e que já desfrutam da liberdade de aprender, há, não obstante, indiferença tanto em ouvir quanto em ler. Quando negligenciamos tal disciplina, nos tornamos insensíveis e destituídos de todo e qualquer discernimento” (João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 5.14), p. 143).

Tillich (1886-1965), a despeito de muitos desvios teológicos, interpreta corretamente essa compreensão: “Cada indivíduo deve ser capaz de confessar os próprios pecados, experimentar o significado do arrependimento, e se tornar certo de sua salvação em Cristo. Essa exigência gerava um problema no protestantismo. Significava que todas as pessoas precisavam ter o mesmo conhecimento básico das doutrinas fundamentais da fé cristã. No ensino dessas doutrinas não se emprega o mesmo método para o povo comum e para os candidatos às ordens, ou para os futuros professores de teologia, com a prática do latim e grego, da história da exegese e do pensamento cristão. Como se pode ensinar a todos? Naturalmente, apenas se tornarmos o ensino extremamente simples” (Paul Tillich, Perspectivas da Teologia Protestante nos Séculos XIX e XX, São Paulo: ASTE., 1986, p. 41).

Essa necessidade, determina o uso cada vez mais evidente da razão a fim de apresentar de forma mais razoável possível a doutrina, e ao mesmo tempo, de forma simples. Eis dois marcos do ensino ortodoxo: amplitude e simplicidade. O ser humano é responsável diante de Deus; ele dará contas de si mesmo ao seu Criador. Portanto, tendo oportunidade, ele precisa conhecer devidamente a Palavra de Deus em toda a sua plenitude revelada.

Nesse período (séculos XVI e XVII) são compostas diversas Confissões e Catecismos, que além de visar preservar a sã doutrina, objetivavam tornar clara e objetiva a fé dos crentes. Essas declarações de fé precisavam ser, até certo ponto, completas. Entretanto, precisavam ao mesmo tempo ser simples, para que o crente comum (não iniciado nas questões teológicas) pudesse entender o que estava sendo dito. Avaliando esse com a Palavra de Deus, o crente teria, assim, uma compreensão mais amplamente bíblica da sua fé.

Lutero (1483-1546) exerceu poderosa influência por meio de seus Catecismos: O Catecismo Maior (abril de 1529) e principalmente, O Catecismo Menor (maio de 1529), ambos escritos em alemão. No prefácio do Catecismo Menor, Lutero declara os motivos que o levaram a redigir este Catecismo e, apresenta também sugestões de como ensiná-lo à Congregação. No decorrer dos sete capítulos, ele quase sempre inicia dizendo: “Como o chefe de família deve ensiná-lo à sua casa” ou: “Como o chefe de família deve ensiná-lo com toda a simplicidade à sua casa” e expressões similares.

Transcreverei apenas o que Lutero disse a respeito das suas motivações: “A lamentável e mísera necessidade experimentada recentemente, quando também eu fui visitador, é que me obrigou e impulsionou a preparar este catecismo ou doutrina cristã nesta forma breve, simples e singela. Meu Deus, quanta miséria não vi! O homem comum simplesmente não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias. E, infelizmente, muitos pastores são de todo incompetentes e incapazes para a obra do ensino (…). Não sabem nem o Pai-Nosso, nem o Credo, nem os Dez Mandamentos”. (Martinho Lutero, Catecismo Menor: In: Os Catecismos, São Leopoldo, RS.; Porto Alegre, RS.: Concórdia; Sinodal, 1983, p. 363)

Em síntese, podemos dizer que o princípio da fé explícita foi um dos fermentos poderosos na promoção da tradução das Escrituras para diversos idiomas, a elaboração de Confissões, a criação de escolas, o progresso nas ciências e, a sistematicidade do ensino cristão em nossas igrejas. Hoje, dia 31 de outubro, quando comemoramos o aniversário da Reforma Protestante (1517), devemos ser gratos a Deus por esse movimento teológico-espiritual que trouxe grandes contribuições para a sociedade em diversos níveis, a começar pelo aspecto teológico, que se irradia na vivência consciente e comprometida de nossa fé em todas as esferas de nossa existência.

São Paulo, 30 de outubro de 2018.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

A eloquência de um silêncio

Quando Daniel e seus amigos foram promovidos na Corte da Babilônia, houve o ciúme natural de outros líderes que, ainda que não ousassem desafiar a Daniel, preparam uma armadilha para Hananias, Misael e Azarias, sem dúvida para atingir a Daniel e enfraquecer o seu poder. Eles dizem ao que rei aqueles jovens judeus não adoravam, conforme o decreto real ao deus imperial (Dn 3.8-12). Há aqui 3 acusações: a) Não fizeram caso do rei; b) Não servem aos deuses do rei; c) Não adoram a imagem de ouro erguida pelo rei (Dn 3.12).

O rei então os chama e lhes faz a pergunta, mostrando-se profundamente arrogante, porém, conferindo-lhes assim, a oportunidade de retratação; o que de fato seria impossível: “É verdade, ó Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que vós não servis a meus deuses, nem adorais a imagem de ouro que levantei? Agora, pois, estai dispostos e, quando ouvirdes o som da trombeta, do pífaro, da cítara, da harpa, do saltério, da gaita de foles, prostrai-vos e adorai a imagem que fiz; porém, se não a adorardes, sereis, no mesmo instante, lançados na fornalha de fogo ardente. E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?” (Dn 3.14-15). “Responderam Sadraque, Mesaque e Abede-Nego ao rei: Ó Nabucodonosor, quanto a isto não necessitamos de te responder” (Dn 3.16).

O rei foi incapaz de dobrar os três jovens e estes, mesmo amarrados e atirados na fornalha (Dn 3.21), eram de fato os únicos livres, pois nem mesmo a ameaça de morte o fizeram dobrar-se a um ídolo pagão. Isto ilustra como a fidelidade nas pequenas questões pode tornar-se ainda mais vigorosa no momento de grandes desafios e provações. No silêncio desses jovens aprendemos algumas lições sobre a fé depositada na soberania de Deus.

1.Deus já demonstrara o seu poder

Ninguém conseguira interpretar o sonho do rei; somente Daniel o pôde pela misericórdia de Deus. O próprio rei reconhecera a Majestade de Deus (Dn 2.47). Agora, o rei vem com aquela pergunta desafiante: “E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?” (Dn 3.15). A esta pergunta não cabia resposta: Se o rei não se convencera pelo que já tinha visto era melhor se calar. O rei não teria mais palavras, teria uma prova definitiva.

Meus irmãos, o mesmo pode acontecer conosco: Deus tem demonstrado o seu poder, a sua misericórdia, temos sido alvos especiais do seu cuidado e providência, no entanto nos esquecemos disso tudo e, quando a situação se torna diferente, mais favorável a nós, pensamos que somos autossuficientes e ousamos desafiar a Deus de forma direta ou indireta. É necessário que não confundamos os recursos que Deus nos fornece com a nossa suposta suficiência. É preciso saber discernir bem a ocasião: a hora de falar e de calar.

Para aqueles jovens a soberania de Deus não era assunto para mero arrazoado, era questão de vida ou morte. Com Deus não se brinca; eles não estavam dispostos a simplesmente empreender um debate sobre a soberania de Deus após Ele mesmo ter dado provas suficientes do seu poder.

2. Deus age como lhe apraz

Sadraque, Mesaque e Abede-Nego não sabiam se sobreviveriam à condenação do rei, no entanto, tinham certeza de que Deus se assim o quisesse (poder ordenado), nada nem ninguém poderia impedir-lhe (poder absoluto). Estes jovens conheciam o seu Deus de forma que sabiam que Ele tinha poder absoluto para livrá-los; contudo, o que eles não poderiam fazer, e de fato não fizeram, era declarar levianamente que Deus os livraria.

Daqui tiramos um princípio de suma importância: Deus não satisfaz necessariamente as nossas expectativas. Ele cumpre sempre as suas promessas, não aquilo que imaginamos que Ele vá fazer. Notemos que estes homens estariam cheios de motivos para dizer que Deus os libertaria, afinal eles estavam naquela situação devido à sua fidelidade a Deus. Esses jovens não comprometeram a sua fé a um desejo natural de sobrevivência. Deus não lhes prometera preservá-lo naquela prova; portanto, eles não poderiam falar por Deus. O que eles sabiam é que o Deus sábio e soberano tinha poder para livrá-los. Se Ele assim o desejasse, nem a fornalha nem o rei poderiam impedi-lo; contudo, o seu poder não estaria condicionado a esta circunstância: libertá-los ou não. Deus sabe o que é melhor para nós ainda que não entendemos perfeitamente isso.

Precisamos aprender a confiar em Deus e nas suas promessas, no entanto, devemos também aprender a não confundir os nossos anseios com o propósito de Deus, ainda que aqueles sejam considerados por nós santos e justos.

Calvino conclui: “Sempre que for oportuno, Deus usará Seu poder e nos salvará; contudo, se Ele nos levar à morte, decidamos em nossos corações que não nos há nada melhor do que morrermos, e que é prejudicial o prolongamento de nossas vidas” (João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Edições Parakletos, 2000, v. 1, (Dn 3.23-25), p. 216).

Esses jovens demonstraram também que a acusação feita era parcialmente verdadeira; eles não serviriam nem adorariam a deuses estranhos, que nada são: “Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei. Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste” (Dn 3.17-18/Dn 3.12).

Eles sabiam que Deus age como determina agir, tendo plenos poderes para levar adiante a Sua determinação (Sl 115.3).

Deus por intermédio de Isaías, falando a respeito da futura destruição da babilônia, diz: “O meu conselho permanecerá de pé, farei toda da minha vontade” (Is 46.10).

Quais são os nossos sonhos, planos e projetos para os próximos dias, meses e anos? Como os idealizamos? É necessário que tenhamos em mente que se eles estiverem dentro do propósito de Deus nada poderá impedir-nos. Entretanto, devemos ter sempre em mente o “se”.

Deus, conforme o seu propósito, salvou os seus servos e, o próprio rei pagão Nabucodonosor, teve de admitir: “Não há outro Deus que possa livrar como este” (Dn 3.29). Nabucodonosor aprende que ele pode fazer decretos e governar o seu império, no entanto, o seu poder não é absoluto.

Considerações finais

Do mesmo modo, a nossa fidelidade a Deus não pode estar restrita àquilo que imaginamos que Deus deva fazer. A vida cristã caminha pela fé não simplesmente pelo que vê. Os jovens não necessitavam de um grande sinal maravilhoso para crerem em Deus. Diferentemente dos deuses pagãos, Deus pode dá a interpretação dos sonhos, resgatar o seu povo e libertá-los da fornalha. Se Ele não o fizer é porque tem outro propósito; cabe a nós confiar e aguardar em Deus o desenrolar de seu caminho providencial.

Há sempre o perigo de buscarmos justificativas para a nossa falta de fé ou para nossos pecados, atribuindo ao outro e no caso, a Deus, a responsabilidade de nossos erros. Adão tenta jogar a culpa sobre Eva pelo seu pecado; é claro que Eva cedeu primeiro, no entanto, a sua responsabilidade era para com Deus; o pecado de Eva não o obrigava a cometer a mesma transgressão. Esses homens não condicionaram a sua fé a preservação miraculosa de Deus, eles sabiam em Quem criam e, quanto a isso, não precisavam fazer nenhum discurso.

São Paulo, 29 de outubro de 2018.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

O poder absoluto e o poder ordenado de Deus

A soberania de Deus se manifesta no fato de sua operância em fazer tudo o que faz (poder ordenado) e mesmo aquilo que não realiza visto que não determinou fazê-lo (poder absoluto). O poder absoluto de Deus envolve o seu poder ordenado. E o poder ordenado delimita o poder absoluto pela própria decisão restritiva de Deus: quando Deus decide fazer o que faz, delimitou a sua ação de forma que não mais pode fazer o que não determinou fazer. O poder de Deus é sempre condizente com a totalidade de seus atributos.

Deus exerce o seu poder no cumprimento do que decretou e nas obras da providência. Aliás, as obras da providência consistem na execução temporal dos decretos eternos de Deus.

Contudo, o que Deus realiza não serve de limites para o seu poder. “Destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão”, adverte João Batista aos arrogantes descendentes da carne, mas, não da fé de Abraão (Mt 3.9).

Na criação e preservação temos uma magnífica amostragem da majestade de Deus e de seu poder, não, contudo, a totalidade. O poder absoluto de Deus transcende infinitamente o seu poder revelado. O seu poder é maior do que tudo o que criou. Todavia, o seu poder sempre será, em ato e potência, consoante com as suas eternas perfeições.

Portanto, quando oramos a Deus, não temos dúvida quanto ao seu poder para nos atender em nossas súplicas. Ele pode. Não sabemos apenas se isso faz parte do seu propósito santo, sábio e eterno. Por isso, o que fazemos é suplicar a Deus que confirme com poder e graça o seu propósito, e nos dê fé para aceitar a sua direção ainda que não entendamos adequadamente a sua vontade em todas as circunstâncias de nossa vida.

A Deus demos glória. Amém!

Maringá, 28 de outubro de 2018.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

O ensino de Deus e o fascínio dos ídolos do coração

Instruir-te-ei e te ensinarei o caminho que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te darei conselho” (Sl 32.8). Figuradamente a palavra traduzida por “ensinar” tem também o sentido de mostrar, indicar, apontar (Sl 25.8).

1) Davi diz que Deus em sua bondade aponta o caminho aos pecadores

Bom e reto é o SENHOR, por isso, aponta o caminho aos pecadores” (Sl 25.8/Sl 25.12). Diante de tantas e novas opções que se mostram querendo nos tornar cativos de suas percepções e ações, aprendemos que na realidade, o único caminho viável para aqueles que amam ao Senhor, confiam nos seus preceitos e querem agradá-lo, é seguir as suas instruções.

Em geral, os caminhos propostos pelos homens têm vários rótulos com múltiplos adjetivos que falam ao nosso coração encontrando eco em nossos desejos que cultivamos de poder e autonomia. Faz-se necessário que assumamos o compromisso diante de Deus de buscar a sua instrução. Deus tem prazer em nos orientar e guiar. A sua Palavra tem este propósito. É preciso que não duvidemos, mas, que atentemos para as suas instruções.

Ele aponta o caminho para nós. Este caminho poderá consistir, em muitas ocasiões, em um retorno, num recomeço e redirecionamento de nossas prioridades.

O caminho de Deus nunca será óbvio diante de uma sociedade materialista e pragmática.

2) O salmista pede a Deus que ensine o seu caminho

Ensina-me, SENHOR, o teu caminho e guia-me por vereda plana, por causa dos que me espreitam” (Sl 27.11).

Suplicar pela instrução de Deus significa que estamos desejosos não apenas de sabermos intelectualmente qual é o caminho, como se estivesses brincado com um GPS simulando um destino para verificar a rota, distância e tempo de chegada, sem que na realidade tencionemos seguir naquela direção. Não. Queremos saber o caminho porque queremos de fato fazer a sua vontade, ser realmente guiado pela sua Palavra. (Sl 86.11; 119.33,102).

Muitas vezes, o caminho denominado de prático e real, se constitui em uma justificativa para desobedecermos ao caminho proposto por Deus.

Nas mídias sociais, um indicativo de prestígio e relevância é o número de seguidores. Não importa quem sejam ou porque nos seguem. Os números é que geram influência e patrocínios dentro de um círculo vicioso onde a virtude se transforma em números. Na prática somos bastante pragmáticos, pouco nos preocupando com a essência da coisa.

O nosso caráter, valores e prioridades se revelam naquilo que seguimos, no que tomamos como norma e padrão de nosso pensar e fazer. Quais conselhos são por nós adotados? (Sl 26.1-3,11).

Deus deseja que conheçamos o seu caminho não simplesmente para exercitar a nossa curiosidade ou diletantismo intelectual, mas, para ser segui-lo (Sl 32.8).

3) Os ídolos nada podem ensinar e a sua própria existência, sem vida, moldada pelo homem, conduz-nos ao engano

O erro não nos ensina, porém, podemos aprender, ainda que dolorosamente com o erro a fim de não mais seguirmos aquele caminho. Satanás visa nos ensinar por meio das tentações, contudo, podemos e devemos aprender muito por meio delas, ainda que não as busquemos. A idolatria é por si só um engano. O seu caminho é o do vazio e da nulidade que nos conduz à frustração e ao desespero.

O profeta Hacabuque, então, pergunta: 18Que aproveita o ídolo, visto que o seu artífice o esculpiu? E a imagem de fundição, mestra de mentiras, para que o artífice confie na obra, fazendo ídolos mudos? 19 Ai daquele que diz à madeira: Acorda! E à pedra muda: Desperta! Pode o ídolo ensinar? Eis que está coberto de ouro e de prata, mas, no seu interior, não há fôlego nenhum” (Hc 2.18-19).

Algumas observações devem ser feitas: Os ídolos, por sua própria nulidade tem que ser construídos de forma externamente atraente: ouro e prata. O caminho de nosso coração, com muita frequência, passa pelos nossos olhos costumeiramente acríticos no que se refere ao pecado (Cf. Gn 3.6).

Na declaração do profeta podemos destacar também três assuntos interligados. Há uma questão ontológica: Os ídolos não são; a sua existência enquanto essência é nula. Temos uma questão epistemológica: Se eles nada são, não há conhecimento. Do nada, nada se conhece. O que podemos ter é vislumbres de minha fé que se materializa por meio do que tento criar e conferir significado. Há também a questão lógica: Se o ídolo não existe, exceto na mente de quem o fez, portanto, não tem vida, ele não pode ser conhecido. O conhecido é apenas a matéria que compus. Portanto, ele nada pode fazer para me instruir, socorrer e consolar.

A idolatria começa em nosso coração por meio daquilo que cultuamos, temos como importante e, por isso, torna-se determinante de nosso culto. O que cultuamos reflete nossos valores e prioridades. A idolatria é pródiga na condução de uma estrutura de pensamento pecaminosa e viciada. Isso é o que resta ao homem sem referências permanentes. A negação de Deus, implica necessariamente na criação de um deus que lhe dê sentido à vida.

Muitas vezes, no entanto, seguimos aos deuses de nossa cultura e de nossa mente. Toda cultura e cada época cria e molda seus deuses conforme seus valores e desejos. Cultuamos o que nos fascina. Assim, buscamos de forma estratégica o melhor caminho para atingirmos os nossos objetivos, enaltecendo, colocando no altar os modelos que encarnam o que almejamos. A idolatria assume várias formas. Após a Queda os ídolos estão dentro de nossos corações ávidos pelos seus próprios interesses e a intenção imperativa de satisfazê-los. Logo, o meu desejo é o meu “deus”. Portanto, é preciso que arranquemos os ídolos de nosso coração, tão pródigo em suas promessas de satisfação.

Quando ignoramos a Deus e rejeitamos seu Filho, já não sabemos bem quem somos; daí uma compreensão errada da realidade e uma postura equivocada no mundo, fornecida pela invenção de uma nova divindade criada à nossa imagem e semelhança.

No entanto, Deus pela sua Palavra tem continuamente apontado o caminho para nós. Nas Escrituras vemos estampadas as consequências desastrosas e devastadoras da desobediência e os efeitos abençoadores da obediência aos conselhos de Deus.

A Palavra do Senhor permanece: 11No caminho da sabedoria, te ensinei e pelas veredas da retidão te fiz andar. 12Em andando por elas, não se embaraçarão os teus passos; se correres, não tropeçarás. 13 Retém a instrução e não a largues; guarda-a, porque ela é a tua vida” (Pv 4.11-13).

Atentemos para o ensino do Senhor, deixemos os ídolos de nossa cultura que, por vezes, tornam-se onipresentes em nossos corações. No dia 28 votemos com discernimento e submissão.

São Paulo, 23 de outubro de 2018.
Rev. Hermisten M.P. Costa