Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (32)

A vontade de Deus e as circunstâncias

 

A vontade de Deus revelada no apostolado de Paulo não era mera abstração, algo distante e apenas virtual, antes, se materializava no seu sincero esforço por discernir a vontade de Deus em seus propósitos por mais santos que eles lhes parecessem. Ilustremos: Paulo desejava muito visitar a Igreja de Roma que ele mesmo não conhecera ainda que tivesse muitos irmãos ali congregados. Ele orava já há algum tempo sobre este assunto:

 

9Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, é minha testemunha de como incessantemente faço menção de vós  10em todas as minhas orações, suplicando que, nalgum tempo, pela vontade (qe/lhma) de Deus, se me ofereça boa ocasião de visitar-vos. (Rm 1.9-10).

 

Quando Paulo estava em Corinto, acredita ter uma boa oportunidade de visitar Roma. Contudo, antes deve passar pela Judéia para levar as ofertas para os santos dali. Sua trajetória seria arriscada, visto ter muitos inimigos na região. Ele então pede aos crentes romanos:

 

30 Rogo-vos, pois, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e também pelo amor do Espírito, que luteis juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor, 31 para que eu me veja livre dos rebeldes que vivem na Judéia, e que este meu serviço em Jerusalém seja bem aceito pelos santos; 32 a fim de que, ao visitar-vos, pela vontade (qe/lhma) de Deus, chegue à vossa presença com alegria e possa recrear-me convosco. (Rm 15.30-32).

 

Ainda que nossos propósitos sejam santos, nem sempre é fácil discernir a vontade de Deus. Paulo cria ter boa ocasião para conhecer os irmãos de Roma, acreditava ter uma mensagem para eles, contudo, deseja saber se esta era a vontade de Deus naquelas circunstâncias. Ele só pôde ter esta certeza depois de preso, quando o próprio Senhor lhe garantiu que assim se sucederia. Todavia, não como Paulo, possivelmente desejava ou esperava (At 23.11).[1]

 

A vocação interna e o testemunho da igreja

 

Retomando o nosso assunto, destacamos que o diácono deve ser eleito pela Igreja (At 6.5). A eleição é uma evidência de que Deus vocacionou aquele irmão para o respectivo ofício. Por isso, a Igreja deve buscar a orientação de Deus com fé e submissão, certa de que Deus também manifesta a sua vontade por intermédio da assembleia da igreja. A certeza subjetiva (chamado interno) deve vir acompanhada, a seu tempo, de uma manifestação objetiva (chamado externo).

 

A sensação do chamado pode não acompanhada da expressão da igreja pode ser algo muito perigoso.

 

Melanchthon (1497-1560) e Lutero (1483-1546) depararam-se explicitamente com esse problema bem no início da Reforma Protestante. Por volta de 1520, na pequena, porém próspera e culta cidade alemã de Zwickau, surgiu um grupo de homens “iluminados” – chamados por Lutero de “profetas de Zwickau”[2] – que alegava ter revelações especiais vindas diretamente de Deus, entendendo ter sido chamado por Deus para “completar a Reforma”.

 

A sua religião partia sempre de uma suposta revelação interior do Espírito. Acreditavam que o fim dos tempos estava próximo – os ímpios seriam exterminados – e que por isso, não era necessário estudar teologia visto que o Espírito estaria inspirando os pobres e ignorantes.  Assim pensando, esses homens diziam:

 

De que vale aderir assim tão estritamente à Bíblia? A Bíblia! Sempre a Bíblia! Poderá a Bíblia nos fazer sermão? Será suficiente para a nossa instrução? Se Deus tivesse tencionado ensinar-nos, por meio de um livro, não nos teria mandado do céu, uma Bíblia? Somente pelo Espírito é que poderemos ser iluminados. O próprio Deus fala dentro de nós. Deus em pessoa nos revela aquilo que devemos fazer e aquilo que devemos pregar.[3]

 

Certo alfaiate, Nícolas Storck, escolheu doze apóstolos e setenta e dois discípulos, declarando que finalmente tinham sido devolvidos à Igreja os profetas e apóstolos.[4] Ele, acompanhado de Marcos Stübner e Marcos Tomás foi a Wittenberg (27/12/1521) – que já enfrentava tumultos liderados por Andreas B. von Carlstadt (c. 1477-1541) e Gabriel Zwilling (c. 1487-1558) – pregar o que considerava ser a verdadeira religião cristã, contribuindo grandemente para a agitação daquela cidade. Stübner, antigo aluno de Wittenberg, justamente por ter melhor preparo, foi comissionado a representá-los. Melanchthon que conversou com Stubner, interveio na questão, ainda que timidamente. Storck,[5] mais inquieto, logo partiu de Wittenberg; Stubner, no entanto, permaneceu, realizando ali um intenso e eficaz trabalho proselitista – “era um momento crítico na história do cristianismo”.[6]

 

Comentando os problemas suscitados pelos “espiritualistas”, o historiador D’aubigné (1794-1872) conclui: “A Reforma tinha visto surgir do seu próprio seio um inimigo mais tremendo do que papas e imperadores. Ela estava à beira do abismo”.[7] Daí ouvir-se em Wittenberg o clamor pelo auxílio de Lutero. E Lutero, consciente da necessidade de sua volta, abandonou a segurança de Warteburgo retornando à Wittenberg[8] a fim de colocar a cidade em ordem (1522), o que fez, com firmeza e espírito pastoral.[9] Mais tarde, ele escreveria: “Onde, porém, não se anuncia a Palavra, ali a espiritualidade será deteriorada”.[10]

 

Não nos iludamos, essa forma de misticismo ainda está presente na Igreja. Tem sido extremamente perniciosa para o povo de Deus, e acarreta um desvio espiritual e teológico, desloca o “eixo hermenêutico” da Palavra para a experiência mística, nos afastando assim, da Escritura e, consequentemente, do Deus da Palavra.

 

Mais tarde, o teólogo Turretini (1623-1687), combatendo os fanáticos de seu tempo, falando da vocação de modo geral, enfatizou:

 

Ora, ainda que não duvidemos de que o sopro interno do Espírito concorra nesta vocação, isso não é suficiente, a menos que haja uma manifestação e confirmação externas, seja por uma manifestação de Deus, pessoalmente, ou por uma declaração da vontade divina, anexa a uma concordância da doutrina proposta com a doutrina revelada por Deus em Sua Palavra, para que não seja confundida com as imposturas dos fanáticos que se vangloriam do sopro e revelações divinos.[11]

 

Maringá, 7 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Na noite seguinte, o Senhor, pondo-se ao lado dele, disse: Coragem! Pois do modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma” (At 23.11).

[2]Os principais líderes eram: Nícolas Storck, Marcos Tomás e Marcos Stübner. Tomás Münzer (c. 1490-1525), tornar-se-ia o mais famoso dos que foram influenciados por esse círculo, tendo mais tarde as suas ideias próprias, ainda que fiel aos mesmos princípios. (Veja-se: George H. Williams, La Reforma Radical, México: Fondo de Cultura Económica, 1983, p. 66ss; Jean Delumeau, O Nascimento e Afirmação da Reforma, São Paulo: Pioneira, 1989, p. 101).

[3]Apud J.H. Merle D’aubigné, História da Reforma do Décimo-Sexto Século, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, (s.d.), v. 3, p. 64. Mais tarde, Calvino escreveria, possivelmente referindo-se aos “libertinos”, também conhecidos como “espirituais”: “Ora, surgiram, em tempos recentes, certos desvairados que, arrogando-se, com extremada presunção, o magistério do Espírito, fazem pouco caso de toda leitura da Bíblia e se riem da simplicidade daqueles que ainda seguem, como eles próprios a chamam, a letra morta e que mata.

“Eu, porém, gostaria de saber deles que tal é esse Espírito de cuja inspiração se transportam a alturas tão sublimadas que ousem desprezar como pueril e rasteiro o ensino das Escrituras? Ora, se respondem que é o Espírito de Cristo, certeza dessa espécie é absurdamente ridícula, se, na realidade, concedem, segundo penso, que os apóstolos de Cristo e os demais fiéis na Igreja Primitiva não de outro Espírito hão sido iluminados. O fato é que nenhum deles daí aprendeu o menoscabo da Palavra de Deus; ao contrário, cada um foi antes imbuído de maior reverência, como seus escritos o atestam mui luminosamente. (…)

“Não é função do Espírito Que nos foi prometido configurar novas e inauditas revelações ou forjar um novo gênero de doutrina, mediante quê sejamos distraídos do ensino do evangelho já recebido; ao contrário, Sua função é selar-nos na mente aquela própria doutrina que é recomendada por meio do evangelho” (J. Calvino, As Institutas, I.9.1). Veja-se também: As Institutas, I.9.2-3.

McNeill explica que o termo “libertino” foi usado por Calvino para “designar uma seita religiosa que se espalhou na França e na Península Dinamarquesa, a qual, dando ênfase ao Espírito, rejeitava a Lei. Posteriormente, o termo veio a ser aplicado em Genebra, àqueles que se opunham à disciplina, os quais incluíam pessoas que desconsideravam a lei moral e outros, mais motivados politicamente em resistir a Calvino” (John T. McNeill, The History and Character of Calvinism, New York: Oxford University Press, 1954, p. 169).

[4]Cf. J.H. Merle D’aubigné, História da Reforma do Décimo-Sexto Século, v. 3, p. 64-65; Heinrich W. Erbkam, Münzer: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: Or Dictionary of Biblical, Historical, Doutrinal, and Practical Theology, Chicago: Funk & Wagnalls, Publishers, (revised edition), 1887, v. 2, p. 1596a.

[5]Como resultado das supostas revelações diretas de Deus, Storck e seus companheiros sustentavam que “dentro de cinco a sete anos os turcos invadiriam a Alemanha e destruiriam os sacerdotes e todos os ímpios. Storck via-se como cabeça de uma nova igreja, designada por Deus para completar a Reforma que Martinho Lutero deixara inacabada” (J.D. Weaver, Profetas de Zwickau: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 3, p. 657).

[6] James Atkinson, Lutero e o Nacimiento del Protestantismo, 2. ed. Madrid: Alianza Editorial, 1987, p. 254.

[7]J.H. Merle D’aubigné, História da Reforma do Décimo-Sexto Século, v. 3, p. 71.

[8]Justificando-se com o príncipe o motivo da sua volta, escreveu-lhe no dia de sua chegada a Wittenberg, 7 de março de 1522: “Não são acaso os Wittemberguenses as minhas ovelhas? Não mas teria confiado Deus? E não deveria eu, se necessário, expor-me à morte por causa delas?” (Apud J.H. Merle D’aubigné, História da Reforma do Décimo-Sexto Século, v. 3, p. 83).

[9]Lutero, iniciando no dia 09/3/1522, pregou oito dias consecutivos em Wittenberg. Veja-se o seu primeiro sermão In: Martinho Lutero, Pelo evangelho de Cristo: Obras selecionadas de momentos decisivos da Reforma, Porto Alegre; São Leopoldo, RS.: Concórdia Editora; Editora Sinodal, 1984, p. 153-161. Quanto aos detalhes da sua volta, Vejam-se: J.H. Merle D’aubigné, História da Reforma do Décimo-Sexto Século, v. 3, p. 72ss.; James Atkinson, Lutero e o Nacimiento del Protestantismo, p. 254ss.

[10] Martinho Lutero, Uma Prédica Para que se Mandem os Filhos à Escola (1530): In: Martinho Lutero: Obras Selecionadas, São Leopoldo, RS.; Porto Alegre, RS.: Sinodal; Concórdia, 1995, v. 5, p. 334.

[11] François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 3, p. 268.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (31)

Como há outras vozes querendo nos afastar da verdade, apresentando um caminho que, à primeira vista, pode nos parecer mais convidativo e tentador, devemos perseverar no caminho verdadeiro.

 

Paulo recrimina o esmorecimento dos gálatas que começando a crer corretamente na graça de Deus, agora, passam a viver, como se fosse possível, pelas obras. O legalismo judaico se constituía num impedimento aos judeus cristãos: “Vós corríeis bem; quem vos impediu (e)gko/ptw)[1] de continuardes a obedecer à verdade?” (Gl 5.7). Este impedimento pode ser proveniente do diabo por meio de seus agentes (1Ts 2.14-18) ou do próprio coração humano, onde reside a raiz de nossos pecados.[2]

 

Falsos mestres privados da verdade

 

Os falsos mestres, privados da verdade,[3] procuram desviar-nos dela pervertendo os ensinamentos da Palavra. Paulo cita dois falsos mestres de seu tempo, Himeneu[4] e Fileto, que, seguindo ensinamentos gnósticos, com uma linguagem corrosiva, eliminavam a esperança na ressurreição futura, pervertendo a fé de alguns:

 

 Além disso, a linguagem deles corrói como câncer (ga/ggraina);[5] entre os quais se incluem Himeneu e Fileto. Estes se desviaram da verdade (a)lh/qeia), asseverando que a ressurreição já se realizou, e estão pervertendo (a)natre/pw = “arruinar”, “virar”[6]) a fé a alguns. (2Tm 2.17-18).

 

O contágio da falsa doutrina

 

A falsa doutrina é contagiante. Paulo exorta a Tito com veemência a respeito dos insubordinados, especialmente judeus: “É preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo (a)natre/pw) casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância” (Tt 1.11).

 

Por causa dos falsos mestres o caminho da verdade será infamado.

 

Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas (yeudoprofh/thj),[7] assim também haverá entre vós falsos mestres (yeudodida/skaloj), os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. E muitos seguirão as suas práticas libertinas (a)se/lgeia), e, por causa deles, será infamado (blasfhme/w)[8] o caminho da verdade. (2Pe 2.1-2).

 

Pedro diz que o presbítero, enquanto pastor do rebanho, deve estar em condições de alimentá-lo com a Palavra e, também, saber combater àqueles que tentarão seduzir os fiéis com “palavras fictícias (plasto/j) (2Pe 2.3).

 

O falso mestre é aquele que ensina a mentira, o engano: cria imagens que nada são para corromper seus ouvintes, conduzindo-os a negar o próprio Senhor Jesus Cristo e, também, à viverem libertinamente (a)se/lgeia), ou seja, de modo dissoluto e lascivo.[9]

 

Por causa disso, o caminho do evangelho seria caluniado, reprovado, “blasfemado”. A mensagem desses falsos mestres consiste numa corrupção do evangelho. Plasto/j parece ter o sentido aqui de palavras artisticamente elaboradas, moldadas, sugestivas, porém, falsas, forjadas em seu próprio proveito, e, que por isso mesmo estão em oposição à verdade. Curiosamente este é o termo de onde vem a nossa palavra “plástico”.[10] O ensino cristão envolve arte, mas não “arte plástica” para com a verdade.

 

Treinar nossos ouvidos

 

Nós cristãos, precisamos treinar os nossos ouvidos a fim de não sermos conduzidos ingenuamente por ensinos que mesmo falando o nome de Deus e citando as Escrituras, neguem o Deus das Escrituras: “Porque o ouvido prova (!x;B’)(bahan) (examina, testa) as palavras, como o paladar, a comida” (Jó 34.3/Jo 12.11).

 

Maringá, 7 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

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[1]No seu emprego militar esta palavra tinha o sentido de cortar uma árvore para causar um impedimento ou, abrir uma vala que obstaculizasse temporariamente o caminho do inimigo, daí a palavra tomar o sentido de “impedimento”, “empecilho”, “obstáculo”, “cansar”, “sobrecarregar”. (Vejam-se: G. Stählin, Kopeto/j, etc.: In: G. Kittel, ed., Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1981 (Reprinted), v. 3, p. 855-860; C.H. Peisker, Impedir: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 2, p. 417-418; William F. Arndt; F.W. Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature, Chicago: University Press, 1957, p. 215; F.F. Bruce, Hechos de los Apóstoles: Introducción, comentarios y notas, Michigan: Libros Desafío, 2007, (At 24.4), p. 513-514).

[2]Cf. G. Stählin, Kopeto/j, etc.: In: G. Kittel, ed. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 3, p. 856-857.

[3]“Altercações sem fim, por homens cuja mente é pervertida e privados da verdade (a)lh/qeia), supondo que a piedade é fonte de lucro” (1Tm 6.5).

[4] Paulo se referira a este como que alguém que naufragou na fé (1Tm 1.19-20).

[5]Esta palavra só ocorre aqui em todo o Novo Testamento. É deste termo que provém palavra gangrena.

[6] A palavra é usada no sentido literal Jo 2.15: “Em tendo feito um azorrague de cordas, expulsou todos do templo, bem como as ovelhas e os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou (a)natre/pw) as mesas”.

[7] Jesus Cristo já nos alertara sobre eles. Vejam-se: Mt 7.15; 24.11,24; Lc 6.26. O apóstolo João falaria mais tarde de sua realidade presente (1Jo 4.1).

[8] O verbo Blasfhme/w, que tem o sentido de “injuriar”, “difamar”, “insultar”, “caluniar”, “maldizer”, “falar mal”, “falar para danificar”, etc., é formado de duas palavras, Bla/yij derivada de Bla/ptw = “injuriar”, “prejudicar” (* Mc 16.18; Lc 4.35) e Fhmi/ = “falar”, “afirmar”, “anunciar”, “contar”, “dar a entender”. A Blasfêmia tem sempre uma conotação negativa, de “maldizer”, “caluniar”, “causar má reputação”, etc., contrastando com Eu)fhmi/a (“boa fama” * 2Co 6.8) e Eu)/fhmoj (“boa fama” * Fp 4.8) (Eu)/ & fh/mh). No Fragmento 177 de Demócrito, lemos: “Nem a nobre palavra encobre a má ação, nem é a boa ação prejudicada pela má palavra (Blasfhmi/a)”. Paulo diz que o mal testemunho dos judeus contribuía para que os gentios blasfemassem o nome de Deus (Rm 2.24, citando Is 52.5). Compare este fato com a orientação de Paulo, 1Tm 6.1; Tt 2.5.

A falsa doutrina propicia a prática da blasfêmia (1Tm 6.3,4), bem como os falsos mestres (2Pe 2.1-2,10-12).

[9]A)se/lgeia ocorre nos seguintes textos do Novo Testamento: Mc 7.22; Rm 13.13; 2Co 12.21; Gl 5.19; Ef 4.19; 1Pe 4.3; 2Pe 2.2,7,18; Jd 4.

[10]A palavra grega plastiko/j é derivada do verbo pla/ssw, cujo advérbio utilizado por Pedro é plasto/j. A nossa palavra plástico vem do grego (plastiko/j) passando pelo latim (plasticus), sempre de forma transliterada, significando aquilo “que tem propriedade de adquirir determinadas formas sensíveis, por efeito de uma ação exterior”.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (30)

Provar os espíritos

 

O nosso desejo de servir a Deus não nos deve tornar presas fáceis de qualquer ensinamento ou doutrina. Precisamos cientificar-nos se aquilo que é-nos transmitido procede ou, não, de Deus. Para este exame, temos as Escrituras Sagradas como fonte de todo conhecimento revelado a respeito de Deus e do que ele deseja de nós.

 

Foi assim que a nobre Igreja de Bereia procedeu ao ouvir Paulo e Silas. Ainda que aqueles irmãos tenham recebido a Palavra com avidez, isto não os impediu de examinar[1] “as Escrituras todos os dias para ver se as cousas eram de fato assim” (At 17.11). “Eles combinavam receptividade com questionamento crítico”, resume Stott (1921-2011).[2]

 

Um bom princípio é examinar o que se nos apresenta como realidade dentro de suas multifárias percepções, não nos deixando seduzir e guiar por nossas inclinações ou pelas tendências massificantes. Em geral, quando nos faltam critérios objetivos, apelamos para o gosto como critério definitivo e solitário. Assim, somos conduzidos simplesmente por princípios que nos agradam sem verificar a sua veracidade. O fim disso pode ser trágico. Desse modo, por mais autoeloquentes que possam se configurar aspectos da chamada realidade, precisamos examiná-los antes de os tomarmos como pressupostos para a aceitação de outras declarações também reivindicatórias.

 

Os bereanos tinham um padrão de verdade. Eles criam na sua existência e acessibilidade. Examinaram o que Paulo dizia à luz das Escrituras, ou seja: o Antigo Testamento. Se não tivermos um referencial teórico claro, como poderemos analisar de modo coerente a realidade? Sem referências, tudo é possível dentro de um quadro interpretativo forjado conforme as circunstâncias e meus interesses. Todo absoluto envolve antíteses.

 

Meditação na Palavra

 

O salmista relata a sua abençoada prática:

 

97Quanto amo a tua lei! É a minha meditação (hx’yf) (sihãh) (considerar, perscrutar, cogitar), todo o dia! 98 Os teus mandamentos me fazem mais sábio (~k;x’) (chakam)[3] que os meus inimigos; porque, aqueles, eu os tenho sempre comigo. 99 Compreendo mais do que todos os meus mestres, porque medito (hx’yf) (Sihãh) nos teus testemunhos (tWd[e) (`eduth).[4] 100Sou mais prudente (!yBi) (biyn) que os idosos, porque guardo os teus preceitos. 101 De todo mau caminho desvio os pés, para observar a tua palavra. 102 Não me aparto dos teus juízos (jP’v.mi) (mishpat),[5] pois tu me ensinas (hr’y”) (yarah).[6] (Sl 119.97-102).

 

Aquilo sobre o que meditamos, normalmente, molda a nossa perspectiva da realidade e o nosso comportamento.[7] O salmista meditava na Palavra de Deus.

 

O meditar na Palavra e nos feitos de Deus é uma prática abençoadora pelo fato de ocupar nossas mentes e corações com o que realmente importa; estimula a nossa gratidão e perseverança em meio às angústias.[8] Isto nos traz grande alívio. Davi no deserto se confortava meditando nos feitos de Deus: “No meu leito, quando de ti me recordo e em ti medito (hg’h‘) (hãgãh), durante a vigília da noite. Porque tu me tens sido auxílio; à sombra das tuas asas, eu canto jubiloso” (Sl 63.6-7/Sl 77.11-12; 143.5).

 

O verbo que é usado de forma negativa e positiva na Escritura (hg’h‘) (hãgãh), tem o sentido de murmurar, gemer, meditar, planejar, imaginar. É possível que a Palavra fosse “murmurada”, lida a meia voz durante a sua contínua meditação.[9] Este meditar tinha como objetivo de, por meio da aprendizagem dos mandamentos de Deus,[10] adequar a sua vida aos ensinamentos ali contidos, não apenas um exercício intelectual e sensorial (Js 1.8).

 

Meditar na Palavra tem o sentido de considerá-la em nossas decisões, refletir sobre os seus ensinamentos. A meditação deve modelar, corrigir e confirmar o nosso comportamento. A meditação aqui é uma exortação à assimilação existencial da Palavra a fim de que esta se evidencie em nossa prática.

 

Comênio (1592-1670) define:

 

A meditação é a consideração frequente, atenta e devota das obras, das palavras e dos benefícios de Deus, e de como tudo provém de Deus (que opera ou permite) e de como, por caminhos maravilhosos, todos os desígnios da vontade divina são exatamente realizados.[11]

 

Esta sabedoria espiritual exige um laborioso processo de compreensão, entendimento e prática da verdade. Portanto, a nossa sabedoria consiste em nos submeter às Escrituras.

 

Martinho Lutero (1483-1546) constatou acertadamente: “Quão grande dano tem havido quando se tenta ser sábio e interessante sem ou acima da Escritura”.[12]

 

Paulo instrui à Igreja para que a Palavra de Cristo habite, se assenhoreie de nosso coração, nos dirigindo em nossa mútua instrução, com sabedoria, louvor e gratidão: Habite (e)noike/w),[13] ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria (sofi/a), louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração” (Cl 3.16).

 

 

Maringá, 7 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

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[1] A palavra traduzida por “examinando” é a)nakri/zw, que tem o sentido de “fazer uma pesquisa cuidadosa”, um “exame criterioso”, “inquirir”. (* Lc 23.14; At. 4.9; 12.19; 17.11; 24.8; 28.18; 1Co 2.14,15 (duas vezes); 4.3 (duas vezes),4; 9.3; 10.25,27; 14.24). Conforme vemos em Lc 23.14; At 4.9 e 24.8, o verbo era usado para “investigações judiciais”. “Este verbo implica em integridade e ausência de preconceito. Desde então, o adjetivo ‘bereano’ tem sido aplicado a pessoas que estudam as Escrituras com imparcialidade e cuidado” (John R.W. Stott, A Mensagem de Atos: até os confins da terra, São Paulo: ABU Editora, 1994, (At 17.11), p. 308).

[2] John R.W. Stott, A Mensagem de Atos: até os confins da terra, (At 17.11), p. 308.

[3] “A ideia essencial (…) representa um modo de pensar e uma atitude para com as experiências da vida, incluindo questões de interesse geral e moralidade básica. Tais assuntos se relacionam à prudência em negócios seculares, habilidades nas artes, sensibilidade moral e experiência nos caminhos do Senhor” (Louis Goldberg, Hãkam: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 459).

[4] De modo pactual confirma e adverte quanto à natureza de Deus, à veracidade e seriedade das exigências da Lei de Deus enfatizando a Aliança. Deus dá testemunho de Si mesmo (Ex 25.16-22).

[5]Enfatizam a suprema autoridade de Deus em nos prescrever as leis que devem regular as nossas relações e exigir que as cumpramos (Dt 4.1,5,8,14; 5.1; 6.1).

[6] Figuradamente tem o sentido de mostrar, indicar, “apontar o dedo”. Encaminhar (Gn 46.28); disparar (Sl 11.2; 64.4); apontar (Sl 25.8); atingir (Sl 64.4); desferir (Sl 64.7). No hifil, conforme o texto citado, tem o sentido de “ensinar”. (Do mesmo modo: Sl 86.11; 119.33; Pv 4.4; 4.11, etc.).

[7]“Todos nós meditamos e somos moldados pelo objeto de nossa meditação” (Randy Alcorn, Decisões diárias cumulativas, coragem em uma causa e uma vida de perseverança: In: John Piper; Justin Taylor, eds. Firmes: um chamado à perseverança dos santos. São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2010, p. 99).

[8]“Quando formos premidos pela adversidade, ou envolvidos em profundas aflições, meditemos nas promessas de Deus, nas quais a esperança de salvação nos é demonstrada, de modo que, usando este escudo como nossa defesa, rompamos todas as tentações que nos assaltam” (João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 4), p. 89).

[9] Vejam-se: Mark D. Futato, Interpretação dos Salmos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 55-56; Hebert Wolf, Hagâ: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 337; Willem A. VanGemeren, Psalms. In: Frank E. Gaebelein, ed. ger., The Expositor’s Bible Commentary, Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1991, v. 5, (Sl 1), p. 55; M.V. Van Pelt; W.C. Kaiser, Jr., Hgh: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 981-982; Helmer Ringgren; A. Negoitã, Haghah: In: G. Johannes Botterweck; Helmer Ringgren; Heinz-Josef Fabry, eds., Theological Dictionary of the Old Testament, Grand Rapids, MI.: Eerdamans, 1978, v. 3, p. 321-324.

[10]“A aprendizagem é o processo mediante o qual a experiência passada do amor de Deus é traduzida, pelos aprendizes, em obediência à Torá de Deus” (D. Müller, Discípulo: In: Colin Brown, ed. ger. Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 1, p. 662).

[11]João Amós Coménio, Didáctica Magna, 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (1985), XXIV.7. p. 355.

[12]Lutero, Apud Phillip J. Spener, Mudança para o Futuro: Pia Desideria, Curitiba, PR.; São Bernardo do Campo, SP.: Encontrão Editora; Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, 1996, p. 43.

[13] *Rm 7.17; 8.11; 2Co 6.16; Cl 3.16; 2Tm 1.5,14.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (29)

Discernimento necessário

 

Jesus Cristo afirma que aquele que deseja fazer a vontade de Deus deve examinar a doutrina: “Se alguém quiser fazer a vontade (qe/lhma) dele (Deus), conhecerá (ginw/skw) a respeito da doutrina (didaxh/), se ela é de Deus” (Jo 7.17).

 

O fato de a vontade de Deus estar revelada nas Escrituras não significa que a Bíblia seja um manual repleto de regras minuciosas para cada circunstância de nossa vida, por meio do qual possamos encontrar sempre uma regra explícita para a nossa situação específica. Não. A Palavra é a fonte e norma de todo o conhecimento e prática cristã. Nela temos os princípios de Deus que se adequam a todas as nossas necessidades, em quaisquer épocas e circunstâncias. Todavia, a Bíblia não é um livro mágico, por meio do qual exercitamos a nossa “sorte espiritual” abrindo-o ao acaso, e procurando saber qual a vontade de Deus para a nossa vida em determinada situação, mediante o texto que o nosso dedo (“sensor espiritual”) apontar.

 

Sem dúvida, precisamos conhecer a vontade de Deus, mas isto fazemos lendo e meditando na sua Palavra, fazendo-o com discernimento e entendimento, rogando a Deus que nos dê compreensão do que lemos e como isso se aplica à nossa vida.

 

É isto que Paulo recomenda à Igreja de Éfeso: “Vede prudentemente como andais, não como néscios, e, sim, como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão não vos torneis insensatos, mas procurai compreender (Suni/hmi)[1] qual a vontade (qe/lhma) do Senhor” (Ef 5.15-17).

 

Paulo estimula a Igreja a usar positivamente a sua capacidade de raciocínio a fim buscar compreender a vontade de Deus. Somente assim aqueles irmãos poderiam ter um discernimento claro do propósito de Deus em sua vida.

 

Negativamente considerando, podemos dizer que o mesmo princípio de discernimento deve ser aplicado às mensagens que ouvimos com frequência, a respeito da “vontade de Deus para a nossa vida”.

 

É necessário que entendamos que a nossa mente não é um “acessório” descartável de nossa existência, o qual pode ser poupado – deixado em casa, quem sabe, em uma gaveta – quando vamos à Igreja, lemos livros, ouvimos mensagens ou simplesmente conversamos sobre aspectos da vida cristã. Deus criou o homem completo a fim de que ele possa, com o auxílio do Espírito Santo, usar de todos os recursos que Ele lhe outorgou.

 

Já na década de 60 do primeiro século encontramos em Colossos vestígios de uma heresia que tentava fundir a simplicidade do evangelho com especulações filosóficas – caracterizadas por práticas ascéticas – estando estes ensinamentos a prejudicar a Igreja (Cl 2.8, 16,18,20,21). Paulo, acompanhado por Timóteo e Epafras (Cl 1.1; 4.12), escreve aos colossenses, mostrando a supremacia de Cristo sobre todas as coisas (Cl 1.15,19; 2.3,19).

 

Juntamente com o ensino correto, Paulo declara que ele próprio, Timóteo e Epafras estão orando pela Igreja: “Não cessamos de orar por vós, e de pedir que transbordeis de pleno conhecimento da sua vontade (qe/lhma), em toda a sabedoria (sofi/a) e entendimento (su/nesij)”[2] (Cl 1.9). “Saúda-vos Epafras que é dentre vós, servo de Cristo Jesus, o qual se esforça sobremaneira, continuamente, por vós, nas orações, para que vos conserveis perfeitos e plenamente convictos em toda a vontade (qe/lhma) de Deus” (Cl 4.12).

 

Por isso, insistimos: é necessário discernimento para interpretar as doutrinas que nos são transmitidas a fim de saber se são de Deus, ou não (Jo 7.17). Portanto, devemos desejar conhecer a vontade de Deus (Ef 5.17). Paulo orava para que os colossenses “transbordassem” (plhrwqh=te). A voz passiva indica aqui a ação de Deus; para que “Deus encha vocês” deste genuíno conhecimento (Cl 1.9[3]/Cl 4.12/Hb 13.21).

 

Devemos dar crédito à verdade procedente de Deus (1Ts 2.10-13). Contudo como muitos falsos mestres têm saído pelo mundo, faz-se necessário provar os espíritos. Precisamos exercitar o “ceticismo cristão” que não aceita tudo, contudo não rejeita a procura da verdade:[4]

 

Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai (dokima/zw)[5] os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora. Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo. Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo. Eles procedem do mundo; por essa razão, falam da parte do mundo, e o mundo os ouve. Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos ouve; aquele que não é da parte de Deus não nos ouve. Nisto reconhecemos o espírito da verdade (a)lh/qeia) e o espírito do erro (1Jo 4.1-6).[6]

 

O fato bíblico, é que a verdade não gera mentira: “Mentira alguma jamais procede da verdade (a)lh/qeia)[7] (1Jo 2.21).

 

Maringá, 7 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]Suni/hmi, cujo sentido primário, empregado por Homero, é de “congregar”, metaforicamente, envolve a ideia de reunir as coisas, analisá-las, tentando chegar a uma conclusão por meio de uma conexão das partes. (* Mt 13.13,14,15,19,23,51; 15.10; 16.12; 17.13; Mc 4.12; 6.52; 7.14; 8.17,21; Lc 2.50; 8.10; 18.34; 24.45; At 7. 25 (duas vezes); 28.26,27; Rm 3.11; 15.21; 2Co 10.12; Ef 5.17.

[2] Su/nesij ocorre 7 vezes no NT.: Mc 12.33; Lc 2.47; 1Co 1.19; Ef 3.4; Cl 1.9; 2.2; 2Tm 2.7, significando, discernimento, inteligência, envolvendo, conforme vimos, a ideia de reunir as evidências para avaliar e chegar a uma conclusão. Este “entendimento” deve ser fruto de uma reflexão, recorrendo, contudo à iluminação de Deus (2Tm 2.7).

[3] “Quando todo o espaço das nossas mentes for preenchido até transbordar com o conhecimento da vontade do Senhor, já não teremos muito interesse em satisfazer egoisticamente a nossa própria vontade” (R. P. Shedd, Andai Nele: Exposição bíblica de Colossenses, São Paulo: ABU., 1979, p. 22).

[4] Vejam-se: François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 233; Gene Edward Veith, Jr., De Todo o teu entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 129-131.

[5]Dokima/zw ressalta o aspecto positivo de “provar” para “aprovar”, indicando a genuinidade do que foi testado (2Co 8.8; 1Ts 2.4; 1Tm 3.10).

[6]Archibald Alexander (1772-1851), um dos fundadores do Seminário de Princeton e seu primeiro professor de Teologia Sistemática, resumiu:

“Na avaliação da experiência religiosa é de todo importante manter continuamente à vista o sistema de verdade divina contido nas Sagradas Escrituras; caso contrário, nossa experiência, como ocorre muito frequentemente, se degenerará em entusiasmo. (…) Em nossos dias não há nada mais necessário que estabelecer na religião, uma cuidadosa distinção entre as experiências verdadeiras e as falsas; para ‘provar os espíritos se procedem de Deus’. E ao fazer esta discriminação, não há outro padrão de prova senão a infalível Palavra de Deus. Tragamos cada pensamento, motivo, impulso e emoção, ante esta pedra de toque. ‘À lei e ao testemunho, se não falam de acordo com estes, é porque não há luz neles’” (Archibald Alexander, Thoughts on Religious Experience, Carlisle, Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1989 (Reprinted), p. XVIII).

[7] Etimologicamente, a ideia da palavra verdade (a)lh/qeia) é de “não ocultamento”, mostrando-se tal qual é em sua pureza, sem falsificação. A palavra confere o sentido de confiabilidade, autenticidade, honradez, segurança. Jesus diz ao Pai que proclamou a Sua Palavra a qual é a verdade; nela não há ambiguidade, dupla intenção, antes, expressa as coisas como realmente são em sua essência.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (28)

O prazer da meditação e da obediência

O salmista descreve a sua experiência; como a sua familiaridade prazerosa com a Palavra de Deus o preservou num momento de grande angústia: “Não fosse a tua lei ter sido o meu prazer (#pex’)(thapets), há muito já teria eu perecido na minha angústia” (Sl 119.92).

 

Na angústia, muitos dos mitos de nosso pensamento e de nossa imaginação desaparecem. Percebemos então, para nossa tristeza, que muito do que críamos e propalávamos nada tem a dizer de relevante e significativo naquelas circunstâncias; eram pensamentos vãos, vazios de conteúdo e, por isso mesmo, irrelevantes. Descobrimos, então, a grandeza e praticidade da Palavra; no Seu conselho encontramos a disciplina educativa de Deus, as suas promessas passam a fazer sentido para nós; é como se um novo mundo se descortinasse à nossa frente. Pela Palavra não perecemos na angústia, antes, saímos fortalecidos em nossa fé, mais confiantes no Deus da Palavra e em Suas promessas.

 

O prazer na Palavra faz com que direcionemos nossos pensamentos e corações para ela. Ao invés de alimentarmos mágoas, ressentimentos e desejos de vingança, buscamos na Palavra, que é o nosso prazer, o suprimento para as nossas necessidades e a orientação em nossas decisões.

 

Quando descobrimos o prazer na Palavra de Deus, passamos mais tempo a lendo e refletindo sobre os seus ensinamentos. Daí o salmista dizer, como vimos, que os testemunhos de Deus são os meus conselheiros (hc'[e)(‘etsãh) (Sl 119.24).

 

Enquanto o homem sem discernimento busca conselho nos ímpios, culminando por assentar-se na companhia dos escarnecedores (Sl 1.1) – possivelmente para convalidar seus interesses e inclinações –, o homem bem-aventurado busca conselho nos mandamentos de Deus (Sl 119.24).

 

Os conselhos de Deus têm sentido para o tempo, em todas as circunstâncias próprias de nossa finitude, e para nos conduzir em segurança à eternidade, quando o Espírito será tudo em todos: “Tu me guias com o teu conselho (hc'[e) (‘etsãh) e depois me recebes na glória” (Sl 73.24). A Palavra de Deus é um “guia seguro para o céu”!

 

A vontade de Deus sempre será agradável àqueles que desejarem viver em comunhão com Ele. Portanto, quando oramos para que Deus concretize o seu propósito, estamos dizendo: Senhor, faze a Tua vontade, pois sei que à medida que eu me consagrar a Ti, mais prazer terei na Tua Palavra, mais agradável ela será a mim, como é para Ti.

 

A perfeita vontade de Deus

 

A vontade de Deus é eticamente perfeita; isto é, ela é completa, aplicando-se a todas as áreas de nossa vida, bem como em todas as épocas e circunstâncias.

 

Mais uma vez identificamos a vontade de Deus com Ele mesmo: Deus é perfeito, não muda, não se aperfeiçoa nem se deteriora (Mt 5.48; Hb 13.8; Tg 1.17). A perfeição não comporta ganho ou perda de qualidade. Deus é eternamente perfeito. Assim também é a sua vontade. Não há um centímetro sequer de toda a criação que não seja abrangido pela totalidade da sua vontade.

 

A Lei do Senhor reflete o Senhor que se manifesta na Criação com ordem e beleza. Por isso, o salmista após descrever esta sinfonia da Criação afirma que, como não poderia ser diferente, “A lei do Senhor é perfeita (~ymiT’) (tamiym) (Sl 19.7).

 

A Lei do Senhor é perfeita, completa, abarca todas as nossas necessidades físicas e espirituais. Na Lei de Deus temos os princípios fundamentais para todo o nosso viver, seja em que época for, em que cultura for. Ela é suficiente para nos gerar de novo e para nos conduzir em nossa caminhada, em nossa santificação.

 

Nada lhe escapa, nada lhe é estranho. Ela tem princípios que sendo seguidos, instruem, previnem e corrigem os nossos caminhos. “Ela não carece de nada que seja indispensável à perfeita sabedoria”, conclui Calvino.[1]

 

No caminho de Deus não há contradição. Por isso, as suas orientações são completas, sem mistura: “O caminho de Deus é perfeito (~ymiT’) (tamiym); a palavra do SENHOR é provada; ele é escudo para todos os que nele se refugiam” (Sl 18.30).

 

Quando assimilamos de coração a Palavra de Deus e a adotamos com integridade, independentemente das consequências e dos juízos dos outros, não teremos do que nos envergonhar.

 

O salmista almeja viver conforme a integridade da Palavra, orando neste sentido: “Seja o meu coração (ble)(leb) irrepreensível (~ymiT’) (tamiym) nos teus decretos, para que eu não seja envergonhado” (Sl 119.80).

 

Ainda que possamos, pela Graça Comum de Deus, encontrar aqui e ali entre os homens elementos de verdade, somente na integridade da Palavra temos o absoluto de Deus para todos os desafios próprios de nossa existência. Por isso, quem segue a Palavra de Deus, e busca praticá-la com integridade de coração, será irrepreensível em seu caminho, em todas as circunstâncias.

 

Esse será bem-aventurado: “Bem-aventurados os irrepreensíveis (~ymiT’) (tamiym) no seu caminho, que andam (%l;h’) (halak) na lei do SENHOR  2Bem-aventurados os que guardam as suas prescrições (hd'[e) (`edah) (= testemunhos) e o buscam (vrD) (darash)  de todo o coração (ble)(leb); 3 não praticam iniquidade e andam (%l;h’) (halak) nos seus caminhos” (Sl 119.1-3).  

 

Estive avaliando determinado produto na internet. Havia vários modelos. Li algumas opiniões. Deparei-me com uma opinião bem escrita, e pareceu-me bem fundamentada. A pessoa analisando uma nova versão do produto falava das inovações que ele trazia em relação à versão do ano anterior e, ainda assim, mesmo tendo bons resultados com a versão mais moderna, aguardava um pouco mais para ver se a impressão que tivera se confirmaria com o tempo. Considerei tal posição sensata e útil. É necessário cautela, ainda mais na utilização de um produto que pode evidenciar diferenças visíveis em nosso corpo afetando nossa saúde.

 

Quando, porém, falamos das Escrituras, podemos ter a certeza que a sua “versão” é divina, e por isso, perfeita. Ela é completa, suficiente para todas as nossas necessidades, em todos os tempos, em todos os momentos e circunstâncias de nossa existência. A Palavra não precisa de complemento. Ela é perfeita (Tg 1.25).[2] “A glória da Bíblia é que ela é suficientemente para cada época e suficiente para cada pessoa”.[3]

 

Temos aqui um argumento a favor da doutrina enfatizada pela Reforma: Sola Scriptura. A Palavra de Deus é completa, não precisa de complemento. Ela é perfeita e, por isso mesmo, infalível.

 

Desse modo, quando oramos pela concretização da vontade de Deus, estamos dizendo: “Senhor faze a Tua vontade; eu sei que ela envolve todas as minhas necessidades, mesmo aquelas que eu ainda desconheço; no entanto Tu o sabes, portanto, amparado nisso, dirige-me conforme a Tua Lei”.

 

Esta oração implica no fato de que estamos confiantes de que a vontade de Deus é a melhor para nós e, também, que elegemos o céu como o nosso padrão perfeito de cumprimento da vontade de Deus: “Assim na terra como no céu”.

 

Paralelamente a isso, declaramos estar dispostos a aceitar alegremente a vontade de Deus, renunciando os nossos desejos pessoais em prol daquilo que temos certeza de ser incomensuravelmente melhor: A vontade de Deus. O maior exemplo desta entrega sem reservas a Deus temos em Cristo Jesus, que diante da aproximação do momento em que daria a Sua vida pelo Seu povo ora: “Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero (qe/lw), e sim como tu queres” (Mt 26.39).  Aqui temos a declaração verbal e existencial de nosso Senhor: “seja feita  a Tua vontade!”.

 

Maringá, 5 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 19.7), p. 424.

[2]Mas aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar” (Tg 1.25).

[3] F.A. Schaeffer, O Deus que intervém, São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 251.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (27)

A agradável vontade de Deus

 

A vontade de Deus é boa, mas, num plano imediato, ela nem sempre nos parece agradável. A rigor, ela nunca nos parecerá agradável enquanto não submetermos os nossos desejos ao desejo de Deus, a nossa mente à mente de Deus, a nossa vontade à vontade de Deus. Precisamos aprender a pensar, a sentir e a desejar biblicamente; educar a nossa mente, emoções e vontade à luz da Palavra; somente assim poderemos nos agradar no agrado de Deus; nos aprazer no caminho de Deus. Portanto, a questão é: agradável a quem?

 

A palavra usada por Paulo (Eu)a/restoj)[1] prescreve sempre o sentido de agradável a Deus; quer direta, quer indiretamente – por estarmos obedecendo aos Seus preceitos. A vontade de Deus não tem o propósito de nos agradar num plano puramente superficial, antes ela nos agrada quando a conseguimos entender pelo Espírito de Deus ou, numa primeira instância, quando, pelo Espírito, podemos nos alegrar na esperança que emana de Deus (Rm 12.12).

 

Por outro lado, quando nos submetemos a Deus, encontramos a alegria de obedecê-Lo, descobrindo a agradabilidade da vontade de Deus na submissão a ela, no seu exercício. Deste modo, temos o testemunho de alguns servos de Deus, entre os quais destacamos três: Davi pôde escrever: Agrada-me (#pex’)(thaphets) fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro em meu coração está a tua lei” (Sl 40.8).

 

O Salmista descrevendo o caminho dos justos diz que         “O seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite” (Sl 1.2).[2]

 

A “Lei do Senhor” refere-se a toda Escritura (contextualmente, a todo o Antigo Testamento), não simplesmente à Lei de Moisés.[3]

 

Em outro lugar o salmista diz: “Com efeito, os teus testemunhos são o meu prazer (#pex’) (thaphets), são os meus conselheiros  (hc'[e) (‘etsãh) (Sl 119.24). (Vejam-se: Sl 119.16,47,77,92,111,143,174).

 

O homem que se compraz na lei do Senhor é bem-aventurado. Parte da bem-aventurança já é o deleite na Palavra de Deus: Aleluia! Bem-aventurado o homem que teme ao SENHOR e se compraz (#pex’) (thaphets) nos seus mandamentos” (Sl 112.1).

 

Por mais prazeroso que seja o estudo da Palavra, o maravilhar-se com a majestade de Deus revelada e a sua instrução, nem sempre temos o discernimento correto na aplicação desta lei absoluta às nossas circunstâncias, cheias de ambiguidades, daí a oração do salmista: Guia-me pela vereda dos teus mandamentos, pois nela me comprazo (#pex’) (thaphets) (Sl 119.35).

 

Palavra doce a um paladar espiritualmente refinado

 

     O salmista testemunha: [Os juízos do Senhor] São mais doces (qAtm’) (mathoq) do que o mel e o destilar (= gotejar) dos favos” (Sl 19.10).

 

No antigo Oriente, o açúcar não era algo abundante.[4] A referência ao mel era unívoca; todos entenderiam. No Salmo 119, a mesma analogia é feita:  “Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Mais que o mel à minha boca” (Sl 119.103/Pv 16.24). No banquete de Deus oferecido por meio de sua Palavra, tem até sobremesa; o mel com seu gosto agradabilíssimo e renovador.[5]

 

Paladar tem muito a ver com educação e memória. Em geral gostamos de alimentos que estão associados à nossa educação: fomos criados comendo aquela – considerada agora – iguaria. Isto traz a questão da memória: um alimento, um lugar, um aroma. Com todos eles vêm elementos agregados, por vezes, totalmente desconhecidos ou irrelevantes ao estrangeiro deste universo repleto de símbolos.

 

Em virtude do nosso pecado, a Palavra de Deus não soa agradável e doce ao nosso paladar. Precisamos, portanto, educar o nosso paladar espiritual para que aprendamos a nos agradar da Palavra de Deus. Para isso, necessitamos meditar nela, ingeri-la e digeri-la com assiduidade. Meditar na Palavra, praticá-la, crer nos seus ensinamentos. Somente assim poderemos aprender a sentir prazer na Lei do Senhor, como é descrito o homem bem-aventurado no Salmo 1: “Antes, o seu prazer (#pex’)(thaphets) está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite” (Sl 1.2).

 

Essa meditação é centrada em Deus e em sua Palavra. Não é uma mera meditação introspectiva ou transcendental, mas centrada em Deus e dirigida por ele.[6]

 

Em outro lugar o salmista diz: “Com efeito, os teus testemunhos são o meu prazer (#pex’)(thaphets), são os meus conselheiros  (hc'[e)(’eçah) (Sl 119.24).

 

O homem que se compraz na lei do Senhor é bem-aventurado. Parte da bem-aventurança já é o deleite na Palavra de Deus: Aleluia! Bem-aventurado o homem que teme ao SENHOR e se compraz (#pex’) (thaphets) nos seus mandamentos” (Sl 112.1).

 

Por mais prazeroso que seja o estudo da Palavra, o maravilhar-se com a majestade de Deus revelada e a sua instrução, nem sempre temos o discernimento correto na aplicação desta lei absoluta aos nossos dilemas cotidianos. Por isso a oração do salmista: “Guia-me pela vereda dos teus mandamentos, pois nela me comprazo (#pex’) (thaphets) (Sl 119.35).

 

É preciso que cultivemos o hábito de ler a Palavra e descobrir dentro de um processo de aprendizado, o prazer em cumpri-la: Agrada-me (#pex’)(thaphets) fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei” (Sl 40.8).

 

A Palavra de Deus sempre será doce para aqueles que querem agradar a Deus confiando nas suas promessas. “Mais me regozijo com o caminho dos teus testemunhos  (tWd[e) (`eduth) do que com todas as riquezas” (Sl 119.14).

 

Maringá, 5 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] * Rm 12.1,2; 14.18; 2 Co 5.9; Ef 5.10; Fp 4.18; Cl 3.20; Tt 2.9; Hb 13.21. O verbo Eu)areste/w ocorre apenas três vezes indicando especificamente agradar a Deus   (* Hb 11.5.6; 13.16). Na LXX este verbo é usado basicamente com o sentido de “andar com Deus” ou na presença de Deus (Veja-se: Gn 5.22,24; 6.9; 17.1; 24.40; 48.15; Sl 26.3). O advérbio eu)are/stwj ocorre uma única vez, com o mesmo sentido de servir a Deus de modo agradável (Hb 12.28).

[2] Calvino comenta: “Só são dignos estudantes da lei aqueles que se achegam a ela com uma mente disposta e se deleitam com suas instruções, não considerando nada mais desejável e delicioso do que extrair dela o genuíno progresso. Desse amor pela lei procede a constante meditação nela” (João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 1.2), p. 53).

[3] Entre outros, vejam-se: Willem A. VanGemeren,  Psalms: In: Frank E. Gaebelein, ed. ger., The Expositor’s Bible Commentary,  Grand Rapids, Michigan: Zondervan,  1991, v.  5, (Sl 1), p. 54-55; John Stott, Salmos Favoritos, São Paulo: Abba Press, 1997, p. 8. Compare com Bruce K. Waltke; James M. Houston; Erica Moore, The Psalms as Christian Worship: A Historical Commentary,  Grand Rapids, MI.: Eerdmans, 2010, (Sl 1.2), p. 136 e  Mark D. Futato, Interpretação dos Salmos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 48-50.

 

[4] “Os únicos gêneros alimentícios doces, conhecidos na antiguidade, foram açucares naturais, do tipo frutose produzida, por exemplo, pelas tâmaras, damascos, uvas, ou mel produzido pelas abelhas” (W. White Jr., Mel: In: M.C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 4, p. 207).

[5] A figura da “sobremesa” foi tirada da obra de Francisco L. Schalkwijk, Meditações de um peregrino, São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 18.

[6] Veja-se: Bruce K. Waltke; James M. Houston; Erica Moore, The Psalms as Christian Worship: A Historical Commentary, Grand Rapids, MI.: Eerdmans, 2010, (Sl 1.2), p. 139.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (26)

A vontade de Deus

Quando nos deparamos com esse assunto, em geral, cedemos a um grau exagerado de subjetividade. Tornou-se até certo ponto comum, pessoas falarem: “Se Deus quiser; ele há de querer”, como se o meu desejo de que assim seja, tivesse algum poder de determinar o querer e fazer de Deus. Aliás, é preciso que eu diga que isso, longe de me frustrar, causa grande alívio. Deus é sábio, justo e amoroso. Jamais se guiará por meus desejos.

 

O fato é que quando estamos apaixonados por uma ideia é fácil ver “sinais” comprobatórios em qualquer lugar. É comum que nossos desejos sejam mais fortes do que as evidências em contrário. Por outro lado, uma tênue brisa favorável, pode se tornar um vendaval diretivo na condução de nossa jangada chamada desejo.

 

Se ainda cultivarmos a ilusão de que o nosso coração preserva uma reserva moral intacta, o que “sentimos”, deduzimos, deve ser verdade. Assim, caminhamos misticamente em nossos devaneios que, quando sacralizados por uma fé manipulada pelos nossos desejos, podem ser extremamente perigosos em suas concretizações.

 

Analisemos algumas questões relacionadas à vontade de Deus sem nos alongarmos em demasia.

 

Paulo deseja que a igreja experimente a vontade de Deus. Ele a qualifica como sendo boa, agradável e perfeita. (Rm 12.2).

 

A boa vontade de Deus

 

Falar que a vontade de Deus é boa pode sugerir-nos uma série de conceitos diferentes e até equivocados. O que Paulo está querendo dizer quando declara que a vontade de Deus é boa?

 

A ideia de “bem” pode estar circunscrita a uma série de circunstâncias que nos fazem avaliar o seu significado de forma diferente. Por exemplo, quando digo que uma faca é boa para cortar carne e, ao mesmo tempo, falo para o meu filho pequeno não mexer nela porque ela é perigosa… neste caso, usei o mesmo objeto, todavia, fiz declarações antagônicas, porque o classifiquei dentro de referenciais diferentes: a faca é boa para cortar carne, todavia, por ser afiada (justamente o que a torna boa para aquele propósito), traz perigo para uma criança manuseá-la. Isto significa que o que torna alguma coisa boa para determinada tarefa, pode ser justamente o que a desqualifica para outra.

 

Há também a questão do bem individual e do bem coletivo. Quantas vezes estamos dispostos a julgar “bom” aquilo que é melhor para a coletividade e não para nós, especificamente? Há também caminhos que seguimos que nos parecem ser os melhores, contudo, depois descobrimos que eles tinham apenas uma aparência “boa” mas que, de fato, não eram; as próprias circunstâncias nas quais estávamos metidos facultou um tipo de ilusão, uma deficiência na interpretação do fenômeno. Agora, depois de muitas dificuldades, podemos então perceber o nosso erro e nos arrepender do rumo que tomamos.

 

Sendo assim, o que Paulo estaria dizendo, então?

 

A palavra usada por ele para descrever a vontade de Deus, denota o que é moral e praticamente bom. A vontade de Deus é boa (a)gaqo/j) porque Ele é bom. (Lc 18.19). Deus é bom essencialmente. A sua vontade também o é. Por Deus ser bom é que Ele se comunica com todas as suas criaturas de modo terno, generoso e benevolente.

 

A vontade de Deus é boa em si mesma, não estando dependente de épocas ou circunstâncias; ela é proveniente de um Deus eterno e absolutamente bom. O que muitas vezes ocorre conosco é que queremos “ensinar” a Deus o nosso “bem” momentâneo. Assim, neste afã, a Igreja ora para que certo político seja eleito, sugere determinadas soluções para Deus nos dirigir em nossa vida pessoal, encaminha alguns procedimentos, solicitando o aval de Deus etc.

 

Temos, quando muito, uma visão momentânea de “bem” e, mesmo assim, bastante ofuscada pelos nossos pecados e contingências – interesses, predileções, falta de discernimento, entre outras coisas – no entanto, ainda assim, queremos que Deus faça a nossa vontade. A resposta de Deus sempre é boa e, ela é justamente o que desejaríamos, se tivéssemos um perfeito discernimento espiritual.[1]

 

Quando oramos: “seja feita a Tua vontade”, estamos de fato, confiando na vontade bondosa de Deus, sabendo que ela não é boa apenas naquele momento, naquelas circunstâncias, ou para os nossos interesses egoístas; mas é boa em sua própria natureza, sendo harmônica com o Ser de Deus, que é bom, santo, justo, amoroso e fiel.

 

Moisés, consciente disso, diz ao povo: “O Senhor nos ordenou cumpríssemos todos estes estatutos, e temêssemos o Senhor nosso Deus, para o nosso perpétuo bem (bAj) (tob),[2] para nos guardar em vida, como tem feito até hoje” (Dt 6.24).

 

A vontade de Deus é essencial e perenemente boa para nós dentro dos propósitos santos e eternos de Deus.

 

Maringá, 5 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Cf. Charles Hodge, Systematic Theology, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1976 (Reprinted), v. 3, p. 704.

[2]A palavra tem o sentido de: Bondade (Sl 21.3; 23.6); bom (Sl 25.8; 34.9,15); bem (Sl 34.11,12; 37.3); melhor (Sl 63.3; 118.8,9); vale mais (Sl 84.10); bens (Sl 107.9). A Criação é, em seu estado original, avaliada por Deus como sendo boa (Gn 1.4,10,12,18,21,25,31). Veja-se: Alan Richardson, ed. A Theological Word Book of the Bible, London: SCM Press, 13. impression, 1975, p. 99.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (25)

Segundo Charles Hodge (1797-1878),[1] a palavra apóstolo é usada em três sentidos especiais no Novo Testamento:

 

  1. Em seu sentido primário de mensageiro: Jo 16; Fp 2.25; 2Co 8.23;
  2. No sentido de missionários, homens enviados pela igreja para pregar o Evangelho. É neste sentido que Paulo e Barnabé são chamados apóstolos (At 14.4,14), bem como Andrônico e Júnias[2] (Rm 16.7) e, penso eu, possivelmente, Silas e Timóteo (1Ts 2.7/1Ts 1.1/At 17.1-4,10,14).[3]
  3. No sentido de “plenipotenciários de Cristo”; homens que ele pessoalmente escolheu e enviou investindo-lhes com toda autoridade para ensinar e governar em seu nome. Neste sentido, a palavra é empregada para referir-se aos doze apóstolos, aqueles que foram testemunhas de sua vida, morte e ressurreição: Jo 26; At 1.22; 2.32; 3.15; 13.31; 26.16; 1Co 9.1; Gl 1.12. Guiados pelo Espírito, a sua função primordial era dar testemunho do que viram e experimentaram em companhia de Jesus Cristo, culminando com a sua morte e ressurreição.[4]

 

O apostolado, portanto, sempre pressupõe alguém que o antecede, que o envia.  Biblicamente ninguém é apóstolo de si mesmo. Também, o apóstolo não é maior do que aquele que o envia, como nos ensina Jesus Cristo: “Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado (apo/stoloj), maior do que aquele que o enviou (pe/mpw) (Jo 13.16). Por isso, o enviado, busca a glória daquele que o enviou: “Quem fala por si mesmo está procurando a sua própria glória; mas o que procura a glória de quem o enviou (pe/mpw), esse é verdadeiro, e nele não há injustiça” (Jo 7.18).

 

Paulo reconhece o seu apostolado pela “vontade” (Qe/lhma) de Deus. Este substantivo é derivado do verbo Qe/lw, que significa “vontade”, “desejo”, “intenção”. Apesar do verbo ser amplamente empregado na literatura clássica, o substantivo Qe/lhma aparece raramente. No Novo Testamento, ele ocorre 61 vezes [o verbo 207 vezes].

 

Mesmo sendo esta palavra utilizada para a vontade do homem, ela é predominantemente atribuída a Deus, e, neste sentido, enfatiza mais o elemento volitivo do que o deliberativo, assinalando que Deus cumprirá a sua vontade, o seu propósito.

 

Nos próximos posts farei uma digressão explorando um pouco mais a questão da vontade de Deus.

 

Maringá, 4 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Charles Hodge, “Epistle to the Ephesians,” The Master Christian Library, (Albany, OR: Ages Sofware, 2000, Version 8), (Ef 1.1), p. 20-21. Veja também: Charles Hodge, Commentary on the Epistle to the Romans, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1994 (Reprinted), (Rm 1.1). p. 15-17. Para um sumário crítico das controvérsias a respeito da palavra e do seu emprego, veja-se: C.G. Kruse; P.W. Barbett, Apóstolo: Novo Testamento: In: Daniel G. Reid, ed. Dicionário Teológico do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 122-139. Para uma abordagem mais apologética, veja-se: Augustus N. Lopes, Apóstolos – A verdade bíblica sobre o apostolado, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2014.

[2] Júnias é nome masculino, forma contraída de Junianus (Cf. A.F. Walls, Andrônico e Júnias: In: J.D. Douglas, ed. org. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 1, p. 79).

[3] Embora pudéssemos, como enviados (a)po/stoloj) de Cristo, exigir de vós a nossa manutenção, todavia, nos tornamos carinhosos entre vós, qual ama que acaricia os próprios filhos” (1Ts 2.7).

[4]É neste sentido que entendo a distinção feita por Inácio (30-110 AD), bispo de Antioquia da Síria, que quando se dirigia preso para Roma, conduzido ao seu martírio por se negar a adorar os deuses do Império, redigiu sete cartas à sete Igrejas. Na carta endereçada à Igreja de Roma, Inácio demonstra fazer distinção entre ele e os apóstolos Pedro e Paulo. Rogando aos irmãos romanos que não tentassem impedir o seu martírio, num trecho emocionante diz:

“….Sou trigo de Deus e sou moído pelos dentes das feras para encontrar-me como pão puro de Cristo. Acariciai antes as feras, para que se tornem meu túmulo e não deixem sobrar nada de meu corpo, para que minha morte não me torne peso para ninguém. Então de fato serei discípulo de Jesus Cristo, quando o mundo nem mais vir meu corpo. Implorai a Cristo em meu favor, para que por estes instrumentos me faça vítima de Deus. Não é como Pedro e Paulo que vos ordeno. Eles eram apóstolos, eu um condenado; aqueles livres, e eu até agora escravo. Mas, quando tiver padecido, tornar-me-ei alforriado de Jesus Cristo, e ressuscitarei n’Ele, livre. E agora, preso, aprendo a nada desejar” (Aos Romanos, 4.1-3. In: Cartas de Santo Inácio de Antioquia, 3. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1984, p. 66).

 

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (24)

O serviço que prestamos a Deus deve ser visto não como uma fonte de lucro ou projeção, mas como resultado de um chamado irrevogável de Deus. As Escrituras não tratam apenas da questão material, do que fazemos, mas, também, e essencialmente, com qual propósito o fazemos. A integridade de propósito em nossas ações é essencial às Escrituras. O que fazemos deve proceder das Escrituras e com o propósito de glorificar a Deus.

 

Paulo em seu ministério tinha esta consciência, de ser apóstolo pela vontade de Deus. A sua vontade era decorrente da vontade do seu Senhor.

 

Por força de ofício, já participei de alguns eventos acadêmicos. Observo que na apresentação do preletor ou conferencista destacam-se os seus títulos mais importantes, cargo que ocupa ou função que exerce. Em geral, acredito, isto predispõe positivamente o auditório a ouvi-lo com atenção considerando-o uma autoridade no assunto. O mesmo fazemos quando nos deparamos com um livro que nos chama a atenção, porém, escrito por um autor desconhecido. Tendemos a examinar quem é o autor, quem o apresenta, sua formação acadêmica, instituição em que trabalha, livros publicados etc.

 

Paulo inicia a Epístola como de costume, identificando-se e, apresentando o que considera o mais importante para os seus leitores: a fonte de sua autoridade apostólica, a sua vocação por vontade de Deus: “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus por vontade de Deus” (Ef 1.1/Rm 1.1-5; 1Co 1.1; 2Co 1.1; Cl 1.1; 2Tm 1.1).[1] “O apostolado de Paulo era algo para o louvor de Deus, porquanto ele foi transformado de inimigo em servo”, comenta Calvino.[2]

 

A sua mensagem não era uma nova filosofia resultante de suas reflexões autônomas ou experiência mística ou mesmo de vida,  antes, ele falava em nome de Deus, da parte de Deus. Era de fato um enviado de Deus. É preciso ter muita cautela para não confundirmos as nossas reflexões, sem dúvida úteis e necessárias, com a Palavra de Deus. Muito do que pensamos e refletimos pode estar dominado por paixões circunstanciais, cativas de determinadas apreensões que nos impedem de ver as Escrituras em sua abrangência. É preciso pensar e repensar. Contudo, a compreensão correta vem de Deus (2Tm 2.7).[3] Quando o âmago de nossa mensagem brota simplesmente de nossa experiência, sem dúvida, há algo de errado em nosso ensino.[4] Sem dúvida a Palavra é para ser vivenciada e ensinada. Contudo, o fundamento de nosso ensino não pode ser a nossa experiência, mas, a Palavra que é o poder de Deus (Rm 1.16).[5] Paulo anunciava a Palavra.

 

Continuando a leitura do primeiro capítulo de Efésios, percebemos logo de início um aspecto fundamental do Deus Bendito (Ef 1.3): a sua Soberania. Ele como Senhor da Igreja é quem vocaciona os seus servos, conforme comenta Calvino em lugares diferentes: “A Deus pertence com exclusividade o governo de sua Igreja. Portanto, a vocação não pode ser legítima a menos que proceda dele”.[6] “Sempre foi da vontade de Deus conservar a direção de sua igreja para si próprio, e que sua Palavra devesse ser recebida sem contradição. Ele não deu esse privilégio a criatura alguma”.[7]

 

A vocação de Deus antecede à nossa convicção e, ao mesmo tempo, o chamado não cai no vazio. Deus mesmo nos confere esta certeza subjetiva de que foi ele quem nos chamou para o seu serviço (Jr 1.5; Gl 1.15; Ef 3.7/Fp 2.13).[8]

 

Deste modo, “nenhum homem deve tomar essa honra para si próprio, mas deve esperar pela vocação divina, pois Deus é o único que pode legitimar os ministros”.[9] Portanto, insistimos, o que torna uma pessoa capacitada para um ofício, é a vocação de Deus (Hb 5.4).[10] Ele o faz por meio da Palavra: “Porquanto a Igreja não pode ser governada senão pela Palavra”.[11]

 

A tentativa de falar por si mesmo, sem o chamado divino, significa a presunção de ter sob si o governo da Igreja, o que é uma blasfêmia, pois, tal direção pertence a Deus, o soberano pastor. A presunção de uma autoridade autogerada e autogerida é por si só destrutiva a quem a pressupõe e, pior, à igreja.

 

Paulo diz que é “apóstolo de Cristo Jesus” (Ef 1.1), a quem ele reconhece como Senhor (ku/rioj) (Ef 1.2).[12] O substantivo a)po/stoloj ocorre 79 vezes no Novo Testamento, sendo costumeiramente usado por Paulo no início de suas cartas, ainda que não exclusivamente.[13] Ele provém do verbo a)poste/llw, que significa “enviar’, “mandar” (Mt 2.16; 11.10; Jo 1.6; At 3.20).[14]

 

O apostolado pressupõe a graça de Deus. A sua autoridade está justamente no fato de que é Deus quem o constitui. Paulo tinha perfeita consciência disso, levando em consideração, inclusive, que ele fora um perseguidor da igreja (1Co 15.9-10; 1Tm 1.12-15).

 

Calvino comenta:

 

Ora, é certo que somos vasos frágeis e sem importância, sim, não valendo mais do que potes quebrados. O que há naqueles a quem Deus ordenou para serem ministros de sua Palavra, senão o tesouro que é inestimavelmente grande em todos os tempos, a despeito da baixeza dos vasos (2Co 4.7)?[15]

 

É desta forma que Paulo escreve aos Romanos e aos Gálatas:

 

Jesus Cristo, nosso Senhor,  5 por intermédio de quem viemos a receber graça (xá/rij) e apostolado (a)postolh/) por amor do seu nome, para a obediência por fé, entre todos os gentios. (Rm 1.4-5).

Paulo, apóstolo (a)po/stoloj), não da parte de homens, nem por intermédio de homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos. (Gl 1.1).

 

 

Maringá, 3 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]“Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus, 2 o qual foi por Deus, outrora, prometido por intermédio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras, 3 com respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi 4 e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor, 5 por intermédio de quem viemos a receber graça e apostolado por amor do seu nome, para a obediência por fé, entre todos os gentios” (Rm 1.1-5). “Paulo, chamado pela vontade de Deus para ser apóstolo de Jesus Cristo, e o irmão Sóstenes” (1Co 1.1). Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo, à igreja de Deus que está em Corinto e a todos os santos em toda a Acaia” (2Co 1.1). Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, por vontade de Deus, e o irmão Timóteo” (Cl 1.1). “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, pela vontade de Deus, de conformidade com a promessa da vida que está em Cristo Jesus” (2Tm 1.1).

[2]João Calvino, Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 1.24), p. 45.

[3] Pondera (noe/w) (= atentar, compreender, pensar, entender) o que acabo de dizer, porque o Senhor (ku/rioj) te dará compreensão (su/nesij) (= entendimento, inteligência, discernimento) em todas as coisas” (2Tm 2.7).

[4] “No reino do misticismo espiritual, alguns têm deixado a autoridade da Palavra de Deus e estabelecido a autoridade da experiência” (Paul N. Benware, A obra do Espírito Santo hoje: In: Mal Couch, ed. ger., Os Fundamentos para o Século XXI: Examinando os principais temas da fé cristã, São Paulo: Hagnos, 2009, p. 402).

[5] “Nunca devemos basear nossas doutrinas na experiência, e sim na verdade” (D.M. Lloyd-Jones, Santificados Mediante a Verdade, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, (Certeza Espiritual, v. 3), 2006, p. 55).

[6]João Calvino, Gálatas, (Gl 1.1), p. 22.

[7] João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 24.

[8]“Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações” (Jr 1.5). “Quando, porém, ao que me separou antes de eu nascer e me chamou pela sua graça, aprouve” (Gl 1.15). “Do qual fui constituído ministro conforme o dom da graça de Deus a mim concedida segundo a força operante do seu poder” (Ef 3.7). “Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13).

[9]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.1), p. 22.

[10]Ninguém, pois, toma esta honra (sumo-sacerdócio) para si mesmo, senão quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão(Hb 5.4).

[11] João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (Tt 1.9), p. 313.

[12]A palavra ku/rioj, que em seu emprego grego carrega a compreensão de legalidade e autoridade do senhorio, quando aplicada a Jesus no sentido mais profundo e denso, correspondia não ao grego comum, mas, sim, ao hwhy do Antigo Testamento. É oportuno realçar que muitas das referências feitas a Jesus como Senhor consistem em citações de textos do Antigo Testamento que se referiam a Deus. (Vejam-se: At 2.20-21; Rm 10.13 [Jl 2.31-32]; 2Ts 1.7-10; 1Co 5.5; 2Ts 1.7-10 [Is 66.6] 1Pe 3.15 [Is 8.13].   Por isso, em diversos textos do Novo Testamento a identificação de Cristo com o Pai é tão evidente que, não se tem certeza se o título “Senhor” está sendo empregado para o Pai ou para o Filho (At 1.24; 2.47; 8.39; 9.31; 11.21; 13.10-12; 16.14; 20.19; 21.14; Rm 14.11). Antes da morte de Jesus Cristo os seus discípulos dão prova de reconhecerem o Seu Senhorio. O que por certo contribuiu para isto, foi a própria interpretação feita por Jesus Cristo, do Salmo 110.1 (Mt 22.41-45 e paralelos), embora saibamos que os rabinos também aceitavam o caráter messiânico deste salmo. (Cf. William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento: Mateus, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, v. 2, (Mt 22.44-45), p. 435; D.A. Carson, Comentario Bíblico del Expositor: Mateo, Mimi: Editorial Vida, 2004, (Mt 22.43-45), p. 529. Veja-se também, H. Bietenhard, Senhor: In: Colin Brown, ed. ger., O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 4, p. 427). Todavia, ninguém havia dito que o “Filho de Davi” era também “Senhor de Davi”.

Todavia, o título ku/rioj só foi alcançado plenamente depois da Sua ressurreição e ascensão quando então, não houve mais dúvida quanto a ser Jesus, o Senhor e Cristo. (Vejam-se, entre outros: Oscar Cullman, Cristologia do Novo Testamento, São Paulo: Editora Liber, 2001, p. 268; Ronald S. Wallace, Cristologia: In: E.F. Harrison, ed., Diccionario de Teologia, Michigan: T.E.L.L., 1985, p.133). Por isso Pedro pôde falar ousadamente diante do povo e das autoridades judaicas: “29 Irmãos, seja-me permitido dizer-vos claramente a respeito do patriarca Davi que ele morreu e foi sepultado, e o seu túmulo permanece entre nós até hoje. 30 Sendo, pois, profeta e sabendo que Deus lhe havia jurado que um dos seus descendentes se assentaria no seu trono, 31 prevendo isto, referiu-se à ressurreição de Cristo, que nem foi deixado na morte, nem o seu corpo experimentou corrupção. 32 A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas. 33 Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis. 34 Porque Davi não subiu aos céus, mas ele mesmo declara: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, 35 até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés. 36 Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor (ku/rioj) e Cristo” (At 2.29-36. Vejam-se também: 1Co 15.25; Hb 1.3,10,13). Esta convicção dos discípulos de Cristo, os impulsionou a testemunhar com firmeza, que Jesus era o Cristo (At 5.42) e Senhor (At 10.36).

[13]1Co 1.1; 4.9; 9.1,2,5; 12.28,29; 15.7,9; 2Co 1.1; Gl 1.1,17,19; Ef 1.1; 2.20; 3.5; 4.11; Fp 2.25; Cl 1.1; 1Ts 2.7; 1Tm 1.1; 2Tm 1.1; Tt 1.1.

[14]Primariamente, no grego secular, a palavra tinha o sentido de enviar um navio de carga ou uma frota. Somente mais tarde é que a palavra passou a indicar uma pessoa enviada, um emissário. Ver: E. von Eicken, et. al., Apóstolo: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 1, p. 234-239.

[15]João Calvino, Sermões em Efésios, p. 29. À frente: “Ademais, aqueles que são chamados para proclamar a Palavra de Deus devem se prevenir pelo exemplo de São Paulo, caminhando em modéstia. Porque, quem somos nós quando comparados a ele? Ele nos revela que não foi escolhido por algum recurso ou aptidão, mas porque era da vontade divina que fosse assim. Logo, certifiquemo-nos de que tudo que possuímos é proveniente de Deus e de sua pura graça, e que nada podemos atribuir a nós mesmos, a menos que queiramos despojá-lo de seu direito. E sabemos que semelhante ingratidão é intolerável” (João Calvino, Sermões em Efésios, p. 30).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (23)

4. Definição

 

Os diáconos são homens “constituídos pela Igreja para distribuir esmolas e cuidar dos pobres, como seus procuradores”, resume Calvino.[1] Analisando Atos 6, Calvino diz na primeira edição da Instituição (1536): “Vede aqui o ministério dos diáconos: cuidar dos pobres e ajudar-lhes. Daqui lhes vem o nome; e por isso são tidos como ministros”.[2]

 

O Art. 53 e alíneas da Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil (CI/IPB) (1950), apresenta uma definição que segue a mesma linha bíblica de Calvino; porém, amplia a sua função, adaptando-a às necessidades da Igreja no Brasil:

 

Art. 53 – O diácono é o oficial eleito pela Igreja e ordenado pelo Conselho, para, sob a supervisão deste, dedicar-se especialmente:

  1. a) à arrecadação de ofertas para fins piedosos;
  2. b) ao cuidado dos pobres, doentes e inválidos;
  3. c) à manutenção da ordem e reverência nos lugares reservados ao serviço divino;
  4. d) exercer a fiscalização para que haja boa ordem na Casa de Deus e suas dependências.

 

Analisemos agora o que as Escrituras nos ensinam sobre os requisitos necessários ao diaconato.

 

5. Requisitos para o ofício de Diácono

 

Devemos observar que os requisitos para o diaconato e para o presbiterato são, em geral, exigências comuns aos membros da Igreja. Isto aponta para a seriedade proposta para a vida cristã.

 

No entanto, devemos estar atentos para o que foi destacado por Miller (1769-1850):

 

Todos esses requisitos são muito mais importantes e exigidos num grau muito mais elevado daqueles a quem se confiou a inspeção e supervisão espirituais da igreja. Assim como ocupam lugar de maior honra e autoridade que o dos outros membros da igreja, detêm do mesmo modo uma posição de muito maior responsabilidade.[3]

 

5.1. Ser vocacionado

 

Na Igreja de Cristo a vocação não é uma questão de escolha pessoal: ninguém tem autonomia para se autonomear. Deus condena a autovocação[4] (Jr 23.21,32).[5] Portanto, Pastor, Presbíteros e Diáconos, todos, sem exceção, precisam ser vocacionados por Deus para estes ofícios (Jo 10.1-2; Hb 5.4).[6]

 

Não estamos a nosso serviço, mas, de Deus. Somos embaixadores de Deus em nome Cristo (2Co 5.20),[7] soldados de Cristo (2Tm 2.3),[8] mordomos da despensa de Deus (1Co 4.1).[9] É Deus quem vocaciona e comissiona. A obra é Dele. Ele é o Senhor dos meios e dos fins.

 

Calvino expõe essa questão:

 

As únicas pessoas que têm o direito de ser ouvidas são aquelas a quem Deus enviou e que falam a palavra de Sua boca. Portanto, para qualquer homem exercer autoridade, duas coisas são requeridas: o chamamento [divino] e o desempenho fiel do ofício por parte daquele que foi chamado.[10]

 

A CI/IPB., Art. 108, prescreve isto, com adequada compreensão bíblica: “Vocação para ofício na Igreja é a chamada de Deus, pelo Espírito Santo, mediante o testemunho interno de uma boa consciência e a aprovação do povo de Deus, por intermédio de um concílio” (Veja-se também, Art. 109 e §§).

 

Calvino (1509-1564) comenta em lugares diferentes a importância fundamental da vocação divina:

O que torna válido um ofício é a vocação, de modo que ninguém pode exercê-lo correta ou legitimamente sem antes ser eleito por Deus (…). Nenhuma forma de governo deve ser estabelecida na Igreja segundo o juízo humano, senão que os homens devem atender à ordenação divina; e, ainda mais, que devemos seguir um procedimento de eleição preestabelecido, para que ninguém procure satisfazer seus próprios desejos. (…) Segundo é a promessa de Deus de governar sua Igreja, assim ele reserva para si o direito exclusivo de prescrever a ordem e forma de sua administração.[11]

Agora, pois, quando em uma assembleia sagrada tudo deva ser feito “em ordem e com decência” [1Co 14.40], não há nada que importe observar com mais diligência do que o estabelecimento do governo, porquanto em coisa alguma o perigo é maior do que quando algo é feito sem a devida ordem. Assim sendo, para que não se introduzissem temerariamente homens inquietos e turbulentos a ensinar ou a governar, o que de outra sorte haveria de acontecer, tomou-se precaução expressamente a que alguém não assuma para si ofício público na Igreja sem a devida vocação. Portanto, para que alguém seja considerado verdadeiro ministro da Igreja, primeiro importa que tenha sido devidamente chamado [Hb 5.4]; então, que responda ao chamado, isto é, empreenda e desempenhe as funções a si conferidas. Isto é possível notar frequentemente em Paulo, o qual, quando quer provar seu apostolado, quase sempre menciona sua vocação juntamente com sua fidelidade em executar seu ofício. Se um tão grande ministro de Cristo não ousa arrogar para si autoridade para ser ouvido na Igreja, senão porque não só foi nisso constituído por mandado do Senhor, mas também leva fielmente a bom termo o que lhe foi confiado, quão grande impudência será, se qualquer dos mortais, destituído de uma ou outra destas duas credenciais, reivindique para si uma honra desta natureza![12]

A Deus pertence com exclusividade o governo de sua Igreja. Portanto, a vocação não pode ser legítima a menos que proceda dele.[13]

 

Maringá, 02 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]João Calvino, As Institutas (2006), IV.3.9.

[2]Juan Calvino, Institución de la Religión Cristiana, (1536), Buenos Aires; México: La Aurora; Casa Unida de Publicaciónes, (Obras Clasicas de la Reforma, v. 15 e 16), (1958), T. 2, p. 102. Veja-se também, As Institutas, IV.3.9.

[3] Samuel Miller, O Presbítero Regente: Natureza, Deveres e Qualificações, São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 38.

[4] Devo esta expressão a Turretini. Veja-se: François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 3, p. 263-264, 292.

[5]Não mandei esses profetas; todavia, eles foram correndo; não lhes falei a eles; contudo, profetizaram” (Jr 23.21). “Eis que eu sou contra os que profetizam sonhos mentirosos, diz o SENHOR, e os contam, e com as suas mentiras e leviandades fazem errar o meu povo; pois eu não os enviei, nem lhes dei ordem; e também proveito nenhum trouxeram a este povo, diz o SENHOR” (Jr 23.32).

[6]“Ninguém, pois, toma esta honra para si mesmo, senão quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão” (Hb 5.4). Em 1967, Lloyd-Jones foi enfático: “O problema conosco, digo eu, é que as pessoas estão se enviando a si mesmas, nomeando-se a si próprias como pregadores. Certamente isso é totalmente errado. (…) Homem nenhum tem o direito de simplesmente levantar-se e pôr-se a pregar, ou a fazer o que ele pensa que é pregar. (…) A maneira ideal e certa é que a vocação venha de Deus ao homem e seja confirmada pela igreja e eu duvido que alguém tenha direito de pregar, a não ser que esses dois elementos estejam presentes em seu caso particular. (…) Só existe uma coisa mais perigosa do que ser pregador, é ser pregador leigo” (D.M. Lloyd-Jones, Discurso feito em setembro de 1967 numa conferência estudantil no Seminário Teológico de Westminster, em Filadélfia. In: Discernindo os Tempos, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1989, p. 274-275).

[7]De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus(2Co 5.20).

[8]Participa dos meus sofrimentos como bom soldado de Cristo Jesus(2Tm 2.3).

[9]Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus(1Co 4.1).

[10]João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 1.1), p. 15.

[11]João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 5.4), p. 127-128.

[12] João Calvino, As Institutas (2006), IV.3.10.

[13]João Calvino, Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 1.1), p. 22. Vejam-se também alguns comentários e passagens na vida do Reformador que são elucidativos: João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.31), p. 71  As Cartas de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 49-50; Gálatas-Efésios-Filipenses-Colossenses, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2010, (Fp 2.21), p. 430-431; As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 6.12), p. 173; Efésios, São Paulo: Paracletos, 2008, (Ef 4.11), p. 119; O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v, 1, (Sl 4.3), p. 96).