Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (46)

Não há problemas de competência e jurisdição

            A Palavra enfatiza o domínio de Deus sobre todos os povos; todas as nações da Terra. Por isso, podemos dizer com o salmista:  “Ele julga (!yD) (diyn) entre as nações” (Sl 110.6).

            Deste modo, não há problemas de competência ou jurisdição: “Ele mesmo julga o mundo”(Sl 9.8).

O Senhor da História conduz a história para o seu glorioso fim: “O Senhor da história será o Juiz do mundo inteiro”, conclui Lloyd-Jones.[1]

            Deus exerce ativamente o seu poder sobre o mundo e os homens, dirigindo a História para a realização do seu propósito eterno. O salmista, nessa certeza, louva ao Senhor: “Ele é o SENHOR, nosso Deus; os seus juízos permeiam toda a terra” (Sl 105.7).

Soberania, juízo e história

            É muito difícil para nós entender a história.[2] Na realidade essa dificuldade não é apenas nossa. O salmista nos salmos 10 e 73, de modo especial, e Habacuque, conforme vimos, demonstram ter esta dificuldade.

Ninguém escapa desse problema em algum momento de sua vida.

Observe que não estamos falando simplesmente da macro história; refiro-me até mesmo à dificuldade que por vezes temos de entender a nossa própria história de vida. As adversidades pelas quais passamos, doenças, desemprego, incompreensão, calúnias, crises familiares etc.

Muitas vezes pensamos que as coisas estão indo mal e, quando imaginamos que chegamos ao fim do poço, elas ainda pioram. Nessas situações tendemos a nos angustiar profundamente.

Nem sempre a nossa fé triunfa em nossas angústias

            Com frequência não nos é possível compreender a nossa situação de dor e angústia. Mais ainda: nem sempre nos parece possível manter a nossa fé em Deus nas angústias. Não estou dizendo que perdemos a fé; o que percebo é que o difícil é manter a nossa fé subjetivada: crer e viver, comportar-se, responder em consonância com esta fé. A nossa fé nem sempre triunfa de modo existencial durante as nossas tribulações.

            O fato, é que mesmo administrando a história por meio de homens, Deus continua no controle sobre todos os povos e o faz, com retidão. A sua reta vontade prevalecerá sempre.

Governo reto: o mal sob o governo de Deus

            O governo soberano de Deus é reto, com equidade, com direito e de forma suave. Os solavancos na história devem-se à rebeldia do homem que deseja subverter o justo governo de Deus. Daí, muitas vezes, as guerras, fome, pestes, epidemias, exploração e injustiças sociais. O governo de Deus é suave e justo.

Calvino comenta:

Deus se assenta supremo, mesmo quando os ímpios triunfam em seus sucessos, ou quando os justos são tripudiados sob os pés da insolência, e que vem o dia quando arrancará o cálice dos prazeres das mãos de seus inimigos e alegrará o coração de seus amigos, livrando-os de suas mais profundas angústias.[3]

            Não pensemos que o mal não esteja sob o governo soberano de Deus dentro de seus propósitos eternos.

O mundo não está entregue à própria sorte. Deus o governa. Ainda que não percebamos a todo momento sinais desse governo, podemos descansar seguros, certos de que a esperança do aflito não se há de frustrar para sempre.[4] O para sempre é dentro de uma perspectiva totalmente humana.

Na realidade, pela ótica divina, que é a verdadeira, a esperança do aflito, depositada nas promessas de Deus nunca se frustra. Podemos nos frustrar com os nossos sonhos e anseios, porém, nunca com as promessas de Deus.

            Os seus retos e santos juízos permeiam toda a Terra. Nada ficará de fora

Caráter missionário

            Como a realeza de Deus sobre todas as coisas é um fato, há na visão dos salmistas a certeza de que o seu juízo também é sobre toda a criação, adquirindo um caráter temporal e escatológico. O nosso Deus não é de uma cultura, de um povo, das montanhas, dos mares ou dos ares, antes é o Rei sobre todas as coisas, visíveis e invisíveis. Como tal, juiz de todas as nações: Essa certeza era parte integrante do caráter missionário da igreja mesmo no Antigo Testamento:

             “Reina o SENHOR. Ele firmou o mundo para que não se abale e julga (!yD) (diyn) os povos com equidade” (Sl 96.10).

                “Na presença do SENHOR, porque vem, vem julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos, consoante a sua fidelidade” (Sl 96.13/Sl 98.9).[5]

Comentando o Salmo 96, Calvino sustenta que:

O salmista está exortando o mundo inteiro, e não apenas os israelitas, ao exercício da devoção. Isso não poderia ser efetuado, a menos que o evangelho fosse universalmente difundido como meio de comunicar conhecimento de Deus. (…) O salmista notifica, consequentemente, que o tempo viria quando Deus erigiria seu reino no mundo de uma maneira totalmente imprevista. Ele notifica ainda mais claramente como ele procede, ou, seja: que todas as nações partilhariam do favor divino. Ele convoca a todos a anunciarem sua salvação e, desejando que a celebrassem dia após dia, insinua que ela não era de uma natureza transitória ou evanescente, mas que duraria para sempre.[6]

Maringá, 11 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]D. M. Lloyd-Jones, Deus o Pai, Deus o Filho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1997 (Grandes Doutrinas Bíblicas, v. 1), p. 323.

[2] “A história é ciência do homem e nada do que se refere ao homem é simples. E se uma questão histórica importante nos parece simples, o nosso dever deve ser imediatamente complicá-la, pois, ao vê-la simples, podemos ter a certeza de que a deformamos… Por outras palavras, o papel do historiador não é simplificar o real, é procurar, por trás das aparências da simplicidade, a complexidade das coisas vivas, o corrente, a necessária complexidade da vida” (Lucien Febvre, A Europa: génese de uma Civilização, Lisboa: Teorema, 2001,p. 153).

[3]João Calvino, O Livro dos Salmos,São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 49.1-2), p. 372.

[4] “A fé não deixou de ser confiante. Ela não se baseia em instáveis acasos terrenos, mas no Deus que, apesar de tudo, está no trono. Porém, os golpes terrenos também são reais, e muitas vezes o mundo em que vivemos parece pertencer aos ímpios e maus” (J.A. Motyer, Os Salmos: In: D.A. Carson, et. al., eds. Comentário Bíblico: Vida Nova, São Paulo: Vida Nova, 2009, (Sl 9), p. 746).

[5]“Na presença do SENHOR, porque ele vem julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos, com equidade” (Sl 98.9).

[6] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 96.1), p. 514-515.

O Palhaço e o Profeta: Uma indefinição vocacional e as suas graves consequências

Costumamos lamentar, hoje em dia, que os ministros não sabem pregar; mas não é igualmente verdadeiro que nossas congregações não sabem ouvir”[1]

J.I. Packer

Certa vez, um circo se instalou próximo de uma cidadezinha dinamarquesa. Este circo pegou fogo. O proprietário do circo vendo o perigo do fogo se alastrar e atingir a cidade, mandou o palhaço, que já estava vestido a caráter, pedir ajuda naquela cidade a fim de apagar o fogo, falando do perigo iminente. Mas, inútil foi todo o esforço do palhaço para convencer os seus ouvintes. Os aldeões riam e aplaudiam o palhaço entendendo ser esta uma brilhante estratégia para fazê-los participar do espetáculo. Quanto mais o palhaço falava, gritava e chorava, insistindo em seu apelo, mais o povo ria e aplaudia. O fogo se propagou pelo campo seco, atingiu a cidade e esta foi destruída.[1]

     De forma semelhante, temos muitas vezes apresentado uma mensagem incompreensível aos nossos ouvintes, talvez porque ela também seja incompreensível a nós.

     As pessoas se acostumaram a nos ouvir brincar e baratear tanto as coisas sagradas, que já não conseguem descobrir o sagrado em nossas brincadeiras. Alguns pregam como se estivessem no picadeiro. A nossa mensagem parece ser feita de palha, como as vestes dos palhaços eram preenchidas originariamente.

     Por outro lado, nossos ouvintes, por não perceberem a diferença entre o propósito de cada função, comentem uma falsidade ideológica-vocacional. Assim, o picadeiro (afeito ao palhaço) e o púlpito (afeito ao profeta), se intercambiam. Esse comportamento mutante, seria até tolerável por parte do palhaço, reforçado por um aplauso, por vezes, literal, quase litúrgico.

     Deste modo, a profecia (pregação) torna-se motivo de simples gostar ou não gostar e o circo perde um de seus prováveis talentosos componentes. Assim, sem nos darmos conta, estamos compactuando com a indiferença de nossos ouvintes, que, de certa forma, estão “cansados” da palavra “Evangelho”, sem que na realidade, nunca tenham sido ensinados a respeito do Evangelho de Cristo.

     Nesse caso, a avaliação da mensagem pregada fica restrita ao gostar ou não do ouvinte. Se gostei foi boa, se não, é ruim. Criamos uma categoria arbitrária e solitária do que de fato ou pretensamente fato é verdadeiro ou não a partir do gosto, como se este também não fosse afetado pelas consequências do pecado. Na realidade, o gostar ou não deve estar subordinado ao exame das Escrituras (At 17.11). Procedendo como os bereanos, examinando as Escrituras, descobriremos, para surpresa nossa, o quão o nosso gosto pode ser pecaminoso e inconsequente em muitas situações.

     O Evangelho é uma mensagem acerca de Deus – da sua Glória e de Seus atos salvadores -; acerca do homem – do seu pecado e miséria -; acerca da salvação e da condenação condicionada à submissão ou não a Cristo como Senhor de sua vida. Essa mensagem que envolve uma decisão na história, ultrapassa a história, visto ter valor eterno. Portanto, não podemos brincar com ela, não podemos fazer testes: estamos falando de vida e morte eternas (Jo 3.16-18).[2]

      Albert Martin apresenta uma crítica pertinente:

O esforço desnatural de certos pregadores para serem “contadores de piadas”, entre a nossa gente, constitui uma tendência que precisa acabar. A transição de um palhaço para um profeta, é uma metamorfose extremamente difícil.[3]

     O mundo por sua vez, deseja ansiosamente ouvir, porém, não a Palavra de Deus (1Jo 4.5). Como há falsos pregadores e falsos mestres, é necessário provar o que está sendo proclamado para ver se o seu conteúdo se coaduna com a Palavra de Deus (At 17.11,12/1Jo 4.1-6).

     No entanto, neste período de grandes e graves transformações, torna-se evidente que os homens, de forma cada vez mais veemente, querem ouvir mais o reflexo de seus desejos e pensamentos, a homologação de suas práticas. Assim sendo, a palavra que deveria ser profética, tende com demasiada frequência – mesmo assinando o seu obituário – a se tornar apenas algo apetecível ao público alvo, aos seus valores e devaneios, ou, então, nós pregadores, somos tentados a usar de nossa eloquência para compartilhar generalidades da semana, sempre, é claro, com uma alusão bíblica aqui ou ali, para justificar a nossa pregação. O fato é que uma geração incrédula, é sempre acintosamente crítica para com a palavra profética.

     Parece-me correto o comentário de Vincent (1834-1922) quando declara que: “A demanda gera o suprimento. Os ouvintes convidam e moldam os seus próprios pregadores. Se as pessoas desejam um bezerro para adorar, o ministro que fabrica bezerros logo é encontrado”.[4]

     Portanto, é preciso atenção redobrada para não cairmos nesta armadilha já que não é difícil confundir os efeitos de uma mensagem pelo conteúdo do que anunciamos: A proclamação cristã deve ser avaliada primeiramente pelo seu conteúdo, não simplesmente pelo seu aparente resultado. O que Deus exige de nós é fidelidade. Os resultados estão nas mãos de Deus porque, de fato, pertencem a Deus.  

     Iain Murray está correto ao afirmar:

O crescimento espiritual na graça de Cristo vem em primeiro lugar. Onde esse crescimento é menosprezado em troca da busca de resultados, pode haver sucesso, mas será de pouca duração e, no final, diminuirá a eficácia genuína da Igreja. A dependência de número de membros ou a preocupação com números frequentemente tem se confirmado como uma armadilha para a igreja.[5]  

     Evangelizar é declarar o poder de Deus, que transforma os homens, unindo-os a si, preservando-os até o fim.

     Imaginem um jovem entre centenas de outros, ansiosamente procurando seu nome nas listas afixadas nas paredes na universidade a fim de saber se foi aprovado ou não no vestibular. De repente surge um amigo com um sorriso largo e com os braços abertos, dizendo: “parabéns, você foi aprovado”. O jovem dá-lhe um abraço apertado, pula, grita, ri, chora, comemora… Depois de alguns minutos de euforia, aquele “amigo” diz: “É brincadeira; seu nome não consta entre os aprovados”. Se você fosse aquele vestibulando, como reagiria? Pense nisto: Se você corretamente não admite brincadeiras com coisas sérias, o Evangelho, que envolve vida e morte eternas seria passível de brincadeiras, de gracejos? A pregação é assunto para profetas, não para palhaços. As vocações são diferentes. Pensemos nisso.

     Maringá, 10 de outubro de 2019

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Esta parábola é contada por Kierkegaard (1813-1855) e aplicada nas obras de Harvey Cox, (A Cidade do Homem, 2. ed.Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1971, p. 270) e J. Ratzinger (Introdução ao Cristianismo, São Paulo: Herder, 1970, p. 7-8). Todavia a aplicação que ambos fazem é distinta uma da outra. A que faço é diferente da de ambos.

[2]“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3.16-18).

[3] Albert N. Martin, O Que há de errado com a pregação de hoje? São Paulo: Fiel, (s.d.), p. 23. Mais recentemente escreveu Lawson: “Esse tipo de pregação nominal satisfaz aos ouvintes por substituir a exposição bíblica por entretenimento. Substitui a teologia por teatro. Oferece avaliações saudáveis no lugar da sã doutrina. Nesta mudança infeliz, o drama da redenção dá lugar a simples apresentações teatrais. Essa pregação desprezível tem transformado muitos púlpitos em um palco de fim de semana para atores que se mascaram de pregadores” (Steven J.  Lawson, O tipo de pregação que Deus abençoa,  São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2013, p. 37).

[4] Marvin R. Vincent, Word Studies in the New Testament,  Peabody, Massachusetts: Hendrickson  Publishers, (s.d),v. 4, (2Tm 4.3), p. 321.

[5]Iain Murray, A Igreja: Crescimento e Sucesso: In: Fé para Hoje,São José dos Campos, SP.: Fiel, nº 6, 2000, p. 27.


[1]J.I. Packer, Entre os gigantes de Deus: Uma visão puritana da vida cristã,São José dos Campos, SP.: FIEL, 1996, p. 275.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (45)

D. Juízo universal

Um recurso de retórica muito comum, ainda que indesejável, é incluir o “nós” onde só se tem certeza do “eu”.

Assim, falamos em nome de pessoas que não nos autorizaram a representá-las em nossa fala e, também, não temos autoridade para isso, exceto a concedida pelo nosso despropositado e pretensioso eu.

            Outra forma ideológica discursiva é a generalização indevida como estratégia para conferir força ao argumento.

Assim, falamos: “Hoje ninguém mais pensa dessa forma”; “Todos sabemos”; “Pesquisas têm demonstrado”; “A ciência já provou”, esse ou aquele pensamento “está totalmente ultrapassado” etc.

            Saindo dessas construções ideológicas, podemos retornar às Escrituras.

Senhor que governa

            As Escrituras declaram com insistência que Deus é Rei. O fato é que como Deus é o Senhor Criador de todas as coisas (Rei), também governa sobre todo o universo (Reina). Não há aqui generalizações, presunção ou hipérboles.

            Deste modo, a manifestação do seu juízo será sobre todos os povos. Ninguém será julgado simplesmente pelos padrões da sua cultura. Aqui não há nenhum tipo de relativismo[1] e subjetivismo.[2] A Lei de Deus permanece extensiva e permanentemente: sobre todos os povos e para sempre.

Boice (1938-2000) resume:

Quando perguntamos o que é certo, o que é moral, respondemos à questão não apelando para algum padrão moral independente, como se pudesse haver um padrão para qualquer coisa separado de Deus, e sim apelando para a vontade e natureza do próprio Deus. O certo é o que Deus é e revela para nós.[3]

            “O Senhor(hwhy) (Yehovah) julga os povos” (Sl 7.8). Deus julga a todos os povos porque, na realidade, todo o universo, toda a criação, visível e invisível, lhe pertencem e estão sob a sua preservação, cuidado e senhorio. Deus não é indiferente à sua criação. Deus não está ocioso nem inerte.[4]

O juízo de Deus é universal. Ele é independente. O seu juízo não é uma pretensão megalomaníaca, antes, é a manifestação santa e justa de seu governo. Ele é o Senhor.  Por isso tem autoridade e autonomia para fazê-lo.

            Não há nada no mundo que possa presumir autonomia ou independência de Deus. Tudo pertence a Deus.  Ele é o legítimo proprietário de todas as coisas. 

            Contudo, em alguns momentos a sucessão dos eventos históricos pode nos deixar perplexos, como aconteceu com o profeta Habacuque (Hc 1 e 2).

Entretanto, a mão poderosa de Deus rege todos os acontecimentos. Deus dirige a história fazendo com que todas as coisas contribuam para o bem do seu povo, da sua Igreja (Rm 8.28).

Toda nação da terra está sob a mão divina, porque não há poder neste mundo que, em última instância, não seja por Ele controlado. (…) Deus é o Senhor da história. (…) Ele começou o processo histórico, controla-o, e por-lhe-á um fim. Jamais devemos perder de vista este fato decisivo.[5]

            O salmista inspirado por Deus afirma que Deus “administra (julga) os povos com retidão” (Sl 9.8).

Bavinck escreve de modo esclarecedor e confortador:

A doutrina da providência não é um sistema filosófico, mas uma confissão de fé, a confissão de que, apesar das aparências, nem Satanás, nem  o ser humano, nem qualquer outra criatura, mas somente Deus – mediante seu poder Todo-Poderoso e presente em toda parte – preserva e governa todas as coisas. Essa confissão pode nos salvar tanto de um otimismo superficial que nega os mistérios da vida quanto de um pessimismo arrogante que se desespera deste mundo e do destino humano.[6]

            Ele tem o controle de todas as coisas. É o Senhor não só de Israel, mas, também, de todos os povos. E como não poderia deixar de ser, o controle universal de Deus é com retidão. Isto indica que um dos aspectos de sua soberania ligado diretamente a nós, é o seu governo sobre a história; nada lhe é estranho.

            O juízo de Deus está sobre todas as esferas, tanto na forma de amplitude (extensividade) como de intensidade (profundidade). (Sl 130).

“Como grande Rei, o Senhor serve como o tribunal de apelação em questões civis para todos os oprimidos, isto, não somente para os oprimidos de Israel”, interpreta Bosma.[7]

            Nada lhe é indiferente. O sofrimento de seu povo não lhe passa desapercebido ou alheio ao seu santo controle.

Nessa certeza o salmista se conforta: “Pois o necessitado não será para sempre esquecido, e a esperança dos aflitos não se há de frustrar perpetuamente” (Sl 9.18/Sl 10.12-18).

            No alegre e agradecido cântico de Ana, há a declaração do governo de Deus sobre “as extremidades da Terra”: “Os que contendem com o SENHOR são quebrantados; dos céus troveja contra eles. O SENHOR julga (!yD) (diyn)as extremidades da terra, dá força ao seu rei e exalta o poder do seu ungido” (1Sm 2.10).

Águas de Lindóia, 8 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Para o relativismo ético ou convencionalismo, os conceitos considerados verdadeiros são produtos dos valores de uma época, de uma cultura, de um povo. Assim, toda verdade é relativa às crenças de uma sociedade, época, grupo ou cultura. Deste modo, não existe um código moral universalmente válido, antes, há uma infinidade de códigos com reivindicações semelhantes. A questão, portanto, não é quanto à existência de um código moral, antes, a sua validade universal. (Para uma descrição dos tipos de relativismos, vejam-se: David B. Wong, Relativismo Moral: In: Monique Canto-Sperber, org. Dicionário de Ética e Filosofia Moral, São Leopoldo, RS.: Editora Unisinos, 2003, v. 2, p. 490-496; J.P. Moreland; William L. Craig, Filosofia e Cosmovisão Cristã, São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 498ss. Uma visão erudita e bem humorada do relativismo cultural mostrando a sua realidade, limites e incompreensões de seus acusadores, encontramos em: Clifford Geertz, Nova Luz Sobre a Antropologia, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001, p. 47-67. Para uma avaliação cristã, vejam-se os artigos: Relativismo, Relativismo Cultural e Relativismo Ético. In: Carl Henry, org. Dicionário de Ética Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 507-514; Verdade, natureza da: Norman Geisler, Enciclopédia de Apologética: respostas aos críticos da fé cristã, São Paulo: Editora Vida, 2002, p. 864-867 (especialmente); John Piper, Pense – A Vida da Mente e o Amor de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 133-166.

[2] Para o subjetivismo, a validade da verdade está limitada ao sujeito que conhece e julga. Desta forma, não podemos falar de uma realidade idêntica para todo o ser humano. Toda certeza é pessoal, visto que toda a verdade é subjetiva.

[3] James M. Boice, Fundamentos da Fé Cristã: Um manual de teologia ao alcance de todos,  Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2011, p. 112.

[4] “Deus nunca está ocioso. Ele nunca está passivamente presente, como mero espectador” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 617). “Seu poder não cessou, mesmo no sétimo dia, no governo  do céu e da terra e de todas as coisas que criara, pois do contrário em seguida se desfariam. De fato, o poder do Criador e a virtude do Onipotente e do Mantenedor é causa da subsistência de toda a criatura” (Santo Agostinho, Comentário ao Gênesis, São Paulo: Paulus, 2005 (Coleção Patrística; 21), IV.12, p. 133).

[5] D. Martyn Lloyd Jones, Do temor à fé, Miami: Editora Vida, 1985, p. 21.

[6] Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 631

[7] Carl J. Bosma, Os Salmos: Porta de Entrada para as Nações. Aspectos da base teológica e prática missionária no Livro dos Salmos, São Paulo: Fôlego, 2009, p. 35.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (44)

Retidão consoante com sua justiça

            A retidão de Deus é consoante à sua justiça. A justiça é a manifestação do caráter essencialmente santo de Deus. Deus é justo em todos os seus atos, não se desvia de seu próprio padrão que é decorrente de sua santidade. A prática da justiça, que pode ser chamada de retidão, significa agir conforme o caráter de Deus, aquele que é justo absolutamente.

            Deus é o próprio padrão: “Deus é fidelidade, e não há nele injustiça: é reto e justo(qyDIc;) (tsadiyq)(Dt 32.4).

            O trono do Senhor está fundamentado em sua própria natureza santa, verdadeira e justa; é deste modo que Ele governa: “Justiça (qd,c) (tsedeq) e direito são o fundamento do teu trono; graça e verdade te precedem”(Sl 89.14).

            Deste modo, “a maior desonra que alguém poderia lançar sobre seu nome é a de contestar sua justiça”, interpreta Calvino.[1]

                 “Ele mesmo julga (jp;v) (shaphat) o mundo com justiça; administra (!yD) (diyn) os povos com retidão (rIv’yme.) (meshar)(Sl 9.8), escreve o salmista.

            Não há injustiça nos mandamentos de Deus. Não há contradição, equívocos ou parcialidade. Todos são igualmente justos. Essa convicção bíblica deve estimular o nosso louvor conforme vivenciou o salmista: “A minha língua celebre a tua lei, pois todos os teus mandamentos são justiça (qd,c,) (tsedeq) (Sl 119.172).

            Podemos, portanto, dizer que a justiça é a exteriorização da santidade de Deus em suas relações com as suas criaturas conforme revelada nas Escrituras.

A justiça de Deus se caracteriza por sua ação coerente com a sua natureza eterna. Por isso, suas ações são sempre perfeitas e retas, pois o seu padrão é a perfeição.

            Deus julga com justiça porque Ele, como o seu Filho, ama a justiça e aborrece a iniquidade: “Amas a justiça (qd,c) (tsedeq) e odeias a iniquidade; por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria, como a nenhum dos teus companheiros” (Sl 45.7/Hb 1.8-9).

Deísmo, Panteísmo e Panenteísmo

            O salmista parte de uma certeza: o mundo não está entregue ao acaso ou ao governo dos homens. Como vimos, Deus compartilha com o homem o seu poder, contudo, não abriu mão de sua soberania. Aqui não há espaço para nenhum tipo de Deísmo (Deus distante da Criação), Panteísmo (Deus se confunde com a matéria),  Teísmo Finito(Deus é bom, mas, limitado pelo mal) ou Panenteísmo(Deus e o mundo são eternos).[2]

            Como criador, preservador e proprietário de todas as coisas, Ele governa e julga com justiça: “Justo (qyDIc;) (tsadiyq) é o Senhor em todos os seus caminhos, benigno em todas as suas obras” (Sl 145.17).

O salmista ora a Deus: “Julga-me, SENHOR, Deus meu, segundo a tua justiça (qd,c) (tsedeq); não permitas que se regozijem contra mim” (Sl 35.24).

            Há a certeza de que “Justo (qyDIc;) (tsadiyq) és, SENHOR, e retos, os teus juízos” (Sl 119.137). 4Porque sustentas o meu direito e a minha causa; no trono te assentas e julgas (jp;v’) ((shaphat) retamente (qd,c) (tsedeq). (…) 8Ele mesmo julga o mundo com justiça (qd,c) (tsedeq); administra os povos com retidão (rIv’yme.) (meshar)[3] (Sl 9.4,8).

            A certeza de que há leis e de que somos governados por meio delas, não basta para nos fazer sentir confiantes em todo tempo.

            Muitas vezes as nossas causas nos parecem tão pequenas – perdidas entre tantas e tantas outras de maior proporção ou de maior importância conforme o grau de interesse de quem compete julgar -, que nem alimentamos grande esperança.

            Nestes casos cultivamos uma espécie de ceticismo resultante da convicção, sempre ilustrada, de que não há espaço para a justiça. A generalização indevida é pródiga na fomentação do ceticismo que, por sua vez, só retroalimenta a nossa insatisfação e a satisfação de a disseminarmos de forma corrosiva entre os crentes.

            O salmista, no entanto, afirma que o Deus que rege as nações e julga o mundo com justiça, também sustenta o seu direito e a sua causa (Sl 9.4). Ou seja: Deus cuida pessoalmente de nós e de nossas causas; nada fica esquecido ou perdido em meio aos “papéis”. Daí o salmista dizer:“Sei que o SENHOR manterá a causa (!yD) (diyn) do oprimido (ynI[‘)(`aniy) e o direito (jP’v.mi) (mishpat) do necessitado (!Ayb.a) (‘ebyon)(Sl 140.12).

            De fato, o Justo Senhor é o nosso pastor.

Águas de Lindóia, 8 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]João Calvino, O Livro dos Salmos,São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 50.21), p. 417.

[2]Veja-se: W. Gary Crampton; Richard E. Bacon, Em direção a uma cosmovisão cristã, Brasília, DF.: Monergismo, 2010, p. 93-106; Cosmovisão: In: Norman Geisler, Enciclopédia de apologética, São Paulo: Vida, 2002, (2. impressão), p. 188-189.

[3]A palavra retidão significa, entre outras coisas: Sinceridade (1Cr 29.17); Equidade (Sl 17.2; 96.10; 98.9; 99.4; Pv 1.3; 2.9); Retamente (Sl 75.2); Coisas retas (Pv 8.6; 23.16); Suavidade (Pv 23.31; Ct 7.9); Caminho plano (Metaforicamente) (Is 26.7); Reto (Is 33.15); Direito (Is 45.19); Concórdia (Dn 11.6).

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (43)

  C. Julga com justiça

Podemos ter um conhecimento adequado da matéria a ser avaliada, contudo, os meus critérios podem se revelar bastante flexíveis conforme aspectos de minha personalidade, interesse e circunstâncias.

Conforme a cidade na qual o juiz vive, o fato de ser solteiro ou casado, ter filhos ou não, ser muito jovem ou mais maduro, ser um religioso “praticante” ou não, homem ou mulher, considerar o assunto de extrema relevância ou não etc., todos estes elementos podem interferir em sua sentença.

O fato é, que se assim não fosse, como explicar os pareceres tão divergentes tratando da mesma matéria, sob a perspectiva das mesmas leis, por parte dos juízes do Supremo Tribunal Federal, a mais alta instância do poder judiciário brasileiro?

            Os seus padrões, por mais objetivos que sejam refletem aspectos também de sua formação e vivência. Não estamos imunes a estes elementos antropológicos, sociais, culturais, educacionais, geográficos e ideológicos.

Deus é o padrão absoluto

            Entretanto, quando falamos de Deus, afirmando que Ele julga com justiça, significa que há um padrão ético e moral para os seus atos. O padrão de Deus é o seu caráter santo e perfeito. A manifestação externa de seu juízo é perfeitamente conforme à sua justiça essencial; ou seja: é sempre uma expressão coerente do seu caráter santo. Por isso, a justiça consiste na constante vontade de Deus de dar a cada um o que lhe é devido.[1]

            A retidão de Deus é consoante à sua justiça. Em Deus não há injustiça porque Ele sempre age de modo coerente com a sua própria natureza que é santa, perfeita e justa. Portanto, o juízo de Deus não é presunçoso ou leviano, antes é resultado do seu governo soberano. “A justiça de Deus nunca está separada de sua retidão. (…) Sua justiça é perfeita”, resume Sproul (1939-2017).[2]

Ele é Rei autônomo

            Como vimos, Ele é Rei. O seu trono está fundamentado na sua autonomia eterna. O trono é de Deus, não é derivado de autoridade alguma fora dele mesmo. Existe trono porque Deus é o Rei. É Ele quem sustenta o direito e se assenta no seu trono com autoridade própria para julgar: “no trono te assentas e julgas” (Sl 9.4).

            Por isso, toda autoridade está sob a autoridade de Deus. Existe autoridade porque Deus é o seu Autor. (Jo 10.18; Rm 9.21; 13.1).

            Pilatos com sentimentos confusos diante do nosso Senhor, o adverte prepotentemente em seu interrogatório: “Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade (e)cousi/a) para te soltar e autoridade (e)cousi/a) para te crucificar?” (Jo 19.10).

            Ao que o Senhor Jesus, totalmente confiante na soberania de Deus e fiel no cumprimento do Pacto da Graça, responde ressaltando a injustificada arrogância de Pilatos que tinha autoridade delegada por seus superiores e, que teria de prestar contas a Deus: “Nenhuma autoridade (e)cousi/a) terias sobre mim, se de cima não te fosse dada; por isso, quem me entregou a ti maior pecado tem” (Jo 19.11).

Mesmo as maldades dos homens não escapam ao propósito de Deus. Todos são responsáveis pelos seus atos. Isso traz grande consolo para nós e, ao mesmo tempo, uma advertência: os nossos possíveis atos de perseguição, difamação e calúnia, não passam desapercebidos diante do reto Juiz.

Juízes devem se lembrar de Deus

            Por isso é que os juízes devem se lembrar em suas sentenças, que em última instância, o juízo é de Deus. Portanto, eles devem julgar com integridade conforme os padrões de Deus.

            É neste sentido que Moisés instrui os juízes de Israel: “Não sereis parciais no juízo, ouvireis tanto o pequeno como o grande; não temereis a face de ninguém, porque o juízo (jP’v.mi) (mishpat) é de Deus” (Dt 1.17).

            Independentemente dos juízos humanos, que podem ser expressão do juízo de Deus, Ele, Ele mesmo julga o mundo. O juízo definitivo é Dele. Deste modo, o burlar a lei ou ser injustiçado, nunca passa despercebido por Deus. O Senhor é quem julga! Como dissemos, isto traz conforto e responsabilidade.

Maringá, 04/05 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Cf. François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 315.

[2] R.C. Sproul, A santidade de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 121.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (42)

Deus conhece perfeitamente

            Deus nos conhece perfeita  e completamente. No seu juízo, discerne o que pode haver de mais oculto em nosso coração. Enfatizamos: Davi não se julgava sem pecado, contudo, inocente das acusações que lhe fizeram. Por isso pedir que Deus o julgue “segundo a minha retidão e segundo a integridade que há em mim” (Sl 7.8).

            Os atributos de Deus se completam em um todo perfeito e harmonioso. Ilustremos: Se o Senhor fosse apenas soberano, misericordioso, amoroso etc. poderia, em seu julgamento, se tornar injusto pela incapacidade de discernir as particularidades e os princípios envolvidos em cada caso. Nem sempre conseguimos ser justos ainda que pretendamos.

            Algumas vezes cometemos injustiças pela nossa precipitação, falta de informações ou, ainda que não faltem tais elementos, podemos ser conduzidos ‒ e como somos ‒, pela nossa passionalidade. Quão difícil é entender a nossa condição de suspeição para decidir determinadas questões. Como é difícil ser justo quando os nossos interesses, ainda que não necessariamente escusos, estão em jogo.[1] Por outro lado, como é fácil atribuir motivações santas aos nossos interesses e preocupações enquanto que as motivações dos outros, aos nossos olhos tão perspicazes, estão sempre mescladas e manchadas daquilo que pode ser, na realidade, um exalar de nossos desejos ocultos. Tendemos a condenar nos outros os desejos que, com frequência, são nossos, mas, que não ousamos admitir. Os nossos juízos sobre os outros podem ser, com facilidade, uma expressão de nossas próprias falhas e valores equivocados e disfarçados.

            No entanto, quando falamos do juízo de Deus, podemos dizer como Davi: “Deus é justo juiz”(Sl 7.11).

            Isto significa, entre inúmeras outras coisas, que ninguém pode manipular a Deus ou suborná-lo com orações e oferendas. Ele é santo, soberano e justo.

            Nada está oculto diante do Senhor: “O além e o abismo estão descobertos perante o SENHOR; quanto mais o coração (bl) (lebh) dos filhos dos homens!” (Pv 15.11).

Deus conhece as nossas motivações

            Por meio de uma figura, Salomão demonstra como é criterioso e preciso o exame do Senhor. Ele esquadrinha inteiramente o nosso coração: “O crisol prova a prata, e o forno, o ouro; mas aos corações (bl) (lebh) prova (!x;B’)(bahan) o SENHOR” (Pv 17.3/Jr 17.10).[2]

            Deus conhece as nossas motivações e intenções. Escreve Salomão:

Se disseres: Não o soubemos, não o perceberá aquele que pesa (!k;T’) (takan) (medir, examinar, considerar, calcular a grandeza)[3] os corações (bl) (lebh)? Não o saberá aquele que atenta para a tua alma? E não pagará ele ao homem segundo as suas obras? (Pv 24.12).

            O juízo de Deus está relacionado a este conhecimento:

Enganoso é o coração (bl) (lebh), mais do que todas as cousas, e desesperadamente corrupto, quem o conhecerá? Eu, o Senhor, esquadrinho o coração (bl) (lebh), eu provo (!x;B’) (bahan) os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto de suas ações. (Jr 17.9-10).

            Daí o conforto do salmista: “Deus é o meu escudo; ele salva os retos de coração (bl) (lebh)(Sl 7.10).

            Esta é a alegria própria dos retos de coração:“Alegrai-vos no SENHOR e regozijai-vos, ó justos; exultai, vós todos que sois retos de coração (bl) (lebh)(Sl 32.11).

            Por isso o salmista que inicia o salmo (Sl 7) rogando a salvação de Deus, conclui rendendo graças ao Senhor se alegrando na sua justiça: “Eu, porém, renderei graças ao SENHOR, segundo a sua justiça, e cantarei louvores ao nome do SENHOR Altíssimo” (Sl 7.17).

Maringá, 04/05 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “Não há nada mais difícil do que pronunciar juízo com total imparcialidade, de modo a evitar a demonstração de favoritismo injusto, ou dar margem a suspeitas, ou deixar-se influenciar por notícias desfavoráveis, ou ser excessivamente radical, e em toda causa nada considerar senão a matéria em mãos. Só quando fechamos nossos olhos a considerações pessoais é que podemos pronunciar um juízo equitativo” (João Calvino, As Pastorais,São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 5.21), p. 153).

[2]Vejam-se também: Sl 26.2; 66.10; 139.23; Pv 21.2; 24.12.

[3] Para uma discussão a respeito da origem e significado da palavra, vejam-se:   M. Delcor, Medir: In: E. Jenni; C. Westermann, Diccionario Teologico Manual del Antiguo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1978, v. 2, p. 1306-1310; Bruce K. Waltke, Takan: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1640-1641.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (41)

B. Juízo discernidor

O Senhor é justo em todas as suas expressões. Em seu juízo tem diante de si um conhecimento imediato e criterioso de todas as coisas. Ele tem um conhecimento claro e distinto de toda a realidade porque, toda a realidade, em última instância, existe sob o seu poder:

4O SENHOR está no seu santo templo; nos céus tem o SENHOR seu trono; os seus olhos estão atentos, as suas pálpebras sondam (!x;B’)(bahan) (= examinar, testar provar) os filhos dos homens. 5O SENHOR põe à prova (!x;B’)(bahan) ao justo e ao ímpio; mas, ao que ama a violência, a sua alma o abomina. (Sl 11.4-5/Sl 7.10; 17.3; 66.10; 139.23; Pv 17.3).

Deus conhece as coisas como são

            Deus conhece as coisas como elas de fato são, porque é ele quem as preserva. O seu critério de “avaliação” é minucioso, completo e verdadeiro.[1]

            Nessa certeza, ora o salmista:

8O SENHOR julga os povos; julga-me, SENHOR, segundo a minha retidão e segundo a integridade que há em mim. 9 Cesse a malícia dos ímpios, mas estabelece tu o justo; pois sondas (!x;B’) (bahan) (examinar, testar provar) a mente e o coração, ó justo Deus. (Sl 7.8-9).

            Deve ser dito logo de início que Davi não reivindicava a sua impecabilidade, contudo, considerava-se limpo e injustiçado em relação às acusações que lhe faziam (Sl 7.8). Como sabemos, nenhum de nós retrata de forma perfeita a justiça de Deus, portanto, não há um justo sequer (Rm 3.9-12/Sl 14.1-3).[2]

Dificuldade humana em julgar

            Uma das difíceis tarefas que enfrentamos é a de julgar. Diariamente, talvez sem perceber, exercemos a nossa capacidade de julgar. Quando, por exemplo, escolhemos a roupa com a qual vamos trabalhar, se vamos levar agasalho ou não, se é melhor fazer determinadas tarefas pela manhã ou deixá-las para mais tarde, ler essas notas ou deixar para depois ou mesmo, fazer outra atividade etc.

            Em certa ocasião, como tinha que ajudar meu filho a fixar alguns armários em sua loja, me vesti mais à vontade ao me dirigir à padaria para tomar o meu café matinal. Antes disso só minha devocional. Enquanto caminhava, começou a chuviscar. Um chuvisco indeciso é verdade. Contudo, depois de caminhar uns 150 metros, não tive dúvida. Voltei ao Seminário, peguei o guarda-chuva, calcei a bota própria até para neve, e fui feliz tomar o meu café. Fui e voltei sem abrir o guarda-chuva. Julguei mal. A única neve que vi, foi a de espuma do “lava a jato” perto do Seminário.

Paixões interferem em nossos juízos

Contudo, nem todas as nossas escolhas são tão rotineiras como as mencionadas acima. Além de nossas paixões que obstruem a visão mais objetiva da realidade e, consequentemente de nossos juízos, um dos agravantes para nós é que mesmo estando com o desejo puro e honesto de sermos justos, faltam-nos elementos; não temos todas as informações, somos enganados pelas pequenas e, paradoxalmente, intensas impressões que temos; não conseguimos ter uma visão mais ampla da realidade ou mesmo clara do que temos.

            Ilustro: Em certa ocasião (janeiro de 2010) assisti a uma reportagem na qual a Polícia Civil de SP prendeu uma gangue que iludia as pessoas com a possibilidade de ganhar dinheiro localizando a bolinha dentro de uma das três forminhas que o “jogador” manipulava em um tabuleiro improvisado. Em determinado momento, um senhor que fora preso foi entrevistado e ele disse que era aposentado, estava de passagem indo comprar remédio; aquilo tudo era um engano. Por alguns segundos fiquei solidário com aquele senhor, até que a reportagem exibiu uma gravação que o mostrava durante dias seguidos sendo um dos agentes da gangue. Percebi logo o meu equívoco e como o meu sentimento me enganou.

Maringá, 04/05 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Do mesmo modo: Jr 11.20; 12.3; 20.12.

[2]9Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; 10como está escrito: Não há justo, nem um sequer, 11não há quem entenda, não há quem busque a Deus; 12todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Rm 3.9-12).

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (40)

2. É justo

A. Justiça essencial

O nome Yehovah denota o poder livre e soberano e a autoexistência de Deus: Deus existe por si só, não dependendo de ninguém, de nenhuma circunstância. O seu poder eterno emana de si mesmo, que é a sua fonte inesgotável. Deus mesmo disse a Moisés: “Eu Sou o que Sou”(Ex 3.14).

            A justiça é inerente ao conceito de Deus no Antigo Testamento, bem como ocupa um lugar central em todas as relações humanas. O padrão que deve reger nossas relações é o princípio de justiça estabelecido na Lei de Deus.[1]

            Sobre isso escreveu Von Rad (1901-1971):

Dentre os conceitos que designam as relações vitais do homem, o conceito de tzedâkâh [justiça] é o mais importante e o mais central de todo o Antigo Testamento. Constitui o critério das relações entre o homem e Deus, dos homens entre si, até nas disputas mais insignificantes, do homem com os animais e do homem com o ambiente natural em que ele se move. O tzedâkâh pode, simplesmente, ser apontada como o valor supremo da vida e o fundamento em que repousa toda a existência ordenada.[2]

Justo em si mesmo

            Deus é justo em sua própria essencialidade, mantendo-se contrário a toda e qualquer violação da sua santidade. A ira de Deus é uma expressão da sua justiça diante do pecado que consiste na quebra de sua Lei revelada.[3]

            A Escritura nos ensina que Deus é justo em si mesmo. É absolutamente justo e, por isso mesmo, justo em suas relações. A natureza santa de Deus é a lei, e a partir dela todas as demais leis devem ser avaliadas. O padrão da justiça de Deus é-nos revelado nas Escrituras.[4]

            O salmista exaltando a Deus que se revela na natureza e na Palavra, canta: “Os juízos do SENHOR (hw”hoy>) (Yehovah) são verdadeiros e todos igualmente, justos (qd;c’) (tsadaq)” (Sl 19.9).

Maringá, 04/05 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]“Na Lei de Deus nos é apresentado um padrão perfeito de toda a justiça que pode, com razão, ser chamada de vontade eterna do Senhor. Deus condensou completa e claramente nas duas tábuas tudo o que Ele requer de nós. Na primeira tábua, com uns poucos mandamentos, Ele prescreve qual é o culto agradável à Sua majestade. Na segunda tábua, Ele nos diz quais são os ofícios de caridade devidos ao nosso próximo. Ouçamos a Lei, portanto, e veremos que ensinamentos devemos tirar dele e, similarmente, que frutos devemos colher dela” (João Calvino, Instrução na Fé, Goiânia, GO: Logos Editora, 2003,Cap. 8, p. 21).

[2]Gerhard Von Rad, Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: ASTE, 1986 (Reedição), v. 1, p. 353. Veja-se:  A.H. Leitch, Justiça: In: M.C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 3, p. 807.

[3]“Intimamente relacionada com a santidade de Deus está a sua ira, a qual é, de fato, a sua reação santa ao mal” (John R.W. Stott, A Cruz de Cristo,Miami: Vida, 1991, p. 93). “Ira e furor do Senhor não são perturbação da mente e sim força vindicativa, inteiramente justa, pois serve-o submissa toda a criação.  (…) A ira de Deus, portanto, é a comoção da alma, conhecedora da lei de Deus, ao ver o pecador transgredir a mesma lei” (Agostinho, Comentário aos Salmos,São Paulo: Paulinas, 1997, (Patrística, 9/1), v. 1, (Sl 2.4), p. 26).

[4]Veja-se Louis Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 77-78.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (39)

O esquecimento dos atos de Deus

O esquecimento dos atos de Deus contribui para o nosso afastamento dele e de sua Palavra. Esse é o diagnóstico que faz o salmista ao considerar a rebeldia de Israel: “Nossos pais, no Egito, não atentaram (lk;f)(sakal) às tuas maravilhas (al’P’) (pala); não se lembraram (rk;z”) (zakar) da multidão das tuas misericórdias (ds,x,) (Hesed) e foram rebeldes junto ao mar, o mar Vermelho” (Sl 106.7).

            O povo se manteve indiferente a Deus. Não considerou a Palavra de Deus, seus atos e a aliança feita.

            Creio que essa experiência não é estranha a muitos de nós. Em alguns momentos, sob o impacto de um grande livramento, a concretização de um desejo intensamente acalentado, o restabelecimento de uma enfermidade, a conquista de um emprego depois de meses sem sucesso…. Quem sabe, louvamos a Deus com sinceridade e integridade. Assumimos compromissos santos diante de Deus, e confessamos as nossas falhas… Mas, em seguida, passados os primeiros momentos de júbilo, gradativamente podemos incorrer no esquecimento de Deus, dos seus atos e de nossas promessas. Foi o que aconteceu com o povo de Israel:

11 As águas cobriram os seus opressores; nem um deles escapou.  12 Então, creram nas suas palavras e lhe cantaram louvor.  13 Cedo, porém, se esqueceram (xk;v’) (shakach)  das suas obras e não lhe aguardaram os desígnios (…)   21 Esqueceram-se (xk;v’) (shakach)  de Deus, seu Salvador, que, no Egito, fizera coisas portentosas (lAdG”) (gadol). (Sl 106.11-13, 21).

As maravilhas de Deus envolvem a sua Palavra. Por isso, devemos considerá-la com sinceridade e louvor.

 A história nas Escrituras é uma demonstração prática dos princípios estabelecidos por Deus. A Lei de Deus é contada por meio da história do povo. A obediência traz a bem-aventurança da comunhão com Deus. A desobediência, as consequências da quebra da aliança feita por Deus com o seu povo.

A Lei de Deus não é apenas uma proposição revelada e teológica, antes, é também contada na história.

De certa forma, a história de nossa vida não deixa de ser uma demonstração prática dos efeitos de nossa obediência e desobediência a Deus, sempre, é claro, envolvida pela misericórdia de Deus que nos capacita a obedecer, nos perdoa em nosso arrependimento e nos restaura à sua comunhão.

O valor da Lei

Ainda que não sejamos salvos pela Lei. O Senhor Jesus Cristo a cumpriu perfeita e completamente por nós. Isso não significa que a Lei de Deus no seu aspecto moral tenha sido abolida. Não temos alvará para vivermos em pecado.[1]  Pelo contrário, ela continua sendo o reto e santo padrão estabelecido por Deus para todos nós. Rejeitar a Lei, além de fazermos pouco caso de nosso Senhor, equivale a rejeitar as bênçãos de Deus envolvidas em sua obediência. É simplesmente propor um novo caminho de vida e de felicidade desenvolvido conforme os nossos interesses pretensamente autônomos.

Considerar os feitos de Deus em louvor e adoração

No Salmo 105, o salmista considerando as obras maravilhosas de Deus na história de Israel, instrui: “Lembrai-vos (rk;z”) (zakar) das maravilhas que fez, dos seus prodígios e dos juízos (jP’v.mi) (mishpat)[2] de seus lábios” (Sl 105.5).

Asafe em profunda angústia, se reanima na consideração dos feitos de Deus:

2 No dia da minha angústia, procuro o Senhor; erguem-se as minhas mãos durante a noite e não se cansam; a minha alma recusa consolar-se.  3 Lembro-me de Deus e passo a gemer; medito, e me desfalece o espírito.  4 Não me deixas pregar os olhos; tão perturbado estou, que nem posso falar.  5Penso nos dias de outrora, trago à lembrança os anos de passados tempos.  6De noite indago o meu íntimo, e o meu espírito perscruta.  7Rejeita o Senhor para sempre? Acaso, não torna a ser propício?  8 Cessou perpetuamente a sua graça? Caducou a sua promessa para todas as gerações?  9Esqueceu-se Deus de ser benigno? Ou, na sua ira, terá ele reprimido as suas misericórdias?  10 Então, disse eu: isto é a minha aflição; mudou-se a destra do Altíssimo.  11 Recordo os feitos do SENHOR, pois me lembro das tuas maravilhas (al,P,) (pele) da antiguidade.  12 Considero também nas tuas obras todas e cogito dos teus prodígios.  13 O teu caminho, ó Deus, é de santidade. Que deus é tão grande como o nosso Deus?  14 Tu és o Deus que operas maravilhas (al,P,) (pele) e, entre os povos, tens feito notório o teu poder. (Sl 77.2-14).

Asafe canta: “Graças te rendemos, ó Deus; graças te rendemos, e invocamos o teu nome, e declaramos as tuas maravilhas (al’P’) (pala) (Sl 75.1).

O salmista rememorando os feitos de Deus na história de seu povo, escreve: “Rendam graças ao SENHOR por sua bondade e por suas maravilhas (al’P’) (pala) para com os filhos dos homens!”(Sl 107.8).

O salmista assume um compromisso pessoal: “Louvar-te-ei, SENHOR, de todo o meu coração; contarei todas as tuas maravilhas (al’P’) (pala) (Sl 9.1).

Apologético, Missional e pedagógico

            Os feitos maravilhosos de Deus ultrapassam os limites de Israel. Isso tem também um propósito apologético e missionário. A igreja por sua vez, deve narrar os feitos de Deus com propósitos adoracionais e pedagógicos.

            No testemunho de Asafe vemos o propósito apologético-missional:

13 O teu caminho, ó Deus, é de santidade. Que deus é tão grande como o nosso Deus?  14 Tu és o Deus que operas maravilhas (al,P,) (pele) e, entre os povos, tens feito notório o teu poder. 15 Com o teu braço remiste o teu povo, os filhos de Jacó e de José.  16 Viram-te as águas, ó Deus; as águas te viram e temeram, até os abismos se abalaram.  17 Grossas nuvens se desfizeram em água; houve trovões nos espaços; também as suas setas cruzaram de uma parte para outra.  18 O ribombar do teu trovão ecoou na redondeza; os relâmpagos alumiaram o mundo; a terra se abalou e tremeu.  19 Pelo mar foi o teu caminho; as tuas veredas, pelas grandes águas; e não se descobrem os teus vestígios.  20 O teu povo, tu o conduziste, como rebanho, pelas mãos de Moisés e de Arão. (Sl 77.13-20).

Em outro lugar o salmista conclama o povo a anunciar entre os povos a glória e as maravilhas de Deus: “Anunciai entre as nações a sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas (al’P’) (pala) (Sl 96.3).

            O mesmo Asafe, estabelece a necessidade de educar seus filhos e as futuras gerações contando as maravilhas de Deus na história:

3 O que ouvimos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais,  4 não o encobriremos a seus filhos; contaremos à vindoura geração os louvores do SENHOR, e o seu poder, e as maravilhas (al’P’) (pala) que fez.  5 Ele estabeleceu um testemunho em Jacó, e instituiu uma lei em Israel, e ordenou a nossos pais que os transmitissem a seus filhos,  6 a fim de que a nova geração os conhecesse, filhos que ainda hão de nascer se levantassem e por sua vez os referissem aos seus descendentes;  7 para que pusessem em Deus a sua confiança e não se esquecessem dos feitos de Deus, mas lhe observassem os mandamentos;  8 e que não fossem, como seus pais, geração obstinada e rebelde, geração de coração inconstante, e cujo espírito não foi fiel a Deus. (Sl 78.3-8).

            O nosso Pastor tem operado maravilhas em nossa cotidianidade. Os seus atos na história devem ser objeto de nossa reflexão e gratidão. Sei que é muito difícil para nós ultrapassarmos os limites do que é apenas imediatamente percebido, contudo, amparados da certeza de quem é o nosso Senhor, ainda que com modéstia epistemológica,[3] podemos vislumbrar aspectos da grandeza de sua direção em nossa vida. O Senhor deve ser louvado. Devemos instruir nossos filhos nesse caminho e proclamar a todas as pessoas os seus feitos.

            Esse Senhor maravilhoso que tem realizado grandes maravilhas, é o nosso Pastor. Por isso, nada nos faltará.

Maringá, 04/05 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]“Não pense que o Evangelho que o liberta da maldição da lei é uma licença para você desprezar e ignorar a lei” (R.C. Sproul, Oh! Como amo a tua lei!: In: Don Kistler, org. Crer e Observar: o cristão e a obediência, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 14). 

[2] Enfatizam a suprema autoridade de Deus em nos prescrever as leis que devem regular as nossas relações e exigir que as cumpramos. “Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e os juízos (jP’v.mi) (mishpat) que eu vos ensino, para os cumprirdes, para que vivais, e entreis, e possuais a terra que o SENHOR, Deus de vossos pais, vos dá. (…) 5 Eis que vos tenho ensinado estatutos e juízos (jP’v.mi) (mishpat), como me mandou o SENHOR, meu Deus, para que assim façais no meio da terra que passais a possuir.  (…)  8 E que grande nação há que tenha estatutos e juízos (jP’v.mi) (mishpat) tão justos como toda esta lei que eu hoje vos proponho? (…) 14Também o SENHOR me ordenou, ao mesmo tempo, que vos ensinasse estatutos e juízos (jP’v.mi) (mishpat), para que os cumprísseis na terra a qual passais a possuir” (Dt 4.1,5,8,14). “Chamou Moisés a todo o Israel e disse-lhe: Ouvi, ó Israel, os estatutos e juízos (jP’v.mi) (mishpat) que hoje vos falo aos ouvidos, para que os aprendais e cuideis em os cumprirdes” (Dt 5.1). “Estes, pois, são os mandamentos, os estatutos e os juízos (jP’v.mi) (mishpat) que mandou o SENHOR, teu Deus, se te ensinassem, para que os cumprisses na terra a que passas para a possuir” (Dt 6.1).

[3] “A fé reformada incentiva a humildade epistemológica ao tentar dizer o que Deus está fazendo na história. (…) A história de uma perspectiva calvinista é, na verdade, cheia de mistério” (Darryl G. Hart, 1929 e tudo aquilo, ou o que o calvinismo diz aos historiadores em busca de significado?: In: David W. Hall, Calvino em praça pública,  São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 21).

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (38)

I. Realiza maravilhosas proezas

Os anjos com sensibilidade se reúnem para adorar a Deus considerando as suas maravilhas estampadas na Criação:“Celebram os céus as tuas maravilhas (al,P,)(pele) (grandioso,[1] prodígios[2]), ó SENHOR, e, na assembleia dos santos, a tua fidelidade” (Sl 89.5).[3]

          O salmista, por sua vez, considerando a fidelidade de Deus e a promessa Messiânica, canta de forma alegre.

          O povo de Deus, deve também fazê-lo, inclusive considerando o cuidado de Deus para com a sua Igreja conforme o seu pacto de misericórdia que preserva o seu povo ao longo da história:

Cantarei para sempre as tuas misericórdias, ó SENHOR; os meus lábios proclamarão a todas as gerações a tua fidelidade.  2 Pois disse eu: a benignidade está fundada para sempre; a tua fidelidade, tu a confirmarás nos céus, dizendo:  3 Fiz aliança com o meu escolhido e jurei a Davi, meu servo:  4 Para sempre estabelecerei a tua posteridade e firmarei o teu trono de geração em geração. (Sl 89.1-4).

          O nosso Pastor é o único Deus. O único que realiza feitos grandiosos, canta o salmista: “Ao único que opera grandes (lAdG”) (gadol) maravilhas (al’P’) (pala), porque a sua misericórdia dura para sempre” (Sl 136.4).

          A rotina, que em geral é útil em nossos afazeres cotidianos, nos permitindo planejar com maior naturalidade, sem dispêndio de maiores energias, pode também involuntariamente ocultar aos nossos olhos grandes feitos com os quais nos acostumamos, terminando por banalizá-los.

          Nos acostumamos com as estações do ano, as chuvas periódicas, o outono, o frio do inverno, as flores da primavera, o nascimento de um bebê, o alimento diário, uma noite de sono, o céu estrelado etc.

          O salmista também desfrutava de experiências semelhantes, mas, quando contempla o poder de Deus manifesto de várias formas na criação e em sua vida, com amplo conhecimento de causa, exclama em louvor:  “Graças te dou, visto que por modo assombrosamente (arey”) (yare’) maravilhoso (hl’P’) (palah) me formaste; as suas obras são admiráveis (al’P’) (pala) (maravilhosas, extraordinárias), e a minha alma o sabe muito bem”(Sl 139.14).

          As manifestações do cuidado de Deus sobre nós são em grande parte imperceptíveis. Creio que conforme formos amadurecendo espiritualmente, vamos adquirindo uma dimensão maior de suas obras em nossa vida. Escreve o salmista: “São muitas, SENHOR, Deus meu, as maravilhas (al’P’) (pala) que tens operado e também os teus desígnios para conosco; ninguém há que se possa igualar contigo. Eu quisera anunciá-los e deles falar, mas são mais do que se pode contar” (Sl 40.5).

          Na constatação de que os feitos maravilhosos de Deus são memoráveis, o salmista conclui: “Benigno (!WNx;) (channun) e misericordioso (~Wxr;) (rachum) é o SENHOR” (Sl 111.4).

          Esse conceito reaparece no salmo de ação de graças quando o salmista rende graças ao único Deus que opera grandes maravilhas amparadas em sua misericórdia: “Ao único que opera grandes (lAdG”) (gadol) maravilhas (al’P’) (pala), porque a sua misericórdia dura para sempre” (Sl 136.4).

Feitos memoráveis

Geralmente o que cultivamos em nossa memória tende a modelar os nossos atos e orientar nosso ensino.

O salmista meditando sobre Deus e as suas obras, diz que as mesmas são memoráveis. Portanto, elas devem ser preservadas em nossa memória em gratidão.

Devemos ter uma grata memória para com os feitos de Deus. Para isso, é necessário que cultivemos um coração agradecido pelo que Deus tem operado. As suas obras por serem maravilhosas são memoráveis. Escreve o salmista: “Ele fez memoráveis (rk,z) (zeker) as suas maravilhas (al’P‘) (pala); benigno e misericordioso é o SENHOR” (Sl 111.4).

Os feitos de Deus devem ser proclamados e ensinados. Essa é uma forma de conservá-los de forma agradecida na memória e conduzir outros à mesma percepção e consequente gratidão e louvor.

Maringá, 03 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1] Sl 31.21.

[2] Sl 72.18; 78.12.

[3]Vejam-se também: Sl 26.7; 86.10; 88.10,12; 105.2,15,16; 106.22; 107.15,21, 31, 42-43.