O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (2)

2. Razões para a tristeza

 

A Bíblia não é um livro de autoajuda. Ela de fato não simplesmente nos ajuda, mas nos mostra o caminho definitivo para a sua concretização eterna, a salvação em Cristo Jesus que envolve o tempo e a eternidade. Portanto, ela não trata de segredinhos para enganar, disfarçar ou esconder nossas rugas, manchas, “estrias” ou mazelas espirituais. Ela nos ensina que antes da alegria vem o choro; antes da felicidade vem a tristeza.

 

A Escritura descreve diversos momentos de angústia e tristeza entre os seres humanos, quer por motivos nobres, quer não; de homens e mulheres piedosos, ou não. Este sentimento acompanhado pelas lágrimas é comum ao ser humano. De forma ilustrativa, indiquemos algumas circunstâncias de tristeza e lágrimas:

1) Morte

A consciência da morte[1] que, por causa do pecado, pode ser tão grave, intensa e esmagadora para o homem,[2] soando como algo anormal,[3] pode e deve ser olhada como o caminho para a glória, como escreveu Calvino:

 

Somente os crentes genuínos conhecem a diferença entre este estado transitório e a bem-aventurada eternidade, para a qual foram criados; eles sabem qual deve ser a meta de sua vida. Ninguém, pois, pode regular sua vida com uma mente equilibrada, senão aquele que, conhecendo o fim dela, isto é, a morte propriamente dita, é levado a considerar o grande propósito da existência humana neste mundo, para que aspire o prêmio da vocação celestial.[4]

 

Não é de se estranhar que a morte seja um dos aspectos mais indicados nas Escrituras como sendo causador de tristeza, dor e lágrimas.

 

A) A Morte de filhos

 

 1) Jacó, quando pensou que José, seu filho preferido, havia morrido, chorou intensamente, se negando, inclusive, a ser consolado pelos familiares: 34 Então, Jacó rasgou as suas vestes, e se cingiu de pano de saco, e lamentou o filho por muitos dias. 35 Levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas, para o consolarem; ele, porém, recusou ser consolado e disse: Chorando, descerei a meu filho até à sepultura. E de fato o chorou seu pai” (Gn 37.34-35).

 

2) Davi chora intensamente a morte de seus filhos. Amnom, morto por ordem de Absalão, e, posteriormente, pela morte deste:

 

Absalão, porém, fugiu e se foi a Talmai, filho de Amiúde, rei de Gesur. E Davi pranteava a seu filho [Amnon] todos os dias. (2Sm 13.37).[5]

Então, o rei, profundamente comovido, subiu à sala que estava por cima da porta e chorou; e, andando, dizia: Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho! (2Sm 18.33).

 

Com esta lamentação intensa e contínua pela morte de Absalão, algo constrangedor aconteceu, como nos chama atenção MacArthur: “O pranto de Davi por Absalão foi tão intenso que seus soldados ficaram envergonhados da vitória”.[6]

 

Joabe foi fundamental para admoestar a Davi mostrando-lhe o quanto estava sendo nefasto o seu comportamento:

 

Disseram a Joabe: Eis que o rei anda chorando e lastima-se por Absalão. 2 Então, a vitória se tornou, naquele mesmo dia, em luto para todo o povo; porque, naquele dia, o povo ouvira dizer: O rei está de luto por causa de seu filho. 3 Naquele mesmo dia, entrou o povo às furtadelas na cidade, como o faz quando foge envergonhado da batalha. 4 Tendo o rei coberto o rosto, exclamava em alta voz: Meu filho Absalão, Absalão, meu filho, meu filho! 5 Então, Joabe entrou na casa do rei e lhe disse: Hoje, envergonhaste a face de todos os teus servos, que livraram, hoje, a tua vida, e a vida de teus filhos, e de tuas filhas, e a vida de tuas mulheres, e de tuas concubinas, 6 amando tu os que te aborrecem e aborrecendo aos que te amam; porque, hoje, dás a entender que nada valem para contigo príncipes e servos; porque entendo, agora, que, se Absalão vivesse e todos nós, hoje, fôssemos mortos, então, estarias contente. (2Sm 19.1-6).

 

As Escrituras narram que Davi reagiu positivamente a esta sincera e necessária repreensão (2Sm 19.8-15).

 

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este artigo faz parte de uma série. Confira aqui a série completa.

 


 

[1] “O que distingue os humanos de todas as outras criaturas é a autoconsciência. Sabemos que estamos vivos e que morreremos, e não conseguimos deixar de questionar por que a vida é assim e qual é o seu significado” (Charles Colson; Harold Fickett, Uma boa vida, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 20).

[2] “Durante toda a minha vida, meu pensamento esteve ocupado pelo problema com o qual todos se defrontam: o sentido da vida e da morte. É, no fundo, a única questão contra a qual se choca desde a origem o animal pensante, o único que enterra seus mortos, o único que pensa na morte, que pensa sua morte. Para iluminar seu caminho nas trevas, para adaptar-se à morte, esse animal tão bem adaptado à vida só tem duas luzes: uma se chama religião, a outra se chama ciência” (Jean Guitton, in: Jean Guitton; Grichka Bogdanov; Igor Bogdanov, Deus e a Ciência, em direção ao metarrealismo, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992, p. 14). Veja-se: William Edgar, Razões do Coração, Brasília, DF.: Refúgio, 2000, p. 79ss.

[3] J. I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 185.

[4]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 90.12), p. 440. Vejam-se: João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 61,66; João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, (Dn 3.24-25), p. 218-219.

[5] É possível que isto tenha acontecido devido ao fato de Davi não ter punido corretamente a Amnon pelo ato de violentar a sua meia-irmã Tamar. (Veja-se: Francis A. Schaeffer, Não há gente sem importância, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 109).

[6] John MacArthur, O Caminho da Felicidade, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 67.

O Protestantismo Brasileiro e a Proclamação da República – Anotações jornalísticas –

1. A tolerância inicial ao Protestantismo

Os Tratados de 1810 firmados entre Brasil e Inglaterra (Tratado de Aliança e Amizade, e o de Comércio e Navegação) e a Constituição de 1824 foram fundamentais para a implantação do Protestantismo no Brasil. Com isso, abriram-se as portas para o ingresso de imigrantes que traziam consigo sua cultura repleta de valores de uma religião até então desconhecida.

Nesta esteira vieram depois os missionários que objetivavam não apenas pastorear imigrantes, mas, sim, evangelizar os nativos. Neste afã, se valeram de distribuição de Bíblias – trabalho já documentado em 1816 –, panfletos, sermões, pregações, conversas, polêmicas etc. Aos poucos, o protestantismo foi adquirindo o seu espaço próprio, enfrentando, é verdade, perseguições episódicas, mas, na medida do possível, recorria à lei e, em geral seus recorrentes eram atendidos pelas autoridades constituídas.

Houve, por certo, um jogo de força por parte dos protestantes, omissão de certas autoridades e até mesmo interesse de parte do clero brasileiro e de alguns intelectuais (republicanos e positivistas) na implantação do protestantismo. Deste modo, os templos foram surgindo e a igreja se desenvolvendo, deixando aos poucos de ser uma coisa obscura para ter de fato uma boa projeção na sociedade, atingindo homens do campo e da cidade, pessoas de vida modesta e intelectuais.

No Brasil imperial não houve um “rio de sangue” resultante de uma perseguição estrutural por parte da igreja romana e do povo. Sem dúvida, houve perseguições – e por vezes intensa –, contudo sempre localizada e não institucionalizada. A mentalidade brasileira tinha um espírito de tolerância resultante em grande parte da sua própria constituição étnica, da miscigenação de povos e raças.

Como a Inquisição não teve penetração no Brasil, exceto as visitas do Santo Ofício, isto contribuiu para formar uma mentalidade mais tolerante entre os católicos. Onde a Inquisição era voraz em suas práticas, os seus horrores dominavam também as mentes. Nesses países, o protestantismo não teve como florescer senão tardiamente. O Brasil não conheceu de forma plena a força dos tentáculos da Inquisição, ainda que tenha se ressentindo de sua influência de modo especial na Bahia, Grão-Pará (Atual Pará) e Pernambuco.

O Brasil contou também com outro ingrediente fundamental entre os intelectuais: o liberalismo. Este, como filho legítimo do Iluminismo – tão expressivo em suas conquistas na Europa –, teve preponderância no final do século XVIII em Portugal. Onde o Iluminismo teve ascensão, o espírito de tolerância era um ingrediente natural e compulsório. Ele não tardou a manifestar os seus efeitos em Portugal, especialmente por intermédio do marquês de Pombal.

Como muitos dos Constituintes brasileiros (1823) estudaram em Coimbra após a reforma pombalina (1759), estes receberam uma influência iluminista e liberal que se manifestou em sua perspectiva religiosa.

Outro elemento relevante foi o econômico. Isto é por demais evidente em diversos discursos dos parlamentares na Constituinte de 1823.

O fato é que a Constituição de 1824 ofereceu a base legal para a implantação do culto protestante no Brasil e para a prática de culto acatólico por parte de brasileiros.

2. Mais do que tolerância: Igualdade.

Num passo seguinte, após o estabelecimento do protestantismo no Brasil, percebemos que estes desejavam não apenas a tolerância, mas, sim, a igualdade na liberdade dos cultos. Assim, quando a República foi proclamada, na semana seguinte a Imprensa Evangélica traz um editorial entusiasta, com o título: “Estados Unidos do Brazil”[1]. Nele o articulista diz:

 

Acabamos de presenciar o acontecimento mais estupendo e extraordinário que se tem dado no século presente. Já está consumado, já ninguém duvida de sua realidade, mas tão maravilhoso ele se apresenta aos nossos olhos, que mais parece um sonho ilusório do que um fato real e acabado.

 

No entanto, o articulista explica que o acontecimento estupendo não se refere simplesmente à mudança na forma de governo, mas, ao fato digno de orgulho: O Brasil “ter realizado a reforma mais radical sem deixar perceber a mínima alteração na ordem pública, e no sossego da nação”. Neste clima de profunda transformação e ao mesmo tempo de paz, não houve mudança nem “oscilação no câmbio, que se altera a qualquer queda ou mudança no ministério!”.

O autor encerra o artigo entusiasmado com a República e com as novas perspectivas de liberdade religiosa:

 

Entretanto, vendo no governo atual ordem, liberdade e garantia, e esperando dele ainda a mais completa liberdade de cultos, não pode deixar de aderir de coração à nova forma de governo e prestar-lhe todo o seu apoio.
Todos os acatólicos, que no antigo regime apenas tinham uma tolerância para o seu culto e isto, para humilhação, em casa sem forma exterior de templo, ficarão sumamente satisfeitos vendo agora surgir a mais plena liberdade de cultos ou antes a plena liberdade de cultos que é o que deve ser decretado pela república [2].

 

A antiga esperança torna-se agora uma exigência. A própria monarquia já se dispusera a fazer tal abertura: “O governo provisório da República não deve demorar por mais tempo o decreto da abolição da união da igreja com o estado, estabelecendo a plena igualdade de cultos no Brasil” [3].

Toca então, no brio dos republicanos:

 

Ora, como poderá o governo da República sustentar por mais tempo a grande injustiça, ou antes o odioso monopólio, que até a própria monarquia já não podia mais suportar?
O verdadeiro governo republicano deve ser a última expressão da liberdade, da igualdade da fraternidade; enquanto porém se vir ainda uma religião privilegiada e cheia de regalias para uns, e as outras apenas toleradas para outros enquanto se observar que para uns, o estado faz a despesa do culto, e para outros nega-lhes até o direito de terem uma igreja com forma exterior de templo, quando ambos pagam, na mesma razão, os direitos para as despesas da nação; enquanto se vir esta injustiça revoltante de uns quererem ter mais direitos de que os outros, não se pode admitir que haja liberdade, igualdade e fraternidade no Brasil [4].

 

O articulista defende a manutenção da igreja pelos próprios fiéis, sem verbas estatais:

 

Cada religião deve manter-se à custa de seus próprios fiéis; aqueles que desejam ver nos templos ricos parâmetros, luxuriosos enfeites, e deslumbrantes decorações, abram a bolsa e paguem convenientemente esta regalia, e não queiram que os cofres do estado, que contém só o suor dos que trabalham, a satisfaçam esta despesa vaidosa e inteiramente desnecessária.
A manutenção de cada culto deve correr exclusivamente por conta de seus respectivos crentes; cada cidadão deve pagar aquilo de que goza; obrigar, porém, a todos os cidadãos a concorrerem para o subsídio de um culto que só parte da nação aceita, é isto uma injustiça revoltante, é uma tirania que a República não deve de modo algum tolerar por mais tempo [5].

 

O Editorial da Imprensa de 07/12/1889 reafirma a sua confiança na República brasileira e vaticina o futuro católico romano:

 

Estamos satisfeitos com o advento da República porque podemos ter a liberdade e justiça, que reclamamos há muitos anos [6].
Temos confiança nos homens que hoje dirigem os altos negócios do Estado e esperamos ter em breve, plena liberdade para os nossos cultos e sabemos que o romanismo perderá grande parte do prestígio que nunca soube merecer [7].

 

No mesmo editorial, conclama o povo evangélico a solidificar a liberdade esperada com a proclamação do Evangelho:

 

A nossa tarefa não está completa. (…) Às Igrejas Evangélicas compete o trabalho de lançar as bases da liberdade da pátria sobre a Rocha dos séculos, para que seja conhecida a religião pura sem a qual não pode haver verdadeira liberdade em país qualquer [8].
Por mais que proclamem a liberdade e a fraternidade no Brasil ou em outro país qualquer, onde não haja uma aceitação geral da Sagrada Escritura, de seus princípios divinos e de sua moral pura e severa, não pode haver uma República bem assentada e bem dirigida [9].

 

A Imprensa continuou a sua empreitada pró liberdade de Culto. Na edição de 14/12/1889, se propõe a mostrar que o católico romano de fato – aquele que segue os mandamentos da “Santa Madre Igreja” –, é uma minoria dos 15 milhões de habitantes do Brasil [10].

No Editorial de 21 de dezembro de 1889, a Imprensa já se torna mais moderada em seu entusiasmo, pedindo às igrejas que orem pela República: “Atualmente o horizonte está carregado. Assinalamos tudo isto em nossas colunas, não para causar desânimo no espírito de qualquer pessoa, mas para chamar as igrejas evangélicas à oração” [11].

Na última edição da Imprensa de 1889, há um rememorar dos fatos que marcaram de modo especial aquele ano, pelos quais a igreja deve agradecer a Deus. Um deles é a República, para a qual pede-se oração bem como para o Governo provisório [12].

Em 24 de fevereiro de 1891 é promulgada a “Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil”. No Art. 72, “Declaração de Direitos”, lemos:

 

§ 2º Todos são iguais perante a lei. (…)
§ 3º Todos os indivíduos e confissões religiosas podem exercer pública e livremente o seu culto, associando-se para esse fim e adquirindo bem, observadas as disposições do direito comum.
§ 7º Nenhum culto ou igreja gozará de subvenção oficial, nem terá relações de dependência ou aliança com o Governo da União, ou o dos Estados.
§ 28. Por motivo de crença ou função religiosa, nenhum cidadão brasileiro poderá ser privado de seus direitos civis e políticos nem se eximir de cumprimento de qualquer dever cívico.

O desejo acalentando durante tantos anos fora agora realizado: separação entre Igreja e Estado e a total liberdade religiosa. No entanto, perseguições se intensificariam a partir daí. Mas, essa parte foge ao corte deste post e da competência deste articulista.

 

São Paulo, 13 de novembro de 2018.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] Imprensa Evangélica, 23/11/1889, p. 369-370.
[2] Imprensa Evangélica, 23/11/1889, p. 370. No periódico metodista encontramos alegria semelhante. Veja-se: Expositor Christão, 01/12/1889, p. 1. Para uma análise mais ampla do contexto social, político, econômico e intelectual deste período, veja-se: José Murilo de Carvalho, Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi, São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 15-41.
[3] Imprensa Evangélica, 23/11/1889, p. 370.
[4] Imprensa Evangélica, 30/11/1889, p. 377.
[5] Imprensa Evangélica, 30/11/1889, p. 378.
[6] Imprensa Evangélica, 07/12/1889, p. 385.
[7] Imprensa Evangélica, 07/12/1889, p. 386.
[8] Imprensa Evangélica, 07/12/1889, p. 385.
[9] Imprensa Evangélica, 07/12/1889, p. 385.
[10] Imprensa Evangélica, 14/12/1889, p. 393-394.
[11] Imprensa Evangélica, 21/12/1889, p.401.
[12] Imprensa Evangélica, 28/12/1889, p. 410.

Vocação eficaz: Da eternidade para eternidade (sem feriados) em santidade

 

Comparados com os americanos do século XVIII ou do século XIX, os puritanos tinham seguramente uma mentalidade teológica. As doutrinas da queda do homem, do pecado, da salvação, da predestinação, da eleição e da conversão eram o seu alimento e a sua bebida; contudo, o que verdadeiramente os distinguia da época em que viviam era o fato de estarem menos interessados na teologia em si do que na sua aplicação à vida de todos os dias, em especial à sociedade. Do ponto de vista do século XVII, o seu interesse pela teologia era um interesse prático. Estavam menos preocupados em aperfeiçoarem a sua formulação da verdade do que em darem corpo, na sociedade que formavam na América, à verdade que já conheciam. A Nova Inglaterra dos puritanos foi uma nobre experiência de teologia aplicada. – Daniel J. Boorstin [1].

 

Em uma época de crise política e financeira como a nossa, uma das coisas difíceis e ao mesmo tempo necessárias de se fazer, é planejar. As incertezas aumentam. Tornamo-nos mais suscetíveis a imprevistos externos que determinam mudanças em nossa rota, daí a insegurança. Muito do que planejamos permanece apenas no campo ideal, não podendo ser concretizado, ajustado ou mesmo, adiado. Por vezes, a mudança do cenário requer alternativas jamais visualizadas anteriormente.

O historiador e diplomata britânico Toynbee (1889-1975) escreveu sobre planejamento de forma instrutiva:

Como não vemos o futuro até que ele chegue a nós, temos que nos voltar para o passado a fim de esclarecê-lo. Nossa experiência do passado dá-nos a única luz a que temos acesso para iluminar o futuro. A experiência é outro nome para história. Quando falamos de ‘história’, normalmente pensamos na experiência coletiva da raça humana; mas a experiência individual que cada um de nós reúne numa única existência é história igualmente legítima. Na vida privada, como na pública, a experiência é altamente apreciada – e com razão, porque geralmente se reconhece que a experiência auxilia nosso julgamento e assim nos permite fazer escolhas mais sábias e tomar decisões melhores. Em todas as épocas – tanto boas quanto más – naturalmente temos de planejar para o futuro na administração dos nossos futuros humanos. Planejamos para o futuro com a intenção de controlá-lo e moldá-lo para preencher nossas finalidades na medida do possível. Essa tentativa consciente para controlar e modelar o futuro parece ser uma atividade caracteristicamente humana. É um dos traços que nos distingue das outras criaturas com as quais partilhamos nosso lar neste planeta. Não podemos planejar sem olhar para a frente, e não podemos olhar para a frente exceto na medida em que a luz da experiência nos ilumina o futuro [2].

 

Em um mundo de incertezas, próprias de nossa condição de criaturas frágeis, [3] podemos ter uma convicção que emana da Palavra: Deus nos chama eficazmente por sua livre vontade e graça. O chamado de Deus é eficaz porque ele é completo no seu propósito: “Que nos salvou e nos chamou (kale/w) com santa vocação (klh=sij); [4] não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” (2Tm 1.9). (Rm 8.30; Gl 1.15) [5].

Na Igreja de Deus, constituída de todos os seus servos, judeus e gentios, vemos aspectos da riqueza da glória dele em misericórdia, como escreve o Apóstolo:

 

A fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão, os quais somos nós, a quem também chamou (kale/w), não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios? Assim como também diz em Oséias: Chamarei (kale/w) povo meu ao que não era meu povo; e amada, à que não era amada; e no lugar em que se lhes disse: Vós não sois meu povo, ali mesmo serão chamados (kale/w) filhos do Deus vivo. (Rm 9.23-26).

 

Deus nos atrai para si, visto que ele “…. nos chamou (kale/w) para a sua própria glória e virtude” (2Pe 1.3); à comunhão de seu Filho e à “koinonia” da igreja (1Co 1.26; Ef 4.1; Cl 3.15): “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados (kale/w) à comunhão (koinwni/a) de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor” (1Co 1.9).

A nossa vocação não tem nada em si mesma que possa motivar o nosso orgulho já que o próprio Senhor diz: “….Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar (kale/w) justos, e sim pecadores” (Mc 2.17). Somos chamados na “graça de Cristo” (Gl 1.6). À vaidosa igreja de Corinto, Paulo é bastante enfático: “Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação (klh=sij); visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento” (1Co 1.26).

Ele é fiel: “Fiel é o que vos chama (kale/w)….” (1Ts 5.24). O Deus santo nos chama à sua santidade por meio de uma santa vocação: “…. segundo é santo aquele que vos chamou (kale/w), tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento, porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo” (1Pe 1.15-16; Rm 1.7; 1Co 1.2; Ef 1.4; 2Tm 1.9). Esta vocação, portanto, envolve necessariamente, o propósito de santidade que deve guiar a nossa vida: “Porquanto Deus não nos chamou (kale/w) para a impureza, e sim para a santificação” (1Ts 4.7). Em outras palavras, somos chamados a seguir os passos de Jesus: “Porquanto para isto mesmo fostes chamados (kale/w), pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos” (1Pe 2.21; Hb 3.1) [6].

Desse modo, a busca por uma vida santa é um aspecto fundamental da resposta da igreja ao gracioso chamado divino: “Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação (klh=sij) e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum” (2Pe 1.10). A eficácia da vocação divina não é uma coisa abstrata, uma teoria para ser discutida apenas em alguns momentos, quem sabe, de uma aula na academia, antes, evidencia-se na vida de um pecador transformado. Creio que Spurgeon (1834-1892) está correto ao afirmar: “Quando a vida de um pecador é transformada, sabemos que Deus o chamou eficazmente (…). Não podemos saber se um chamado de Deus foi eficaz até que a vida de um homem tenha mudado” [7].

A doutrina da perseverança dos santos inclui em sua essência a perseverança em santidade, não uma justificativa acomodatícia à prática e permanência no pecado [8].

Na vocação de Deus vemos parcialmente a concretização do seu propósito sábio, amoroso e eterno que envolve toda a nossa existência. Deus nos chama fazendo com que o seu gracioso propósito eterno passe a fazer parte da experiência do regenerado: “Nele [Jesus Cristo], digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados (proori/zw) segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou (proori/zw) para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou (proori/zw) esses também chamou (kale/w) e aos que chamou (kale/w), a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.29-30).

Esta ordem divina é eficaz porque Deus opera eficazmente em nossa mente e coração. Deus age na história conforme o seu decreto, chamando-nos e adotando-nos como filhos e herdeiros da Aliança! Aqui a Palavra de Deus é definitivamente colocada e sedimentada em nosso coração.

A vocação de Deus permanece e nos sustenta até o fim (Fp 1.6) [9]. A glória de Deus se manifesta na constituição da igreja, na reunião de seu povo redimido. Portanto, tanto o nosso chamado como a progressividade de nossa salvação devem estar subordinados à glória de Deus. Paulo e Pedro enfatizam:

Devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu (ai(re/omai) desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade, para o que também vos chamou (kale/w) mediante o nosso evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo. (2Ts 2.13-14).
O Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou (kale/w) à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar. (1Pe 5.10). (Ver: 1Ts 2.12).

Uma das coisas que aprecio no Verão é a possibilidade de me reunir com alguns amigos e jogar Biribol [10]. Em geral são momentos alegres e festivos marcados por algumas contusões nos dedos e alguma ansiedade. Ansiedade sim. Se esfriar naquele sábado é provável que os mais experientes se excluam por questões de saúde; a água pode ficar menos agradável. Estando em casa, não é raro pensar sobre isso na sexta: será que vai esfriar essa madrugada? As pessoas estarão bem-dispostas? Teremos gente suficiente? (O ideal são oito jogadores, embora possamos jogar com quatro). Você pode estar pensando: quanto tempo gasto para praticar apenas um esporte… Provavelmente você tem razão. Quem tem filhos pequenos, ou mesmo já crescidos, vive ou se lembra deles acordando de madrugada, indo ao quarto dos pais e perguntando se já está na hora de se levantar… Certamente não é para escola, mas para o passeio que haverá na igreja, quando sairão bem cedo. Em geral, aquilo que apreciamos e que não é rotineiro tende a ocupar mais a nossa mente. Não há nada de mal nisso. São pequenas coisas que gotejam a nossa vida em fases diferentes, com intensidade variada e em circunstâncias díspares.

Retornando ao nosso ponto, enfatizamos que Deus nos chama para a sua glória. Nada se compara a isso. Somos peregrinos, estrangeiros e hóspedes neste mundo [11]. Não há destinação mais nobre e sublime. Somos chamados à glória de Cristo. Você já se sentiu honrado por um convite bastante seleto? Já se sentiu desqualificado ou desconsiderado por não receber o convite para uma festa de casamento de pessoas próximas? Pois bem, saiba que Deus nos chama à glória. Isso nos basta. Não como prêmio de consolação, mas porque não há vocação maior. O Senhor de todas as coisas, de toda a realidade visível e invisível, nos destina à glória de Seu Filho amado.

O quanto ocupamos a nossa mente com isso? O quanto cantamos sobre isso? Quantos sermões pregamos ou ouvimos sobre a glória celestial? Tenho de admitir que preguei pouco sobre isso nesses mais de 40 anos que ocupo o púlpito de igreja. Precisamos cultivar em nossa mente o refletir sobre a glória eterna de Deus, sobre a nossa futura e gloriosa habitação com o Senhor, onde não haverá choro nem tristeza. A glória será contemplar o Senhor Deus na face de Cristo usufruindo de sua perfeita comunhão para sempre. (Cl 3.1-4; Ef 2.6-7). A glória do céu para nós é estar com Cristo [12]. A nossa felicidade só será real e, portanto, eterna, se tivermos a Deus como sua fonte e alegria [13].

J.I. Packer, um proeminente teólogo contemporâneo, escreveu com profunda sensibilidade bíblica e experiencial: “Não importa quão velhos ou doentes estejamos, os pensamentos no que se refere a nosso futuro com Jesus trarão coragem e alegria ao nosso coração. Jesus mesmo, de seu trono, fará que isso aconteça” [14].

O fato, meus irmãos, é que não há nada mais nobre ou grandioso do que isso, nem aqui, nem na eternidade. A nossa salvação não é o fim último. Ela é o meio: somos destinados desde a eternidade à glória de Deus. Calvino resume: “Concordo que a glória de Deus deve estar, para nós, acima de nossa salvação….” [15]. Em nosso chamado salvador, vemos a glória da graça de Deus. “Somente pela graça”, é outra forma de dizer: toda glória pertence a Deus! [16]

Matthew Henry (1662-1714), comentando o Salmo 17, escreveu:

A felicidade no mundo vindouro está preparada somente para os que são justificados e santificados. (…) Não existe satisfação para uma alma, a não ser em Deus e em sua boa vontade para conosco; porém, esta satisfação não será perfeita até que cheguemos ao céu” [17].

Considerando que foi Deus mesmo quem nos chamou (vocacionou) (Fp 3.14; 2Tm 1.9; Hb 3.1; 2Pe 1.10), devemos instar com nossos irmãos e, interceder junto ao Senhor para que Ele torne nossos irmãos dignos dessa vocação. Este foi o procedimento de Paulo em contextos diferentes: “Rogo-vos (parakale/w) [18], pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno (a)cio/w) [19] da vocação (klh=sij) a que fostes chamados” (Ef 4.1). “….não cessamos de orar por vós, para que o nosso Deus vos torne dignos (a)cio/w) da sua vocação (klh=sij) e cumpra com poder todo propósito de bondade e obra de fé” (2Ts 1.11).

Alegremo-nos na doce, graciosa e gloriosa condição de filhos de Deus. O Pai nos chamou a este privilégio: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados (kale/w) filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus….” (1Jo 3.1) [20].

Ao mesmo tempo, aprendemos que somos chamados ao crescimento em nossa caminhada de forma progressiva. Estamos sujeitos ao pecado, é verdade. Ele é ainda uma realidade presente. Por isso, como disse Lloyd-Jones: “Jamais poderemos ter feriado espiritual” [21]. A luta é contínua e sem tréguas. Deste modo, todos nós devemos estar comprometidos em crescer em nossa fé para que tenhamos maior sensibilidade espiritual para com os feitos de Deus.

São Paulo, 13 de novembro de 2018.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] Daniel J. Boorstin, Os Americanos: A experiência colonial, Lisboa: Gradiva, 1997, p. 17. “Provavelmente, o puritanismo seja mais bem definido como uma versão da ortodoxia reformada que enfatizava de modo especial os aspectos empírico e pastoral da fé” (Alister E. McGrath, Teologia, sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 117).

[2] Arnold J. Toynbee, O desafio do nosso tempo, 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975, p. 13-14.

[3] Veja-se: João Calvino, As Institutas, I.17.10.

[4] *Rm 11.29; 1Co 1.26; 7.20; Ef 1.18; 4.1,4; Fp 3.14; 2Ts 1.11; 2Tm 1.9; Hb 3.1; 2Pe 1.10

[5] “Quando, porém, ao que me separou antes de eu nascer e me chamou (kale/w) pela sua graça, aprouve” (Gl 1.15).

[6] “Por isso, santos irmãos, que participais da vocação (klh=sij) celestial, considerai atentamente o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão, Jesus” (Hb 3.1).
[7] C.H. Spurgeon, Sermões Sobre a Salvação, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 21.

[8] “É totalmente errado afirmar que o crente está seguro, independentemente de sua vida posterior de pecado e infidelidade. A verdade é que a fé em Jesus Cristo está sempre atrelada à vida de santidade e fidelidade. Sendo assim, não é apropriado pensar a respeito de um crente independentemente dos frutos na fé e na santidade. Dizer que o crente está seguro, qualquer que seja a extensão de seu hábito de pecado em sua vida subsequente, é abstrair a fé em Cristo de sua definição mais exata e ensinar o tipo de abuso que torna a graça de Deus em lascívia. A doutrina da perseverança é a doutrina daqueles crentes que perseveram (…). A Perseverança dos santos faz lembrar forçosamente que somente aqueles que perseveram até o fim são verdadeiramente santos, mas a conquista do prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo não é automática. Perseverança significa o engajamento de nossa pessoa na devoção mais intensa e concentrada aos meios ordenados por Deus para a realização de seu propósito de salvação. A doutrina escriturística da perseverança não tem nenhuma afinidade com o quietismo e o antinomismo prevalecentes nos círculos evangélicos” (John Murray. Redenção: consumada e aplicada, 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 138-139).
[9] Veja-se: C.H. Spurgeon, Sermões Sobre a Salvação, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 20.

[10] Uma espécie de vôlei de piscina.

[11] “….os filhos de Deus, onde quer que estejam, não passam de hóspedes deste mundo. De fato, no primeiro sentido ele (Pedro), no início da Epístola, os chama de peregrinos, como transparece do contexto; aqui, porém, o que ele diz é comum a todos eles. Pois as concupiscências da carne nos mantêm enredados quando em nossa mente permanecemos no mundo e cremos que o céu não é nossa pátria; mas quando vivemos como forasteiros ao longo desta vida, não vivemos escravizados à carne” (John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1996 (reprinted), v. 22, (1Pe 2.11), p. 78). “Somos estrangeiros e peregrinos neste mundo, (…) não possuímos morada fixa senão no céu. Portanto, sempre que formos expulsos de algum lugar, ou alguma mudança no suceder, tenhamos em mente, segundo as palavras do apóstolo aqui, que não temos lugar definido sobre a terra, porquanto nossa herança é o céu; e quando formos cada vez mais provados, então nos preparemos para nossa meta final. Os que desfrutam de uma vida tranquila, comumente imaginam que possuem para si um repouso neste mundo. Portanto é bom que nós, que somos inclinados a esse gênero de pândega, que somos constantemente levados de um a outro lado, tão propensos à contemplação das coisas aqui de baixo, aprendamos a volver sempre nossos olhos para o céu” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Edições Paracletos, 1997, (Hb 13.14), p. 391-392). Veja-se também: D.M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 367.
[12] Vejam-se: Sam Storms, Com um pé levantado: Calvino, a glória da ressurreição final e o céu: In: John Piper; David Mathis, Com Calvino no teatro de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 93-110 (http://www.desiringgod.org/messages/the-final-act-in-the-theater-of-god) (visto em 23.04.17); J.I. Packer, Força na fraqueza: vencendo no poder de Cristo, São Paulo: Vida Nova, 2015.

[13] Vejam-se: John Piper, Pense – A Vida da Mente e o Amor de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 128; João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Edições Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 16.11), p. 324).

[14] J.I. Packer, Força na fraqueza: vencendo no poder de Cristo, São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 102.

[15] J. Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (Tt 1.2), p. 301.
[16] Vejam-se: James M. Boice, Fundamentos da Fé Cristã: Um manual de teologia ao alcance de todos, Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2011, p. 449; D.M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 125, 127.

[17] Matthew Henry, Comentário Bíblico de Matthew Henry, 5. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2006, (Sl 17), p. 409.

[18] O verbo tem o sentido de: implorar (Mt 8.5; 18.29), suplicar (Mt 18.32); exortar (Lc 3.18; At 2.40; 11.23); conciliar (Lc 15.28); consolar (Lc 16.25; 15.32; 1Ts 5.11; 2Ts 2.17); confortar (At 16.40; 2Co 1.4; 7.6); contemplar (2Co 1.4); convidar (At 8.31); pedir (At 9.38; 1Co 4.13; 16.15); pedir desculpas (At 16.39); fortalecer (At 20.2,12); solicitar (At 25.2; Fm 9,10); chamar (At 28.20); admoestar (1Co 4.16; Hb 10.25); recomendar (1Co 16.12; 2Co 8.6; 9.5; 1Tm 6.2).
O apelo de Paulo era frequentemente fundamentado numa questão teológica; não se amparava simplesmente em sua idoneidade ou autoridade, antes em Deus mesmo. Assim ele o faz pelas misericórdias de Deus (Rm 12.1; 1Ts 2.12) e pelo Senhor Jesus (Rm 15.30; 1Co 1.10; Fp 4.2). Como cooperador de Deus exorta a que os coríntios não recebam em vão a graça de Deus (2Co 6.1); roga também pela mansidão e benignidade de Cristo (2Co 10.1).
[19] Este advérbio tem o sentido primário de “contrabalança”, aquilo que é de “igual valor”, “equivalente”. A ideia da palavra é a de estabelecer uma relação de compatibilidade e equilíbrio.

[20] Veja-se: John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, 2. ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010, p. 83

[21] D. M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 352. “Uma vez que os crentes todos os dias se envolvem em muitos erros, de nada lhes aproveitará já terem tomado a vereda da justiça, a menos que a mesma graça que os manteve em sua companhia os conduza à ultima fase de sua vida” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 32.1), p. 42).

Revelação, conhecimento e relacionamento pessoal

O conhecimento do nome de Deus só nos é possível por iniciativa do próprio Deus. O seu nome não é descoberto ou atribuído por nós de forma arbitrária. Ele mesmo se dá a conhecer em Jesus Cristo. A revelação é um ato da livre graça de Deus.

O nome abrange tudo quanto nos foi revelado a seu respeito: todos os seus atributos revelados e todas as suas obras. O nome de Deus está relacionado à sua revelação; Jesus revelou (fanerw/n (phanerõn) = “tornar claro”; “manifestar”, “fazer conhecido”) o nome do Pai (Jo 17.6; At 9.15; Jo 12.28).

Revelar o nome significa revelar a própria pessoa e o seu caráter; assim como, confiar no nome é o mesmo que confiar na pessoa (Sl 9.10; 20.7; 22.22; Mt 12.21 etc).

O nome é a própria pessoa em seus atos. Nas Escrituras o nome revela aspectos do seu caráter e perfeição. Quando o nome do Pai é associado ao do Filho e ao do Espírito Santo, assume o caráter de completude perfeita e harmoniosa.

Os nomes de Deus nas Escrituras nos falam de aspectos de sua natureza e de seus atos. Em contrapartida, essa revelação deve deixar claro para nós como devemos nos relacionar com Ele. Em outras palavras: se Deus se revela como santo, justo, misericordioso, fiel e majestoso, a nossa relação com ele deve levar tudo isso em consideração: O Deus a quem servimos e oramos é um Deus santo, justo, misericordioso, fiel e majestoso. Obviamente isso deve ser essencialmente modelador de nossos atos, orações e culto.

Por vezes, o nosso problema fundamental é que nos falta um conhecimento pessoal de Deus, um conhecimento de quem ele é; e, portanto, de uma confiança resultante da certeza de quem é o Deus em quem cremos.

O nome de Deus só pode ser genuinamente conhecido por meio do conhecimento salvador de Jesus Cristo. Jesus Cristo não se perdeu em questões periféricas, antes, diz que manifestou o nome de Deus, ou seja: anunciou o caráter, os atos e as perfeições de Deus. (Jo 17.6,26).

A Palavra anunciada por Cristo revelava a Deus como Senhor de todas as coisas, evidenciando aspectos da sua natureza.

Toda a nossa relação com Deus, envolvendo o nosso pensar, fazer e cultuar deve ter como ponto de partida a natureza de Deus revelada.

O Salmo 23 é claramente relacional. Se o Senhor é o meu pastor, eu de fato sou sua ovelha. Somos o que somos enquanto o somos para o outro. Não existe pastor sem ovelhas, nem ovelhas sem pastor. A nossa alegria e segurança é saber que o nosso pastor é o Senhor. Por isso mesmo, eu não preciso de nada. Não por resignação, mas, porque nada nos falta nem nos faltará.

Jequié, 10 de novembro de 2018.
Rev. Hermisten M.P. Costa

Deus como Autor de todo conhecimento

 

A razão natural jamais guiará os homens a Cristo. O fato de serem eles dotados de sabedoria para dirigir suas vidas e de se formarem em filosofia e ciências se reduz e resulta em nada. − João Calvino [1].

 

Deus, como fonte de todo conhecimento, tem naturalmente a consciência total da perfeição e amplitude do seu conhecimento. Ele se conhece perfeitamente, tendo ciência de toda a sua perfeição: “Em si mesmo Ele é sujeito e objeto de todo conhecimento”, conclui Calvino (1509-1564) [2].

Somente Deus possui um conhecimento perfeito, arquetípico de si mesmo. Qualquer tipo de conhecimento parte de Deus, que é a sua fonte inesgotável. Portanto, podemos concluir algumas coisas:

1) Deus é o princípium essendi de todo conhecimento, inclusive o científico; logo, 2) toda verdade é proveniente de Deus, porque “todas as coisas procedem de Deus” [3]; portanto, não pode haver contradição em Deus mesmo; 3) A ciência e a fé não se contradizem: o mesmo doador da fé (Ef 2.8) é o criador das verdades científicas, logo, quando ambas parecem contraditórias, é porque, ou há uma compreensão errada da fé, ou a ciência não é ciência, está laborando em erro. Por isso é preciso que haja humildade de ambas as partes: do teólogo na interpretação da Palavra de Deus, sempre em submissão ao Espírito de Deus, sem cair num dogmatismo ingênuo nem em um relativismo dogmático que corre sempre atrás dos modismos científicos e filosóficos para adaptar a Teologia.

É preciso que, nós teólogos, entendamos que trabalhar com a teologia não significa dizer sempre coisas novas, embora reconheçamos “as situações novas que ameaçam a salvação dos homens”[4] para as quais devemos buscar na Palavra a resposta. Por outro lado, precisamos entender que a Palavra de Deus é mais rica do que qualquer dogma; portanto, o nosso sistema doutrinário, por melhor que seja – e eu estou convencido de que é – não pode ser mais rico do que a Palavra de Deus, como bem observou Berkouwer (1903-1996): “Porventura a Escritura não é mais rica do que qualquer pronunciamento eclesiástico, por mais excelente e atento ao Verbo divino que este possa ser?” [5]. Por isso, o critério último de análise, será sempre “O Espírito Santo falando na Escritura” [6].

O mundo do conhecimento pertence a Deus. Ele é o seu autor e revelador. Logo, todo e qualquer conhecimento quer empírico, quer científico, quer teológico que o homem tenha é parte do conhecimento de Deus expresso na sua Criação. Desta forma, podemos dizer que não existe conhecimento fora de Deus.

A realidade pertence a Deus, quem a criou, e lhe confere sentido. Quando então nos referimos ao conhecimento que podemos ter do próprio Deus, do seu caráter e majestade, temos de reafirmar a verdade bíblica de que esse conhecimento provém do próprio Deus. Portanto, Deus só pode ser conhecido por ele mesmo. Por isso a necessidade de revelação, para que possamos conhecê-lo e nos relacionarmos com ele. Deus em sua integridade se revela verdadeiramente como é em sua natureza essencial. Este conhecimento resultante da graça é único, singular e pessoal.

Devemos entender também que o nosso conhecimento a respeito de Deus é um “conhecimento-de-servo”, delimitado pelo próprio Senhor, considerando, inclusive, o pecado humano. Em outras palavras: “É um conhecimento acerca de Deus como Senhor, e um conhecimento que está sujeito a Deus como Senhor”[7.] O nosso conhecimento nunca é autorreferente com validade própria e por iniciativa nossa. “Visto que somos seres finitos e não podemos enxergar o todo da realidade de uma vez, nossa perspectiva da realidade é necessariamente limitada por nossa finitude”[8].

Poder conhecer a Deus é sempre uma iniciativa da graça divina. O nosso conhecimento é um ato de fé, e esta é procedente da graça [9] que se manifesta do fato de Deus se revelar e de nos possibilitar conhecer. Mais: nunca somos ou seremos o padrão de verdade. Os nossos pensamentos e as nossas supostas experiências concretas não têm poder autorreferentes, antes, precisam sempre ser validados pela Palavra, que é a verdade (Jo 17.17). Só pensamos verdadeiramente quando pensamos à luz da Palavra. Por isso, conhecer a Deus é algo singular, porque somente Deus é soberano e somente a partir dele podemos conhecê-lo. E tudo isso por meio de Jesus Cristo, o Deus encarnado, a revelação pessoal de Deus. Conhecer a Deus em sua soberania, portanto, é um dom da graça do soberano Deus.

O conhecimento de nossa limitação não é inato, antes é precedido pela revelação. “Quanto mais conhecemos Deus, mais compreendemos, e sentimos que seu mistério é inescrutável” [10]. A douta ignorância faz parte essencial da fé genuína e sincera. Sem a revelação de Deus não há teísmo, ateísmo nem agnosticismo. É no encontro significativamente pessoal com Deus que tomamos conhecimento de nossas limitações.

Este conhecimento, por sua vez, nos liberta para que possamos conhecer a nós mesmos e às demais coisas da realidade.

O teólogo sabe que a Teologia é uma busca humana por compreender e sistematizar a revelação e, enquanto humanos que somos, podemos nos enganar. A teologia, portanto, está, de certa forma, sempre à caminho, em busca de uma compreensão mais exaustiva das Escrituras. Entretanto, como em todas as demais ciências, nós reformados, temos nossos pressupostos. O nosso é que a Bíblia é o registro inspirado e inerrante da Palavra de Deus. Disto, não abrimos mão. Estamos convencidos de que uma visão relapsa da Palavra determina o fracasso teológico e espiritual da Igreja.

Vez por outra voltaremos a esse assunto.

Que Deus, por graça, nos dê um conhecimento genuinamente significativo da realidade e que isso, nos conduza à adoração, a razão última de nossa existência (1Co 10.31). Amém.

São Paulo, 08 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.5), p. 38.
[2]H. Hoeksema, Reformed Dogmatics, 3. ed. Grand Rapids, Michigan: Reformed Free Publishing As-sociation, 1976, p. 15.
[3]João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (Tt 1.12), p. 318.
[4] G. C. Berkouwer, A Pessoa de Cristo, São Paulo: ASTE., 1964, p. 72.
[5] G.C. Berkouwer, A Pessoa de Cristo, p. 72.
[6] Confissão de Westminster, I.10.
[7] John M. Frame, A Doutrina do conhecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 56.
[8] Norman Geisler; Peter Bocchino, Fundamentos Inabaláveis: resposta aos maiores questionamentos contemporâneos sobre a fé cristã, São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 50.
[9] “Todo conhecimento é fé” (Gordon H. Clark, Uma visão cristã dos Homens e do Mundo, Brasília, 1DF.: Monergismo, 2013, p. 305).
[10] Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 156.

O Divino e o humano no tempo e na história: Um testemunho de fé

Quanto à história da Igreja, que se poderia cometer o erro de desprezar, eu devo acrescentar que sua função é enciclopédica: ela tem a honra de ser constantemente requisitada e ocupa um posto legítimo dentro do ensinamento cristão. − Karl Barth [1].

A concepção cristã de tempo, mesmo com as suas variações, influenciou diretamente todo o mundo ocidental. A compreensão de que o tempo tem um início, meio e fim era totalmente estranha às culturas pagãs. A questão da história e do tempo é fundamental para o Cristianismo pela sua própria constituição.

O Cristianismo é uma religião de história. Elimine, por exemplo, a historicidade dos 11 primeiros capítulos de Gênesis, e estaremos mutilando o sentido das Escrituras e, por isso mesmo, os fundamentos da fé cristã. Pelo fato de a Criação ter ocorrido na história, bem como a Queda, a promessa (Gn 3.15) e o Dilúvio, é que tudo o mais faz sentido. Se a Queda é apenas uma lenda, porque precisaríamos crer na encarnação, morte e ressurreição de Cristo como fato histórico? Bastaria a criação de outra lenda para, quem sabe, remediar o que fora inventado anteriormente. A revelação dá-se na história. Qual o sentido de Deus falar e agir na história e, ao mesmo tempo, fornecer por meio de sua Palavra uma história mentirosa, cheia de equívocos e erros? Grande parte dos ensinamentos doutrinários das Escrituras provém de fatos históricos, não apenas de proposições doutrinárias [2].

Insistimos: o Cristianismo não se ampara em lendas, antes, em fatos os quais devem ser testemunhados, visto que têm uma relação direta com a vida dos que creem. O Cristianismo é uma religião de fatos, palavra e vida. Os fatos, corretamente compreendidos, têm uma relação direta com a nossa vida. A fé cristã fundamenta-se no próprio Cristo: O Deus-Homem. Sem o Cristo Histórico não haveria Cristianismo [3]. A sua força e singularidade estão neste fato, melhor dizendo: na pessoa de Cristo, não, simplesmente, nos seus ensinamentos [4]. O Cristianismo é o próprio Cristo. A encarnação é toda e inclusivamente missionária: o Verbo fez-se carne e habitou entre nós (Jo 1.14).

Bavinck (1854-1921) corretamente destaca a singularidade de Cristo para o Cristianismo:

Ele ocupa um lugar completamente único no Cristianismo. Ele não foi o fundador do Cristianismo em um sentido usual, ele é o Cristo, o que foi enviado pelo Pai e que fundou Seu reino sobre a terra e agora expande-o até o fim dos tempos. Cristo é o próprio Cristianismo. Ele não está fora, Ele está dentro do Cristianismo. Sem seu nome, pessoa e obra, não há Cristianismo. Em outras palavras, Cristo não é aquele que aponta o caminho para o Cristianismo, Ele mesmo é o caminho [5].

Se as reivindicações divinas e redentivas do Jesus Cristo histórico são verdadeiras como de fato são, a mensagem do evangelho deve ser anunciada ao mundo para que aqueles que crerem sejam salvos.

Noll resume bem ao dizer que: “Estudar a história do cristianismo é lembrar continuamente o caráter histórico da fé cristã” [6].

Sem o fato histórico da encarnação, morte e ressurreição de Cristo, podemos falar até de experiência religiosa, mas não de experiência cristã. A experiência cristã depende fundamentalmente destes eventos [7]. Quando focamos o nosso olhar na experiência, corremos o risco de perder a dimensão da essência, do referente, que é Deus. Neste processo, como escreveu Barth (1886-1968), “a passagem da experiência do Senhor à experiência de Baal é curta. O religioso e o sexual são extremamente semelhantes” [8].

Jesus Cristo é o clímax da revelação. É a Palavra final de Deus. Nele, temos não uma metáfora ou um sinal, antes, temos o próprio Deus que se fez homem na história. “Jesus Cristo é a revelação final e especial de Deus. Porque Jesus Cristo era verdadeiramente Deus, ele nos mostrou mais plenamente com quem Deus era semelhante do que qualquer outra forma de revelação. Porque Jesus foi também completamente homem, Ele falou mais claramente a nós do que pode fazê-lo qualquer outra forma de revelação” [9].

A História da Igreja, bem como da Teologia, tem um lado divino: Deus dirige a História e, um lado humano: os fatos compartilhados por todos nós que a vivemos. Os atos de Deus, na História, não são objeto de análise do historiador. Não somos Lucas, inspirados infalivelmente por Deus, apresentando uma interpretação inspirada. A relação entre a história e a teologia é extremamente complexa e de difícil interpretação [10]. Além disso, é preciso delimitar a esfera de domínio do historiador e do teólogo. Somos homens comuns, que procuramos estabelecer métodos, examinar documentos, fazer-lhes perguntas e interpretá-los a bem da melhor compreensão possível do que aconteceu.

Nesse sentido, a História é uma ciência social “cujo objeto é o conhecimento do processo de transformação da sociedade ao longo do tempo” [11]. Ela tem como pressuposto a consciência de determinada ignorância – aliás, a consciência da ignorância é um requisito fundamental para o historiador – para a qual buscaremos uma solução [12].

Contudo, não captamos o fato absolutamente. Ele, como “conhecimento autêntico e seguro”, sempre nos escapa [13]; compreendemos, sim, as nossas versões dos fatos que julgamos ser coerentes com eles. No entanto, há uma interação mutativa: as evidências interferem em nossa cosmovisão e esta, por sua vez, fornece-nos novos cânones – provisórios é verdade – de aproximação das mesmas evidências que, agora, podem já não ser consideradas evidências.

O estudo do passado, se devidamente compreendido, ainda que não exaustivamente, pode nos levar a reavaliar as nossas próprias suposições que, em muitos casos, são “crenças correntes” [14] já tão bem estabelecidas que julgávamos acima de qualquer “suspeita”. O grande historiador contemporâneo Georges Duby (1919-1996), colocou isto de forma bela e ao mesmo tempo angustiante: “Todo historiador se extenua para conseguir a verdade; essa presa escapa-lhe sempre” [15].

A História da Igreja, por exemplo, é uma ciência que não está atrelada a nenhuma ciência em particular. Como ciência histórica, deve apresentar um quadro histórico e cronológico dos principais fatos da vida da Igreja do período analisado. Para que isso seja feito com clareza, tornam-se necessárias fontes documentais. Nelas, passamos a nos alicerçar para exaurir as informações de cada época, a fim de formular um quadro interpretativo coerente com os documentos disponíveis.

Na história temos a revelação dos atos de Deus. Deus age ordinariamente por meios dos fenômenos “naturais”. Isso faz parte de nossa fé. No entanto, enquanto historiador, o cristão deve avaliar os documentos e elaborar suas hipóteses a partir desses fenômenos esforçando-se para que as suas conclusões não sejam gratuitas. Que Deus nos abençoe. Amém.

São Paulo, 08 de novembro de 2018.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] Karl Barth, Esboço de uma Dogmática, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, p. 12.

[2] Veja-se, por exemplo: Francis A. Schaeffer, Nenhum conflito final: a Bíblia sem erro em tudo o que ela afirma, Brasília, DF.: Monergismo, 2017, p. 13-33.

[3] Georges Duby (1919-1996), dentro de uma perspectiva puramente histórica, admite: “O Cristianismo, que impregnou fundamentalmente a sociedade medieval, é uma religião da história. Proclama que o mundo foi criado num dado momento e que, num outro, Deus fez-se homem para salvar a humanidade. A partir disso, a história continua e é Deus quem a dirige” (Georges Duby, Ano 1000, ano 2000, na pista de nossos medos, São Paulo: Editora UNESP.; Imprensa Oficial do Estado, 1999, p. 16). “Os historiadores insistiram com justeza sobre o fato de que o cristianismo é uma religião histórica, ancorada na história e se afirmando como tal” (Jacques Le Goff, Tempo: In: Jacques Le Goff; Jean-Claude Schmitt, coords. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Bauru, SP.; São Paulo, SP.: Editora da Universidade Sagrado Coração; Imprensa Oficial do Estado, 2002, v. 2, p. 534). “O cristianismo, como também a religião de Israel, da qual ele nasceu, se apresenta como uma religião histórica de forma absolutamente concreta, em comparação à qual nenhuma das outras religiões do mundo pode se equiparar – nem mesmo o Islã, apesar de este se aproximar mais do cristianismo e do judaísmo, nesse sentido, que qualquer outra religião” (Christopher Dawson, Dinâmicas da História no Mundo, São Paulo: É Realizações Editora, 2010, p. 343). Do mesmo modo: Marc Bloch, Apologia da história, ou, O ofício do historiador, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, p. 58).

[4] Veja-se: Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 23ss. “Qualquer coisa que se apresente como cristianismo, mas que não insista na absoluta e essencial necessidade de Cristo, não é cristianismo. Se Ele não for o coração, a alma e o centro, o princípio e o fim do que é oferecido como salvação, não é a salvação cristã, seja lá o que for” (D. M. Lloyd-Jones, O supremo propósito de Deus: Exposição sobre Efésios 1.1-23, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 143).

[5] Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 311.

[6] Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2000, p. 16. Vejam-se também: Clyde P. Greer, Jr., Refletindo Honestamente sobre a História: In: John F. MacArthur Jr. ed. ger. Pense Biblicamente!: recuperando a visão cristã do mundo, São Paulo: Hagnos, 2005, p. 400-401.

[7] Cf. J. Gresham Machen, Cristianismo e Liberalismo, São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 77.

[8] Karl Barth, A Palavra de Deus e a Palavra do homem, São Paulo: Novo Século, 2004, p. 217.

[9] James W. Sire, O Universo ao Lado, São Paulo: Hagnos, 2004, p. 40.

[10] Ver: Michel De Certeau, A Escrita da História, 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002, p. 33ss.

[11] Nelson W. Sodré, Formação Histórica do Brasil, São Paulo: Brasiliense, (1962), p. 3.

[12] Veja-se: R.G. Collingwood, A Idéia de História, Lisboa: Editorial Presença, (s.d.), p. 21.

[13] “O homem sente necessidade absoluta de chegar ao conhecimento autêntico do que verdadeiramente aconteceu, ainda que tenha consciência da pobreza dos meios de que para isso dispõe” (Johan Huizinga, El Concepto de la Historia y Otros Ensayos, 4. reimpresión, México: Fondo de Cultura Econômica, 1994, p. 92).

[14] Veja-se: Quentin Skinner, Liberdade antes do Liberalismo, São Paulo: Editora UNESP/Cambridge, 1999, p. 90.

[15] Georges Duby, O Prazer do Historiador: In: Pierre Nora, et. al. Ensaios de Ego-História, Lisboa: Edições 70, (1989), p. 110.

Deus transcendente e pessoal: O Deus conosco

Todos os povos ou puxam Deus panteisticamente para baixo, na direção daquilo que é criado, ou o elevam deisticamente, colocando-o infinitamente acima da criatura. Em nenhum dos casos se chega a uma verdadeira comunhão, a uma aliança, a uma religião genuína. No entanto, a Escritura insiste em ambos: Deus é infinitamente grande e condescendentemente bom; Ele é soberano, mas também é Pai; Ele é Criador, mas também é Protótipo. Em uma palavra, Ele é o Deus da aliança. − Herman Bavinck.¹

As Escrituras não tratam a Deus panteística nem deisticamente como normalmente ocorre com o pensamento pagão ao longo da história. Antes, nos mostra tal qual ele se revela.

Esta revelação encontra eco em nós pelo fato de Deus o fazer em categorias compreensíveis à nossa mente, já que Ele se “acomoda” à nossa compreensão.

A despeito do pecado, continuamos sendo a imagem de Deus, carregando conosco o senso do divino, sendo, portanto, incuravelmente religioso. Além disso, temos o seu Espírito que nos ilumina para podermos ter uma compreensão verdadeira das Escrituras.

As Escrituras não gastam tempo discutindo sobre as “provas da existência de Deus”, antes, nos apresentam um Deus que fala e age. Muito do seu agir é agenciado por sua palavra que cria, recria e transforma (Gn 1.1; 2.4).

Por meio de Isaías, Deus faz registrar: “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e vivificar o coração dos contritos” (Is 57.15).

A Palavra de Deus nos ensina que Deus não pode estar limitado pelo universo, que é sua criação: Deus é infinito e, por isso, é imenso e eterno, transcendendo de forma perfeita todas as limitações espaciais e temporais, que são próprias da criatura, não do Criador, entretanto, Deus está presente em todas as suas criaturas e em todos os lugares. Com isso não queremos dizer que Deus esteja presente no mesmo sentido em todas as suas criaturas. Deus está em todo ser de acordo com a natureza deles; assim, afirmamos que Deus habita de uma forma no homem e de outra no mundo orgânico, de outro no mundo inorgânico, etc. A forma como Deus está em nós, no seu povo, é diferente da forma como Ele habita nos incrédulos. Deus está presente agindo soberanamente numa interminável variedade de maneiras.

Desta forma, afirmamos a transcendência de Deus, negando com isso o panteísmo; e, afirmamos a imanência de Deus, partindo de um fato real: a Revelação de Deus, negando, portanto, o deísmo.

A fé cristã crê que a criação de todas as coisas o foi pela vontade livre, que nos é inacessível, e soberana de Deus. Ao mesmo tempo, crê que esse mesmo Deus sustenta a realidade, se revela, e se relaciona pessoalmente conosco.

O Deus criador não abandona a sua criação. Deus continua presente. Por isso, ele continuará dirigindo o nosso país e a nossa vida. Que isso nos encoraje e console. Amém.

São Paulo, 08 de novembro de 2018.
Rev. Hermisten M.P. Costa

 


¹ Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 580.

Deus não está em silêncio

As Escrituras não são especulativas. A Bíblia é um livro descritivo, normativo e extremamente prático. Aliás, não há livro mais próximo e relevante às situações concretas da vida do que a Bíblia. Ela não discute, por exemplo, sobre a existência de Deus ou faz abstrações de sua natureza e essência, antes parte do pressuposto da existência de Deus. Mais do que uma teoria ou abstração, as Escrituras nos põem em contato com o Deus vivo e pessoal, que age e fala. É o Deus que se relaciona e cuida de seu povo. “A Escritura, em sua totalidade, é o próprio livro da providência de Deus”, resume Bavinck (1854-1921)¹.

“Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus”, escreveu Moisés (Sl 90.2). Moisés por revelação direta de Deus, registra de forma inspirada (2Pe 1.20-21), narrando os atos criadores de Deus, sem se preocupar em falar com mais detalhes a respeito daquele, que mediante a sua Palavra, faz com que do nada surja a vida, criando o universo, estabelecendo suas leis próprias e, avaliando a sua criação como boa. Moisés apenas apresenta o Deus Todo-Poderoso exercitando o seu poder de forma criadora, segundo o seu eterno propósito. Deus existe – este é o fato pressuposto em toda a narrativa da Criação. Deus cria segundo a sua Palavra e isto nos enche de admiração e reverente temor: a Palavra de Deus é o verbo criador que manifesta a determinação e o poder de Deus (Gn 1.1,26-27; Sl 33.6,9; Jo 1.1-3; Hb 11.3), o qual criou as coisas com sabedoria (Pv 3.19).

As Escrituras nunca tratam de Deus de forma impessoal ou abstrata, mas, como o Deus infinito-pessoal que se revela.

Obviamente o Deus das Escrituras não é um deus criado pela imaginação do homem projetando em sua criação seus desejos e vícios, o que facilmente conduz da idolatria ao ateísmo.

Deus não se deixa invadir pela razão humana, ou mesmo pela fé. Ele se dá a conhecer livre, fidedigna e explicitamente. Deus se revela a si mesmo como Senhor². E “Senhorio significa liberdade”³. Conhecer a Deus é um privilégio da graça que tem o seu início sempre no Deus Trino (Mt 11.27;1Co 12.3).

Conheçamos e prossigamos em conhecer a Deus, o nosso Senhor e Pastor (2Pe 3.18; Sl 23.1). Amém.

São Paulo, 08 de novembro de 2018.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 


¹Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 607.

²Ver: Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 181,186ss. 

³K. Barth, Church Dogmatics, Edinburgh: T. & T. Clark, 1960, I/1, p. 306.

O Senhor e seus pensamentos inatingíveis: a angústia do profeta

“Quão grandes (ld;G”) (gadal), SENHOR, são as tuas obras! Os teus pensamentos (hb’v’x]m;) (machashabah) (desígnios, intentos) que profundos!” (Sl 92.5).

Os seus desígnios, por serem verdadeiros e provenientes do Deus santo, sábio, justo e soberano, são inumeráveis, profundos e eternos: “O conselho do SENHOR dura para sempre; os desígnios (hb’v’x]m;) (machashabah) do seu coração, por todas as gerações” (Sl 33.11).

Aqui já nos deparamos com algo grandioso demais para nós. Pensamos sempre em termos de causa e efeito e, dentro das categorias tempo e espaço repletos de circunstâncias geográficas, culturais, sociais e pessoais. Curiosamente foi dentro dessas categorias tão importantes para nós, que Deus se revelou.

O salmista nos diz que os desígnios de Deus permanecem para sempre. Ou seja: muito do que podemos ver nessa vida não esgota nem mesmo aspectos do seu governo e propósito. Por isso, muitas vezes nos angustiamos com o que consideramos passividade, indiferença, demora de Deus ou, por presumir um fim que julgamos ser o melhor dentro de nossa lógica bastante consistente, pensamos.

Não foi justamente isso que enfrentou o profeta Habacuque?

Tempo e espaço determinam muitas de nossas prioridades conforme as circunstâncias. Em boa parte das vezes tais circunstâncias são elaboradas pela mistura de ambos os elementos conforme a nossa fórmula caseira de relacionar tempo e espaço.

Por isso, em nossa incompreensão e incertezas diante desses elementos, o tempo pode nos parecer, como ao angustiado poeta argentino Jorge L. Borges (1899-1986), uma “ilusão”¹. No entanto, sabemos, que ele é implacável em sua caminhada e transitoriedade. Mas, não nos esqueçamos, está sob a direção de Deus.

Quando estamos apressados, tudo parece demorado. Quando estou com tempo disponível, as distâncias ficam mais curtas. O relógio, em nossa mente, pode ser romanticamente domesticado, mas, o que de fato não ocorre concretamente.

Conforme a nossa base de avaliação comparativa circunstancial, posso dizer que algo é longe ou perto. Rápido ou demorado. Já observaram como uma viagem de duas horas é longa a partir, digamos, da primeira hora de percurso? Já uma viagem de 8 horas, você nem sequer considera a primeira hora porque ainda faltam muitas outras.

E a refeição servida no restaurante? Faz diferença o tempo de espera quando você está com fome, sozinho e, sem celular. Aliás, este é imprescindível. A sua percepção é diferente se estiver tranquilo, sem muita fome e com uma boa prosa ou conversando no zap? Mais tarde você conversará pelo zap com quem agora está com você à mesa…

Da mesma forma, como temos uma dimensão mais imediatamente material da realidade, tendendo a circunscrevê-la a isso apenas, os propósitos de Deus podem nos parecer demorados ainda que estejam perfeitamente sob à sua preservação, domínio e controle.

O profeta Habacuque viveu numa época extremamente difícil. O seu livro foi escrito por volta do ano 605 a.C., durante o reinado de Eliaquim, filho de Josias. Nesse período, o reinado de Eliaquim era apenas simbólico, pois quem de fato mandava em Israel era o rei egípcio, Faraó-Neco, quem inclusive destronou o antigo rei, irmão de Eliaquim, Jeocaz – levando-o para o Egito aonde viria falecer (2Rs 23.34) –, colocando Eliaquim no enfraquecido trono e, como sinal do seu poder, mudou o nome de Eliaquim para Jeoaquim.

O reinado de Jeoaquim (609-598 a.C.) ocorreu durante o ministério de Jeremias e Habacuque. Jeoaquim para pagar os tributos exigidos por Faraó, impôs pesados impostos sobre o povo de Israel (2Rs 23.35), construiu também prédios luxuosos com trabalho escravo, sendo descrito por Jeremias como um homem vaidoso, egoísta, ambicioso, violento e corrupto (Jr 22.13-18). O seu reinado foi marcado pela decadência moral e espiritual do povo, sendo as reformas feitas pelo seu pai Josias, gradativamente esquecidas.

Nesse contexto encontramos o profeta Habacuque [“Abraço ardente” (?)]², um fiel profeta de Deus, que tinha perguntas profundas, as quais revelavam a sua preocupação com o povo de Judá, bem como o desejo de entender a dura realidade dos fatos. Nesse livro nos deparamos com o profeta em conflito com a própria mensagem de Deus: Habacuque demonstra ter dificuldade em compreender o desígnio de Deus.

O povo estava em pecado: Violência, contenda, litígio, afrouxamento da lei, injustiça etc. (Hc 1.3-4). Ele orava constantemente ao Senhor, que aparentemente não o ouvia. A não percepção da manifestação de Deus causa-lhe angústia e incompreensão (Hc 1.2-3).

Agora Deus se revela a Habacuque, determinando a sua “sentença” [()af&am) (masã’), “oráculo”, que tem o sentido metafórico de “peso” e “fardo”. Temos o anúncio de julgamentos pesados contra o povo e o poder imperial (Hc 1.1). O fato de essa palavra ser usada já no primeiro verso, à semelhança de Naum (Na 1.1) e Malaquias (Ml 1.1/Zc 12.1), indica a severidade da mensagem. Essa forma figurada de falar a respeito de Israel não era estranha ao Antigo Testamento (Nm 11.11,17; Dt 1.12).

Contudo, a resposta de Deus foi por demais surpreendente para o profeta. Deus mostra que não está indiferente aos acontecimentos, mas, que levantaria os caldeus para oprimir aqueles opressores descritos pelo profeta (Hc 1.5-11). Aqui Habacuque se depara com a questão da santidade de Deus e a prevalência do mal. Como Deus, sendo justo, poderia castigar os injustos por intermédio de outros mais injustos ainda? O profeta desabafa:

Não és tu desde a eternidade, ó SENHOR, meu Deus, ó meu Santo? Não morreremos. Ó SENHOR, para executar juízo, puseste aquele povo; tu, ó Rocha, o fundaste para servir de disciplina. Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar; por que, pois, toleras os que procedem perfidamente e te calas quando o perverso devora aquele que é mais justo do que ele? Por que fazes os homens como os peixes do mar, como os répteis, que não têm quem os governe?  A todos levanta o inimigo com o anzol, pesca-os de arrastão e os ajunta na sua rede varredoura; por isso, ele se alegra e se regozija. Por isso, oferece sacrifício à sua rede e queima incenso à sua varredoura; porque por elas enriqueceu a sua porção, e tem gordura a sua comida. Acaso, continuará, por isso, esvaziando a sua rede e matando sem piedade os povos? (Hb 1.12-17).

Mesmo que não possamos ter clareza quanto ao propósito de Deus em todos os atos da história, não podemos duvidar dele. Deus sustenta e controla o seu povo e os seus inimigos. Não há força neste mundo que não esteja sob a sua preservação e domínio. O fato de não entendermos perfeitamente os propósitos de Deus, é inteiramente natural afinal, Deus é o Senhor Eterno e Onisciente; os caminhos de Deus não são os nossos caminhos; a sua mente é inescrutável (Is 55.8,9; Rm 11.33).

A nossa mente finita não consegue compreender exaustivamente as perfeições de Deus. O limite de nosso conhecimento é determinado pela revelação. A revelação de Deus também não é completa no sentido de abarcar total e exaustivamente o ser de Deus. Porém, Deus se revela como de fato é. Portanto muitíssimos de seus atos soberanos nos escapam. O finito não pode comportar o infinito! No entanto, podemos conhecer a Deus genuína e verdadeiramente à luz de sua autorrevelação. Podemos conhecer a Deus genuinamente, porém, não exaustiva e absolutamente.

Deus é soberano na utilização dos seus meios. Ele usa sábia e soberanamente os meios que quer. Aqui ele usou os caldeus para disciplinar a Judá (Hc 1.12/Is 10.5-6). Deus é senhor dos meios e dos fins!

Os caldeus por certo atribuíam as suas vitórias aos seus poderosos feitos (Hc 1.11,15,16); eles não entendiam que por meio de sua própria e voluntária maldade havia a direção de Deus para o fim proposto. Os seus caminhos são com frequência incompreensíveis à nossa razão. As nossas categorias são finitas e, portanto, limitadas.

Pois eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa, que marcham pela largura da terra, para apoderar-se de moradas que não são suas. (Hc 1.6).

Não és tu desde a eternidade, ó SENHOR, meu Deus, ó meu Santo? Não morreremos. Ó SENHOR, para executar juízo, puseste aquele povo; tu, ó Rocha, o fundaste para servir de disciplina. (Hc 1.12).

Os caminhos de Deus são eternos. (Hc 3.6).

Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR. (Is 55.8).

O livro do profeta Habacuque reflete o conflito entre a fé do profeta e a amarga experiência vivida. Como Deus pode permitir isso? Esta é a questão do profeta.

O livro objetiva mostrar que ainda que Deus tivesse usado uma nação pagã para disciplinar o seu povo, mais tarde, Deus mesmo destruiria os caldeus devido a sua idolatria e perversidade extrema, resultante de sua própria deliberação.

No entanto, não devemos nos precipitar. A aparente demora de Deus em nos atender visa nos estimular à prática perseverante da oração. Aprendo a perseverar perseverando.

Deus tem o domínio preciso de todas as coisas. Ele é o senhor do tempo e da eternidade; do espaço e do infinito.

Habacuque começa o livro trazendo um “fardo” (Hc 1.1): a sentença de Deus. Depois revela a sua incompreensão diante dos fatos que estão ocorrendo. Até que ele enquadra corretamente o problema dentro daquilo que tinha certeza absoluta: Deus é Todo-Poderoso, Eterno, Autossuficiente e Santo. O profeta então orou, colocando diante de Deus toda a sua perplexidade. Descansou em Deus e aguardou atentamente a sua resposta: tirou os olhos do problema e volveu-os para Deus (Hc 2.1). Deus lhe responde. Agora Habacuque mais maduro em sua fé, encerra o livro com uma palavra de confiança renovada, reafirmada, mesmo em meio a possíveis provações.

Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação. O SENHOR Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente. (Hc 3.17-19).

Aprendamos com o profeta essa lição: conheçamos o nosso Deus, entreguemos-lhe a nossa perplexidade e angústia, seja ela qual for, e aguardemos confiantes a sua resposta: Ele certamente responderá! Posso não saber o que me espera amanhã, porém, não posso ter dúvida do que me espera na eternidade. Um detalhe: o amanhã, como todos os nossos dias, está envolvido no propósito eterno de Deus.

O Deus incompreensível em sua extensão, nos ama – disso sabemos bem –, por isso, cuida graciosa, pedagógica e paternalmente de nós. Os seus caminhos são eternos! Os seus pensamentos são inatingíveis. Que Deus nos capacite a nele confiar. Afinal, esse Deus é o nosso pastor. De nada mais precisamos. Amém

São Paulo, 08 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten M.P. Costa

 


¹Jorge L. Borges, História da Eternidade, Buenos Aires: Emecé Editores, (6. impresión), 1969, p. 29.

²O significado do seu nome é incerto. Pode ser derivado de uma palavra hebraica que significa abraço (“abraçar” ou “ser abraçado”) ou, “lutador”, conforme tradução de Jerônimo, considerando que Habacuque lutou com Deus. Tem sido especulado também que a derivação do seu nome poderia vir do acadiano, designando alguma planta ou árvore denominada pelos assírios de hambaqûqu. No entanto, esta planta ainda não pôde ser identificada. (Para maiores detalhes, veja-se: P.A. Verhoef, Habacuque: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 2, p. 11-12 (especialmente).