Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (35)  

10.1.2.Mansidão (Ef 4.2)

1) Significado da palavra mansidão

 

O Novo Testamento dispõe de duas palavras que são empregadas indistintamente: Prau/+thj (que é usada neste texto) e prao/thj,[1] que significam: gentileza, humildade, cortesia, consideração, amabilidade, meiguice, brandura. Elas indicavam uma “amizade suave e gentil”.

 

Barclay (1907-1978) traz uma palavra esclarecedora:

 

No grego clássico, esta é uma palavra encantadora. A respeito dos objetos significa “suave”. É usada, por exemplo, a respeito de uma brisa ou uma voz suave. A respeito das pessoas significa “brando” ou “gracioso”. Há um fragmento de Menandro que diz: “Quão doce é um pai que é meigo e jovem de coração”. Seria verdade dizer que no grego clássico é uma palavra carinhosa. Na realidade, Xenofonte usou o plural neutro do adjetivo no sentido de “carinhos”. É caracteristicamente uma palavra de bondade e graciosidade.[2]

 

Aristóteles (384-322 a.C.), seguindo a sua metodologia de encontrar o meio termo virtuoso entre os extremos, a colocou como o ponto central entre a ira excessiva (o)rgilo/thj)[3] e a total passividade (a)orghsi/a)[4].[5] Sócrates (469-399 a.C.) dizia que o amor incute em nós a “brandura”, excluindo a rudeza.[6] Esta virtude, apreciada de modo especial nas mulheres, era uma característica comum atribuída às deusas gregas.[7]

 

Portanto, podemos dizer que “Praus é a palavra em que força e suavidade estão perfeitamente combinadas”.[8]

 

2) Mansidão x fraqueza

 

Mansidão não é sinônimo de fraqueza, indolência ou indiferença. Facilmente podemos confundir tais comportamentos. A mansidão não é apenas uma atitude externa, antes, é uma atitude interior, um controle interno dos impulsos vingativos e reivindicatórios que inesperadamente nos assaltam.

 

Lloyd-Jones comenta:

 

A mansidão é compatível com grande força de caráter. A mansidão é compatível com grande autoridade e poder. (…) O homem manso é aquele que acredita em defender com tal empenho a verdade que se dispõe até a morrer por ela, se for necessário. Os mártires foram pessoas mansas, mas jamais foram débeis. Foram homens fortes, e, contudo, mansos.[9]

 

Nas páginas do Novo Testamento, encontramos Tiago contrastando a mansidão com a ira:

 

Sabeis estas coisas, meus amados irmãos. Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar (o)rgh/).[10] Porque a ira (o)rgh/) do homem não produz a justiça de Deus. Portanto, despojando-vos de toda impureza e acúmulo de maldade (kaki/a),[11] acolhei (de/xomai),[12] com mansidão (prau=+thj), a palavra em vós implantada (e)/mfutoj[13]= “semeada”), que é poderosa para salvar a vossa alma. (Tg 1.19-21).

 

Dentro de outra perspectiva, podemos observar que muitas vezes enfrentamos alguns problemas, não pelo que dissemos, mas pelo modo como dissemos. Fomos ásperos e agressivos. Devemos enfatizar que amabilidade, gentileza e doçura não se contrapõem necessariamente à firmeza. Devemos ser firmes nas coisas que envolvem a Palavra de Deus e a sua causa, no entanto, não devemos ser grosseiros. Muitas vezes, somos levados a pensar que a convicção de estarmos certos elimina a necessidade de sermos cordatos e amáveis em nossa posição. A verdade não necessita ser grosseira e iracunda.

 

Hendriksen (1900-1982) comenta:

 

Mansidão não é sinônimo de fraqueza. A mansidão não consiste em falta de firmeza de caráter, uma característica da pessoa que está pronta a curvar-se ao sabor de toda brisa. Mansidão é submissão ante qualquer provação, a disposição de sofrer dano ao invés de causá-lo. A pessoa mansa deixa tudo nas mãos daquele que ama e que se importa.[14]

 

Do mesmo modo, Lloyd-Jones (1899-1981): “’Mansidão’ significa realmente prontidão para sofrer o mal, confiando tudo a Deus”.[15]

 

 

São Paulo, 30 de abril de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

*Leia esta série completa aqui.

 


 

[1]Temos também prau/+j, praei=a e prau+/ que significam “manso”, “humilde” (* Mt 5.5; 11.29; 21.5; 1Pe 3.4).

[2]William Barclay, Palavras Chaves do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1988 (reimpressão), p. 172.

[3]Esta palavra, que não ocorre no Novo Testamento, é derivada de o)rgh/ (“ira’, “indignação”, “furor”) (Mt 3.7; Mc 3.5; Rm 1.18; 2.5,8, etc.).

[4] Esta palavra também não é empregada no Novo Testamento. Ela é formada por duas outras: a) (“não”) e o)rga/w (“estar cheio de seiva”, “arder em desejos de luxúria”). O)rga/w é derivada de o)rgh/. Somente esta aparece no Novo Testamento.

[5] “No tocante à cólera também há um excesso, uma falta e um meio-termo. Embora praticamente não tenham nomes, uma vez que chamamos calmo ao homem intermediário, seja o meio-termo também a calma; e dos que se encontram nos extremos, chamemos irascível ao que excede a irascibilidade ao seu vício; e ao que fica aquém da justa medida chamemos pacato, e pacatez à sua deficiência” (Aristóteles, Ética a Nicômaco, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 4), 1973, II.7. 1108a 6, p. 275).

[6] Platão, O Banquete, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 3), 1972, 197d., p. 35.

[7] Cf. F. Hauck; S. Schulz, Prau=j: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 6, p. 646.

[8]William Barclay, As Obras da Carne e o Fruto do Espírito, São Paulo: Vida Nova, 1985, p. 107.

[9]David M. Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, São Paulo: Editora Fiel, 1984, p. 61.

[10]O)rgh/ ocorre no mínimo 35 vezes no Novo Testamento e, qumo/j é usado no mínimo 18 vezes. Na Bíblia, ambos os termos aparecem algumas vezes relacionados: No Antigo Testamento: Dt 9.19; Sl 2.5; 78.49; Is 5.25; 7.4; 9.19; 34.2; Dn 3.13; Ez 22.31; Os 13.11; Mq 5.15. No Novo Testamento: Rm 2.8; Ef 4.31; Cl 3.8; Ap 19.15. Segundo Trench, o mesmo acontece no grego secular (Veja-se: Richard C. Trench, Synonyms of The New Testament, 7. ed. rev. and enlarg. London: Macmillan and Co., 1871, § XXXVII, p. 123).

Apesar de ambas as palavras serem quase sinônimas, parece-me que a distinção entre elas está na duração da irritabilidade; enquanto qumo/j descreve uma ira repentina que logo se apaga, como um “fogo de palha”, conforme diziam os gregos, o(rgh/ retrata uma ira que persiste ardendo lentamente, recusando-se a ser pacificada, tendo assim, grande propensão a se transformar em “amargura”. Contudo, essa distinção gramatical não deve ser aplicada a Deus visto que ele Se comunica conosco usando de termos humanos para descrever os seus “sentimentos” (Vejam-se: William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora, 1973, (Mateo I), v. 1, p. 149-150; v. 11, p. 163; G. Hendriksen, El Evangelio Segun San Juan, Grand Rapids, Michigan: Subcomision Literatura Cristiana, 1981, p. 162-163; F. Foulkes, Efésios: introdução e comentário, São Paulo: Mundo Cristão; Vida Nova, (1979), p. 113 e, especialmente: H. Schönweiss; H.C. Hahn, Ira: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 2, p. 441-449; Richard C. Trench, Synonyms of The New Testament, § XXXVII, p. 123-127; Hermann M. Kleinknecht, et. al., O)rgh/: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 5, p. 382-447.

[11]“Mal”, “malícia”, “maldade”, “impiedade”, “depravação”, “vício”, “malignidade”. A palavra em alguns textos significa uma depravação mental de onde decorrem todos os outros vícios. Ela tem de modo especial um sentido ético. * Mt 6.34; At 8.22; Rm 1.29; 1Co 5.8; 14.20; Ef 4.31; Cl 3.8; Tt 3.3; Tg 1.21; 1Pe 2.1,16. Na literatura clássica a palavra tinha o sentido de “vício” e “injustiça” (Vejam-se: Platão, A República, 444e; Platão, Fedro, 248b; Aristóteles, Arte Retórica, II.12; Aristóteles, Ética à Nicômaco, VII.1.15; Xenofonte, Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, II.1.21). Calvino comentando o uso da palavra em Ef 4.31, diz: “Por esse termo ele quer dizer que a depravação da mente, a qual é oposta ao espírito humano e à probidade, e a qual é usualmente chamada malignidade” (J. Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 4.31), p. 149).

[12]Tem também o sentido de “receber”, “aceitar”, “aprovar”. Estevão sendo apedrejado ora: “… Senhor Jesus, recebe (de/xomai) o meu espírito!” (At 7.59).

[13] Esta palavra só ocorre neste texto em todo o Novo Testamento.

[14] William Hendriksen, Mateus, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, v. 1, (Mt 5.5), p. 379.

[15]D.M. Lloyd-Jones, A Unidade Cristã, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 38.

O poder do Trino Deus na ressurreição de Jesus Cristo e o seu significado

O apóstolo Paulo tomou como paradigma do poder de Deus, o que Pai operou em Cristo o ressuscitando, fazendo-o assentar-se à sua direita (Ef 1.20). Por meio da ressurreição Cristo venceu a morte, conquistou a vitória sobre ela para todo o seu povo (1Co 15.26).[1] Na ressurreição temos a validação da integridade e eficácia do ministério terreno de Cristo e a declaração do perdão para todos os que creem em Cristo como seu Salvador.[2]

 

Bavinck enfatiza que “a ressurreição é a inversão divina da sentença que o mundo impôs a Jesus”.[3] Nela temos a manifestação pública de sua filiação divina e da aprovação de seu ministério.[4] “A ressurreição é o ponto que marca o começo de uma nova época na existência do Filho de Deus. Sendo antes Filho de Deus em debilidade e humilhação, pela ressurreição torna-se o Filho de Deus em poder”.[5]

 

O Pai glorificou o Filho na ressurreição, conforme interpreta Hebreus: “Assim, também Cristo a si mesmo não se glorificou para se tornar sumo sacerdote, mas o glorificou aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Hb 5.5).

 

O Novo Testamento declara que a ressurreição de Cristo foi pelo poder do Trino Deus. Esta afirmação ora se refere simplesmente a Deus – denotando assim, o trabalho da Trindade –, ora se refere às pessoas distintamente. A ênfase, sem dúvida, é evidenciar a unidade da Trindade no mesmo propósito glorioso e salvador. O propósito eterno e harmonioso de Deus, envolve a ação trinitária.

 

Em alguns textos das Escrituras encontramos esta obra de modo distinto:

 

1. Poder do Pai

“Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida” (Rm 6.4).

 

 “Paulo, apóstolo, não da parte de homens, nem por intermédio de homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos” (Gl 1.1).

 

2. Poder do Espírito Santo

 

“Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito” (1Pe 3.18/Rm 8.11).[6]

 

O mesmo Espírito que gerou em Maria a Pessoa Divino-Humana de Cristo, o acompanhando e fortalecendo em todo o Seu Ministério, agiu decisivamente em sua ressurreição, a qual assinala a vitória de Deus sobre o pecado, a morte e Satanás (Mt 1.18/Lc 1.35; Mt 4.1/Lc 4.1; Is 11.1-2/Lc 4.18-19; Lc 3.31-32; 4.14; Mt 12.28; Jo 3.34; Hb 9.14).

 

3. Poder do Filho

 18 Perguntaram-lhe, pois, os judeus: Que sinal nos mostras, para fazeres estas coisas? 19Jesus lhes respondeu: Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei. 20 Replicaram os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este santuário, e tu, em três dias, o levantarás? 21 Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo. 22Quando, pois, Jesus ressuscitou dentre os mortos, lembraram-se os seus discípulos de que ele dissera isto; e creram na Escritura e na palavra de Jesus” (Jo 2.18-22).

 

 17 Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. 18 Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai” (Jo 10.17-18).

 

O verbo divino dispunha de todo o poder para ressuscitar o Cristo encarnado, o que realmente o fez.

 

Portanto, podemos entender biblicamente que a Trindade é responsável pela ressurreição de Jesus Cristo; o Pai, o Filho e o Espírito Santo manifestam o seu poder na ressurreição de Cristo. Por isso, o Novo Testamento com mais frequência atribui a ressurreição ao poder de Deus, sem mencionar a Pessoa (Ver: At 2.24; 3.15; 4.10; 5.30; 10.40; 13.30,37; Rm 10.9; 1Co 6.14; Cl 2.12 etc.).

 

Comentando Rm 8.11, Calvino explica:

 

Cristo certamente ressuscitou por si mesmo e pelo seu próprio poder, mas como costumava atribuir ao Pai o poder divino que possuía, então o apóstolo apropriadamente transferiu para o Pai aquilo que era em Cristo uma obra própria de sua divindade.[7]

 

Na ressurreição de Cristo, vemos aspectos de sua vitória. Os textos bíblicos referentes a Jesus Cristo como estando à direita de Deus, indicam o seu triunfo, honra, poder e glória. Por isso, Ele mesmo disse: “Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci, e me sentei com meu Pai no seu trono” (Ap 3.21).

 

O regresso de Jesus ao Pai evidencia a realização completa de toda a obra a qual viera realizar.

 

A ascensão do Filho ressalta o cumprimento de sua missão, revelando o Seu estado de Glória (Mc 16.19; At 2.32-36; 7.55; Cl 3.1; 1Tm 3.16; Hb 1.1-4) e Poder (Ef 1.20,21; 1Pe 3.22).

 

Na realidade Jesus Cristo, retornou ao seu estado anterior à encarnação, quando Ele, espontaneamente renunciara a manifestação da glória e da dignidade divinas que faziam parte do seu ser (2Co 8.9; Fp 2.5-11/Jo 1.1-3; 17.1-5/Jo 3.13; 6.62; 7.33; 16.5/Ef 4.10).

 

A sua humilhação e a sua exaltação não afetaram a essência da sua natureza Divina.

 

Vemos aqui, de passagem, a necessidade da ascensão: Aquele que veio num determinado momento histórico, no “estado de humilhação”, fazendo-se pobre (2Co 8.9); agora, após cumprir cabalmente a sua obra sacrificial, volta, no momento preciso, publicamente, no “estado de exaltação”, para Deus. A ascensão é uma das maiores evidências históricas da volta de Cristo ao seu estado de Glória (Jo 17.5,24).[8]

 

A ressurreição e ascensão de Cristo significam o poder de Deus sobre todos os demais poderes que lhe são hostis (Ef 1.21), indicando, também que tudo lhe pertence, no céu e na terra, na vida e na morte. Temos aqui a coroação pública de sua vitória. Ele é o Senhor de todas as coisas. “Por sua ascensão ao céu, Cristo tomou posse do domínio que lhe fora dado pelo Pai, para que ordenasse e governasse todas as coisas pelo exercício de seu poder”, conclui Calvino.[9]

 

Cristo já ressuscitou, aleluia! Ao Deus Triúno toda glória. Maranata! Amém!

 

 

São Paulo, 17 de abril de 2019

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

 


[1]“O último inimigo a ser destruído é a morte” (1Co 15.26).

[2]“A ressurreição de Cristo tinha como seu propósito trazer à luz o fato de que todos os que reconhecem a Jesus como seu Senhor e Salvador têm entrado num estado de justiça aos olhos de Deus. O Pai, ao ressuscitar a Jesus dentre os mortos, nos assegura que o sacrifício expiatório foi aceito; daí, nossos pecados são perdoados” (William Hendriksen, Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, (Rm 4.23-25), p. 214).

[3]Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 405.

[4] Veja-se: João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 2.7), p. 68-69. “Gerar [Sl 2.7], aqui, tem referência àquilo que foi feito conhecido. (…) Cristo foi declarado Filho de Deus pelo exercício público de um poder verdadeiramente celestial, ou, seja, o poder do Espírito, quando Ele ressuscitou dos mortos” (João Calvino, Romanos, 2. ed. São Paulo: Parakletos, 2001, (Rm 1.4), p. 39,40).

[5] Anders Nygren, Commentary on Romans, 5. ed. Philadelphia: Fortress Press, 1980, p. 51. “Por meio de sua gloriosa ressurreição, sua investidura com poder não só foi realçada, mas também começou a resplandecer em toda sua glória” (William Hendriksen, Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, (Rm 1.4), p. 58-59).

[6]“Se habita em vós o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos vivificará também o vosso corpo mortal, por meio do seu Espírito, que em vós habita” (Rm 8.11).

[7]João Calvino, Romanos, 2. ed. São Paulo: Parakletos, 2001, (Rm 8.11), p. 282.

[8]5E, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo. (…) 24 Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo 17.5,24).

[9]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1988, (Ef 4.10), p. 118.

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (14)

5.7. É Perfeitamente Justa

 

“Embora a razão carnal nos sugira que o mundo se move ao acaso e seja dirigido a esmo, contudo devemos considerar que o infinito poder de Deus é sempre associado à perfeita justiça”, instrui-nos Calvino.[1]

 

Visto que o pecado é voluntário e universal, Deus continuaria sendo perfeito em Sua justiça – como de fato é –, se não salvasse a ninguém (Mt 20.14,15; Rm 9.14,15).

 

“Se todos recebessem a punição, a punição não seria injusta”, conclui Agostinho (354-430).[2] Deus não devia misericórdia a ninguém.[3] Ele não é obrigado a ser misericordioso: Deus olha para a nossa miséria e nos ajuda, porque assim decidiu fazer. Os salvos não se constituem em vasos de merecimentos resultantes de sua suposta fé ou boas obras, antes, em vasos de misericórdia (Rm 9.23).[4] A sua misericórdia também é soberanamente livre. Da mesma forma, a nossa eleição e consequente salvação é resultado do amor misericordioso de Deus, o qual não pode ser reivindicado, visto não termos direito a nada. “Não devemos ignorar a antítese entre o nome de Deus e os méritos dos homens, visto que Deus, levando em conta sua própria glória, não pode achar em nós nenhuma causa pela qual ele fosse movido a salvar-nos”, insiste Calvino.[5]

 

Louis Berkhof (1873-1957), argumenta:

 

Se Deus devesse perdão ao pecado e a vida eterna a todos os homens, seria injustiça se Ele salvasse apenas um número limitado deles. Mas o pecador não tem, absolutamente, nenhum direito ou alegação que possa apresentar quanto às bênçãos decorrentes da eleição divina. De fato, ele perdeu o direito a essas bênçãos. Não somente não tem direito de pedir contas a Deus por eleger uns e omitir outros, como também devemos admitir que Ele seria perfeitamente justo, se não salvasse ninguém, Mt 24.14.15; Rm 9.14.15.[6]

 

Por outro lado, podemos dizer que a eleição é superjusta, visto que ela vai além da justiça humana. Todos merecíamos a morte por causa de nossos pecados (Rm 3.23; 6.23). A condenação seria justa, como de fato é para aqueles que se perdem. Porém, Deus, por Sua misericórdia, salvou quem Ele determinou salvar. Isto é mais do que justiça.[7]

 

A graça reina pela justiça. A misericórdia de Deus não se digladia com a sua justiça. Deus é perfeito em tudo. Mas, na misericórdia vemos estampada a sua justiça. Deus não se esquece de sua justiça como se fosse uma “perfeição imperfeita” do seu caráter, antes, Ele a cumpre, pagando o preço de nossos pecados em amor e misericórdia, nos imputando a justiça obtida por Cristo.

 

Calvino coloca esta verdade em termos belos: “Deus se paga a Si mesmo por Sua misericórdia manifestada em Seu Filho, nosso Salvador Jesus Cristo, que uma vez por todas se ofereceu ao Pai para ser Ele próprio a satisfação que Lhe deveríamos prestar”.[8]

 

A justiça de Deus está relacionada de forma essencial com Sua aliança estabelecida com o Seu povo, por meio da qual Ele promete salvar a todos aqueles que recebem pela fé a Jesus Cristo, tornando-se participante dos Seus merecimentos obtidos para o Seu povo. Deste modo, em Cristo nós temos o “Justo” e o justificador: A graça e a justiça (Rm 3.26). “Uma graça reinante à parte da justiça não é apenas inverossímil, mas também inconcebível”, conclui Murray (1898-1975).[9]

 

A.A. Hodge (1823-1886), considerando a situação dos “réprobos”, faz uma distinção ente o aspecto “negativo” e “positivo” da reprovação:

 

Em seu aspecto negativo a reprovação é simplesmente a não eleição, e é absolutamente soberana, fundada unicamente no beneplácito de Deus, que deseja eleger uns porque assim o quer e não porque sejam menos dignos. Positivamente, a reprovação não é soberana senão judicial, porque Deus há determinado tratar aos réprobos precisamente conforme os seus méritos e à vista de sua absoluta justiça.[10]

 

A nossa salvação repousa na perfeição dos atributos de Deus, revelados para nós, de forma mais específica, em justiça e amor. Louvemos a Deus por isso.

 

São Paulo, 9 de abril de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

*Leia esta série completa aqui.

 


[1] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 36.5), p. 128.

[2]Agostinho, A Graça (I), 2. ed. São Paulo: Paulus, 1999, p. 115.

[3] “A misericórdia não é um direito ao qual o homem faz jus. A misericórdia é aquele atributo adorável de Deus, pelo qual tem dó dos miseráveis e os alivia” (A.W. Pink, Deus é Soberano, Atibaia, SP.: FIEL, 1977, p. 23). “É em razão de ser misericordioso que Deus primeiro nos recebe em sua graça, e então prossegue nos amando” (João Calvino, As Pastorais, (1Tm 1.2), p. 27).

[4] Ver Agostinho, A Graça (I), 2. ed. São Paulo: Paulus, 1999, p. 115-116.

[5] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 3, (Sl 106.8), p. 674.

[6] L. Berkhof, Teologia Sistemática, p. 116.

[7]Veja-se: Cânones de Dort, I.1.

[8]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, v. 3, (III.9), p. 129.

[9]John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, p. 19.

[10] A.A. Hodge, Esboços de Theologia, p. 67.

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (13)

5.5. É Irresistível

Deus exerce a Sua influência sobre o homem eleito, quebrando a sua indisposição espiritual, levando-o a desejar a salvação e a abraçá-la pela fé em Cristo (Sl 110.3; Fp 2.13; At 16.14).

Deus determina os fins e os meios: Deus elege os Seus e no tempo próprio os regenera, dando-lhes um novo coração, os atraindo de forma graciosa e irresistível para Si, capacitando-os a responder com fé à sua vocação. Como escreve Calvino: “Na verdade, o Senhor chama eficazmente só os eleitos”.[1]

 

5.6. É pessoal

 

A eleição não é abstrata; é concreta. Falar de povo de Deus ou Igreja sem falarmos de pessoas individuais, é pura abstração. Deus, no entanto, escolheu pessoas individualmente para constituírem o Seu povo, conferindo-lhes bênçãos, arrolando seus nomes no “livro da vida” (Ml 1.2; Rm 8.29; 9.10-12; Gl 1.15; Ef 1.4; 2Ts 2.13/At 13.48/Fp 4.3; Hb 12.23).[2]

 

Ninguém será salvo por proximidade genealógica, afetiva ou espacial. A eleição de Deus é pessoal e intransferível, conduzindo cada eleito à transformação espiritual pelo Espírito. Contudo, a eleição pessoal não é dispersiva; fomos predestinados para nos constituir no Corpo de Cristo, visto que fomos eleitos nele, em Cristo Jesus (Ef 1.4). Portanto, a Igreja é a comunidade daqueles que foram eleitos por Deus, tendo seus nomes escritos no livro da vida (Is 4.3; Dn 12.1; Lc 10.20; Fp 4.3; Ap 3.5).[3]

 

Deus prazerosamente manifesta a sua glória na igreja,[4] reunindo e congregando pecadores eleitos, constituindo-os em sua família, a família de Deus (Ef 2.19), santificada em Cristo Jesus (1Co 1.2).

 

Bavinck (1854-1921) enfatiza a importância da igreja na reunião e aperfeiçoamento dos santos para glorificar a Deus:

 

O propósito da igreja como instituição consiste em reunir os eleitos, edificar o corpo de Cristo, aperfeiçoar os santos e, assim, glorificar a Deus (Ef 4.11). Deus, certamente, também, poderia ter conduzido seu povo à salvação sem os meios da igreja ou do ofício, da palavra ou dos sacramentos, mas foi do seu agrado reunir seus eleitos por meio do ministério de seres humanos. O propósito da igreja é a salvação dos eleitos. Os ofícios da igreja são necessários em virtude dessa hipótese (necessitate hypothetica).[5]

 

 

Maringá, 7 de abril de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Leia esta série completa aqui.

 


[1]João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 6.4), p. 153.

[2] “Eu vos tenho amado, diz o SENHOR; mas vós dizeis: Em que nos tens amado? Não foi Esaú irmão de Jacó? — disse o SENHOR; todavia, amei a Jacó” (Ml 1.2). “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8.29). “E não ela somente, mas também Rebeca, ao conceber de um só, Isaque, nosso pai.  E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço” (Rm 9.10-12). “Quando, porém, ao que me separou antes de eu nascer e me chamou pela sua graça, aprouve” (Gl 1.15). “Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2Ts 2.13). “Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (At 13.48). “A ti, fiel companheiro de jugo, também peço que as auxilies, pois juntas se esforçaram comigo no evangelho, também com Clemente e com os demais cooperadores meus, cujos nomes se encontram no Livro da Vida” (Fp 4.3). “E igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados” (Hb 12.23).

[3]Vejam-se: João Calvino, As Institutas, III.21.7; Herman Bavinck, Reformed Dogmatics,  Grand Rapids, Michigan: Baker Academic, 2004, v. 2, p. 402-403.

[4] Veja-se: João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 2.17), p. 100.

[5]Herman Bavinck, Dogmática Reformada − Espírito Santo, Igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 382.

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (9)

5. A eleição de Deus: considerações bíblico-teológicas

Analisaremos aqui de forma esquemática, as características da Eleição.

5.1. É um ato da vontade livre e soberana de Deus

 Lutero (1483-1546), comentando o Cântico de Maria (Magnificat) (1521), escreve:

 

“Creio em Deus-Pai, Todo-poderoso”. Ele é todo-poderoso, de modo que em todos e através de todos e sobre todos reina exclusivamente seu poder. (…) Este é um artigo muito elevado e que encerra muita coisa; ele põe por terra toda arrogância e petulância, todo orgulho, glória, falsa confiança e enaltece somente a Deus; sim, ele indica a razão porque se deve enaltecer somente a Deus.[1]

 

 O apóstolo Paulo descrevendo as contínuas bênçãos de Deus sobre o Seu povo, pontifica na predestinação e seu propósito:

 

Nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, (…) 11 nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade. (Ef 1.5,11).

 

Um dos aspectos fundamentais da soberania é a independência. Quando a nossa independência depende de algo alheio ao nosso controle, a nossa suposta capacidade de decidir livremente está ameaçada ou sofre de limitações que podem ser bastante comprometedoras. Na realidade, somente em Deus há a autonomia total e absoluta.

 

Spurgeon (1834-1892) enfatiza corretamente: “Deus é independente de tudo e de todos. Ele age de acordo com Sua própria vontade. Quando Ele diz: ‘Eu farei’, o que quer que diga será feito. Deus é soberano, e Sua vontade, não a vontade do homem, será feita”.[2]

 

Deus se apresenta nas Escrituras como de fato é, o Deus Todo-Poderoso (Onipotente), com capacidade para fazer todas as coisas conforme a Sua vontade (Sl 115.3; 135.6; Is 46.10; Dn 4.35; Ef 1.11);[3] entretanto, Deus também Se mostra coerente com as demais de Suas perfeições; ou seja, Deus exercita o Seu poder em harmonia com todas as perfeições de Sua natureza (2Tm 2.13);[4] a Sua vontade é eticamente determinada. O poder de Deus se harmoniza perfeitamente com a Sua vontade.[5]

 

A soberania de Deus se manifesta no fato dEle poder fazer tudo o que faz (poder ordenado) e mesmo aquilo que não realiza, visto que não determinou fazê-lo (poder absoluto). O poder absoluto de Deus envolve o seu poder ordenado.[6] Deus exerce o Seu poder no cumprimento do que decretou e nas obras da providência.

 

O Poder de Deus é soberanamente livre. Deus não tem primariamente compromissos com terceiros; em outras palavras, Deus é soberano em Si mesmo, a onipotência faz parte da sua essência, por isso para Ele não há impossíveis; apesar de qualquer oposição, Ele executa o Seu plano;[7] tudo o que Ele deseja, pode realizar (Mt 19.26; Jó 23.13[8]).[9] No entanto, Deus não precisa exercitar o Seu poder para ser o que é.

 

Declarar a liberdade soberana de Deus é reconhecer que Deus é Deus, contemplando-O na real esfera de Sua natureza e revelação.[10]

 

Se o homem pudesse antecipar-se à graça de Deus com algo que fosse agradável a Deus, a liberdade de Deus estaria condicionada ao feito humano, não haveria, portanto, na escolha divina a manifestação da Sua graça soberana.

 

Calvino indaga:

 

Caso pudesse o homem fazer algo para antecipar a graça de Deus, e a eleição cessaria de ser um apanágio divino, ainda que o direito e o poder dela sejam-lhe expressamente atribuídos. (…) Pode imaginar-se alguma razão por que não chamaria a todos igualmente, exceto o fato de que sua soberana eleição faz distinção entre uns e outros?.[11]

 

Deus nos elegeu conforme a Sua sábia, amorosa e eterna vontade. A escolha de Deus não sofre nenhum tipo de constrangimento no seu exercício. Por isso, não podemos, nem devemos tentar buscar razões para a nossa eleição fora do beneplácito de Deus. Deus não tem razões fora de Si mesmo para fazer o que fez (Mt 11.25,26; Jo 15.16,19; Rm 9.10-18; Ef 1.5-11; 2Tm 1.9).[12]

 

“Perguntando-se quais são os princípios que subjazem a escolha feita por Deus, a única resposta positiva que se pode dar é que Ele concede Seu favor aos homens, e os vincula a Si mesmo, unicamente com base em Sua própria decisão livre e no Seu amor que independe de quaisquer circunstâncias temporais”, escreve L. Coenen, [13]

 

Desejar ultrapassar estes limites, além de se constituir numa atitude iníqua e estéril, significa tentar a Deus, diminuindo a Sua liberdade soberana e, ao mesmo tempo supor pecaminosamente, que a vontade de Deus não seja por si só motivo suficiente para Deus fazer todas as coisas como faz (Sl 115.3; 135.3-6; Is 46.10).

 

Calvino (1509-1564), insiste neste ponto: Procurar relacionar a nossa eleição à causas externas, é tentar a Deus. A vontade de Deus deve ser suficiente para nós.[14] Nas Institutas ele interpreta como uma tentação maligna buscar a origem da nossa eleição fora da Palavra:

 

Nenhuma tentação do Diabo é mais perigosa para abalar os fiéis do que quando, fazendo com que os inquiete a dúvida quanto à sua eleição, provoca neles o estulto desejo de buscar essa certeza fora do caminho. Chamo buscar fora do caminho a atitude na qual o pobre homem se esforça para penetrar nos segredos incompreensíveis da sabedoria divina, e, para saber o que a respeito dele foi ordenado no juízo de Deus, quer ir ao princípio da eternidade em sua busca. Nessa tentativa ele se precipita como que num imenso e profundo golfo em que se afoga; enrosca-se como que em laços de armadilha dos quais jamais conseguirá se desembaraçar; e entra numa espécie de abismo de trevas do qual nunca poderá sair. Porque com justa razão a presunção do entendimento humano é assim punido com horrível desgraça, quando tenta elevar-se por seu poder ao altíssimo nível da sabedoria divina. Agora, a tentação que acabo de mencionar vê-se tanto mais perniciosa quanto é fato que quase todos nós somos inclinados a cair nela. Porque são bem poucos os que não se deixam tocar no coração por este pensamento: Donde vem que você obtém a salvação somente pela eleição de Deus? E como se revela essa eleição? Uma vez que esse pensamento encontre guarida no homem, ou lhe causará assombroso tormento, ou o fará sucumbir de espanto. Não pretendo ter argumento mais próprio para mostrar quão perversamente esse tipo de gente imagina a predestinação. Porque o espírito do homem não pode ser infeccionado por erro mais virulento que quando a consciência é destituída da sua tranquilidade e paz, que lhe cabe ter com Deus. Esta questão é como um mar, no qual, se tememos perecer, tenhamos cuidado acima de tudo com o rochedo que, se não for evitado, só nos causará desgosto. Entretanto, embora se considere a discussão sobre a predestinação um mar perigoso, a navegação é segura e calma, e até alegre, se não acontecer que alguém queira por vontade própria meter-se em perigo. Pois, assim como aqueles que, desejando ter certeza da sua eleição, invadem o conselho eterno de Deus sem a Sua Palavra, precipitam-se e afundam num abismo mortal, assim também, por outro lado, os que buscam certeza corretamente, e segundo a ordem revelada na Escritura, recebem singular consolação. Portanto, seja este o caminho que sigamos em nossa busca: começar pela vocação de Deus e terminar nela. Pois o Senhor quer que ela seja para nós como um marco ou um sinal para nos certificar de tudo o que nos é lícito saber do Seu conselho.[15]

 

Recife, 3 de abril de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Martinho Lutero, Magnificat: In: Obras Selecionadas, São Leopoldo, RS.; Porto Alegre, RS.: Sinodal; Concórdia, 1996, v. 6, p. 50-51.

[2]C.H. Spurgeon, Sermões Sobre a Salvação, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 42-43.

[3] “No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada” (Sl 115.3). “Tudo quanto aprouve ao SENHOR, ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos” (Sl 135.6). “O meu conselho permanecerá de pé, farei toda da minha vontade” (Is 46.10). “Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.35). “Nele [Jesus Cristo], digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11).

[4] “Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2.13).

[5] “Deus tem poder para fazer tudo quanto Ele queira; e com certeza a pessoa que tenta separar o poder de Deus de Sua vontade, ou retratá-lo como incapaz de fazer o que Ele queira, o que o tal faz é simplesmente tentar rasgá-lo em pedaços” (João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 3, (Sl 78.18), p. 212).

[6]Ver: Stephen Charnock, The Existence and Attributes of God, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Two Volumes in one), 1996 (Reprinted), v. 2, p. 12.

[7] Ver: Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 479-512.

[8] “Jesus, fitando neles o olhar, disse-lhes: Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível” (Mt 19.26). “Mas, se ele resolveu alguma coisa, quem o pode dissuadir? O que ele deseja, isso fará” (Jó 23.13).

[9] Stott coloca nestes termos: “A liberdade de Deus é perfeita, no sentido de que Ele é livre para fazer absolutamente qualquer coisa que Ele queira” (John Stott, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, São Paulo: ABU Editora, 1997, p. 58).

[10]Veja-se: A.W. Pink, Deus é Soberano, Atibaia, SP.: Editora Fiel, 1977, p. 19,21,138.

[11] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 65.4), p. 611.

[12] Veja-se, Cânones de Dort, I.10.

[13] L. Coenen, Eleger: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1982,  v. 2, p. 35.

[14] Vejam-se: J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.15), p. 331-333; J. Calvino, As Institutas, (1541), III.8. “Não busquemos a causa em parte alguma, senão na vontade divina. Notemos particularmente as expressões de quem quer e a quem lhe apraz. Paulo não permite que avancemos além disto” (J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.18), p. 337). Jorge Fisher acentua que “no calvinismo considerado como sistema teológico e em contraste com outros tipos da teologia protestante, se vê um princípio característico e elevado, a saber, o da soberania de Deus, não só de seu governo ilimitado dentro da esfera intelectual e material, senão também que a vontade divina é a causa última da salvação de alguns e do abandono de outros à perdição” (Jorge P. Fisher, Historia de la Reforma, p. 231-232).

[15]João Calvino, As Institutas, (1541), III.8.

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (4)

2.1. A Ideia Bíblica de eleição: Considerações gramaticais

                                                                                                                                                        

A Bíblia apresenta a eleição em mais de um sentido, não simplesmente dentro de um teor teológico-redentivo. Vejamos, então, como isso ocorre.

 

2.1.1.No Antigo Testamento

 

A principal palavra usada no Antigo Testamento para designar eleição é o verbo rAhfB (“Bãhar”), que significa, “escolher”, “eleger”, “decidir por”, etc. O verbo e os seus derivados ocorrem 198 vezes no Antigo Testamento,[1] havendo o predomínio do seu emprego na modalidade “qal”, (146 vezes)[2] que indica uma ação completa.[3] O verbo é usado cerca de 100 vezes referindo-se a Deus como sujeito da ação.[4]

 

“Bãhar”, apesar de não ser necessariamente teológico, apresenta sempre a ideia de uma escolha criteriosa, bem pensada –– daí, também o seu sentido de “testar”, “examinar” (Is 48.10; Pv 10.20) –, levando em consideração as opções (1Sm 17.40; 1Rs 18.25; Is 1.29; 40.20); o que não significa, como veremos, que as escolhas humanas sejam sempre as melhores. Seguem abaixo algumas das formas como “Bãhar” é usado:

 

1) Sentido geral

1) Escolha de homens para a guerra: Ex 17.9; Js 8.3.

2)    Escolha de pedras para a funda: 1Sm 17.40.

3) Escolha das esposas: Gn 6.2.

4) Escolha da oferta para o sacrifício: 1Rs 18.23,25.

5) Escolha de madeira para a confecção de um ídolo: Is 40.20.

6) Escolha dos ídolos feita pelos homens: Jz 5.8; 10.14/Dt 30.19; Js 24.15; Is 41.24. Essa escolha envolve desobediência a Deus (Is 65.12), optando pelo seu caminho prazeroso e pecaminoso (Is 66.3).

Wildberger comenta:

A eleição de outros deuses e de outro culto é certamente uma possibilidade inerente à liberdade de Israel e à liberdade dos homens; enquanto tal, se irá convertendo em realidade, que leva à autodestruição. A liberdade de realizar uma eleição deste tipo significa a possibilidade de fracassar.[5]

 

7) Escolha de um rei feita pelo povo: 1Sm 8.18;12.13.

8) Escolha entre várias possibilidades: 2Sm 19.38; 24.12.

9) Escolha do lugar da sua habitação: Gn 13.11.

10) Escolha dos juízes: Ex 18.25.

 

2. Sentido Teológico e Teocêntrico

1) Deus escolhe pessoas individualmente: Ne 9.7; Sl 78.70; 89.3; 105.26; 106.23; Ag 2.23.

2) Deus escolhe Israel para ser o Seu povo: Dt 7.6,7; 10.15; 14.2; 1Rs 3.8; Sl 135.4/Is 65.9,22. A eleição de um povo se constitui em algo novo dentro das religiões do antigo Oriente. A posição ocupada por Israel em relação a seu Deus é singular; nunca se ouviu falar desta relação entre os outros povos e os seus deuses.[6] Mesmo o povo estando no exílio babilônico, Deus confirma a Sua eleição (Is 41.8-9; 43.10).

3) Deus escolhe a Tribo de Levi e Seus sacerdotes: Dt 18.5; 21.5; 1Sm 2.28; 1Cr 15.2;16.41.

4) O homem escolhe servir a Deus: Js 24.22/Dt 30.19; Js 24.15. Mediante a instrução do Senhor (Sl 25.12); seguindo o caminho dos Seus juízos (Sl 119.30,173). “Dentro do pluralismo das religiões, Javé não é uma das muitas possibilidades que se oferecem ao homem piedoso. Israel não deve eleger a Javé, senão reconhecer que foi eleito por Ele”, pontua H. Wildberger.[7]

5) A escolha de um rei: 1Sm 10.24; 2Sm 6.21/1Sm 16.8-10; 1Rs 8.16;11.34; 1Cr 28.5.

6) A escolha de Jerusalém para ter o Templo: Dt 12.5,11, 14, 18,21,26; 14.23-25; 16.6,7; 18.5,6; 26.2/1Rs 8.16,44,48; 11.13,32,36; 14.21; 2Cr 6.34,38; 12.13.

7) A escolha do Messias: Is 42.1; 43.10/Sl 89.19.[8]

 

A escolha do Messias deve ser entendida dentro da economia da salvação, referindo-se ao ofício do Filho, o qual traz alegria na concretização do propósito salvador de Deus:[9] “O meu escolhido, em quem minha alma se compraz” (Is 42.1/Mt 3.17).

 

***

Concluindo este tópico, insistimos no ponto: a maioria dos casos onde ocorre “Bãhar”, a ênfase recai na ação de Deus: Deus é o Sujeito; é Ele Quem elege; a qualidade do escolhido não é mencionada – porque de fato não há –, para que não dê ocasião à suposição equivocada de que Deus escolheu o Seu povo devido aos seus méritos. Assim, a relação entre Deus e o Seu povo escolhido, encontra a sua única justificativa – dada pelo próprio Deus –, no Seu eterno amor. (Dt 7.6-8). De fato, “O amor que Deus nutre por nós é sem paralelo”.[10]

 

 

Fortaleza, 31 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]Veja-se: John N. Oswalt, Bãhar: In: R. Laird Harris, et al. eds. Theological Wordbook of the Old Testament, 2. ed. Chicago: Moody Press, 1981, v. 1, p. 100; G. Quell, E)kle/gomai: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 4, p. 146.

[2]Cf. H. Wildberger, Elegir: In: Ernst Jenni; Claus Westermann, eds. Diccionario Teologico Manual Del Antiguo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1978, v. 1, p. 409a.

[3] Cf. A.B. Davidson, An Introductory Hebrew Grammar, 24. ed. Edinburgh: T. & T. Clark, (Revised Throughout by John Edgar McFadyen), (Reprinted), 1934, § 20, p. 71-72.

[4] Veja-se tabela de sua utilização em H. Wildberger, Elegir: In: Ernst Jenni; Claus Westermann, eds. Diccionario Teologico Manual Del Antiguo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1978, v. 1, p. 409; G. Quell, E)kle/gomai: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 4, p. 146.

[5] H. Wildberger, Elegir: In: Ernst Jenni; Claus Westermann, eds. Diccionario Teologico Manual Del Antiguo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1978, v. 1, p. 436.

[6] Veja-se: H. Wildberger, Elegir: In: Ernst Jenni; Claus Westermann, eds. Diccionario Teologico Manual Del Antiguo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1978, v. 1, p. 418.

[7] H. Wildberger, Elegir: In: Ernst Jenni; Claus Westermann, eds. Diccionario Teologico Manual Del Antiguo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1978, v. 1, p. 438.

[8] Veja-se, W. S. Plumer, Psalms, Carlisle, Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1978, p. 829.

[9] Veja-se, J. Murray, Elect, Election: In: M.C. Tenney, ed. ger. The Zondervan Pictorial Encyclopaedia of the Bible, 5. ed. Michigan: Zondervan, 1982, v. 2, p. 271.

[10]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 90.16), p. 442.

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (1)

Quando os homens quiserem fazer pesquisa sobre a predestinação, é preciso que se lembrem de entrar no santuário da sabedoria divina. Nesta questão, se a pessoa estiver cheia de si e se intrometer com excessiva autoconfiança e ousadia, jamais irá satisfazer a sua curiosidade. Entrará num labirinto do qual nunca achará saída. Porque não é certo que as coisas que Deus quis manter ocultas e das quais Ele não concede pleno conhecimento sejam esquadrinhadas dessa forma pelos homens. Também não é certo sujeitar a sabedoria de Deus ao critério humano e pretender que este penetre a Sua infinidade eterna. Pois Ele quer que a Sua altíssima sabedoria seja mais adorada que compreendida (a fim de que seja admirada pelo que é). Os mistérios da vontade de Deus que Ele achou bom comunicar-nos, Ele nos testificou em Sua Palavra. Ora, Ele achou bom comunicar-nos tudo o que viu que era do nosso interesse e que nos seria proveitoso. – João Calvino (1509-1564).  [1]

 

Por mais miserável que seja a vida presente, é uma bênção de Deus aos fiéis, visto que ao sustentar-nos e conservar-nos nela, lhes dá um claro sinal e testemunho de Seu amor, e do amor paternal que lhes tem. –João Calvino.[2]

 

Introdução

A Epístola aos Efésios é de uma beleza incomparável em sua relação vital entre teologia e vida cristã. Paulo ao escrevê-la, inspirado por Deus, trata de assuntos que permeiam o propósito eterno de Deus o qual é pleno de sabedoria, bondade, justiça e amor. Ao mesmo tempo o apóstolo discorre sobre temas vivenciados cotidianamente por todos os seres humanos: questões comportamentais, relação familiar – com todos os seus ingredientes –, vida social e, a vida religiosa.

 

Possivelmente, em Efésios, entre todas as epístolas paulinas, tenhamos de forma mais contundente a simbiose entre doutrina e vida; conhecimento de Deus e prática de vida. Ela é um sublime e majestoso tratado teológico-devocional.

 

John Stott (1921-2011) inicia o seu Comentário, dizendo: “A carta aos Efésios é um resumo, muito bem elaborado das boas novas do cristianismo e de suas implicações. Ninguém pode lê-la sem ser compelido a adorar a Deus e a ser desafiado a melhorar a sua vida cristã”.[3]

 

De fato, toda doutrina bíblica, todo o seu estudo e conhecimento, devem nos estimular à santidade.[4] O conhecer a Deus deve promover em nós sentimentos corretos em relação a Ele que se manifeste em obediência sincera.[5] A obediência é a expressão máxima do amor.

 

A experiência não é fundamento da doutrina, porém, a demonstra e ilustra. A nossa experiência, portanto, deve ser sempre avaliada à luz da verdade[6] revelada na Palavra.[7] Craig acentua: “Pessoas que simplesmente andam na montanha russa da experiência emocional estão roubando de si mesmas uma fé cristã mais rica e profunda ao negligenciar o lado intelectual dessa fé”.[8]

 

Como nos parece óbvio, para obedecer a Deus é preciso conhecer o que Ele deseja de nós. O conhecer não se transforma mecanicamente em obediência. Por sua vez, a ignorância não carrega consigo o manto sagrado e místico de uma obediência sincera e pura.

 

O conhecimento meramente intelectual satanás também o possui.[9] Porém, o conhecimento real, fruto a graça de Deus (Mt 11.27; 2Pe. 3.18), é um ingrediente essencial. O conhecimento correto da doutrina, portanto, é vital para nos conduzir em alegre obediência glorificando a Deus em nossa vida.[10]

 

Calvino (1509-1564) nos ensina que “a doutrina é a mãe pela qual Deus nos gera”.[11] Por isso, “o tesouro da sã doutrina é inestimável, e nada há para se temer mais do que o risco de perdê-lo”.[12] Satanás, com sua astúcia, envida esforços para obscurecer a doutrina de Cristo a fim de nos desviar da verdade (2Co 4.4-6).[13]

 

Em Efésios temos uma relação direta entre a doutrina, o culto e a vida. De fato, sempre que ocorre a dissociação entre esses três elementos, somos conduzidos a uma atrofia espiritual que prejudica todo o corpo.[14] Calvino (1509-1564) resume: “O genuíno propósito da doutrina é adequar nossa união a fim de desenvolvermos o varão perfeito, à medida da plena maturidade (Ef 4.14)”.[15]

 

O Deus glorioso, os Seus feitos redentores e as implicações destas realidades na vida da igreja se constituem no grande tema de Efésios: ela é essencialmente teológica. A Pessoa do Deus Bendito (Ef 1.3) perpassa todos os versos da Epístola conduzindo-nos à gratidão por Deus ter-nos, por graça, propiciado conhecê-Lo em Seus atos abençoadores. A sublimidade de Efésios está no Seu conteúdo e este, alimenta e fortalece a nossa fé.[16]

 

Efésios pode ser considerada “uma das mais divinas composições do homem”.[17] Como curiosidade cito que João Knox (1514-1572), o pai do presbiterianismo, quando estava moribundo, em seu leito, frequentemente pedia que os “Sermões sobre a Carta aos Efésios”, de Calvino, fossem lidos perante ele.[18]

 

1. Contexto histórico

a) Ocasião e emissários

Paulo escreveu Efésios por volta do ano 61-63 AD., quando estava preso (Ef 3.1; 4.1; 6.20) em Roma. A Carta foi escrita pouco depois de Colossenses e Filemon. O emissário foi Tíquico, acompanhado de Onésimo (Ef 6.21-22; Cl 4.7-9).

b) Tema

Um dos objetivos de efésios, é: “Descrever a gloriosa graça-redentiva de Deus para a Igreja, derramada sobre ela a fim de que pudesse ser uma bênção para o mundo, e pudesse permanecer unida contra todas as forças do mal, e assim glorificar seu Redentor”.[19]

 

O assunto de Efésios é a Igreja. Assim, podemos considerar como tema da Epístola, O propósito glorioso de Deus para com a Sua Igreja no tempo e na eternidade.[20]

 

São Paulo, 27 de março de 2019

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.8), p. 38.

[2] João Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 189. In: Catecismos de la Iglesia Reformada,  Buenos Aires: La Aurora, 1962, p. 69. Veja-se também: João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 62,64; João Calvino, As Institutas, III.9.3.

[3]John R..W. Stott, A Mensagem de Efésios, São Paulo: ABU Editora, 1986, p. 1. À frente: “A carta inteira, portanto, é uma combinação magnífica da doutrina cristã e do dever cristão, da fé cristã e da vida cristã, daquilo que Deus fez através de Cristo e do que nós devemos ser e fazer em decorrência” (John R.W. Stott, A Mensagem de Efésios, p. 9).

[4]Veja-se: O. Palmer Robertson, Jonas – um estudo sobre compaixão, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 54.

[5]Veja-se:  John Piper; D.A Carson, O Pastor Mestre e O Mestre Pastor, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 59.

[6] Veja-se: D.M. Lloyd-Jones, Santificados Mediante a Verdade, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, (Certeza Espiritual, v. 3), 2006, p. 55.

[7] “No reino do misticismo espiritual, alguns têm deixado a autoridade da Palavra de Deus e estabelecido a autoridade da experiência” (Paul N. Benware, A obra do Espírito Santo hoje: In: Mal Couch, ed. ger., Os Fundamentos para o Século XXI: Examinando os principais temas da fé cristã, São Paulo: Hagnos, 2009, p. 402).

[8]William L. Craig,  A Verdade da Fé Cristã, São Paulo: Vida Nova, 2004. p. 14.

[9]Veja-se: Davd M. Lloyd-Jones, A Unidade Cristã, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 125.

[10] Vejam-se:  D. Martyn Lloyd-Jones, A Vida de Paz,  São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2008, p. 26; D. Martyn Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 113-114; 126-127.

[11]João Calvino, Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 4.24), p. 141.

[12]João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 1.19), p. 50. Quanto ao perigo das sutilezas que nos afastam da simplicidade do Evangelho, veja-se: João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 1.4), p. 30;  (Tt 1.1), p. 300.

[13]Veja-se: João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998,  (Ef  4.14), p. 129.

[14]“A fé envolve a verdade de Deus (doutrina), encontro com Deus (culto) e servir a Deus (vida). A inseparabilidade desses três elementos é vista repetidas vezes nas Escrituras e na história do povo de Deus” (W. Robert Godfrey, A Reforma do Culto: In: James M. Boice, et. al. eds. Reforma Hoje, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 155).

[15] João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 5.12), p. 141.

[16]“A sublimidade do estilo e linguagem corresponde com a sublimidade dos temas, e excede a quase todas outras suas Epístolas. É mui justo que aqueles aos quais escreveu, fossem cristãos por longo tempo alicerçados na fé” (R. Jamieson, et. al. Comentario Exegetico y Explicativo de la Biblia, 6. ed. Buenos Aires: Casa Bautista de Publicaciones, 1977, v. 2, p. 268).

[17]Essa frase de T. Coleridge (1772-1834) é citada por diversos autores. Vejam-se alguns exemplos: William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora, 1974, v. 10, p. 69; Broadus D. Hale, Introdução ao Estudo do Novo Testamento, Rio de Janeiro: JUERP., 1983, p. 268; F.F. Bruce, El Mensaje del Nuevo Testamento, Buenos Aires: Ediciones Certeza, 1975, p. 49; William Hendriksen, Efésios, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, p. 41.

[18]Cf. Broadus D. Hale, Introdução ao Estudo do Novo Testamento, p. 268; William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, v. 10, p. 69; Douglas Bond, A poderosa fraqueza de John Knox, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2011, p.  34.

[19] W. Hendriksen, Efésios, p. 80.

[20] Podemos enumerar alguns outros temas sugeridos: “A Igreja Gloriosa” (W. Hendriksen, Efésios, p. 81 e 83); “A Glória de Deus em Cristo e Sua Igreja” (Hoke Smith, Efesios: el Propósito eterno de Dios, Buenos Aires: Casa Bautista de Publicaciones,  1976, p. 16); “O propósito de Deus em Cristo para Sua Igreja” (Francis Foulkes, Efésios: introdução e comentário, São Paulo, Mundo Cristão; Vida Nova, (1979),  p. 14);  “Privilégios e responsabilidades espirituais da Igreja” (R.H. Gundry, Panorama do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1978, p. 349); “A Epístola da Igreja” (Merril C. Tenney, O Novo Testamento: Sua Origem e Análise, São Paulo: Vida Nova,  1972, p. 335); “A glória da Igreja, como a sociedade que se identifica na história com o eterno propósito de Deus revelado em Cristo”  (C. H. Dodd, Efesios: In: F.C. Eiselen, et. al., eds. Comentario Bíblico de Abingdon, 2. ed. Buenos Aires; México:  Editorial “La Aurora” e Casa Unida de Publicaciones, 1951, § 883. p. 416).

[Apresentação Vídeo] Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus

 

Hoje iniciamos uma nova série: “Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus”. O nosso ponto fundamental é o texto de Efésios 4.1-6.

A doutrina da eleição eterna de Deus estará no cerne desta série. Contudo, a nossa questão não será especulativa. Primeiramente porque as Escrituras não nos foram confiadas com esse propósito. Também, porque Deus não nos revelou algo de mais ou de menos dentro de Seus propósitos eternos. Ele soberanamente revelou o suficiente para a nossa edificação.

Doutrina é para ser conhecida com intensidade e praticada, não para ser especulada.

Assim sendo, queremos desenvolver o nosso tema, que tem bastante semelhança com o anterior, de forma bíblica e pastoral, entendendo que a doutrina da eleição não pode nos servir de um confortável travesseiro da “NASA”, para que durmamos confortável e displicentemente na condição de eleitos de Deus em um feriado contínuo de nossa existência.

Nem também, pode se tornar um pódio, aonde subamos com a alegre e vaidosa sensação de que vencemos, somos “o cara”.

Então, poderíamos dizer para nós mesmos: “Deus não se arrependeu de ter me escolhido, Ele é um visionário sagaz, descobridor de talentos…”. Pensar assim seria uma inominável tolice. Portanto, nem acomodação, nem presunção.

Deus nos chama por graça para vivermos a sua graça em gratidão no tempo e espaço que Ele nos concedeu.

Assim sendo, desejamos tratar, em forma bastante sumária, de alguns desses aspectos. Que Deus nos ilumine e pelo Espírito nos conduza de modo mais intenso à santidade, tendo a Jesus Cristo como nosso modelo definitivo (Rm 8.29-30). Amém.

 

Acompanhe a série completa clicando aqui.

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (37) (Final)

Considerações finais

 

Enquanto o Senhor não os abrir, os olhos de nosso coração são cegos. – João Calvino.[1]

 

Reconheço e declaro que a fé é propriamente, toda ela, obra do Espírito Santo, por cuja iluminação conhecemos a Deus e os imensos tesouros da Sua bondade; e mais, sem a Sua luz o nosso entendimento seria tão cego que nós não poderíamos ver coisa alguma, e tão desprovido de sensibilidade que não poderíamos perceber e acolher bem as realidades espirituais. – João Calvino.[2]

 

Nessas considerações finais desejo recapitular alguns pontos.

 

Como vimos, a fé é a boa obra do Espírito Santo operada em nós (Jo 6.29). Esta fé pressupõe a nossa condição de pecadores,[3] necessitados de salvação, e, também, a livre graça de Deus.

 

A fé é a nossa declaração de que Deus efetuou de forma poderosa e eficaz o nosso novo nascimento. Passamos a ter vida. A fé é, portanto, o nosso primeiro ato após a nossa ressurreição espiritual.[4] “A fé salvadora, desde o início, dirige os olhos de nossa mente e de nosso coração para longe de nós mesmos e na direção da graça de Deus em Cristo”.[5]

 

Assim sendo, denominamos de fé salvífica aquele dom da graça de Deus, por meio do qual somos habilitados a receber a Jesus Cristo como nosso único e suficiente Salvador e, a crer em todas as promessas do Deus Triúno, conforme estão registradas nas Escrituras.

 

A fé salvífica é produto da graça de Deus que age por meio da sua Palavra registrada na Bíblia (At 3.16; At 14.27; 18.27; Rm 10.17; Ef 2.8; 6.23; Fp 1.29; Hb 12.2; Tg 1.18; 1Pe 1.23; 1Jo 5.1-5).[6]

 

Como temos demonstrado ao longo desses textos, essa fé se materializa em nossas ações que, durante toda a nossa vida vão sendo moldadas pela Palavra.

 

Calvino escreve com propriedade enfatizando a ação primeira de Deus em nos regenerar para que possamos crer:

 

Somos reconhecidos como filhos de Deus, não por conta de nossa própria natureza, nem por nossa própria iniciativa, mas porque o Senhor nos gerou voluntariamente (Tg 1.18), ou seja, com base em seu amor imerecido. Daqui se deduz, primeiramente, que a fé não provém de nossa própria ação, senão que é fruto da regeneração  espiritual. Pois o Evangelista afirma que ninguém pode crer, a não ser que seja gerado por Deus. Daqui se depreende que a fé é um dom celestial. Além do mais, a fé não é um mero e frio conhecimento, porquanto ninguém pode crer se porventura não for renovado pelo Espírito de Deus.[7]

 

A genuína fé, identificada como salvadora, não é uma crença qualquer, cujo teor seja indefinido, tendo como virtude apenas o fato de poder crer, uma espécie de fé na fé. Ao contrário disso, tem como conteúdo, a Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Fé é o abandono de toda confiança em obra produzida por nós mesmos como fundamento de nossa justificação e salvação. Ela também está convencida intelectualmente de sua veracidade e incontestabilidade (Hb 11.1). Como vimos, além deste elemento intelectual, consiste em uma rendição incondicional ao seu Senhor, em quem descansa de forma amorosa e confiante.[8]

 

A fé que não parte de um conhecimento verdadeiro e, por isso mesmo, não é vivencial, não é a verdadeira fé bíblica. A fé é persuadida pelo conhecimento que a possibilitou crer.[9] “A fé salvadora é um conhecimento seguro que produz segurança e certeza. Conhecimento e segurança caminham juntos”.[10]

 

Quando a nossa fé é autocentrada tendemos a nos frustrar ou a praticar uma autocomiseração espiritual visto que nos frustramos com as promessas que não foram feitas, contudo, foram por nós idealizadas. Neste caso, ainda com o foco equivocado nos inclinamos a achar que Deus falhou ou, que a nossa fé não foi suficiente. Este é o caminho de uma busca de fé meritória que, sendo seguido, nos distanciaria cada vez mais das Escrituras.

 

A fé não pode ser geradora de promessas divinas, antes, propulsora de uma vida que se harmonize com a promessa que procede de Deus.

 

Quando Paulo e Barnabé chegam à igreja de Antioquia, fazem um relato sumário de seu trabalho. Eles desejam compartilhar com todos os atos de Deus em sua missão entre os gentios.

 

Registra Lucas: Ali chegados, reunida a igreja, relataram quantas coisas fizera Deus com eles e como abrira aos gentios a porta da fé(At 14.27). Enfatizam o poder soberano e operante de Deus em seu ministério e, como Deus operou eficazmente chamando os seus pela fé. É por meio da Palavra que Deus nos gerou espiritualmente, tornando-nos seus filhos.

 

Deus providencia os meios para que os seus eleitos ouçam o Evangelho e, ao mesmo tempo, os chama poderosamente, aplicando a Palavra aos seus corações.

 

Calvino resume este ensinamento:

 

O reino do céu deveras se nos abre pela pregação externa do evangelho, mas ninguém entra nele a menos que Deus lhe estenda sua mão; ninguém se aproxima a menos que seja interiormente atraído pelo Espírito. Portanto, Paulo e Barnabé mostram, pelos resultados, que sua vocação era aprovada e ratificada por Deus, porquanto a fé dos gentios era precisamente como se um selo fosse impresso pela mão de Deus, a fim de a confirmar.[11]

 

Deus é quem abre o nosso coração e mente para que possamos entender salvadoramente a mensagem do Evangelho. Ilustremos isso com alguns episódios narrados por Lucas.

 

Após a ressurreição de Cristo os discípulos ainda não entendiam adequadamente as Escrituras em relação ao Messias, Jesus Cristo. Com dois deles, no caminho de Emaús, o Senhor abriu-lhes os olhos para que a compreendessem e cressem por meio da exposição das Escrituras. Foi esta a percepção deles.

 

Narra Lucas:

 

E aconteceu que, quando estavam à mesa, tomando ele o pão, abençoou-o e, tendo-o partido, lhes deu; então, se lhes abriram (dianoi/gw)[12] os olhos, e o reconheceram; mas ele desapareceu da presença deles. E disseram um ao outro: Porventura, não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha (dianoi/gw) as Escrituras? (Lc 24.30-32).

 

Agora, com os demais discípulos, Jesus mostra como as Escrituras se cumpriram em seu ministério, vida, morte e ressurreição. Lucas resume: “Então, lhes abriu (dianoi/gw) o entendimento (nou=j) para compreenderem (suni/hmi) as Escrituras” (Lc 24.45).

 

De passagem, podemos observar que o caminho para atingir a mente e o coração das pessoas é a exposição da Palavra. O Espírito que opera por meio dela não força as evidências, nem nos obriga a diminuir a nossa capacidade de pensar, antes, nos faz enxergar e crer nas evidências que estão ali diante de nós tão eloquentemente (At 3.16; 16.14;[13] 18.27; Rm 4.16; 1Co 3.5; Fp 1.29).[14]

 

Lucas relata aspectos da rotina evangelística de Paulo:

 

Paulo, segundo o seu costume, foi procurá-los e, por três sábados, arrazoou com eles acerca das Escrituras, expondo (dianoi/gw = “explicando”, “interpretando”) e demonstrando ter sido necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos; e este, dizia ele, é o Cristo, Jesus, que eu vos anuncio. (At 17.3).

 

A minha fé se constitui em mão receptora, não criadora ou geradora de algum bem a que venhamos a receber.[15]

 

Sem a graça de Deus jamais creríamos na mensagem do Evangelho, jamais poderíamos entendê-la de forma salvadora, portanto, de modo algum seríamos salvos. Assim sendo, não é demais enfatizar: não há mérito na fé.[16]

 

Por sua vez, esta Palavra uma vez ouvida e entendida, produz frutos em seus receptores. Conforme já nos referimos, Paulo dá graças a Deus pela vida dos colossenses a esse respeito:

 

3 Damos sempre graças a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, quando oramos por vós, 4desde que ouvimos (a)kou/w) da vossa fé em Cristo Jesus e do amor que tendes para com todos os santos; 5por causa da esperança que vos está preservada nos céus, da qual antes ouvistes (proakou/w)[17] pela palavra da verdade do evangelho, 6 que chegou até vós; como também, em todo o mundo, está produzindo fruto e crescendo, tal acontece entre vós, desde o dia em que ouvistes (a)kou/w) e entendestes (e)piginw/skw = conhecer acuradamente, intensamente) a graça de Deus na verdade. (Cl 1.3-6).

 

Somos, portanto, chamados a viver a nossa fé em grata obediência a Deus, onde Ele nos colocar e aonde Ele nos mandar. Peçamos a Deus discernimento e frutifiquemos em nossa fé. A Deus toda Glória. Amém.

 

 

São Paulo, 26 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este post faz parte de uma série. Acesse aqui a série completa

 


[1]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.16), p. 41.

[2]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.10), p. 145.

[3] Veja-se o desenvolvimento deste argumento em: Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 408ss.

[4]Cf. John MacArthur, O Evangelho Segundo os Apóstolos, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2011, p. 88.

[5] Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 223.

[6] “Pela fé em o nome de Jesus, é que esse mesmo nome fortaleceu a este homem que agora vedes e reconheceis; sim, a fé que vem por meio de Jesus deu a este saúde perfeita na presença de todos vós” (At 3.16). “Querendo ele percorrer a Acaia, animaram-no os irmãos e escreveram aos discípulos para o receberem. Tendo chegado, auxiliou muito aqueles que, mediante a graça, haviam crido(At 18.27). Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo(Ef 6.23). “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele (Fp 1.29). “Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus” (Hb 12.2). “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que dele é nascido. 2 Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus: quando amamos a Deus e praticamos os seus mandamentos. 3 Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; ora, os seus mandamentos não são penosos, 4 porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. 5 Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus?” (1Jo 5.1-5).

[7]João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.13), p. 47-48.

[8] Para uma descrição sumária deste ponto, entre outros, vejam-se: R.C. Sproul, O Que é teologia Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 59-60; L. Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 506-508; Hermisten M.P. Costa, Eu Creio, São Paulo: Paracletos, 2002, p. 103-104; Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 409-412. Para uma abordagem histórica e crítica, um pouco mais ampla, veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 128-135; 212-215.

[9]Veja-se: Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 412.

[10] Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 99.

[11]John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1996 (Reprinted), v. 19, (At 14.27), p. 31.

[12] Este verbo tem uma aplicação espiritual, conforme a do texto de Lc 24.31,32,45, e também física (Mc 7.34-35).

[13]Conrad Pellikan (1478-1556), um dos tradutores da Bíblia de Zurique (1529), comentando At 16.4, escreveu: “…. ninguém pode ter fé na Palavra por suas próprias forças, Mas somente pelo dom do Espírito Santo. Portanto, ao ouvir as promessas do evangelho, não tenhamos esperança no poder da carne, mas oremos para que o Senhor abra nossos corações, conceda-nos o dom do Espírito, coloque em nós a fé e nos preencha com a obra da justiça” (Esther Chung Kim; Todd R. Hains, Comentário Bíblico da Reforma – Atos, São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 275).

[14] “Pela fé em o nome de Jesus, é que esse mesmo nome fortaleceu a este homem que agora vedes e reconheceis; sim, a fé que vem por meio de Jesus deu a este saúde perfeita na presença de todos vós” (At 3.16). “Certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu (dianoigw) o coração para atender às coisas que Paulo dizia (At 16.14). “Querendo ele percorrer a Acaia, animaram-no os irmãos e escreveram aos discípulos para o receberem. Tendo chegado, auxiliou muito aqueles que, mediante a graça, haviam crido(At 18.27). “Essa é a razão por que provém da fé, para que seja segundo a graça, a fim de que seja firme a promessa para toda a descendência, não somente ao que está no regime da lei, mas também ao que é da fé que teve Abraão (porque Abraão é pai de todos nós” (Rm 4.16). “Quem é Apolo? E quem é Paulo? Servos por meio de quem crestes, e isto conforme o Senhor concedeu a cada um” (1Co 3.5). “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele (Fp 1.29).

[15]“A fé não é chamada de mão porque trabalha ou merece a justificação de algum modo, e sim porque ela recebe Cristo, abraça-o e se apropria dele mediante a imputação divina. A fé não é uma mão criativa, e sim uma mão receptiva” (Joel R. Beeke, Justificação pela Fé Somente (A Relação da Fé com a Justificação): In: John F. MacArthur, Jr., et. al., A Marca da Vitalidade Espiritual da Igreja: Justificação pela Fé Somente, São Paulo: Editora Cultura Cristã, (2000), p. 56).

[16]“Não existe orgulho na fé. Fé é simplesmente a crença de que nada podemos fazer para nos salvar, mas que confiamos plenamente na graça de Deus” (Peter Jones, Verdades do Evangelho x Mentiras pagãs, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 34).

[17] Esta palavra só ocorre aqui em todo o NT.

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (36)

Implicações doutrinárias e práticas

 

  1. A verdadeira fé é aquela que ouve a Palavra de Deus e descansa perseverantemente nas Suas promessas.

 

Analisando a paciência de Davi revelada no salmo 40, Calvino extrai uma “preciosa” lição:

 

Embora Deus não se apresse em surgir em nosso socorro, no entanto propositadamente nos mantém em suspenso e perplexidade; entretanto, não devemos perder a coragem, já que a fé não é totalmente provada senão pela longa espera.

 

Continua:

 

É possível que Deus nos socorra mais lentamente do que gostaríamos, mas quando parece não tomar ele conhecimento de nossa condição, ou, se é que podemos usar tal expressão, quando parece inativo e a dormitar, isso é totalmente diferente de enganar; pois se somos incapazes de suportar, mediante o vigor e o poder invencíveis da fé, o tempo oportuno de nosso livramento por fim se manifestará.[1]

 

  1. A fé salvadora encontra o seu momento de decisão, quando o pecador tocado pelo Espírito, diz na integridade de seu ser: “Eu creio Senhor”.

 

  1. A fé salvadora é a boa obra do Espírito Santo em nós, baseando-se nos feitos do Pai e do Filho: A fé é resultado do ministério da Trindade em favor do Seu Povo.

 

  1. “Se o caminho para Deus só é aberto para a fé, segue-se que todos quantos se encontram fora da fé não podem agradar a Deus”, constata Calvino.[2]

 

  1. A fé em Deus se revela eloquentemente em nosso modo de viver, agir, falar e decidir. (1Ts 1.3,8). Em outras palavras: “A fé não é alguma espécie de crença intelectual que vocês carregam consigo numa mochila, não é algo que vocês manipulam, põem e dispõem, quando quiserem, mas é algo que se assenhoreia de todo o ser de vocês”, ensina Lloyd-Jones. [3]

 

  1. Pela fé Deus nos capacita a vencer as tentações e as armadilhas de Satanás (1Pe 5.8,9; 1Jo 5.4,5).

 

  1. A doutrina da justificação pela graça mediante a fé, como centro[4] e fundamento da fé cristã, amparada na perfeita satisfação propiciada por Cristo às exigências do Pai,[5] de nenhum modo exclui a responsabilidade que temos de viver de modo prático a nossa fé. A fé deve ser evidenciada pelos seus frutos resultantes da sincera obediência a Deus.

 

  1. A genuína teologia cristã é compreensível, transformadora e operante. A Igreja como manifestação histórica do Reino é desafiada a apresentar em sua fé operante (práxis)[6] a eficácia da ética de Jesus Cristo e, a demonstrar o quanto a igreja leva a sério o seu Senhor.

 

  1. “Indubitavelmente, olhar para Deus é uma propriedade da fé, mesmo nas circunstâncias mais tentadoras, e pacientemente esperar pelo socorro que lhe fora prometido por Deus”, estimula-nos Calvino.[7] 
  2.  O culto que prestamos a Deus deve ser a manifestação de uma alma crente que pela fé conhece o seu Senhor, a Quem adora. (2Pe 3.18).

 

  1. O Senhor conhece a nossa fé (Ap 2.13,19). Usemos, pois, dos meios fornecidos por Deus para o nosso alimento espiritual e, assim, vivamos em comunhão com Ele (Hb 11.4-7). A fé faz parte de nossa responsabilidade.[8]

 

Finalmente, orienta-nos o escritor inspirado:

 

22 Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. 23 Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se ao homem que contempla, num espelho, o seu rosto natural; 24 pois a si mesmo se contempla, e se retira, e para logo se esquece de como era a sua aparência. 25 Mas aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar. (Tg 1.22-25).

 

Temos, portanto, que nos apegar à verdade ouvida para que não nos desviemos dela. O escritor de Hebreus após falar a respeito da superioridade de Cristo sobre todas as coisas exorta-nos a dar atenção à sua Palavra, para que não nos desviemos, por negligência, em nossa rota de obediência a ele: “Por esta razão, importa que nos apeguemos, com mais firmeza, às verdades ouvidas (a)kou/w), para que delas jamais nos desviemos” (Hb 2.1).

 

São Paulo, 26 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 40.1), p. 215.

[2]João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 11.6), p. 304.

[3] D. Martyn Lloyd-Jones, Deus o Espírito Santo, p. 189.

[4]Veja-se: Franklin Ferreira; Alan Myatt, Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual, São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 812.

[5]Veja-se: Thomas Watson, A Fé Cristã, estudos baseados no breve catecismo de Westminster, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 264.

[6] Jeremias denomina isso de “fé vivencial” (J. Jeremias, O Sermão do Monte, 4. ed. São Paulo: Paulinas, 1980, p. 57).

[7]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 25.5), p. 543.

[8] Veja-se: John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 126.