Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (9)

5. A eleição de Deus: considerações bíblico-teológicas

Analisaremos aqui de forma esquemática, as características da Eleição.

5.1. É um ato da vontade livre e soberana de Deus

 Lutero (1483-1546), comentando o Cântico de Maria (Magnificat) (1521), escreve:

 

“Creio em Deus-Pai, Todo-poderoso”. Ele é todo-poderoso, de modo que em todos e através de todos e sobre todos reina exclusivamente seu poder. (…) Este é um artigo muito elevado e que encerra muita coisa; ele põe por terra toda arrogância e petulância, todo orgulho, glória, falsa confiança e enaltece somente a Deus; sim, ele indica a razão porque se deve enaltecer somente a Deus.[1]

 

 O apóstolo Paulo descrevendo as contínuas bênçãos de Deus sobre o Seu povo, pontifica na predestinação e seu propósito:

 

Nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, (…) 11 nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade. (Ef 1.5,11).

 

Um dos aspectos fundamentais da soberania é a independência. Quando a nossa independência depende de algo alheio ao nosso controle, a nossa suposta capacidade de decidir livremente está ameaçada ou sofre de limitações que podem ser bastante comprometedoras. Na realidade, somente em Deus há a autonomia total e absoluta.

 

Spurgeon (1834-1892) enfatiza corretamente: “Deus é independente de tudo e de todos. Ele age de acordo com Sua própria vontade. Quando Ele diz: ‘Eu farei’, o que quer que diga será feito. Deus é soberano, e Sua vontade, não a vontade do homem, será feita”.[2]

 

Deus se apresenta nas Escrituras como de fato é, o Deus Todo-Poderoso (Onipotente), com capacidade para fazer todas as coisas conforme a Sua vontade (Sl 115.3; 135.6; Is 46.10; Dn 4.35; Ef 1.11);[3] entretanto, Deus também Se mostra coerente com as demais de Suas perfeições; ou seja, Deus exercita o Seu poder em harmonia com todas as perfeições de Sua natureza (2Tm 2.13);[4] a Sua vontade é eticamente determinada. O poder de Deus se harmoniza perfeitamente com a Sua vontade.[5]

 

A soberania de Deus se manifesta no fato dEle poder fazer tudo o que faz (poder ordenado) e mesmo aquilo que não realiza, visto que não determinou fazê-lo (poder absoluto). O poder absoluto de Deus envolve o seu poder ordenado.[6] Deus exerce o Seu poder no cumprimento do que decretou e nas obras da providência.

 

O Poder de Deus é soberanamente livre. Deus não tem primariamente compromissos com terceiros; em outras palavras, Deus é soberano em Si mesmo, a onipotência faz parte da sua essência, por isso para Ele não há impossíveis; apesar de qualquer oposição, Ele executa o Seu plano;[7] tudo o que Ele deseja, pode realizar (Mt 19.26; Jó 23.13[8]).[9] No entanto, Deus não precisa exercitar o Seu poder para ser o que é.

 

Declarar a liberdade soberana de Deus é reconhecer que Deus é Deus, contemplando-O na real esfera de Sua natureza e revelação.[10]

 

Se o homem pudesse antecipar-se à graça de Deus com algo que fosse agradável a Deus, a liberdade de Deus estaria condicionada ao feito humano, não haveria, portanto, na escolha divina a manifestação da Sua graça soberana.

 

Calvino indaga:

 

Caso pudesse o homem fazer algo para antecipar a graça de Deus, e a eleição cessaria de ser um apanágio divino, ainda que o direito e o poder dela sejam-lhe expressamente atribuídos. (…) Pode imaginar-se alguma razão por que não chamaria a todos igualmente, exceto o fato de que sua soberana eleição faz distinção entre uns e outros?.[11]

 

Deus nos elegeu conforme a Sua sábia, amorosa e eterna vontade. A escolha de Deus não sofre nenhum tipo de constrangimento no seu exercício. Por isso, não podemos, nem devemos tentar buscar razões para a nossa eleição fora do beneplácito de Deus. Deus não tem razões fora de Si mesmo para fazer o que fez (Mt 11.25,26; Jo 15.16,19; Rm 9.10-18; Ef 1.5-11; 2Tm 1.9).[12]

 

“Perguntando-se quais são os princípios que subjazem a escolha feita por Deus, a única resposta positiva que se pode dar é que Ele concede Seu favor aos homens, e os vincula a Si mesmo, unicamente com base em Sua própria decisão livre e no Seu amor que independe de quaisquer circunstâncias temporais”, escreve L. Coenen, [13]

 

Desejar ultrapassar estes limites, além de se constituir numa atitude iníqua e estéril, significa tentar a Deus, diminuindo a Sua liberdade soberana e, ao mesmo tempo supor pecaminosamente, que a vontade de Deus não seja por si só motivo suficiente para Deus fazer todas as coisas como faz (Sl 115.3; 135.3-6; Is 46.10).

 

Calvino (1509-1564), insiste neste ponto: Procurar relacionar a nossa eleição à causas externas, é tentar a Deus. A vontade de Deus deve ser suficiente para nós.[14] Nas Institutas ele interpreta como uma tentação maligna buscar a origem da nossa eleição fora da Palavra:

 

Nenhuma tentação do Diabo é mais perigosa para abalar os fiéis do que quando, fazendo com que os inquiete a dúvida quanto à sua eleição, provoca neles o estulto desejo de buscar essa certeza fora do caminho. Chamo buscar fora do caminho a atitude na qual o pobre homem se esforça para penetrar nos segredos incompreensíveis da sabedoria divina, e, para saber o que a respeito dele foi ordenado no juízo de Deus, quer ir ao princípio da eternidade em sua busca. Nessa tentativa ele se precipita como que num imenso e profundo golfo em que se afoga; enrosca-se como que em laços de armadilha dos quais jamais conseguirá se desembaraçar; e entra numa espécie de abismo de trevas do qual nunca poderá sair. Porque com justa razão a presunção do entendimento humano é assim punido com horrível desgraça, quando tenta elevar-se por seu poder ao altíssimo nível da sabedoria divina. Agora, a tentação que acabo de mencionar vê-se tanto mais perniciosa quanto é fato que quase todos nós somos inclinados a cair nela. Porque são bem poucos os que não se deixam tocar no coração por este pensamento: Donde vem que você obtém a salvação somente pela eleição de Deus? E como se revela essa eleição? Uma vez que esse pensamento encontre guarida no homem, ou lhe causará assombroso tormento, ou o fará sucumbir de espanto. Não pretendo ter argumento mais próprio para mostrar quão perversamente esse tipo de gente imagina a predestinação. Porque o espírito do homem não pode ser infeccionado por erro mais virulento que quando a consciência é destituída da sua tranquilidade e paz, que lhe cabe ter com Deus. Esta questão é como um mar, no qual, se tememos perecer, tenhamos cuidado acima de tudo com o rochedo que, se não for evitado, só nos causará desgosto. Entretanto, embora se considere a discussão sobre a predestinação um mar perigoso, a navegação é segura e calma, e até alegre, se não acontecer que alguém queira por vontade própria meter-se em perigo. Pois, assim como aqueles que, desejando ter certeza da sua eleição, invadem o conselho eterno de Deus sem a Sua Palavra, precipitam-se e afundam num abismo mortal, assim também, por outro lado, os que buscam certeza corretamente, e segundo a ordem revelada na Escritura, recebem singular consolação. Portanto, seja este o caminho que sigamos em nossa busca: começar pela vocação de Deus e terminar nela. Pois o Senhor quer que ela seja para nós como um marco ou um sinal para nos certificar de tudo o que nos é lícito saber do Seu conselho.[15]

 

Recife, 3 de abril de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Martinho Lutero, Magnificat: In: Obras Selecionadas, São Leopoldo, RS.; Porto Alegre, RS.: Sinodal; Concórdia, 1996, v. 6, p. 50-51.

[2]C.H. Spurgeon, Sermões Sobre a Salvação, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 42-43.

[3] “No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada” (Sl 115.3). “Tudo quanto aprouve ao SENHOR, ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos” (Sl 135.6). “O meu conselho permanecerá de pé, farei toda da minha vontade” (Is 46.10). “Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.35). “Nele [Jesus Cristo], digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11).

[4] “Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2.13).

[5] “Deus tem poder para fazer tudo quanto Ele queira; e com certeza a pessoa que tenta separar o poder de Deus de Sua vontade, ou retratá-lo como incapaz de fazer o que Ele queira, o que o tal faz é simplesmente tentar rasgá-lo em pedaços” (João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 3, (Sl 78.18), p. 212).

[6]Ver: Stephen Charnock, The Existence and Attributes of God, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Two Volumes in one), 1996 (Reprinted), v. 2, p. 12.

[7] Ver: Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 479-512.

[8] “Jesus, fitando neles o olhar, disse-lhes: Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível” (Mt 19.26). “Mas, se ele resolveu alguma coisa, quem o pode dissuadir? O que ele deseja, isso fará” (Jó 23.13).

[9] Stott coloca nestes termos: “A liberdade de Deus é perfeita, no sentido de que Ele é livre para fazer absolutamente qualquer coisa que Ele queira” (John Stott, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, São Paulo: ABU Editora, 1997, p. 58).

[10]Veja-se: A.W. Pink, Deus é Soberano, Atibaia, SP.: Editora Fiel, 1977, p. 19,21,138.

[11] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 65.4), p. 611.

[12] Veja-se, Cânones de Dort, I.10.

[13] L. Coenen, Eleger: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1982,  v. 2, p. 35.

[14] Vejam-se: J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.15), p. 331-333; J. Calvino, As Institutas, (1541), III.8. “Não busquemos a causa em parte alguma, senão na vontade divina. Notemos particularmente as expressões de quem quer e a quem lhe apraz. Paulo não permite que avancemos além disto” (J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.18), p. 337). Jorge Fisher acentua que “no calvinismo considerado como sistema teológico e em contraste com outros tipos da teologia protestante, se vê um princípio característico e elevado, a saber, o da soberania de Deus, não só de seu governo ilimitado dentro da esfera intelectual e material, senão também que a vontade divina é a causa última da salvação de alguns e do abandono de outros à perdição” (Jorge P. Fisher, Historia de la Reforma, p. 231-232).

[15]João Calvino, As Institutas, (1541), III.8.

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (35)

Já indicamos que a santificação é um processo que não encontra a sua perfeição nesta vida. A sua conclusão se dará em nossa glorificação futura, quando Deus completar a sua obra iniciada em nós (Rm 8.29-30; Fp 1.6). Nesse sentido, a consumação da santificação tem dois aspectos, um espiritual e outro físico: espiritual, em nossa alma quando morrermos; físico, quando Cristo voltar em glória, ressuscitarmos e tivermos os nossos corpos glorificados. Assim, a santificação será total.[1] A perspectiva do encontro com Cristo, quando Ele regressar em glória, deve nos motivar, hoje, solicitamente, à santificação, a fim de vivermos em santidade na sua presença, puros como ele é puro.

 

     A santificação é um processo que tem início no ato de Deus. Em outras palavras, estamos dizendo que fomos separados do mundo (sendo santificados), para crescermos, progredirmos em nossa fé (santificação). O Espírito opera em nós a salvação que se evidencia em santificação (1Co 6.11; 2Co 3.18; 1Pe 1.2/Jo 17.17). O mesmo Espírito que nos regenerou por meio da Palavra (Tg 1.18; 1Pe 1.23), age mediante esta mesma Palavra para que vivamos de fato, como novas criaturas que somos. A Bíblia é o instrumento eficaz do Espírito porque ela foi inspirada pelo Espírito Santo (2Pe 1.21). O Espírito não somente testifica que somos filhos de Deus, mas, também, nos ensina pela Palavra a nos comportar como filhos (Rm 8.14),[2] desenvolvendo em nós, ou seja, em todos os cristãos, o caráter de Cristo que consiste no fruto do Espírito.[3]

 

Paulo escreve aos coríntios: “Tendo, pois, ó amados, tais promessas, purifiquemo-nos (kaqari/zw) de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus” (2Co 7.1).

H. Spurgeon (1834-1892), amparado nas Escrituras, exulta confiante:

 

O Senhor Jesus tem poder para nos levar lá! Ele lutará contra nossos inimigos para nós. Jesus nos guardará de cair no pecado, e levará todos aqueles pelos quais ele morreu para a terra celestial. Ninguém será deixado para trás. Estaremos seguros e felizes com ele para sempre. O Senhor Jesus nos apresentará a Deus e estaremos com aqueles que alcançaram o céu antes de nós.[4]

 

A santidade perfeita no céu encontra os seus primórdios na vida dos eleitos aqui na terra. Isto indica a nossa responsabilidade presente. “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é. E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro” (1Jo 3.2-3). “Como na presente vida não atingiremos pleno e completo vigor, é mister que façamos progresso até à morte”, conclui
Calvino.[5]

 

Cristo morreu por nós para que ele nos apresentasse “a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem cousa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.27). Dentro desta perspectiva, a Igreja procura viver de forma santa para se encontrar com Cristo, conforme o seu propósito sacrificial. “Teremos de ser santos antes de morrer, se quisermos ser santos quando estivermos na glória”.[6]

 

O desejo da Igreja deve ser de se encontrar com Cristo de forma íntegra e irrepreensível. Por isso ela é chamada a viver hoje na presença de Deus, estando sempre preparada para o seu encontro final e jubiloso com o Senhor Jesus. Este era o alvo da intercessão de Paulo:O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5.23).

 

Como vimos, Jesus Cristo, que se santificou pela Igreja e que se entregou por ela, exerce o seu poder para apresentá-la com alegria a si mesmo, uma Igreja irrepreensível, diante do escrutínio da sua glória (Jd 24; Ef 5.25-27).

 

O nosso padrão de santidade não é um simples “melhoramento” diante dos padrões humanos, mas sermos conforme Cristo: fomos eleitos para Cristo, a fim de sermos “conformes à imagem” dele. Portanto, devemos ser seus imitadores, seguindo as suas pegadas (Vejam-se: Rm 8.28-30/Jo 13.15; 2Co 3.18; Ef 4.32; 5.1-2; Fp 2.5-8; 2Ts 2.13; 1Pe 1.13-16; 2.21). “A santidade não é negativa, é positiva; é ser como Deus (…). A santidade não significa simplesmente obter vitória sobre pecados particulares. É ser como Deus, que é santo”, exorta-nos Lloyd-Jones.[7]

 

6.10. Paz e alegria

Agora, já não há condenação para nós que estamos pela fé em Cristo Jesus: estamos em paz com Deus. A alegria espiritual é o resultado da nossa comunhão com Deus (Rm 5.1; 1Pe 1.6-9).[8] “A alegria do Espírito é inseparável da fé”, afirmou corretamente Calvino.[9]

 

 

Maringá, 22 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Veja-se: Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 625.

[2] Veja-se: Hendrikus Berkhof, La Doctrina del Espíritu Santo, p. 80. Do mesmo modo, A.A. Hoekema, Salvos pela Graça,p. 37.

[3] Veja-se: James M. Boice, Fundamentos da Fé Cristã: Um manual de teologia ao alcance de todos, Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2011, p. 330-333.

[4]C.H. Spurgeon, Sermões Sobre a Salvação, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 12.

[5]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 4.15), p. 130.

[6]J.C. Ryle, Santificação, São José dos Campos, SP.: FIEL., 1987, p. 46.

[7] D. Martyn Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 127.

[8]Quanto à desconfiança puritana do “excesso de alegria”, Veja-se: J.I. Packer, Entre os Gigantes de Deus: uma Visão Puritana da Vida Cristã, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1996, p. 197-198.

[9]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 51.8-9), p. 436.

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (34)

Os crentes, mesmo com uma nova natureza, tendo sido regenerados, terão que combater o pecado enquanto viverem. Este combate será árduo. A Bíblia não poupa figuras para descrever esta luta com cores vivas. Todavia, a Palavra de Deus nos garante, com ênfase maior, a vitória que temos em Cristo. Daí a nossa certeza de que devemos lutar contra o pecado, sabedores que Deus é por nós nesta luta. Este é o bom combate da fé. Bom por causa de sua necessidade e objetivo. Conforme exorta Paulo a Timóteo: Combate (a)gwni/zomai) o bom combate (a)gw/n) da fé” (1Tm 6.12).

 

Este combate (a)gwni/zomai) muitas vezes se manifestará de forma angustiante devido à sua intensidade e gravidade. Por isso a ideia embutida de esforço extremo (Lc 13.24; Cl 1.29; 4.12; 1Tm 4.10), empenho (Jo 18.36), fadiga (Cl 1.29) e, figuradamente, é ilustrada com o esforço de um atleta que compete (1Co 9.25).

 

Paulo orienta os gálatas evidenciando as duas forças operantes em nós, os regenerados: “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer” (Gl 5.17).

 

A Confissão de Westminster diz:

Esta santificação é no homem todo, porém imperfeita nesta vida; ainda persistem em todas as partes dele restos da corrupção, e daí nasce uma guerra contínua e irreconciliável – a carne lutando contra o espírito e o espírito contra a carne (XIII.2). (Rm 7.19,23; Gl 5.17; Fp 3.12; 1Ts 5.23; 1Pe 2.11; 1Jo 1.10).

 

Paulo escreve aos coríntios atestando a realidade da tentação, mas, ao mesmo tempo, indicando que ela não é vitoriosa sobre nós: “Não vos sobreveio tentação que não fosse humana, mas Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar” (1Co 10.13).

 

Notemos que a promessa de Jesus se refere ao seu socorro que nos conduz à vitória. Todavia, isto não exclui a gravidade da tentação, da luta contra a carne, o mundo e o diabo. Em nosso desejo renovado de agradar a Deus, encontraremos sempre no pendor de nossa carne uma luta contra este propósito, para que façamos a vontade do velho homem, surgindo daí, um combate renhido. Todavia, a nossa nova natureza triunfará pelo Espírito de Deus que em nós habita e cuja presença nos identifica como filhos de Deus (Rm 8.9,14,16).

 

O escritor aos Hebreus, tendo em vista o combate cristão, toma o sofrimento de Cristo como um exemplo e estímulo para a Igreja: “Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis desmaiando em vossas almas” (Hb 12.3). No momento seguinte, indicando a gravidade desse combate, adverte os seus ouvintes: “Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue” (Hb 12.4).

 

Paulo, com intenso vigor, mostra a dramaticidade do nosso confronto: “A nossa  luta não é contra o sangue e a carne, e, sim,           contra os principados e potestades deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12). O apóstolo descreve a nossa luta contra Satanás que está empenhado em nos afastar de Deus, em nos tornar alvos do entristecimento do Espírito que nos selou para “o dia da redenção”, quando se efetuará o resgate final da propriedade de Deus, que somos nós (Ef 1.12-13; 4.30).

 

Entretanto, apesar desse combate real – e não devemos minimizá-lo – a Palavra de Deus nos mostra a segurança que temos em Cristo Jesus: “Aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6). Pedro, à igreja perseguida e provada, diz: “Sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo” (1Pe 1.5). Continua: “Nisto exultais” (1Pe 1.6).

 

A Palavra de Deus nos diz que, apesar de uma luta intensa, do combate atroz contra o mundo, a carne e o diabo podemos já, nesta vida, exultar, na certeza do cuidado de Deus que nos garante a vitória final. Nesse mesmo espírito, escreveu Judas:

 

Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da  sua glória, ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos os séculos. Amém (Jd 24-25).

 

A Confissão de Westminster (1647) conclui o capítulo XIII dizendo:

 

Nesta guerra, embora prevaleçam por algum tempo as corrupções que restam (Rm 7.23), contudo, pelo contínuo socorro da eficácia do santificador Espírito de Cristo, a parte regenerada vence (Rm 6.14; Ef 4.15,16; 1Jo 5.4), e assim os santos crescem em graça (2Pe 3.18), aperfeiçoando a sua santidade no temor de Deus (2Co 7.1) (XIII.3).

 

Jesus morreu pelo seu povo, e nenhum de nós será arrebatado de suas mãos (Jo 6.37-40,44,65; 10.18-29/Rm 6.14; Fp 1.6; 1Jo 3.9; 5.4,18). A nossa chamada é para combater o bom combate da fé, a seguirmos “o Caminho” com perseverança, confiados, unicamente na graça de Deus.

 

Devemos recorrer aos recursos que Deus nos fornece para nos preservar puros. Paulo escreve à igreja com o coração puro: “Ora, o intuito da presente admoestação visa ao amor que procede de coração puro (kaqaro/j), e de consciência boa, e de fé sem hipocrisia” (1Tm 1.5).

 

Timóteo, jovem ministro, deveria ser exemplo, entre outras coisas, em sua pureza: “Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza (a)gnei/a) (1Tm 4.12).[1] Do mesmo modo, no trato com as senhoras e moças da igreja: “As mulheres idosas, como a mães; às moças, como a irmãs, com toda a pureza (a)gnei/a) (1Tm 5.2).

 

Paulo tem a consciência de ter servido a Deus com a consciência pura: “Dou graças a Deus, a quem, desde os meus antepassados, sirvo com consciência pura (kaqaro/j), porque, sem cessar, me lembro de ti nas minhas orações, noite e dia” (2Tm 1.3).

 

Continuaremos no próximo post.

 

 

Maringá, 22 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este post faz parte de uma série. Acesse aqui a série completa

 


 

[1]Foge, outrossim, das paixões da mocidade. Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro (kaqaro/j), invocam o Senhor” (2Tm 2.22).

O Selo e o Penhor do Espírito como realidades na vida de todo crente (5) – Final

Selados em santidade

 

“E não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados (sfragi/zw) para o dia da redenção” (Ef 4.30).

 

     O Espírito se entristece com os nossos pecados, manifestando o Seu desagrado, de modo externo: por intermédio da Palavra de Deus. Interno: por meio de nossa consciência.

 

Todas as vezes que agimos de forma contrária aos ensinamentos da Palavra de Deus, entristecemos ao Espírito que em nós habita. O Espírito também se entristece conosco, quando caminhamos de modo contrário ao propósito de Deus para nós, que é a santificação (1Ts 4.3/2Ts 2.13), quando as obras da carne estão cada vez mais evidentes em nossa vida e o fruto do Espírito parece mais distante do nosso procedimento (Gl 5.16-26).

 

O entristecimento do Espírito, se por um lado revela o nosso pecado, por outro, fala-nos do Seu relacionamento pessoal conosco e de Seu invencível amor, que não se intimida nem se acomoda com a nossa desobediência, antes, se expõe, nos atraindo para Si em amor. Interpreta Graham (1918-2018): “Podemos magoar ou irar alguém que não nos tem afeição, mas entristecer podemos só quem nos ama”.[1]

 

Deste modo, as operações graciosas de Deus não nos devem conduzir à falsa ideia de viver comodamente, deixando Deus realizar a obra enquanto que eu cuido de meus interesses pessoais. A obra de Deus, que é boa em sua própria essência, envolve o uso diligente dos recursos que Deus mesmo coloca à nossa disposição para o nosso crescimento.

 

Na Carta aos filipenses, vemos o próprio Paulo se preocupando em orar pela igreja, estimulá-la e exortá-la por meio da Epístola a que frutificasse em sua fé:

 

E também faço esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção, 10 para aprovardes as coisas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo, 11 cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus. (Fp 1.9-11).

 

Esse fruto (Fp 1.11) se revela no desenvolvimento de nossa salvação, conforme ele exorta a igreja:

 

Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; 13 porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade. (Fp 2.12-13).

 

Os Cânones de Dort (1619) pontuam bem esta questão:

 

Essa certeza de perseverança não produz de modo algum nos crentes um espírito de orgulho ou os torna carnalmente seguros; ao contrário, ela é a verdadeira fonte da humildade, reverência filial, verdadeira piedade, paciência em toda tribulação, orações fervorosas, constância nos sofrimentos e em confessar a verdade e alegria sólida em Deus, de modo que a consideração desse benefício serve como um incentivo para a séria e constante prática de gratidão e boas obras, como é evidente nos testemunhos das Escrituras e nos exemplo dos santos.

A renovada confiança de perseverar não produz licenciosidade ou negligência na piedade naqueles que estão se recuperando de uma apostasia, mas isso os torna mais cuidadosos e diligentes quanto a se manterem nos caminhos do Senhor, que ele preparou, para que, ao andarem neles, eles possam preservar a certeza da perseverança, para que não abusem de sua gentileza paternal e Deus tire delas sua graciosa face, a contemplação da qual é para o piedoso mais preciosa do que a vida, e a retirada dela é mais amarga do que a morte, e eles, em consequência disso, caiam em maiores tormentos da consciência.[2]

 

A eleição de Deus e o seu consequente chamado se revela numa boa obra em nós de transformação e crescimento espiritual.[3] É deste modo que Paulo escreve aos Efésios:         “8 Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus;  9 não de obras, para que ninguém se glorie.  10 Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.8-10).

 

A doutrina da perseverança é bem chamada de perseverança dos santos.[4] Dito de outro modo, a nossa perseverança deve ser em santidade. Portanto, neste processo de aperfeiçoamento há, fundamentalmente, a necessidade de nosso crescimento e amadurecimento. Deus não somente nos salva, mas, também, nos faz crescer em nossa caminhada.

 

A piedade, como evidência de nosso perseverar em santidade, é desenvolvida por meio de nosso crescimento na graça. Na educação divina (disciplina), vemos estampada a Sua graça que atua de forma pedagógica: “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos (paideu/w) para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos no presente século, sensata, justa e piedosamente (eu)sebw=j)” (Tt 2.11-12). A piedade autêntica, por ser moldada pela Palavra, traz consigo os perigos próprios resultantes de uma ética contrastante com os valores deste século: “Ora, todos quantos querem viver piedosamente (eu)sebw=j)[5] em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12). No entanto, há o conforto expresso por Pedro às Igrejas perseguidas: “….o Senhor sabe livrar da provação [peirasmo/j = “tentação”] os piedosos (eu)sebh/j)….” (2Pe 2.9).

 

A piedade deve estar associada a diversas outras virtudes cristãs a fim de que seja frutuosa no pleno conhecimento de Cristo (2Pe 1.6-8).[6] A nossa certeza é que Deus nos concedeu todas as coisas que nos conduzem à piedade. Ele exige de nós, os crentes, “o uso diligente de todos os meios exteriores pelos quais Cristo nos comunica as bênçãos da salvação”[7] e que não negligenciemos os “meios de preservação”.[8]

 

Em Teologia denominamos essas “cousas que nos conduzem à piedade”, de meios de graça ou meios de santificação. Portanto, devemos utilizar de todos os recursos que Deus nos forneceu com este santo propósito: “Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade (e)use/beia), pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude” (2Pe 1.3).[9]

 

A piedade como resultado de nosso relacionamento com Deus deve ter o seu reflexo concreto dentro de casa, sendo revelada por meio do tratamento que concedemos aos nossos pais e irmãos: “….se alguma viúva tem filhos ou netos, que estes aprendam primeiro a exercer piedade (eu)sebe/w) para com a própria casa e a recompensar a seus progenitores; pois isto é aceitável diante de Deus” (1Tm 5.4).[10]

 

Nunca o nosso trabalho, por mais relevante que seja, poderá se tornar num empecilho para a ajuda aos nossos familiares. A genuína piedade é caracterizada por atitudes condizentes para com Deus (reverência) e para com o nosso próximo (fraternidade). Curiosamente, quando o Novo Testamento descreve Cornélio, diz que ele era um homem piedoso (Eu)sebh/j) e temente a Deus (…) e que fazia muitas esmolas ao povo e de contínuo orava a Deus” (At 10.2).

 

A piedade é, portanto, uma relação teologicamente orientada do homem para com Deus em sua devoção e reverência e, a sua conduta biblicamente ajustada e coerente com o seu próximo. A piedade envolve comunhão com Deus e o cultivo de relações justas com os nossos irmãos. “A obediência é a mãe da piedade”, resume Calvino.[11]

 

Ao mesmo tempo, o Senhor Jesus Cristo é poderoso para nos socorrer em nossas tentações (1Co 10.13):[12] “Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso (du/namai) para socorrer os que são tentados” (Hb 2.18). (Ver também: Hb 4.15; Jd 24; 1Pe 1.5).[13]

 

O Espírito aplicou os méritos salvadores de Cristo em nosso coração e, nos preserva íntegros até o fim; nele fomos “selados para o dia da redenção” (Ef 4.30). Pelo fato do Espírito ser Santo, Ele nos quer preservar em santidade até o dia da redenção (Ef 1.13-14). Deus quer nos guardar tal qual Ele é; em santidade. Foi com este propósito que o Filho morreu por nós e, por meio de Seu Espírito, nos preserva (Ef 5.25-27).[14]

 

Pedro encerra a sua carta dizendo: “Antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno” (2Pe 3.18).

 

Portanto, temos nesta doutrina um motivo de conforto e desafio. O desafio é vivermos a intensidade da vida cristã em obediência, no conforto de que é Deus mesmo Quem nos preservará até o fim.[15] Analisaremos alguns outros aspectos pressupostos e decorrentes destes.

“Venha o Teu Reino”

 

A Igreja anela pela concretização plena das virtudes eternas, das quais ela já tem a amostra (Rm 14.17; 15.13; 1Ts 1.6/Gl 5.22,23). É neste espírito que a Igreja ora: “Venha o Teu Reino”. Quem ora pela vinda do Reino, é porque já o conhece, já usufrui das suas riquezas, já provou da sua bem-aventurança (Rm 14.17).[16] Somente um cidadão do Reino pode dizer de forma consciente: “Venha o teu Reino”. Por isso, ele ora para que o Reino já presente venha em toda a sua plenitude sobre todos. Como temos visto, o selo e o penhor não têm um fim em si mesmos, antes apontam para o nosso resgate definitivo (Ef 1.13-14).

 

O Evangelho, como “palavra da verdade”, modifica a nossa vida neste estado de existência e, também, tem implicações escatológicas. Pelo Evangelho ouvido e crido, temos a certeza da nossa salvação. É o Espírito Santo quem nos garante isso. Algo maravilhoso para nós é saber que temos um Deus que cuida de nós, que se compromete com a salvação de Seu povo, nos garantindo e nos concedendo esta certeza.

 

A consumação do Reino se dará quando Cristo voltar. Nós que temos as primícias do Espírito, – usufruímos, portanto, ainda que parcialmente, as delícias do Reino –, pelo Espírito, oramos de forma coerente e ardorosa: “Venha o Teu Reino”.[17] “Vem, Senhor Jesus” (Ap 22.17,20). Amém.

 

Esta alegre certeza me faz lembrar um hino escrito em 1873:

 

 

 

Altos Louvores

 

     Vem, ó Jesus, majestoso reinar;

     Teu povo te espera, não queiras tardar!

     Vem em poder, apressando esse dia,

     Pois tua vontade será feita aqui.

     Oh! Volta na glória, trazendo alegria!

     A Igreja suspira, ansiosa, por ti!

     Vem, ó Jesus, majestoso reinar;

     Teu povo te espera, não queiras tardar![18]

 

 

 

Maringá, 15 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]Billy Graham, O Espírito Santo, São Paulo: Vida Nova, 1988, p. 123.

[2] Os Cânones de Dort In: Sinclair B. Ferguson; Joel R. Beeke, orgs. Harmonia das Confissões Reformadas, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, V.12-13. Vejam-se também: Catecismo de Heidelberg, Perguntas: 1,53,54,127.

[3]“O que acontece com o cristão não é mera reforma ou melhoramento da superfície. O Evangelho não é algo que muda o homem no sentido de torná-lo um pouco melhor, no sentido cultural. Não, é uma obra vital realizada por Deus na alma e sobre a alma, no centro mesmo e nos órgãos vitais da vida e da existência do homem” (D. Martyn Lloyd-Jones, A Vida de Alegria, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2008, p. 42).

[4] Hoekema prefere chamá-la de “perseverança do verdadeiro crente” (Anthony Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 243). Murray argumenta em prol do nome clássico, “perseverança dos santos” (Veja-se: John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 170-171). Sproul, considerando o termo “perseverança” como “um tanto enganoso”, opta por “preservação”, justificando: “Nós perseveramos porque somos preservados por Deus. Se deixados por conta de nossa própria força, nenhum de nós perseveraria. Só porque somos preservados por graça é que somos capazes de perseverar de alguma maneira” (R.C. Sproul, O que é teologia reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 168). À frente: “A graça preservadora de Deus torna a nossa perseverança tanto possível como real” (p. 179).

[5] Este advérbio só ocorre em dois textos do Novo Testamento: 2Tm 3.12; Tt 2.12.

[6]“Por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade (e)use/beia); com a piedade (e)use/beia), a fraternidade; com a fraternidade, o amor. Porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo” (2Pe 1.5-8).

[7] Catecismo Menor de Westminster, Pergunta, 85.  In: A Confissão de Fé, O Catecismo Maior  e o Breve Catecismo, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1991, (Edição Especial), p. 431 (Veja-se  também, a Pergunta, 88).

[8] Confissão de Westminster, XVII.3.

[9]Ver: Hermisten M.P. Costa, A Palavra e a Oração como Meios de Graça: In: Fides Reformata, São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, 5/2 (2000), 15-48.

[10]“Seria uma boa preparação treinar-se para o culto divino, pondo em prática deveres domésticos piedosos em relação a seus próprios familiares” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 5.4), p. 131).

[11] John Calvin, Commentaries of the Four Last Books of Moses, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries, v. 2), 1996 (Reprinted), v. 1, (Dt 12.32), p. 453.

[12]Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças (du/namai); pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais (du/namai) suportar (1Co 10.13).

[13] Porque não temos sumo sacerdote que não possa (du/namai) compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado (Hb 4.15). Ora, àquele que é poderoso (du/namai) para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória, ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos os séculos. Amém!(Jd 24-25). “Que sois guardados pelo poder (du/namij) de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo (1Pe 1.5).

[14]“Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela,  26 para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra,  27 para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.25-27).

[15] Anthony Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 262-263.

[16]Esta é a experiência da Igreja: Ela é na presente era a manifestação do Reino: “A igreja é o centro vivo e ardente do reino, uma testemunha de sua presença e poder, e um precursor de sua vinda final” (Enrique Stob, Reflexiones Éticas: Ensayos sobre temas morales, Grand Rapids, Michigan: T.E.L.L., 1982, p. 68).

[17]“Nós estamos no Reino e, mesmo assim, aguardamos sua manifestação completa; nós compartilhamos de suas bênçãos, mas ainda aguardamos sua vitória total; nós agradecemos a Deus por ter-nos trazido para o Reino do Filho que Ele ama, e ainda assim continuamos a orar: ‘Venha o teu reino’.” (A.A. Hoekema, A Bíblia e o Futuro, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1989, p. 72).

[18] Quarta estrofe do Hino Altos Louvores, nº 46 no Hinário Novo Cântico. Letra de Sarah Poulton Kalley (1825-1907) (1873) e música de compositor inglês Charles Avison (1709-1770), considerado “o mais importante compositor inglês de concertos do século XVIII” (Stanley Sadie, ed. Dicionário Grove de Música: edição concisa, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994, p. 50).

O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (10) (FINAL)

Algumas aplicações

 

1) As aflições, por vezes, se constituem em meios de nos aproximar mais de Deus por meio das orações.

 

       2) A tristeza, proporcionada pela disciplina de Deus, produz arrependimento e nosso retorno à alegria da comunhão com Ele: Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação (2Co 7.10). O consolo de Deus para com os que choram de arrependimento é o perdão. Não há nada mais consolador do que ser restaurado à comunhão com o nosso Senhor.

 

3) Faço aqui uma digressão: Com entusiasmo tenho assistido há algumas décadas um crescente interesse pela teologia e pensamento Reformados no Brasil.[1] Sei que esse fenômeno não é apenas uma peculiaridade da igreja brasileira.[2] Sei também que em um período de euforia e, por vezes, de triunfalismo, é comum haver pouca reflexão e, portanto, adesão e rejeição de uma “onda” sem a avaliação mais demorada e consistente dos fenômenos. Obviamente tais comportamentos geram dificuldades.

 

Alegro-me em ver em todas as partes do país, jovens, em sua grande maioria, com grande e intenso interesse pelas obras de Calvino, dos Puritanos, teólogos contemporâneos e apologetas do século XX e XXI. Isso é muito encorajador. Não é para menos. Basta lembrar que a primeira obra de Calvino só foi traduzida para o português em 1985.[3]

 

Com crescimento de traduções dessas obras, o surgimento de gerações de teólogos comprometidos com as Escrituras e seu fiel ensinamento tem sido uma constante. Isso não é de pouca monta. Deus tem abençoado a igreja brasileira.

 

Contudo, é preciso que nós teólogos, especialmente os mais maduros, não se infantilizem com a publicidade, se bestializando, assumindo atitudes pueris, com preocupações exóticas, criando grandes questões em cima de assuntos irrelevantes ou queiram ser maiores do que a mensagem que deveriam levar. Popularidade não é necessariamente sinônimo de fidelidade e, triunfalismo teológico certamente não é o caminho bíblico para o ensino da verdade. Por vezes, e não poucas, a verdade tem permanecido com o remanescente fiel. A verdade não é construída nem destruída, antes ela permanece porque toda verdade pertence a Deus. Por isso, só permanece na condição de verdadeiro o que é verdade. A verdade, por proceder de Deus, é eterna.

 

É preciso que cultivemos o espírito de gratidão a Deus e grande temor diante de nossa responsabilidade como cooperadores do Reino.

 

A infantilidade tem sua graça na infância. Na mocidade, em alguns casos, pode até ser tolerada. Mas, na vida adulta é lamentável. Ainda mais se essa imaturidade for influenciadora de dezenas de pessoas na sua imaturidade natural fruto de sua infância espiritual.

 

Por vezes, no desejo orgulhoso e pecaminoso de permanecer em evidência, corremos o risco de fazermos concessões com a verdade a fim de sermos bem aceitos dentro dos moldes contemporâneas, com a sua ética e estética tão bem definidas sob a designação sagrada de “politicamente correto”.

 

Quando o gosto e a preferência pessoal assumem preponderância sobre a verdade, temos de fato o grave problema do pragmatismo teológico e eclesiástico. Nesse contexto, a verdade torna-se indiferente e irrelevante.[4]

 

Os líderes e mestres da igreja são responsáveis dentro de sua esfera de competência por conduzir com integridade o rebanho. A superficialidade na condução do povo de Deus por meio da Palavra é quase tão grave quanto o ensino estranho às Escrituras.

 

       Uma teologia que vise destruir seu oponente, fomentar debate pelo debate e ostentar uma suposta superioridade intelectual e um cinismo arrogante, nada tem a ver com o propósito de uma genuína teologia bíblica, que é nos conduzir ao conhecimento pessoal e redentivo de Deus que redunde em Sua glória.

 

Sabemos que toda afirmação envolve negação. A verdade sempre envolverá antíteses. Aqui não temos escolhas. Dizer “sim” é dizer “não”. Convicção e firmeza não são sinônimas de pretensão arrogante.

 

A verdade revelada nas Escrituras é a realidade como Deus a percebe. Deus percebe as coisas como são. Somente Deus, e mais ninguém, tem um conhecimento objetivo da realidade. As coisas são como são porque de alguma forma Deus as sustenta. Antes de atribuirmos valor à verdade, ela já o tem porque foi Deus quem a criou e lhe confere significado. A verdade é uma expressão de Deus em Si mesmo e na Criação. Deus é a verdade, opera por meio da verdade e nos conduz à verdade. A graça de Deus opera pela verdade e, nesta verdade que foi ouvida e compreendida, frutificamos (Cl 1.6).

 

“A verdade é aquilo que é consistente com a mente, a vontade, o caráter, a glória e o ser de Deus. Sendo mais preciso: a verdade é a autoexpressão de Deus”.[5] Por isso, a verdade é sempre essencial. O Cristianismo não se sustenta amparado em aparências, circunstâncias e ambiguidades, antes, ele proclama a verdade e se dispõe a ser examinado à luz da verdade. Ou a sua mensagem é verdadeira, ou não há mensagem relevante a ser proclamada. “Como sempre, verdade é a questão essencial. Onde uma noção clara da verdade está ausente, o cristianismo torna-se mais uma atitude do que um sistema de crenças. Contudo, a crença sempre pressupõe uma verdade que pode e deve ser conhecida”.[6]

 

A teologia como a sistematização do que nos foi revelado na Palavra, visa tornar mais compreensível a plenitude da revelação.[7] A teologia, portanto, nada tem a dizer além das Escrituras. Ela não a substitui nem a completa, antes, deve ser a sua serva. A teologia brota dentro da intimidade da fé daqueles que cultuam a Deus e comprometem-se com a edificação da igreja.

 

A nossa teologia é sempre limitada e finita. Nunca é um edifício completo em todas as suas partes.[8] Antes, é uma tentativa humana de aproximação fiel das Escrituras, rogando a indispensável assistência do Espírito (Sl 119.18) e, por isso mesmo, sempre aberta à correção e aperfeiçoamento proveniente do estudo das Escrituras acompanhada pela essencialidade da iluminação do Espírito.

 

Nesse propósito, ela apresenta uma direção humilde para os peregrinos que vivem no mundo de Deus buscando compreender e vivenciar de forma autêntica as etapas de sua jornada até que cheguem ao seu destino (Rm 8.29-30),[9] e, o Senhor Jesus volte para nos conduzir em absoluta segurança para o lugar que Ele mesmo foi-nos preparar. (Jo 14.1-6).

 

O maravilhoso mistério a respeito de Deus aumenta em nossa compreensão à medida que mais O conhecemos.[10] A douta ignorância faz parte essencial da fé genuína e sincera.[11] O conhecimento de nossa limitação não é inato, antes é precedido pela revelação.  É no encontro significativamente pessoal com Deus que tomamos conhecimento de nossas limitações.[12] O nosso conhecimento poder ser real e genuíno, porém é fragmentado e limitado.[13] Contudo, devemos nos alegrar em poder conhecer. O Senhor não exigirá mais do que nos foi dado. Mas, o Senhor exige a nossa fidelidade no muito e no pouco.[14]

 

Talvez aqui devêssemos nos arrepender e chorar pelo fato de nem sempre termos esses propósitos em vista, nos tornando arrogantes e negligentes, confiando em nossa capacidade ou barateando a graça por meio de nossa ociosidade e inépcia.

 

Que o Senhor nos console com o seu perdão, nos imbuindo de maior fidelidade, humildade e piedade.

 

       4) O consolo que temos está na cruz junto ao Senhor crucificado, o nosso Consolador. Na vitória do Filho na cruz, temos o nosso definitivo consolo.

 

       5) A Igreja, no presente tempo, ainda que já usufruindo parcialmente da alegria do Reino comunicada pelo Messias,[15] geme aguardando o regresso triunfante de Cristo, quando ela estará para sempre com o seu Senhor:

 

23 E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo. 24 Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? 25 Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos. (Rm 8.23-25).

 

       6) No final dos tempos, quando Deus consumar a sua obra, ele mesmo enxugará de nossos olhos todas as lágrimas (Ap 7.17; 21.4). A tristeza da Igreja Militante se converterá na alegria da Igreja Triunfante: “Em verdade, em verdade eu vos digo que chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria” (Jo 16.20). Na glorificação futura, teremos para sempre e de forma plena, a bem-aventurança prometida.

 

Sproul (1939-2017) comenta com sensibilidade bíblica:

 

Bem-aventurança é o que nós buscamos.

A bem-aventurança nunca é uma realização. Não podemos ganhá-la em troca de algo nem manipulá-la. Ela é fruto da graça divina, um presente que somente o próprio Deus é capaz de nos conceder. Embora tenhamos a capacidade de recebê-la, somos incapazes de produzi-la. Embora sejamos ativos em buscá-la, somos passivos em recebê-la. Bem-aventurança é algo que Deus faz por nós, para nós e em nós.

Bem-aventurança é um assunto que envolve um processo gradual. Ela atinge seu auge no complemento final de nossa santificação por parte de Deus, que a Bíblia chama de glorificação.

A etapa final da bem-aventurança é a glorificação.[16]

 

       7) O Catecismo de Heidelberg (1563), à pergunta nº 1, “Qual é o teu único conforto na vida e na morte?”, responde:

 

     É que eu pertenço ‒ corpo e alma, na vida e na morte ‒ não a mim mesmo, mas a meu fiel Salvador, Jesus Cristo, que com o seu precioso sangue pagou plenamente todos os meus pecados e me libertou completamente do domínio do Diabo; que Ele me protege tão bem, que sem a vontade de meu Pai no céu nenhum cabelo pode cair da minha cabeça; na verdade, que tudo deve adaptar-se ao seu propósito para a minha salvação. Portanto, pelo seu Santo Espírito, Ele também me garante a vida eterna e me faz querer estar pronto, de todo o coração, a viver para Ele daqui por diante”.

 

À pergunta 52, “Que conforto a volta de Cristo ‘para julgar os vivos e os mortos’ te oferece?”, responde:

 

     Que em toda aflição e perseguição posso esperar, de cabeça erguida, o verdadeiro Juiz do céu, que já se submeteu ao julgamento de Deus por mim e de mim removeu toda a maldição; que Ele lançará todos os seus e os meus inimigos na condenação eterna, mas, juntamente com todos os eleitos, me tomará para si mesmo na alegria e glória celestial.[17]

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este artigo faz parte de uma série. Confira aqui a série completa.

 


 

[1] Escrevi um pouco sobre isso na introdução do texto: João Calvino: uma coletânea de escritos, São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 9-12.

[2] Vejam-se algumas perspicazes anotações em: Iain H. Murray, John MacArthur, Servo da Palavra e do Rebanho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2012, p. 233-248.

[3]Em outubro de 1985 houve o lançamento no Seminário Presbiteriano do Sul de dois dos quatro volumes das Institutas de Calvino. Os outros dois seriam publicados apenas em 1989.

[4] Veja-se: William L. Craig,  Apologética Cristã para Questões difíceis da vida, São Paulo: Vida Nova, 2010, p. 11.

[5] John F. MacArthur, A Guerra pela Verdade: lutando por certeza numa época de engano, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2008, p. 30.

[6]Albert Mohler, O Desaparecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 11-12.

[7] “A teologia representa a tentativa humana de colocar ordem nas ideias das Escrituras, organizando-as e ordenando-as para que a relação mútua entre elas possa ser melhor entendida”   (Alister McGrath, Teologia para Amadores, São Paulo: Mundo Cristão, 2008, p. 32). “A teologia consiste em associar muitas passagens sobre diversos assuntos e organizá-las em um conjunto inteligível” (Gordon H. Clark, Em Defesa da Teologia, Brasília, DF.: Monergismo, 2010, p. 20).

[8] “A teologia deve sempre ser submetida à reforma. O entendimento humano é imperfeito. Embora as construções sistemáticas de alguma geração ou grupo de gerações possam ser arquitetônicas, sempre há a necessidade de correção e reconstrução de modo que a estrutura possa vir a uma aproximação mais íntima das Escrituras e a reprodução possa vir a ser uma transcrição ou reflexo mais fiel do exemplar divino” (John Murray, O Pacto da Graça: Um Estudo Bíblico-Teológico,  São Paulo: Editora Os Puritanos, 2001, p. 8).

[9] “O objetivo da boa teologia é humilhar-nos diante do Deus trino de majestade e graça. (…) Os antigos teólogos da Reforma e da pós-Reforma estavam tão convictos que suas interpretações estavam muito distantes da majestade de Deus que eles chamavam seus resumos e sistemas de ‘nossa humilde teologia’ e ‘uma teologia para peregrinos no caminho’” (Michael Horton, Doutrinas da fé cristã,  São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 15). Vejam-se: João Calvino, Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 2, (Jo 14.6), p. 93; John M Frame, A doutrina do conhecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 97; Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 45.

[10] “O verdadeiro mistério só pode ser entendido como  um mistério genuíno mediante a revelação” (Emil Brunner,  Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 157).

[11] Ver: João Calvino, As Institutas, III.21.2; III.23.8. Na edição de 1541, escrevera: “E que não achemos ruim submeter neste ponto o nosso entendimento à sabedoria de Deus, aos cuidados da qual Ele deixa muitos segredos. Porque é douta ignorância ignorar as coisas que não é lícito nem possível saber; o desejo de sabê-las revela uma espécie de raiva canina” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3 (III.8), p. 53-54).

[12] Ver: Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 157, 159ss.

[13] Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 98, 110.

[14] Veja-se: Karl Barth, Esboço de uma Dogmática, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, p. 10.

[15]“O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados; 2 a apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os que choram 3 e a pôr sobre os que em Sião estão de luto uma coroa em vez de cinzas, óleo de alegria, em vez de pranto, veste de louvor, em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem carvalhos de justiça, plantados pelo Senhor para a sua glória” (Is 61.1-3/Lc 4.16.19). “Na pessoa de Jesus Cristo o futuro se torna presente” (Herman N. Ridderbos, O Testemunho de Mateus acerca de Jesus Cristo: o Rei e o Reino, Patrocínio, MG.: Ceibel, 1980, p. 24).

[16]R.C. Sproul, A Alma em Busca de Deus: Satisfazendo a fome espiritual pela comunhão com Deus, São Paulo: Eclesia, 1998, p. 170.

[17] Ver também: Catecismo Maior de Westminster, Perg. 90.

O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (9)

4. Serão Consolados

 

“Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados (parakale/w) (Mt 5.4).

 

O texto é enfático. O pronome au)toi é intensivo, enfatizando a identidade dos que serão consolados A ideia, portanto, é de que somente estes os que choram serão consolados.[1]

O verbo consolar (parakale/w) tem o sentido de: implorar (Mt 8.5; 18.29), suplicar (Mt 18.32); rogar (Rm 12.1; Ef 4.1); exortar (Lc 3.18; At 2.40; 11.23); conciliar (Lc 15.28); consolar (Mt 5.4; Lc 16.25; 15.32; 1Ts 5.11; 2Ts 2.17); confortar (At 16.40; 2Co 1.4; 7.6); contemplar (2Co 1.4); convidar (At 8.31); pedir (At 9.38; 1Co 4.13; 16.15); pedir desculpas (At 16.39); fortalecer (At 20.2,12); solicitar (At 25.2; Fm 9,10); chamar (At 28.20); admoestar (1Co 4.16; Hb 10.25); recomendar (1Co 16.12; 2Co 8.6; 9.5; 1Tm 6.2).

No texto de João 14.16, Jesus Cristo conforta os seus discípulos, prometendo-lhes “outro Consolador”, referindo-se a uma pessoa numericamente distinta que viria substituir outra – um Consolador semelhante a ele.[2] (Vejam-se também: Jo 14.26; 15.26; 16.7). Portanto, o Consolador é Jesus Cristo. O Espírito é outro, semelhante a Jesus Cristo, que veio substituí-lo neste propósito.

O Consolador é aquele que conforta, exorta, guia, instrui e defende. É um amigo que assiste seus amigos.[3] “Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito” (Jo 14.26). Agora eles tinham a Jesus fisicamente ao seu lado. Quando viesse o Espírito, eles teriam dois consoladores (advogados): Jesus Cristo no céu e o seu Espírito neles (Jo 14.16-17).[4]

Nós hoje continuamos desfrutando deste mesmo conforto, fortalecimento e ânimo, a saber: do Espírito em nós e de Cristo no céu por nós (1Jo 2.1/Rm 8.34; Hb 7.25). Ferguson comenta: “Tão plena é a união entre Jesus Cristo e o Parácleto, que a vinda deste é a vinda do próprio Jesus Cristo no Espírito”.[5]

O Espírito nos consola, fortalece e ajuda em todas as nossas dificuldades, nos estimulando à ação. Ele age em nós como Jesus agiu com os seus discípulos e ainda age por nós (Jo 14.26; 15.26/14.16; 1Jo 2.1).[6]

Ele nos consola de várias maneiras. Creio que ele o faz de modo efetivo, testificando continuamente[7] em nós, que somos filhos de Deus (Rm 8.16).[8] É pelo testemunho do Espírito que a graça de Deus é-nos conscientizada. “Nossa mente, por iniciativa própria, jamais nos comunicaria tal segurança se o testemunho do Espírito não a precedesse”.[9]

Mas, além de nos consolar, ele nos desafia à luta, ao testemunho fiel de nossa fé. Lucas registra que a igreja, “edificando-se e caminhando no temor do Senhor e, no conforto (para/klhsij) do Espírito Santo, crescia em número” (At 9.31). O estímulo do Espírito é por si só desafiante e consolador. Paulo nos diz que “… tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação (para/klhsij) das Escrituras, tenhamos esperança. Ora, o Deus da paciência e da consolação (para/klhsij) vos conceda o mesmo sentir de uns para com os outros, segundo Cristo Jesus” (Rm 15.4-5).

Lembremo-nos de que foi o Espírito quem fez registrar as Escrituras (2Tm 3.16; 2Pe 20-21). Ele, como Deus que é, na inspiração das Escrituras, providenciava o nosso conforto, consolo e estímulo. Uma das formas eficazes que o Espírito utiliza para nos consolar é por meio da leitura e meditação na Palavra de Deus. As Escrituras foram escritas para o nosso consolo.

William Barclay (1907-1978), recorrendo à literatura grega, faz uma analogia muito oportuna que nos mostra outra vertente da questão:

 

Repetidas vezes achamos que parakalein é a palavra do sinal de reagrupamento; é a palavra usada dos discursos dos líderes e dos soldados que se animam mutuamente a avançarem. É a palavra usada a respeito de palavras que fazem com que soldados e marinheiros medrosos, temerosos e hesitantes entrem na batalha com coragem. Um paraklêtos é, portanto, um encorajador, uma pessoa que injeta coragem nos acovardados, que anima o braço fraco para a luta, que leva um homem muito comum a lidar heroicamente com uma situação perigosa e arriscada.

Aqui, pois, temos a grande obra do Espírito Santo. Expressando-a em linguagem atual, o Espírito Santo capacita os homens a lidarem com a vida. O Espírito Santo é, na realidade, o cumprimento da promessa.[10]

 

O Espírito nos consola, nos instrui e nos desafia a recorrer à graça de Deus, mostrando-nos que a nossa suficiência está em Cristo, aquele que nos consola e fortalece (Fp 4.13).[11]

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este artigo faz parte de uma série. Confira aqui a série completa.

 


 

[1] Cf. R.C.H. Lenski, Commentary on the New Testament: The Interpretation of St. Matthew’s Gospel, [s. cidade]: Hendrickson Publishers, 1998, (Mt 5.4), p. 187; John MacArthur, O Caminho da Felicidade, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 75.

[2] Veja-se: Richard C. Trench, Synonyms of the New Testament, 7. ed. revised and enlarged, London: Macmillan and Co., 1871, § xcv, p. 337.

[3] Vejam-se: William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora, 1974, v. 15, (1Jo 2.1-2), p. 45-48; idem., Palavras Chaves do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1988 (reimpressão), p. 153-158.

[4]16 E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, 17 o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não no vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós(Jo 14.16-17).

[5] Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 74.

[6]A palavra grega traduzida no Evangelho de João por “Consolador”, (Para/klhtoj) (Jo 14.16,26; 15.26) – que é usada unicamente por João no NT. –, é a mesma que é traduzida na Epístola de João, por “Advogado” (1Jo 2.1) (ARA, ARC, ACR, BJ). Para um estudo detalhado desta palavra, Vejam-se: W. Barclay, Palavras Chaves do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1988 (reimpressão), p. 153-158; Johannes Behm, Para/klhtoj: In: G. Friedrich; Gerhard Kittel, eds. Theological Dictionary of the New Testament, v. 5, p. 800-814.

[7] Veja-se: A.A. Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 36.

[8] O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus(Rm 8.16).

[9] João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1987, (Rm 8.16), p. 279.

[10] W. Barclay, Palavras Chaves do Novo Testamento, p. 157.

[11] Tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.13).

O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (8)

3. Bem-Aventurados os que choram

 

     “Bem-aventurados os que choram (penqe/w), porque serão consolados (parakale/w) (Mt 5.4).

 

De todas as palavras gregas empregadas para indicar dor, tristeza e choro, possivelmente esta (penqe/w) (penthéõ) é a mais intensa. O substantivo pe/nqoj (pénthos) indica luto.[1] Descreve a tristeza dos amigos de Jesus diante de sua morte e, por incredulidade, sem esperança de ressurreição: “E, partindo ela, foi anunciá-lo àqueles que, tendo sido companheiros de Jesus, se achavam tristes (penqe/w) e choravam (klai/w) (Mc 16.10). É a mesma palavra empregada na Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento) para descrever a tristeza de Abraão quando morre sua esposa, Sara: “…veio Abraão lamentar Sara e chorar (penqe/w) por ela” (Gn 23.2).[2]

Do mesmo modo, descreve o sofrimento de Jacó quando pensa que seu filho José havia morrido: “Então, Jacó rasgou as suas vestes, e se cingiu de pano de saco, e lamentou (penqe/w) o filho por muitos dias” (Gn 37.34). A palavra refere-se ao luto pela perda da mãe (Sl 35.14/Os 4.3; Am 1.2; Jl 1.9; Lm 1.4)[3] e o choro de Daniel pela situação de Jerusalém (Dn 10.2).

Como deve estar claro, o choro aludido na bem-aventurança indica intensidade de dor; contudo, não sejamos ingênuos a ponto de pensar que a promessa de Deus se refira ao choro provocado por qualquer grande angústia e aflição. Há angústias intensamente pecaminosas como foi o caso de Amnon que, antes de violentar a sua irmã, angustiava-se por não possuí-la[4] ou como a do rei Acabe que, por não conseguir comprar a vinha do seu vizinho, ficou triste sem querer alimentar-se até que sua esposa, Jezabel, providenciou a morte de Nabote, podendo assim seu marido ficar com a vinha.[5]

Ainda que nem todo o lamento seja apenas por questões pecaminosas, certamente a bem-aventurança não contempla a todo o pesar que se manifeste em lágrimas. Pelo contexto, podemos entender que Jesus nos ensina que é feliz o homem que consegue entender o santo padrão estabelecido por Deus, percebendo a sua pequenez, entristece-se com seus pecados, por sua incapacidade de atingir o exigido pelo Senhor. Portanto, na sua pobreza espiritual, chora de arrependimento pelos seus pecados.

Como vimos na série anterior, o arrependimento é por si só fruto da graça de Deus;[6] é uma tristeza produzida por Deus em nossos corações. Somente a verdadeira convicção do pecado, resultante da contemplação do Deus santo, pode nos conduzir à consciência de nossa pobreza espiritual e ao choro de arrependimento pelos nossos pecados.

Os que assim agem serão consolados pelo próprio Deus. Este consolo trará alegria eterna para o seu povo: “Bem-aventurados vós, os que agora chorais, porque haveis de rir” (Lc 6.21).

Esse princípio é frontalmente oposto ao de uma sociedade que prega como virtude o senso de autossuficiência e poder. Os filósofos estoicos, na Antiguidade, no seu ideal de a)pa/qeia, indiferença a todas as emoções, austeridade e imperturbabilidade, já combatiam a dor (pe/nqoj), entendendo que ela era um sentimento, uma paixão (pa/qoj) que se deveria evitar.[7] Hoje não é diferente. No entanto, nesta bem-aventurança nos deparamos com um homem que, consciente de seus pecados, arrependido diante do Senhor, os confessa com tristeza reconhecendo a sua condição de um ser totalmente incapaz de satisfazer a Deus por seus próprios méritos.

O arrependimento consiste numa mudança de mente, ocasionando um sentimento de tristeza pelos nossos pecados, que se caracteriza de forma concreta no seu abandono. O arrependimento sincero é uma “concessão” de Deus: “Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento (meta/noia = “mudança de mente”) para a salvação” (2Co 7.10/2Tm 2.25). “A bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento (meta/noia) (Rm 2.4/Hb 12.17). Arrependimento é graça. “O arrependimento é um presente do Cristo que subiu ao céu, no seu glorioso ofício de Mediador”.[8]

O salmista, por seu zelo para com a Lei de Deus, chorava ao ver os homens desprestigiarem o reto caminho do Senhor:

 

136 Torrentes de água nascem dos meus olhos, porque os homens não guardam a tua lei. 137 Justo és, Senhor, e retos, os teus juízos. 138 Os teus testemunhos, tu os impuseste com retidão e com suma fidelidade. 139 O meu zelo me consome, porque os meus adversários se esquecem da tua palavra. (Sl 119.136-139).

 

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este artigo faz parte de uma série. Confira aqui a série completa.

 


[1] E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto (pe/nqoj), nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram(Ap 21.4). Veja-se: Richard C. Trench, Synonyms of The New Testament, 7. ed. (revised and enlarged.), London: Macmillan And Co., 1871, § lxv, p. 224-225.

[2] Na literatura Grega a associação deste termo com a morte e o luto era comum (Veja-se: R. Bultmann, Pe/nqoj: In: G. Friedrich; Gerhard Kittel, eds. Theological Dictionary of the New Testament, 8. ed. Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing Co., (reprinted) 1982, v. 6, p. 40-41).

[3] “Portava-me como se eles fossem meus amigos ou meus irmãos; andava curvado, de luto, como quem chora por sua mãe (Sl 35.14).

[4]“Tinha Absalão, filho de Davi, uma formosa irmã, cujo nome era Tamar. Amnom, filho de Davi, se enamorou dela. 2 Angustiou-se Amnom por Tamar, sua irmã, a ponto de adoecer, pois, sendo ela virgem, parecia-lhe impossível fazer-lhe coisa alguma” (2Sm 13.1-2).

[5]Sucedeu, depois disto, o seguinte: Nabote, o jezreelita, possuía uma vinha ao lado do palácio que Acabe, rei de Samaria, tinha em Jezreel. 2 Disse Acabe a Nabote: Dá-me a tua vinha, para que me sirva de horta, pois está perto, ao lado da minha casa. Dar-te-ei por ela outra, melhor; ou, se for do teu agrado, dar-te-ei em dinheiro o que ela vale. 3 Porém Nabote disse a Acabe: Guarde-me o Senhor de que eu dê a herança de meus pais. 4 Então, Acabe veio desgostoso e indignado para sua casa, por causa da palavra que Nabote, o jezreelita, lhe falara, quando disse: Não te darei a herança de meus pais. E deitou-se na sua cama, voltou o rosto e não comeu pão. 5 Porém, vindo Jezabel, sua mulher, ter com ele, lhe disse: Que é isso que tens assim desgostoso o teu espírito e não comes pão? 6 ele lhe respondeu: Porque falei a Nabote, o jezreelita, e lhe disse: Dá-me a tua vinha por dinheiro; ou, se te apraz, dar-te-ei outra em seu lugar. Porém ele disse: Não te darei a minha vinha. 7 Então, Jezabel, sua mulher, lhe disse: Governas tu, com efeito, sobre Israel? Levanta-te, come, e alegre-se o teu coração; eu te darei a vinha de Nabote, o jezreelita. 8 Então, escreveu cartas em nome de Acabe, selou-as com o sinete dele e as enviou aos anciãos e aos nobres que havia na sua cidade e habitavam com Nabote. 9 E escreveu nas cartas, dizendo: Apregoai um jejum e trazei Nabote para a frente do povo. 10 Fazei sentar defronte dele dois homens malignos, que testemunhem contra ele, dizendo: Blasfemaste contra Deus e contra o rei. Depois, levai-o para fora e apedrejai-o, para que morra. 11 Os homens da sua cidade, os anciãos e os nobres que nela habitavam fizeram como Jezabel lhes ordenara, segundo estava escrito nas cartas que lhes havia mandado. 12 Apregoaram um jejum e trouxeram Nabote para a frente do povo. 13 Então, vieram dois homens malignos, sentaram-se defronte dele e testemunharam contra ele, contra Nabote, perante o povo, dizendo: Nabote blasfemou contra Deus e contra o rei. E o levaram para fora da cidade e o apedrejaram, e morreu. 14 Então, mandaram dizer a Jezabel: Nabote foi apedrejado e morreu. 15 Tendo Jezabel ouvido que Nabote fora apedrejado e morrera, disse a Acabe: Levanta-te e toma posse da vinha que Nabote, o jezreelita, recusou dar-te por dinheiro; pois Nabote já não vive, mas é morto. 16 Tendo Acabe ouvido que Nabote era morto, levantou-se para descer para a vinha de Nabote, o jezreelita, para tomar posse dela” (1Rs 21.1-16).

[6]“O arrependimento não está no poder do homem” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 6.6), p. 155).

[7] Cf. R. Bultmann, Pe/nqoj: In: G. Friedrich; Gerhard Kittel, eds. Theological Dictionary of the New Testament, 8. ed. Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing Co., (reprinted) 1982, v. 6, p. 41.

[8]Sinclair B. Ferguson, Arrependimento, Recuperação e Confissão: In: James M. Boice; Benjamin Sasse, orgs. Reforma Hoje, São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p. 143.

O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (7)

4) Perseguição

 

A perseguição quer seja física, psíquica ou moral gera muita dor e sofrimento. Pedro estimula as igrejas a permanecerem firmes em seu testemunho: “Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações” (1Pe 1.6). “Mas, ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois. Não vos amedronteis, portanto, com as suas ameaças, nem fiqueis alarmados” (1Pe 3.14).

Paulo, descrevendo parte de seus sofrimentos, diz: “Entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo” (2Co 6.10).

Quando ele narra aos presbíteros de Éfeso o seu trabalho tão bem conhecido por eles, apresenta esta conotação como fruto das tentações da parte dos judeus: “Servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações que, pelas ciladas dos judeus, me sobrevieram” (At 20.19).

5) Solidariedade

Sensibilizamo-nos com o sofrimento de nossos irmãos, compartilhando com ele de sua alegria e dor. Paulo diz que devemos desenvolver esta sensibilidade: “Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram” (Rm 12.15).

6) Patriotismo

Quando Jerusalém foi destruída (586 a.C.), o povo de Judá foi levado cativo. Jeremias, um cidadão patriota, revela a sua tristeza:

Como jaz solitária a cidade outrora populosa! Tornou-se como viúva a que foi grande entre as nações; princesa entre as províncias, ficou sujeita a trabalhos forçados! 2 Chora e chora de noite, e as suas lágrimas lhe correm pelas faces; não tem quem a console entre todos os que a amavam; todos os seus amigos procederam perfidamente contra ela, tornaram-se seus inimigos. 3 Judá foi levado ao exílio, afligido e sob grande servidão; habita entre as nações, não acha descanso; todos os seus perseguidores o apanharam nas suas angústias. (Lm 1.1-3).

 

7) Preocupação com a Igreja

Paulo, um pastor cuidadoso, procurava instruir, interceder e alertar a igreja quanto a perigos iminentes. Ele passou boa parte de seu ministério pregando o Evangelho em diversas cidades e, alguns anos preso, o seu pastorado era, o que não poderia deixar de ser, à distância. As suas cartas se constituem em verdadeiras pastorais onde ele instrui, exorta, consola e adverte. Quanto à amada igreja de Filipos, revela a sua angústia em relação aos falsos mestres, talvez de diversos matizes que circundavam-na: “Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo” (Fp 3.18).

Do mesmo modo, ele diz aos presbíteros de Éfeso que pessoalmente os ensinou durante três anos com persistência em meio a lágrimas: “Portanto, vigiai, lembrando-vos de que, por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um” (At 20.31).

8) Por uma promessa precipitada

 

Herodes, comemorando o seu aniversário, prometeu publicamente à filha da esposa de seu irmão, Herodias, com quem adulterava, conceder-lhe o que ela quisesse. Ela, instigada por sua mãe, pediu-lhe a cabeça de João Batista, aquele que denunciava o pecado de Herodes com a sua cunhada. Relata o texto: “Entristeceu-se o rei, mas, por causa do juramento e dos que estavam com ele à mesa, determinou que lha dessem” (Mt 14.9/Mc 6.26).

9) Senso de valores equivocado

 

1) Esaú preferiu trocar o direito de primogenitura por um prato de lentilhas, desdenhando da herança da família, a terra (Gn 12.7) e a bênção da aliança (Gn 25.27-34). Mais tarde, quando não pôde obter a bênção de seu pai Isaque, chorou amargamente: “Disse Esaú a seu pai: Acaso, tens uma única bênção, meu pai? Abençoa-me, também a mim, meu pai. E, levantando Esaú a voz, chorou” (Gn 27.38/Hb 12.16-17).

 

2) O jovem rico, diante de um conflito de valores, não soube buscar socorro na misericórdia de Deus, antes, apenas ficou contrariado e se entristeceu, optando por ficar com a sua riqueza em detrimento do Reino de Deus. Eis a narrativa:

 

17 E, pondo-se Jesus a caminho, correu um homem ao seu encontro e, ajoelhando-se, perguntou-lhe: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? 18 Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus. 19 Sabes os mandamentos: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, não defraudarás ninguém, honra a teu pai e tua mãe. 20 Então, ele respondeu: Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude. 21 E Jesus, fitando-o, o amou e disse: Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me. 22 Ele, porém, contrariado com esta palavra, retirou-se triste, porque era dono de muitas propriedades. (Mc 10.17-22).

 

10) Diante de um desafio que se parece grande por demais

 

Quando o povo de Judá voltou do exílio e deu início à reconstrução do templo (c. 536 a.C.), houve um misto de alegria e tristeza. Os jovens se alegraram pela libertação e possibilidade de realizarem aquela obra, sendo que a maioria nem conhecera o antigo templo. Há júbilo e gratidão. Contudo, os anciãos que conheceram a beleza do antigo templo, provavelmente percebendo a carência de recursos disponíveis, choram:

 

Cantavam alternadamente, louvando e rendendo graças ao Senhor, com estas palavras: Ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre sobre Israel. E todo o povo jubilou com altas vozes, louvando ao Senhor por se terem lançado os alicerces da sua casa. 12 Porém muitos dos sacerdotes, e levitas, e cabeças de famílias, já idosos, que viram a primeira casa, choraram em alta voz quando à sua vista foram lançados os alicerces desta casa; muitos, no entanto, levantaram as vozes com gritos de alegria. (Ed 3.11-12/Ag 2.1-5).

 

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (5)

4) O profeta Jonas, ao perceber a misericórdia de Deus para com o povo de Nínive, se entristece e ainda tenta justificar diante de Deus a sua desobediência. A sua indignação é tão grande que pede a Deus que o mate. Ao que parece, para Jonas, era melhor morrer do que vê a misericórdia perdoadora de Deus sobre aquele povo tão ímpio:

 

Com isso, desgostou-se Jonas extremamente e ficou irado. 2 E orou ao Senhor e disse: Ah! Senhor! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal. 3 Peço-te, pois, ó Senhor, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver. (Jn 4.1-3).

 

5) Pedro, após negar o Senhor três vezes, lembrou-se das palavras que ele lhe dissera. Envergonhado e arrependido, chorou de forma intensa e sofrida:

 

Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. E, saindo dali, chorou amargamente. (Mt 26.75).

E logo cantou o galo pela segunda vez. Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: Antes que duas vezes cante o galo, tu me negarás três vezes. E, caindo em si, desatou a chorar. (Mc 14.72).

 

Posteriormente, quando o Senhor ressurreto lhe pergunta três vezes a respeito de seu amor, é possível que a sua negação recente lhe viesse à mente, daí a sua tristeza:

 

Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas. (Jo 21.17).

 

6) Pelos pecados de uma cidade impenitente e pela sua futura destruição. Jesus chora diante de Jerusalém: 41 Quando ia chegando, vendo a cidade, chorou 42 e dizia: Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos” (Lc 19.41-42).

 

7) Paulo também se entristece pela incredulidade dos judeus, revelando de forma intensa o seu amor e dor:

 

Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência: 2 tenho grande tristeza e incessante dor no coração; 3 porque eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas, segundo a carne. (Rm 9.1-3).

 

8) Pela insensibilidade da Igreja em não perceber a gravidade do pecado de um irmão, tocando a vida como se nada tivesse acontecido:

 

Geralmente, se ouve que há entre vós imoralidade e imoralidade tal, como nem mesmo entre os gentios, isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai. 2 E, contudo, andais vós ensoberbecidos e não chegastes a lamentar, para que fosse tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou? (1Co 5.1-2).

 

Possivelmente, outro irmão havia pecado, inclusive, ofendendo a Paulo: Ora, se alguém causou tristeza, não o fez apenas a mim, mas, para que eu não seja demasiadamente áspero, digo que em parte a todos vós” (2Co 2.5).

 

À frente, Paulo falando sobre a disciplina divina, diz que ela produz tristeza; no entanto, esta tristeza é frutuosa. Portanto, valera a pena ter escrito a Carta Severa admoestando à Igreja, ainda que causando tristeza:

 

8 Porquanto, ainda que vos tenha contristado com a carta, não me arrependo; embora já me tenha arrependido (vejo que aquela carta vos contristou por breve tempo), 9 agora, me alegro não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus, para que, de nossa parte, nenhum dano sofrêsseis. 10 Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte. 11Porque quanto cuidado não produziu isto mesmo em vós que, segundo Deus, fostes contristados! Que defesa, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vindita! Em tudo destes prova de estardes inocentes neste assunto. (2Co 7.8-11).

 

Paulo se entristecia e chorava pelos pecados cometidos por seus irmãos e a falta de arrependimento: “Receio que, indo outra vez, o meu Deus me humilhe no meio de vós, e eu venha a chorar por muitos que, outrora, pecaram e não se arrependeram da impureza, prostituição e lascívia que cometeram” (2Co 12.21).

 

Do mesmo modo, o escritor de Hebreus instrui sobre os frutos da disciplina: Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça” (Hb 12.11).

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este artigo faz parte de uma série. Confira aqui a série completa.

O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (4)

2) Pecado, disciplina e arrependimento

 

1) Saul, quando percebe a injustiça que cometia contra Davi o perseguindo para matá-lo, chorou de remorso, ainda que isso não tenha mudado a situação permanentemente: “

 

13 Dos perversos procede a perversidade, diz o provérbio dos antigos; porém a minha mão não está contra ti. 14 Após quem saiu o rei de Israel? A quem persegue? A um cão morto? A uma pulga? 15 Seja o Senhor o meu juiz, e julgue entre mim e ti, e veja, e pleiteie a minha causa, e me faça justiça, e me livre da tua mão. 16 Tendo Davi acabado de falar a Saul todas estas palavras, disse Saul: É isto a tua voz, meu filho Davi? E chorou Saul em voz alta. (1Sm 24.13-16).      

 

2) Quando Davi foge de Jerusalém porque seu filho queria matá-lo termina por chorar enquanto caminha: “Seguiu Davi pela encosta das Oliveiras, subindo e chorando; tinha a cabeça coberta e caminhava descalço; todo o povo que ia com ele, de cabeça coberta, subiu chorando” (2Sm 15.30).

 

3) Davi sofreu amargamente as consequências de seu adultério com Bate-Seba e o planejamento da morte de seu marido Urias. No salmo 32 escreve: “Enquanto calei os meus pecados, envelheceram (hl’B’) (balah)[1] os meus ossos pelos meus constantes gemidos (hg”a’v.) (sheagah)[2] todo o dia” (Sl 32.3).

 

Davi só encontrou alívio quando declarou diante de Deus o seu pecado; ele não mais tentou escondê-lo ou amenizá-lo. Não há eufemismos em nossa confissão sincera. Davi pinta com cores reais as suas faltas:

 

Confessei-te ([d;y”) (yada) o meu pecado (hf)f+Ah) (hatã’â)[3] e a minha iniquidade (}oWf() (‘ãwõn)[4] não mais ocultei (כּסה) (kâsâh).[5] Disse: confessarei (hd’y)(yadah) ao SENHOR as minhas transgressões ((a$ep) (pesha’);[6] e tu perdoaste a iniquidade (}oWf() (‘ãwõn) do meu pecado (hf)f+Ah) (hatã’â). (Sl 32.5).

 

No salmo 51, no mesmo contexto, escreve: “Pois eu conheço ([d;y”) (yada) as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim” (Sl 51.3).

 

Da mesma forma no salmo 38:Confesso (נגד) (nâgad)[7] a minha iniquidade (}oWf() (‘ãwõn); suporto tristeza por causa do meu pecado” (Sl 38.18).

 

O caminho proposto por Deus é o arrependimento e a confissão. Deus perdoa a todos aqueles que, arrependidos, tristes com o seu pecado, sinceramente, o procuram. Deus mesmo declara: “Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões ((a$ep) (pesha’) por amor de mim” (Is 43.25). “Desfaço as tuas transgressões ((a$ep) (pesha’) como a névoa, e os teus pecados como a nuvem; torna-te para mim, porque eu te remi” (Is 44.22).

 

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

 

[1] Aplica-se à roupa envelhecida (Dt 8.4; 29.5; Js 9.5; Sl 102.26), sandália gasta (Dt 29.5; Js 9.5,13).

[2] A palavra gemido se aplica também: a) ao rugido do leão feroz: “Cessa o bramido (hg”a’v.)(sheagah) do leão e a voz do leão feroz, e os dentes dos leõezinhos se quebram” (Jó 4.10). “O seu rugido (hg”a’v.)(sheagah) é como o do leão; rugem como filhos de leão, e, rosnando, arrebatam a presa, e a levam, e não há quem a livre” (Is 5.29); b) ao rugido dos leõzinhos: “Este, andando entre os leões, veio a ser um leãozinho, e aprendeu a apanhar a presa, e devorou homens. Aprendeu a fazer viúvas e a tornar desertas as cidades deles; ficaram estupefatos a terra e seus habitantes, ao ouvirem o seu rugido (hg”a’v.)(sheagah)(Ez 19.6-7). “Eis o uivo dos pastores, porque a sua glória é destruída! Eis o bramido (hg”a’v.) (sheagah) dos filhos de leões, porque foi destruída a soberba do Jordão!” (Zc 11.3); c) gemido humano, quando, por exemplo, Jó em desespero amaldiçoa o dia do seu nascimento: “Por que em vez do meu pão me vêm gemidos (hg”a’v.) (sheagah), e os meus lamentos se derramam como água?” (Jó 3.24); d) bramido do Messias“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que se acham longe de minha salvação as palavras de meu bramido (hg”a’v.)(sheagah)?” (Sl 22.1).

[3](hf)f+Ah) (hatã’â). Pecado consiste no desvio daquilo que é agradável a Deus; errar o alvo, desviar-se da obediência devida a Deus. Esta é a principal palavra usada para descrever o sentido do pecado: errar o alvo ou o caminho. Um erro desqualificante. “A imagem é como saltar para alcançar uma barra e ser desqualificado ou fracassar em realizar isso” (Bruce K. Waltke; James M. Houston; Erika Moore, Os Salmos como adoração cristã: um comentário histórico, São Paulo: Shedd Publicações, 2015, p. 494).

[4] (}oWf()(‘ãwõn). O sentido da palavra é de perverter, distorcer, envergar algo que é reto.    A principal ideia está associada ao ato consciente, frequente e intencional de fazer o que é errado. Quando se aplica à lei significa “cometer uma perversão”, “infringir”. Distorcer o caminho certo. Ao que parece, a culpa é a principal consequência subjetiva deste pecado. (Veja-se: Carl Schultz; Bruce K. Waltke, ‘ãwâ: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1087). Davi (na sequência apresentada no Salmo 32) que primeiramente quebrou a aliança, desviando-se cada vez mais do propósito de Deus, agora ele avança em infringir a Lei, pervertendo-a.

É muito natural o homem buscar justificativa para os seus atos iníquos. Há um processo de racionalização malévolo por meio do qual elaboramos teorias por vezes sofisticadas que pelo menos para nós justificam os nossos atos. Como isso nem sempre é suficiente, procuramos também persuadir os outros da integridade e necessidade de nossos atos pecaminosos que, neste caso, não são apresentados como tais, antes, como necessários, ousados e inteligentes. A aparente tranquilidade de Davi durante os doze meses que o separam de seus atos pecaminosos e a advertência do profeta Natã soa-me como algo estranho. De alguma forma ele conseguiu equacionar a culpa de seu pecado em sua mente e coração durante aquele período. Todavia, a Palavra de Deus é eficaz no seu propósito de mostrar a nossa infração e nos restaurar à comunhão com Deus. As nossas racionalizações complementadas por alguns comprimidos podem servir como paliativos durante algum tempo, contudo, não atingem o cerne do problema; elas não resolvem a questão do pecado e consequentemente da culpa. Aliás, o sentimento de culpa pode ser uma das bênçãos de Deus para que não nos entreguemos totalmente ao pecado. A culpa, nestes casos, é graça! Deus opera desta forma conduzindo-nos, pelo Espírito Santo, de volta a Ele mesmo. No texto que estamos analisando, o instrumento foi o profeta Natã que proferiu a Palavra de Deus, não as suas opiniões ou teorias. Somente a Palavra pode curar nossas feridas restaurando a nossa alma. E, não há restauração espiritual sem o retorno a Deus; à nossa restauração primeira à comunhão com Deus.

[5] (כּסה) (kâsâh) tem o sentido de “envolver”, “encobrir”, “ocultar”, “submergir” (Sl 78.53); morar (Pv 10.6,11); reter (Pv 10.18). Davi, portanto, expôs a Deus o seu pecado, não mais o abrigou dentro de si.

[6]((a$ep) (pesha’). Significa, transgressão, violação, revolta ou recusa a se submeter a uma legítima autoridade. “Afronta ostensiva dos homens à pessoa de Deus” (Alex Luc, Ps‘ In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 703). É como alguém que ergue o punho contra o padrão estabelecido por Deus. Significa revolta ou recusa a se submeter a uma legítima autoridade. Tem o sentido de rompimento de relacionamento, envolvendo a ideia de abandono de compromissos assumidos, uma quebra intencional de uma norma ou padrão, uma rebelião.

Ainda que esta expressão seja usada amplamente no campo familiar e jurídico, ela se concentra de forma mais intensa na rebelião contra Deus.

“O sentido predominante de pesha’ é o de rebelião contra a Lei e a Aliança de Deus, e, por conseguinte, o termo é um substantivo coletivo que denota a totalidade de iniquidades e um relacionamento fraturado” (G. Herbert Livingston, Pesha’: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1247).

[7] O sentido básico é de “declarar”, “publicar”, “anunciar”, “manifestar, “expor”.