Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (22)

3. Origem do Ofício de Diácono

 

A origem deste ofício eclesiástico deve ser buscada no texto de At 6.1-7.[1] Embora saibamos que nem todos concordem com isso[2] e outros não se decidam,[3] ficamos com aqueles que identificam o diaconato com At 6.[4]

 

No início da Igreja do Novo Testamento, competia aos apóstolos a responsabilidade de gerenciar os donativos, distribuindo-os conforme a necessidade dos crentes (At 2.45/At 4.37; 5.2). Com o crescimento da Igreja, esta atividade tornou-se por demais pesada para eles. Isso é natural. Conforme o desenvolvimento da Igreja, a situação foi ficando mais complexa, necessitando, portanto, de ajustes dentro dos padrões estabelecidos, para melhor atender aos fiéis no propósito em suas necessidades. Isso serve de alerta: por vezes criamos um sistema sofisticadíssimo com leis e regulamentos, no entanto, não temos pessoas. Ficamos com os regimentos e estrutura para um grupo inexistente. É preciso discernimento e cautela. Aqui, a Igreja crescia e as carências vão se manifestando.

 

Abro um parêntese para fazer algumas observações. Mesmo a igreja enfrentando dificuldades dentro de seu próprio seio, como o caso de Ananias e Safira (At 5.1-11) e perseguição (At 5.17-42), ela crescia.

 

O princípio da santidade passa a dar o tom da Igreja. A igreja crescia no temor do Senhor.

 

Por vezes, as dificuldades e provações se constituem em oportunidades de crescimento em vários sentidos. De modo semelhante, as bênçãos de Deus trazem consigo a oportunidade para amadurecermos com novos desafios.

 

A carência, por vezes, nos desafia à paciência e perseverança. A fartura, prova a nossa generosidade. Sei que as coisas não são tão estanques assim. O que ocorreu entre os crentes da Macedônia que em meio à ausência de recursos, foram generosos (2Co 8.1-5), apresenta uma linha transversal: tinham pouco materialmente, mas, foram generosos além de qualquer expectativa otimista. No entanto, os desafios assumem configurações diferentes dentro das situações mencionadas a partir de nossa visão dos fatos.

 

Atos 6 registra uma dificuldade própria da bênção de Deus: a igreja crescia e, havia generosidade da parte dos crentes para ajudar aos necessitados que, como o próprio Senhor dissera, sempre os teríamos (Mc 14.7; Dt 15.11).[5]

 

Nesse contexto é que se insere o diácono. O ofício de diácono teve a sua origem como resultado de uma necessidade: As viúvas dos helenistas (judeus de fala e cultura grega provenientes da Dispersão), estavam sendo habitualmente[6] “esquecidas na distribuição diária” (At 6.1).

 

Ao contrário do que já foi suposto, o “esquecimento”[7] ou uma provisão menor para as viúvas gregas,[8] não foi deliberado. A questão era mesmo de excesso de trabalho juntando a isso, a possível situação de severa penúria das viúvas.[9]

 

Os apóstolos manifestaram grande discernimento. Havia muito que fazer. A Igreja estava fundamentada e perseverava na doutrina dos apóstolos (At 2.42). O crescimento numérico de convertidos era evidente (At 6.1). Eles precisavam continuar ensinando, alimentando o rebanho. Isto era prioritário na sua vocação apostólica.[10] Não poderiam se desviar de sua tarefa principal, com o risco evidente de falharem em ambas as esferas. Portanto, reconhecendo o problema e ao mesmo tempo não tendo como resolver tudo sozinhos, encaminharam à comunidade, de forma direta, a eleição de “sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregariam deste serviço” (At 6.3). Detectando o problema, agiram de forma humilde, rápida e eficaz.

 

A eleição foi feita. Os apóstolos, então, se dedicaram mais especificamente a outra espécie de diaconia: “à oração e ao ministério (diakoni/a) da Palavra” (At 6.4), ofício para o qual foram especialmente chamados: Pregar a Palavra de Deus buscando sempre em tudo o discernimento em Deus.[11]

 

Eles sabiam o quão necessário é a oração para o desempenho de seu ofício. Havia grandes desafios à frente. Os apóstolos, ainda que não somente, precisavam continuar pregando e orando.[12] Deus haveria de dar-lhes discernimento. Estes homens sabiam de suas limitações; da grandiosidade da mensagem e da condição humana de total ignorância e aversão ao Evangelho, estando todos mortos espiritualmente (Ef 2.1,5).[13] Vemos aqui de passagem, o quão necessário é o tempo gasto com o preparo para o ensino da igreja.

 

Também sabemos, que somente Deus poderia capacitá-los a pregar com integridade, autoridade e poder, transformando os corações de seus ouvintes. A questão não era simplesmente de comunicação, antes de poder.

 

Anos depois, Paulo relembra aos tessalonicenses como foi o Evangelho por ele pregado: “Porque o nosso evangelho não chegou até vós tão-somente em palavra, mas, sobretudo, em poder, no Espírito Santo e em plena convicção, assim como sabeis ter sido o nosso procedimento entre vós e por amor de vós” (1Ts 1.5/1Co 2.1-5; 4.20).

 

E é deste modo, apenas para me valer de uma única ilustração, é que Lídia foi convertida. Paulo que fora pregar em Filipos dirigido pelo Espírito, registra Lucas, “Certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu (dianoi/gw) o coração para atender às coisas que Paulo dizia” (At 16.14).

 

Sem a operação transformadora de Deus, podemos falar à mente e ao coração, contudo, a transformação integral do homem, a regeneração, é obra de Deus. Precisamos, de fato, pregar e orar.

 

Packer sintetiza isso:

 

A pregação e a oração devem seguir juntas; nossa evangelização não estará de acordo com o conhecimento, nem será abençoada, se não agirmos dessa maneira. Cumpre-nos pregar, porque sem o conhecimento do evangelho nenhum homem pode ser salvo. E cumpre-nos orar, porque somente o soberano Espírito Santo em nós e nos corações dos nossos ouvintes pode tornar eficaz a nossa pregação, visando a salvação dos pecadores; e Deus não envia o Seu Espírito onde não há oração.[14]

 

O apostolado envolve essencialmente a tarefa de servir à igreja com especificidade no estudo e ensino da Palavra. Os diáconos, prioritariamente, alimentariam os fiéis com o pão material ‒ cuidariam mais especificamente da administração dos recursos: recebimento, abastecimento, preparação, organização, distribuição ‒[15] tão essencial à sua subsistência. Os apóstolos administrariam de modo mais específico o pão da vida, espiritual, pregando e intercedendo por eles.

 

Os diáconos devem ser vistos como braços da misericórdia de Deus em favor do seu povo carente. Eles exercem, em parte, o “socorro” de Deus para com o seu povo (1Co 12.28): “Os diáconos representam a Cristo em seu ofício de misericórdia, e o exercício da misericórdia está vinculado com o consolo dos aflitos”, acentua Kuiper (1886-1966).[16] Eles devem ser os braços solícitos de misericórdia de Deus no serviço aos mais necessitados.[17]

 

Historicamente este ofício permaneceu e se expandiu geograficamente, conforme atestam os documentos disponíveis.[18]

 

Maringá, 01 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Ora, naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos, houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição (diakoni/a) diária. 2 Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir (diakone/w) às mesas. 3 Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço; 4 e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério (diakoni/a) da palavra. 5 O parecer agradou a toda a comunidade; e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. 6 Apresentaram-nos perante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos. 7 Crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé (At 6.1-7).

[2]Kelly, T.C. Smith, Beyer, Bruce, Stam, Legrand, Fee (1Tm 3.8-13), entre outros.

[3]Stagg, Latourette, Stott, Vine.

[4]Irineu, Calvino, Bavinck, Vincent, Berkhof, Hendriksen (Fp 1.2), Ladd, R.B. Kuiper, Lloyd-Jones, Kistemaker, Grudem, entre outros.

[5] “Porque os pobres sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre me tendes” (Mc. 14.7). “Pois nunca deixará de haver pobres na terra” (Dt 15.11).

[6]O verbo paraqewre/w no imperfeito, sugere a ideia de algo frequente e habitual. Este verbo só ocorre aqui (At 6.1) no Novo Testamento.

[7] Assim pensa Barclay. (William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora, 1974, v. 7, p. 60).

[8] Calvino aventa sobre essa possibilidade (John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries), 1996 (Reprinted), v. 18/2, (At 6.1), p. 231).

[9] Vejam-se: I.H. Marshall, Atos: Introdução e Comentário, São Paulo: Mundo Cristão/Vida Nova, 1982, p. 123; John R.W. Stott, A Mensagem de Atos, São Paulo: ABU Editora, 1994, p. 133; Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 1, p. 295.

[10]“Portanto, quando os apóstolos põem a pregação do evangelho em primeiro plano, disso inferimos que nenhuma obediência é mais agradável a Deus do que esta. Não obstante, ao mesmo tempo realça-se a dificuldade, quando dizem que não estão aptos para exercerem aqueles dois ofícios. Por certo que de modo algum somos superiores a eles” (John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries), 1996 (Reprinted), v. 18/2, (At 6.2), p. 234).

[11] Stott lamentando a falta de seriedade moderna para com a Palavra, diz que se adotássemos esta mesma agenda apostólica, “…. envolveria para a maioria de nós, uma reestruturação radical do nosso programa e do cronograma, inclusive uma delegação considerável de outras responsabilidades aos líderes leigos, mas expressaria uma convicção verdadeiramente neotestamentária a respeito da natureza essencial do pastorado” (John Stott, Eu Creio na Pregação, São Paulo: Editora Vida, 2003, p. 132).

[12] “Nossa oração a Deus deve ser no sentido de desimpedir nossa vista e nos capacitar para a meditação sobre suas obras” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3. (Sl 92.6), p. 465).

[13] É muita proveitosa a exposição de Lloyd-Jones sobre a necessidade de oração declarada pelos apóstolos. Veja-se: D. M. Lloyd-Jones, Cristianismo Autêntico: Sermões sobre Atos dos Apóstolos, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2003, v. 3, p. 364-381.

[14]J.I. Packer, Evangelização e Soberania de Deus, 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 84.

[15] A palavra mesa utilizada em At 6.2 (tra/peza), de onde vem o nosso vocábulo “trapézio”, é empregada no NT para se referir à mesa de alimentos (At 16.34), à mesa de câmbio (Mt 21;12; Jo 2.15) e, simplesmente ao banco onde são feitas transações financeiras (Lc 19.23).

[16]R.B. Kuiper, El Cuerpo Glorioso de Cristo, Grand Rapids, Michigan: SLC., 1985, p. 141.

[17]Veja-se: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 4 (IV.13), p. 83.

[18]Vejam-se: Clemente de Roma, 1Coríntios, 42.4; 44.5; 47.6; 54.2; 57.1; Inácio, Cartas: Aos Efésios, 2.1; Aos Magnésios, 2.1; 3.1; 6.1; 13.1; Aos Tralianos, 2.3; 3.1; 7.2; 12.2; Aos Filadélfios, 10.2; Aos Esmirnenses, 8.1; À Policarpo, 6.1; Irineu, Contra as Heresias, V.36.1; Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica, III.39.3-5,7; VI.19.19; 43.2; 43.11; VII.28.1; 30.2.12. Para uma visão histórica das transformações de seu ofício, vejam-se: Hervé Legrand, Diácono: In: Jean-Yves Lacoste, dir., Dicionário Crítico de Teologia, São Paulo: Paulinas; Loyola, 2004, p. 554-555; Hermann W. Beyer, Servir, Serviço: In: G. Kittel, ed. A Igreja do Novo Testamento, São Paulo: ASTE, 1965, p. 288-290.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (21)

2.3. “Diácono” no Novo Testamento

 

No Novo Testamento encontramos uma perspectiva semelhante a do Antigo Testamento, sendo o trabalho visto com naturalidade nas parábolas de Jesus (Mt 20.1,2,8; 21.28; 25.16; Mc 13.34),[1] evidenciando ser o trabalho algo comum em nossa vida cotidiana (Jo 6.27; Jo 9.4),[2] inclusive instando com os seus discípulos no sentido de orarem ao Pai, senhor da seara, por mais trabalhadores (Mt 9.37-38).[3]

 

Os substantivos “Diaconia” (33 vezes)[4] e “Diáconos” (30 vezes)[5] e o verbo “Diaconar”[6] (34 vezes)[7] são traduzidos por serviço, ministério, socorro, assistência, diácono (neste caso, apenas transliterado) etc.

 

A expressão dia/konoj está mais diretamente relacionada ao serviço prestado, diferentemente de dou=loj (escravo) que se refere mais especificamente à relação com o seu senhor ou mestre.[8]

 

Numa acepção mais ampla, escreve Hesse (***):

 

Doulos ressalta quase exclusivamente a sujeição completa do cristão ao Senhor; diakonos diz respeito ao seu serviço em prol da igreja, dos seus irmãos e do seu próximo, em prol da comunhão, quer o serviço se realize ao servir à mesa, com a palavra, ou de alguma outra maneira. O diakonos sempre é aquele que serve em nome de Cristo e que continua o serviço de Cristo para o homem exterior e interior; preocupa-se com a salvação dos homens.[9]

 

Jesus Cristo deu uma grande lição aos seus ouvintes ao verbalizar a sua missão. Ele apresenta um contraste evidente com o conceito grego e, ao mesmo tempo, eleva de forma magnífica o pensamento judeu: “O Filho do homem, que não veio para ser servido (diakone/w), mas para servir (diakone/w)” (Mt 20.28).

 

Mais do que simplesmente servir à mesa, nosso Senhor nos ensina que o diaconato é uma disposição santa e abnegada de servir ao próximo com a sua própria vida:

 

25 Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna. 26 Se alguém me serve (diakone/w), siga-me, e, onde eu estou, ali estará também o meu servo (diakoni/a). E, se alguém me servir, o Pai o honrará. (Jo 12.25-26).

 

Paulo demonstra que “o ministério (diakoni/a) do Espírito” (2Co 3.8) que opera de forma eficaz por meio do Evangelho, é glorioso.

 

Terminada a série de tentações satânicas desferidas contra o Senhor Jesus, registra Mateus: “E eis que vieram anjos e o serviram (diakone/w)(Mt 4.11/Hb 1.14).

 

Paulo se declara diácono do Evangelho: “Se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes, não vos deixando afastar da esperança do evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, me tornei ministro (dia/konoj)(Cl 1.23).

 

Bem como, diácono da Igreja:

 

24 Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja; 25 da qual me tornei ministro (dia/konoj) de acordo com a dispensação da parte de Deus, que me foi confiada a vosso favor, para dar pleno cumprimento à palavra de Deus. (Cl 1.24-25).

 

É, como também Apolo, instrumento de Deus para que os homens creiam no Evangelho: “Quem é Apolo? E quem é Paulo? Servos (dia/konoj) por meio de quem crestes, e isto conforme o Senhor concedeu a cada um” (1Co 3.5).

 

Como vimos, os dons concedidos à igreja visam ao aperfeiçoamento dos crentes a fim de que estes possam servir, exercer o seu diaconato com maior eficiência:

 

11 E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, 12 com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço (diakoni/a), para a edificação (oi)kodomh/) do corpo de Cristo. (Ef 4.11-12).

 

Somente deste modo, neste trabalho recíproco, a Igreja de Cristo poderá se desenvolver harmoniosa e solidamente em amor: 

 

15Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, 16 de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação (oi)kodomh/) de si mesmo em amor. (Ef 4.15-16/Rm 15.2; 1Ts 5.11).

 

A Igreja é edifício de Deus. Somos, por graça, cooperadores (1Co 3.9).[10]

 

 

Rio de Janeiro, 25 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]Porque o reino dos céus é semelhante a um dono de casa que saiu de madrugada para assalariar trabalhadores para a sua vinha.  2 E, tendo ajustado com os trabalhadores a um denário por dia, mandou-os para a vinha. (…)  8 Ao cair da tarde, disse o senhor da vinha ao seu administrador: Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, começando pelos últimos, indo até aos primeiros” (Mt 20.1,2,8). E que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Chegando-se ao primeiro, disse: Filho, vai hoje trabalhar na vinha” (Mt 21.28). O que recebera cinco talentos saiu imediatamente a negociar com eles e ganhou outros cinco(Mt 25.16). É como um homem que, ausentando-se do país, deixa a sua casa, dá autoridade aos seus servos, a cada um a sua obrigação, e ao porteiro ordena que vigie” (Mc 13.34).

[2] “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo” (Jo 6.27). “É necessário que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar” (Jo 9.4).

[3]37 E, então, se dirigiu a seus discípulos: A seara, na verdade, é grande, mas os trabalhadores são poucos.  38 Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara(Mt 9.37-38).

[4]Diakoni/a * Lc 10.40; At 1.17,25; 6.1,4; 11.29; 12.25; 20.24; 21.19; Rm 11.13; 12.7; 15.31; 1Co 12.5; 16.15; 2Co 3.7,8,9 (2 vezes); 4.1; 5.18; 6.3; 8.4; 9.1,12,13; 11.8; Ef 4.12; Cl 4.17; 1Tm 1.12; 2Tm 4.5,11; Hb 1.14; Ap 2.19.

[5] Dia/konoj * Mt 20.26; 22.13; 23.11; Mc 9.35; 10.43; Jo 2.5,9; 12.26; Rm 13.4 (2 vezes); 15.8; 16.1; 1Co 3.5; 2Co 3.6; 6.4; 11.15,23; Gl 2.17; Ef 3.7; 6.21; Fp 1.1; Cl 1.7,23,25; 4.7; 1Ts 3.2; 1Tm 3.8,12; 4.6.

[6] Na realidade não existe este verbo em nossa língua; ele foi apenas transliterado do grego e aportuguesado para dar o mesmo sentido fonético.

[7] Diakone/w *Mt 4.11; 8.15; 20.28; 25.44; 27.55; Mc 1.13,31; 10.45; 15.41; Lc 4.39; 8.3; 10.40; 12.37; 17.8; 22.26,27 (2 vezes); Jo 12.2,26 (2 vezes); At 6.2; 19.22; Rm 15.25; 2Co 3.3; 8.19,20; 1Tm 3.10,13; 2Tm 1.18; Fm 13; Hb 6.10; 1Pe 1.12; 4.10,11.

[8] Cf. Diácono: In: W.E. Vine, et. al., Dicionário Vine, Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2001, v. 2, p. 563.

[9] K. Hess, Servir: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 4, p. 452.

[10] Porque de Deus somos cooperadores; lavoura de Deus, edifício (oi)kodomh/) de Deus sois vós (1Co 3.9).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (20)

II – O OFÍCIO de Diácono

Introdução

1. Terminologia

 

O termo “diácono” e suas variantes, provêm do grego dia/konoj, diakoni/a e diakone/w, palavras que significam respectivamente, “servo”, “serviço” e “servir”.

 

2. “Diácono” na literatura secular

2.1. Na Literatura grega

 

As palavras relacionadas à diaconia apresentam três sentidos especiais, com uma pesada conotação depreciativa: a) Servir à mesa; b) Cuidar da subsistência; c) Servir: No sentido de “servir ao amo”.

 

Aqui temos que ter cautela para não incorrermos no equívoco generalizante de tomar um pensamento aqui e outro ali e presumir termos a amostragem característica do pensamento grego. Nem sempre, por exemplo, os pensamentos de Sócrates (469-399 a.C.), Platão (427-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.) representam o modo habitual dos gregos verem a realidade.[1]

 

Tomando o cuidado necessário, podemos observar que dentro do ideal grego de reflexão e serenidade, não há espaço para um pensar em “trabalho braçal”. Daí a visão grega do trabalho ser extremamente negativa, sendo considerado algo inferior.[2] Assim, é fácil compreender a justificativa da escravidão. Como a vida contemplativa e de prazeres sensoriais é a mais valiosa, nos assemelhando aos deuses,[3] os homens livres poderiam se aproximar deste modelo de contemplação divina.[4]

 

Mesmo Hesíodo (c. 750-c. 650 a.C.) reconhecendo que “o trabalho não é vergonha alguma, mas a preguiça é!”,[5] na descrição que faz da Idade de Ouro,[6] os deuses viviam sob o domínio de Cronos[7] em perfeita paz, sem preocupações, alegrando-se nas festas, usufruindo dos bens produzidos espontânea e generosamente pela terra; ou seja: na ociosidade celestial e terrena.[8]

 

Para os gregos, servir era algo indigno. Os Sofistas chegavam a afirmar que o homem reto só deve servir aos seus próprios desejos, com coragem e prudência.

 

Partindo da compreensão grega de que nascemos para comandar, não para servir, Platão (427-347 a.C.) e Demóstenes (384-322 a.C.), um pouco mais moderados, admitiam que o serviço (diakoni/a) só tinha algum valor quando prestado ao Estado. Portanto, “a ideia de que existimos para servir a outrem não cabe, em absoluto, na mente grega”.[9]

 

No mundo Romano, apesar de todo o seu empreendimento, filósofos como Cícero (106-43 a.C.) e Sêneca (c. 4 a.C.-65 d.C.) e o historiador Tito Lívio (59 a.C. – 17 d.C.), exaltavam o ócio em detrimento do trabalho, olhando com desprezo o trabalho do artesão.[10]

 

2.2. Na Literatura judaica

 

Ainda que no judaísmo o conceito não tenha sido explorado, encontramos a compreensão mais profunda a respeito daquele que serve. O pensamento oriental não considerava indigno o serviço. A grandeza do senhor determinava a grandiosidade do trabalho. Quanto maior o senhor a quem se serve, mais o serviço é valorizado.

 

O historiador judeu Flávio Josefo (c. 38-c. 100 d.C.), usou o termo em três sentidos: a) Servir à mesa; b) Servir no sentido de obedecer; c) Prestar serviços sacerdotais.

 

O trabalho manual era altamente estimado; sendo profundamente respeitados aqueles que o praticavam, visto ser considerado este talento, uma dádiva de Deus.[11] Aliás, Deus é apresentado no primeiro verso de Gênesis, como trabalhando, criando todas as coisas (Gn 1.1) e, nas páginas do Antigo Testamento, com frequência, somos desafiados a contemplar a criação de Deus e maravilhar-nos (Jó 37.14-15; Sl 8.3,6; 19.1-6; 28.5; 86.8; 92.4-5; 104.24; 111.2; 139.14; 145.9,17 etc.).[12]

 

O trabalho não está associado ao pecado, antes, faz parte do propósito primevo de Deus para o homem e revela a sabedoria divina (Gn 1.28; 2.15; Ex 20.9; Sl 104.23; Is 28.23-29). Os rabinos, como exemplo desta perspectiva, além do estudo metódico da Lei, aplicavam-se ao trabalho manual para suprir às suas necessidades (Vejam-se: Mc 6.3 (Mt 13.55); At 18.3).

 

Alfred Edersheim (1825-1889) comenta com propriedade:

 

Entre os judeus o desprezo pelo trabalho braçal, uma das características dolorosas do paganismo, não existia. Pelo contrário, era considerado obrigação religiosa, com frequência e muita seriedade insistia-se na necessidade de se aprender algum ofício, desde que ele não levasse a extravagâncias nem propiciasse um desvio da observância pessoal da Lei.[13]

 

Há um ditado atribuído ao Rabino Judá (2º século), que dizia: “Aquele que não ensina o próprio ofício ao filho ensina-o a roubar”.[14]

 

No entanto, com o passar dos anos, foi criada uma dicotomia entre o sagrado e o profano. No Talmude,[15] há uma oração (séc. 1º) feita pela perspectiva do escriba, que diz o seguinte:

 

Eu te agradeço, Senhor, meu Deus, porque me deste parte junto daqueles que se assentam na sinagoga, e não junto daqueles que se assentam pelas esquinas das ruas; pois eu me levanto cedo, eles também se levantam cedo; eu me levanto cedo para as palavras da Lei, e eles, para as coisas fúteis. Eu me esforço, eles se esforçam: eu me esforço e recebo a recompensa, eles se esforçam e não recebem recompensa. Eu corro e eles correm: eu corro para a vida do mundo futuro, e eles, para a fossa da perdição.[16]

 

 

Rio de Janeiro, 25 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Devo esta observação a Forrester. (W.R. Forrester, Christian Vocacion: Studies in Faith and Work, London: Lutterworth Press, 1951, p. 121).

[2] Vejam-se: Platão, República, 369ss.; Aristóteles, Política, 1328b; Idem., Metafísica, I.1. Vejam-se também, a interpretação    do conceito grego, feita por Ferrater Mora. (Trabajo: In: José Ferrater Mora, Diccionario de Filosofia, 5. ed. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1969, v. 2, p. 819-822; Alan Richardson, Work: In: Alan Richardson, ed. A Theological Word Book of the Bible, 13. ed. London: SCM Press, 1975, p. 285).

[3]Veja-se: Aristóteles, Ética a Nicômaco, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, v. 4), 1973, X.7-8.

[4] Cf. Ray Pennings, Trabalhando para a Glória de Deus. In: Joel R. Beeke, Vivendo para a Glória de Deus: Uma introdução à Fé Reformada, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2012 (reimpressão), p. 367.

[5] Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias, 3. ed. São Paulo: Iluminuras, 1996, Verso 310. (O texto é bilingue. Optei por fazer a tradução).

[6]Em Hesíodo encontramos o exemplo característico da interpretação linear da História, que apresenta um processo finito e pessimista. Ele entendia que a História se move partindo da idade do ouro, passando pela da prata e de bronze até chegar finalmente à de ferro (Veja-se: Otto A. Piper, A Interpretação Cristã da História, São Paulo: Coleção da Revista de História, 1956, 18).

[7] Dentro de determinada tradição mitológica grega, Cronos seria filho de Urano e Gaia. Era o deus do tempo.

[8] Ver: Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias, 3. ed. São Paulo: Iluminuras, 1996, Versos 115-120. Para uma análise deste conceito, veja-se: W.R. Forrester, Christian Vocacion: Studies in Faith and Work, London: Lutterworth Press, 1951, p. 121-126.

[9]Hermann W. Beyer, Servir, Serviço: In: G. Kittel, ed. A Igreja do Novo Testamento, São Paulo: ASTE, 1965, p. 275. Vejam-se também: J. Stam, Diácono, Diaconisa: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 2, p. 151.

[10]Vejam-se: W. Wrade Fowler, Social Life at Rome in the Age of Cicero, cap. II (http://www.readcentral.com/chapters/W-Warde-Fowler/Social-life-at-Rome-in-the-Age-of-Cicero/003) (Acessado em 24.06.19); Battista Mondin, O Homem, Quem é Ele?, São Paulo: Paulinas, 1980, p. 193; W.R. Forrester, Christian Vocacion: Studies in Faith and Work, London: Lutterworth Press, 1951, p. 127-128.

[11] Veja-se: J.I. Packer, Carpinteiro: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 1, p. 364-365; Paul Johnson, História dos Judeus, 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1989, p. 174.

[12]4 Inclina, Jó, os ouvidos a isto, pára e considera as maravilhas de Deus. 15Porventura, sabes tu como Deus as opera e como faz resplandecer o relâmpago da sua nuvem?” (Jó 37.14-15). 3Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste. (…) 6 Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste” (Sl 8.3,6). 1Ao mestre de canto. Salmo de Davi Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.  2 Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite.  3 Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som;  4 no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo. Aí, pôs uma tenda para o sol,  5 o qual, como noivo que sai dos seus aposentos, se regozija como herói, a percorrer o seu caminho.  6 Principia numa extremidade dos céus, e até à outra vai o seu percurso; e nada refoge ao seu calor” (Sl 19.1-6). “Não há entre os deuses semelhante a ti, Senhor; e nada existe que se compare às tuas obras” (Sl 86.8) 4 Pois me alegraste, SENHOR, com os teus feitos; exultarei nas obras das tuas mãos.  5 Quão grandes, SENHOR, são as tuas obras! Os teus pensamentos, que profundos!” (Sl 92.4-5). “Que variedade, SENHOR, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas” (Sl 104.24). “Grandes são as obras do SENHOR, consideradas por todos os que nelas se comprazem” (Sl 111.2).

[13]Alfred Edersheim, The Life and Times of Jesus The Messiah, 3. ed. Grand Rapids, MI.: Eerdmans, 1971, 1981 (Reprinted), v. 1, p. 252

[14] Conferir, entre outros: William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora, 1974, v. 7, (At 18.1-11), p. 145; John Stott, O Incomparável Cristo, São Paulo: ABU., 2006, p. 134.

[15]Talmude, cujo nome significa “instrução”, consiste numa coleção de leis rabínicas com seus comentários interpretativos a respeito das leis de Moisés, compilada entre o ano 100 e 500 da Era Cristã. (Vejam-se, entre outros: W. White Jr., Talmude: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 5, p. 738-744; C.L. Feinberg, Talmude e Midrash: In: J.D. Douglas, ed. ger. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo, SP.: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 3, p. 1560-1561.

[16]Apud Joachim Jeremias, As Parábolas de Jesus, 3. ed. São Paulo: Paulinas, 1980, p. 144. Quanto às profissões consideradas suspeitas pelo alto grau de perigo de ingressar em práticas pecaminosas, veja-se; J. Jeremias, Jerusalém no tempo de Jesus: pesquisa de história econômica-social no período neotestamentário, São Paulo: Paulinas, 1983, p. 403ss.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (19)

4.  A Igreja e seus oficiais no Brasil: os primórdios

 

Como temos visto, na Igreja, os pastores,[1] presbíteros e diáconos, são constituídos por Deus para a preservação do rebanho.[2]

A Segunda Confissão Helvética (1562-1566), no capítulo XVIII, falando sobre os “ministros da Igreja”, declara:

 

É verdade que Deus poderia, pelo Seu poder, sem qualquer meio, congregar para Si mesmo uma Igreja de entre os homens; mas Ele preferiu tratar com os homens pelo ministério de homens.[3] Por isso os ministros devem ser considerados não como ministros apenas por si mesmos, mas como ministros de Deus, visto que por meio deles Deus realiza a salvação de homens.

 

A Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil caracteriza bem o que é o presbítero e a sua função (Arts 50 e 51), o mesmo fazendo em relação ao diácono (Art 53).

 

            Como sabemos, a Igreja Presbiteriana do Brasil comemora o seu aniversário na data da chegada do Rev. Ashbel Green Simonton (1833-1867), em 12/08/1859. No entanto, a Primeira Igreja Presbiteriana a ser organizada no Brasil, foi no dia 12 de janeiro de 1862, na Capital do Império, Rio de Janeiro, à Rua Nova do Ouvidor nº 31, com as duas primeiras Profissões de Fé: Um comerciante, norte-americano, Henry E. Milford (com cerca de 40 anos), natural de New York, que veio para o Brasil como agente da Singer Sewing Machine Company e Camilo Cardoso de Jesus (com cerca de 36 anos),[4] que posteriormente mudou o seu nome para Camilo José Cardoso.[5] Ele era natural da cidade do Porto, Portugal, sendo padeiro e, ex-foguista em barco de cabotagem.[6] Ambos eram assíduos desde o início dos trabalhos promovidos por Simonton.[7]

 

Nesta ocasião foi celebrada a Santa Ceia pela primeira vez,[8] sendo ministrada pelo Rev. F.J.C. Schneider (1832-1910)[9] e pelo Rev. A. G. Simonton, em inglês e português.[10]

 

No entanto, os primeiros oficiais da Igreja Presbiteriana no Brasil só foram eleitos em 1866:

 

            Os Diáconos em 02/04/1866; eram três: Guilherme Ricardo Esher (de origem irlandesa), Camilo José Cardoso (de origem portuguesa) e Antonio Pinto de Sousa (brasileiro).

 

Os Presbíteros em 07/07/1866; eram dois: Guilherme R. Esher e Pedro Perestrello da Câmara (primo do futuro Rev. Modesto Carvalhosa) (de origem portuguesa). Todos foram ordenados no dia 09/07/1866, permanecendo Guilherme R. Esher como Presbítero.[11] Assim, temos os primeiros Presbíteros Regentes e Diáconos do Presbiterianismo nacional.

 

Maringá, 21 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]Quanto à responsabilidade dos pastores, Vejam-se: João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 3.15), p. 97-98; João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 3.5ss), p. 101ss.

[2] Calvino, falando com a autoridade e a experiência de um eficiente pastor, escreve em 1548: “Os pastores piedosos e probos terão sempre que manter esta luta de desconsiderar as ofensas daqueles que querem desfrutar de vantagem em tudo. Pois a Igreja terá sempre em seu seio pessoas hipócritas e perversas, as quais preferem suas próprias cobiças à Palavra de Deus. E mesmo as pessoas boas, quer por alguma ignorância quer por alguma fraqueza, são às vezes tentadas pelo diabo a ficar iradas com as fiéis advertências de seu pastor. É nosso dever, pois, não ficar alarmados por quaisquer gêneros de ofensas, contanto, naturalmente, que não desviemos de Cristo nossas débeis mentes” (João Calvino, Gálatas, (Gl 1.10), p. 36-37). “A tarefa dos mestres consiste em preservar e propagar as sãs doutrinas para que a pureza da religião permaneça na Igreja” (João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 12.28), p. 390).

[3] No século XVII, Turretini escreveria: “…. Não negamos que Deus poderia, se quisesse, ter convertido e salvo os homens imediatamente por si só, sem o ministério dos homens” (François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 3, p. 262).

[4]Ashbel G. Simonton, Diário, 1852-1867, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana; O Semeador, 1982, 14/01/1862; Rev. Antonio Trajano, Esboço Histórico da Egreja Evangelica Presbyteriana: In: Álvaro Reis, ed. Almanak Historico do O Puritano, Rio de Janeiro: Casa Editora Presbyteriana, 1902, p. 7-8.

[5]Rev. Antonio Trajano, Esboço Histórico da Egreja Evangelica Presbyteriana: In: Álvaro Reis, ed. Almanak Historico do O Puritano, p. 8.

[6]Rev. Antonio Trajano, Esboço Histórico da Egreja Evangelica Presbyteriana: In: Álvaro Reis, ed. Almanak Historico do O Puritano, Rio de Janeiro: Casa Editora Presbyteriana, 1902, p. 7-9; Boanerges Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1981, p. 24; Júlio A. Ferreira, História da Igreja Presbiteriana do Brasil, 2. ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, v. 1, p. 28.

[7]Diário, 25/11/61; 31/12/61; Boanerges Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, p. 24, Veja-se nota 131.

[8]Relatório de Simonton apresentado ao Presbitério do Rio de Janeiro no dia 10/07/1866: In: Coleção Carvalhosa – Relatórios Pastorais, 1866-1875, p. 4. (Fonte manuscrita).

[9]O Rev. Schneider chegou ao Brasil em 7/12/1861. Foi ele quem traduziu, entre outros, o livro de Charles Hodge, O Caminho da Vida, New York: Sociedade Americana de Tractados (s.d.), 300p., e o de seu filho, A.A. Hodge, Esboços de Theologia, Lisboa: Barata & Sanches, 1895, 620p.

[10]Diário, 14/01/1862.

[11]Vejam-se: Atas da Igreja do Rio de Janeiro; Relatório de Simonton apresentado ao Presbitério do Rio de Janeiro no dia 10/07/1866: In: Coleção Carvalhosa Relatórios Pastorais, 1866-1875, p. 7-8. (Fonte manuscrita); Vicente T. Lessa, Annaes da 1ª Egreja Presbyteriana de São Paulo, São Paulo: Edição da 1ª Egreja Presbyteriana Independente, 1938, p. 41; Rev. Antonio Trajano, Esboço Historico da Egreja Evangelica Presbyteriana: In: Álvaro Reis, ed. Almanak Historico do O Puritano, p. 8; Júlio A. Ferreira, História da Igreja Presbiteriana do Brasil, v. 1, 28-29.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (18)

3.3. É o Senhor mesmo quem cuida de seus servos

 

No primeiro dia de 1553, período turbulento, Calvino escreve a sua carta dedicatória dos comentários do Evangelho de João aos síndicos de Genebra. A certa altura diz:

 

Espontaneamente reconheço diante do mundo que mui longe estou de possuir a cuidadosa diligência e outras virtudes que a grandeza e a excelência do ofício requer de um bom pastor, e como continuamente lamento diante de Deus os numerosos pecados que obstruem meu progresso, assim me aventuro declarar que não estou destituído de honestidade e sinceridade na realização de meu dever.[1]

 

De fato, o Senhor que vocaciona os seus ministros também os capacita concedendo graça para realizarem a sua obra. Aliás, Deus sempre age assim. Ele não chama pessoas supostamente capacitadas. Quem de nós é suficiente? Também, não nos veste com fantasias com faixas e títulos que para nada mais servem senão para exibir a nossa vaidosa fragilidade. Não. A nossa suficiência vem de Deus. Isso é graça abundante (2Co 3.5/1Co 3.5; 4.7). Em síntese, Deus torna os seus escolhidos em pessoas competentes para realizarem a obra por Ele designada. Isso não significa perfeição ou a impossibilidade de quedas e evidente fragilidade durante o processo.

 

Calvino sabia disso. Por volta de 1556, escreveria: “É Deus quem nos equipa com o Espírito de poder. Pois aqueles que, por outro lado, revelam grande força, caem quando não são sustentados pelo poder do Espírito de Deus”.[2]

 

Tornemos às Escrituras.

 

Paulo durante a sua Primeira Viagem Missionária já se ocupava em fortalecer as igrejas, inclusive, constituindo as lideranças, rogando a Deus o discernimento para isso. Assim, mesmo correndo risco de morte, corajosamente voltou à região onde sofrera grande perseguição,[3] para fortalecer os irmãos. Parece que em Atos a pregação do Evangelho e a difusão do Reino, envolviam ser alvo de perseguição e morte. Os “heróis” de Atos tinham a cruz como companheira constante. A glória pressupõe a cruz. Esta pavimenta por vezes o caminho do cristão (At 14.22; Rm 8.17/2Tm 2.10-12[4]).[5]

 

Dentro do propósito apostólico de fortalecer e consolidar as igrejas a fim de que o Evangelho não caísse no esquecimento e as igrejas seguissem estruturadas com seus ofícios ordinários,[6] a sua agenda envolvia a eleição de presbíteros para que continuassem o ensino na igreja.[7] A rapidez do processo descrito pode ser explicada pela conversão de muitos judeus que, certamente, estavam familiarizados com as Escrituras do Antigo Testamento e, também, pelo trabalho missionário judaico entre os pagãos.[8] Lucas narra:

 

19 Sobrevieram, porém, judeus de Antioquia e Icônio e, instigando as multidões e apedrejando a Paulo, arrastaram-no para fora da cidade, dando-o por morto. 20 Rodeando-o, porém, os discípulos, levantou-se e entrou na cidade. No dia seguinte, partiu, com Barnabé, para Derbe. 21 E, tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, e Icônio, e Antioquia, 22 fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus. 23 E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição[9] de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram (parati/qhmi = confiar, entregar) ao Senhor (ku/rioj) em quem haviam crido. (At 14.19-23).

 

Notemos que os presbíteros que foram eleitos eram entre os crentes; os que criam no Senhor (At 14.23). E mais: eles, como todos os demais crentes, foram confiados ao Senhor da Igreja. Os presbíteros terão responsabilidades espirituais maiores (At 20.28), contudo, por graça, não são autônomos; continuam sendo do Senhor. Somente o Senhor pode nos confirmar em nosso trabalho e ofício. É Ele quem dirige e preserva a Igreja. A igreja deve orar por seus presbíteros. Os presbíteros devem orar pela igreja, reconhecendo a sua total incapacidade em conduzir o povo de Deus sem a bênção do Senhor. Orar é expressar a convicção de nossa total incapacidade e, ao mesmo tempo, total confiança no Senhor. Portanto, os presbíteros devem buscar instrução, discernimento e amparo no Senhor, à quem foram confiados.

 

Calvino comentando o texto, fala dos motivos da oração por parte de igreja:

 

O primeiro era que Deus os dirigisse com o Espírito de sabedoria e discrição a fim de que todos escolhessem os homens melhores e mais aptos. Pois bem sabiam que não eram dotados com tão grande sabedoria, que fossem isentos de engano, nem pusessem demasiada confiança em sua diligência pessoal, que não soubessem que a ênfase primordial é posta na bênção divina. Assim vemos diariamente que os critérios dos homens erram onde não se manifesta nenhuma diretriz celestial, e que em todos os labores nada resulta se a mão divina não estiver com eles. Estes são os genuínos auspícios dos santos: invocar o Espírito de Deus para que presida seus conselhos. E se esta é a regra a observar-se em todas as nossas atividades, então, no que diz respeito ao governo da Igreja, o qual depende inteiramente de sua vontade, devemos tomar todo cuidado para nada tentarmos senão tendo-o por Líder e Presidente.

Ora, seu segundo propósito em orar era para que Deus dotasse com os necessários dons àqueles que eram eleitos pastores. Pois o cumprimento deste ofício, tão fielmente quanto se deve, é uma atividade mais árdua do que a força humana é capaz de suportar. Portanto, imploram o auxílio divino também nesta conexão, com Paulo e Barnabé assumindo a liderança.[10]

 

Em outro lugar, acrescenta:

 

Como compreendessem estarem a fazer cousa de todas a mais séria, nada ousavam tentar senão com suma reverência e solicitude. Mais do que tudo, porém, aplicaram-se às preces, nas quais a Deus pedissem o Espírito de conselho e discernimento.[11]

 

Aqui está um grande conforto para a igreja e, em especial para os presbíteros e líderes em geral. Permaneçamos no âmbito de nossa vocação. A nossa esfera é anunciar a Palavra, alimentar e cuidar do rebanho. No entanto, não temos autoridade para ultrapassar a Palavra, nem dispomos de poderes para converter ninguém. Não queiramos ir além do que nos foi proposto e confiado. Somos pregadores e testemunhas. O sobrenatural desta missão pertence a Deus que revela já de início o seu misericordioso poder ao transformar pecadores em pregadores. Sem esta compreensão, corremos o sério risco de nos esgotarmos terrivelmente em nossas ansiedades criadas pela falta de compreensão do Evangelho de Deus, do que somos e de nossa missão.[12] A Grande Comissão não falhará; ela está totalmente sob a autoridade e poder do Deus Triúno.[13]

 

Um dos graves problemas com os quais nos deparamos em todas as esferas em nosso país, ainda que não exclusivamente, é a falta de autoridade moral.[14] Quando ativa ou passivamente, o desleixo, a corrupção e os abusos são cometidos em todas as esferas, num primeiro momento podemos ter uma justa indignação. Com o passar do tempo e o agravamento da situação, esta indignação inicial tende a assumir a postura de revolta individual e coletiva ou, ainda que não necessariamente de modo excludente, a ironia e o deboche. Neste processo, quer de forma coletiva e pública, quer mais sutilmente, de modo velado, o desrespeito às autoridades constituídas se torna comum.

 

Na questão eclesiástica local, pelo fato de estarmos muito próximos de nossos irmãos, onde a sua vulnerabilidade se torna mais evidente, podemos perder a dimensão da grandeza e responsabilidade de seu ofício, nos tornando críticos e levianos, pouco ou em nada nos lembrando de orar por eles. Paulo promoveu a eleição de presbíteros em cada igreja. A igreja deveria votar com apurado senso de reverência, confiando estes homens ao Senhor, conscientes de sua responsabilidade na condução da igreja. A vocação para um ofício eclesiástico não significa a deificação de alguém, antes a graça do chamado na vida de um pecador que, como os demais irmãos, está em busca de uma maior obediência a Deus.

Maringá, 21 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, p. 23.

[2] João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (2Tm 1.7), p. 204.

[3] “A popularidade universal está para os falsos profetas, assim como a perseguição para os verdadeiros” (John R.W. Stott, A Mensagem do Sermão do Monte, 3. ed. São Paulo: ABU, 1985, p. 44).

[4]“Fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus” (At 14.22). “Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e coherdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados” (Rm 8.17). 10 Por esta razão, tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles obtenham a salvação que está em Cristo Jesus, com eterna glória. 11 Fiel é esta palavra: Se já morremos com ele, também viveremos com ele; 12 se perseveramos, também com ele reinaremos; se o negamos, ele, por sua vez, nos negará” (2Tm 2.10-12).

[5]“Sofrimento, aflição, tribulações e testes – estes são dons que Deus nos dá para nosso crescimento, as pedras de pavimentação necessárias no caminho que conduz à plenitude de caráter e de alegria” (Bruce Ware, Cristo Jesus homem: Reflexões teológicas sobre a humanidade de Jesus Cristo, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2013, p. 108).

[6] “O programa missionário, para ser completo, há de visar à fundação de igrejas que a si mesmas governem, sustentem e promovam os meios de sua propagação. Foi sempre este o propósito e a prática do apóstolo Paulo”, escreveu em 1919 Erdman (1866-1960), antigo professor de Princeton (Charles R. Erdman, Atos dos Apóstolos, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1960, p. 112).

[7]Veja-se: John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries), 1996 (Reprinted), v. 19, (At 14.23), p. 27.

[8] “Duvido que, em poucos meses, Paulo pudesse indicar presbíteros numa congregação inteiramente composta de ex-pagãos e ex-idólatras. Nesse caso, é quase certo que teria havido um período de transição de missão para igreja, enquanto os presbíteros estariam sendo ensinados e treinados” (John R.W. Stott, A Mensagem de Atos: Até os confins da terra, São Paulo: ABU, (A Bíblia Fala Hoje),1994, (At 14.21-28), p. 267).

[9] A eleição aqui descrita parece ter sido feita pelo levantar das mãos (Xeirotone/w = xei/r = “mão” & tei/nw = “estender”), ainda que não necessariamente (* At 14.23; 2Co 8.19). Aliás, este costume não era estranho na Antiguidade. A votação era normalmente feita pelo ato de levantar as mãos; em Atenas por aclamação, ou por folhas de votantes ou pedras; em caso de desterro, o voto era secreto. (Veja-se o enriquecedor artigo de Sir Ernest Barker, Eleições no Mundo Antigo: In: Diógenes (Antologia), Brasília, DF.: Editora Universidade de Brasília, 1982, n° 2, p. 27-36). Vejam-se também: William F. Arndt; F. Wilbur Gingrich A Greek-English Lexicon of the New Testament, Chicago: The University of Chicago Press, 1957, p. 889; E. Lohse, xeirotone/w: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 9, p. 437; Horst Balz; G. Schneider, eds. Exegetical Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, MI.: Eerdmans, 1999 (Reprinted), v. 3, p. 465; Simon J. Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 2, (At 14.23-24), p. 43-46; R.C.H. Lenski, The Interpretation of the Acts of the Apostles, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, (Commentary on the New Testament), 1998, (At 14.23), p. 585-588. Quanto à disputa entre presbiterianos e episcopais concernente à interpretação do texto, veja-se o presbiteriano: J.A. Alexander, A Commentary on The Acts of the Apostles, Edinburgh: The Banner of Truth Trust, © 1857, 1991 (Reprinted), v. 2, (At 14.23), p. 65-66. Calvino tem uma palavra equilibrada sobre a “eleição” dos presbíteros: “Daí, ao ordenar pastores, o povo tinha uma eleição soberana; mas, no caso de haver alguma desordem, Paulo e Barnabé presidem como moderadores. Esta é a maneira como devemos entender a decisão do Concílio de Laodicéia, que proíbe que a eleição seja entregue ao povo comum” (John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries), 1996 (Reprinted), v. 19, (At 14.23), p. 28).

[10]John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries), 1996 (Reprinted), v. 19, (At 14.23), p. 28.

[11]J. Calvino, As Institutas, IV.3.12.

[12]“As pessoas ansiosas são cativadas por toda e qualquer forma de certezas que se lhe ofereçam, não importando quão irracionais sejam elas. Tais pessoas tornam-se vulneráveis a influências estranhas, e fazem coisas tolas” (J.I. Packer, O Plano de Deus para Você, 2. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2005, p. 102).

[13] Veja-se: Michael Horton, A Grande Comissão, São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 27-39.

[14]“O problema básico do mundo de hoje é problema de autoridade. O caos no mundo se deve ao fato de que, em todas as áreas da vida, as pessoas perderam todo o respeito pela autoridade, quer entre as nações ou entre regiões, quer na indústria, quer em casa, quer nas escolas, ou em toda e qualquer parte. A perda da autoridade! E, em minha opinião, tudo começa realmente no lar e na relação matrimonial” (D.M. Lloyd-Jones, Vida No Espírito: No Casamento, no Lar e no Trabalho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 87).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (17)

3.2.  A Igreja é guiada por meio de seus escolhidos

 

Quando Paulo se despede dos presbíteros de Éfeso lhe diz: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28).

 

A Igreja é um organismo e uma organização. Como organismo enfatizamos a sua eternidade dentro do propósito de Deus. Essa é a igreja invisível, santa e pura que se concretiza na história por meio da igreja como organização, identificada pela fiel proclamação da Palavra, a administração correta dos sacramentos e o exercício fiel da disciplina. Ambos os aspectos da mesma igreja são constituídos pelo Espírito. O organismo acentua a sua eternidade, espiritualidade e vitalidade. A organização demonstra a necessidade de esse organismo ser organizado materialmente por meio do seu modus operandi que envolve as suas estruturas, leis e ação na história. Por isso, a igreja precisará sempre ter uma estrutura administrativa, normas, liderança, etc. (Rm 12.8).

 

Bavinck escreve de forma esclarecedora:

O governo é indispensável para a igreja como ajuntamento dos crentes. Assim como um templo precisa de um arquiteto, o campo, de um semeador, uma vinha, de um tratador, uma rede, de um pescador, um rebanho de um pastor, um corpo, de uma cabeça, uma família, de um pai, um reino, de um rei, assim também a igreja é inconcebível sem uma autoridade que a sustente, oriente, cuide e proteja. Em certo sentido, ainda mais especial que no caso do campo político, essa autoridade se baseia em Deus. (…) Assim como no campo civil ele concedeu soberania ao governo, assim também na igreja ele designou Cristo para ser rei. (…) No entanto, (…) aprouve a ele, sem de forma nenhuma transferir sua soberania às pessoas, usar o serviço delas no exercício de sua soberania e pregar o evangelho por meio delas a todas as criaturas. Também nesse sentido, a igreja nunca ficou sem governo. Ela sempre foi organizada e institucionalizada de algum modo.[1]

 

Keller assim descreve a igreja mais propriamente como organização:

 

Para ser exercidos, esses dons têm de ser reconhecidos publicamente pela igreja, o que requer certa organização. Não há como exercitar o dom de liderança (Rm 12.8) sem que haja uma estrutura institucional: eleições, estatutos, ordenação e padrões de credenciamento. Ninguém consegue governar sem algum tipo de acordo feito pela igreja toda sobre os poderes conferidos aos governantes e como esses poderes serão exercitados legitimamente.[2]

 

O organismo vivencia a sua realidade por meio da igreja como instituição e como povo no exercício de sua vocação na sociedade. O problema é quando a sua estrutura organizacional nega em sua prática a espiritualidade de sua essência. Desse modo, um dos indícios dessa inversão é quando a estrutura eclesiástica passa a ser o grande e único foco da igreja à qual todas as demais coisas passam a estar subordinadas. Assim, o grande elemento identificador do sucesso profético dessa igreja é a sua riqueza, templos requintados, reconhecimentos e membresia. Junto com isso vêm o desejo de perpetuação no poder, o fascínio por cargos e comissões, os quais devem ser bem distribuídos para acalmar os corações sedentos por servir a Deus com mais conforto e visibilidade.

 

A expressão material de nossa fé não pode ser dissociada da essência da fé que brota e fundamenta-se na Palavra, caso contrário, será uma expressão de algo falso, apenas para ser professada, não para ser vivenciada. A vida manifesta a nossa fé.[3] Não há alternativa: Ou a nossa vida expressa de forma coerente a fé professada ou a nossa vida nega a nossa fé, revelando uma outra fé. Sem fé não vivemos!

 

Maringá, 21 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Herman Bavinck, Dogmática Reformada − Espírito Santo, Igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 333.

[2]Timothy Keller, Igreja centrada, São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 409.

[3] “A fé, sem a evidência de boas obras, é inutilmente pretendida, porque o fruto sempre provém da raiz viva de uma boa árvore” (John Calvin, Commentaries on the Epistle of James, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996, (Calvin’s Commentaries, v. 22/2), (Tg 2.18), p. 312).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (16)

3.1. O Senhor que vocaciona e confere autoridade aos seus servos

 

É somente pela vocação divina que os ministros da Igreja se tornam legalmente efetivados. Quem quer que se apresente sem ser convidado, seja qual for a erudição ou eloquência que o mesmo possua, esse não recebe autoridade alguma, porquanto não veio da parte de Deus. −João Calvino.[1]

 

Quando escolhemos os líderes de nossa igreja, estamos simplesmente reconhecendo o chamado e dos dons do Senhor. − Timothy Keller.[2]

 

Seja qual for a autoridade que eu possa ter como pregador, não é resultado de qualquer decisão da minha parte. Foi a mão de Deus que me tomou, me tirou e me separou para esta obra. Sou o que sou pela graça de Deus; e a Ele dou toda a glória − D.M. Lloyd-Jones.[3]

 

Uma das formas pelas quais Deus se vale para cuidar de sua Igreja, é vocacionando e habilitando seus servos para, por meio deles, alimentar e cuidar de seu rebanho. A vocação ministerial, por exemplo, é para o serviço, não para o domínio (1Pe 5.1-2). Lucas descreve de forma sucinta e reverente a vocação do Apóstolo Paulo e a comissão de Ananias:

 

15 Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; 16 pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome. 17 Então, Ananias foi e, entrando na casa, impôs sobre ele as mãos, dizendo: Saulo, irmão, o Senhor me enviou, a saber, o próprio Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas, para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo. (At 9.15-17).

 

Mais tarde, Paulo pôde escrever a Timóteo: “Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério” (1Tm 1.12).

 

No seu chamado, Paulo reconhecia a autoridade apostólica conferida pelo Senhor para a edificação da Igreja: “Porque, se eu me gloriar um pouco mais a respeito da nossa autoridade, a qual o Senhor nos conferiu para edificação e não para destruição vossa, não me envergonharei” (2Co 10.8/2Co 13.10;1Co 5.1-5).

 

Calvino acentuou a responsabilidade do presbítero. Entende que Deus se dignou em consagrar a si mesmo “as bocas e línguas dos homens, para que neles faça ressoar própria voz”.[4] Deste modo, os pastores não estão a seu próprio serviço, mas de Cristo; “são ministros de Cristo que servem à sua igreja”.[5] A igreja é a razão da existência desses ofícios (1Co 3.22; Ef 4.12). Eles buscam discípulos para Cristo, não seguidores para suas ideias e concepções pessoais.

 

Calvino mais uma vez nos instrui:

 

A fé não admite glorificação senão exclusivamente em Cristo. Segue-se que aqueles que exaltam excessivamente a homens, os privam de sua genuína grandeza. Pois a coisa mais importante de todas é que eles são ministros da fé, ou seja: conquistam seguidores, sim, mas não para eles mesmos, e, sim, para Cristo.[6]

 

É preciso que tenhamos esta consciência derivada do ensino bíblico. Deus é o Senhor da Igreja. É Ele quem constitui seus oficiais.

 

Deus manifesta a sua vontade por intermédio da eleição realizada pela assembleia da igreja conforme a sua forma de governo. Deus sabe sempre o que é melhor para a sua igreja ainda que nem sempre tenhamos a visão imediata do seu propósito, o que, diga-se de passagem, é mais do que natural.

 

Deus na condução de sua Igreja utiliza-se de seus servos a quem Ele mesmo escolhe e chama, sendo a Igreja o instrumento de Deus para a execução de parte desse processo.

 

Maringá, 21 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.31), p. 71.

[2] Timothy Keller, Igreja centrada, São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 409.

[3] D.M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 90.

[4]João Calvino, As Institutas, IV.1.5.

[5] Herman Bavinck, Dogmática Reformada − Espírito Santo, Igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 332.

[6]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 3.5), p. 101-102.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (15)

A Confissão de Westminster retrata com propriedade:

 

As igrejas mais puras debaixo do céu estão sujeitas à mistura e ao erro; algumas têm degenerado ao ponto de não serem mais igrejas de Cristo, mas sinagogas de Satanás; não obstante, haverá sempre sobre a terra uma igreja para adorar a Deus segundo a vontade dele mesmo. (XXV.5).

 

No entanto, o Senhor, o único cabeça da igreja a tem preservado, mesmo quando, por vezes, tudo parece perdido, como foi no período que antecedeu à Reforma (1517), durante o Iluminismo na Europa (1650-1800) e mesmo, de forma muito mais sutil, com o ecumenismo nos anos de 1960 e na falta de sentido de verdade do homem contemporâneo e mesmo em determinados círculos evangélicos.[1] Deus, o Cabeça da Igreja evidencia de forma poderosa o seu governo por meio de uma volta às Escrituras.

 

O Senhor não abandona a sua Igreja a despeito dos mais violentos e sutis ataques de Satanás. Ele está no controle.  Portanto, a Igreja que pretende ter outro cabeça não pode ser a verdadeira Igreja de Cristo. Não temos outro chefe ou cabeça, senão a Cristo, o Senhor. Mais uma vez recorro à Confissão de Westminster:

 

Não há outro Cabeça da Igreja senão o Senhor Jesus Cristo; em sentido algum pode ser o Papa de Roma o cabeça dela, mas ele é aquele anticristo, aquele homem do pecado e filho da perdição que se exalta na Igreja contra Cristo e contra tudo o que se chama Deus. (XXV.6).

 

Isso significa que os momentos de maior fortalecimento da igreja na história sempre estiveram associados à compreensão da natureza gloriosa de Jesus Cristo. Por outro lado, a igreja entra em profunda decadência espiritual, a sua pregação se desvia das Escrituras, quando ela perde a dimensão da glória, grandeza e singularidade de Jesus Cristo.

 

É observável historicamente que os momentos de maior fortalecimento da igreja sempre estiveram associados à compreensão da natureza gloriosa de Jesus Cristo. Por outro lado, a igreja entra em profunda decadência espiritual, a sua pregação se desvia das Escrituras, quando ela perde a dimensão da glória, grandeza e singularidade de Jesus Cristo. Fica claro que a pregação expositiva e, por sua vez, o seu abandono, é um dos indicadores do lugar que Cristo ocupa na igreja. O nível espiritual da igreja nunca está acima de seu púlpito.

 

A Reforma espiritual da igreja começa pelo púlpito, por aquilo que é pregado e ensinado em nossas igrejas, acompanhado de oração, suplicando a misericórdia de Deus que ilumine as nossas mentes e aqueça os nossos corações nos conduzindo ao arrependimento e à obediência sincera ao Senhor. Essa transformação se estende à vida e família dos fiéis, e faz diferença em todos os seus relacionamentos.

 

Vale lembrar que o estudo e o ensino da doutrina não visam mostrar o quanto conhecemos a Palavra e, ao mesmo tempo, o quão distante estão os outros de conhecerem como conhecemos. Esse tipo de farisaísmo religioso, arrogante e satisfeito consigo mesmo, identificador prazeroso dos erros dos demais, colocando-se num patamar acima, deve estar totalmente distante de nós. Este tipo de pensamento e comportamento é o que há de mais estranho ao verdadeiro conhecimento pessoal de Deus por meio de sua Palavra e, consequentemente, de nossa vivência com ele.

 

O conhecimento de Deus nunca é estéril, antes, é frutuoso em obediência e piedade. Portanto, não esperemos agradar a Deus sendo-lhe desobediente, desonrando o seu Filho.

 

Um dos pontos cruciais da Reforma, herdado dos pré-reformadores, foi a supremacia de Cristo sobre a Igreja. A Igreja não pertence a homens. Ela deve ser governada por Cristo que o faz por meio de sua Palavra. A igreja como Corpo de Cristo deve ser seu agente na história, evidenciando a supremacia dele em sua fé, ensinamentos e atitudes. O pré-reformador João Huss (c. 1369-1415)[2] morreu por esta verdade, sendo queimado vivo em 1415.

 

A igreja como Corpo de Cristo tem sido fortalecida na força de seu poder e, é por isso que ela ultrapassa em muito a nossa capacidade de compreensão e explicação. Ela é o povo de Deus, os ramos da videira, o edifício fundamentado em Cristo, as ovelhas, sob a direção e cuidado do Sumo Pastor.[3] Somos o povo de Deus, propriedade exclusiva dele (1Pe 2.9-10). Ninguém poderá nos destruir. O Senhor reina sobre todas as coisas e a Igreja é o seu corpo presente na história que está sendo formado e aperfeiçoado até a consumação vitoriosa de sua obra.

 

Em Ef 1.16-23 o apóstolo ora para que a igreja, mesmo nos momentos de abatimento e fraqueza tenha os seus olhos iluminados para saber esta verdade revelada, compreendendo-a pelo Espírito de sabedoria que nos foi concedido.

 

A cosmovisão cristã obviamente não se aplica apenas a esta vida, antes, tem um sentido escatológico, aponta para o fim, quando Cristo será plenamente glorificado, consumando a sua obra na criação. A escatologia é a consumação natural do plano de Deus na sua historificação temporal.

 

A Escatologia é precedida de uma história realizada – vivemos a agimos em correspondência à nossa fé e vocação. A história aponta para uma escatologia decisiva. Desta forma, olhando pelo prisma da escatologia, podemos dizer que a história é escatológica, visto que para lá ela caminha de forma progressiva e realizante: A história se consumará na não história, no atemporal e eterno. Por outro lado, a escatologia confere sentido à história.

 

A fé da Igreja respalda-se em um fato histórico, e nutre-se da esperança que emana da promessa de Deus: “A esperança é o alimento e a força da fé”.[4] E, quanto ao tempo, devemos ter em mente esta certeza: “Os tempos estão nas mãos e à disposição de Deus, de modo que devemos crer que tudo é feito na ordem prefixada e no tempo predeterminado”.[5]

 

O Senhor Jesus também anela pela conclusão de sua obra quando ele estará completo como cabeça, tendo o seu corpo completado e perfeito, totalmente enchido por ele (Ef 1.23). Já nesse estado de existência, a Igreja pode declarar com fé em alto e bom som:

 

31Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? 32 Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? 33 Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. 34 Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. 35 Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? 36 Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. 37 Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. 38 Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, 39 nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8.31-39).

 

 

Maringá, 21 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] “Hoje vivemos numa igreja que se incomoda menos com a verdade que com qualquer artigo. O amor à verdade não é nem mesmo uma virtude: é um defeito, porque a verdade divide as pessoas. A verdade causa controvérsia. A verdade causa debate. A verdade causa transtorno aos relacionamentos. A verdade crucifica pessoas. Jesus afirmou: ‘Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz’ (Jo 18.37)” (R.C. Sproul, Oh! Como amo a tua lei. In: Don Kistler, org. Crer e Observar: o cristão e a obediência, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 19).

[2]Huss, pregador da Capela de Belém e professor e Reitor da Universidade de Praga, fora excomungado em 1412 por ter aderido às ideias de Wycliff, tendo pregado contra as indulgências, desafiado a autoridade do papa e enfatizado a autoridade das Escrituras. Em 1415 compareceu no Concílio de Constança (1414-1418), na Alemanha, sendo supostamente protegido por um salvo-conduto do Imperador, que terminou por ser suspenso pelo papa, sob a alegação de “não era necessário manter a palavra dada a um herege” e de que “ele jamais concedera qualquer salvo-conduto, e que não estava obrigado a seguir aquele que fora emitido pelo imperador alemão”. Foi queimado vivo. Fox narra as suas palavras ditas ao carrasco: “Vais assar um ganso (pois o nome Huss significa ganso na língua Boêmia), porém dentro de um século surgirá um cisne que não poderão nem assar e nem ferver”. Fox interpreta: “Se Huss neste momento disse uma profecia, deve ter se referido a Martinho Lutero, que apareceu ao final de aproximadamente cem anos, e em cujo escudo de armas tinha a figura de um cisne” (John Fox, O Livro dos Mártires, 4. ed. Rio de Janeiro: CPAD., 2002, p. 166). (Ver: Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2000, p. 192; André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 39; Robert G. Clouse, Richard V. Pierard e Edwin M. Yamauchi, Dois Reinos – A Igreja e a Cultura interagindo ao longo dos séculos, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 216; John Fox, O Livro dos Mártires, p. 162-166; John MacArthur, Por que ainda prego a Bíblia após quarenta anos de ministério: In: Mark Dever, ed., A Pregação da Cruz, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 142-143; John MacArthur, Escravo: A verdade escondida sobre nossa identidade em Cristo, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2012, p. 65-75.

[3] “Ele não pode ser nossa Cabeça a não ser que também seja simultaneamente nosso Pastor, tendo sobre nós toda autoridade” (João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 183).

[4]J. Calvino, As Institutas, III.2.43.

[5]João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (Tt 1.3), p. 303.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (14)

3. Cristo como Senhor e cabeça da Igreja[1]

 

22E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, 23 a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.22-23).

 

Estes versos aludem a algumas verdades que queremos destacar, me concentrando em uma delas:

 

 1) É-nos dito que Cristo é o Senhor de todas as coisas. Tudo está debaixo de seus pés. Toda a realidade está sob o seu domínio.  Ele governa todas as coisas, conhecidas e ignoradas por nós, visíveis e invisíveis. O seu domínio não está limitado à nossa compreensão e abrangências do real: “E pôs todas as coisas debaixo dos pés” (Ef 1.22). Deste modo, o universo, as incontáveis galáxias, a história, os governantes, os pássaros e os fios de cabelo que caem, aquilo que ocupa a sua mente neste momento e inquieta o seu coração, nada escapa ao seu poder e controle. Nada lhe é indiferente. Nada lhe é estranho.

 

A abrangência de seu domínio não exclui a particularidade de seu poder e controle. Isso também envolve a Satanás e os seus anjos. Não há poderes neste mundo, nem no porvir que estejam fora da esfera de domínio do Senhor ressurreto.

 

2) Ele é Senhor do universo. No entanto, a sua providência é especialíssima,[2] se manifestando no seu cuidado amoroso para com a Igreja, que é o seu corpo. A Igreja como Israel de Deus é a menina dos seus olhos (Zc 2.8/Dt 32.10). Esta certeza faz parte essencial da fé cristã.

 

Deus preserva a Igreja em todas as circunstâncias. Mesmo nas noites mais trevosas de nossas angústias, podemos ter a certeza de que ninguém pode nos separar de Cristo (Rm 8.31-39). Estamos guardados e protegidos em suas poderosas mãos (Jo 10.28-30).[3] Esta convicção é um antídoto poderoso e eficaz contra a nossa angústia e depressão, nos capacitando resistir às tentações que procuram produzir em nós a sensação de solidão, fraqueza e desamparo. Isso é motivo de grande estímulo, conforto e alegria para todos nós.

 

Turretini (1623-1687) escreve de modo penetrante:

 

Da confiança na providência provém a mais profunda consolação e incrível tranquilidade mental para os santos. Ela os leva a repousar serenamente no seio de Deus e a encomendar-se inteiramente ao seu paternal cuidado, esperando sempre dele o bem no futuro, não duvidando de que Ele sempre cumprirá o ofício de um Pai para com eles, conferindo o bem e afastando os males; exemplos disso temos em Davi (1Sm 17.37; Sl 23.1,4,6) e em Paulo (2Tm 4.17,18). Sentem eles que sob a proteção de Deus (o qual tem todas as criaturas em seu poder), não negligenciando indolentemente os meios, nem preocupadamente pondo neles a confiança, usando-os, porém, prudentemente segundo o seu mandamento, lançam todos os seus cuidados sobre o Senhor (1Pe 5.7) e, em todas as suas perplexidades, sempre exclamam com o pai dos fiéis: “O Senhor proverá”.[4]

 

3) A glória de Cristo se tornará plena e completa por meio da Igreja, quando Ele mesmo consumar a obra, enchendo a igreja e sendo cheio por ela em alegria e amor (Ef 1.23).

 

Paulo diz que Jesus Cristo ressurreto, evidencia a supremacia do poder do Pai e do Filho, sendo constituído o cabeça sobre todas as coisas e, como evidência disso, o Pai o deu à Igreja. Do mesmo modo, escrevendo aos Colossenes, afirmou: 9porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade. 10Também, nele, estais aperfeiçoados. Ele é o cabeça de todo principado e potestade” (Cl 2.9-10).

 

A Igreja é comandada por Cristo como o cabeça e, ao mesmo tempo tem a sua vitalidade em Cristo como a cabeça. Ele é que é o cabeça, quem comanda e dirige a Igreja e, é a cabeça quem a completa em um único Corpo. Aqui temos um sentido escatológico visto que “Cristo não pode ser perfeito como um Cristo místico, a menos que seus membros sejam ressuscitados com ele”, escreve Watson (c. 1620-1686).[5]

 

Paulo quando usa a metáfora da Igreja como Corpo, aplica a singularidade do nome de Cristo: “Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo” (1Co 12.12).

 

A força e vitalidade da Igreja estão na cabeça que é Cristo. Paulo não trata da glória da Igreja divorciada da glória de Cristo porque isso seria impossível. Por isso é que antes de falar da igreja ele já tratou da Pessoa de Cristo (Ef 1.3-13). Sem esta compreensão, a Igreja se perderá em seus descaminhos fruto de uma compreensão errada de sua natureza e propósito. A Igreja está unida a Cristo em uma santa e perpétua união.[6] Por isso, nos adverte Calvino: “toda teologia, quando alienada de Cristo, é não só vã e confusa, mas também nociva, enganosa e espúria”.[7]

 

Não podemos falar do corpo em detrimento de sua cabeça.[8] Fazer esta separação significa dilacerar, esquartejar o Corpo de Cristo e, consequentemente a Cabeça. Sem Cristo a igreja está morta. Todos os nervos, veias e músculos estão conectados à cabeça, que lhes comanda. Não há vida real fora do cérebro. Do mesmo modo, na Igreja, não há vida fora de Cristo. Não há independência. Tratar da igreja à revelia de Cristo é fazer uma autópsia de um corpo morto. A nossa união não é mecânica, nem artificial, antes, é orgânica e vital. Somos unidos e guiados pelo mesmo Espírito, em um só corpo, cuja cabeça é Cristo.[9]

 

Todas as bênçãos, todos os privilégios da vida cristã, emanam do fato de que estamos unidos a Cristo. Jesus Cristo não é uma peça decorativa, ou simbólica, antes, dele provém toda glória, poder e autoridade. A criação foi estabelecida nele e para Ele.

 

16 pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. 17 Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. 18Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia (Cl 1.16-18).

 

Com o pecado, a condição de Cabeça da Criação assume aspecto redentivo. O Senhor que comprou a Igreja com o seu próprio sangue, nos conduz de volta a Deus. Ele mesmo nos comunica as bênçãos adquiridas para nós por meio de sua morte e ressurreição.[10] Todos os servos de Deus, por mais proeminentes que sejam ou tenham sido, não têm vida em si mesmos.[11] Independência é morte (Jo 15.1-8).[12]

 

“Nossa verdadeira plenitude e perfeição consiste em estarmos unidos no Corpo de Cristo”, exulta Calvino.[13] Portanto, não podemos separar o que Deus prazerosamente uniu desde a eternidade.

 

A visão correta a respeito da Igreja passa, necessariamente, pela correta compreensão de quem é o Cristo, o Filho de Deus. Por isso, uma Cristologia defeituosa, anencéfala – justamente por não corresponder à plenitude da revelação bíblica – gera necessariamente uma eclesiologia distante das Escrituras, tão adequável a manipulações e interesses estranhos a elas. E, ao mesmo tempo, produz uma visão míope da realidade e de nosso papel na sociedade como povo de Deus. Considerar a Igreja fora de Cristo é um exercício de necropsia não de teologia.

 

Bavinck acentua com precisão:

 

A doutrina de Cristo não é o ponto de partida, mas certamente é o ponto central de todo o sistema dogmático. Todos os outros dogmas ou preparam para ela ou são inferidos dela. Nela, que é o coração da dogmática, pulsa toda a vida eticorreligiosa do Cristianismo.[14]

 

Ao longo da história, a igreja tem enfrentado os mais variados ataques, perseguições, heresias, tentações, esfriamento de sua fé. No entanto, Cristo supre a Igreja com tudo o que é necessário para a sua existência e crescimento. Ele a prepara para os momentos de paz, bonança e, também para as intempéries, guerras, perseguições e abatimentos. A igreja nunca viveu sem oposição e, paradoxalmente, essa costuma ser a sua melhor fase.[15]

 

 

Maringá, 21 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]Sobre este capítulo, veja-se: Hermisten M.P. Costa, Introdução à Cosmovisão Reformada, Goiânia, GO.: Editora Cruz, 2017.

[2]Veja-se: J. Calvino, As Institutas, I.17.6.

[3] É muito sugestiva a análise do uso bíblica da expressão “mão de Deus”, demonstrando como o Deus pessoal cuida de seu povo dentro das categorias tempo e espaço, bem como além e depois (Veja-se: Francis A. Schaeffer, Não Há Gente Sem Importância, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 31-41).

[4]François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 676.

[5]Thomas Watson, A Fé Cristã, estudos baseados no breve catecismo de Westminster, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 351.

[6] “Pensar em Cristo sem a igreja é separar o que Deus uniu em santa união” (Joel Beeke, Coisas Gloriosas são ditas sobre Ti. In: John MacArthur, et. al. Avante, Soldados de Cristo: uma reafirmação bíblica da Igreja, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 33).

[7]João Calvino, Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 2, (Jo 14.6), p. 93.

[8] Vejam-se as pertinentes observações de Jacques de Senarclens, Herdeiros da Reforma, São Paulo: ASTE., 1970, p. 330-331.

[9] “É-nos suficiente saber que Cristo e seu povo são realmente um. São tão verdadeiramente um como a cabeça e os membros do mesmo corpo, e pela mesma razão; são envolvidos e animados pelo mesmo Espírito. Não se trata meramente de uma união de sentimentos, ideias e interesses. Esta é só a consequência da união vital na qual as Escrituras põem tanta ênfase” (Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos, 2001, p. 1004).

[10]Veja-se: João Calvino, evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2015, v. 2, (Jo 17.21), p. 200-201.

[11]Veja-se: João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 182-183.

[12]Veja-se: D. M. Lloyd-Jones, O supremo propósito de Deus: Exposição sobre Efésios 1.1-23, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 410-411.

[13]João Calvino, Efésios, (Ef 4.12), p. 124.

[14]Herman Bavinck, Dogmática Reformada: O pecado e a salvação em Cristo, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 3, p. 279. Vejam-se: Wolfhart Pannenberg, Fundamentos de Cristologia, Barcelona: Ediciones Sígueme, 1973, p. 27-28; Donald M. Baillie, Deus Estava em Cristo, São Paulo: ASTE., 1964, p. 51; Carl E. Braaten, A Pessoa de Jesus Cristo: In: Carl E. Braaten; Robert W. Jenson, eds. Dogmática Cristã, São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1990, v. 1, p. 459; Millard J. Erickson, Introdução à Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 275.

[15]Veja-se: Gene Edward Veith, Jr., De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 93.

 A lenda do Corpus Christi e o significado real da Ceia do Senhor (4)

9. Nutrimo-nos de Cristo

 

“Grande mistério!” – Agostinho.[1]

 

A Confissão de Westminster, declara:

 

Os que comungam dignamente, participando exteriormente dos elementos visíveis deste sacramento, também recebem intimamente, pela fé, a Cristo crucificado e todos os benefícios da sua morte, e nele se alimentam, não carnal ou corporalmente, mas real, verdadeira e espiritualmente, não estando o corpo e o sangue de Cristo, corporal ou carnalmente nos elementos pão e vinho, nem com eles ou sob eles, mas espiritual e realmente presentes à fé dos crentes nessa ordenança, como estão os próprios elementos aos seus sentidos corporais. (XXIX.7).

 

A Igreja está vital e indissoluvelmente unida a Cristo. Esta união implica em nos alimentarmos – simbólica e sacramentalmente – do Seu corpo e do Seu sangue (Jo 6.53).[2] Aliás, não há outro alimento para a Igreja que não provenha de Cristo, visto que Ele mesmo “é o único alimento que nutre nossas almas”.[3] Ou seja, somos alimentados pela fé, mediante as operações do Espírito Santo em nós.[4] A Ceia é o sacramento da maturação, do crescimento espiritual.[5]

 

Na Ceia não somos apenas testemunhas de um fato histórico, antes, somos participantes e beneficiários do milagre que se repete em nossa existência. Todas as vezes que comemos do pão e bebemos do cálice somos alimentados “pela boca da fé”.[6] Ao longo da história o Senhor tem nos alimentado com pão suficiente para nos conduzir até à consumação de Sua obra salvífica.[7]

 

A questão é: Quando vimos à Ceia, estamos de fato famintos de Deus e da Sua Palavra? Calvino diz que seria uma zombaria vir buscar o alimento sem este santo apetite. Porém, reconhece que esta disposição é operada pelo Espírito. “Daí segue-se que nossas almas devem estar famintas, e ter um desejo e zelo ardente de serem saciadas, para bem encontrar sua comida na Ceia do Senhor”.[8]

 

Jesus diz aos Seus discípulos: “…. Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue, permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente eu vivo pelo Pai; também quem de mim se alimenta, por mim viverá” (Jo 6.53-57).

 

Assim como o pão e o vinho alimentam a nossa carne, o corpo e o sangue de Cristo, representados nos elementos da Ceia, nos alimentam espiritualmente.[9] A Santa Ceia, portanto, é um meio de graça por meio do qual Cristo nos alimenta, fortalecendo e vivificando a nossa fé,[10] sendo esta “única boca e estômago da alma”.[11]

 

Aqui há um indicativo de nossa condição de pecadores, ainda que não acomodados nesta situação pois, se fôssemos perfeitos, para que participar da Ceia? Certamente, Ela perderia em grande parte o seu sentido.

 

Portanto, a nossa participação aponta para a nossa imperfeição e, ao mesmo tempo, para o nosso desejo de nos alimentar de Cristo.[12] Na Ceia denunciamos que somos pecadores e, ao mesmo tempo, proclamamos o desejo e a esperança de não permanecer no pecado.

 

Ridderbos (1909-2007) faz um resumo esclarecedor:

 

Quando Jesus dá a Seus discípulos Seu corpo e Seu sangue, o milagre consiste no fato de que Ele está dando a Si próprio aos Seus, para que eles possam comer e beber e assim ser participantes no Seu sacrifício. Pois o fruto do sacrifício que Jesus oferece é comida e bebida sempre presentes, é a fonte da força e alegria para a Sua Igreja. Quando, na Sagrada Comunhão Jesus dá aos Seus o pão e o vinho como Seu corpo e Seu sangue, Ele os faz participantes destes benefícios de Sua morte.[13]

 

Considerações finais

 

Daqui, alguns devem ser enfatizados:

 

 1) A eficácia da Ceia não depende de quem a administra

 

Os benefícios espirituais da Ceia não estão restritos à fidelidade daqueles que a ministram. Deus pode abençoar-nos até mesmo por intermédio de um falso servo Seu. O que realmente faz, Se assim O quiser. Portanto, a eficácia da Ceia depende da ação abençoadora de Deus.[14]

 

     2) A eficácia reside no Espírito, não nos elementos da Ceia

 

Os elementos da Ceia permanecem o que são, pão e vinho. Eles não passam por nenhuma transformação metafísica: “A relação entre o pão e o vinho, e o corpo e o sangue, é puramente moral ou representativa”.[15]

 

Calvino comenta:

 

Deus usa o sinal como instrumento. Não que o poder de Deus esteja encarcerado no sinal, mas Ele no-lo distribui por meio destes expedientes, em virtude da fragilidade de nossa capacidade (…). Nada mais é atribuído ao sinal além de ser ele um instrumento, por si mesmo destituído de qualquer valor, exceto até onde ele deriva seu poder de outra fonte.[16]

 

Portanto, a graça que recebemos não é automática, como se os elementos tivessem poder em si mesmos. É o Espírito Quem nos abençoa por meio da Eucaristia. O sinal é ineficaz sem o Espírito.

 

 

3) É necessária fé daqueles que recebem os elementos

A efetividade do sacramento é o que é, porém, somente aqueles que creem em Cristo e participam condignamente da Ceia usufruem dos benefícios que o Espírito nos comunica.[17] “Os incrédulos podem receber os elementos externos, mas não recebem as coisas simbolizadas por eles”.[18] Recebem o sacramento, mas não o Cristo que dá sentido ao mesmo.[19] Por isso, a Ceia não é um meio indiscriminado de graça; ela o é para o povo eleito de Deus que participa condignamente deste sacramento.[20] Os elementos não operam por si mesmos (ex opera operato), independentemente de Deus.[21] O Espírito é Quem opera em nós “para que os ouvidos não percuta em vão a Palavra, para que aos olhos não verberem em vão os sacramentos”.[22] Continua o Reformador: “Deus assim age por meio do sinal, para que toda a eficácia dependa do Seu Espírito”.[23]

 

Deve ser enfatizado, que o valor dos sacramentos não está puramente no âmbito subjetivo da fé. Eles são o que são porque o Senhor estabeleceu esta relação abençoadora. Foi Ele Quem disse: “Tomai, comei; isto é o meu corpo” e “Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança”.[24]

 

Por intermédio da Ceia Deus comunica-nos bênçãos espirituais; no entanto, se participarmos “carnalmente” da Ceia, não diminuiremos o seu valor objetivo, no entanto, deixaremos de receber as bênçãos de Deus.[25] Na Ceia, portanto, há um valor objetivo, real e abençoador. E, também, um sentido subjetivo, que só se tornará concreto, para aqueles que se alimentam e se fortalecem de Cristo neste sacramento participando dele com fé.

 

Na questão 81 do Catecismo de Heidelberg (1563), lemos: “Quem deve aproximar-se da Mesa do Senhor?”:

R. Aqueles que estão descontentes consigo mesmos por causa dos seus pecados, e que contudo confiam que estes lhes foram perdoados e que a sua fraqueza remanescente é coberta pela paixão e morte de Cristo, e que também desejam mais e mais fortalecer sua fé e melhorar sua vida. Mas, os impenitentes e hipócritas comem e bebem para si mesmos julgamento.

 

A nossa participação na Ceia importa no nosso compromisso voluntário de nos dedicar inteiramente ao serviço do Senhor até que Ele venha. Maranata!

 

 

Maringá, 19 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


 

[1] Agostinho, On The Gospel of St. John: In: Philip Schaff, ed. Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, 2. ed. (First series), Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1995, v. 7, Tractate XXV.15, p. 165b.

[2] Aliás, pelas narrativas da instituição da Ceia (Mt 26.26-29; Mc 14.22-25; Lc 22.15-20), provavelmente Jesus Cristo não comeu do pão nem bebeu do vinho. “É difícil imaginar Jesus comendo simbolicamente seu próprio corpo” (Herman Ridderbos, A Vinda do Reino, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 296).

[3] Juan Calvino, Breve Tratado Sobre La Santa Cena: In: Tratados Breves, Buenos Aires; México: La Aurora; Casa Unida de Publicaciones, 1959, p. 10.

[4]Veja-se: A.A. Hodge, Comentario de La Confesion de Fe de Westminster, Barcelona: CLIE., (1987), p. 336.

[5]Cf. Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Espírito Santo, igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 585.

[6] Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Espírito Santo, igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 574. Vejam-se também: Confissão Belga (1561), Art. 35; Thomas Watson, A Ceia do Senhor, Recife, Pe.: Os Puritanos, 2015, p. 55.

[7] Herman Ridderbos, A Vinda do Reino, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 298.

[8]João Calvino,  Pequeno tratado da Santa Ceia (1541): In: Eduardo Galasso Faria, ed. João Calvino: Textos Escolhidos, São Paulo: Pendão Real, 2008, p. 157.

[9]Veja-se: Juan Calvino, Catecismo de la Iglesia de Ginebra, Perg. 341.

[10] “Os sacramentos verdadeiramente se chamam testemunhos da graça de Deus e como dir-se-ão selos da benevolência de que foi possuído para conosco, os quais, em no-la selando, deste modo nos sustêm, nutrem, firmam, aumentam a fé” (João Calvino, As Institutas, IV.14.7). Veja-se: Segunda Confissão Helvética (1566), 21.6,8

[11] João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 6.56), p. 290.

[12] “Em vão seria instituída a Ceia se ninguém fosse capaz de recebê-la senão o que de todo fosse perfeito. (…) Se fôssemos perfeitos, nenhuma necessidade teríamos da Ceia, porque nos é dada para socorro de nossa imperfeição, e para ajuda e alívio de nossa fraqueza” (Juan Calvino, Catecismo de la Iglesia de Ginebra, Pergs. 360-361). Vejam-se: João Calvino, Pequeno tratado da Santa Ceia (1541): In: Eduardo Galasso Faria, ed. João Calvino: Textos Escolhidos, São Paulo: Pendão Real, 2008, p. 158-160; João Calvino, As Institutas, IV.17.10; João Calvino, Confissão Gaulesa, (1559), Arts. 36-37.

[13]H.N. Ridderbos, O Testemunho de Mateus Acerca de Jesus Cristo, Patrocínio, MG.: CEIBEL, 1980, p. 85.

[14] Vejam-se: J. Calvino, As Institutas, IV.14.17; Catecismo Menor de Westminster, Perg. 91.

[15] A.A. Hodge, Comentario de La Confesion de Fe de Westminster, Barcelona: CLIE., (1987), p. 336.

[16]J. Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef. 5.26), p. 169.

[17] Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Espírito Santo, igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 584. “Quando o sacramento é recebido com fé, a graça de Deus o acompanha” (L. Berkhof, Teologia Sistemática, p. 623).

[18] L. Berkhof, Teologia Sistemática, p. 662. “Ainda que os ignorantes e os ímpios recebam os elementos visíveis deste sacramento, não recebem a coisa por eles significada, mas, pela sua indigna participação, tornam-se réus do corpo e do sangue do Senhor para a sua própria condenação; portanto eles como são indignos de gozar comunhão com o Senhor, são também indignos da sua mesa, e não podem, sem grande pecado contra Cristo, participar destes santos mistérios nem a eles ser admitidos, enquanto permanecerem nesse estado” (Confissão de Westminster, 29.8). A.A. Hodge, comenta: “Este (o incrédulo) recebe o sinal externo com sua boca, porém não recebe a graça interna em sua alma, e só aumenta sua própria condenação e endurece seu coração por fazê-lo indignamente” (A.A. Hodge, Comentario de La Confesion de Fe de Westminster, Barcelona: CLIE., (1987), p. 336). Do mesmo modo: Consensus Tigurinus, Art. 17; Joel R. Beeke; Mark Jones, orgs. Teologia Puritana: Doutrina para a vida.  São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 1057.

[19] Veja-se: Confissão Belga, Art. 35.

[20] Cf. Consensus Tigurinus, Art. 16. Vejam-se: Charles Hodge, Systematic Theology, v. 3, p. 632; Philip Schaff, The Creeds of Christendom, 6. ed. (Revised and Enlarged), Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1998 (Reprinted), v. 1, p. 472.

[21] Veja-se: Joel R. Beeke; Mark Jones, orgs. Teologia Puritana: Doutrina para a vida.  São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 1056.

[22] João. Calvino, As Institutas, IV.14.10. Veja-se também: As Institutas, IV.14.17.

[23] João Calvino, Efésios, (Ef 5.26), p. 169. Ver também: As Institutas, IV.14.8-10.

[24]Em outras palavras: “O sacramento, com respeito a Deus, é um sacramento mesmo sem a fé, mas, com respeito a nós, sem a fé ele é um sinal vazio” (François Turretini, Compêndio de Teologia, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 3, p. 619). Veja-se: Herman Ridderbos, A Vinda do Reino, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 314.

[25]Veja-se: Agostinho, On The Gospel of St. John: In: Philip Schaff, ed. Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, 2. ed. (First series), Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1995, v. 7, Tractate XXVII.7, p. 175-176.