Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (49)

6. Recompensas de uma diaconia fiel

6.1. A honra concedida por Deus

“Se alguém me serve, siga-me, e, onde eu estou, ali estará também o meu servo (dia/konoj). E, se alguém me servir (diakone/w), o Pai o honrará (tima/w) (Jo 12.26).

 

Jesus ensina que aqueles que o servem sinceramente, o seguindo, o Pai mesmo o honrará. Ainda que aqui não esteja falando especificamente do ofício de diácono, a verdade é que este, como todos aqueles que servem ao Senhor – a palavra no Original é a mesma (diakone/w) – ainda que nem sempre tenham o reconhecimento devido da parte dos homens, serão honrados por Deus. Obviamente, não devemos encontrar no texto nenhuma desculpa para a nossa falta de reconhecimento do serviço prestado pelos servos de Deus, antes, um consolo para aqueles que não têm sido honrados devidamente por nós.

6.2. A lembrança graciosa de Deus

“Porque Deus não é injusto para ficar esquecido (e)pilanqa/nomai) do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome, pois servistes (diakone/w) e ainda servis (diakone/w) aos santos” (Hb 6.10).

 

            Esta recompensa complementa a anterior. Deus não se esquece; não é negligente para com as necessidades de seus servos. Ele tem diante de si os nossos serviços, ainda que estes sejam devidos à sua graça capacitante. Mesmo parecendo em algumas circunstâncias ter se esquecido de nós, na realidade, Ele nos acompanha sempre com a sua graça. E, Aquele que nos capacitou a fazer boas obras, por graça, nos recompensará.  Não haveria nada de pior para nós do que ser esquecido por Deus. No entanto, a sua lembrança é mantenedora,[1] confortadora e abençoadora.

 

Diáconos são os que servem. Lembrem-se sempre de que Deus estará continuamente pronto a atendê-los em suas necessidades. Os diáconos, portanto, são aqueles que, por vezes se esquecendo de si mesmos, servem à igreja, enquanto que Deus mesmo, o Senhor da Igreja, não se esquece de suas necessidades, muitas delas ainda imperceptíveis.

 

Conforme figura usada pelo salmista. É muito reconfortador saber que as pegadas de Deus são abençoadoras em nossa vida.[2] “As pegadas são as de um veículo para carregar produtos agrícolas; trata-se de uma figura poética para representar a ação de Deus em derramar as chuvas serôdias enquanto passa, deixando a abundância pelo caminho”.[3]

 

Em uma terra aparentemente árida, como pode estar circunstancialmente o nosso coração, Deus nos promete a sua lembrança sempre abençoadora e preservadora.

 

Os diáconos, que com o seu planejamento e sensibilidade ajudaram a tantos irmãos, por vezes se sentem abatidos. Esses servos, com os quais os irmãos menos favorecidos ou em situação circunstancial de penúria resultante de doenças na família, prolongado desemprego etc., sempre puderam contar com a sua memória abençoadora e discrição, agora têm o conforto do próprio Deus que jamais serão esquecidos pelo Senhor da igreja que os vocacionou e capacitou.

 

Obviamente a promessa de Deus não se restringe aos diáconos, mas, a todos aqueles que servem a Deus com integridade de coração. Os diáconos se constituem em uma forma ordinária de Deus suprir às necessidades de seus servos em suas carências preponderantemente materiais. Eles, como muita frequência são a expressão concreta e visível da providência misericordiosa de Deus no suprimento dos irmãos necessitados.

 

Nesse caso, a lembrança de Deus consiste em uma manifestação de seu favor àqueles que por vezes parecerem terem sido esquecidos.

 

6.3. O reconhecimento da Igreja

“Pois os que desempenharem bem o diaconato alcançam para si mesmos justa preeminência (* baqtmo/j = degrau, fundamento, posição, reputação) e muita intrepidez na fé em Cristo Jesus” (1Tm 3.13).

 

A Igreja por vezes no justo receio de “endeusar” homens, criando monstrinhos espirituais, cheios de si com mania de grandeza e autossuficiência, comete um equívoco oposto, se esquecendo de atribuir honra a quem de direito. Não podemos justificar uma tese apenas apresentando a antítese. Possivelmente entre ambas, podem existir caminhos alternativos que não sejam mal em si.

 

Pedro instrui a igreja: “Tratai todos com honra (tima/w), amai os irmãos, temei a Deus, honrai (tima/w) o rei” (1Pe 2.17). Paulo recomenda aos romanos: Pagai (a)podi/dwmi = retribuir, conceder, dar) a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra (timh/), honra (timh/) (Rm 13.7).

 

Paulo na ilha de Malta depois de curar o pai de um importante habitante da ilha que o hospedara, realizou muitas outras curas (At 28-7-9). Tais homens, registra Lucas, “…. nos distinguiram (timh/) (honrar, valorizar, dignificar, retribuir) com muitas honrarias (tima/w); e, tendo nós de prosseguir viagem, nos puseram a bordo tudo o que era necessário” (At 28.10).

 

Paulo diz que aqueles que desempenharem bem o diaconato terão o justo reconhecimento da Igreja. De fato, é justo que assim seja. Ainda que os diáconos não trabalhem simplesmente para agradar a Igreja, visto que servem ao Senhor na Igreja, é desejável que honremos esses servos de Deus que dedicam parte quantitativa e qualitativamente importante de seu tempo no serviço de Deus em nossa Igreja. O reconhecimento da Igreja é um atestado da sua vocação e do desempenho eficiente do diaconato.

 

Portanto, diáconos, não busquem honrarias e deferências. Igreja honre os seus diáconos. Eles foram chamados por Deus para exercerem o seu ofício no meio de sua comunidade. Eles tiveram o seu reconhecimento público por meio da assembleia para desempenharem a sua vocação: honrem-nos!

 

O nosso serviço é prestado a Deus; a origem de nossa vocação está em Deus. Em última instância é Deus quem avaliará o nosso serviço prestado com integridade ao povo que Ele mesmo nos confiou servir.

 

Calvino comenta: “Ao expressar-se assim, ele realça quão proveitoso é para a Igreja que esse ofício seja desempenhado por homens criteriosamente escolhidos, pois o santo desempenho desses deveres granjeia estima e reverência”.[4]

 

Quando a Igreja não honra os diáconos que desempenham bem a sua função está furtando destes servos de Deus a honra, o justo reconhecimento que lhe é devido. Devemos isto a eles! É preciso que estejamos atentos para não cometermos este pecado de omissão. A quem honra, honra!

 6.4. Maior firmeza na fé

 

“Pois os que desempenharem bem o diaconato alcançam para si mesmos justa preeminência e muita intrepidez na fé em Cristo Jesus” (1Tm 3.13).

 

Paulo também diz que aqueles que desempenham bem o diaconato alcançam “muita intrepidez (parrhsi/a) na fé em Cristo” (1Tm 3.13). A palavra tem o sentido de destemor, franqueza, ousadia, confiança e sinceridade. O termo indica aquele que fala com ousadia e francamente, exercendo com responsabilidade publicamente a sua função.

 

Os diáconos no exercício de seu ofício adquirem uma maior ousadia em sua fé amparados na graça de Deus. Isso se manifesta na sua justa confiança em aproximar-se de Deus em oração (Ef 3.12; Hb 4.16; 10.19; 1Jo 5.14) e, ao mesmo tempo, na sua intrepidez para falar livre, confiada e ousadamente de Cristo (At 2.29; 4.13,29,31; 9.27,28; 13.46; 14.3; 18.26; 19.8; 28.31; 2Co 3.12; Ef 6.19; 1Ts 2.2). Lembremo-nos, no entanto, que essa intrepidez é obra do Espírito Santo (At 4.13,29,31/1Ts 2.2).

 

Calvino, por sua vez, analisa a contrapartida dessa fidelidade, dizendo:

 

Da mesma forma, aqueles que têm fracassado em seus deveres têm também sua boca fechada e suas mãos atadas, e são incapazes de fazer tudo satisfatoriamente, de modo a não ser possível injetar-lhes qualquer confiança, nem tampouco outorgar-lhes qualquer autoridade.[5]

 

O diácono, como não poderia deixar de ser, no fiel exercício de seu ofício, amadurece em sua fé, tendo maior comunhão com Deus e segurança na proclamação do Evangelho. É praticamente impossível desenvolver qualquer trabalho da igreja de forma eficiente sem, ao mesmo tempo, amadurecer em nossa fé. O diácono no exercício de seu ofício, descobre de forma gradativa e intensiva o quanto depende da misericórdia divina. O fundamento desta firme ousadia é a fé, que é originária de Deus e nele, somente nele dever ser depositada.

 

Maringá, 22 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “Não se vendem cinco pardais por dois asses? Entretanto, nenhum deles está em esquecimento (e)pilanqa/nomai) diante de Deus” (Lc 12.6).

[2] Sl 65.11.

[3] Derek Kidner, Salmos 1-72: introdução e comentário, São Paulo: Mundo Cristão/Vida Nova, 1980, v. 1, (Sl 65.11), p. 254.

[4]João Calvino, As Pastorais, (1Tm 3.13), p. 95.

[5]João Calvino, As Pastorais, (1Tm 3.13), p. 95.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (48)

 

Lloyd-Jones (1899-1981) comenta: [1]

 

Somente maridos e mulheres cheios do Espírito, é que terão uma verdadeira ideia do que um esposo deve ser e do que uma esposa deve ser, e em que deve consistir o relacionamento entre ambos. É o único meio pelo qual obter paz, unidade e concórdia, em vez de desunião, briga e separação, com tudo que resulta desses males.

 

Paulo é enfático: “Ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta (e)ktre/fw) (nutrir, sustentar) e dela cuida (qa/lpw) (aquecer, acalentar,[2] cuidar com afeição e carinho, acariciar[3]), como também Cristo[4]  o faz com a igreja” (Ef 5.29).

 

Outro ponto destacado por Paulo associado ao enchimento do Espírito, é que os pais deveriam educar os filhos dentro dos princípios bíblicos. Não devemos nos esquecer de que a Bíblia também é a verdade no campo educacional. Ela deve ser a norma de todo o nosso pensar e agir. O propósito da educação bíblica é nos conduzir à maturidade, conforme a imagem de Cristo.[5]

 

Como pais, temos também a responsabilidade de não provocar a ira de nossos filhos com um comportamento que reflita o equívoco de predileções, falta de apoio, menosprezo, provocações, ironias, excesso de proteção etc.[6] (Cl 3.21; Gn 25.28; 37.3,4; 2Sm 14.13,28; 1Rs 1.6; Hb 12.9-11). A palavra “criai-os” (e)ktre/fw)[7](Ef 6.4) em contraposição à “ira”, indica que devemos criá-los ternamente, com brandura e amor, sem contudo, excluir a disciplina (paidei/a) e admoestação (nouqesi/a)[8] no Senhor.

 

Calvino recomenda aos pais: “Tratem-nos com a brandura e a bondade adequadas à personalidade de cada um deles”.[9] Notemos que o caráter de toda a educação e disciplina de nossos filhos – por meio de palavras e atos – é no Senhor. “O que caracteriza a criação cristã não é o método educacional, mas, sim, o propósito que se visa com ele”.[10] A educação cristã visa conduzir a criança ao Senhor.

 

A admoestação (nouqesi/a) apresenta a ideia de educar por meio da palavra, usando deste recurso para aconselhá-lo, estimulá-lo e encorajá-lo quando for o caso e, também, se necessário, fazer uso do mesmo meio para censurar, reprovar e repreender com firmeza (Compare: 1Sm 2.24/1Sm 3.13).       Paulo diz que passou três anos em Éfeso não deixando incessantemente de “admoestar (nouqete/w),[11] com lágrimas, a cada um” (At 20.31).

 

A disciplina (paidei/a) é uma palavra mais ampla, abrangendo a educação não apenas verbal mas, também, por intermédio de atos que podem envolver rigidez com o objetivo de corrigir e ensinar.[12] Notemos, que a disciplina sendo mais abrangente – envolvendo a instrução e correção –, vinha primeiro. Já a admoestação parece ser após a execução da tarefa. Primeiro instruímos; depois, se necessário, exortamos e repreendemos ou, encorajamos conforme o comportamento do educando e as circunstâncias.

 

No Antigo Testamento, Eli foi repreendido por Deus porque os seus filhos que transgrediam a Lei (1Sm 2.22-25), não foram admoestados por ele: “Porque já lhe disse que julgarei a sua casa para sempre, pela iniquidade que ele bem conhecia, porque seus filhos se fizeram execráveis, e ele não os repreendeu (nouqete/w) (1Sm 3.13). Salomão por sua vez, instrui: “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina (LXX: paidei/a) a afastará dela” (Pv 22.15).

 

Calvino (1509-1564) comenta:

 

O tratamento bondoso e liberal conserva a reverência dos filhos para com seus pais, e aumenta a prontidão e a alegria de sua obediência, enquanto que uma severidade austera e inclemente suscita sua obstinação e destrói seu respeito.

 

Mais à frente continua:

 

Deus não quer que os pais sejam excessivamente brandos com seus filhos, ao ponto de corrompê-los, poupando-os demais. Que sua bondade seja temperada, a fim de conservá-los na disciplina do Senhor, e corrigi-los também quando se desviarem. Essa idade requer frequente admoestação e firmeza com as rédeas, no caso de se soltarem.[13]

 

A Palavra é a fonte de onde parte todo o ensino cristão. Paulo, inspirado por Deus, escreve: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16-17).

 

O “proveitoso”, tem a ver com o objetivo de Deus para o Seu povo: que tenha uma vida piedosa e santa; seja maduro (perfeito).[14]

 

A maneira de o diácono governar a sua casa é um sintoma da sua capacitação ou não para exercer o seu ofício. Juntamente com sua família, ele deve se constituir num exemplo de vida cristã.

 

Portanto, podemos tomar como exemplo desse bom governo familiar o que Paulo prescreveu aos efésios (Ef 5.25-31; 6.4). Quem segue aquele padrão, certamente estará governando bem a sua família.

 

 

Maringá, 22 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] D.M. Lloyd-Jones, Vida no Espírito, p. 21.

[2] Conferir, entre outros: William F. Arndt; F. Wilbur Gingrich A Greek-English Lexicon of the New Testament, Chicago: The University of Chicago Press, 1957, p. 351

[3] 1Ts 2.7.

[4] Aqui há uma variante textual que em nada modifica o sentido ou a teologia do texto. Em muitos manuscritos aparece a palavra Ku/rioj.

[5] Veja-se: Perry G. Downs, Introdução à Educação Cristã: Ensino e Crescimento, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, p. 17.

[6] Hendriksen faz uma lista de erros comuns cometidos pelos pais. Veja-se: William Hendriksen, Exposição de Efésios, (Ef 6.4), p. 325-326.

[7] Ocorre apenas duas vezes no NT., unicamente em Efésios: 5.29 e 6.4. A palavra apresenta a ideia de alimentar, sustentar, nutrir, educar. Calvino diz que este verbo “inquestionavelmente comunica a ideia de gentileza e afabilidade” (João Calvino, Efésios, (Ef 6.4), p. 181).

[8] Ocorre três vezes no NT.: 1Co 10.11; Ef 6.4; Tt 3.10.

[9]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 1, (III.68), p. 207. Em outro lugar e de forma mais genérica, escreveu: “A prudência, pois, aconselha que adequemos nossas instruções ao estado existencial de cada pessoa” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998 (Tt 2.10), p. 333).

[10] F. Selter, Exortar: In: Colin Brown, ed. ger. Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1982, v. 2, p, 176.

[11] * At 20.31; Rm 15.14; 1Co 4.14; Cl 1.28; 3.16; 1Ts 5.12,14; 2Ts 3.15. A prática da admoestação deve ser natural entre os crentes visando à sua correção (Rm 15.4; 1Ts 5.14; 2Ts 3.15) e aperfeiçoamento (Cl 1.28); no entanto ela deve ser feita com amor (1Co 4.14; 2Ts 3.15) e sabedoria (Cl 3.16). Considerando que esta é também uma tarefa dos líderes da igreja, aqueles que se esforçam neste serviço devem ser estimados pela igreja (1Ts 5.12).

[12] Platão (427-347 a.C.) faz também a combinação de Paidei/a com Nouqesi/a, sendo traduzidas por “ensinamento e admoestação” (Platão, A República, 399b. Fundação Calouste Gulbenkian p. 128). Veja-se: Richard C. Trench, Synonyms of the New Testament, 7. ed. London: Macmillan and Co. 1871, § xxxii, p. 104-108.

[13] João Calvino, Efésios, (Ef 6.4), p. 181.

[14] J. Calvino, As Pastorais, (2Tm 3.16-17), p. 264.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (47)

5.12. Seja marido de uma só mulher

 “O diácono seja marido de uma só mulher e governe bem seus filhos e a própria casa” (1Tm 3.12).

 

Aqui não se estabelece uma regra dizendo que os diáconos devem ser casados. A questão civil não parece estar em foco. O que se diz é que eles, sendo casados, devem ser “maridos de uma só mulher”, devotado a ela com exclusividade em seu amor conjugal, carinho e cuidado.

 

Portanto, aqui não se cogita da questão da poligamia, visto que um polígamo, nem sequer poderia ser membro da igreja.

 

Contudo, devemos nos lembrar, que mesmo as Escrituras combatendo tal prática (Gn 2.24; Mt 19.5-6; Mc 10.6-9; Ef 5.31), a poligamia era praticada no primeiro século, inclusive entre os judeus.

 

Além do mais, não devemos nos esquecer de que os pecados sexuais eram comuns por parte de judeus e de gentios (Rm 1.27; 7.3; 1Co 5.1,8; 6.9-11; 7.2; Gl 5.19; 1Tm 4.3-8). O que Paulo está dizendo, é que tanto o bispo (= presbítero) (1Tm 3.2) como o diácono (1Tm 3.12) “deve ser um homem de moralidade inquestionável, que seja inteiramente fiel e leal à sua única e exclusiva esposa; que, sendo casado, não se põe, segundo o costume dos pagãos, em uma relação imoral com outra mulher”.[1]

 

5.13. Que governe bem seus filhos e sua própria casa

 

Em seu próprio lar, o pai da família é considerado o rei. Portanto, ele reflete a glória de Deus, por causa do controle que se acha em suas mãos. (…) Se o homem não conserva sua posição, e não se põe sob a autoridade de Cristo, de maneira a exercer sua própria autoridade na chefia de sua família, ele está, em certo sentido, obscurecendo a glória de Cristo, a qual é refletida na ordem bem constituída do matrimônio. – João Calvino.[2]

 

“O diácono seja marido de uma só mulher e governe (proi/sthmi) (= liderar, dirigir, proteger) bem (kalw=j) seus filhos e a própria casa” (1Tm 3.12).

 

O governo de sua família deve ser bom. A palavra tem o sentido de algo essencialmente bom, tendo como ingrediente, o senso de honradez e beleza. O diácono deve ser um bom pai e marido. A sua direção deve ser conduzida com dignidade, não simplesmente pela força. Essa liderança deve ser no Senhor; ou seja, conforme os preceitos bíblicos.

 

Dediquemos um pouco mais de espaço a esse assunto.

 

Em nossa época, quando o padrão bíblico de família – mesmo no seu sentido mais elementar e natural, como constituído de um homem e uma mulher – tem sido esquecido, desprezado e vilipendiado, tendo como propósito fazer ruir os valores éticos da sociedade e, assim, torná-la mais vulnerável a todo tipo de absolutismo, a responsabilidade do marido tem sido escanteada e escarnecida sem nenhum pejo.

 

Hendriksen (1900-1982) faz um comentário pertinente: “Nenhuma instituição sobre a face da terra é tão sagrada quanto a família. Nenhuma é tão básica. Segundo a atmosfera moral e religiosa da família, assim será na igreja, na nação e na sociedade em geral”.[3]

 

Concentremos a nossa atenção na família cristã, já que está é constituída por pessoas que amam a Deus e desejam obter uma maior compreensão do propósito de Deus expresso em sua Palavra (Ef 5.17).[4]

 

O enchimento do Espírito pressupõe o selo e o batismo definitivos do Espírito. Por isso mesmo, não se confunde com eles (Ef 1.13; 4.30; 1Co 12.13).[5] O batismo e o selo do Espírito são realidades efetivas para todos os crentes em Cristo;[6] já o enchimento é um dever de cada cristão que reconhece a sua eleição eterna para a salvação em santificação (Ef 1.4/2Ts 2.13).

 

A plenitude do Espírito, à qual todos os crentes devem buscar (Ef 5.18), também traz responsabilidades para os homens na condição de maridos e pais. Os princípios da Palavra de Deus são sempre amplos e multifacetados. As suas prescrições nunca são isoladas, casuísticas, ou apenas caminham em mão única. Antes, estabelecem orientações para todos, seja em que área for, em quaisquer situações que nos encontremos.

 

A história bíblica é uma demonstração prática de quão a sério devemos considerar as Escrituras, já que nas suas narrativas gradativamente vamos percebendo os frutos de uma vida que tem apreço por obedecer a Deus e os resultados da desobediência à Lei do Senhor.

 

Os mandamentos de Deus corretamente entendidos e praticados, não são penosos, ainda que amiúde nos deparemos com dificuldades resultantes dos nossos pecados (inclusive a falta de fé) e de outros, daí o exercício constante do aprendizado com Deus por intermédio da sua Palavra, que é suficiente para nos instruir, corrigir e educar (2Tm 3.16).

 

Portanto, quando esposas e maridos cumprem adequadamente os preceitos bíblicos, estes deveres passam a ser privilégios, motivos de satisfação, harmonia e crescimento para ambos.

 

Os maridos são comparados a Cristo, que se deu pela Igreja para preservá-la e, continuamente dela cuida, auxiliando-a inclusive, em sua santificação. Cabe aos maridos amar as suas esposas de forma que procure sempre o seu bem-estar, dispostos ao sacrifício se necessário para que o objeto do seu amor permaneça saudável seja em que aspecto for. “É somente quando compreendemos a verdade sobre a relação de Cristo com a Igreja, que podemos realmente agir como os maridos cristãos devem agir”, acentua Lloyd-Jones.[7]

 

Aqui, surge um outro ponto: quando o marido assim procede para com a sua esposa, quando ele consegue sair de si mesmo para objetivar prioritariamente o seu amor, está cuidando de si mesmo; os dois são uma só carne e, é impossível ser feliz fazendo o outro infeliz. Daí percebermos a relação essencial dos dois princípios: a mulher é submissa e respeita o seu marido que a quer feliz e dela cuida prioritariamente.

 

O marido, por sua vez, esquece-se de si em prol de sua esposa que, por ser-lhe submissa, está sempre à procura de melhor agradar-lhe. Assim, as Escrituras apresentam uma cadeia perfeita de relação: ambos são uma só carne, que se ama, preserva e protege. Deste ponto, fica ainda mais evidente as dificuldades inerentes a um matrimônio com jugo desigual (2Co 6.14-18).[8]

 

Maringá, 22 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1]William Hendriksen, 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, (1Tm 3.2-7), p. 153. Veja-se: Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 769. Para um panorama das interpretações, consulte: Gordon D. Fee,  Novo Comentário Bíblico Contemporâneo: 1 e 2 Timóteo, Tito, Deerfield, Florida: Vida, 1994, p. 91-92.

[2] João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 11.4), p. 331.

[3]William Hendriksen, Exposição de Efésios, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, (Ef 5.22), p. 308.

[4] É necessário discernimento para interpretar as doutrinas que nos são transmitidas a fim de saber se são de Deus ou não (Jo 7.17). Portanto, devemos desejar conhecer a vontade de Deus (Ef 5.17). Paulo orava para que os colossenses “transbordassem” (plhrwqh=te). A voz passiva indica aqui a ação de Deus; para que ”Deus encha vocês” deste genuíno conhecimento (Cl 1.9/Cl 4.12/Hb 13.21).

[5]“Em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa” (Ef 1.13). “E não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção” (Ef 4.30). “Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito” (1Co 12.13).

[6]“A essência do cristianismo é que o Espírito Santo nos é dado, está em nós, quer tenhamos consciência dele quer não” (D. Martyn Lloyd-Jones, O combate cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 123).

[7]D.M. Lloyd-Jones, Vida No Espírito: no casamento, no lar e no trabalho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 108.

[8] Admito que o texto de 2 Coríntios não esteja se referindo diretamente ao matrimônio; no entanto, temos de convir que este assunto ali está incluído (Veja-se: João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995,especialmente p. 139).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (46)

5.11. Sejam primeiramente experimentados

 “Também sejam estes primeiramente experimentados (dokima/zw); e, se se mostrarem irrepreensíveis (a)ne/gklhtoj) (= inculpável), exerçam o diaconato” (1Tm 3.10).

O verbo tem o sentido de provar,[1] examinar,[2] experimentar,[3] aprovar,[4] julgar,[5]apurar,[6] interpretar,[7] discernir.[8] O verbo está no imperativo presente, indicando a necessidade contínua do diácono e seu trabalho serem avaliados.

Os desafios são múltiplos. Portanto, faz-se necessário  um contínuo exame de suas atitudes, quer antes de ser eleito, quer depois, já no exercício de seu ofício.

Quero pontuar algumas questões. Submeter continuamente o diácono à prova não visa fazê-lo tropeçar, antes estimular o seu crescimento. A prova visa ao crescimento e amadurecimentos desses irmãos para que possam crescer em sua fé e edificar a igreja dentro de sua esfera de serviço.

A palavra dokima/zw era aplicada para se referir ao teste dos metais preciosos para avaliar a sua qualidade, ressalta o aspecto positivo de “provar” para “aprovar”, indicando a genuinidade do que foi testado (2Co 8.8; 1Ts 2.4).[9]

Calvino comenta:

Numa palavra, a designação de diáconos não deve consistir de escolha precipitada e fortuita de alguém que se encontra à mão, senão que a escolha deve ter por base homens que se recomendem por sua anterior maneira de viver, de tal forma que, depois de serem submetidos a um interrogatório, sejam investigados profundamente antes que sejam declarados aptos.[10]

A conduta do diácono deve ser tão boa que ninguém tenha do que o acusar; seja irrepreensível (a)ne/gklhtoj)[11] (1Tm 3.10). Este reconhecimento deve ser por parte da Igreja e também dos “de fora” (1Tm 3.7).

Na constituição de diáconos não é necessário ter uma pressa que atropelaria todo o processo. O senso de urgência é proveitoso dentro do que é pela sua própria natureza urgente. Fora disso a nossa urgência pode não passar de precipitação. Muitas vezes é preciso ir devagar porque temos pressa.

Muitas congregações na pressa de se organizarem como igreja local, em busca de sua “autonomia”, têm se precipitado. Elas têm propriedade adequada, número de pessoas suficientes e condições financeiras para se tornarem igrejas, contudo, não têm irmãos habilitadas para o diaconato, o presbiterato e para assumir a liderança da igreja em cargos chaves. Desta forma, há uma precipitação que vai comprometer a sua constituição. Deus sabe os prejuízos que isto poderá trazer ao seu crescimento espiritual. Igrejas com pessoas imaturas espiritualmente ‒ independentemente de sua idade, funções e prestígio que possam ter granjeado em nível social, intelectual ou econômico ‒ trazem males sem conta à vida da igreja e, com frequência, doenças crônicas dificilmente resolvidas ao longo da história. Por vezes o fascínio pelas estatísticas ou desejos políticos de criações de novos presbitérios – com a consequente “maior representatividade” política – contribuem para esse mal. Que Deus tenha misericórdia de todos nós.

Maringá, 22 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] 1Co 3.13; 2Co 8.8; 13.5; Gl 6.4; 1Jo 4.1.

[2] 1Co 11.28.

[3] Lc 14.19; Rm 12.2; 2Co 8.22.

[4] Rm 2.18; 14.22; Fp 1.10.

[5] 1Ts 5.21.

[6] 1Pe 1.7.

[7] Lc 12.56.

[8] Lc 12.56.

[9] Para um estudo mais detalhado da palavra, vejam-se: H. Seesemann, peira/w: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 6, p. 23; H. Haarbeck, Tentar (dókimos):  In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 4, p. 599; Richard C. Trench, Synonyms of the New Testament, Grand Rapids, Michigan:  Eerdmans, 1985 (Reprinted), p. 278ss.; Hermisten M.P. Costa, O Pai Nosso, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001.

[10]João Calvino, As Pastorais, (1Tm 3.10), p. 94.

[11] *1Co 1.8; Cl 1.22; Tt 1.6,7.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (45)

5.10. Deve conservar o mistério da fé com a consciência limpa

“Conservando o mistério (musth/rion)[1] da fé com a consciência limpa” (1Tm 3.9).

 

No Novo Testamento, “Mistério da fé” nada tem a ver com conhecimento esotérico, secreto, conhecido apenas por uma casta especial, sendo adquirido progressivamente por meio da filosofia (Platão),[2] ou, conforme a etimologia da palavra, “fechar a boca”, relacionando-se ao que não pode ser dito ou pronunciado, antes, se refere às verdades que ainda permaneciam sombreadas no Antigo Testamento, mas, que agora foram reveladas de forma cabal em Cristo (Mt 13.11; Mc 4.11; Lc 8.10).[3]

 

Paradoxalmente, no Novo Testamento, mistério é aquilo que fora oculto, mas agora é revelado. O que só pode ser conhecido por revelação (Rm 11.25; 16.25; Cl 2.2; 4.3).[4]

 

Mistério envolve o Conselho de Deus oculto, agora soberana e graciosamente revelado. O mistério revelado e compreendido, é uma concessão da graça (Mt 13.11). Somente quem nascer de novo pode ver e entrar no Reino (Jo 3.3,5). Essa é também uma ação sobrenatural da graça de Deus (Tt 3.5).[5]

 

Assim, o mistério da fé, que é o Evangelho, abrange – entre outras coisas – a encarnação, a cruz de Cristo, o propósito eterno de Deus e a igreja constituída de judeus e gentios (Ef 1.9; 3.1-11; 5.32; 6.19; Cl 1.24-27; 1Tm 3.16).[6]

 

Comentando o texto de nosso estudo, Calvino faz uma paráfrase: “Conservando pura a doutrina de nossa religião, e isso de todo o nosso coração e com sincero temor a Deus, os homens que são ricamente instruídos na fé não devem ser ignorantes de nada que seja necessário a um cristão conhecer”.[7]

 

O diácono deve conservar-se firme na revelação graciosa de Deus (Rm 16.25,26):[8] Jesus Cristo, “manifestado em carne” (1Tm 3.16; Cl 4.3)[9] –, com a consciência pura, sem contaminação intelectual, moral e espiritual.

 

Os diáconos necessitam conhecer as verdades essências do Evangelho. Apenas a conservação do “mistério da fé” geraria um conhecimento árido, infrutífero e, terminaria por se tornar arrogante.

 

Paulo, sempre serviu ao Senhor com uma consciência pura (2Tm 1.3).[10] Porém, muitas vezes de forma equivocada, perseguiu severamente a igreja de Deus. A pureza de consciência deve ser buscada e preservada. No entanto, o elemento avaliador deve ser a Palavra de Deus a fim de que, mesmo trabalhando com sinceridade e integridade, pensando estar prestando um serviço a Deus, não laboremos em erro.

 

Uma boa consciência destituída de conhecimento bíblico, – da fé professada pela igreja – poderá conduzir o diácono, sem perceber, a estimular a ociosidade de alguns irmãos que, na fragilidade de sua fé e na pequena extensão de seus braços, reforçados por uma cultura que favorece a vitimização que estimula a distribuição do que é dos outros a fim de garantir o que é seu, estão abusando da ingenuidade do diácono e da generosidade da igreja. Também, poderá, por excesso de rigor, faltar na tolerância bíblica que pode ser um elemento importante para, com paciência e firmeza, conduzir irmãos imaturos à pureza por meio da obediência à verdade (1Pe 1.22; 1Tm 1.5).[11]

 

Por outro lado, apenas a “consciência limpa”, no desempenho de um ofício tão grave, acarretaria uma superficialidade doutrinária sem nenhum conhecimento do verdadeiro significado da fé. Isso terminaria por redundar em atitudes equivocadas que trariam malefícios à igreja. A obediência cristã deve estar associada a esse conhecimento. É dessa forma que Paulo conclui a carta aos Romanos:

 

25 Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério (musth/rion) guardado em silêncio nos tempos eternos, 26 e que, agora, se tornou manifesto e foi dado a conhecer por meio das Escrituras proféticas, segundo o mandamento do Deus eterno, para a obediência por fé, entre todas as nações,  27 ao Deus único e sábio seja dada glória, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos. Amém! (Rm 16.25-27).

Calvino comenta:

 

[Paulo] quer que os diáconos sejam bem instruídos no “mistério da fé”, porque, embora não desempenhem o ofício docente, seria completo absurdo que exercessem um ofício público na Igreja e fossem completamente ignorantes na fé cristã, especialmente porque mui amiúde ministram conselhos e conforto a outros, caso não queiram negligenciar seus deveres. Ele adiciona ainda: numa consciência íntegra, a qual se estende por toda a sua vida, mas tem especial referência ao seu conhecimento de como servir a Deus.[12]

Maringá, 22 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1] Para um estudo mais detalhado da palavra, vejam-se: G. Bornkamm, Musth/rion, etc.: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 4, p. 802-828; G. Finkenrath, Segredo, etc.: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 4, p. 389-393; H. Krämer, Musth/rion:  Horst Balz; Gerhard Schneider, eds. Exegetical Dictionary of New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1978-1980, v. 2, p. 446-449; W.L. Liefeld, Mistério:  In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 4, p. 302-306.

[2] Cf. Platão, Fedro, 249c-d: In:  Diálogos: Mênon-Banquete e Fedro, Rio de Janeiro Tecnoprint, [s.d.). Veja-se de forma complementar: Platão, O Banquete, 210a-212c: In:  Diálogos: O Banquete – Fédon – Sofista – Político, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, v. 3), 1972.

[3]“Ao que respondeu: Porque a vós outros é dado conhecer os mistérios (musth/rion) do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isso concedido” (Mt 13.11). “Ele lhes respondeu: A vós outros vos é dado conhecer o mistério (musth/rion) do reino de Deus; mas, aos de fora, tudo se ensina por meio de parabolas” (Mc 4.11). ”Respondeu-lhes Jesus: A vós outros é dado conhecer os mistérios  (musth/rion) do reino de Deus; aos demais, fala-se por parábolas, para que, vendo, não vejam; e, ouvindo, não entendam” (Lc 8.10).

[4]“Porque não quero, irmãos, que ignoreis este mistério (musth/rion) (para que não sejais presumidos em vós mesmos): que veio endurecimento em parte a Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios” (Rm 11.25). “Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério (musth/rion) guardado em silêncio nos tempos eternos” (Rm 16.25). “Para que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor, e eles tenham toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério (musth/rion) de Deus, Cristo” (Cl 2.2).  “Suplicai, ao mesmo tempo, também por nós, para que Deus nos abra porta à palavra, a fim de falarmos do mistério (musth/rion) de Cristo, pelo qual também estou algemado” (Cl 4.3).

[5]“Não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tt 3.5).

[6]“Desvendando-nos o mistério (musth/rion) da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo” (Ef 1.9). 1 Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Cristo Jesus, por amor de vós, gentios,  2 se é que tendes ouvido a respeito da dispensação da graça de Deus a mim confiada para vós outros;  3 pois, segundo uma revelação, me foi dado conhecer o mistério (musth/rion), conforme escrevi há pouco, resumidamente;  4 pelo que, quando ledes, podeis compreender o meu discernimento do mistério (musth/rion) de Cristo,  5 o qual, em outras gerações, não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, como, agora, foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas, no Espírito,  6 a saber, que os gentios são coherdeiros, membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho;  7 do qual fui constituído ministro conforme o dom da graça de Deus a mim concedida segundo a força operante do seu poder.  8 A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo  9e manifestar qual seja a dispensação do mistério (musth/rion), desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas,  10 para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais,  11 segundo o eterno propósito que estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Ef 3.1-11). “Grande é este mistério (musth/rion), mas eu me refiro a Cristo e à igreja” (Ef 5.32). “E também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério (musth/rion) do evangelho” (Ef 6.19). “24 Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja;  25 da qual me tornei ministro de acordo com a dispensação da parte de Deus, que me foi confiada a vosso favor, para dar pleno cumprimento à palavra de Deus:  26 o mistério (musth/rion)que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos;  27 aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério (musth/rion) entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1.24-27). “Evidentemente, grande é o mistério (musth/rion) da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória” (1Tm 3.16).

[7]João Calvino, As Pastorais, (1Tm 3.9), p. 93.

[8]25 Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério (musth/rion) guardado em silêncio nos tempos eternos,  26 e que, agora, se tornou manifesto e foi dado a conhecer por meio das Escrituras proféticas, segundo o mandamento do Deus eterno, para a obediência por fé, entre todas as nações” (Rm 16.25-26).

[9]Suplicai, ao mesmo tempo, também por nós, para que Deus nos abra porta à palavra, a fim de falarmos do mistério (musth/rion) de Cristo, pelo qual também estou algemado (Cl 4.3).

[10]Dou graças a Deus, a quem, desde os meus antepassados, sirvo com consciência pura” (2Tm 1.3).

[11]“Tendo purificado a vossa alma, pela vossa obediência à verdade, tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos, de coração, uns aos outros ardentemente” (1Pe 1.22). “Ora, o intuito da presente admoestação visa ao amor que procede de coração puro, e de consciência boa, e de fé sem hipocrisia” (1Tm 1.5).

[12]João Calvino, As Pastorais, (1Tm 3.9), p. 93.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (44)

O piedoso Asa, rei de Judá, em situação difícil por causa das guerras constantes contra Israel, compra a lealdade de Ben-Hadade, rei da Síria, em oposição a Baasa, rei de Israel:

 

19 Haja aliança entre mim e ti, como houve entre meu pai e teu pai. Eis que te mando um presente (dx;v;) (shahad), prata e ouro; vai e anula a tua aliança com Baasa, rei de Israel, para que se retire de mim.  20 Ben-Hadade deu ouvidos ao rei Asa e enviou os capitães dos seus exércitos contra as cidades de Israel; e feriu a Ijom, a Dã, a Abel-Bete-Maaca e todo o distrito de Quinerete, com toda a terra de Naftali (1Rs15.19-20).

 

Do mesmo modo procedeu o pragmático Acaz em relação à Tiglate-Pileser, rei da Assíria, quando se viu em apuros diante da Síria e de Israel:

 

7 Acaz enviou mensageiros a Tiglate-Pileser, rei da Assíria, dizendo: Eu sou teu servo e teu filho; sobe e livra-me do poder do rei da Síria e do poder do rei de Israel, que se levantam contra mim.  8 Tomou Acaz a prata e o ouro que se acharam na Casa do SENHOR e nos tesouros da casa do rei e mandou de presente (dx;v;) (shahad) ao rei da Assíria (2Rs 16.7-8).

 

O homem perverso tem prazer em torcer o juízo. Ele não se compraz no que é direito: “O perverso aceita suborno (dx;v;) (shahad) secretamente, para perverter as veredas da justiça” (Pv 17.23).

 

Por meio de Isaías e Miquéias, Deus demonstra como no 8º século a.C, a moralidade tornara-se baixa em Israel, estando os príncipes, juízes e sacerdotes, todos agindo por interesses, corrompendo a prática da justiça:

 

Os teus príncipes são rebeldes e companheiros de ladrões; cada um deles ama o suborno (dx;v;) (shahad) e corre atrás de recompensas (~ynImol.v;) (shalmon) (suborno).[1] Não defendem o direito do órfão, e não chega perante eles a causa das viúvas (Is 1.23/Is 5.23).

 

Os líderes além de só pensarem nos seus interesses, blasfemavam o nome de Deus, demonstrando nenhum respeito para com Ele e à Sua Lei. Todo o sistema religioso e jurídico estava corrompido. Por intermédio de Miquéias Deus os descreve:

 

Os seus cabeças dão as sentenças por suborno (dx;v;) (shahad), os seus sacerdotes ensinam por interesse, e os seus profetas adivinham por dinheiro; e ainda se encostam ao SENHOR, dizendo: Não está o SENHOR no meio de nós? Nenhum mal nos sobrevirá (Mq 3.11).

 

Aqui Deus está anunciando o cativeiro que viria se o povo não se arrependesse.

 

O povo foi para o cativeiro:

 

11O rei da Assíria transportou a Israel para a Assíria e o fez habitar em Hala, junto a Habor e ao rio Gozã, e nas cidades dos medos;  12 porquanto não obedeceram à voz do SENHOR, seu Deus; antes, violaram a sua aliança e tudo quanto Moisés, servo do SENHOR, tinha ordenado; não o ouviram, nem o fizeram  (2Rs 18.11-12).

 

A prática do suborno confere ao homem a sensação de ser senhor da história. Na pressuposição de que todos têm seu preço, posso reger o meu destino. Assim, raciocina: O importante é descobrir o preço de cada um. Desse modo, meus recursos se constituem em meu Deus por meio do qual manipulo quaisquer situações adversas. O meu poder de persuasão, sedução, barganha e compra é a minha lei. A soberania de Deus é banida; o seu trono e cetro me pertencem. Desta forma, pensa poder dizer: “As minhas mãos dirigem meu destino”. Fútil e perigosa ilusão. Deus continua no controle. Vê todas as coisas, e não se agrada dessa prática.

 

O que Deus condena está tão bem sedimentado e, às vezes, até mesmo legalizado em nossa sociedade que nós já até consideramos tais práticas em nossos planejamentos e expectativas. Já ouviram falar em “custo Brasil”?

 

Stott (1921-2011) escreve: “A cultura do mundo e a contracultura de Cristo estão em total desarmonia uma com a outra. Resumindo, Jesus parabeniza aqueles que o mundo mais despreza, e chama de ‘bem aventurados’ aqueles que o mundo rejeita”.[2]

 

De fato, o caminho do mal sempre parece ser mais eficaz e rápido. Ele tende a nos fascinar pelo resultado mais fácil e imediatamente compensador. Tendemos a associar o que funciona com a verdade, nos esquecendo de que a verdade funciona, porém, nem tudo que funciona é verdadeiro.

 

No entanto, Deus nos propõe caminhos de vida, de integridade, honestidade e princípios (Is 33.15).[3] O sucesso não pode ser considerado apenas à luz do tempo breve ou longo, antes, a partir da eternidade.

 

A instrução preventiva de Deus contra tais tentações e, ao mesmo tempo, como expressão de confiança e amadurecimento na fé, é-nos transmitida por Jesus Cristo:

 

31 Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos?  32 Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; 33 buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas (Mt 6.31-33).

 

Deus nos fornece princípios que permanecem. Contudo, se tornarão plenamente evidentes na eternidade. Se quisermos habitar na casa do Senhor sigamos as normas, os princípios e os mandamentos deste mesmo Senhor. O usufruir da graça sem a busca da obediência é menosprezo para com a obediência de Cristo (2Co 6.1; Ef 2.8-10; Fp 2.5-8).[4] “Se desejamos que a obediência de Cristo nos seja proveitosa, então devemos imitá-la”, conclui Calvino.[5]

 

Retomando agora ao diaconato, vemos que no Novo Testamento Paulo preceitua: “Semelhantemente, quanto a diáconos, é necessário que sejam respeitáveis, de uma só palavra, não inclinados a muito vinho, não cobiçosos de sórdida ganância (Mh\ ai)sxrokerdh/j) (1Tm 3.8).

 

Mh\ ai)sxrokerdh/j[6] Tt 1.7/1Pe 5.2.[7] “Cobiçoso de lucro vergonhoso”; isto é, alguém que lucra desonestamente, adaptando, modificando o ensinamento aos interesses de seus ouvintes a fim de ganhar dinheiro deles. Também pode se referir ao envolvimento em negócios escusos.

 

O lucro em si não é pecaminoso; contudo, ele pode se tornar vergonhoso se a sua obtenção passar a ser o nosso objetivo primário, em detrimento da glória de Deus. Pedro contrapõe este sentimento à boa vontade (proqu/moj * 1Pe 5.2), que denota um zelo e entusiasmo devotados.

 

A ganância pode corromper qualquer ideal, por mais nobre que seja. Isso inclui, obviamente, o exercício de nosso ofício. As Escrituras nos advertem quanto a isso.

 

Os diáconos gozariam de respeito e admiração no seio da igreja; teria informações privilegiadas sob assuntos espirituais e, especialmente, materiais da igreja, incluindo finanças. Conheceria também a intimidade da vida de muitos de seus irmãos. Tudo isso junto, mixado em um coração ganancioso, lhe propiciaria, se caísse nessa tentação, atuar no tráfico de bens, benefícios e influências, esquecendo-se assim, da nobreza de seu ofício em socorrer os necessitados. Isso, obviamente, se tornar em algo perigo para a igreja em sua caminhada como povo de Deus. Por isso, precisamos olhar com seriedade esse princípio.

 

Não nos esqueçamos do princípio bíblico expresso em alguns textos, tais como 1Tm 6.10; Sl 62.10; Ec 5.10[8] e, do exemplo negativo já existente entre os falsos sacerdotes e profetas no Antigo Testamento e judaizantes contemporâneos do apóstolo (Tt 1.10,11/Mq 3.5,11).[9]

 

 

Maringá, 16 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] Esta forma só ocorre aqui.

[2]John R.W. Stott, A Mensagem do Sermão do Monte, 3. ed. São Paulo: ABU., 1985, p. 47.

[3]15 O que anda em justiça e fala o que é reto; o que despreza o ganho de opressão; o que, com um gesto de mãos, recusa aceitar suborno (dx;v;) (shahad); o que tapa os ouvidos, para não ouvir falar de homicídios, e fecha os olhos, para não ver o mal, 16 este habitará nas alturas; as fortalezas das rochas serão o seu alto refúgio, o seu pão lhe será dado, as suas águas serão certas(Is 33.15-16).

[4]E nós, na qualidade de cooperadores com ele, também vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus” (2Co 6.1). 8 Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; 9não de obras, para que ninguém se glorie. 10Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.8-10). 5Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, 6pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; 7antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, 8a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.5-8).

[5] João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 5.9), p. 138.

[6]Ai)sxro/j = indecoroso, torpe, indecente. * Tt 1.11 & ke/rdoj = lucro, ganho. “Não tenha sórdida cobiça por lucro”. *1Tm 3.8; Tt 1.7.

[7] A palavra usada por Pedro, só ocorre aqui: ai)sxrokerdw=j, que significa “lucro vergonhoso”, “ambiciosamente”. Ela é da mesma raiz de ai)sxrokerdh/j.

[8] “Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores” (1Tm 6.10). “Não confieis naquilo que extorquis, nem vos vanglorieis na rapina; se as vossas riquezas prosperam, não ponhais nelas o coração” (Sl 62.10). “Quem ama o dinheiro jamais dele se farta; e quem ama a abundância nunca se farta da renda; também isto é vaidade” (Ec 5.10).

[9]10Porque existem muitos insubordinados, palradores frívolos e enganadores, especialmente os da circuncisão. 11É preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância” (Tt 1.10-11).5Assim diz o SENHOR acerca dos profetas que fazem errar o meu povo e que clamam: Paz, quando têm o que mastigar, mas apregoam guerra santa contra aqueles que nada lhes metem na boca. (…) 11 Os seus cabeças dão as sentenças por suborno, os seus sacerdotes ensinam por interesse, e os seus profetas adivinham por dinheiro; e ainda se encostam ao SENHOR, dizendo: Não está o SENHOR no meio de nós? Nenhum mal nos sobrevirá” (Mq 3.5,11).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (43)

5.9. “Não cobiçosos de sórdida ganância”

 

 No Salmo 15 – quando Deus estabelece condições para habitarmos para sempre em sua companhia – entre os princípios, prescreve: “O que não empresta o seu dinheiro com usura, nem aceita suborno (dx;v;) (shahad) (= presente, dádiva, incentivo) contra o inocente. Quem deste modo procede não será jamais abalado” (Sl 15.5).[1]

 

O suborno, uma prática tão comum na antiguidade,[2] não sendo comum leis contra esse costume de “reciprocidade”,[3] recebe tratamento diferente nas páginas do Antigo Testamento em diversos lugares.

 

O fundamento desta perspectiva jaz em Deus, Aquele que é justo e reto, não sendo subornável:

 

Pois o SENHOR, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno  (dx;v;) (shahad); que faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestes (Dt 10.17-18).

 

Josafá quando nomeia juízes em Judá, os instrui mostrando que eles eram agentes de Deus, devendo, portanto, obedecer ao padrão de Deus. Então lhes diz:

 

Vede o que fazeis, porque não julgais da parte do homem, e sim da parte do SENHOR, e, no julgardes, ele está convosco. Agora, pois, seja o temor do SENHOR convosco; tomai cuidado e fazei-o, porque não há no SENHOR, nosso Deus, injustiça, nem parcialidade, nem aceita ele suborno (dx;v;) (shahad) (2Cr 19.6-7).

 

O fato é que os princípios éticos de um povo nunca estarão em um nível superior ao da sua religião. A religião como produto cultural expressará sempre os limites subjetivos do real e, consequentemente, os anseios de um povo que se materializarão em sua forma de construir o seu mundo real. A cultura é um forte reflexo desses aspectos, tendo a religião como forte ingrediente norteador e fomentador.[4]

 

A fé cristã, no entanto, parte de um Deus transcendente, pessoal e que se revela. O Deus que fala e age, sendo o seu agir uma forma do seu falar. Fomos criados à sua imagem.  Deus cria do nada. Nós, do nada, nada criamos, contudo remodelamos as formas atribuindo sentido imaginativo e imitativo à Criação, fazendo o que é-nos próprio na condição de imagem.[5]  O nosso trabalho encontra o seu modelo em Deus, aquele que o inspira pelo seu testemunho e ensino, colocando em nós o senso de beleza e o apelo estético: 9Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. (…) 11 porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há…” (Êx 20.9,11).[6]

 

Deus é santo. Por meio de sua Palavra Ele exige de seu povo santidade.[7] A justiça é uma das expressões da santidade. Por isso, Deus instrui aos juízes a fim de que não fossem passionais e interesseiros na formulação de seus juízos, o que os impediriam de enxergar com clareza a causa proposta.

 

O suborno corrompe o que o homem tem de mais íntimo, sendo a sede de sua razão, emoção e vontade: seu coração: “Verdadeiramente, a opressão faz endoidecer até o sábio, e o suborno  (hn”T’m;) (mattanah) (dádiva, presente)[8] corrompe o coração” (Ec 7.7).

 

O suborno perverte a própria essência da prática da justiça, fazendo com o que o subornado, avance ainda mais, elaborando discursos para justificar e legitimar os seus atos: “Também suborno (dx;v;) (shahad) não aceitarás, porque o suborno (dx;v;) (shahad) cega até o perspicaz e perverte as palavras dos justos” (Ex 23.8). De fato, quão difícil é julgar a matéria em si, sem outros interesses e “estado de espírito”.

 

O presente dado a quem julga pode ser um elemento extremamente eloquente a respeito da culpabilidade de quem o oferece; do baixo conceito sustentado a respeito de quem julga e, também, a ingênua vulnerabilidade de quem o recebe.

 

Em Deuteronômio a mesma instrução de Êxodo é repetida: “Não torcerás a justiça, não farás acepção de pessoas, nem tomarás suborno (dx;v;) (shahad); porquanto o suborno (dx;v;) (shahad) cega os olhos dos sábios e subverte a causa dos justos” (Dt 16.19). Notemos que sempre os prejudicados são os “justos”, o “inocente”, o “órfão” e as “viúvas”, símbolos de pobreza e desamparo. Não há suborno para o que é justo ou para desfavorecer o favorecido.

 

Os filhos de Samuel que também foram constituídos juízes, são acusados deste pecado, ignorando a lei de Deus e a integridade de seu pai tão bem conhecida: “Porém seus filhos não andaram pelos caminhos dele; antes, se inclinaram à avareza, e aceitaram subornos (dx;v;) (shahad), e perverteram o direito” (1Sm 8.3).

 

Samuel teve que ouvir quieto, com tristeza e frustração os anciãos se aproveitando das circunstâncias, lhe dizerem: “Vê, já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações” (1Sm 8.5).

 

Deus atende  ao pedido pecaminoso do povo (1Sm 8.7-9,22; 10.17-24/Os 13.9-11).  Após uma batalha vitoriosa liderada por Saul contra os arrogantes amonitas, num clima de grande alegria, Saul é aclamado o primeiro rei de Israel.

 

Na despedida de Samuel, depois de ter conduzido a Israel durante tantos anos, corajosa e serenamente, diz ao povo:

 

Eis que ouvi a vossa voz em tudo quanto me dissestes e constituí sobre vós um rei.  2 Agora, pois, eis que tendes o rei à vossa frente. Já envelheci e estou cheio de cãs, e meus filhos estão convosco; o meu procedimento esteve diante de vós desde a minha mocidade até ao dia de hoje.  3 Eis-me aqui, testemunhai contra mim perante o SENHOR e perante o seu ungido: de quem tomei o boi? De quem tomei o jumento? A quem defraudei? A quem oprimi? E das mãos de quem aceitei suborno  (rp,Ko) (kopher) (presente para obter algum favor)[9] para encobrir com ele os meus olhos? E vo-lo restituirei (1Sm 12.1-3).

 

A resposta do povo atestou a absoluta integridade de Samuel: “Em nada nos defraudaste, nem nos oprimiste, nem tomaste coisa alguma das mãos de ninguém” (1Sm 12.4). Em Samuel (“nome de Deus”), neste juiz-sacerdote-profeta, temos um exemplo magnífico de integridade reconhecido ao longo das Escrituras (Jr 15.1; At 3.24; 13.20/1Sm 3.20;13.11-13).

 

No entanto, o ato de subornar é bastante prático e eficaz em seus objetivos pecaminosos: “Pedra mágica é o suborno (dx;v;) (shahad) aos olhos de quem o dá, e para onde quer que se volte terá seu proveito” (Pv 17.8).

 

 

Maringá, 16 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 


[1] Veja-se: Hermisten M.P. Costa, Vivendo com integridade, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2016.

[2]Cf. Victor P. Hamilton, Shohad: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1542-1543; Michael A. Grisanti; Clinton McCann, Shd: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 4, p. 75.

[3] Expressão usada por Noonan, Jr. (Veja-se: John T. Noonan, Jr., Subornos, Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 1989, p. 3ss.).

[4] “A cultura é determinada pela religião” (Henry R. Van Til, O conceito calvinista de cultura, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 9). “Apesar da idolatria ser a raiz contaminada que eventualmente corrompe a cultura, o problema é, essencialmente, o pecado, e não a cultura, a qual simplesmente carrega as marcas do pecado” (Grant Horner, Glorificando a Deus na Cultura Literária e Artística. In: John  F. MacArthur, Jr., ed. et. al. Pense Biblicamente!: Recuperando a visão cristã do mundo. São Paulo: Hagnos, 2005, p. 504).

[5] As palavras imagem, imaginativo e imitar têm uma raiz comum.

[6] Veja-se: Leland Ryken, Redeeming the Time: a Christian Approach to work and Leisure, Grand Rapids, MI.: Baker Book, 1995, p. 159ss.

[7]“A regra de nossa santidade é a lei de Deus” (J.I. Packer, O Plano de Deus para Você, 2. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2005, p. 155).

[8]Considerando o contexto, a tradução da palavra por “suborno” é adequada.

[9] Esta palavra pode ser empregada como sinônimo de (dx;v;) (shahad). Mais tarde, no oitavo século a.C., por intermédio de Amós, Deus acusa o povo de praticar diversos pecados: “Porque sei serem muitas as vossas transgressões e graves os vossos pecados; afligis o justo, tomais suborno (rp,Ko) (kopher) e rejeitais os necessitados na porta” (Am 5.12). (Para um estudo da palavra, vejam-se: B. Lang, Kipper: In: G. Johannes Botterweck; Helmer Ringgren, eds. Theological Dictionary of the Old Testament, Grand Rapids, MI.: Eerdamans, 1995, v. 7, p. 301-303; J. Clinton McCann, Koper: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 2, p. 711-712).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (42)

5.6. Ser respeitável

 Semelhantemente, quanto a diáconos, é necessário que sejam respeitáveis (semno/j)” (1Tm 3.8).

Semno/j (honestidade, dignidade, gravidade, seriedade, digno de respeito). (*Fp 4.8; 1Tm 3.8,11; Tt 2.2). Na literatura clássica a palavra era empregada para os deuses e as coisas divinas demonstrando a sua magnificência e majestade.

O diácono deve ter um procedimento sério, nobre, digno de todo respeito e admiração, como resultado da submissão dos seus sentimentos e pensamentos a Deus. A palavra grega confere o sentido de graça, dignidade e honradez. A respeitabilidade aqui exigida combina de forma bela e harmoniosa a simplicidade com a nobre honradez.[1]

Notemos que não seria o ofício que lhe conferiria isso. A respeitabilidade deve ser uma característica daqueles irmãos que a igreja deveria eleger. Por esse homem ter essa visível dignidade demonstrada em sua vida ao longo dos anos, é que poderia ser considerado como um candidato ao diaconato. Afinal, espera-se que o diácono exerça o seu ofício com honradez em todas as suas demandas.

Na literatura do segundo século podemos perceber que esse princípio continuou mantido e, devido à sua importância, recomendado.

Inácio (30-110 AD), na referida carta aos Tralianos, diz que todos deverão “respeitar os diáconos como a Jesus Cristo”.[2] Em outro lugar, ordena: “Acatem os diáconos, como à lei de Deus”.[3]

No Didaquê (c. 120 AD),[4] lemos:

 

Elegei, então, para vós mesmos bispos e diáconos dignos do Senhor, varões mansos e não amantes de dinheiro, verdadeiros e aprovados, porque também eles vos ministram os serviços dos profetas e mestres. Não os desprezeis, pois, porque são dignos de igual honra, como os profetas e mestres.[5]

 

5.7. Ter uma só palavra

Relacionando o texto de Atos quando o ofício de diácono foi instituído, com as prescrições de Paulo feitas mais tarde, para o diaconato, encontramos novos preceitos.

“Semelhantemente, quanto a diáconos, é necessário que sejam respeitáveis, de uma só palavra (mh\ di/logoj)(1Tm 3.8).

 

A construção é negativa mh\ di/logoj, só ocorrendo aqui. A ideia é de que o diácono não deve ter “duas palavras”.

A expressão pode ser entendida de três formas não excludentes:

 

a) O diácono não deve ser um difamador, levando e trazendo casos dos lares onde visita (não deve ser mexeriqueiro);

b) Não deve ser alguém que pense uma coisa e diga outra;

c) Não deve ser alguém que diz uma coisa para uma pessoa e algo diferente para outra, falando de acordo com o interesse do seu interlocutor conforme as circunstâncias.

 

A respeitabilidade dos diáconos se evidenciaria de modo especial em sua palavra digna, correta, de acordo com a Escritura, sabendo também manter discrição a respeito dos problemas aos quais teve acesso.

 

O seu ofício propiciaria ocasião de tomar conhecimento de problemas delicados de famílias: crises financeiras, pecados encobertos, frieza espiritual, desavenças matrimoniais, familiares, carências, etc. Sem dúvida, ele poderia ajudar  a essas famílias diretamente (socorrendo materialmente, buscando recursos, aconselhando, orando) ou, indiretamente por meio de uma conversa com o pastor ou presbíteros da igreja, os atualizando quanto à necessidades percebidas  que ultrapassavam às suas competências ou possibilidades, bem como relatando qual foi o seu procedimento.

 

O fato, é que conforme o diácono se tornasse mais efetivo em seu ofício, angariaria maior confiança por parte dos membros da igreja, o que o levaria a conhecer particularidades de muitas famílias. Por isso mesmo, precisaria ter bastante prudência no falar e se conduzir, não se tornando, por vezes, até involuntariamente, um socializador de informações privadas.

 

5.8. Não deve ser inclinado a muito vinho

  

“Semelhantemente, quanto a diáconos, é necessário que sejam respeitáveis, de uma só palavra, não inclinados a muito vinho (1Tm 3.8).

 

Aqui devem ser observadas algumas particularidades: a) A questão cultural; b) A provisão inadequada de água; c) A atenuação do vinho com água no período romano, até mesmo por uma questão de paladar[6] (Cf. 2Mac 15.39);[7] d) Essa orientação de Paulo indica o perigo da embriaguez, ao que parece, existente mesmo entre os crentes (1Co 11.21).

 

Sobre o diácono pesava grande responsabilidade. Conforme mencionamos, ele teria acesso aos lares, tomaria conhecimento de problemas íntimos e, também teria de administrar os bens da Igreja dedicados aos necessitados. Como confiar num bêbado? Ou, aliando ao requisito anterior, como ter respeitabilidade se corresse entre os fiéis a fama de que dito diácono “é ótima pessoa quando está sóbrio, porém, quando bebe, é um problema…”. Os casos seriam inúmeros a respeito de pessoas que em determinada situação contaram algo para ele e tiveram uma má experiência porque perceberam que naquele dia ele estaria de “fogo”. As situações adversas são por demais óbvias para que gastemos mais tempo com isso.

 

Notemos que Paulo não exige total abstinência. Ele fala de moderação (1Tm 3.3; Tt 1.7). Todavia, cremos que a abstinência seja recomendável (Rm 14.21/1Ts 5.22).

 

A bebedice é uma das características do modo gentio de viver (1Pe 4.3) como obra da carne (Gl 5.21). Os cristãos não podem ser confundidos com os pagãos em seu comportamento.

 

Maringá, 16 de agosto de 2019.

Rev.  Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 


[1] Vejam-se: Richard C. Trench, Synonyms of the New Testament, 7. ed. rev. enlar. London: Macmillan and Co. 1871, § xcii, p. 325-329; William Barclay, Palavras Chaves do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1988 (reimpressão), p. 178-181.

[2]Inácio, Carta aos Tralianos, 3. In: Cartas de Santo Inácio de Antioquia, p. 58.

[3]Inácio, Carta aos Esmirnenses, 8. In: Cartas de Santo Inácio de Antioquia, p. 81.

[4]Obra amplamente aceita nos primeiros séculos da Era Cristã devido a sua pretensão – não verdadeira –, de ter sido redigida pelos apóstolos, daí o seu nome completo: Didaquê: Ensino do Senhor Através dos Doze Apóstolos.

[5] Didaquê, XV. In: J.G. Salvador, ed. O Didaquê, São Paulo: Imprensa Metodista, 1957, p. 76.

[6] Cf. A.C. Schultz, Vinho e Bebida forte: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 5, p. 1140.

[7] Como bem sabemos, os livros de Macabeus não são “canônicos”; isto é, não fazem parte dos 66 Livros considerados inspirados por Deus. No entanto, eles têm um valor histórico-informativo, nos ajudando a entender melhor aspectos da história dos judeus no segundo século a.C. O autor conclui assim o livro: “De fato, como é nocivo beber somente vinho, ou somente água, ao passo que o vinho misturado à água é agradável e causa um prazer delicioso” (2Mac 15.39).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (41)

A sabedoria necessária no exercício do diaconato

 

Retornando ao nosso ponto, devemos enfatizar que essa sabedoria tem pouco ou nada a ver com conhecimento meramente intelectual. Aliás, o conhecimento sem sabedoria, pode ser extremamente perigoso. Hoje temos um acesso inimaginável às informações que, jamais poderíamos pensar há alguns anos. No entanto, nem por isso, temos sido mais sábios no uso desses recursos. A sabedoria concedida por Deus nos permite ir além da mera aparência discernindo as estruturas ocultas do que se mostra apenas superficialmente.

 

Os diáconos precisariam ter a sabedoria concedida pelo Espírito para saberem como resolver os problemas que já existiam e outros novos, que não tardariam a aparecer. A fonte da sabedoria está em Deus (Rm 11.33; 1Co 1.21). Os diáconos precisariam ter a sabedoria do alto (Tg 1.5-6/Ef 1.17)[1] para seguirem os melhores meios para atingir os fins mais nobres de sua vocação. Somente o Deus perfeitamente sábio pode lhes conceder esta sabedoria.[2]

 

Sem esta sabedoria possivelmente a sua constituição seria um problema que sobrecarregaria ainda mais os apóstolos.

 

A delegação de poderes que visa facilitar o processo dando-lhe maior fluidez e eficiência. Quando isso é concedido a um grupo imaturo espiritualmente, arrogante e sem discernimento, pode complicar ainda mais a resolução dos problemas apontados. A precipitação na eleição de oficiais, certamente contribuirá para maiores dificuldades no seio da igreja. É preciso cautela, oração e submissão aos preceitos de Deus.

 

Se os diáconos não tivessem certa autonomia para resolver as questões, valendo-se da sabedoria divina, seria, na realidade, mais um peso do que ajuda. Se, por exemplo, houvesse entre eles disputas e partidarismo, a igreja estaria já no seu início organizacional em sérias dificuldades.

 

Isto serve de alerta para nós. É melhor não promover a eleição precipitada de diáconos, presbíteros ou de quem quer se seja, se não tivermos homens capazes e dispostos a submeterem os seus corações e mentes a Deus.

 

Também, de forma geral, contra uma prática não tão estranha em alguns grupos, não devemos oferecer cargos a pessoas apenas para “segurá-las” na igreja. As consequências de tal comportamento podem ser muito graves para o Reino de Deus.

 

Considerando que todo o conhecimento e sabedoria residem em Cristo de forma plena (Mt 12.42; 1Co 1.24;30; Cl 2.2-3),[3] o diácono, como todo crente, deve se tornar um assíduo leitor das Escrituras, rogando a Deus o discernimento para entender as sábias palavras do Senhor e poder aplicá-las às situações concretas de sua vida e ofício, seguindo as pegadas de Cristo.[4]

 

A obediência é a fé manifestada. A fé é a obediência oculta. Nada que seja circunstancialmente bom e agradável pode ser essencialmente bom se consistir em atitudes e comportamentos que desobedeçam a Deus. A sabedoria, portanto, consiste em obedecer a Deus.

 

Ainda que Deus em sua revelação seja a única fonte de nosso conhecimento: toda verdade parte dele.[5] As Escrituras, como Revelação Especial, não se constituem na única fonte de nosso conhecimento – afinal a Revelação Geral também parte de Deus e é tão infalível quanto aquela[6] – porém, elas conferem sentido e corrigem os nossos conhecimentos que além de limitados e parciais, tendem a ser mal utilizados pelo fato de sermos pecadores e tendermos a querer ter um conhecimento autônomo.[7] Obedecer as Escrituras sempre é um ato de fé em meio a outras cosmovisões concorrentes que querem nos dizer que as suas percepções e conclusões estão certas e que a Palavra de Deus está errada.[8]

 

Somente pela Escritura podemos ter o conhecimento adequado de todas as coisas. A Escritura não é um manual de ciência, contudo nela encontramos o sentido de todas as coisas. Sem as Escrituras o nosso conhecimento por mais completo que seja será sempre inadequado.

 

Van Til (1895-1987) escreveu com pertinência:

 

Não há nada neste universo sobre o qual os seres humanos possam ter informação completa e verdadeira, exceto se levarem a Bíblia em consideração. Não queremos dizer, é claro, que alguém deve recorrer à Bíblia, em vez de ir ao laboratório, se pretende estudar a anatomia de uma serpente. Mas se alguém vai apenas ao laboratório, e não também à Bíblia, não terá uma interpretação correta, ou mesmo verdadeira, acerca da serpente.[9]

 

O salmista diz que “O temor (ha’r>yI) (yir’ah) do SENHOR é o princípio da sabedoria; revelam prudência todos os que o praticam. O seu louvor permanece para sempre” (Sl 111.10). O temor o Senhor (Sl 19.9) ressalta a resposta humana propiciada pela Palavra.[10] Ele é adquirido mediante o estudo piedoso da Lei. O objetivo de Deus por meio de sua Palavra é que sejamos conduzidos ao seu temor em obediência e amor[11] (Dt 31.11-12).[12]  Devemos, não simplesmente temer o castigo de Deus, antes temer pecar contra Deus, o nosso Santo e Majestoso Senhor.

 

Portanto, o princípio da sabedoria está em temer a Deus. A partir daí, todas as coisas ganham sentido dentro de sua realidade própria conferida e sustentada pelo próprio Deus. Veith, Jr., escreveu de forma inspiradora: “Temer a Deus não é o fim da sabedoria, mas o começo. Uma pessoa que teme a Deus pode se abrir para as alturas vastas e vertiginosas do conhecimento. Aqueles que ‘praticam’ esse temor de Deus podem ter um ‘bom entendimento’ de tudo”.[13]

 

O diácono deve ser um homem temente a Deus. Ele atenta para a sua Palavra e busca “ciência na Palavra do Senhor”. Esta é a sabedoria bíblica.

 

Destaco mais um ponto: O diaconato não é um estágio para o presbiterato. São ofícios diferentes. Os diáconos precisam já terem demonstrado em sua vida, a sabedoria própria do Espírito de Deus. Certamente, no exercício de seu ofício ele será moldado pela graça. Porém, as Escrituras prescrevem a sabedoria do alto, que já deve ter sido demonstrada na vida do diácono, como sendo um critério necessário para o exercício desse importante ofício.

 

Maringá, 09 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]5Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida. 6Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; pois o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento” (Tg 1.5-6). “Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele” (Ef 1.17).

[2]“A sabedoria de Deus é Sua capacidade de selecionar os melhores meios para a obtenção do alvo mais elevado” (William Hendriksen, Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, (Rm 11.33), p. 510). Do mesmo modo Murray: “A sabedoria fala sobre o arranjo e a adaptação de todas as coisas para o cumprimento de seus santos propósitos” (John Murray, Romanos, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2003, (Rm 11.33-36), p. 469).

[3]“A rainha do Sul (…) veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. E eis aqui está quem é maior do que Salomão” (Mt 12.42). 24Mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. (…)  30Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (1Co 1.14,30). 2Para que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor, e eles tenham toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo,  3 em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos” (Cl 2.2-3).

[4] “Segui-lo, portanto, é a única maneira sábia de viver. Nós florescemos como seres humanos quando seguimos o caminho de Deus, não nossas próprias invenções” (Vern S. Poythress, O Senhorio de Cristo: servindo o nosso Senhor o tempo todo, com toda a vida e de todo o nosso coração, Brasília, DF.: Monergismo, 2019, p. 44).

[5]“Visto que toda verdade procede de Deus, se algum ímpio disser algo verdadeiro, não devemos rejeitá-lo, porquanto o mesmo procede de Deus” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, (Tt 1.12), p. 318).

[6]“A verdade de Deus é única” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos,1998, (1Tm 1.3), p. 28).

[7]Referindo-se à tentação de nossos primeiros pais, escreveu Tripp: “A serpente estava tentando fazer com que Eva adotasse uma sabedoria autônoma, isto é, sabedoria que já não dependeria de Deus como sua fonte. Em lugar de a admiração por Deus produzir nela uma submissão à sábia vontade dele, a admiração pela sabedoria independente produziu nela rebeldia conta a vontade de Deus” (P. Tripp, Admiração, São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 74).

[8] “O temor de Deus, pois, é muitíssimo raro; e por essa conta o mundo, em sua maioria, continua destituído do Espírito de Conselho e sabedoria” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 2002, v. 1, (Sl 25.12), p. 553).

[9]Cornelius Van Til, Apologética Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 21.

[10]Cf. Derek Kidner, Salmos 1-72: introdução e comentário, São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1980, v. 1, p. 117; James M. Boice, Psalms: an expositional commentary,  Grand Rapids, MI.: Baker Book House, 1994, v. 1, (Sl 19), p. 171.

[11]“O grande fim de toda revelação é inspirar um louvor humilde e reverente a Deus” (John Stott, Salmos Favoritos, São Paulo: Abba Press, 1997, p. 24).

[12]11Quando todo o Israel vier a comparecer perante o SENHOR, teu Deus, no lugar que este escolher, lerás esta lei diante de todo o Israel.  12 Ajuntai o povo, os homens, as mulheres, os meninos e o estrangeiro que está dentro da vossa cidade, para que ouçam, e aprendam, e temam (arey”) (yare) o SENHOR, vosso Deus, e cuidem de cumprir todas as palavras desta lei” (Dt 31.11-12).

[13] John Edward Veith, Jr, De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 135.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (40)

 

Deus, descrevendo a insensibilidade espiritual de Judá, diz: “O meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios, e não entendidos; são sábios para o mal, e não sabem fazer o bem” (Jr 4.22).

 

A sabedoria cristã é o oposto disso; ela se dispõe a ajudar, socorrer, edificar. O seu planejamento é para o bem, nunca para o mal.

 

Judá estava tão distante de Deus que desaprendera a fazer o bem, os seus pensamentos eram ligeiros, ágeis para o mal. No entanto, o desafio de Deus para nós é para que nos exercitemos na prática do que é justo. E quanto ao mal? Que sejamos puros quanto a ele, não tendo ideias para executá-lo. No entanto, quando nos desafiarem a fazer o bem, que sejamos argutos, prontos, tendo uma visão perspicaz e penetrante. Até para fazer o bem precisamos ter discernimento. Há, por exemplo, um tipo de assistencialismo que longe de ajudar, cria um espírito de dependência que não se configura como ajuda. Ser sábio para o bem não significa conceder tudo o que nos pede, mas, saber administrar com discernimento os recursos disponíveis, de forma criativa e fraterna visando uma contribuição individual e social. Assim, Deus será glorificado.

 

Portanto, devemos utilizar a inteligência que Deus nos deu, para edificar, construir, socorrer, nunca para destruir, lucrar desonestamente: isto seria esperteza, que nada tem a ver com o Cristianismo e a pureza que deve caracterizar os filhos de Deus.

 

Deus, por intermédio da Sua Palavra, nos dá sabedoria espiritual e discernimento para que possamos reconhecer nos seus testemunhos a Palavra de vida eterna, a fim de que vejamos com clareza os sinais dos tempos, sem nos deixar levar por falsas doutrinas engenhosamente criadas pelos homens, seguindo, assim, sabiamente o caminho de Deus.

 

Um exemplo prático desta sabedoria está na orientação de Paulo no que se refere, ainda que não exclusivamente, à evangelização. Devemos aproveitar as oportunidades, falando com graça e com o sal que Deus nos deu, fruto de nossa transformação espiritual e evidência de nosso discipulado,[1] para que não sejamos insípidos: 5Portai-vos (peripate/w) com sabedoria (sofi/a) para com os que são de fora; aproveitai as oportunidades (kairo/j). 6A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal [com graça e integridade], para saberdes como deveis responder a cada um” (Cl 4.5-6).

 

A oração de Paulo é no sentido de que Deus, pelo Espírito, nos dê sabedoria, nos conduzindo à maturidade espiritual (1Co 2.6) para que entendamos a sua revelação em Jesus Cristo mediante o conhecimento intenso de sua Pessoa. Somente pela Sabedoria do Espírito (1Co 2.6-16),[2] tendo como padrão a cruz de Cristo, podemos avaliar toda a realidade, envolvendo a grandeza e a miséria, a sabedoria e a loucura, e, o que de fato é relevante.

 

A sabedoria do Espírito nos concede discernimento e um critério absoluto para enxergar todas as coisas. Dizendo de outro modo, Paulo roga a Deus para que os efésios fossem cheios do Espírito Santo.

 

A profundidade da sabedoria de Deus revelada na Criação e em seus atos (Rm 11.33-36) não é para ser alvo de especulações, antes, de contemplação adoradora e de nossa vivência na história como povo de Deus.

 

Sem o Espírito de sabedoria jamais entenderíamos as maravilhas do Evangelho que consistem no conhecimento não de uma doutrina, mas de uma Pessoa (Jo 17.3).[3]

 

Aqui nesta oração temos uma súplica retroalimentadora: pela sabedoria concedida por Deus podemos entender a revelação. Na compreensão progressiva desta revelação vamos adquirindo, por graça, maior sabedoria. O conhecimento de Deus não se esgota. Devemos prosseguir e nos desenvolver neste conhecimento.

 

Esta oração se torna concreta em nós na medida em que sinceramente desejamos a sabedoria do alto. A nossa súplica sincera por sabedoria (Tg 1.5)[4] deve vir acompanhada pela leitura e meditação da Escritura.

 

O Senhor nos dá compreensão, nos faz ter entendimento de toda a realidade. O real não é uma mera utopia, antes, é acessível e, portanto, conhecível. Se não tivéssemos acesso à realidade, seria, por exemplo, impossível escrever história e, da mesma forma, estudá-la. Qual seria o sentido disso além de um exame psicológico do historiador?[5]

 

Não vivemos num mundo de imagens, mas, de realidade, por mais desagradável que essa possa se configurar a nós em determinadas circunstâncias. No entanto, precisamos refletir a respeito. Não basta ler, é preciso refletir. O que me faz pensar que o caminho para a compreensão das coisas é um pensar intenso, humilde e submisso a Deus. Nem sempre as coisas se mostram a nós de forma clara e evidente. Precisamos pensar a respeito. O pensar e o repensar podem fazer parte de um processo cognitivo abençoador de considerar, compreender e viver de acordo com o propósito de Deus.

 

Esta sabedoria espiritual exige um laborioso processo de compreensão, entendimento e prática da verdade. Portanto, a nossa sabedoria consiste em nos submeter às Escrituras.

 

Martinho Lutero (1483-1546) constatou acertadamente: “Quão grande dano tem havido quando se tenta ser sábio e interessante sem ou acima da Escritura”.[6]

 

Paulo instrui à Igreja para que a Palavra de Cristo habite, se assenhoreie de nosso coração, nos dirigindo em nossa mútua instrução, com sabedoria, louvor e gratidão: Habite (e)noike/w),[7]  ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria (sofi/a), louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração” (Cl 3.16).

 

Os efésios eram crentes operantes em Cristo. Paulo ora no sentido de seu contínuo crescimento pela graça. Crescer na graça não significa crescer simplesmente em uma esfera de nossa existência, mas, em todas elas. Crescer na graça significa crescer em maturidade tendo como modelo perfeito o próprio Cristo, cuja mente é o nosso padrão.

 

Maringá, 09 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]“Bom é o sal; mas, se o sal vier a tornar-se insípido, como lhe restaurar o sabor? Tende sal em vós mesmos e paz uns com os outros” (Mc 9.50/Mt 5.13).

[2]6 Entretanto, expomos sabedoria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada; 7 mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória; 8 sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória; 9 mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. 10 Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus. 11 Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. 12 Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente. 13 Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais. 14 Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. 15 Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém. 16 Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo” (1Co 2.6-16).

[3]“E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).

[4]Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida” (Tg 1.5).

[5] Sei que a narrativa histórica não é objetiva e que o historiador é fundamental no diálogo com os “fatos”. Para uma abordagem mais detalhada sobre o assunto, veja-se: Hermisten M. P. Costa, Introdução à metodologia das ciências teológicas, Goiânia, GO.: Editora Cruz, 2015, p. 155-208.

[6]Lutero, Apud Phillip J. Spener, Mudança para o Futuro: Pia Desideria, Curitiba, PR.; São Bernardo do Campo, SP.: Encontrão Editora; Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, 1996, p. 43.

[7] *Rm 7.17; 8.11; 2Co 6.16; Cl 3.16; 2Tm 1.5,14.