Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (17)

E. Supremamente grande

Mesmo Deus sendo incomparável, como vimos, com objetivos didáticos, encontramos costumeiramente nos Salmos termos comparativos para Deus a fim de realçar aspectos do seu caráter que são superlativamente incomparáveis.

Essa aparente contradição é compreensível se nos lembrarmos que a nossa forma de definição – ainda que Deus não possa ser definido com nossas categorias -, envolve comparações e, a nossa percepção avaliativa depende de referências a fim de que possamos entender relativamente a questão de tamanho, quantidade, qualidade, distância etc.

Considerando, obviamente os nossos limites, essa – conforme já tratamos – é uma forma usada pelo próprio Deus para falar de si de modo que possamos entender.

          Um dos termos, com as suas variações, empregados pelas Escrituras para realçar a soberania de Deus e a maravilha de suas obras, é a palavra grande.

          Especialmente à luz dos Salmos, analisemos alguns aspectos da grandeza de Deus e como isso traz implicações para a nossa vida:

        Porque o SENHOR é o Deus supremo (lAdG”) (gadol)[1] e o grande (lAdG”) (gadol) Rei acima de todos os deuses. (Sl 95.3/96.4).

O teu caminho, ó Deus, é de santidade. Que deus é tão grande (lAdG”) (gadol) como o nosso Deus? (Sl 77.13).

O SENHOR é grande (lAdG”) (gadol) em Sião e sobremodo elevado (~Wr) (rum) acima de todos os povos. (Sl 99.2).

Grande (lAdG”) (gadol) é o Senhor nosso e mui poderoso; o seu entendimento (hn”WbT.)(tebunah) (= inteligência, aptidão, habilidade) não se pode medir. (Sl 147.5).

Esse é o Deus conhecido pelo seu povo: “Conhecido ([d;y”) (yada’)[2]é Deus em Judá; grande (lAdG”) (gadol), o seu nome em Israel” (Sl 76.1).[3]

Grandeza que nos conduz ao culto

          Vemos aqui a importância de conhecer a Deus. Que experiência mais maravilhosa poderá existir nessa existência e na eternidade? Dia após dia podemos conhecer mais a Deus de forma intelectual e experimental, aprendendo a constatar nas coisas aparentemente insignificantes de nossa existência, como naquelas que por serem tão assustadoras, nos parecerem impossíveis, o poder, santidade, justiça e o amor de Deus cuidado de nós. Grande é o Senhor!

          A suprema grandeza do Senhor o dignifica como devendo ser louvado por nós e, demonstra também, que o nosso culto deve ser caracterizado pela consciência de que adoramos ao Senhor que é grande.

          A sua natureza e os seus poderosos e misericordiosos feitos devem nos conduzir ao culto. É por isso que a nossa adoração deve ser precedida pela reflexão sobre Deus e a sua grandeza. A nossa adoração reflete como vemos a Deus e o quanto consideramos os seus feitos.

No culto público, como nos portamos? O que ocupa a nossa mente? O que governa o nosso coração? Como poderemos nos apresentar diante do grande rei de forma indiferente, dispersiva e fragmentada? Confesso ter que pedir a Deus perdão por isso também. Nem sempre me apresento de forma integra diante do meu Senhor. Grande é o Senhor em sua misericórdia!

          Essa compreensão é comum aos salmistas:

Grande (lAdG”) (gadol) é o SENHOR e mui digno de ser louvado, na cidade do nosso Deus. (Sl 48.1).

Porque grande (lAdG”) (gadol) é o SENHOR e mui digno de ser louvado, temível (arey”) (yare) mais que todos os deuses. (Sl 96.4).

Grande (lAdG”) (gadol) é o SENHOR e mui digno de ser louvado; a sua grandeza (hL’WdG>) (gedullah) é insondável (rq,xe !yIa;) (ayin cheqer). (Sl 145.3).

 O Senhor, somente, deve ser magnificado

          O nosso culto, pelo seu motivo e conteúdo deve ter uma conotação missionária visto que o grande Deus é o seu motivo e propósito. A adoração deve ser um testemunho para todos do quão grande é o nosso Senhor.

          Os salmistas louvam a Deus reconhecendo a sua grandeza:

Engrandecei (ld;G”) (gadal) o SENHOR comigo, e todos, à uma, lhe exaltemos o nome. (Sl 34.3/Sl 40.6; 69.30; 70.4).

Bendize, ó minha alma, ao SENHOR! SENHOR, Deus meu, como tu és magnificente (ld;G daom.) (gadal meod): sobrevestido de glória e majestade. (Sl 104.1).

Louvai-o pelos seus poderosos feitos; louvai-o consoante a sua muita grandeza (ld;G” bro) (gadal rob). (Sl 150.2).

O salmista compromete-se a anunciar os grandiosos feitos do Senhor: “Falar-se-á do poder dos teus feitos tremendos (arey”) (yare), e contarei a tua grandeza (hL’WdG>) (gedullah) (Sl 145.6).

          Em momentos de dúvidas, incertezas e abatimento, é oportuno considerar a nossa história de vida; trazer à memória os feitos de Deus e cultivar uma “grata memória”. Por vezes o presente parece ser um ditador de nossa vida, impondo-nos a impressão megalomaníaca, de ser a única realidade, nada o tendo precedido. A nossa fé, quando é dominada pelo onipresente “agora” e assombrada pelo temido futuro, tende a passar por uma amnésia, fazendo-nos esquecer, como diz o poeta, que “no passado Deus guiou-te assim”.[4] No entanto, a Palavra nos tira dessa ditadura pagã do unicamente aqui e agora, e nos mostra que podemos e devemos confiar e descansar no Senhor que é grande em sua fidelidade.

          O considerar os feitos de Deus é, com muita frequência, um estímulo a confiar e a continuar confiando. Deus nos chamou, nos guiou e preservou. Ele é o Deus grande que opera maravilhas em nossa vida e na de nossos irmãos. Devemos descansar em suas promessas.

          Samuel quando deixa de ser juiz de Israel, porque o povo desejava ter um rei, se despede. Recapitula brevemente a história da Israel e, no final, lhe diz: “Tão-somente, pois, temei ao SENHOR e servi-o fielmente de todo o vosso coração; pois vede quão grandiosas (lAdG”) (gadol) coisas vos fez” (1Sm 12.24).

          Esse sentimento é comum aos salmistas. Davi considerando os feitos de Deus e o fato de que Ele ouve as suas orações, escreve: “Pois tu és grande (lAdG”) (gadol) e operas maravilhas; só tu és Deus!” (Sl 86.10).

          O salmista se dispõe a adorar a Deus em companhia dos fiéis tendo em vista as suas grandes obras: 1Aleluia! De todo o coração renderei graças ao SENHOR, na companhia dos justos e na assembleia.  2Grandes (lAdG”) (gadol) são as obras do SENHOR, consideradas por todos os que nelas se comprazem” (Sl 111.1-2).

          O salmista rende graças a Deus considerando as suas maravilhosas obras fruto de sua misericórdia:    “Ao único que opera grandes (lAdG”) (gadol) maravilhas (al’P’) (pala), porque a sua misericórdia dura para sempre” (Sl 136.4).

          Davi canta com alegria a magnificente misericórdia de Deus que se manifestou em seu livramento e alento de sua alma:

Render-te-ei graças, SENHOR, de todo o meu coração; na presença dos poderosos te cantarei louvores.  2 Prostrar-me-ei para o teu santo templo e louvarei o teu nome, por causa da tua misericórdia e da tua verdade, pois magnificaste (ld;G”) (gadal) acima de tudo o teu nome e a tua palavra.  3 No dia em que eu clamei, tu me acudiste e alentaste a força de minha alma. (Sl 138-1-3).

          Quando o salmista recapitula a história do povo de Israel do deserto, marcada pelo cuidado e provisão de Deus bem como pela desobediência do povo, um aspecto destacado é o esquecimento dos grandiosos feitos de Deus: “Esqueceram-se de Deus, seu Salvador, que, no Egito, fizera coisas portentosas (lAdG”) (gadol) (Sl 106.21).

A certeza da grandeza de Deus deve alimentar e fortalecer a nossa fé: “Com efeito, eu sei ([d;y”) (yada’) que o SENHOR é grande (lAdG”) (gadol) e que o nosso Deus está acima de todos os deuses” (Sl 135.5).

          Os feitos grandiosos de Deus, por vezes, são reconhecidos até mesmo pelos ímpios, conforme registra o salmista:

1Quando o SENHOR restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha. 2Então, a nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua, de júbilo; então, entre as nações se dizia: Grandes (ld;G”) (gadal) coisas o SENHOR tem feito por eles. (Sl 126.1-2).

          Esse é o nosso Deus. É o nosso Pastor e Rei. Ele é grande e os seus atos de misericórdia são grandiosos.

São Paulo, 11 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Para um estudo mais exaustivo do uso da palavra e de suas variantes, vejam-se: M.G. Abegg, Jr., Gdl: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 798-801; Jan Bergman, et. al., Gâdhal: In: G.J. Botterweck, Helmer Ringgren, eds., Theological Dictionary of the Old Testament, Grand Rapids, MI.: Eerdamans, 1977 (Revised edition), v. 2, p. 390-416. (Para os nossos objetivos, especialmente, as páginas 406-412).

[2] ([d;y”) (yada’). Conforme já mencionamos, esse conhecimento envolve a capacidade diversos aspectos de nossa capacidade experimental.

[3] Todo o Salmo 76 é uma demonstração da grandeza operante de Deus.

[4] 2ª estrofe do hino “Confiança em Deus”, nº 156 do Hinário Novo Cântico.  Hino escrito em 1752  pela escritora alemã, de grande ênfase pietista, K.A.D. Von Schegel (1697-1768). A nossa tradução é de Isaac N. Salum (1913-1993).

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (16)

Nossa mente finita

            A nossa mente finita não consegue compreender exaustivamente as perfeições de Deus.[1] O alcance e limite de nosso conhecimento é determinado pela revelação. O não revelado não pode ser objeto de nossas especulações.

A revelação de Deus também não é completa no sentido de abarcar total e exaustivamente o ser de Deus.[2] Porém, “como Deus se revela, assim ele é”.[3] Não há uma representação artificial naquilo que Ele nos dá a conhecer. Portanto, muitíssimos de seus atos soberanos nos escapam. O finito não pode comportar o infinito! No entanto, podemos conhecer a Deus genuína e verdadeiramente à luz de sua autorrevelação.

            Bavinck coloca bem a questão: “Não é contraditório (…) dizer que um conhecimento é inadequado, finito e limitado e ao mesmo tempo é verdadeiro, puro e suficiente”.[4] À frente, insiste: “O conhecimento absoluto, plenamente adequado de Deus, é, portanto, impossível”.[5]

A soberania de Deus na utilização dos meios

            Deus é soberano na utilização dos meios por Ele mesmo estabelecidos. Ele usa sábia, santa e soberanamente os meios que quer. Aqui Ele usou os caldeus para disciplinar a Judá (Hc 1.12/Is 10.5-6). Deus é senhor dos meios e dos fins!

            Os caldeus, por certo, atribuíam as suas vitórias aos seus poderosos feitos (Hc 1.11,15,16). Eles não entendiam que por meio de sua própria livre e espontânea maldade, havia a direção de Deus para o fim proposto. Os seus caminhos são com frequência incompreensíveis à nossa razão. A nossa razão, por sua vez, em nome de uma racionalidade autônoma, especula meios possíveis para explicar a ação de Deus:

Pois eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa, que marcham pela largura da terra, para apoderar-se de moradas que não são suas. (Hc 1.6).

Não és tu desde a eternidade, ó SENHOR, meu Deus, ó meu Santo? Não morreremos. Ó SENHOR, para executar juízo, puseste aquele povo; tu, ó Rocha, o fundaste para servir de disciplina. (Hc 1.12).

Os caminhos de Deus são eternos. (Hc 3.6).

Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR. (Is 55.8).

A relação entre a fé num Deus santo e justo e a aparente vitória do mal

O livro do profeta Habacuque reflete o conflito entre a fé do profeta e a amarga experiência vivida. Como Deus pode permitir isso? Esta é a questão do profeta. Confesso, que por vezes, é a nossa também.

Ele objetiva mostrar que mesmo que Deus tivesse usado uma nação pagã para disciplinar o seu povo, mais tarde, Ele mesmo destruiria os caldeus devido a sua idolatria e extrema perversidade,[6] resultante de sua própria deliberação.

            No entanto, não devemos nos precipitar. A aparente demora de Deus em nos atender visa nos estimular à prática perseverante da oração e a confiança em suas promessas.

            Calvino (1509-1564) nos consola quanto a isso:

O Pai, cheio de clemência, jamais dorme nem cessa o seu cuidado. Todavia, às vezes parece dormir e cessar, a fim de que por isso sejamos incitados a dirigir-lhe orações e súplicas; recurso divino válido para corrigir a nossa preguiça e o nosso esquecimento. Portanto, é grande perversidade querer alguém fazer com que deixemos de orar, alegando que é coisa supérflua solicitar, por nossas preces, a providência de Deus, a qual, sem ser solicitada, vela pela preservação de todas as coisas. O que ao contrário se vê é que o Senhor não testifica em vão que estará perto de todos os que invocarem seu nome em verdade.[7]

            Por isso, continua o Reformador: “Todo crente deve ter o desejo fervoroso de contar com Deus em cada momento de sua vida”.[8]

            Deus tem o controle preciso de todas as coisas: “Embora, segundo o juízo da carne, Deus pareça retardar demais seus passos, todavia ele mantém supremo domínio sobre todas as coisas, para que Ele, por fim, realize no devido tempo o que determinara”, interpreta Calvino.[9]

            Habacuque começa o livro trazendo um “fardo” (Hc 1.1): a sentença de Deus. Depois revela a sua incompreensão diante dos fatos que estão ocorrendo. Até que ele enquadra corretamente o problema dentro daquilo que tinha certeza absoluta: que Deus é Todo-Poderoso, Eterno, Autossuficiente e Santo. Depois orou, colocando diante de Deus toda a sua perplexidade, descansou em Deus e aguardou atentamente a sua resposta: tirou os olhos do problema e volveu-os para Deus (Hc 2.1). Deus lhe responde. Agora Habacuque mais firme em sua fé, encerra o livro com uma palavra de confiança renovada, reafirmada, mesmo em meio a possíveis provações:

Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação. O SENHOR Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente. (Hc 3.17-19).

            Erickson está correto ao declarar:

Orar é, em grande parte, criar em nós mesmos uma atitude correta com respeito à vontade de Deus. (…) Orar não é bem conseguir que Deus faça nossa vontade, mas demonstrar que estamos interessados tanto quanto Ele na concretização da Sua vontade.[10]

            Aprendamos com o profeta essa lição: conheçamos o nosso Deus, entreguemos-lhe a nossa perplexidade e angústia, seja ela qual for, e aguardemos confiantes a sua resposta: Ele certamente responderá! Os caminhos de Deus são eternos! Os seus pensamentos são inatingíveis. Que Deus nos capacite a nele confiar. Afinal, esse Deus é o nosso Pastor. De nada mais precisamos. Amém

São Paulo, 10 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “Deus não pode ser apreendido pela mente humana. É mister que Ele se revele através de sua Palavra; e é à medida que Ele desce até nós que podemos, por sua vez, subir até os céus” (João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6,São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, (Dn 3.2-7), p. 186). “A teologia reformada sustenta que Deus pode ser conhecido, mas que ao homem é impossível ter um exaustivo e perfeito conhecimento de Deus (…). Ter esse conhecimento de Deus seria equivalente a compreendê-lo, e isto está completamente fora de questão: ‘Finitum non possit capere infinitum’.” (L. Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 32). Do mesmo modo Schaeffer (1912-1984): “A comunicação que Deus tem com o homem é verdadeira, mas isto não significa que seja exaustiva. Esta é uma distinção importante que precisamos sempre ter em mente. Para conhecer qualquer coisa exaustivamente, precisaríamos ser infinitos, como Deus. Mesmo na vida eterna não seremos assim” (Francis A. Schaeffer, O Deus que Intervém, Jaú, SP.: Refúgio; ABU. 1981, p. 143).

[2] Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 33.

[3] Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 114.

[4] Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 110, 113.

[5] Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 110.

[6] Veja-se: Stanley A. Ellisen, Conheça melhor o Antigo Testamento, São Paulo: Editora Vida, 1999 (7. impressão), p. 320.

[7]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 93-94.

[8]João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 31.

[9]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 105.19), p. 648.

[10] Millard J. Erickson, Introdução à Teologia Sistemática,São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 179.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (15)

A Questão Histórica e Política

            O profeta Habacuque viveu numa época extremamente difícil. O seu livro foi escrito por volta do ano 605 a.C.,[1] durante o reinado de Eliaquim, filho de Josias. Nesse período, o reinado de Eliaquim era apenas simbólico, pois quem de fato mandava em Israel era o rei egípcio, Faraó-Neco, quem inclusive destronou o antigo rei, irmão de Eliaquim, Jeocaz – levando-o para o Egito aonde viria falecer (2Rs 23.34)[2] –, colocando Eliaquim no enfraquecido trono e, como sinal do seu poder, mudou o nome de Eliaquim para Jeoaquim.

            O reinado de Jeoaquim (609-598 a.C.) ocorreu durante o ministério de Jeremias e Habacuque. Jeoaquim para pagar os tributos exigidos por Faraó, impôs pesados impostos sobre o povo de Israel (2Rs 23.35), construiu também prédios luxuosos com trabalho escravo, sendo descrito por Jeremias como um homem vaidoso, egoísta, ambicioso, violento e corrupto (Jr 22.13-18).[3] O seu reinado foi marcado pela decadência moral e espiritual do povo, sendo as reformas feitas pelo seu pai Josias, gradativamente esquecidas.

            Nesse contexto encontramos o profeta Habacuque [“Abraço ardente” (?)[4]], um fiel profeta[5] de Deus, que tinha perguntas profundas, as quais revelavam a sua preocupação com o povo de Judá, bem como o desejo de entender a dura realidade dos fatos. Nesse livro nos deparamos com o profeta em conflito com a própria mensagem de Deus: Habacuque demonstra ter dificuldade em compreender o desígnio de Deus. É muito difícil transmitir uma mensagem que nos desagrada e, também, quando não a conseguimos entender adequadamente, especialmente quando parece conflitar com conceitos e valores que sustento, supondo bem fundamentados, além de qualquer suspeita.

     O fato evidente é que o povo estava em pecado: Violência, contenda, litígio, afrouxamento da lei, injustiça, etc. (Hc 1.3-4). O piedoso profeta orava constantemente ao Senhor, que aparentemente não o ouvia. A não percepção da manifestação de Deus causa-lhe angústia e incompreensão (Hc 1.2-3).

Quando a mensagem é um fardo

            Agora Deus se revela a Habacuque, determinando a sua “sentença” ()af&am) (masã’), “oráculo”, que tem o sentido metafórico de “peso” e “fardo”;[6] o anúncio de julgamentos pesados contra o povo e o poder imperial (Hc 1.1). O fato de essa palavra ser usada já no primeiro verso, à semelhança de Naum (Na 1.1) e Malaquias (Ml 1.1/Zc 12.1), indica a severidade da mensagem. Essa forma figurada de falar a respeito de Israel não era estranha ao Antigo Testamento (Nm 11.11,17; Dt 1.12)

            Contudo, a resposta de Deus foi por demais surpreendente para o profeta. Deus mostra que não está indiferente aos acontecimentos, mas que levantaria os caldeus para oprimir aqueles opressores descritos pelo profeta (Hc 1.5-11). Aqui Habacuque se depara com a questão da santidade de Deus e a prevalência do mal. Como Deus poderia castigar os injustos por intermédio de outros mais injustos ainda? O profeta desabafa:

12 Não és tu desde a eternidade, ó SENHOR, meu Deus, ó meu Santo? Não morreremos. Ó SENHOR, para executar juízo, puseste aquele povo; tu, ó Rocha, o fundaste para servir de disciplina. 13 Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar; por que, pois, toleras os que procedem perfidamente e te calas quando o perverso devora aquele que é mais justo do que ele? 14 Por que fazes os homens como os peixes do mar, como os répteis, que não têm quem os governe? 15 A todos levanta o inimigo com o anzol, pesca-os de arrastão e os ajunta na sua rede varredoura; por isso, ele se alegra e se regozija. 16 Por isso, oferece sacrifício à sua rede e queima incenso à sua varredoura; porque por elas enriqueceu a sua porção, e tem gordura a sua comida. 17 Acaso, continuará, por isso, esvaziando a sua rede e matando sem piedade os povos? (Hb 1.12-17).

            Mesmo que não possamos ter clareza quanto ao propósito de Deus em todos os atos da história, não podemos duvidar dele.[7] Deus controla o seu povo e os seus inimigos. Não há força neste universo que não esteja sob o domínio de Deus.[8] Todo poder é derivado. Somente em Deus temos a origem e a preservação de todo poder. Todos os poderes desse mundo e no porvir são derivados de Deus pelo próprio Deus. O fato de não entendermos perfeitamente os propósitos de Deus, é inteiramente natural afinal, Deus é o Senhor Eterno e Onisciente. Os caminhos de Deus não são os nossos caminhos; a sua mente é inescrutável (Is 55.8,9; Rm 11.33[9]).[10]

            “Nem sempre – escreve Hoekema (1913-1988) – podemos ser capazes de discernir o propósito de Deus na história, mas que esse propósito existe é um aspecto primordial de nossa fé”.[11]

Da mesma forma, expondo o Salmo 73, Lloyd-Jones (1899-1981), avalia:

Creio que muitos de nós entramos em dificuldade porque esquecemos que o de que estamos tratando é a mente de Deus, e que a mente de Deus não é como a nossa. Desejamos que tudo esteja pronto, enxuto e fácil, e achamos que nunca deveriam existir quaisquer problemas ou dificuldades. Mas, se há uma coisa ensinada com mais clareza do que qualquer outra na Bíblia, é que nunca ocorre deste modo em nossas relações com Deus. Os caminhos de Deus são inescrutáveis; sua mente é infinita e eterna, e seus propósitos são tão grandes que as nossas mentes pecaminosas não os podem entender. Portanto, quando um Ser assim está tratando conosco, não nos deve causar surpresa se, às vezes, acontecem coisas que nos deixam perplexos.[12]

São Paulo, 10 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Andrew E. Hill e J.H. Watson sugerem a data aproximada de 630 a.C., no período ainda do reinado de Josias, considerando a possibilidade de este rei ter apenas feito as reformas espirituais e não sociais, as quais seriam realizadas posteriormente (Ver: Andrew E. Hill; John H. Watson, Panorama do Antigo Testamento, São Paulo: Vida, 2006, p. 572-574). É possível também que o livro consista na reunião de mensagens do profeta. Assim sendo, a redação livro poderia ser datada como sendo cerca de 597-585 a.C. (Veja-se: Robert B. Chisholm Jr., Introdução aos profetas, São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 484-485).

[2] “Faraó-Neco também constituiu rei a Eliaquim, filho de Josias, em lugar de Josias, seu pai, e lhe mudou o nome para Jeoaquim; porém levou consigo para o Egito a Jeoacaz, que ali morreu” (2Rs 23.34).

[3]“Ai daquele que edifica a sua casa com injustiça e os seus aposentos, sem direito! Que se vale do serviço do seu próximo, sem paga, e não lhe dá o salário; que diz: Edificarei para mim casa espaçosa e largos aposentos, e lhe abre janelas, e forra-a de cedros, e a pinta de vermelhão. Reinarás tu, só porque rivalizas com outro em cedro? Acaso, teu pai não comeu, e bebeu, e não exercitou o juízo e a justiça? Por isso, tudo lhe sucedeu bem. Julgou a causa do aflito e do necessitado; por isso, tudo lhe ia bem. Porventura, não é isso conhecer-me? —diz o SENHOR. Mas os teus olhos e o teu coração não atentam senão para a tua ganância, e para derramar o sangue inocente, e para levar a efeito a violência e a extorsão. Portanto, assim diz o SENHOR acerca de Jeoaquim, filho de Josias, rei de Judá: Não o lamentarão, dizendo: Ai, meu irmão! Ou: Ai, minha irmã! Nem o lamentarão, dizendo: Ai, senhor! Ou: Ai, sua glória!” (Jr 22.13-18).

[4] O significado do seu nome é incerto. Pode ser derivado de uma palavra hebraica que significa abraço (“abraçar” ou “ser abraçado”) ou, “lutador”, conforme tradução de Jerônimo, considerando que Habacuque lutou com Deus. Tem sido especulado também que a derivação do seu nome poderia vir do acadiano, designando alguma planta ou árvore denominada pelos assírios de hambaqûqu. No entanto, esta planta ainda não pôde ser identificada. (Para maiores detalhes, veja-se: P.A. Verhoef, Habacuque: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 2, p. 11-12 (especialmente).

[5]A atitude de Habacuque em se identificar como profeta (Hc 1.1; 3.1) aponta para o fato de ser bem conhecido em Judá, possivelmente indicando a sua posição oficial (Vejam-se: William S. LaSor, et. al., Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 350; C.F. Keil; F. Delitzsch, Commentary on the Old Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, v. 10/2, © 1871, p. 49; David W. Baker, et. al. Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque e Sofonias: introdução e comentário, São Paulo: Vida Nova, 2001, p. 324, 331).

[6]Esta expressão ressalta a nota grave e solene do seu conteúdo; significa uma mensagem urgente, um oráculo que se faz em um juízo ameaçante ou uma sentença. É a mesma palavra usada por Isaías (13.1; 15.1; 17.1; 19.1; 21.1; 22.1; 23.1, etc), Naum (1.1), Zacarias (9.1; 12.1) e Malaquias (1.1) para a sua profecia. A mensagem tem um sentido de veredicto de Deus. (Veja-se Abraham Even-Shoshan, ed.A New Concordance of the Old Testament, 2. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1993, p. 713-714; Walter C. Kaiser, Jr., Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1980, p. 234; A. Fraser, Naum: In: F. Davidson, ed. O Novo Comentário da Bíblia, 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1976, p. 888; Ronald F. Youngblood, Massã: In: Willem A. VanGemeren, org. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 1110-1111).

[7] “Seja com for, não devemos ficar surpresos ao encontrar mistérios dessa espécie [Soberania de Deus e responsabilidade humana] na Palavra de Deus. Pois o Criador é incompreensível para as suas criaturas. Um Deus que pudesse ser exaustivamente compreendido por nós, cuja revelação sobre Si mesmo não nos apresentasse qualquer mistério, seria um Deus segundo a imagem do homem e, portanto, um Deus imaginário, e nunca o Deus da Bíblia” (J.I. Packer, Evangelização e Soberania de Deus, 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 20).

[8]“Deus controla não somente a Israel, mas também seus próprios inimigos, os caldeus. Toda nação da terra está sob a mão divina, porque não há poder neste mundo que, em última instância, não seja por Ele controlado” (D. Martyn Lloyd Jones, Do temor à fé, Miami: Editora Vida, 1985, p. 31).

[9]“Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR, porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos” (Is 55.8,9). “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!” (Rm 11.33).

[10] Veja-se: João Calvino, As Institutas, I.17.2. “Não há nada mais absurdo do que simular, propositadamente, uma grosseira ignorância da providência de Deus, uma vez que não podemos compreendê-la perfeitamente, a não ser discerni-la só em parte” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 40.5), p. 223).

[11] A.A. Hoekema, A Bíblia e o Futuro, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1989, p. 41.

[12]D.M. Lloyd-Jones, Por que prosperam os ímpios?, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985, p. 14-15.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (14)

C. Magnífico

  A partir da Criação, conforme o propósito de Deus, podemos ver aspectos do grandioso poder de Deus. Davi expressa essa realidade denominando-a de magnífica:

Ó SENHOR, Senhor nosso, quão magnífico (ryDIa;) (addir) (majestoso, poderoso, grandioso) em toda a terra é o teu nome! Pois expuseste nos céus a tua majestade. (…) Ó SENHOR, Senhor nosso, quão magnífico (ryDIa;) (addir) em toda a terra é o teu nome! (Sl 8.1,9).

 D. Pensamentos inatingíveis

“Quão grandes (ld;G”) (gadal), SENHOR, são as tuas obras! Os teus pensamentos (desígnios,[1] intentos)(hb’v’x]m;) (machashabah) que profundos!” (Sl 92.5).[2]

            Os seus desígnios, por serem verdadeiros e provenientes do Deus santo, justo e soberano, são inumeráveis e eternos: “O conselho do SENHOR dura para sempre; os desígnios (hb’v’x]m;) (machashabah) do seu coração, por todas as gerações” (Sl 33.11).

            Aqui já nos deparamos com algo grandioso demais para nós. Pensamos sempre em termos de causa e efeito e, dentro da categoria tempo e espaço repletos de circunstâncias temporais, geográficas, culturais e pessoais.

Curiosamente foi dentro dessas categorias tão importantes para nós, que Deus se revelou. Deus se dá a conhecer também na história onde desenvolve o seu propósito  glorioso. As Escrituras se constituem em grande parte em uma narrativa inspirada dos efeitos decorrentes da obediência e desobediência do povo Deus.

            Por exemplo, no Salmo 1,  que prefacia o livro de Salmos,[3] vemos narrados os efeitos da obediência à Lei e as consequências de seguir um caminho totalmente autônomo.

O salmista inicia o Salmo falando sobre o homem bem-aventurado, estabelecendo uma distinção entre os “piedosos” e “pecadores”. “O primeiro salmo encontra-se no pórtico da coleção dos salmos como um guia que em linhas claras indica a direção da vida”.[4] Temos aqui, portanto, uma reflexão sobre as escolhas humanas e as suas consequências. Ou, positivamente: “O Livro dos Salmos é um manual de instruções para viver uma vida verdadeiramente feliz”.[5]

Os homens buscam a felicidade por meio de seus expedientes terrenos ou mesmos transcendentes, contudo, sempre partindo daqui de baixo. Deus propõe em sua Palavra o caminho da felicidade;  a sua origem está em cima, o caminho começa pelo eterno passando pelo tempo. Deus sabe o que desejamos, sabe o melhor para nós e, ao mesmo tempo, apresenta-nos o caminho para alcançar o que Ele tem para nós. A felicidade é-nos proposta por Deus não de forma automática, mas, pelo caminho da obediência aos seus preceitos.[6] O divisor de águas sempre terá uma linha. As consequências podem não ser vistas ali, contudo, elas aparecerão.[7]

            Conforme citado, o salmista no salmo 33.11 nos diz que os desígnios de Deus permanecem para sempre. Ou seja: muito do que podemos ver nessa vida não esgota nem mesmo aspectos do seu governo e propósito. Por isso, muitas vezes nos angustiamos com o que consideramos passividade, indiferença, demora de Deus ou, por presumir um fim de julgamos ser o melhor.

Habacuque e a sua incompreensão

Não foi justamente isso que enfrentou o profeta Habacuque?[8]

            Tempo e espaço determinam muitas de nossas prioridades conforme as circunstâncias. Em boa parte das vezes tais circunstâncias são elaboradas pela mistura de ambos os elementos conforme a nossa fórmula caseira de relacionar tempo e espaço.

            Por isso, em nossa incompreensão e incertezas diante desses elementos, o tempo pode nos parecer como ao angustiado poeta argentino Jorge L. Borges (1899-1986), uma “ilusão”.[9] No entanto, sabemos, que ele é implacável em sua caminhada e transitoriedade.[10] Mas, está sob a direção de Deus.

Tempo, espaço e circunstâncias

                         Quando estamos apressados, tudo parece demorado. Quando estou com tempo disponível, as distâncias ficam mais curtas. O relógio, em nossa mente, pode ser  romanticamente domesticado, o que de fato não ocorre objetivamente.

            Conforme a nossa base de avaliação comparativa circunstancial, posso dizer que algo é longe ou perto. Rápido ou demorado. Já observaram como uma viagem de duas horas é longa a partir, digamos da primeira hora de percurso? Já uma viagem de 8 horas, você nem sequer considera a primeira hora porque ainda faltam muitas outras.

            E a refeição servida no restaurante? Faz diferença o tempo de espera quando você está com fome, sozinho e, sem celular (Talvez seja por isso que as pessoas “roteadas” tendem a pedir a senha do Wi-Fi antes do prato). A sua percepção é diferente se estiver tranquilo, sem muita fome e com uma boa prosa ou conversando no zap?

            Da mesma forma, como temos uma dimensão mais imediatamente material da realidade, tendendo a circunscrevê-la a isso apenas, os propósitos de Deus podem nos parecer demasiadamente demorados – incrementados   e fortalecidos pela nossa ansiedade  material ou materialista –  ainda que estejam perfeitamente sob o seu domínio e controle. Voltaremos a Habacuque no próximo post.

São Paulo, 10 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Sl 40.5.

[2]Curiosamente, um filósofo pagão, Xenófanes (c. 580-c.460 a.C.), criticando a religiosidade de sua época, propõe uma visão próxima ao monoteísmo ou pelo menos, um “politeísmo não antropomórfico” (W.K.C. Guthrie, Os Sofistas,São Paulo: Paulus, 1995, p. 211), mas, ainda assim, cosmológico, identificando, conforme pontua Aristóteles, o uno, ou seja, o universo (Ver: Giovanni Reale; Dario Antiseri, História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média, São Paulo: Paulus, 1990, v. 1, p. 49.), como sendo Deus (Aristóteles, Metafísica,São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 4), 1973, I.5, p. 223). Escreve tendo uma visão grandiosa de deus: “Um único deus, o maior entre deuses e homens, nem na figura, nem no pensamento semelhante aos mortais” (Xenófanes, Frag.,23: In: Gerd A. Bornheim, org. Os Filósofos Pré-Socráticos, 3. ed. São Paulo: Cultrix, 1977. (Tradução um pouco diferente: In: José Cavalcante de Souza, org., Os Pré-Socráticos, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, v. 1), 1973, p. 71).

[3] Conforme expressão de Spurgeon (C.H. Spurgeon, El Tesoro de David, Barcelona: CLIE., (1989), v.  1, p. 13. Do mesmo modo: Walter Brueggemann, The Psalms the life of Faith, Minneapolis: Fortress Press, 1995, p. 190; A.F. Kirkpatrick, The Book of Psalms, Cambridge: University Press, © 1902, 1951 (Reprinted), p. 1.

[4]Artur Weiser, Os Salmos, São Paulo: Paulus, 1994, p.  69. “O salmo usa a forma poética do paralelismo para criar um apogeu. A primeira coisa que é dita sobre essa pessoa abençoada é que ela não anda no conselho dos ímpios. Ela é surda aos conselhos dos pagãos, que nos induzem a participar dos caprichos deste mundo” (R.C. Sproul, Oh! Como amo a tua lei. In: Don Kistler, org. Crer e Observar: o cristão e a obediência, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 12). Veja-se: Mark D. Futato, Interpretação dos Salmos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 47-48.

[5] Mark D. Futato, Interpretação dos Salmos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 54.

[6] Veja-se: Peter C. Craigie,  Psalms 1-50, 2. ed. Waco: Thomas Nelson, Inc. (Word Biblical Commentary, v.  19), 2004, (Sl 1), p. 60.

[7] Veja-se a oportuna figura empregada por Schaeffer concernente aos Alpes Suíços (Francis A. Schaeffer, O grande desastre evangélico: In: Francis A. Schaeffer,  A Igreja no Século 21,  São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 269ss.).

[8]Os argumentos que seguem, foram também tratados com alguma variação, em meu livro já mencionado: Hermisten M.P. Costa, O homem no teatro de Deus: providência, tempo, história e circunstância, Eusébio, CE.: Peregrino, 2019.

[9]“O tempo, se podemos intuir essa identidade, é uma ilusão: a indiferenciação e a inseparabilidade de um momento de seu aparente ontem e de outro de seu aparente hoje, bastam para desintegrá-lo” (Jorge L. Borges, História da Eternidade,Buenos Aires: Emecé Editores, (6. impresión), 1969, p. 29).

[10]Agostinho (354-430) escreveu de forma magistral sobre o tempo em diversos lugares. Destaco aqui duas proposições do autor: “A brevidade dos dias estende-se até o fim dos séculos. Brevidade porque a totalidade do tempo, não digo de hoje até o fim dos séculos, mas de Adão até o fim dos séculos, é uma exígua gota d’agua, se comparada à eternidade” (Agostinho, Comentário aos Salmos,  São Paulo: Paulus, (Patrística, 9/3), 1998,  (Sl  101), v. 3, p. 36). “Todos os dias do tempo vêm para não existirem mais. Toda hora, todo mês, todo ano: nada disso permanece. Antes de vir, será; quando vier, não será mais” (Agostinho, Comentário aos Salmos,  São Paulo: Paulus, (Patrística, 9/3), 1998,  (Sl  101), v. 3, p. 37). 

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (13)

B. Incomparável e insondável

Saucy, esclarecendo por que não podemos apresentar uma “definição rigorosa da ideia de Deus”, lança luz sobre o conceito de definição: “Definir, que significa limitar, envolve a inclusão do objeto dentro de certa classe ou proposição universal conhecida e a indicação dos seus aspectos distintivos comparados com outros objetos daquela mesma classe”.[1]

De fato, Deus não pode ser definido nem comparado. As comparações bíblicas são formas humanas concedidas pelo próprio Deus Criador, a fim de que possamos ter um conhecimento adequado de sua natureza. As nossas analogias podem se tornar extremamente perigosas porque não fatíveis de erros, distorções e esvaziamento da plenitude do revelado. Parece-me um bom princípio limitarmo-nos às figuras bíblicas e, dentro do seu propósito estrito. Fora disso, é caminhar por um caminho muito escorregadio e arriscado.

Deus se acomoda à nossa linguagem

            Calvino (15090-1564) corretamente entende que a revelação de Deus é um ato de condescendência.[2] Deus, na sua Palavra, “se acomodava à nossa capacidade”,[3] “balbuciando” a sua Palavra a nós como as amas fazem com as crianças.[4] Deus se vale de analogias, recorrendo a metáforas – comparando-se a um leão, ao urso e ao homem – visando ser entendido por nós. “Deus não pode se revelar a nós de nenhuma outra maneira do que não por meio de comparações com coisas que conhecemos”, insiste Calvino.[5]  Em outro lugar: “Deus, acomoda-se ao nosso modo ordinário de falar por causa de nossa ignorância, às vezes também, se me é permitida a expressão, gagueja”.[6]   

            Por isso, insistimos, torna-se  perigoso estabelecer analogias estranhas à Palavra para falar de Deus. É prudente ater-nos às figuras que o próprio Senhor usou em sua Palavra.

            A Escritura reconhece que Deus não tem comparação nem pode ser sondado. Ele é incomparável e insondável.

            Não há com que ou com quem comparar Deus. Ele está muito além de nossas referências. A sua grandeza é inexaminável e indecifrável. Não temos parâmetros para decifrá-la ainda que de forma aproximada. Assim se expressaram os salmistas:

Grande (lAdG”) (gadol) é o SENHOR e mui digno de ser louvado; a sua grandeza (hL’WdG>) (gedullah) é insondável (rq,xe !yIa;) (ayin cheqer). (Sl 145.3).

Ó SENHOR, Deus dos Exércitos, quem é poderoso como tu és, SENHOR, com a tua fidelidade ao redor de ti?! (Sl 89.8).

Com efeito, eu sei que o SENHOR é grande e que o nosso Deus está acima de todos os deuses. (Sl 135.5).

Todos os meus ossos dirão: SENHOR, quem contigo se assemelha? (Sl 35.10).

Ora, a tua justiça, ó Deus, se eleva até aos céus. Grandes coisas tens feito, ó Deus; quem é semelhante a ti?” (Sl 71.19).

Tentação de esquadrinhar Deus

            Considerando o que disse Salomão – “A glória de Deus é encobrir as coisas, mas a glória dos reis é esquadrinhá-las (rq;x’) (chaqar) (= sondar, investigar, pesquisar) (Pv 25.2) -, devemos nos precaver de  uma tentação na qual podemos incorrer, especular sobre o ser de Deus e seus atos, perdendo a dimensão de que o nosso conhecimento é de servo, limitado e fraccionado, dependendo essencialmente da revelação (Is 40.28).[7]

Desejo de anunciar os feitos de Deus

            Ao contrário dessa tentação, o salmista oferece-nos um caminho a seguir: anunciar os feitos de Deus ainda que não tenhamos, naturalmente, a compreensão de todos eles:

São muitas, SENHOR, Deus meu, as maravilhas que tens operado e também os teus desígnios para conosco; ninguém há que se possa igualar contigo. Eu quisera anunciá-los e deles falar, mas são mais do que se pode contar. (Sl 40.5).

Tu me tens ensinado, ó Deus, desde a minha mocidade; e até agora tenho anunciado as tuas maravilhas (al’P’) (pala). (Sl 71.17).

Recife/São Paulo, 8/9 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] R.L. Saucy, Doutrina de Deus: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã,São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 1, p. 440.

[2]Cf. Alister E. McGrath, Historical Theology: An Introduction to the History of Christian Thought, Massachusetts: Blackwell Publishers, 1998, p. 210. A Confissão de Westminster fala também da “condescendência” de Deus em firmar um Pacto com o homem caído (Ver: Confissão de Westminster, VII.1). Trato mais detalhadamente desse assunto em meu livro: João Calvino 500 anos, São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

[3]J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios,(1Co 2.7), p. 82. 

[4] “Pois quem, mesmo que de bem parco entendimento, não percebe que Deus assim conosco fala como que a balbuciar, como as amas costumam fazer com as crianças? Por isso, formas de expressão que tais não exprimem, de maneira clara e precisa, tanto quê Deus seja, quanto Lhe acomodam o conhecimento à paucidade da compreensão nossa. Para que assim se dê, necessário Lhe é descer muito abaixo de Sua excelsitude” (J. Calvino, As Institutas, I.13.1). “A descrição que dEle se nos outorga tem de acomodar-se-nos à capacidade, para que seja de nós entendida. Esta é, na verdade, a forma de acomodar-se: que tal se nos represente, não qual é em Si, porém, qual é possível de ser de nós apreendido” (J. Calvino, AsInstitutas, I.17.13). Ver também: João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 13.3), p. 265; (Sl 19.4-6), p. 420-421;  v. 2, (Sl 50.14), p. 409; v. 3, (Sl 78.65), p. 241; (Sl 91.4), p. 447; (Sl 93.2), p. 474; (Sl 106.23), p. 685; João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.1), p. 30;  (Jo 3.12), p. 127; v. 2, (Jo 14.28), p. 111; (Jo 21.25), p. 327; As Institutas,I.14.3,11; I.16.9; IV.17.11

[5] John Calvin, “Commentary on the Book of the Prophet Isaiah,” John Calvin Collection,(CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), (Is 40.18), p. 64.

[6] John Calvin, Commentary on the Gospel according to John,Grand Rapids, Michigan: Baker Book House (Calvin’s Commentaries, v. 18), 1996 (Reprinted), (Jo 21.25), p. 299.

[7]“Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o SENHOR, o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se fatiga? Não se pode esquadrinhar (rq;x’) (chaqar) o seu entendimento” (Is 40.28).

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (12)

1. O Senhor se revela em suas obras

1. Senhor incomparável e maravilhoso

A. Altíssimo

Uma expressão usada por vezes para se referir a Deus é Altíssimo. Deus está acima de todas as coisas. Esta é uma forma poética de dizer que Deus é o Senhor soberano sobre tudo. Ele é o Altíssimo eternamente. Ele não se confunde com as outras divindades tribais, locais ou associada aos elementos da terra – tal como, montanhas, fogo, mares, etc. – criadas pela imaginação humana.

            Antes, Ele é o Altíssimo sobre todos os poderes e sobre a criação, obras de suas mãos. Ele antecede e se distingue de sua criação.

            Este foi o ponto que assustou os marinheiros diante do profeta Jonas que se identifica como alguém que teme ao Senhor, criador de todas as coisas: “Sou hebreu e temo ao SENHOR, o Deus do céu, que fez o mar e a terra” (Jn 1.9/Jn 1.16).[1]

            Nos salmos lemos: “Eu, porém, renderei graças ao SENHOR, segundo a sua justiça, e cantarei louvores ao nome do SENHOR Altíssimo (!Ayl.[,) (elyon)(Sl 7.17). “Pois o SENHOR Altíssimo (!Ayl.[,) (elyon) é tremendo, é o grande rei de toda a terra” (Sl 47.2).

            Nos Salmos 83 e 92 temos a combinação dos nomes: Senhor e Altíssimo, enfatizando a sua realeza sobre todas as coisas e todos os deuses. (Veja-se: Sl 97.9): “E reconhecerão que só tu, cujo nome é SENHOR, és o Altíssimo (!Ayl.[,) (elyon) sobre toda a terra” (Sl 83.18). “Tu, porém, SENHOR, és o Altíssimo (~Arm’) (marom) (= alto, elevado) eternamente” (Sl 92.8).[2]

            Na relação cultual com Deus, é comum a ideia de que o povo deve subir ao templo. A questão não é apenas topográfica, mas, de natureza essencial: Deus é o Senhor altíssimo, perfeito em toda a sua natureza e relações; nós somos criaturas dependentes de suas misericórdias. Ele habita o alto e o sublime. Davi então ora: “A ti, SENHOR, elevo (af’n”) (nasa’) a minha alma” (Sl 25.1).

            Mesmo sabendo que as armadilhas estão embaixo, o salmista olha continuamente para cima, porque somente o Senhor o pode livrar: “Os meus olhos se elevam continuamente ao SENHOR, pois ele me tirará os pés do laço (tv,r,) (resheth) (rede)[3](Sl 25.15). O salmista tem a certeza de que o cuidado de Deus é mais efetivo do que o seu olhar fixo para as possíveis armadilhas. De fato, a vida cristã vai nos mostrando aos poucos que Deus cuida de nós muito além de nossa percepção ou mesmo da percepção dos perigos. É uma tentação comum racionalizar demais a nossa vida, nos esquecendo de que temos um Deus que cuida de nós em todos os momentos e circunstâncias. O nosso Deus não nos é indiferente e, também, não dorme nem cochila (Sl 121.3-4). O “turno” de Deus é ininterrupto: De dia, de noite  e para sempre (Sl 121.5,6,8) e, cuida integralmente de nós (Sl 121.5-7).

            O Altíssimo é onipotente, ainda que o ímpio não creia, ou até mesmo os servos de Deus em momento de fraqueza diante de circunstâncias adversas, poderem cair em um ateísmo prático, negando o seu poder.

Os arrogantes, em sua visível e decantada prosperidade, motejam de Deus. Os fiéis, por sua vez, ainda que por um momento, se encantam com o sucesso de seu caminho sem Deus. Essa foi a experiência do salmista ao se fascinar com o visível progresso do ímpio em meio à sua arrogância e perceptível impunidade:

3 Pois eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos. (…) 8 Motejam e falam maliciosamente; da opressão falam com altivez.  9 Contra os céus desandam a boca, e a sua língua percorre a terra.  10 Por isso, o seu povo se volta para eles e os tem por fonte de que bebe a largos sorvos.  11E diz: Como sabe Deus? Acaso, há conhecimento no Altíssimo (!Ayl.[,) (elyon)? (Sl 73.3.8-11).

No Salmo 97 temos um convite a louvar o Senhor, que é o Altíssimo sobre toda a criação e sobre todos os deuses criados pelos homens:

1Reina o SENHOR. Regozije-se a terra, alegrem-se as muitas ilhas. 2 Nuvens e escuridão o rodeiam, justiça e juízo são a base do seu trono. 3 Adiante dele vai um fogo que lhe consome os inimigos em redor. 4 Os seus relâmpagos alumiam o mundo; a terra os vê e estremece. 5 Derretem-se como cera os montes, na presença do SENHOR, na presença do Senhor de toda a terra. 6 Os céus anunciam a sua justiça, e todos os povos vêem a sua glória. 7 Sejam confundidos todos os que servem a imagens de escultura, os que se gloriam de ídolos; prostrem-se diante dele todos os deuses. 8 Sião ouve e se alegra, as filhas de Judá se regozijam, por causa da tua justiça, ó SENHOR. 9 Pois tu, SENHOR, és o Altíssimo (!Ayl.[,) (elyon) sobre toda a terra; tu és sobremodo elevado acima de todos os deuses. (Sl 97.1-9).

Recife/São Paulo, 09 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Temeram, pois, estes homens em extremo ao SENHOR; e ofereceram sacrifícios ao SENHOR e fizeram votos” (Jn 1.16).

[2] Vejam-se também: Gn 14.18,19,20,22; Sl 9.2; 18.13; 21.7; 46.4; 50.14; 57.2; 77.11; 78.17,35,56; 91.1,9; 92.1; 107.11.

[3] Sl 10.9; 57.6; 140.5.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (11)

     Revelar o nome significa revelar a própria pessoa e o seu caráter. Do mesmo modo: confiar no nome é o mesmo que confiar na pessoa (Sl 9.10; 20.7; 22.22; Mt 12.21,[1] etc.).[2] No Salmo 8.1, a majestade de Deus e o seu nome, são poeticamente sinônimos.[3]

     Jesus Cristo diz a Ananias que Paulo, antigo perseguidor e agora convertido a Cristo, era um instrumento escolhido “para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel” (At 9.15).

     Glorificar o nome de Deus é o mesmo que glorificar a Deus. Jesus Cristo ora: “Pai, glorifica o teu nome. Então, veio uma voz do céu: Eu já o glorifiquei e ainda o glorificarei” (Jo 12.28).

O nome é a própria pessoa em seus atos.[4] Nas Escrituras o nome revela aspectos do seu caráter e perfeição. Quando o nome do Pai é associado ao do Filho e ao do Espírito Santo, “assume o caráter de perfeição e plenitude”.[5]

Ele nos guarda em seu nome que é poderoso:

O SENHOR te responda no dia da tribulação; o nome do Deus de Jacó te eleve em segurança. (Sl 20.1).

O mestre de canto. Salmo didático. Para instrumentos de cordas. De Davi, quando os zifeus vieram dizer a Saul: Não está Davi homiziado entre nós? Ó Deus, salva-me, pelo teu nome, e faze-me justiça, pelo teu poder. (Sl 54.1).

Torre forte é o nome do SENHOR, à qual o justo se acolhe e está seguro. (Pv 18.10).[6]

Se o nome de Deus nos fala de sua natureza e de seus atos, em contrapartida, essa revelação deve deixar claro para nós como devemos nos relacionar com Ele. Em outras palavras: Se Deus se revela como santo, justo, misericordioso, fiel e majestoso, a nossa relação com ele deve levar tudo isso em consideração: O Deus a quem servimos e oramos é um Deus, santo, justo, misericordioso, fiel e majestoso.

Obviamente isso deve ser essencialmente modelador de nossos atos, orações e culto. O Salmo 23 é claramente relacional. Se o Senhor é o meu pastor, eu de fato, sou sua ovelha. Somos o que somos enquanto o somos para o outro. Não existe pastor sem ovelhas, nem ovelhas sem pastor. A nossa alegria e segurança é saber que o nosso pastor é o Senhor. Por isso mesmo, eu não preciso de nada. Não por resignação, mas, porque nada nos falta nem nos faltará. Conhecemos nosso Senhor.

Falta de um conhecimento pessoal de Deus

            Por vezes, o nosso problema fundamental, é que nos falta um conhecimento pessoal de Deus, um conhecimento de Quem Ele é; e, portanto, de uma confiança resultante da certeza de quem é o Deus em quem cremos.

            O nome de Deus só pode ser genuinamente conhecido por meio do conhecimento salvador de Jesus Cristo.[7] Jesus Cristo não se perdeu em questões periféricas, antes diz que manifestou o nome de Deus, ou seja: anunciou o caráter, os atos e as perfeições de Deus.

A Palavra anunciada por Cristo revelava a Deus como Senhor de todas as coisas, evidenciando aspectos da sua natureza. Apenas em caráter ilustrativo podemos afirmar que na Oração Sacerdotal (João 17) vemos Deus como:

  1. Pai (1)
  2. O Senhor da Glória: (1,4,5)
  3. Todo-Poderoso (2). Ele tem autoridade (e)cousi/a) sobre todas as coisas.
  4. Deus que se revela (3). Deus se revela para ser conhecido. Ele enviou o seu Filho com este propósito.
  5. O único Deus verdadeiro: (3)
  6. Deus eterno: (5)
  7. Pai que escolhe os seus: (6,9)
  8. Todo-Poderoso para guardar os seus: (6,9,11,15)
  9. Pai Santo e Santificador: (11,17)
  10.  Acolhedor: (21). O Pai nos acolhe em sua intimidade com o Filho a fim de sermos um povo, unido com Eles.
  11.  Ama o seu povo: (23)
  12.  Ama o Filho (23-24,26)
  13.  Pai Justo: (25)
  14.  Pai que permanece eternamente unido ao Filho: (21-24).

            Retornando ao Antigo Testamento, partindo da Palavra hwhy (YHWH) queremos analisar como as Escrituras, especialmente no livro de Salmos, revelam o Senhor.

São Paulo, 04 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “Em ti, pois, confiam os que conhecem ([dy) (yada) o teu nome, porque tu, SENHOR, não desamparas os que te buscam” (Sl 9.10). Uns confiam em carros, outros, em cavalos; nós, porém, nos gloriaremos em o nome do SENHOR, nosso Deus” (Sl 20.7). A meus irmãos declararei o teu nome; cantar-te-ei louvores no meio da congregação” (Sl 22.22). E, no seu nome, esperarão os gentios” (Mt 12.21).

[2]Vejam-se: H. Bietenhard, o(/noma, etc.: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1981 (Reprinted), v. 5, p. 242-283; J.A. Motyer, Nome: In: J.D. Douglas, ed. org.O Novo Dicionário da Bíblia,São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 2, p 1120-1122; H. Bietenhard; F.F. Bruce, Nome: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 276-284; C. Biber, Nome: In: J.J. von Allmen, dir.Vocabulário Bíblico, 2. ed.São Paulo: ASTE., 1972, p. 275-278; J.T. Muller, Nombre: In: E.F. Harrison, ed. Diccionario de Teologia, Michigan; T.E.L.L., 1985, p. 370-371; W. Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora, 1974, v. 6, p. 232-234; Herman Hoeksema, Reformed Dogmatics, 3. ed. Grand Rapids, Michigan: Reformed Publishing Association, 1976, p. 337-338; A. Van Den Born; V. Imschoot, Nome de Deus e Nome Próprio: In: A. Van Den Born, red. Dicionário Enciclopédico da Bíblia, 2. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1977, p. 1048-1050; G. Hendriksen, El Evangelio Segun San Mateo, Grand Rapids, Michigan: Subcomision Literatura Cristiana, 1986, p. 342; A. R. Crabtree, Teologia do Velho Testamento, 2. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1977, p. 61ss.; W.E. Wine, Diccionario Expositivo de Palabras del Nuevo Testamento, Terrassa, Barcelona: CLIE., 1984, v. 3, p. 65; R. Youngblood, Significados dos nomes nos Tempos Bíblicos. In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã,São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 3, p. 25; Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 155-167; Herman Bavinck, Reformed Dogmatics: God and Creation, Grand Rapids, MI.: Baker Academic, 2004, v. 2, p. 95-147; Paulo Anglada, Soli Deo Glória: O Ser e Obras de Deus, Ananindeua, Pará: Knox Publicações, 2007, p. 31-53; Russel P. Shedd, A Solidariedade da Raça: O Homem em Adão e em Cristo,São Paulo: Vida Nova, 1995, p. 18-20; G. Von Rad, Teologia do Antigo Testamento, 2. ed. São Paulo: ASTE, 1973, v. 1, p. 186-192; H.H. Rowley, A Fé em Israel: aspectos do pensamento do Antigo Testamento, São Paulo: Paulinas, 1977, p. 52ss.; Daniel I. Block, O Evangelho segundo Moisés − Reflexões teológicas e éticas no livro de Deuteronômio, São Paulo: Cultura Cristã, 2017,  p. 255ss.

[3] Cf. Peter C. Craigie; Marvin E. Tate, Psalms 1-50, 2. ed. Waco: Thomas Nelson, Inc. (Word Biblical Commentary, v. 19), 2004, (Sl 8), p. 107.

[4] “O nome de Deus, de maneira como o explico, deve ser aqui subentendido como sendo o conhecimento do caráter e perfeições de Deus, até ao ponto em que ele se nos faz conhecido. Não aprovo as especulações sutis daqueles que creem que o nome de Deus significa nada mais nada menos que Deus mesmo” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, (Sl 8.1), p. 158).

[5]H. Bietenhard; F.F. Bruce, Nome: In: Colin Brown, ed. ger.O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 281.

[6] “Nas Escrituras o nome sempre vale pelo caráter; vale pela perfeição da pessoa e seus atributos; representa o que a pessoa realmente é. O nome é o que revela verdadeiramente a pessoa e é a conotação de tudo o que a pessoa é na essência” (D. Martyn Lloyd-Jones, seguros mesmo no mundo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, (Certeza Espiritual, v. 2), 2005, p. 52).

[7] Veja-se: Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 167.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (10)

            “É especialmente no nome Yhwh que o Senhor se revela como o Deus de Graça”, assevera Bavinck.[1] Aqui, de modo especial, encontramos a afirmação da imutabilidade de Deus, a confirmação do eterno cumprimento das suas promessas decorrentes do Pacto (Ex 3.13,14; 6.2,3; 15.3; Is 42.8; Os 12.5-6). Deus não muda em seu relacionamento com o seu povo.[2]

            Deus se revela no Antigo Testamento como Senhor; e, seu Senhorio envolve alguns aspectos distintivos os quais serão melhor desenvolvidos posteriormente:

1) Deus é autoexistente e, portanto, autopoderoso. Ele existe por si mesmo, não dependente de nada fora dele  (Ex 3.14/Ap 1.4). Ele é a causa eficiente de tudo o que existe (Is 44.24/Jo 1.1-3).

2) Deus é o Senhor da terra: Ele criou o céu e a terra, enchendo-os todo com a sua glória, tendo, portanto, todo o domínio (Gn 1.1; Js 3.11,13; Sl 93.1-2; 95.3-5; Is 6.3; Mq 4.1-3); consequentemente.

3) Ele é o Senhor de Israel: Como Senhor de toda a criação, visível e invisível, Deus criou o seu povo e, o adquiriu ainda, num segundo estágio, quando o livrou da escravidão do Egito (Ex 19.4-6; Sl 100.3; Is 1.24; 6.1,8; 43.1,21; 60.21).

4) Deus é o Senhor da História: Deus exerce ativamente o seu poder sobre o mundo e os homens, dirigindo a História para a realização do seu propósito eterno. Em alguns momentos a sucessão dos eventos históricos pode nos deixar perplexos, como aconteceu com o profeta Habacuque, entretanto, a mão poderosa de Deus rege todos os acontecimentos. Deus dirige a história, fazendo com que todas as coisas contribuam para o bem do seu povo, da sua Igreja (Rm 8.28).[3]  O Senhor da História conduz a história para o seu glorioso fim:  “O Senhor da história será o Juiz do mundo inteiro”.[4]

5) Deus é o Senhor da graça: O Antigo Testamento é o registro infalível da historificação da graça de Deus; os homens são compelidos a se estribarem única e simplesmente na Sua graça: “No tocante a mim, confio na tua graça” (Sl 13.5). Essa graça deve ser compartilhada e proclamada (Sl 40.10). (Veja-se: Sl 63.3; 69.16; 85.9-12; 89.14; Is 60,10; Dt 7.6-8, etc.).

6) Não há impedimentos para Deus. Sendo Ele coerente consigo mesmo, é poderoso para cumprir todas as suas promessas. (Ex 3.13,14; 6.2-4; 15.1-7; Sl 22.3-5; Is 42.8-9; Os 12.5-6).

            A questão do nome adquire um sentido ainda mais rico e profundo[5] por meio do Logos encarnado. O Filho eterno coexistente com o Pai, estando com Ele desde o início (Jo 1.18),[6] foi quem o revelou de forma completa dentro do propósito Trinitário de se fazer conhecido. 

            Na Oração Sacerdotal[7] Jesus Cristo, fala ao Pai a respeito de seus discípulos:

Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra. (Jo 17.6).

Eu lhes fiz conhecer (gnwri/zw) o teu nome e ainda o farei conhecer (gnwri/zw). (Jo 17.26).

Como temos insistido, o conhecimento do nome de Deus só nos é possível por iniciativa do próprio Deus. O seu nome não é atribuído por nós de forma arbitrária.[8] Aliás, nem teríamos parâmetros para isso. Ele mesmo se dá a conhecer em Jesus Cristo. A revelação é um ato da livre graça de Deus.[9] “É o próprio Deus que, por meio da natureza e da Escritura, colocou seus nomes esplêndidos em nossa boca”.[10]

O nome de Deus retrata aspectos de sua própria natureza. O nome abrange tudo quanto nos foi revelado a seu respeito: Todos os Seus atributos revelados e todas as suas obras.[11] O nome de Deus está relacionado à sua revelação;[12] Jesus revelou (fanerw/n[13] = “tornar claro”; “manifestar”, “fazer conhecido”) o nome do Pai (Jo 17.6).

São Paulo, 03 de setembro de 2019.

Rev.  Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Herman Bavinck, The Doctrine of God, 2. ed. Grand Rapids, Michigan: W. M. Eerdmans Publishing Co., 1955, p. 103. Cf. também, L. Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 51.

[2]Veja-se: Walter C. Kaiser, Jr., Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1980, p. 111-112. G. Aulén: “A fé entende a imutabilidade como expressão da direção inalterável da vontade de Deus e como a afirmação de que essa vontade, sob todas as circunstâncias e em toda a sua atividade, caracteriza-se pelo amor” (G. Aulén, A Fé Cristã, São Paulo: ASTE, 1965, p. 131).

[3] “Toda nação da terra está sob a mão divina, porque não há poder neste mundo que, em última instância, não seja por Ele controlado. (…) Deus é o Senhor da história. (…) Ele começou o processo histórico, controla-o, e por-lhe-á um fim. Jamais devemos perder de vista este fato decisivo” (D. Martyn Lloyd Jones, Do Temor à Fé, Miami: Vida, 1985, p. 21).

[4] D.M. Lloyd-Jones, Deus o Pai, Deus o Filho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1997, p. 323.

[5] Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 100-101.

[6]“Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou” (Jo 1.18).

[7]Para um estudo mais detalhado dessa oração, veja-se: Hermisten M.P. Costa, A Tua Palavra é a Verdade, 2. ed. Brasília, DF.: Monergismo, 2012.

[8]Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 101-102.

[9]“Ele não nos manda que subamos incontinenti aos céus, e, sim, perscrutando nossa debilidade, Ele mesmo desce até nós” (João Calvino, O Livro dos Salmos,São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 42.1-3), p. 257). “O Deus verdadeiramente Deus é aquele que não é conhecido por meio da razão, mas através da manifestação do seu Nome, o Deus da revelação” (Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 162-163).

[10]Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 110.

[11] “‘O nome’ significa tudo quanto está envolvido na pessoa de Deus, tudo quanto nos foi revelado a respeito de Deus. Significa Deus em todos os Seus atributos, Deus em tudo quanto Ele é em Si mesmo, Deus em tudo quanto Ele tem realizado e continua realizando”(D. M. Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte,São Paulo: FIEL., 1984, p. 345).“O nome significa a representação gloriosa de Deus no mundo criado” (K. Barth, La Oración,Buenos Aires: La Aurora, 1968, p. 45).

[12] Heródoto registra uma tradição, relacionada com os Pelasgos, os quais em tempos antigos sacrificavam “aos deuses todas as coisas que lhes podiam oferecer (…) lhes dirigiam preces, não lhes dando, todavia, nem nome nem sobrenome, pois nunca os viram designados por tal forma. Chamavam-nos deuses, de um modo geral, considerando-lhes a função de estabelecer e manter a ordem no universo. Não vieram a conhecer senão muito mais tarde os nomes dos deuses, quando os egípcios os divulgaram….” (Heródoto, História,Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.], II.52).

[13] Este verbo é empregado por João para indicar o início da “manifestação” da glória do Filho através do milagre da transformação da água em vinho (Jo 2.11). Coube a Cristo – Aquele que se manifestou em carne (1Tm 3.16; 2Tm 1.10) – revelar aos seus santos o “mistério” que estivera oculto a respeito da glória de Deus, sendo confiado a Paulo este anúncio (Cl 1.26,27/Tt 1.3). Nesta revelação do Pai no Filho, vemos a manifestação do amor do Deus Pai e do Deus Filho (1Jo 4.9/1Pe 1.20). A manifestação do Filho aniquilou o pecado e o poder do diabo (Hb 9.26; 1Jo 3.5,8). Os irmãos de Jesus, de forma provocativa, desafiaram-no a manifestar publicamente os Seus sinais (Jo 7.4). Por meio da igreja Deus revela a fragrância do conhecimento de Cristo (2Co 2.14). A manifestação final do Filho será glorificante (Cl 3.4; 1Pe 5.4; 1Jo 3.2). Os que abandonam definitivamente a Igreja de Cristo revelam quem realmente são (1Jo 2.19).

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (9)

A Palavra “Senhor”

            A palavra “Senhor” usada por Davi (Sl 23.1) e, que aparece em nossas traduções, geralmente é a tradução do tetragrama hebraico hwhy (YHWH), que é reconhecido como sendo o nome pessoal, real, essencial e pactual de Deus (hw”hoy>) (Yehovah), o qual não é atribuído a nenhum outro suposto deus ou seres angelicais.[1] “O ‘nome’ é Deus em revelação”.[2] (hw”hoy>) (Yehovah) é o nome revelacional de Deus (Ex 3.14-15; 6.2-3), “Eu sou o que sou” ou, “Eu sou o que serei” ou ainda: “Eu serei o que serei”. Porém, a sua origem é disputada entre os eruditos, não se tendo uma opinião consensual.[3] No entanto, é o nome com o qual Deus se manifesta a Moisés e pelo nome que quer ser sempre lembrado.

Ninguém pode atribuir nome a Deus. Deus não tem nome no sentido de distingui-lo ou descritivo de sua natureza essencial.[4] Os nomes fazem parte de sua autorrevelação. O desvelar-se adequado e ao mesmo tempo, acomodatício de suas perfeições aludindo a aspectos de sua identidade santa e perfeita.[5] No entanto, nem um nome ou todos os nomes coligados esgotam as suas perfeições. Deus em sua simplicidade, não é composto. Na integridade única de seu ser, há perfeição, totalidade e harmonia absoluta. Deus não tem amor, justiça e santidade, por exemplo, mas, é absolutamente amor, justiça e santidade. É absolutamente absoluto!

Nós podemos conhecer a Deus como Criador porque Ele ao longo da história tem se dado a conhecer claramente na Criação. Nós, cristãos, podemos conhecê-lo pelo nome porque Ele mesmo se apresentou a nós.[6] O Criador que se mostra na Criação, é o nosso Pai, conforme nos foi dado a conhecer em Cristo, nosso irmão mais velho. Conhecer a Deus sempre é graça!

            No Shemá[7] (“ouve”), o “credo judeu”[8] –, lemos: 4 Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. 5 Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (Dt 6.4-5).

O Senhor é o Deus da Aliança que se revelou por meio de seus atos e da sua Lei. Como temos insistido, é um Deus Pessoal que se relaciona pessoalmente com o seu povo (Ex 3.14). A grandeza de Deus é-nos manifesta de forma concreta por meio de sua revelação. O mistério é enaltecido no ato de Deus desvelar-se. Isso é grandioso demais para nós.[9]

            Como bem sabemos, o texto hebraico original não constava de vogais, entretanto, com o decréscimo do conhecimento da língua hebraica, tornou-se ainda mais difícil a compreensão dos textos, visto que a introdução mental de uma vogal errada, conduziria o leitor a uma interpretação equivocada. Por isso, desde a Antiguidade várias tentativas foram feitas para se introduzir as vogais, o que finalmente ocorreu de forma satisfatória, pelos judeus da escola massorética de Tiberías, por volta do ano 950 da Era Cristã.

            No caso do nome hwhy (YHWH), que ocorre 5321 vezes no AT.,[10] há algumas particularidades curiosas: Por volta do ano 300 a.C. ou um pouco antes, não sabemos ao certo, os judeus devido: 1) sua reverência para com Deus; 2) sua interpretação de Lv 24.16 e Ex 3.15, e 3) o temor de serem culpados do pecado de profanação, deixaram de pronunciar o nome YHWH. O que eles passaram a fazer, foi o seguinte: Todas as vezes que liam o nome YHWH em voz alta, este nome era substituído por yfnOdf) (‘âdônây)(“Senhor”).[11] “Para indicar que esta substituição se devia fazer, os Massoretas[12] intercalavam as vogais de ‘aDõNãY[13] sob as consoantes de JaHWeH, daí surgiu a palavra JeHowah ou ‘Jeová'”.[14]

            O certo é que hoje nós não temos condições de saber qual era a pronúncia correta do tetragrammaton[15] divino, daí pronunciar-se de diversas formas: Yavé, Javé, Jeová, entre outras.

            São Paulo, 03 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Cf. Paulo Anglada, Soli Deo Gloria: O Ser e as obras de Deus, Ananindeua, PA.: Knox Publicações, 2007, p. 35.

[2]Geerhardus Vos, Teologia Bíblica, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 139.

[3] Uma breve, porém, ótima discussão sobre o assunto temos em Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 144-147. Mais atual, porém, menos crítico: Terence Fretheim, Javé: In: Willem A. VanGemeren, org. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 4, p. 736-741.

[4] Veja-se: François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 253.

[5] “Na Escritura o nome de Deus é autorrevelação. Somente Deus pode dar nome a si mesmo; seu nove é idêntico às perfeições que ele exibe no mundo e para o mundo. Ele se faz conhecido ao seu povo por meio de seus nomes próprios: a Israel, como YHWH, à igreja cristã, como Pai. Os nomes revelados de Deus não revelam seu ser como tal, mas sua acomodação à linguagem humana” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 97).

[6] Deus expressa o seu pensamento e a sua vontade no mundo, na Criação, envolvendo o homem com a manifestação visível da sua glória que é proclamada, apesar do pecado, de forma fecunda nas obras da Criação (Sl 19.1; At 14.17; Rm 1.19,20). (Vejam-se: João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 11.3), p. 299; R.C. Sproul, Somos todos teólogos: uma introdução à Teologia Sistemática, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2017, p. 36-37; R.C. Sproul, Estudos bíblicos expositivos em Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 31-40).

            Deus, o mundo e o homem são as três realidades com as quais toda a ciência e toda filosofia se ocupam (Herman Bavinck, The Philosophy of Revelation,New York: Longmans, Green, and Company, 1909, p. 83). Pois bem, se Deus não tivesse primeiramente, de forma livre e soberana se revelado (Sl 115.3; Rm 11.33-36) – concedendo ao homem o universo como meio externo de conhecimento que funciona com as suas leis próprias e regulares – toda e qualquer ciência seria impossível. O mundo, inclusive o homem, é o grande laboratório de todas as ciências. Só que, quem “construiu” este laboratório foi Deus, e deixou ao homem a responsabilidade de estudá-lo, descobrindo os “enigmas” que estão por trás das leis que funcionam de acordo com as prescrições do seu Criador. Não pensemos, contudo que Deus criou o mundo apenas para satisfazer a curiosidade humana. Deus o fez como testemunho da sua glória: “A grande finalidade da criação foi a manifestação da glória de Deus” (A.W. Pink, Deus é Soberano,São Paulo: Fiel, 1977, p. 84). Deus ainda hoje não deixou de dar testemunho da sua existência e bondoso cuidado para com o homem (At 14.17). Deus está ativo, preservando a sua criação para o fim proposto por ele mesmo. “Deus não é mero espectador do universo que ele criou. Ele está presente e ativo em todas as partes, como o fundamento que sustenta tudo e o poder que governa tudo o que existe” (L. Boettner, La Predestinación,Grand Rapids, Michigan: TELL. (s.d.), p. 33). A Bíblia atesta este fato amplamente (Vejam-se: Ne 9.6; At 17.28; Ef 4.6; Cl 1.17; Hb 1.3) (Veja-se: Confissão de Westminster,Cap. V). Deus faz todas as coisas “conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11/Sl 115.3).

[7] É a primeira palavra que aparece em Dt 6.4, derivada do verbo ((m$) (Shãma’), “ouvir”, envolvendo normalmente a ideia de ouvir com afeição, entender, obedecer (Veja-se: Hermann J. Austel, Shãma’:In: R. Laird Harris, et. al., eds., Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1586).

[8]Conforme expressão de Edersheim (1825-1889). Veja-se: Alfred Edersheim, La Vida y los Tiempos de Jesus el Mesias,Barcelona: CLIE, 1988, v. 1, p. 491.

[9]“O verdadeiro mistério só pode ser entendido como um mistério genuíno mediante a revelação. (…) Porque a revelação do Nome é a automanifestação do Deus que é livre, e exaltado acima deste mundo, é só isto que nos confronta com o verdadeiro mistério de Deus. Por isso a revelação do Nome de Deus está no centro do testemunho bíblico da revelação” (Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 157).

[10]Cf. Gottfried Quell, ku/rioj: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament,8. ed. Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing Co., (reprinted) 1982, v. 3, p. 1067. Fretheim fala-nos de cerca de 6800 vezes (Cf. Terence Fretheim, Javé: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 4, p. 736).

[11] Palavra usada exclusivamente para Deus. Cf. Gesenius’ Hebrew-Chaldee Lexicon to the Old Testament, 13. ed. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1978, p. 12b.

[12]Sobre os Massoretas, Veja-se: Gleason L. Archer Jr., Merece Confiança o Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1974, p. 65ss.

[13]Ainda que em menor escala, os Massoretas também intercalavam com o tetragrammaton, as vogais de ‘Elohim. Cf. L. Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 51; G. Hendriksen, El Evangelio Segun San Mateo, Grand Rapids, Michigan: Subcomision Literatura Cristiana, 1986, p. 343.

[14]Gleason L. Archer Jr., Merece Confiança o Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1974, p. 66. Veja-se: Terence Fretheim, Javé: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 4, p. 737.

[15]Cf. L. Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 51; H. Bavinck, The Doctrine of God, 2. ed. Grand Rapids, Michigan: W. M. Eerdmans Publishing Co., 1955, p. 102ss.; A.R. Crabtree, Teologia do Velho Testamento, 2. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1977, p. 64; J. Barton Payne, Hawa: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 346; François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 253-254. Veja-se também: J. Barton Payne, The Theology of the Older Testament, Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1962, p. 147-149.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (8)

Adão e Eva rejeitam a Deus em busca de sua autonomia

Um dos aspectos fundamentais na tentação de Adão e Eva não foi justamente o desejo de conhecer além do que lhes seria permitido? Adão e Eva desejaram a autonomia. Ter um conhecimento independentemente de Deus. Ser iguais a Deus: Autossuficientes.[1] Satanás lhes ofereceu uma cosmovisão concorrente onde o ponto de referência não era mais Deus, mas o desejo pessoal deles.[2]

 

O desejo de independência os leva a aceitar qualquer aceno secular em detrimento da fé em Deus. Aqui, a tentativa de independência de Deus, ao invés de vida, é morte. “A autonomia humana pecaminosa, longe de ser o caminho para a auto-realização humana, é, em si mesma, uma distorção daquilo que é humano”, comenta Knudsen (1924-2000).[3]

 

A partir desse novo ponto umbilical de referência, excluindo Deus ou o deixando em um canto, à margem da história e da sua vida, o homem começa a construir seus ídolos de acordo com a sua nova imagem eticamente caída. Temos aqui o início do humanismo, considerando de forma teórica e prática o homem como centro e medida de toda a realidade.[4] Por isso é que todo humanismo autônomo não passa de um ato idólatra onde Deus é destronado e o homem colocado como centro da realidade, perdendo assim todas as referências metafísicas.

 

O homem, em seu pretenso humanismo autônomo, não consegue encontrar um ponto de integração que confira sentido à realidade. Portanto, o sentimento constante de insatisfação e frustração, como descrito por McGrath:

 

Deixar de relacionar-se com Deus é deixar de ser completamente humano. Ser realizado é ser plenificado por Deus. Nada transitório pode preencher esta necessidade. Nada que não seja o próprio Deus pode esperar tomar o lugar de Deus. Assim mesmo, por causa da decadência da natureza humana, há hoje a tendência natural de se tentar fazer com que outras coisas preencham essa necessidade. O pecado nos afasta de Deus e nos leva a pôr outras coisas em seu lugar. Essas vêm para substituir Deus. Elas, porém, não satisfazem. E, como a criança que experimenta e expressa insatisfação quando o pino quadrado não se encaixa no orifício redondo, passamos a experimentar um sentimento de insatisfação. De alguma forma, permanece em nós a sensação de necessidade de algo indefinível de que a natureza humana nada sabe, só sabe que não o possui.[5]

 

Jacques Monod (1910-1976) – ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, em 1965 – retrata de forma sombria a solidão do homem. Na melancólica conclusão de seu livro, disse:

 

Talvez se trate de uma utopia, mas não de um sonho incoerente. É uma ideia que se impõe pela força única de sua coerência lógica. Tal é a conclusão a que a busca da autenticidade leva necessariamente. Rompeu-se a antiga aliança. Enfim, o homem sabe que está sozinho na imensidão indiferente do universo, de onde emergiu por acaso. Não mais do que seu destino, seu dever não está escrito em lugar algum. Cabe-lhe escolher entre o Reino e as trevas.[6]

 

A história tem demonstrado o fracasso dessa tentativa e, que mais cedo do que poderiam imaginar os mais pessimistas, esse humanismo que pretendia restaurar o homem à sua dignidade é, na realidade, um anti-humanismo. Na tentativa de matar a Deus, o secularismo matou o homem em sua plenitude – ele passou a ser apenas o resultado de uma evolução casuística – restando apenas um arremedo de nossa real natureza, felizmente ainda preservada em misericórdia pelo Deus vivo, que nos sustenta como sua imagem.

 

O pecado como algo paradoxal

 

Algo paradoxal aconteceu aqui: O ser que eu mais admiro é justamente o que eu rejeito por meio de minha desobediência a fim de me tornar igual a Ele por via inversa. A lógica seria que eu desejasse me aproximar cada vez mais da sabedoria de Deus por meio da obediência aos seus preceitos. No entanto, mediante a tentação satânica, sou convencido de que o caminho para me tornar tão ou mais sábio do que Deus é o da subversão de sua autoridade, deificando o homem e a sua vontade.[7] Negando a sabedoria de Deus é que conseguirei ser tão sábio quanto Ele.

 

Temos aqui uma suspeita moral sobre a integridade do ser de Deus. Ele – começam a inferir – não é tão santo, justo e bondoso como quer nos fazer crer (Gn 3.1-5). O caminho do crescimento, pensam Adão e Eva, é o da desobediência. Isso consumado, instalou-se o caos na sua vida, em suas relações e na criação. (Gn 3.7-24). A paz da criação estabelecida por Deus foi quebrada ali,[8] ainda que antes, já estivera trincada no coração do homem e da mulher.

 

As Escrituras nos mostram com insistência, que é Deus mesmo quem nos instrui (Sl 32.8-9).[9] No entanto, curiosamente, nossos primeiros Pais que tinham a presença contínua de Deus com eles, rejeitaram a instrução divina, preferindo a sabedoria que supostamente viria da árvore no Jardim do Éden.

 

Narra Moisés: “Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento (שׂכל) (śâkal), tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu” (Gn 3.6). Eles desejavam o sucesso por seus próprios meios, mas, conheceram o fracasso por serem guiados simplesmente por suas sensações em oposição à ordem divina.

 

O entendimento proposto por Deus nunca pode começar por um ato de falta de entendimento que se concretize em desobediência à sua Palavra. Antes, deve começar pela obediência aos seus preceitos e, ele amadurece no processo de aprendizado da obediência.

 

Em outras palavras, aprendo a obedecer obedecendo. E, enquanto obedecemos, vamos nos afeiçoando à instrução de Deus e experimentando os seus frutos em nossa vida.

 

A falta de entendimento

A atitude de Adão e Eva, diferentemente, revelou falta de entendimento que se agravaria na concretização consumada deste comportamento carente de fé em Deus. Esse quadro de desobediência só seria revertido definitivamente por meio da obediência perfeita de Cristo, nosso Senhor.[10]

 

Aqui temos também outra lição preciosa para nós que muitas vezes tendemos a trocar a instrução de Deus por outra, estranha à sua Palavra. Esta é uma tendência normal do homem pecador. Portanto, todos nós sem exceção estamos, ainda que por vezes de modo sutil, dispostos a substituir o Criador pela criatura (Rm 1.25),[11] criando e cultuando a deuses afeitos aos nossos desejos e circunstâncias.

Maringá, 24 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] Tillich (1886-1965), assim define este conceito: “Representa a vida humana vivida segundo a lei da razão em todos os aspectos da atividade espiritual (…). Para os indivíduos, autonomia é a coragem de pensar; coragem de se valer dos próprios poderes racionais (Paul Tillich, Perspectivas da Teologia Protestante nos Séculos XIX e XX, São Paulo: ASTE, 1986, p. 48).

[2]Veja-se: R.K. Mc Gregor Wright, A Soberania Banida, São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p. 248.

[3] Robert D. Knudsen, O Calvinismo como uma força cultural: In: W. Stanford Reid, ed. Calvino e sua influência no mundo ocidental, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 20.

[4]“A forma extrema da idolatria é o humanismo, que vê o homem como a medida de todas as coisas” (R.C. Sproul, O que é a teologia reformada: seus fundamentos e pontos principais de sua soteriologia, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 33). Na provável primeira carta que Calvino escreveu depois de ter se fixado em Genebra (1536), alegra-se com o avanço da Reforma e a consequente diminuição da superstição e idolatria. Então diz: “Deus permita que os ídolos sejam erradicados também do coração” (Carta escrita ao seu amigo Francis Daniel no dia 13 de outubro de 1536. In: João Calvino, Cartas de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 30).

[5]Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 68.

[6]Jacques Monod, O acaso e a necessidade, Petrópolis, RJ.: Vozes, 1971, p. 198.

[7] Devo parcialmente essa observação ao Rev. Ricardo Rios que, em correspondência privada (08.06.18), disse: “A minha tese é que o ateísmo é uma resposta aos ditames de Deus. Como eu não posso seguir suas ordenanças, eu nego que elas existam. A autonomia é uma deificação humana”.

[8] Cf. P. Tripp, Admiração, São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 22.

[9]Instruir-te-ei (שׂכל) (śâkal) e te ensinarei o caminho que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te darei conselho” (Sl 32.8). A palavra aqui traduzida por “instrução”, é traduzida também por “entendimento” (Gn 3.6; Sl 14.2; 53.2; 2Cr 30.22); “inteligência” (Jr 3.15); “atentar” (Sl 106.7); “prudência” (1Sm 18.5; Sl 2.10; 94.8; 111.10; Is 52.13); “êxito” (1Sm 18.14,15,30; 2Rs 18.7); “discernimento” (Sl 36.3); acudir (Sl 41.1). A palavra se refere “à ação de, com a inteligência, tomar conhecimento das causas. (…) Designa o processo de pensar como uma disposição complexa de pensamentos que resultam numa abordagem sábia e bastante prática do bom senso. Outra consequência é a ênfase no ser bem-sucedido” (Louis Goldberg, Sakal: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p 1478). Vejam-se: William Gesenius, Hebrew-Chaldee Lexicon to the Old Testament, 3. ed. Michigan: WM. Eerdmans Publishing Co. 1978, 789-790; Louis Goldberg, Sakal: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1478-1480; Robert B. Girdlestone, Synonyms of the Old Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (1897), Reprinted, 1981, p. 74, 224-225.

[10]“Ele [Jesus Cristo] tornou-se o Autor de nossa salvação, visto que se fez justo aos olhos de Deus, quando remediou a desobediência de Adão através de um ato contrário de obediência” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 5.9), p. 137-138).

[11]20Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; 21porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. 22Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos 23 e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis. 24 Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si; 25pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!” (Rm 1.20-25).