Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (44)

O piedoso Asa, rei de Judá, em situação difícil por causa das guerras constantes contra Israel, compra a lealdade de Ben-Hadade, rei da Síria, em oposição a Baasa, rei de Israel:

 

19 Haja aliança entre mim e ti, como houve entre meu pai e teu pai. Eis que te mando um presente (dx;v;) (shahad), prata e ouro; vai e anula a tua aliança com Baasa, rei de Israel, para que se retire de mim.  20 Ben-Hadade deu ouvidos ao rei Asa e enviou os capitães dos seus exércitos contra as cidades de Israel; e feriu a Ijom, a Dã, a Abel-Bete-Maaca e todo o distrito de Quinerete, com toda a terra de Naftali (1Rs15.19-20).

 

Do mesmo modo procedeu o pragmático Acaz em relação à Tiglate-Pileser, rei da Assíria, quando se viu em apuros diante da Síria e de Israel:

 

7 Acaz enviou mensageiros a Tiglate-Pileser, rei da Assíria, dizendo: Eu sou teu servo e teu filho; sobe e livra-me do poder do rei da Síria e do poder do rei de Israel, que se levantam contra mim.  8 Tomou Acaz a prata e o ouro que se acharam na Casa do SENHOR e nos tesouros da casa do rei e mandou de presente (dx;v;) (shahad) ao rei da Assíria (2Rs 16.7-8).

 

O homem perverso tem prazer em torcer o juízo. Ele não se compraz no que é direito: “O perverso aceita suborno (dx;v;) (shahad) secretamente, para perverter as veredas da justiça” (Pv 17.23).

 

Por meio de Isaías e Miquéias, Deus demonstra como no 8º século a.C, a moralidade tornara-se baixa em Israel, estando os príncipes, juízes e sacerdotes, todos agindo por interesses, corrompendo a prática da justiça:

 

Os teus príncipes são rebeldes e companheiros de ladrões; cada um deles ama o suborno (dx;v;) (shahad) e corre atrás de recompensas (~ynImol.v;) (shalmon) (suborno).[1] Não defendem o direito do órfão, e não chega perante eles a causa das viúvas (Is 1.23/Is 5.23).

 

Os líderes além de só pensarem nos seus interesses, blasfemavam o nome de Deus, demonstrando nenhum respeito para com Ele e à Sua Lei. Todo o sistema religioso e jurídico estava corrompido. Por intermédio de Miquéias Deus os descreve:

 

Os seus cabeças dão as sentenças por suborno (dx;v;) (shahad), os seus sacerdotes ensinam por interesse, e os seus profetas adivinham por dinheiro; e ainda se encostam ao SENHOR, dizendo: Não está o SENHOR no meio de nós? Nenhum mal nos sobrevirá (Mq 3.11).

 

Aqui Deus está anunciando o cativeiro que viria se o povo não se arrependesse.

 

O povo foi para o cativeiro:

 

11O rei da Assíria transportou a Israel para a Assíria e o fez habitar em Hala, junto a Habor e ao rio Gozã, e nas cidades dos medos;  12 porquanto não obedeceram à voz do SENHOR, seu Deus; antes, violaram a sua aliança e tudo quanto Moisés, servo do SENHOR, tinha ordenado; não o ouviram, nem o fizeram  (2Rs 18.11-12).

 

A prática do suborno confere ao homem a sensação de ser senhor da história. Na pressuposição de que todos têm seu preço, posso reger o meu destino. Assim, raciocina: O importante é descobrir o preço de cada um. Desse modo, meus recursos se constituem em meu Deus por meio do qual manipulo quaisquer situações adversas. O meu poder de persuasão, sedução, barganha e compra é a minha lei. A soberania de Deus é banida; o seu trono e cetro me pertencem. Desta forma, pensa poder dizer: “As minhas mãos dirigem meu destino”. Fútil e perigosa ilusão. Deus continua no controle. Vê todas as coisas, e não se agrada dessa prática.

 

O que Deus condena está tão bem sedimentado e, às vezes, até mesmo legalizado em nossa sociedade que nós já até consideramos tais práticas em nossos planejamentos e expectativas. Já ouviram falar em “custo Brasil”?

 

Stott (1921-2011) escreve: “A cultura do mundo e a contracultura de Cristo estão em total desarmonia uma com a outra. Resumindo, Jesus parabeniza aqueles que o mundo mais despreza, e chama de ‘bem aventurados’ aqueles que o mundo rejeita”.[2]

 

De fato, o caminho do mal sempre parece ser mais eficaz e rápido. Ele tende a nos fascinar pelo resultado mais fácil e imediatamente compensador. Tendemos a associar o que funciona com a verdade, nos esquecendo de que a verdade funciona, porém, nem tudo que funciona é verdadeiro.

 

No entanto, Deus nos propõe caminhos de vida, de integridade, honestidade e princípios (Is 33.15).[3] O sucesso não pode ser considerado apenas à luz do tempo breve ou longo, antes, a partir da eternidade.

 

A instrução preventiva de Deus contra tais tentações e, ao mesmo tempo, como expressão de confiança e amadurecimento na fé, é-nos transmitida por Jesus Cristo:

 

31 Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos?  32 Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; 33 buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas (Mt 6.31-33).

 

Deus nos fornece princípios que permanecem. Contudo, se tornarão plenamente evidentes na eternidade. Se quisermos habitar na casa do Senhor sigamos as normas, os princípios e os mandamentos deste mesmo Senhor. O usufruir da graça sem a busca da obediência é menosprezo para com a obediência de Cristo (2Co 6.1; Ef 2.8-10; Fp 2.5-8).[4] “Se desejamos que a obediência de Cristo nos seja proveitosa, então devemos imitá-la”, conclui Calvino.[5]

 

Retomando agora ao diaconato, vemos que no Novo Testamento Paulo preceitua: “Semelhantemente, quanto a diáconos, é necessário que sejam respeitáveis, de uma só palavra, não inclinados a muito vinho, não cobiçosos de sórdida ganância (Mh\ ai)sxrokerdh/j) (1Tm 3.8).

 

Mh\ ai)sxrokerdh/j[6] Tt 1.7/1Pe 5.2.[7] “Cobiçoso de lucro vergonhoso”; isto é, alguém que lucra desonestamente, adaptando, modificando o ensinamento aos interesses de seus ouvintes a fim de ganhar dinheiro deles. Também pode se referir ao envolvimento em negócios escusos.

 

O lucro em si não é pecaminoso; contudo, ele pode se tornar vergonhoso se a sua obtenção passar a ser o nosso objetivo primário, em detrimento da glória de Deus. Pedro contrapõe este sentimento à boa vontade (proqu/moj * 1Pe 5.2), que denota um zelo e entusiasmo devotados.

 

A ganância pode corromper qualquer ideal, por mais nobre que seja. Isso inclui, obviamente, o exercício de nosso ofício. As Escrituras nos advertem quanto a isso.

 

Os diáconos gozariam de respeito e admiração no seio da igreja; teria informações privilegiadas sob assuntos espirituais e, especialmente, materiais da igreja, incluindo finanças. Conheceria também a intimidade da vida de muitos de seus irmãos. Tudo isso junto, mixado em um coração ganancioso, lhe propiciaria, se caísse nessa tentação, atuar no tráfico de bens, benefícios e influências, esquecendo-se assim, da nobreza de seu ofício em socorrer os necessitados. Isso, obviamente, se tornar em algo perigo para a igreja em sua caminhada como povo de Deus. Por isso, precisamos olhar com seriedade esse princípio.

 

Não nos esqueçamos do princípio bíblico expresso em alguns textos, tais como 1Tm 6.10; Sl 62.10; Ec 5.10[8] e, do exemplo negativo já existente entre os falsos sacerdotes e profetas no Antigo Testamento e judaizantes contemporâneos do apóstolo (Tt 1.10,11/Mq 3.5,11).[9]

 

 

Maringá, 16 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] Esta forma só ocorre aqui.

[2]John R.W. Stott, A Mensagem do Sermão do Monte, 3. ed. São Paulo: ABU., 1985, p. 47.

[3]15 O que anda em justiça e fala o que é reto; o que despreza o ganho de opressão; o que, com um gesto de mãos, recusa aceitar suborno (dx;v;) (shahad); o que tapa os ouvidos, para não ouvir falar de homicídios, e fecha os olhos, para não ver o mal, 16 este habitará nas alturas; as fortalezas das rochas serão o seu alto refúgio, o seu pão lhe será dado, as suas águas serão certas(Is 33.15-16).

[4]E nós, na qualidade de cooperadores com ele, também vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus” (2Co 6.1). 8 Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; 9não de obras, para que ninguém se glorie. 10Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.8-10). 5Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, 6pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; 7antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, 8a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.5-8).

[5] João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 5.9), p. 138.

[6]Ai)sxro/j = indecoroso, torpe, indecente. * Tt 1.11 & ke/rdoj = lucro, ganho. “Não tenha sórdida cobiça por lucro”. *1Tm 3.8; Tt 1.7.

[7] A palavra usada por Pedro, só ocorre aqui: ai)sxrokerdw=j, que significa “lucro vergonhoso”, “ambiciosamente”. Ela é da mesma raiz de ai)sxrokerdh/j.

[8] “Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores” (1Tm 6.10). “Não confieis naquilo que extorquis, nem vos vanglorieis na rapina; se as vossas riquezas prosperam, não ponhais nelas o coração” (Sl 62.10). “Quem ama o dinheiro jamais dele se farta; e quem ama a abundância nunca se farta da renda; também isto é vaidade” (Ec 5.10).

[9]10Porque existem muitos insubordinados, palradores frívolos e enganadores, especialmente os da circuncisão. 11É preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância” (Tt 1.10-11).5Assim diz o SENHOR acerca dos profetas que fazem errar o meu povo e que clamam: Paz, quando têm o que mastigar, mas apregoam guerra santa contra aqueles que nada lhes metem na boca. (…) 11 Os seus cabeças dão as sentenças por suborno, os seus sacerdotes ensinam por interesse, e os seus profetas adivinham por dinheiro; e ainda se encostam ao SENHOR, dizendo: Não está o SENHOR no meio de nós? Nenhum mal nos sobrevirá” (Mq 3.5,11).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (43)

5.9. “Não cobiçosos de sórdida ganância”

 

 No Salmo 15 – quando Deus estabelece condições para habitarmos para sempre em sua companhia – entre os princípios, prescreve: “O que não empresta o seu dinheiro com usura, nem aceita suborno (dx;v;) (shahad) (= presente, dádiva, incentivo) contra o inocente. Quem deste modo procede não será jamais abalado” (Sl 15.5).[1]

 

O suborno, uma prática tão comum na antiguidade,[2] não sendo comum leis contra esse costume de “reciprocidade”,[3] recebe tratamento diferente nas páginas do Antigo Testamento em diversos lugares.

 

O fundamento desta perspectiva jaz em Deus, Aquele que é justo e reto, não sendo subornável:

 

Pois o SENHOR, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno  (dx;v;) (shahad); que faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestes (Dt 10.17-18).

 

Josafá quando nomeia juízes em Judá, os instrui mostrando que eles eram agentes de Deus, devendo, portanto, obedecer ao padrão de Deus. Então lhes diz:

 

Vede o que fazeis, porque não julgais da parte do homem, e sim da parte do SENHOR, e, no julgardes, ele está convosco. Agora, pois, seja o temor do SENHOR convosco; tomai cuidado e fazei-o, porque não há no SENHOR, nosso Deus, injustiça, nem parcialidade, nem aceita ele suborno (dx;v;) (shahad) (2Cr 19.6-7).

 

O fato é que os princípios éticos de um povo nunca estarão em um nível superior ao da sua religião. A religião como produto cultural expressará sempre os limites subjetivos do real e, consequentemente, os anseios de um povo que se materializarão em sua forma de construir o seu mundo real. A cultura é um forte reflexo desses aspectos, tendo a religião como forte ingrediente norteador e fomentador.[4]

 

A fé cristã, no entanto, parte de um Deus transcendente, pessoal e que se revela. O Deus que fala e age, sendo o seu agir uma forma do seu falar. Fomos criados à sua imagem.  Deus cria do nada. Nós, do nada, nada criamos, contudo remodelamos as formas atribuindo sentido imaginativo e imitativo à Criação, fazendo o que é-nos próprio na condição de imagem.[5]  O nosso trabalho encontra o seu modelo em Deus, aquele que o inspira pelo seu testemunho e ensino, colocando em nós o senso de beleza e o apelo estético: 9Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. (…) 11 porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há…” (Êx 20.9,11).[6]

 

Deus é santo. Por meio de sua Palavra Ele exige de seu povo santidade.[7] A justiça é uma das expressões da santidade. Por isso, Deus instrui aos juízes a fim de que não fossem passionais e interesseiros na formulação de seus juízos, o que os impediriam de enxergar com clareza a causa proposta.

 

O suborno corrompe o que o homem tem de mais íntimo, sendo a sede de sua razão, emoção e vontade: seu coração: “Verdadeiramente, a opressão faz endoidecer até o sábio, e o suborno  (hn”T’m;) (mattanah) (dádiva, presente)[8] corrompe o coração” (Ec 7.7).

 

O suborno perverte a própria essência da prática da justiça, fazendo com o que o subornado, avance ainda mais, elaborando discursos para justificar e legitimar os seus atos: “Também suborno (dx;v;) (shahad) não aceitarás, porque o suborno (dx;v;) (shahad) cega até o perspicaz e perverte as palavras dos justos” (Ex 23.8). De fato, quão difícil é julgar a matéria em si, sem outros interesses e “estado de espírito”.

 

O presente dado a quem julga pode ser um elemento extremamente eloquente a respeito da culpabilidade de quem o oferece; do baixo conceito sustentado a respeito de quem julga e, também, a ingênua vulnerabilidade de quem o recebe.

 

Em Deuteronômio a mesma instrução de Êxodo é repetida: “Não torcerás a justiça, não farás acepção de pessoas, nem tomarás suborno (dx;v;) (shahad); porquanto o suborno (dx;v;) (shahad) cega os olhos dos sábios e subverte a causa dos justos” (Dt 16.19). Notemos que sempre os prejudicados são os “justos”, o “inocente”, o “órfão” e as “viúvas”, símbolos de pobreza e desamparo. Não há suborno para o que é justo ou para desfavorecer o favorecido.

 

Os filhos de Samuel que também foram constituídos juízes, são acusados deste pecado, ignorando a lei de Deus e a integridade de seu pai tão bem conhecida: “Porém seus filhos não andaram pelos caminhos dele; antes, se inclinaram à avareza, e aceitaram subornos (dx;v;) (shahad), e perverteram o direito” (1Sm 8.3).

 

Samuel teve que ouvir quieto, com tristeza e frustração os anciãos se aproveitando das circunstâncias, lhe dizerem: “Vê, já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações” (1Sm 8.5).

 

Deus atende  ao pedido pecaminoso do povo (1Sm 8.7-9,22; 10.17-24/Os 13.9-11).  Após uma batalha vitoriosa liderada por Saul contra os arrogantes amonitas, num clima de grande alegria, Saul é aclamado o primeiro rei de Israel.

 

Na despedida de Samuel, depois de ter conduzido a Israel durante tantos anos, corajosa e serenamente, diz ao povo:

 

Eis que ouvi a vossa voz em tudo quanto me dissestes e constituí sobre vós um rei.  2 Agora, pois, eis que tendes o rei à vossa frente. Já envelheci e estou cheio de cãs, e meus filhos estão convosco; o meu procedimento esteve diante de vós desde a minha mocidade até ao dia de hoje.  3 Eis-me aqui, testemunhai contra mim perante o SENHOR e perante o seu ungido: de quem tomei o boi? De quem tomei o jumento? A quem defraudei? A quem oprimi? E das mãos de quem aceitei suborno  (rp,Ko) (kopher) (presente para obter algum favor)[9] para encobrir com ele os meus olhos? E vo-lo restituirei (1Sm 12.1-3).

 

A resposta do povo atestou a absoluta integridade de Samuel: “Em nada nos defraudaste, nem nos oprimiste, nem tomaste coisa alguma das mãos de ninguém” (1Sm 12.4). Em Samuel (“nome de Deus”), neste juiz-sacerdote-profeta, temos um exemplo magnífico de integridade reconhecido ao longo das Escrituras (Jr 15.1; At 3.24; 13.20/1Sm 3.20;13.11-13).

 

No entanto, o ato de subornar é bastante prático e eficaz em seus objetivos pecaminosos: “Pedra mágica é o suborno (dx;v;) (shahad) aos olhos de quem o dá, e para onde quer que se volte terá seu proveito” (Pv 17.8).

 

 

Maringá, 16 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 


[1] Veja-se: Hermisten M.P. Costa, Vivendo com integridade, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2016.

[2]Cf. Victor P. Hamilton, Shohad: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1542-1543; Michael A. Grisanti; Clinton McCann, Shd: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 4, p. 75.

[3] Expressão usada por Noonan, Jr. (Veja-se: John T. Noonan, Jr., Subornos, Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 1989, p. 3ss.).

[4] “A cultura é determinada pela religião” (Henry R. Van Til, O conceito calvinista de cultura, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 9). “Apesar da idolatria ser a raiz contaminada que eventualmente corrompe a cultura, o problema é, essencialmente, o pecado, e não a cultura, a qual simplesmente carrega as marcas do pecado” (Grant Horner, Glorificando a Deus na Cultura Literária e Artística. In: John  F. MacArthur, Jr., ed. et. al. Pense Biblicamente!: Recuperando a visão cristã do mundo. São Paulo: Hagnos, 2005, p. 504).

[5] As palavras imagem, imaginativo e imitar têm uma raiz comum.

[6] Veja-se: Leland Ryken, Redeeming the Time: a Christian Approach to work and Leisure, Grand Rapids, MI.: Baker Book, 1995, p. 159ss.

[7]“A regra de nossa santidade é a lei de Deus” (J.I. Packer, O Plano de Deus para Você, 2. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2005, p. 155).

[8]Considerando o contexto, a tradução da palavra por “suborno” é adequada.

[9] Esta palavra pode ser empregada como sinônimo de (dx;v;) (shahad). Mais tarde, no oitavo século a.C., por intermédio de Amós, Deus acusa o povo de praticar diversos pecados: “Porque sei serem muitas as vossas transgressões e graves os vossos pecados; afligis o justo, tomais suborno (rp,Ko) (kopher) e rejeitais os necessitados na porta” (Am 5.12). (Para um estudo da palavra, vejam-se: B. Lang, Kipper: In: G. Johannes Botterweck; Helmer Ringgren, eds. Theological Dictionary of the Old Testament, Grand Rapids, MI.: Eerdamans, 1995, v. 7, p. 301-303; J. Clinton McCann, Koper: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 2, p. 711-712).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (42)

5.6. Ser respeitável

 Semelhantemente, quanto a diáconos, é necessário que sejam respeitáveis (semno/j)” (1Tm 3.8).

Semno/j (honestidade, dignidade, gravidade, seriedade, digno de respeito). (*Fp 4.8; 1Tm 3.8,11; Tt 2.2). Na literatura clássica a palavra era empregada para os deuses e as coisas divinas demonstrando a sua magnificência e majestade.

O diácono deve ter um procedimento sério, nobre, digno de todo respeito e admiração, como resultado da submissão dos seus sentimentos e pensamentos a Deus. A palavra grega confere o sentido de graça, dignidade e honradez. A respeitabilidade aqui exigida combina de forma bela e harmoniosa a simplicidade com a nobre honradez.[1]

Notemos que não seria o ofício que lhe conferiria isso. A respeitabilidade deve ser uma característica daqueles irmãos que a igreja deveria eleger. Por esse homem ter essa visível dignidade demonstrada em sua vida ao longo dos anos, é que poderia ser considerado como um candidato ao diaconato. Afinal, espera-se que o diácono exerça o seu ofício com honradez em todas as suas demandas.

Na literatura do segundo século podemos perceber que esse princípio continuou mantido e, devido à sua importância, recomendado.

Inácio (30-110 AD), na referida carta aos Tralianos, diz que todos deverão “respeitar os diáconos como a Jesus Cristo”.[2] Em outro lugar, ordena: “Acatem os diáconos, como à lei de Deus”.[3]

No Didaquê (c. 120 AD),[4] lemos:

 

Elegei, então, para vós mesmos bispos e diáconos dignos do Senhor, varões mansos e não amantes de dinheiro, verdadeiros e aprovados, porque também eles vos ministram os serviços dos profetas e mestres. Não os desprezeis, pois, porque são dignos de igual honra, como os profetas e mestres.[5]

 

5.7. Ter uma só palavra

Relacionando o texto de Atos quando o ofício de diácono foi instituído, com as prescrições de Paulo feitas mais tarde, para o diaconato, encontramos novos preceitos.

“Semelhantemente, quanto a diáconos, é necessário que sejam respeitáveis, de uma só palavra (mh\ di/logoj)(1Tm 3.8).

 

A construção é negativa mh\ di/logoj, só ocorrendo aqui. A ideia é de que o diácono não deve ter “duas palavras”.

A expressão pode ser entendida de três formas não excludentes:

 

a) O diácono não deve ser um difamador, levando e trazendo casos dos lares onde visita (não deve ser mexeriqueiro);

b) Não deve ser alguém que pense uma coisa e diga outra;

c) Não deve ser alguém que diz uma coisa para uma pessoa e algo diferente para outra, falando de acordo com o interesse do seu interlocutor conforme as circunstâncias.

 

A respeitabilidade dos diáconos se evidenciaria de modo especial em sua palavra digna, correta, de acordo com a Escritura, sabendo também manter discrição a respeito dos problemas aos quais teve acesso.

 

O seu ofício propiciaria ocasião de tomar conhecimento de problemas delicados de famílias: crises financeiras, pecados encobertos, frieza espiritual, desavenças matrimoniais, familiares, carências, etc. Sem dúvida, ele poderia ajudar  a essas famílias diretamente (socorrendo materialmente, buscando recursos, aconselhando, orando) ou, indiretamente por meio de uma conversa com o pastor ou presbíteros da igreja, os atualizando quanto à necessidades percebidas  que ultrapassavam às suas competências ou possibilidades, bem como relatando qual foi o seu procedimento.

 

O fato, é que conforme o diácono se tornasse mais efetivo em seu ofício, angariaria maior confiança por parte dos membros da igreja, o que o levaria a conhecer particularidades de muitas famílias. Por isso mesmo, precisaria ter bastante prudência no falar e se conduzir, não se tornando, por vezes, até involuntariamente, um socializador de informações privadas.

 

5.8. Não deve ser inclinado a muito vinho

  

“Semelhantemente, quanto a diáconos, é necessário que sejam respeitáveis, de uma só palavra, não inclinados a muito vinho (1Tm 3.8).

 

Aqui devem ser observadas algumas particularidades: a) A questão cultural; b) A provisão inadequada de água; c) A atenuação do vinho com água no período romano, até mesmo por uma questão de paladar[6] (Cf. 2Mac 15.39);[7] d) Essa orientação de Paulo indica o perigo da embriaguez, ao que parece, existente mesmo entre os crentes (1Co 11.21).

 

Sobre o diácono pesava grande responsabilidade. Conforme mencionamos, ele teria acesso aos lares, tomaria conhecimento de problemas íntimos e, também teria de administrar os bens da Igreja dedicados aos necessitados. Como confiar num bêbado? Ou, aliando ao requisito anterior, como ter respeitabilidade se corresse entre os fiéis a fama de que dito diácono “é ótima pessoa quando está sóbrio, porém, quando bebe, é um problema…”. Os casos seriam inúmeros a respeito de pessoas que em determinada situação contaram algo para ele e tiveram uma má experiência porque perceberam que naquele dia ele estaria de “fogo”. As situações adversas são por demais óbvias para que gastemos mais tempo com isso.

 

Notemos que Paulo não exige total abstinência. Ele fala de moderação (1Tm 3.3; Tt 1.7). Todavia, cremos que a abstinência seja recomendável (Rm 14.21/1Ts 5.22).

 

A bebedice é uma das características do modo gentio de viver (1Pe 4.3) como obra da carne (Gl 5.21). Os cristãos não podem ser confundidos com os pagãos em seu comportamento.

 

Maringá, 16 de agosto de 2019.

Rev.  Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 


[1] Vejam-se: Richard C. Trench, Synonyms of the New Testament, 7. ed. rev. enlar. London: Macmillan and Co. 1871, § xcii, p. 325-329; William Barclay, Palavras Chaves do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1988 (reimpressão), p. 178-181.

[2]Inácio, Carta aos Tralianos, 3. In: Cartas de Santo Inácio de Antioquia, p. 58.

[3]Inácio, Carta aos Esmirnenses, 8. In: Cartas de Santo Inácio de Antioquia, p. 81.

[4]Obra amplamente aceita nos primeiros séculos da Era Cristã devido a sua pretensão – não verdadeira –, de ter sido redigida pelos apóstolos, daí o seu nome completo: Didaquê: Ensino do Senhor Através dos Doze Apóstolos.

[5] Didaquê, XV. In: J.G. Salvador, ed. O Didaquê, São Paulo: Imprensa Metodista, 1957, p. 76.

[6] Cf. A.C. Schultz, Vinho e Bebida forte: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 5, p. 1140.

[7] Como bem sabemos, os livros de Macabeus não são “canônicos”; isto é, não fazem parte dos 66 Livros considerados inspirados por Deus. No entanto, eles têm um valor histórico-informativo, nos ajudando a entender melhor aspectos da história dos judeus no segundo século a.C. O autor conclui assim o livro: “De fato, como é nocivo beber somente vinho, ou somente água, ao passo que o vinho misturado à água é agradável e causa um prazer delicioso” (2Mac 15.39).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (41)

A sabedoria necessária no exercício do diaconato

 

Retornando ao nosso ponto, devemos enfatizar que essa sabedoria tem pouco ou nada a ver com conhecimento meramente intelectual. Aliás, o conhecimento sem sabedoria, pode ser extremamente perigoso. Hoje temos um acesso inimaginável às informações que, jamais poderíamos pensar há alguns anos. No entanto, nem por isso, temos sido mais sábios no uso desses recursos. A sabedoria concedida por Deus nos permite ir além da mera aparência discernindo as estruturas ocultas do que se mostra apenas superficialmente.

 

Os diáconos precisariam ter a sabedoria concedida pelo Espírito para saberem como resolver os problemas que já existiam e outros novos, que não tardariam a aparecer. A fonte da sabedoria está em Deus (Rm 11.33; 1Co 1.21). Os diáconos precisariam ter a sabedoria do alto (Tg 1.5-6/Ef 1.17)[1] para seguirem os melhores meios para atingir os fins mais nobres de sua vocação. Somente o Deus perfeitamente sábio pode lhes conceder esta sabedoria.[2]

 

Sem esta sabedoria possivelmente a sua constituição seria um problema que sobrecarregaria ainda mais os apóstolos.

 

A delegação de poderes que visa facilitar o processo dando-lhe maior fluidez e eficiência. Quando isso é concedido a um grupo imaturo espiritualmente, arrogante e sem discernimento, pode complicar ainda mais a resolução dos problemas apontados. A precipitação na eleição de oficiais, certamente contribuirá para maiores dificuldades no seio da igreja. É preciso cautela, oração e submissão aos preceitos de Deus.

 

Se os diáconos não tivessem certa autonomia para resolver as questões, valendo-se da sabedoria divina, seria, na realidade, mais um peso do que ajuda. Se, por exemplo, houvesse entre eles disputas e partidarismo, a igreja estaria já no seu início organizacional em sérias dificuldades.

 

Isto serve de alerta para nós. É melhor não promover a eleição precipitada de diáconos, presbíteros ou de quem quer se seja, se não tivermos homens capazes e dispostos a submeterem os seus corações e mentes a Deus.

 

Também, de forma geral, contra uma prática não tão estranha em alguns grupos, não devemos oferecer cargos a pessoas apenas para “segurá-las” na igreja. As consequências de tal comportamento podem ser muito graves para o Reino de Deus.

 

Considerando que todo o conhecimento e sabedoria residem em Cristo de forma plena (Mt 12.42; 1Co 1.24;30; Cl 2.2-3),[3] o diácono, como todo crente, deve se tornar um assíduo leitor das Escrituras, rogando a Deus o discernimento para entender as sábias palavras do Senhor e poder aplicá-las às situações concretas de sua vida e ofício, seguindo as pegadas de Cristo.[4]

 

A obediência é a fé manifestada. A fé é a obediência oculta. Nada que seja circunstancialmente bom e agradável pode ser essencialmente bom se consistir em atitudes e comportamentos que desobedeçam a Deus. A sabedoria, portanto, consiste em obedecer a Deus.

 

Ainda que Deus em sua revelação seja a única fonte de nosso conhecimento: toda verdade parte dele.[5] As Escrituras, como Revelação Especial, não se constituem na única fonte de nosso conhecimento – afinal a Revelação Geral também parte de Deus e é tão infalível quanto aquela[6] – porém, elas conferem sentido e corrigem os nossos conhecimentos que além de limitados e parciais, tendem a ser mal utilizados pelo fato de sermos pecadores e tendermos a querer ter um conhecimento autônomo.[7] Obedecer as Escrituras sempre é um ato de fé em meio a outras cosmovisões concorrentes que querem nos dizer que as suas percepções e conclusões estão certas e que a Palavra de Deus está errada.[8]

 

Somente pela Escritura podemos ter o conhecimento adequado de todas as coisas. A Escritura não é um manual de ciência, contudo nela encontramos o sentido de todas as coisas. Sem as Escrituras o nosso conhecimento por mais completo que seja será sempre inadequado.

 

Van Til (1895-1987) escreveu com pertinência:

 

Não há nada neste universo sobre o qual os seres humanos possam ter informação completa e verdadeira, exceto se levarem a Bíblia em consideração. Não queremos dizer, é claro, que alguém deve recorrer à Bíblia, em vez de ir ao laboratório, se pretende estudar a anatomia de uma serpente. Mas se alguém vai apenas ao laboratório, e não também à Bíblia, não terá uma interpretação correta, ou mesmo verdadeira, acerca da serpente.[9]

 

O salmista diz que “O temor (ha’r>yI) (yir’ah) do SENHOR é o princípio da sabedoria; revelam prudência todos os que o praticam. O seu louvor permanece para sempre” (Sl 111.10). O temor o Senhor (Sl 19.9) ressalta a resposta humana propiciada pela Palavra.[10] Ele é adquirido mediante o estudo piedoso da Lei. O objetivo de Deus por meio de sua Palavra é que sejamos conduzidos ao seu temor em obediência e amor[11] (Dt 31.11-12).[12]  Devemos, não simplesmente temer o castigo de Deus, antes temer pecar contra Deus, o nosso Santo e Majestoso Senhor.

 

Portanto, o princípio da sabedoria está em temer a Deus. A partir daí, todas as coisas ganham sentido dentro de sua realidade própria conferida e sustentada pelo próprio Deus. Veith, Jr., escreveu de forma inspiradora: “Temer a Deus não é o fim da sabedoria, mas o começo. Uma pessoa que teme a Deus pode se abrir para as alturas vastas e vertiginosas do conhecimento. Aqueles que ‘praticam’ esse temor de Deus podem ter um ‘bom entendimento’ de tudo”.[13]

 

O diácono deve ser um homem temente a Deus. Ele atenta para a sua Palavra e busca “ciência na Palavra do Senhor”. Esta é a sabedoria bíblica.

 

Destaco mais um ponto: O diaconato não é um estágio para o presbiterato. São ofícios diferentes. Os diáconos precisam já terem demonstrado em sua vida, a sabedoria própria do Espírito de Deus. Certamente, no exercício de seu ofício ele será moldado pela graça. Porém, as Escrituras prescrevem a sabedoria do alto, que já deve ter sido demonstrada na vida do diácono, como sendo um critério necessário para o exercício desse importante ofício.

 

Maringá, 09 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]5Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida. 6Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; pois o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento” (Tg 1.5-6). “Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele” (Ef 1.17).

[2]“A sabedoria de Deus é Sua capacidade de selecionar os melhores meios para a obtenção do alvo mais elevado” (William Hendriksen, Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, (Rm 11.33), p. 510). Do mesmo modo Murray: “A sabedoria fala sobre o arranjo e a adaptação de todas as coisas para o cumprimento de seus santos propósitos” (John Murray, Romanos, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2003, (Rm 11.33-36), p. 469).

[3]“A rainha do Sul (…) veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. E eis aqui está quem é maior do que Salomão” (Mt 12.42). 24Mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. (…)  30Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (1Co 1.14,30). 2Para que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor, e eles tenham toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo,  3 em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos” (Cl 2.2-3).

[4] “Segui-lo, portanto, é a única maneira sábia de viver. Nós florescemos como seres humanos quando seguimos o caminho de Deus, não nossas próprias invenções” (Vern S. Poythress, O Senhorio de Cristo: servindo o nosso Senhor o tempo todo, com toda a vida e de todo o nosso coração, Brasília, DF.: Monergismo, 2019, p. 44).

[5]“Visto que toda verdade procede de Deus, se algum ímpio disser algo verdadeiro, não devemos rejeitá-lo, porquanto o mesmo procede de Deus” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, (Tt 1.12), p. 318).

[6]“A verdade de Deus é única” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos,1998, (1Tm 1.3), p. 28).

[7]Referindo-se à tentação de nossos primeiros pais, escreveu Tripp: “A serpente estava tentando fazer com que Eva adotasse uma sabedoria autônoma, isto é, sabedoria que já não dependeria de Deus como sua fonte. Em lugar de a admiração por Deus produzir nela uma submissão à sábia vontade dele, a admiração pela sabedoria independente produziu nela rebeldia conta a vontade de Deus” (P. Tripp, Admiração, São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 74).

[8] “O temor de Deus, pois, é muitíssimo raro; e por essa conta o mundo, em sua maioria, continua destituído do Espírito de Conselho e sabedoria” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 2002, v. 1, (Sl 25.12), p. 553).

[9]Cornelius Van Til, Apologética Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 21.

[10]Cf. Derek Kidner, Salmos 1-72: introdução e comentário, São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1980, v. 1, p. 117; James M. Boice, Psalms: an expositional commentary,  Grand Rapids, MI.: Baker Book House, 1994, v. 1, (Sl 19), p. 171.

[11]“O grande fim de toda revelação é inspirar um louvor humilde e reverente a Deus” (John Stott, Salmos Favoritos, São Paulo: Abba Press, 1997, p. 24).

[12]11Quando todo o Israel vier a comparecer perante o SENHOR, teu Deus, no lugar que este escolher, lerás esta lei diante de todo o Israel.  12 Ajuntai o povo, os homens, as mulheres, os meninos e o estrangeiro que está dentro da vossa cidade, para que ouçam, e aprendam, e temam (arey”) (yare) o SENHOR, vosso Deus, e cuidem de cumprir todas as palavras desta lei” (Dt 31.11-12).

[13] John Edward Veith, Jr, De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 135.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (40)

 

Deus, descrevendo a insensibilidade espiritual de Judá, diz: “O meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios, e não entendidos; são sábios para o mal, e não sabem fazer o bem” (Jr 4.22).

 

A sabedoria cristã é o oposto disso; ela se dispõe a ajudar, socorrer, edificar. O seu planejamento é para o bem, nunca para o mal.

 

Judá estava tão distante de Deus que desaprendera a fazer o bem, os seus pensamentos eram ligeiros, ágeis para o mal. No entanto, o desafio de Deus para nós é para que nos exercitemos na prática do que é justo. E quanto ao mal? Que sejamos puros quanto a ele, não tendo ideias para executá-lo. No entanto, quando nos desafiarem a fazer o bem, que sejamos argutos, prontos, tendo uma visão perspicaz e penetrante. Até para fazer o bem precisamos ter discernimento. Há, por exemplo, um tipo de assistencialismo que longe de ajudar, cria um espírito de dependência que não se configura como ajuda. Ser sábio para o bem não significa conceder tudo o que nos pede, mas, saber administrar com discernimento os recursos disponíveis, de forma criativa e fraterna visando uma contribuição individual e social. Assim, Deus será glorificado.

 

Portanto, devemos utilizar a inteligência que Deus nos deu, para edificar, construir, socorrer, nunca para destruir, lucrar desonestamente: isto seria esperteza, que nada tem a ver com o Cristianismo e a pureza que deve caracterizar os filhos de Deus.

 

Deus, por intermédio da Sua Palavra, nos dá sabedoria espiritual e discernimento para que possamos reconhecer nos seus testemunhos a Palavra de vida eterna, a fim de que vejamos com clareza os sinais dos tempos, sem nos deixar levar por falsas doutrinas engenhosamente criadas pelos homens, seguindo, assim, sabiamente o caminho de Deus.

 

Um exemplo prático desta sabedoria está na orientação de Paulo no que se refere, ainda que não exclusivamente, à evangelização. Devemos aproveitar as oportunidades, falando com graça e com o sal que Deus nos deu, fruto de nossa transformação espiritual e evidência de nosso discipulado,[1] para que não sejamos insípidos: 5Portai-vos (peripate/w) com sabedoria (sofi/a) para com os que são de fora; aproveitai as oportunidades (kairo/j). 6A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal [com graça e integridade], para saberdes como deveis responder a cada um” (Cl 4.5-6).

 

A oração de Paulo é no sentido de que Deus, pelo Espírito, nos dê sabedoria, nos conduzindo à maturidade espiritual (1Co 2.6) para que entendamos a sua revelação em Jesus Cristo mediante o conhecimento intenso de sua Pessoa. Somente pela Sabedoria do Espírito (1Co 2.6-16),[2] tendo como padrão a cruz de Cristo, podemos avaliar toda a realidade, envolvendo a grandeza e a miséria, a sabedoria e a loucura, e, o que de fato é relevante.

 

A sabedoria do Espírito nos concede discernimento e um critério absoluto para enxergar todas as coisas. Dizendo de outro modo, Paulo roga a Deus para que os efésios fossem cheios do Espírito Santo.

 

A profundidade da sabedoria de Deus revelada na Criação e em seus atos (Rm 11.33-36) não é para ser alvo de especulações, antes, de contemplação adoradora e de nossa vivência na história como povo de Deus.

 

Sem o Espírito de sabedoria jamais entenderíamos as maravilhas do Evangelho que consistem no conhecimento não de uma doutrina, mas de uma Pessoa (Jo 17.3).[3]

 

Aqui nesta oração temos uma súplica retroalimentadora: pela sabedoria concedida por Deus podemos entender a revelação. Na compreensão progressiva desta revelação vamos adquirindo, por graça, maior sabedoria. O conhecimento de Deus não se esgota. Devemos prosseguir e nos desenvolver neste conhecimento.

 

Esta oração se torna concreta em nós na medida em que sinceramente desejamos a sabedoria do alto. A nossa súplica sincera por sabedoria (Tg 1.5)[4] deve vir acompanhada pela leitura e meditação da Escritura.

 

O Senhor nos dá compreensão, nos faz ter entendimento de toda a realidade. O real não é uma mera utopia, antes, é acessível e, portanto, conhecível. Se não tivéssemos acesso à realidade, seria, por exemplo, impossível escrever história e, da mesma forma, estudá-la. Qual seria o sentido disso além de um exame psicológico do historiador?[5]

 

Não vivemos num mundo de imagens, mas, de realidade, por mais desagradável que essa possa se configurar a nós em determinadas circunstâncias. No entanto, precisamos refletir a respeito. Não basta ler, é preciso refletir. O que me faz pensar que o caminho para a compreensão das coisas é um pensar intenso, humilde e submisso a Deus. Nem sempre as coisas se mostram a nós de forma clara e evidente. Precisamos pensar a respeito. O pensar e o repensar podem fazer parte de um processo cognitivo abençoador de considerar, compreender e viver de acordo com o propósito de Deus.

 

Esta sabedoria espiritual exige um laborioso processo de compreensão, entendimento e prática da verdade. Portanto, a nossa sabedoria consiste em nos submeter às Escrituras.

 

Martinho Lutero (1483-1546) constatou acertadamente: “Quão grande dano tem havido quando se tenta ser sábio e interessante sem ou acima da Escritura”.[6]

 

Paulo instrui à Igreja para que a Palavra de Cristo habite, se assenhoreie de nosso coração, nos dirigindo em nossa mútua instrução, com sabedoria, louvor e gratidão: Habite (e)noike/w),[7]  ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria (sofi/a), louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração” (Cl 3.16).

 

Os efésios eram crentes operantes em Cristo. Paulo ora no sentido de seu contínuo crescimento pela graça. Crescer na graça não significa crescer simplesmente em uma esfera de nossa existência, mas, em todas elas. Crescer na graça significa crescer em maturidade tendo como modelo perfeito o próprio Cristo, cuja mente é o nosso padrão.

 

Maringá, 09 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]“Bom é o sal; mas, se o sal vier a tornar-se insípido, como lhe restaurar o sabor? Tende sal em vós mesmos e paz uns com os outros” (Mc 9.50/Mt 5.13).

[2]6 Entretanto, expomos sabedoria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada; 7 mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória; 8 sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória; 9 mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. 10 Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus. 11 Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. 12 Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente. 13 Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais. 14 Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. 15 Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém. 16 Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo” (1Co 2.6-16).

[3]“E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).

[4]Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida” (Tg 1.5).

[5] Sei que a narrativa histórica não é objetiva e que o historiador é fundamental no diálogo com os “fatos”. Para uma abordagem mais detalhada sobre o assunto, veja-se: Hermisten M. P. Costa, Introdução à metodologia das ciências teológicas, Goiânia, GO.: Editora Cruz, 2015, p. 155-208.

[6]Lutero, Apud Phillip J. Spener, Mudança para o Futuro: Pia Desideria, Curitiba, PR.; São Bernardo do Campo, SP.: Encontrão Editora; Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, 1996, p. 43.

[7] *Rm 7.17; 8.11; 2Co 6.16; Cl 3.16; 2Tm 1.5,14.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (39)

A Sabedoria do Espírito em nossa cotidianidade

A sabedoria que procede de Deus tem virtudes próprias que não a confundem. Vejamos o tratamento instrutivo que apresenta Tiago:

 

13Quem entre vós é sábio (sofo/j) e inteligente (e)pisth/mwn)? Mostre em mansidão de sabedoria (sofo/j), mediante condigno proceder, as suas obras. 14 Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade. 15 Esta não é a sabedoria sofo/j) que desce lá do alto; antes, é terrena, animal e demoníaca. 16 Pois, onde há inveja e sentimento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins. 17 A sabedoria (sofo/j), porém, lá do alto é, primeiramente, pura (a(gno/j = santa, honesta);[1] depois, pacífica (ei)rhniko/j),[2] indulgente (e)pieikh/j[3] = moderada, cordata, tolerante, gentil), tratável (*eu)peiqh/j = simpática, razoável), plena de misericórdia (mesto/j e)/(leoj) e de bons frutos (karpo/j a)gaqo/j), imparcial (*a)dia/kritoj = inabalável, resoluta, isenta de duplicidade), sem fingimento (a)nupo/kritoj[4] = não hipócrita, real, verdadeira). 18 Ora, é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz. (Tg 3.13-18).

 

A sabedoria bíblica consiste não no acúmulo de conhecimento, antes, em um modo de vida que reflita a sabedoria de Deus revelada em Cristo Jesus, em quem temos o modelo encarnado da plenitude de sabedoria. Ser sábio é aplicar o conhecimento adquirido à arte de viver em comunhão com Deus refletindo isso em todas as dimensões de nossa existência. Sabedoria é a associação teórica e prática entre conhecimento e santidade que se manifesta em piedade.

 

De acordo com a nossa nova natureza, devemos andar com sabedoria, de forma distinta de nossa antiga vida, procurando compreender a vontade de Deus, tendo o cuidado para não sermos enganados por falsos ensinamentos que cultivam uma mera e vazia aparência de verdade:

 

6Ninguém vos engane com palavras vãs; porque, por essas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência. 7Portanto, não sejais participantes com eles. 8 Pois, outrora, éreis trevas, porém, agora, sois luz no Senhor; andai como filhos da luz 9 (porque o fruto da luz consiste em toda bondade, e justiça, e verdade), 10provando sempre o que é agradável ao Senhor. 11E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as. 12 Porque o que eles fazem em oculto, o só referir é vergonha. 13Mas todas as coisas, quando reprovadas pela luz, se tornam manifestas; porque tudo que se manifesta é luz. 14Pelo que diz: Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará. 15Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios (*a)/sofoj), e sim como sábios (sofo/j), 16 remindo o tempo, porque os dias são maus. 17Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor. (Ef 5.6-17).

 

A Palavra, por nos revelar Jesus Cristo, o Deus Encarnado e, decorrentemente, por suas instruções, torna-nos sábios para a salvação preparada por Deus para nós desde a eternidade. As Escrituras nos capacitam a ter um padrão unificador da realidade, indo além da mera aparência ou de verdades fragmentadas. Deste modo, onde alguns ouvem um ruído, poderemos perceber uma sinfonia.[5] Em lugar de variadas cores, talvez desconexas para muitos, enxerguemos o arco-íris. Onde outros veem com admiração um céu estrelado, veremos a manifestação da glória de Deus (Sl 8.1; 19.1).[6]

 

Paulo exorta Timóteo a permanecer naquilo que aprendeu desde a infância. Como é um privilégio poder ter usufruído desde a mais tenra idade uma formação bíblica.[7] Por outro lado, os pais e avós nem sempre percebem de imediato os frutos de seus ensinamentos, porém, devemos perseverar em ensinar as Sagradas letras deixando com Deus os resultados que certamente aparecerão:

 

3Dou graças a Deus, a quem, desde os meus antepassados, sirvo com consciência pura, porque, sem cessar, me lembro de ti nas minhas orações, noite e dia. 4 Lembrado das tuas lágrimas, estou ansioso por ver-te, para que eu transborde de alegria 5 pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que, primeiramente, habitou em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também, em ti. (2Tm 1.3-5).

14Tu, porém, permanece (me/nw = continuar, ficar, morar) naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste 15 e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio (sofi/zw) para a salvação pela fé em Cristo Jesus. (2Tm 3.14-15).

 

De passagem, devemos observar a responsabilidade dos que ensinam. A palavra é o conteúdo da mensagem do Ministro: A Escritura torna o homem sábio para a salvação; por isso ele precisa manejá-la bem visto que os falsos mestres também a empregam como pretexto para justificar os seus falsos ensinamentos.

 

Paulo exorta a Timóteo: Procura (spouda/zw = “esforçar-se com zelo”, “apressar-se”) apresentar-te a Deus, aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem (o)rqotome/w = “cortar em linha reta”, “endireitar”) a Palavra da verdade (a)lh/qeia)” (2Tm 2.15).

 

O sábio manejo da Escritura significa estudá-la, vivenciá-la e proclamá-la conforme o seu propósito. O manejo sábio da Escritura envolve, necessariamente, fidelidade ao Senhor da Escritura. A igreja, portanto, é chamada a ser serva e não senhora da Revelação.

 

Calvino instrui:

 

É uma recomendação por demais sublime das Escrituras dizer que a sabedoria suficiente para a salvação não pode ser encontrada em outra parte (…). Ao mesmo tempo, porém, ele nos diz o que devemos buscar na mesma Escritura, pois os falsos profetas também fazem uso dela em busca de pretexto para o seu ensino. Para que ela nos seja proveitosa para a salvação, temos que aprender a fazer dela um uso correto.[8]

 

A Palavra de Deus deve habitar em nós e nós nela, perseverando inabalavelmente em seus ensinamentos. Permanecer na Palavra significa permanecer em Deus, no Seu amor e Deus em nós. Observem a relação estabelecida por Cristo entre o permanecer nele, a Palavra permanecer em nós, a obediência e o amor de Deus em nós:

 

4 permanecei (me/nw) em mim, e eu permanecerei[9] em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer (me/nw) na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes (me/nw) em mim. 5 Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece (me/nw) em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. 6 Se alguém não permanecer (me/nw) em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam. 7 Se permanecerdes (me/nw) em mim, e as minhas palavras permanecerem (me/nw) em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito. 8 Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tornareis meus discípulos. 9Como o Pai me amou, também eu vos amei; permanecei (me/nw) no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis (me/nw) no meu amor; assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço (me/nw). (Jo 15.4-10).

 

Esta Palavra nos torna sábios para a salvação. Ela nos conduz à compreensão do propósito de Deus por meio de Sua verdade revelada, não para a elaboração do mal ou invencionices vazias (2Pe 1.16),[10] antes, para nos instruir naquilo que edifica. A sabedoria concedida por Deus deve nos tornar sábios para o bem, como indica Paulo: “Pois a vossa obediência é conhecida por todos; por isso, me alegro a vosso respeito; e quero que sejais sábios (sofo/j) para o bem e símplices (a)ke/raioj[11] = puro, sem mistura, sem mescla, não adulterado, intacto. Sentido figurativo de: pureza, inocência, integridade) para o mal” (Rm 16.19).

 

A palavra (a)ke/raioj) é aplicada ao leite e ao vinho que não foram misturados com água; à pureza do metal e à muralha de uma fortaleza que se manteve intacta. Portanto, a sabedoria do Espírito é pura, sem dissimulação nem segundas intenções.

 

Jesus Cristo nos instrui: “Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices (a)ke/raioj) como as pombas” (Mt 10.16).

 

A sabedoria cristã dos filhos de Deus se revela no seu uso para o bem. A sabedoria que procede de Deus (Tg 1.17) não é empregada para o mal, para destruir ou satisfazer os nossos desejos egoístas.

 

Maringá, 09 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] *2Co 7.11; 2Co 11.2; Fp 4.8; 1Tm 5.22; Tt 2.5; Tg 3.17; 1Pe 3.2; 1Jo 3.3.

[2] *Hb 12.11; Tg 3.17.

[3] *Fp 4.5; 1Tm 3.3; Tt 3.2; Tg 3.17; 1Pe 2.18.

[4] *Rm 12.9; 2Co 6.6; 1Tm 1.5; 2Tm 1.5; Tg 3.17; 1Pe 1.22.

[5]Veja a figura em Polanyi, citada por McGrath (Alister E. McGrath, Surpreendido pelo sentido: ciência, fé e o sentido das coisas, São Paulo: Hagnos, 2015, p. 24).

[6]“Ó SENHOR, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome! Pois expuseste nos céus a tua majestade” (Sl 8.1). “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19.1).

[7]“Se porventura alguém tenha adquirido desde sua tenra juventude um sólido conhecimento das Escrituras, o mesmo deve considerar tal coisa como uma bênção especial da parte de Deus” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (2Tm 3.15), p. 261).

[8] João Calvino, As Pastorais, (2Tm 3.15), p. 261.

[9] Esta palavra não consta no original, é apenas dito: “E eu em vós”.

[10]“Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas (sofi/zw), mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade” (2Pe 1.16).

[11] *Mt 10.16; Rm 16.19; Fp 2.15.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (38)

A Sabedoria do Espírito

Sem dúvida, como temos insistido, na oração de Paulo ele se refere ao Espírito Santo: “Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria (sofi/a) e de revelação (a)poka/luyij) no pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) dele” (Ef 1.17).

 

Surge, então, a pergunta: Como pode ele suplicar em relação aos efésios, que Deus lhes dê Espírito de sabedoria e revelação, considerando que eles eram crentes e, por isso, já possuíam o Espírito Santo?

 

Na realidade, aqui temos uma oração pelo crescimento espiritual dos efésios; ele ora pelo fortalecimento espiritual daqueles irmãos. Somente pelo maior conhecimento de Deus poderemos, de fato, amadurecer e nos fortalecer em nossa fé. (Ef 3.16)[1].[2]

 

Este tipo de oração não era estranho a Paulo. Ele também ora para que os Colossenses conhecessem a vontade de Deus em sabedoria: “Por esta razão, também nós, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós e de pedir que transbordeis de pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) da sua vontade, em toda a sabedoria (sofi/a) e entendimento (su/nesij) espiritual” (Cl 1.9).

 

Aqui temos em essência o desejo de Paulo para a igreja: Que ela tivesse uma genuína espiritualidade, fundamentada no conhecimento de Deus, controlada pela Escritura, se manifestando em santidade e amor em todas as facetas da vida, tendo a Cristo como Senhor de todos os aspectos de sua existência.[3]

 

Portanto, este conhecimento, pelo qual o apóstolo ora, tem sempre como ingrediente essencial a prática do mesmo. Conhecer a Deus tem implicações práticas que se refletem em nossa comunhão com Deus, em nossa relação conosco e com o nosso próximo. Observem a sequência da oração de Paulo: “A fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) de Deus” (Cl 1.10).

 

Como temos enfatizado, todos somos incapazes de entender os “mistérios de Deus” até que Ele mesmo por Sua graça nos ilumine.[4] “A Palavra de Deus é uma espécie de sabedoria oculta, a cuja profundidade a frágil mente humana não pode alcançar. Assim, a luz brilha nas trevas, até que o Espírito abra os olhos ao cego”.[5] A voz de Deus é única, no sentido de que, não há contradição. Em Sua revelação (Geral e Especial) haverá sempre uma multiforme e harmoniosa mensagem a respeito de glória de Deus e da necessidade de nosso retorno à comunhão com o nosso Criador.

 

Se Deus pelo Espírito não iluminar a nossa mente, desobstruindo os nossos olhos, jamais a entenderemos salvadoramente.[6] Portanto, quando o Espírito aplica a Palavra ao nosso coração, Ele produz a sua boa obra em nós, gerando a fé salvadora que se direciona para Cristo e para os feitos de Sua redenção.[7] Paulo, portanto, está correto em pedir a Deus que conceda aos efésios Espírito de sabedoria e de revelação.

 

De semelhante modo, devemos pedir sabedoria a Deus, como nos instrui Tiago:

 

5 Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria (sofi/a), peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida. 6 Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; pois o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento. 7 Não suponha esse homem que alcançará do Senhor alguma coisa; 8 homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus caminhos. (Tg 1.5-8). (Ver também 2Pe 3.15).

 

Contrastando com esta sabedoria, o poeta trágico grego, Eurípides (480-406 a.C.), cuja obra mais conhecida é Medeia (435 a.C.), em certa ocasião, escreveu:

 

Os sábios têm duas línguas, uma para dizer o que pensam e a outra para falar conforme as circunstâncias: quando o querem, têm talento para fazer o preto aparecer como branco e o branco como preto, soprando com a mesma boca o calor e o frio e exprimindo com palavras exatamente o contrário do que sentem no peito.[8]

 

No entanto, a perspectiva bíblica, como temos visto, é totalmente diferente. Analisemos alguns aspectos desta sabedoria.

 

Maringá, 09 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Confira esta série completa aqui

 

 


[1]“Para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior” (Ef 3.16).

[2]Veja-se: William Hendriksen, Efésios, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, (Ef 1.17), p. 123-125.

[3] Vejam-se: Joel R. Beeke, Espiritualidade Reformada, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2014, p. 18; Francis A. Schaeffer, Um Manifesto Cristão. In: Francis A. Schaeffer, A Igreja no Século 21, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 166; Francis A. Schaeffer, O Grande Desastre Evangélico. In: Francis A. Schaeffer, A Igreja no Século 21, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 288; Francis A. Schaeffer, A Arte e a Bíblia, Viçosa, MG.: Editora Ultimato, 2010, p. 17.

[4] Cf. João Calvino, As Institutas, II.2.21.

[5] João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 2.11), p. 89.

[6]Vejam-se: João Calvino, As Institutas, III.2.33; Juan Calvino, Autoridad y Reverencia que Debemos a la Palabra de Dios: In: Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 17), p. 208; John Calvin, Commentary on the Book of the Prophet Isaiah, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, (Calvin’s Commentaries), 1996, v. 8/4, (Is 59.21), p. 271.

[7]Cf. William Hendriksen, O Evangelho de João, São Paulo: Cultura Cristã, 2004, (Jo 17.20), p. 772.

[8] Apud: Erasmo de Roterdam, Elogio da Loucura, Rio de Janeiro: Editora Tecnoprint, (s.d.), p. 82.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (37)

Aos arrogantes coríntios, que com uma suposta sabedoria inexistente queriam limitar Cristo aos seus modestos e frágeis cânones intelectuais, o apóstolo indaga:

 

20Onde está o sábio (sofo/j)? Onde, o escriba? Onde, o inquiridor deste século? Porventura, não tornou Deus louca (mwrai/nw) a sabedoria (sofi/a) do mundo? 21Visto como, na sabedoria (sofi/a) de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria (sofi/a), aprouve (eu)doke/w)  a Deus salvar os que creem pela loucura (mwri/a) da pregação (1Co 1.20-21).

 

A ideia da palavra traduzida por “loucura’, é de algo “imbecil”, “tolo”, “insensato”. Na literatura clássica está relacionada à falta de conhecimento e discernimento. Dentro do aspecto da insensatez, esta figura é aplicada ao sal que, se se tornar “insípido” (mwrai/nw) (Mt 5.13; Lc 14.34-35) para nada mais serve. No emprego feito por Paulo, a loucura da mensagem da cruz de Cristo está justamente pela sua falta de sentido intelectual para aqueles que querem avaliar o seu conteúdo dentro de seus pressupostos viciados. Em síntese, o Evangelho soa como algo “simplório”. Paulo diz que Deus tornou “louca” (mwrai/nw) a sabedoria deste mundo (1Co 1.20). Por sua vez, os ímpios se considerando sábios, “tornaram-se loucos(mwrai/nw) (Rm 1.22/Jr 10.14 (“estúpido” [mwrai/nw]), em sua idolatria, recebendo o justo castigo de Deus (Rm 1.23-27).

 

Deste modo, a sabedoria de Deus será sempre loucura (mwri/a) para os sábios deste mundo que querem simplesmente adequar o Evangelho aos seus pressupostos (1Co 1.18,23; 2.14). Dentro desta perspectiva, Deus escolheu então as cousas loucas (mwro/j) do mundo” (1Co 1.27). Em outras palavras, Deus deliberou em Sua sabedoria que a sabedoria humana não seria o caminho para conhecê-lo.[1]

 

A sabedoria deste mundo é loucura (mwri/a) diante de Deus (1Co 3.19). Deus sabe que os pensamentos destes “sábios” são “vãos” (= “nulos”, “fúteis” [ma/taioj] *At 14.15; 1Co 3.20; 15.17; Tt 3.9; Tg 1.26; 1Pe 1.18)(1Co 3.20).

 

Por outro lado, os que creem na loucura (mwri/a) da pregação serão salvos (1Co 1.21). A loucura (mwro/j) de Deus é mais sábia do que a sabedoria deste mundo (1Co 1.25). Mas, qual a diferença entre a sabedoria de Deus e a sabedoria do mundo? A diferença fundamental, é que a sabedoria deste mundo tenta anular a cruz de Cristo, buscando um caminho mais de acordo com os seus pressupostos, realçando a sua capacidade e autonomia, buscando em si mesmos a solução de seus problemas e, descobrem tristemente, que seus reservatórios estão vazios.[2] A sabedoria de Deus, por sua vez, mostra na cruz, o pecado humano e a sua total incapacidade de salvar-se, estando totalmente perdido, realçando a graça redentora de Deus (Rm 3.34-26; 5.6-11).

 

Piper resume:

 

Em outras palavras, a cruz ofende a sabedoria humana porque ela humilha o homem e exalta a imerecida graça de Deus.[3] (…) O âmago da sabedoria de Deus é a paixão de Deus por demonstrar sua graça em Cristo para o gozo eterno daqueles que creem. Visto que todos nós somos pecadores indignos, a cruz é central para essa sabedoria. Sem a cruz, não poderíamos ter essa sabedoria. (…) A essência da sabedoria de Deus é exaltar a glória de sua graça manifestada em Cristo crucificado.[4]

 

Portanto, se quisermos nos tornar sábios para Deus, tornemo-nos loucos (mwro/j) para as cousas deste mundo (1Co 3.18).[5]

 

De certa forma, somos os loucos de Cristo (1Co 4.10). Por sua vez, ilustrando que a “loucura” ou “insensatez” não são boas em si mesmas, Paulo faz recomendações práticas para que rejeitemos as questões “sábias” deste mundo que consistem em discussões e questões “insensatas” que produzem contendas, não tendo utilidade (2Tm 2.23; Tt 3.9 [“fúteis” (ma/taioj]). Portanto, o Evangelho não tem a “loucura” e “insensatez” como virtudes (Mt 23.16-17; 25.1-13). A verdadeira sabedoria consiste em ouvir a Palavra de Deus e praticá-la. Loucura é desprezá-la (Mt 7.24-27).

 

A sabedoria deste mundo tenta excluir Deus, por isso a loucura desta suposta sabedoria que astutamente torna a realidade apenas material, ou, quando muito, vê a vida como sendo dominada por alguma força cósmica impessoal. Dentro desta perspectiva secular-mística, a mensagem do Evangelho permanece como loucura. Ela é inacessível à compreensão puramente humana e limitada.

 

Portanto, o argumento de Paulo quanto à proclamação do Evangelho:

 

A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; porquanto está escrito: Ele apanha os sábios (sofo/j) na própria astúcia deles (1Co 3.19).

Expomos sabedoria (sofo/j) entre os experimentados; não, porém, a sabedoria (sofo/j) deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada (katarge/w) (algo que desvanece, se dilui) (1Co 2.6).

 

Lloyd-Jones (1899-1981) colocou esta questão nestes termos:

 

Se vocês não partirem deste elemento de mistério e de encantamento, nunca irão crer no Evangelho. “Não julgues o Senhor pela débil razão”. Reconheça a sua finitude pessoal, a sua pecaminosidade, a sua incapacidade total para entender a mente do Deus eterno.[6]

 

Assim, sendo, o cristão deve aceitar este paradoxo: tornar-se louco diante dos valores deste século para entender a verdadeira e definitiva sabedoria:

 

18 Ninguém se engane a si mesmo: se alguém dentre vós se tem por sábio neste século, faça-se estulto para se tornar sábio. 19 Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; porquanto está escrito: Ele apanha os sábios na própria astúcia deles. 20 E outra vez: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são pensamentos vãos (1Co 3.18-20).

 

Por isso a nossa fé não pode se apoiar em sabedoria humana, mas, no poder de Deus. Paulo sabia bem deste risco, certamente tão tentador para muitos. Relembra então aos coríntios, como foi a sua chegada entre eles:

 

Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria (sofi/a). 2Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. 3 E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. 4 A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria (sofi/a), mas em demonstração do Espírito e de poder, 5 para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria (sofi/a) humana, e sim no poder de Deus (1Co 2.1-5/2Co 1.12).[7]

 

Continua:

 

Mas falamos a sabedoria (sofi/a) de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória (1Co 2.7).

Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria (sofi/a) humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais (1Co 2.13).

 

A pregação entre os colossenses não foi diferente:

 

24 Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja; 25 da qual me tornei ministro de acordo com a dispensação da parte de Deus, que me foi confiada a vosso favor, para dar pleno cumprimento à palavra de Deus: 26 o mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos; 27 aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória; 28 o qual nós anunciamos, advertindo a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria (sofi/a), a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo; 29 para isso é que eu também me afadigo, esforçando-me o mais possível, segundo a sua eficácia que opera eficientemente em mim (Cl 1.24-29).

 

Do mesmo modo entre os efésios:

 

8A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo 9 e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas, 10 para que, pela igreja, a multiforme sabedoria (sofi/a) de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais, 11 segundo o eterno propósito que estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor, 12 pelo qual temos ousadia e acesso com confiança, mediante a fé nele (Ef 3.8-12).

 

Maringá, 09 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Confira esta série completa aqui


[1] Veja-se: John Piper, Pense – A Vida da Mente e o Amor de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 205.

[2]“Em sua insanidade arrogante, os homens afirmam que são mais sábios do que Deus, ao asseverarem seu próprio pensamento e abordagem quanto à vida. E aqueles que os ouvem procuram, em grande número, as cisternas rotas da filosofia humanista deles, em busca de respostas para a vida. Mas tudo que descobrem são reservatórios vazios que escarnecem de sua sede” (Steven J. Lawson, O tipo de pregação que Deus abençoa, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2013, p. 52).

[3] “A cruz se levanta como testemunho da infinita dignidade de Deus e o infinito ultraje do pecado” (John Piper, A Supremacia de Deus na Pregação, São Paulo: Shedd Publicações, 2003, p. 31).

[4]John Piper, Pense – A Vida da Mente e o Amor de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 209,210.

[5] Ninguém se engane a si mesmo: se alguém dentre vós se tem por sábio (sofo/j) neste século, faça-se estulto (mwro/j) para se tornar sábio (sofo/j) (1Co 3.18).

[6] D.M. Lloyd-Jones, Cristianismo Autêntico: Sermões nos Atos dos Apóstolos, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2006, v. 4, p. 304.

[7] Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que, com santidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria (sofi/a) humana, mas, na graça divina, temos vivido no mundo e mais especialmente para convosco” (2Co 1.12).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (36)

A nulidade e loucura da sabedoria humana nas questões espirituais

 

Vemos então, as limitações próprias de nosso intelecto. Paulo suplica pela sabedoria de Deus porque, nós, por nossa própria sabedoria jamais poderemos compreender salvadoramente o que Deus nos tem revelado. E mais: se pudéssemos por nós mesmos fazê-lo, não haveria graça, mas, mérito humano.[1] Assim, não haveria porque louvar o Deus da graça que a derramou abundantemente sobre nós (Ef 1.5-8). A grandeza estaria no homem e em sua capacidade de bem conduzir a sua razão.

 

Porém, como sabemos, a razão humana, por si só, não assistida pela graça, não pode chegar às verdades espirituais.[2] O fato, portanto, é que o Evangelho permaneceria oculto a todos nós se Deus não O manifestasse e não nos concedesse o Espírito de sabedoria para entendê-lo.[3]

 

É por isso que a pregação de Paulo a judeus e gentios não poderia ser outra do que “a Cristo, poder de Deus e sabedoria (sofi/a) de Deus” (1Co 1.24). (Do mesmo modo: 1Co 1.30).

 

A sabedoria do homem sem Deus, em seus devaneios autônomos, o tornou louco, afetando todos os domínios do seu coração, pretendendo passar por sábio autônomo,[4] rejeitou a Deus e a Sua revelação, tornando-se enlouquecidamente escravo de toda sorte de paixões idólatras. Paulo escreve sobre isso aos Romanos:

 

18 A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; 19 porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. 20 Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; 21 porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. 22 Inculcando-se por sábios (sofo/j), tornaram-se loucos (mwrai/nw) 23 e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis (Rm 1.18-23).

 

A idolatria torna os homens cativos de uma forma viciada de pensar. O produto de nossos raciocínios torna-se nulo em sua própria elaboração. As evidências da revelação são sempre ocultadas em seus corações dominados por uma forma rotineira de pensar e determinantemente horizontal, tendo como fim os seus interesses (Rm 1.19-21).

 

Schaeffer (1912-1984) comenta:

 

Quando a Escritura fala do homem sendo deste jeito tolo, não significa que ele é apenas religiosamente tolo. Antes, significa que ele aceitou uma posição que é intelectualmente tola, não somente com respeito ao que a Bíblia diz, mas também em relação àquilo que existe – o universo e sua forma, e a humanidade do homem. Ao se afastar de Deus e da verdade que ele deu, o homem ficou tolamente tolo em relação ao que o homem é e ao que o universo é. Ele é deixado em uma posição com a qual ele não consegue viver, e ele é pego numa multidão de tensões intelectuais e pessoais.[5]

 

Ao que parece a idolatria, já como resultado da obscuridade espiritual, elimina boa parte de nossa sensibilidade espiritual, brutalizando-nos, amortecendo certas faculdades nossas. Por isso, é que a idolatria nunca vem sozinha, ela sempre está acompanhada de outras práticas irracionais e pecaminosas.

 

O salmista comparando a grandeza de Deus com os ídolos feitos pelos homens, arremata: “Como eles se tornam os que os fazem, e todos os que neles confiam” (Sl 135.18). Os homens que se projetam em seus ídolos não têm alternativa possível, senão tornarem-se semelhantes à sua imagem que adoram, afinal, seus ídolos, nada lhes propõem, que já não seja da natureza de seus criadores.

 

Este conceito encontramos também em Oséias, quando relembrando o pecado do povo de Israel no deserto, diz: “Mas eles foram para Baal-Peor, e se consagraram à vergonhosa idolatria, e se tornaram abomináveis como aquilo que amaram” (Os 9.10). A idolatria apenas forneceu as bases justificadoras da prática que desejavam.

 

Como a idolatria é a construção de um deus que se harmonize com seus desejos, nada mais natural de que esta construção humana termine por se tornar no seu modelo de vida e comportamento. Há aqui um círculo vicioso: Crio meus deuses com características semelhantes às minhas a fim de que ele se torne um modelo para que eu continue sendo o que sou, reforçando assim a minha prática.

 

A idolatria traz um desequilíbrio no cerne do pensamento humano, se manifestando em todas outras áreas de sua vida, ainda que nem sempre de modo imediatamente perceptível: a idolatria tende a ser desagregadora do caráter ainda que possa se esconder sob a capa da compreensão tolerante. A idolatria é uma doença espiritual resultante da carência de Deus e da procura equivocada do sagrado.

 

É por isso que a sabedoria deste mundo é nula no que diz respeito ao conhecimento das coisas espirituais. Estamos totalmente cegos. A nossa percepção não alcança nada além do mundo e de seus valores terrenos.[6] “Os homens são estúpidos e jamais entendem coisa alguma pertencente à sua salvação sem que Deus opere neles”.[7]

 

Maringá, 09 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1]“Se todo homem fosse capaz de crer e ter fé de moto próprio, ou a pudesse obter por algum poder de si mesmo, o louvor disso não teria que ser dado a Deus” (João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 132).

[2]Veja-se: John MacArthur, Deus: Face a face com sua majestade, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2013, p. 67.

[3] “O Evangelho só pode ser entendido por meio da fé – não pela razão, nem pela perspicácia do entendimento humano, porque de outro modo ele seria algo oculto de nós” (João Calvino, Colossenses: In: Gálatas – Efésios – Filipenses – Colossenses, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2010, (Cl 2.1-5), p. 531).

[4]“A forma extrema da idolatria é o humanismo, que vê o homem como a medida de todas as coisas” (R.C. Sproul, O que é a teologia reformada: seus fundamentos e pontos principais de sua soteriologia, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 33).

[5]Francis A. Schaeffer, Morte na Cidade, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 12.

[6] Veja-se: João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 153ss.

[7]João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 154.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (35)

5.5. Ser cheio de sabedoria

 

“Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria (sofi/a) (At 6.3).

 

Os diáconos deveriam ser cheios do Espírito e de sabedoria. A sequência é essa mesma. Se os diáconos buscassem sabedoria por si mesmos, sem a direção do Espírito, certamente se secularizariam e cairiam em armadilhas tais como: olhar o diaconato como um estorvo ou uma fonte de lucro. Tentariam transformar a igreja em uma empresa rentável a qualquer preço, etc.

 

Somente pela Espírito poderemos ter a genuína sabedoria espiritual para atuar com discernimento na execução de nossas vocações.

 

Façamos uma digressão para analisar o sentido bíblico da sabedoria. Paulo ora para que o Deus Pai, pelo Espírito que já nos selou, e o temos como penhor de nossa salvação (Ef 1.13-14), aja em nós poderosamente, nos concedendo sabedoria espiritual para podermos conhecer mais a Deus em nossa caminhada na vida cristã. Estudemos um pouco mais sobre o conceito de sabedoria nas Escrituras.

 

“Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria (sofi/a) e de revelação (a)poka/luyij) no pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) dele” (Ef 1.17).

 

A sabedoria pertence a Deus

Devemos primeiramente entender que a sabedoria pertence a Deus. Esta é um dos Atributos de Deus. Todo conhecimento e toda sabedoria fazem parte da natureza essencial de Deus e se revelam em seus atos, na Criação e em Sua Palavra.[1]

 

Sempre é bom reafirmar que a Revelação de Deus não é uma não-revelação, um despiste ou disfarce ou mesmo, algo inconsistente com Ele. Deus dá um testemunho idôneo de si mesmo. Somente Deus pode fazê-lo de forma perfeita e completa.[2] O Deus que revela é o conteúdo da revelação. O Revelador é o Revelado. Deus se revela tal qual é, contudo, de forma que possamos entender. Deus é sábio em Si mesmo, expressando isso em seus atos, Palavra e obras.

 

Paulo, de forma doxológica, conclui a Carta aos Romanos: “Ao Deus único e sábio (sofo/j) seja dada glória, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos. Amém!” (Rm 16.27).

 

Notemos que esta glória atribuída a Deus deve ser dada por meio de Jesus Cristo, seu Filho amado, o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5), por meio de quem a sabedoria de Deus se manifestou de forma encarnada. Por isso é que o culto que prestamos a Deus é por meio dos méritos de Cristo. Todo o nosso relacionamento com o Pai só é possível por meio de Jesus Cristo. Ele é o caminho de todas as bênçãos, sendo Ele mesmo a maior de todas (Rm 8.32).[3]

 

É assim que Paulo escrevera aos Efésios um pouco acima:

 

6 para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, 7 no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, 8 que Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria (sofi/a) e prudência (fro/nhsij = inteligência, bom senso, discernimento) (Ef 1.6-8).

 

Da mesma forma aos Colossenses:

 

1Gostaria, pois, que soubésseis quão grande luta venho mantendo por vós, pelos laodicenses e por quantos não me viram face a face; 2 para que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor, e eles tenham toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo, 3 em quem todos os tesouros da sabedoria (sofi/a) e do conhecimento (gnw=sij) estão ocultos (Cl 2.1-3).

 

Maringá, 09 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1]“Que variedade, SENHOR, nas tuas obras (hf,[]m) (ma`aseh)! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas” (Sl 104.24). Na Criação podemos perceber aspectos da bondade de Deus que nos aliviam em nossas dores e limitações, nos concedendo a visão da harmoniosa variedade e beleza daquilo que criou. Nesta visão, somos conduzidos a admirar e a glorificar a Deus por Sua manifestação de sabedoria, bondade e graça para conosco.

[2]“Pois, como haja a mente humana, que ainda não pode estatuir ao certo de que natureza seja a massa do sol, que entretanto se vê diariamente com os olhos, de reduzir à sua parca medida a imensurável essência de Deus? Muito pelo contrário, como haja de, por sua própria operação, penetrar até a substância de Deus, a fim de perscrutá-la, ela que não alcança nem ao menos a sua própria? Por cuja razão, de bom grado deixemos a Deus o conhecimento de si mesmo, pois, além de tudo, como o diz Hilário, ele próprio, que não foi conhecido, a não ser por si mesmo, é de si mesmo a única testemunha idônea. Ora, deixaremos com ele o que lhe compete se o concebermos tal como ele se nos manifesta; e só poderemos inteirar-nos disto por intermédio de sua Palavra” (João Calvino, As Institutas, (2006), I.13.21).

[3]Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (Rm 8.32).