O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (12))

3.3.2. A Relação entre a Retórica e a Homilética

A Homilética se propõe a utilizar alguns dos recursos da Retórica para a transmissão da Palavra de Deus; desta forma, podemos dizer que a Retórica é o gênero e a Homilética é a espécie.

Se a Retórica visa convencer o homem quanto a qualquer tema; a Homilética, diferentemente, procura oferecer recursos para que possamos convencer – humanamente falando –, o homem quanto à necessidade de arrependimento e fé em Jesus Cristo. O seu objetivo, portanto, é mais nobre pois, está comprometido com a ordem de Cristo (Mt 28.20; Mc 16.15; At 1.8), a prática apostólica (Cf. At 13.43; 17.4; 19.8; 26.28; 28.23; 2Co 5.11) e a necessidade presente do homem, de encontrar a salvação em Cristo Jesus, em Quem somente há salvação (At 4.12).

3.3.3. A Retórica Grega e a Pregação Cristã

A. Escândalo e Loucura

O pregador é o que interpreta e ensina as verdades divinas. – Agostinho (354-430).[1]

Como já mencionamos, o Cristianismo não é ficção; é história real. Paulo mostra que a pregação da Palavra foi o método prazerosamente estabelecido por Deus para alcançar os seus: “…. aprouve (eu)doke/w)[2] a Deus salvar aos que creem, pela loucura (mwri/a)[3] da pregação” (1Co 1.22).     Pelo fato de os homens não conseguirem entender salvadoramente a mensagem do Evangelho dentro do seu quadro de referência naturalista ou simplesmente deísta, consideram-na loucura: Tudo que não se adéqua ao seu padrão de pensamento é escândalo (pedra de tropeço) ou loucura. Isto não significa que o homem natural, não regenerado, não possa entender a mensagem do Evangelho e até mesmo explicá-la a outros; o problema é que esta mensagem não faz sentido espiritual para ele. Ou seja: eu consigo entender o que você quer dizer só que não creio no que você diz.[4]

     A mensagem da cruz é considerada loucura pelos que estão a perecer, justamente porque ela não possui qualquer atrativo de sabedoria humana que a recomende às suas mentes.[5]

     Barclay (1907-1978), comenta que “os gregos estavam intoxicados com palavras bonitas; e o pregador cristão com sua tosca mensagem lhe parecia um personagem cru e inculto, do qual podiam mofar-se e ridicularizar em lugar de escutá-lo e respeitá-lo”.[6]

     A fé cristã é para ser vivida e proclamada. A pregação caracteriza essencialmente a fé cristã e a sua proclamação. Paulo, então indaga:

Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas! (Rm 10.14-15).

     No final de sua vida, Paulo, com a consciência certa de ter concluído fielmente o seu ministério, exorta ao jovem Timóteo:

Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas (mu=qoj = lenda, mito). Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério. (2Tm 4.2-5).

     A despeito da irracionalidade moderna, inclusive entre nós ditos evangélicos que temos ignorado não impunemente as grandes batalhas acadêmicas e consequentemente éticas com as quais nos deparamos[7] – o desafio de Deus para nós não é para nos tornarmos irracionais ou ignorantes, antes é para que submetamos a nossa inteligência à Palavra. Aqui não se pede nenhum sacrifício lógico-racional, antes o que se requer, é a humildade para reconhecer a nossa limitação diante da majestosa sabedoria de Deus (Rm 11.33-36), exercitando deste modo, por graça, a humanamente louca sabedoria de Deus em nossa vida, reconhecendo a nossa suficiência não em nossa inteligência ou valores, mas em Deus. A pregação do Evangelho revela a insensatez de nossa sabedoria e a verdadeira sabedoria de Deus, que, em princípio, parece loucura. Isto é altamente ofensivo aos sábios deste mundo tão convictos de seus conhecimentos e métodos.

     Calvino (1509-1564) comenta:

O fato de que o Evangelho é aroma de morte para os ímpios não vem tanto de sua própria natureza, mas da própria perversidade humana. Ao determinar um caminho de salvação, ele elimina a confiança em quaisquer outros caminhos.[8]

     À frente:

Toda verdade proclamada referente a Cristo é completamente paradoxal pelo prisma do juízo humano. Entretanto, o nosso dever é prosseguir em nossa rota. Cristo não deve ser suprimido só porque para muitos ele não passa de pedra de ofensa e rocha de escândalo. Ao mesmo tempo que ele prova ser destruição para os ímpios, em contrapartida ele será sempre ressurreição para os fiéis.[9]

     Quero dizer mais uma palavra. A pregação fundamenta-se no princípio de que a Palavra de Deus é infalível e que Deus continua a falar por meio dela. Ou seja: A voz de Deus não se esgotou quando o cânon foi reconhecido,[10] mas, Deus continua a falar por meio de Sua Palavra escrita e por meio dos pregadores que expõem esta Palavra com fidelidade. O Deus que falou no passado continua a falar hoje.[11]

Maringá, 08 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1] Agostinho, A Doutrina Cristã,IV.4.6. p. 217.

[2] Tanto o verbo (eu)doke/w) quanto o substantivo (eu)doki/a) enfatizam aquilo ou aquele que é prazeroso, considerando a essência da coisa ou o que se tem em vista. Assim, vemos que Deus Se compraz em Jesus Cristo, o Filho amado (Mt 3.17; 12.18; 17.5; 2Pe 1.17), em quem reside, conforme a vontade de Deus, toda a plenitude da divindade (Cl 1.19/2.9). Deus tem prazer em revelar a Sua vontade aos “pequeninos” (Mt 11.25-26; Lc 10.21), concedendo o Seu Reino (Lc 12.32). Ele nos predestinou para adoção conforme o seu “beneplácito” (eu)doki/a)(Ef 1.5,9), assim como vocaciona os Seus servos conforme Sua vontade (Gl 1.15-16). Deus tem prazer em salvar o Seu povo por intermédio da pregação da Palavra (1Co 1.21). Deus opera em nós conforme a Sua liberdade soberana e prazerosa (Fp 2.13). No entanto, estas palavras não são utilizadas somente para Deus, elas também descrevem atitudes e aspirações humanas, como o desejo de Paulo pela salvação dos judeus (Rm 10.1); a sua oração em favor dos tessalonicenses (2Ts 1.11); a voluntariedade prazerosa da Igreja em socorrer os irmãos necessitados (Rm 15.26-27); o desejo de deixar o corpo para estar com Cristo (2Co 5.8); a abnegação de Paulo em prol dos tessalonicenses, compartilhando a sua própria vida (1Ts 2.8 “estávamos prontos” (eu)doke/w)/1Ts 3.1-5: Verso 1: “pareceu-nos bem (eu)doke/w) ficar sozinhos em Atenas”); sofrer pelo testemunho de Cristo, a quem amava (2Co 12.10). O Evangelho deve ser pregado: “de boa vontade” (eu)doki/a)(Fp 1.15).

[3]A ideia da palavra é de algo “imbecil”, “tolo”, “insensato”. Na literatura clássica está relacionada à falta de conhecimento e discernimento. Dentro do aspecto da insensatez, esta figura é aplicada ao sal que, se se tornar “insípido” (mwrai/nw) (Mt 5.13; Lc 14.34-35) para nada mais serve. No emprego feito por Paulo: a loucura da mensagem da cruz de Cristo está justamente pela sua falta de sentido intelectual para aqueles que querem avaliar o seu conteúdo dentro de seus pressupostos viciados. Em síntese, o Evangelho soa como algo “simplório”. Paulo diz que Deus tornou “louca” (mwrai/nw) a sabedoria deste mundo (1Co 1.20). Por sua vez, os ímpios se considerando sábios, “tornaram-se loucos” (mwrai/nw) (Rm 1.22/Jr 10.14 (“estúpido” (mwrai/nw)), em sua idolatria, recebendo o justo castigo de Deus (Rm 1.23-27)). Deste modo, a sabedoria de Deus será sempre loucura (mwri/a) para os sábios deste mundo que querem simplesmente adequar o Evangelho aos seus pressupostos (1Co 1.18,23; 2.14). Dentro desta perspectiva, Deus escolheu então as “cousas loucas (mwro/j) do mundo” (1Co 1.27). Por outro lado, os que creem na loucura (mwri/a) da pregação serão salvos (1Co 1.21). A loucura (mwro/j) de Deus é mais sábia do que a sabedoria deste mundo (1Co 1.25). A sabedoria deste mundo é loucura (mwri/a) diante de Deus (1Co 3.19). Deus sabe que os pensamentos destes “sábios” são “vãos” (= “nulos”, “fúteis” (ma/taioj) *At 14.15; 1Co 3.20; 15.17; Tt 3.9; Tg 1.26; 1Pe 1.18)(1Co 3.20) Portanto, se quisermos nos tornar sábios para Deus, tornemo-nos loucos (mwro/j) para as cousas deste mundo (1Co 3.18). De certa forma, somos os loucos de Cristo (1Co 4.10). Por sua vez, ilustrando que a “loucura” ou “insensatez” não são boas em si mesmas, Paulo faz recomendações práticas para que rejeitemos as questões “sábias” deste mundo que consistem em discussões e questões “insensatas” que produzem contendas, não tendo utilidade (2Tm 2.23; Tt 3.9 (“fúteis” (ma/taioj)). Portanto, o Evangelho não tem a “loucura” e “insensatez” como virtudes (Mt 23.16-17; 25.1-13). A verdadeira sabedoria consiste em ouvir a Palavra de Deus e praticá-la. Loucura é desprezá-la (Mt 7.24-27).

[4] Ver: James M. Boice, O Evangelho da Graça, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 108-109.

[5] Cf. João Calvino, Exposição de 1 Coríntios,São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 1.18), p. 56.

[6] William Barclay, 1 y 2 Corintios,p. 32.

[7]“A igreja está hoje perecendo por falta de pensamento, não por excesso do mesmo” (J.G. Machen, Cristianismo y Cultura, Barcelona: Asociación Cultural de Estudios de la Literatura Reformada, 1974, p. 19). “O empobrecimento intelectual em relação à fé pode levar ao empobrecimento espiritual” (William L. Craig, A Verdade da Fé Cristã, São Paulo: Vida Nova, 2004. p. 14). “Quero também mostrar que os cristãos não precisam ter medo de pensar; que, na verdade, os cristãos têm vantagens sobre não-cristãos quando se trata de usar o intelecto” (Gene Edward Veith, Jr., De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 13). Vejam-se também as oportunas observações de Craig. (William L. Craig, A Verdade da Fé Cristã, São Paulo: Vida Nova, 2004. p. 11-16).

[8]João Calvino, Exposição de Romanos,(Rm 1.16), p. 58.

[9]João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 6.1), p. 201-202.

[10] Quanto à questão do reconhecimento do cânon, veja-se: Hermisten M.P. Costa, A Inspiração e Inerrância das Escrituras, 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.

[11] Veja-se uma boa exposição deste ponto in: John Stott, Eu Creio na Pregação, São Paulo: Editora Vida, 2003, p. 106ss.

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (11)

3.3. Retórica e Homilética

3.3.1. Definição de Retórica

A palavra Retórica, é uma transliteração do grego R(htorikh/ ( = “eloquência”). A palavra é proveniente de R(h/twr (= “orador público”, “advogado”, “homem de Estado”). Ocorre apenas em At 24.1, no NT. Estas palavras são derivadas de R(h=ma (= “palavra”, “expressão verbal”, “linguagem”, “poema”). Em Aristóteles (384-322 a.C.), R(h=ma significa um verbo, contrastando com um o/)noma, substantivo.[1]

     A retórica mantém estreita relação com os sofistas. Górgias (c. 483-c.375 a.C.), o sofista, disse que o objetivo da retórica é “pela palavra, convencer os juízes no tribunal, os senadores no conselho, os eclesiastas na assembleia e em todo outro ajuntamento onde se congreguem cidadãos”.[2] Desta forma, a capacidade do retórico era demonstrada na habilidade de “disputar com qualquer pessoa sobre qualquer assunto” e isto se revelava na rapidez com que persuadia as multidões.[3] A essência da retórica de Górgias era persuadir;[4] e nisto a retórica sofista foi muito bem sucedida.[5]

Sócrates (469-399 a.C.) e Platão (427-347 a.C.) manifestaram interesse pelas questões retóricas e seus problemas. Platão, por exemplo, opõe-se à retórica de Górgias, porque ele crê na existência de critérios absolutos e universais, que possibilitem reconhecer o verdadeiro e o justo.[6] É justamente isto que distingue a retórica de Górgias da retórica de Platão. Na perspectiva de Platão, a retórica deveria ser utilizada por pessoas interessadas na verdade.[7]

Aristóteles (384-322 a.C.), definiu Retórica como sendo “a faculdade de ver teoricamente o que, em cada caso, pode ser capaz de gerar a persuasão”.[8] Segundo ele, a tarefa da retórica, “não consiste em persuadir, mas em discernir os meios de persuadir a propósito de cada questão, como sucede com todas as demais artes”.[9] Aristóteles, dentro de uma perspectiva ética, observa ainda, que a retórica não deveria ser usada para a persuasão do imoral;[10] todavia, o mau uso da retórica não anulava o seu valor.[11] A retórica deveria ser útil ao cidadão. Esta é a sua função política; ou seja: social.[12]

A Retórica é a arte de falar bem, visando à instrução e principalmente a persuasão. O fim da Retórica é convencer e, o instrumento de que dispõe é a palavra. Creio que Demócrito (c. 460- c.370 a.C.), estava certo ao afirmar que “para a persuasão a palavra frequentemente é mais forte que o ouro”.[13] Por isso, a arte da persuasão não acompanhada de um senso moral, torna-se extremamente perigosa, visto que podemos com a palavra, usando as técnicas da Retórica, tentar convencer que o branco é preto e vice-versa, conforme o nosso interesse pessoal, agindo do mesmo modo que os sofistas na Antiguidade.

A obra de Demóstenes (c. 460-c. 370 a.C.), Oração à Coroae em Shakespeare (1564-1616), Júlio César,a oração de Marco Antônio diante do cadáver de César, se constituem em dois bons exemplos literários concernentes ao poder da retórica. A retórica cristã visa levar o ouvinte a fazer a vontade de Deus.

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Gravura de Demóstenes

Tucídides (c. 465-395 a.C.), observou em sua monumental obra, História da Guerra do Peloponeso, que:

A significação normal das palavras em relação aos atos muda segundo os caprichos dos homens. A audácia irracional passa a ser considerada lealdade corajosa em relação ao partido; a hesitação prudente se torna covardia dissimulada; a moderação passa a ser uma máscara para a fraqueza covarde, e agir inteligentemente equivale à inércia total. Os impulsos precipitados são vistos como uma virtude viril, mas a prudência no deliberar é um pretexto para a omissão.[14]

Statue of Greek philosopher Thucydides in front of Parliament building in Vienna, Austria.
Gravura de Tucídides

Sócrates (469-399 a.C.) entendia que o mérito do orador residia em dizer a verdade.[15] Somente nestes termos ele aceitaria ser chamado de orador.[16]

Maringá, 08 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Aristóteles, Arte Poética, São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Os Pensadores, v. 4), XX 1457a, 10-14, p. 461.

[2] Platão, Górgias, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, S.A., 1989, 452e, p. 58-59.

[3] Platão, Górgias, 457a, p. 67. Lembremo-nos que a Retórica Sofística, inventada por Górgias (c.483-c.375 a.C.), era famosa. Górgias dizia: “A palavra é uma grande dominadora que, com pequeníssimo e sumamente invisível corpo, realiza obras diviníssimas, pois pode fazer cessar o medo e tirar as dores, infundir a alegria e inspirar a piedade (…). O discurso, persuadindo a alma, obriga-a, convencida, a ter fé nas palavras e a consentir nos fatos (…). A persuasão, unida à palavra, impressiona a alma como quer (…). O poder do discurso com respeito à disposição da alma é idêntico ao dos remédios em relação à natureza do corpo. Com efeito, assim como os diferentes remédios expelem do corpo de cada um diferentes humores, e alguns fazem cessar o mal, outros a vida, assim também entre os discursos alguns afligem e outros deleitam, outros espantam, outros excitam até o ardor os seus ouvintes, outros envenenam e fascinam a alma com persuasões malvadas” (Górgias, Elogio de Helena, 8, 14).

            “Quanto à sabedoria e ao sábio, eu dou o nome de sábio ao indivíduo capaz de mudar o aspecto das coisas, fazendo ser e parecer bom para esta ou aquela pessoa o que era ou lhe parecia mau” (Palavras de Protágoras, conforme, Platão, Teeteto, 166d, p. 36).

“Mas deixaremos de lado Tísias e Górgias? Esses descobriram que o provável deve ser mais respeitado que o verdadeiro; chegariam até a provar, pela força da palavra, que as cousas miúdas são grandes e que as grandes são pequenas, que o novo é antigo e que o velho é novo” (Platão, Fedro, 267, p. 251). A retórica era uma das marcas características da sofística (Cf. W.K. C. Guthrie, Os Sofistas, p. 167).

[4] Platão, Górgias, 453a, p. 59-60; 455a, p. 64.

[5] Veja-se: Armando Plebe, Breve História da Retórica Antiga, São Paulo: EPU; EDUSP., 1978, p. 21ss.

[6] Platão, Górgias, 455a, p. 64.

[7] Veja-se: Platão, Fedro, 278, p. 266-267; Idem, Fédon, 90bss. p. 102-103.

[8] Aristóteles, Arte Retórica, I.2.1. p. 33.

[9] Aristóteles, Arte Retórica, I.1.14. p. 31.

[10] Aristóteles, Arte Retórica, I.1.12. p. 31.

[11]Aristóteles, Arte Retórica, I.1.13. p. 31. Agostinho escreveria mais tarde: “É um fato, que pela arte da retórica é possível persuadir o que é verdadeiro como o que é falso” (Agostinho, A Doutrina Cristã, IV.2.3. p. 214).

[12] Ver: Retórica: J. Ferrater Mora, Dicionário de Filosofia, São Paulo: Edições Loyola, 2001, v. 4, p. 2524b.

[13]Demócrito, Fragmento 51: In: Victor Civita, ed. Os Pré-Socráticos, p. 330. Demócrito estava muito atento à importância da persuasão; ele observou corretamente que aquele “que é conduzido ao dever pela persuasão, não é provável que, às ocultas ou às claras, cometa uma falta” (Frag., 181, p. 342).

[14]Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, Brasília, DF.: Editora Universidade de Brasília, 1982, II.82. p. 167.

[15] Platão, Apologia de Sócrates, I. 18a, p. 11.

[16] Platão, Apologia de Sócrates, I.17b, p. 11

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (10)

3.2. Homilética e homilia

             A palavra “homilética”, é a transliteração do verbo o(mile/w, que significa “conversar com”, “falar”. Este verbo ocorre quatro vezes no Novo Testamento e apenas nos escritos de Lucas (Lc 24.14,15; At 20.11; 24.26). Na Septuaginta, ocorre também 4 vezes Pv 5.19 (“saciar”, no sentido de proximidade); Pv 15.12 (“chegará”, no sentido de “associar-se”); Pv 23.30 (2 vezes).[1]

     Na literatura clássica, vemos que Xenofonte (c. 430-355 a.C.) também empregou esta palavra no sentido de “conversação”.[2]

     O verbo o(mile/w provém de outra palavra grega, o(/miloj (o(mou= = “junto com” & i)/lh = “uma equipe”, “turma”, “companhia”), que significa, “multidão”, “turma”, “companhia”, “assembleia”. O(/miloj ocorre apenas uma vez no NT e mesmo assim, sem grande fundamentação documental (Ap 18.17).[3]

     Na Literatura Clássica, este termo é encontrado em Homero (c. IX séc. a.C.).[4]

     Uma outra palavra relacionada com Homilética, é “Homilia” (gr. o(mili/a), derivada da mesma raiz de “Homilética”, significando: “associação”, “companhia”, “conversação”. Ela é empregada apenas uma vez no NT (1Co 15.33), quando Paulo, provavelmente, cita a comédia do poeta ateniense, Menandro (c. 342 -c. 291 a.C.), intitulada Thais.[5]Xenofonte (c. 430-355 a.C.) também usou “Homilia” no sentido de “companhia”,[6] “palestra”[7]e “conversação”.[8]

     A Igreja Latina traduziu “Homilia” por sermão, passando, então, as duas palavras, num primeiro momento, a serem empregadas de forma intercambiável. Todavia, posteriormente, elas passaram a designar um tipo de discurso; O Sermão,[9] designava um discurso desenvolvido sobre um tema. A Homilia, pressupunha um método de análise, e a explicação de um parágrafo ou verso da Escritura, que era lido durante os cultos.[10]

     O uso do termo “Homilética” referindo-se à pregação, data do século XVII, quando foi usado por Baier (1677) e Krumholf (1699).[11]

     Creio que a definição de Broadus (1827-1895) a respeito de homilética expressa bem o conceito primitivo da pregação entre os Pais da Igreja: “A adaptação da retórica às finalidades especiais e aos reclamos da prédica cristã”.[12]

Maringá, 08 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] ARA não traduz as ocorrências.

[2] Xenofonte, Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, IV.3.2. p. 147.

[3]A palavra não aparece no Texto de Nestle-Aland. Ela ocorre em alguns manuscritos menores, sendo empregada no Textus Receptus, podendo ser traduzida por “a companhia em navios” (tw=n ploi/wn o( o(/miloj).

[4]Homero, Ilíada, 18.603; 24.712.

[5]Menandro, Frag. p. 62, n° 218.

[6]Xenofonte, Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, I.2.20.

[7]Xenofonte, Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, I.2.6.

[8]Xenofonte, Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, I.2.15.

[9]A nossa palavra “sermão”, é a transliteração do latim “sermo”, que significa, “conversação”, “conversa”, “maneira de falar”, etc.

[10] Cf. WM. M. Taylor, et. al. Homiletics: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: Or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, Chicago: Funk & Wagnalls, Publishers, (revised edition), 1887, v. 2, p. 1011; Homilética: In: Russel N. Champlin; João Marques Bentes, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v. 2, p. 154. No Dicionário de Antônio Geraldo da Cunha, encontramos a seguinte definição de homilia: “Sermão que tem por objeto explicar assuntos doutrinários” (Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, p. 415).

[11] Cf. WM. M. Taylor, et. al. Homiletics: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: Or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, v. 2, p. 1011b.

[12] J. A. Broadus, O Preparo e Entrega de Sermões, p. 10.

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (9)

3.1. Cristianismo, tempo e história (continuação)

Bavinck (1854-1921) corretamente destaca a singularidade de Cristo para o Cristianismo:

Ele ocupa um lugar completamente único no Cristianismo. Ele não foi o fundador do Cristianismo em um sentido usual, ele é o Cristo, o que foi enviado pelo Pai e que fundou Seu reino sobre a terra e agora expande-o até o fim dos tempos. Cristo é o próprio Cristianismo. Ele não está fora, Ele está dentro do Cristianismo. Sem Seu nome, pessoa e obra, não há Cristianismo. Em outras palavras, Cristo não é aquele que aponta o caminho para o Cristianismo, Ele mesmo é o caminho.[1]

     Se formos sinceros em nossa investigação bíblica, não restam muitas alternativas para nós. Ou Jesus Cristo é de fato Deus conforme o seu próprio testemunho e, assim, podemos então considerá-lo de forma decorrente como um grande mestre, um bom homem, justo e misericordioso, ou Ele é um farsante não merecendo a nossa fé nem mesmo o nosso respeito.

     Barth (1886-1968) coerentemente afirma que a Escritura não nos deixa vagueando em nossa fé, antes, quando nos fala de Deus, aponta para Jesus Cristo, em quem nossa atenção e pensamentos devem se concentrar.[2]

     Stott (1921-2011) coloca a questão nestes termos: “Jesus deve ser adorado ou apenas admirado? Se ele é Deus, é digno de nossa adoração, fé e obediência; se não é Deus, dedicar a ele essa devoção é idolatria”.[3]

     Se as reivindicações divinas e redentivas do Jesus Cristo histórico são verdadeiras como de fato são, a mensagem do Evangelho deve ser anunciada ao mundo para que aqueles que crerem sejam salvos.

     Noll resume bem ao dizer que: “Estudar a história do cristianismo é lembrar continuamente o caráter histórico da fé cristã”.[4]

Sem o fato histórico da encarnação, morte e ressurreição de Cristo, podemos falar até de experiência religiosa, mas não de experiência cristã. A experiência cristã depende fundamentalmente destes eventos.[5] É por isso que a pregação da Igreja primitiva, conforme nos mostram as Escrituras, estava fundamentalmente amparada na certeza da ressurreição do Senhor.[6]

Quando focamos o nosso olhar na experiência, corremos o risco de perdermos a dimensão da essência, do referente, que é Deus. Neste processo, como escreveu Barth (1886-1968), “a passagem da experiência do Senhor à experiência de Baal é curta. O religioso e o sexual são extremamente semelhantes”.[7]

Jesus Cristo é o clímax da Revelação. Ele é a Palavra Final de Deus. Nele temos não uma metáfora ou um sinal, antes, temos o próprio Deus que Se fez homem na história.

Sire escreveu de modo esclarecedor:

Jesus Cristo é a revelação final e especial de Deus. Porque Jesus Cristo era verdadeiramente Deus Ele nos mostrou mais plenamente com quem Deus era semelhante do que qualquer outra forma de revelação. Porque Jesus foi também completamente homem, Ele falou mais claramente a nós do que pode fazê-lo qualquer outra forma de revelação.[8]

     A História é de grande relevância para a escatologia e para a teologia. Lloyd-Jones (1899-1981) chega a dizer que “‘O problema da história’ é o grande tema da Bíblia Sagrada”.[9]

     A História da Igreja, bem como da Teologia, tem um lado divino: Deus dirige a História e, um lado humano: os fatos compartilhados por todos nós que a vivemos. Os atos de Deus, na História, não são objeto de análise do historiador. Não somos Lucas, inspirados infalivelmente por Deus, apresentando uma interpretação inspirada.[10] A relação entre a história e a teologia é extremamente complexa e de difícil interpretação.[11] Além disso, é preciso delimitar a esfera de domínio do historiador e do teólogo. Somos homens comuns, que procuramos estabelecer métodos, examinar documentos, fazer-lhes perguntas e interpretá-los a bem da melhor compreensão possível do que aconteceu.

     Nesse sentido, a História é uma ciência social “cujo objeto é o conhecimento do processo de transformação da sociedade ao longo do tempo”.[12] Ela tem como pressuposto, a consciência de determinada ignorância – aliás, a consciência da ignorância é um requisito fundamental para o historiador – para a qual buscaremos uma solução.[13]

     Contudo não captamos o fato absolutamente. Ele, como “conhecimento autêntico e seguro”, sempre nos escapa;[14] compreendemos, sim, as versões, as nossas versões dos fatos que julgamos serem coerentes com eles. No entanto, há uma interação mutativa: as evidências interferem em nossa cosmovisão e esta, por sua vez, fornece-nos novos cânones – provisórios é verdade – de aproximação das mesmas evidências que, agora, podem já não ser consideradas evidências.

O estudo do passado, se devidamente compreendido, ainda que não exaustivamente, pode nos levar a reavaliar as nossas próprias suposições que, em muitos casos, são “crenças correntes”[15] já tão bem estabelecidas que julgávamos acima de qualquer “suspeita”. Georges Duby (1919-1996), colocou isto de forma bela e ao mesmo tempo angustiante: “Todo historiador se extenua para conseguir a verdade; essa presa escapa-lhe sempre”.[16]

A História da Igreja, por exemplo, é uma ciência que não está atrelada a nenhuma ciência em particular. Como ciência histórica, deve apresentar um quadro histórico e cronológico dos principais fatos da vida da Igreja do período analisado. Para que isso seja feito com clareza, tornam-se necessárias fontes documentais. Nelas, possamos a nos alicerçar para exaurir as informações de cada época, a fim de formular um quadro interpretativo coerente com os documentos disponíveis.

Maringá, 08 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 311.

[2]Karl Barth, Church Dogmatics, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 2010, II/2, p. 52-53.

[3]Timothy Dudley, Cristianismo autêntico: 968 textos selecionados das obras de John Stott, São Paulo: Editora Vida, 2006, p. 44. C.S. Lewis escreveu de forma contundente: “Um homem que fosse só homem, e dissesse as coisas que Jesus disse, não seria um grande mestre de moral: seria ou um lunático, em pé de igualdade com quem diz ser um ovo cozido, ou então seria o Demônio. Cada um de nós tem que optar por uma das alternativas possíveis. Ou este homem era, e é, Filho de Deus, ou então foi um louco, ou cuspir nele e matá-lo como um demônio; ou podemos cair a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas não venhamos com nenhuma bobagem paternalista sobre ser Ele um grande mestre humano. Ele não nos deu esta escolha. Nem nunca pretendeu” (C.S. Lewis, A essência do Cristianismo, São Paulo: ABU Editora, 1979, p. 29). Boice com maestria analisa as opções fornecidas por Lewis. Veja-se: James M. Boice, Fundamentos da Fé Cristã, Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2011, p. 238-240. John Piper faz algo semelhante, com uma aproximação diferente. (Veja-se: John Piper, Um homem chamado Jesus Cristo, São Paulo: Vida, 2005, p. 11-12). Do mesmo modo, Josh McDowell, Mais que um carpinteiro, Venda Nova, MG.: Editora Betânia, 1989,p. 26-35.

[4]Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2000,p. 16. Vejam-se também: Clyde P. Greer, Jr., Refletindo honestamente sobre a história: In: John F. MacArthur Jr. ed. ger. Pense Biblicamente!: recuperando a visão cristã do mundo, São Paulo: Hagnos, 2005, p. 400-401.

[5] Cf. J. Gresham Machen, Cristianismo e Liberalismo, São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 77.

[6] “Gostemos ou não, não podemos escapar ao fato de que historicamente o Cristianismo foi fundado sobre a crença na ressurreição” (Alan Richardson, Así se hicieron los Credos: Una breve introducción a la história de la Doctrina Cristiana, Barcelona: Editorial CLIE, 1999, p. 24).

[7] Karl Barth, A Palavra de Deus e a palavra do homem, São Paulo: Novo Século, 2004, p. 217.

[8]James W. Sire, O universo ao lado, São Paulo: Hagnos, 2004, p. 40.

[9] D.M. Lloyd-Jones, Do temor à fé, Miami: Editora Vida, 1985, p. 9.

[10]Carson constatando a secularização na prática e nos discursos, arrematou: “Hoje não existe um departamento de história na terra que aprovaria uma dissertação de doutoramento que tentasse inferir algumas coisa sobre a providência” (D.A. Carson, O Deus amordaçado: o Cristianismo confronta o pluralismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2013, p. 38-39). Por sua vez, estimulando a nossa modéstia na interpretação da histórica, veja-se: Darryl G. Hart, 1929 e tudo aquilo, ou o que o calvinismo diz aos historiadores em busca de significado?: In: David W. Hall, Calvino em praça pública,  São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p 19-34.

[11] Ver: Michel De Certeau, A Escrita da História, 2. ed.Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002, p. 33ss.

[12]Nelson W. Sodré, Formação histórica do Brasil, São Paulo: Brasiliense, (1962), p. 3.

[13]Veja-se: R.G. Collingwood, A Ideia de História, Lisboa: Editorial Presença, (s.d.), p. 21.

[14] “O homem sente necessidade absoluta de chegar ao conhecimento autêntico do que verdadeiramente aconteceu, ainda que tenha consciência da pobreza dos meios de que para isso dispõe” (Johan Huizinga, El Concepto de la Historia y Otros Ensayos, 4. reimpresión,México: Fondo de Cultura Econômica, 1994, p. 92).

[15]Veja-se: Quentin Skinner, Liberdade antes do Liberalismo,São Paulo: Editora UNESP/Cambridge, 1999, p. 90.

[16] Georges Duby, O Prazer do Historiador: In: Pierre Nora, et. al. Ensaios de Ego-História,Lisboa: Edições 70, (1989), p. 110.

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (8)

A Pregação Cristã

A. Cristianismo, tempo e história

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E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei – Agostinho.[1]
Deus inseriu a revelação da Bíblia na História; Ele não a forneceu (como poderia ter feito) em forma de livro-texto teológico. Localizando a revelação na história, que sentido teria para Deus ter-nos fornecido uma revelação cuja história fosse falsa? Também o homem foi inserido neste universo que, como as Escrituras mesmo dizem, fala de Deus. Que sentido, então, teria para Deus ter nos oferecido sua revelação em um livro cheio de falsidades acerca do universo? A resposta para ambas as questões deve ser “nada disso faria sentido!”. Está claro, portanto, que, do ponto de vista das Escrituras em si, podemos observar uma unidade por todo o campo do conhecimento. Deus falou, numa forma linguística e proposicional, verdades sobre si mesmo e verdades sobre o homem, a sua história e o universo. ‒ Francis A. Schaeffer.[2]

A concepção cristã de tempo, mesmo com as suas variações, influenciou diretamente todo o mundo ocidental. A compreensão de que o tempo tem um início, meio e fim era totalmente estranha às culturas pagãs.[3] A questão da história e do tempo é fundamental para o Cristianismo pela sua própria constituição.

O Cristianismo é uma religião de história.[4] Elimine, por exemplo, a historicidade dos 11 primeiros capítulos de Gênesis, e estaremos mutilando o sentido das Escrituras e, por isso mesmo, os fundamentos da fé cristã. Pelo fato de a Criação ter ocorrido na história, bem como a Queda, a promessa (Gn 3.15) e o Dilúvio, é que tudo o mais faz sentido. Se a Queda é apenas uma lenda, porque precisaríamos crer na encarnação, morte e ressurreição de Cristo como fato histórico? Bastaria a criação de outra lenda para, quem sabe, remediar o que fora inventado anteriormente.

A revelação dá-se na história. Qual o sentido de Deus falar e agir na história e, ao mesmo tempo, fornecer por meio de sua Palavra uma história mentirosa, cheia de equívocos e erros? Grande parte dos ensinamentos doutrinários das Escrituras provém de fatos históricos não apenas de proposições doutrinárias.[5] Na história vemos a demonstração prática dos ensinamentos de Deus, revelando os acertos e fracassos de suas criaturas em serem fiéis ao seu Senhor, e, ao mesmo tempo, a demonstração de sua misericórdia incompreensível que atinge o seu ápice na encarnação do Verbo.      O Cristianismo não se ampara em lendas, antes, em fatos os quais devem ser testemunhados, visto que têm uma relação direta com a vida dos que creem.[6] O Cristianismo é uma religião de fatos, palavra e vida. Os fatos, corretamente compreendidos, têm uma relação direta com a nossa vida. A fé cristã fundamenta-se no próprio Cristo: O Deus-Homem. Sem o Cristo Histórico não haveria Cristianismo.[7] A sua força e singularidade estão neste fato, melhor dizendo: na pessoa de Cristo, não simplesmente nos seus ensinamentos.[8] O Cristianismo é o próprio Cristo. A encarnação é toda e inclusivamente missionária: o Verbo fez-se carne e habitou entre nós (Jo 1.14). É por isso também, que o Cristianismo é uma religião de memória, relatando os feitos de Deus e desafiando o povo a reafirmar a sua fé a partir do rememorar dos atos de Deus


[1]Agostinho, Confissões, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, v. 6), 1973, XI.14.17. p. 244.

[2]Francis A. Schaeffer, O Deus que intervém,  2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 146.

[3]Cf. Gene Edward Veith, Jr, De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 22-23.

[4] Veja-se a exposição de Alan Richardson, Así se hicieron los Credos: Una breve introducción a la historia de la Doctrina Cristiana, Barcelona: Editorial CLIE, 1999, p. 15ss.

[5] Veja-se, por exemplo: Francis A. Schaeffer, Nenhum conflito final: a Bíblia sem erro em tudo o que ela afirma, Brasília, DF.: Monergismo, 2017, p. 13-33.

[6] Veja-se: F.A. Schaeffer, O Deus que intervém, São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 250-251.

[7] Georges Duby (1919-1996), dentro de uma perspectiva puramente histórica, admite: “O Cristianismo, que impregnou fundamentalmente a sociedade medieval, é uma religião da história. Proclama que o mundo foi criado num dado momento e que, num outro, Deus fez-se homem para salvar a humanidade. A partir disso, a história continua e é Deus quem a dirige” (Georges Duby, Ano 1000, ano 2000, na pista de nossos medos, São Paulo: Editora UNESP;  Imprensa Oficial do Estado, 1999, p. 16). “Os historiadores insistiram com justeza sobre o fato de que o cristianismo é uma religião histórica, ancorada na história e se afirmando como tal” (Jacques Le Goff, Tempo: In: Jacques Le Goff; Jean-Claude Schmitt, coords. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Bauru,SP.; São Paulo, SP.: Editora da Universidade Sagrado Coração; Imprensa Oficial do Estado, 2002, v. 2, p. 534). “O cristianismo, como também a religião de Israel, da qual ele nasceu, se apresenta como uma religião histórica de forma absolutamente concreta, em comparação à qual nenhuma das outras religiões do mundo pode se equiparar – nem mesmo o Islã, apesar de este se aproximar mais do cristianismo e do judaísmo, nesse sentido, que qualquer outra religião” (Christopher Dawson, Dinâmicas da História no Mundo,  São Paulo: É Realizações Editora, 2010, p. 343). Do mesmo modo: Marc Bloch, Apologia da história, ou, O ofício do historiador, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, p. 58. Veja-se também: Gordon H. Clark, Uma visão cristã dos homens e do mundo, Brasília, DF.: Monergismo, 2013, p. 85, 92.

[8]Veja-se: Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 23ss. “Qualquer coisa que se apresente como cristianismo, mas que não insista na absoluta e essencial necessidade de Cristo, não é cristianismo. Se Ele não for o coração, a alma e o centro, o princípio e o fim do que é oferecido como salvação, não é a salvação cristã, seja lá o que for” (D. M. Lloyd-Jones, O supremo propósito de Deus: Exposição sobre Efésios 1.1-23, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 143). “O evangelho nos confronta com fatos. Ele se baseia completamente numa pessoa; está fundamentado em fatos definidos que ocorreram ao longo da história. (…) Ele me conduziu por entre os fatos, ao longo do túnel das trevas em direção à aurora que ilumina a outra extremidade” (D.M. Lloyd-Jones, Não se perturbe o coração de vocês, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2016, p. 29). Veja-se Alister E. McGrath, A gênese da doutrina: fundamentos da crítica doutrinária, São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 195ss.

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (7)

C. Sim, contudo…

 Agostinho (354-430), dentro de outro contexto histórico, quando o Império Romano já não era visto como “inimigo”, tem uma posição mais equilibrada do uso da cultura clássica. Ele valoriza a Filosofia. Contudo, entende que nem todos os chamados filósofos o são de fato, visto que o filósofo é aquele que ama a sabedoria. “Pois bem – argumenta Agostinho –, se a sabedoria é Deus, por quem foram feitas todas as coisas, como demonstraram a autoridade divina e a verdade, o verdadeiro filósofo é aquele que ama a Deus”.[1]

Em outro lugar, partindo de exemplos bíblicos, instrui-nos quanto à possibilidade de nos valer de recursos vários, mesmo provenientes, dos pagãos:

Os que são chamados filósofos, especialmente os platônicos, quando puderam, por vezes, enunciar teses verdadeiras e compatíveis com a nossa fé, é preciso não somente não serem eles temidos nem evitados, mas antes que reivindiquemos essas verdades para nosso uso, como alguém que retoma seus bens a possuidores injustos.[2]

De fato, verificamos que os egípcios não apenas possuíam ídolos e impunham pesados cargos a que o povo hebreu devia abominar e fugir, mas tinham também vasos e ornamentos de ouro e prata, assim como quantidade de vestes. Ora, o povo hebreu, ao deixar o Egito, apropriou-se, sem alarde, dessas riquezas (Ex 3.22), na intenção de dar a elas melhor emprego. E não tratou de fazê-lo por própria autoridade, mas sob a ordem de Deus (Ex 12.35-36). E os egípcios lhe passaram sem contestação esses bens, dos quais faziam mau uso.

Ora, dá-se o mesmo em relação a todas as doutrinas pagãs. Elas possuem, por certo, ficções mentirosas e supersticiosas, pesada carga de trabalhos supérfluos, que cada um de nós, sob a conduta de Cristo, ao deixar a sociedade dos pagãos, deve rejeitar e evitar com horror. Mas eles possuem, igualmente, artes liberais, bastante apropriadas ao uso da verdade e ainda alguns preceitos morais muito úteis. E quanto ao culto do único Deus, encontramos nos pagãos algumas coisas verdadeiras, que são como o ouro e a prata deles. Não foram os pagãos que os fabricaram, mas os extraíram, por assim dizer, de certas minas fornecidas pela Providência divina, as quais se espalharam por toda parte e das quais usaram, por vezes, a serviço do demônio. Quando, porém, alguém se separa, pela inteligência, dessa miserável sociedade pagã, tendo-se tornado cristão, deve aproveitar-se dessas verdades, em justo uso, para a pregação do Evangelho. Quanto às vestes dos egípcios, isto é, às formas tradicionais estabelecidas pelos homens, mas adaptadas às necessidades de uma sociedade humana, da qual não podemos ser privados nesta vida, será permitido ao cristão tomá-las e guardá-las a fim de convertê-las em uso comum.

Aliás, que outra coisa fizeram muitos de nossos bons fiéis? Não vemos sobrecarregado com ouro, prata, vestes tiradas do Egito, Cipriano, esse doutor suavíssimo e beatíssimo mártir? Com que quantidade, Lactâncio? E Victorino, Optato, Hilário, sem citar os que vivem ainda hoje? Com que quantidade, inumeráveis gregos o fizeram? E o que executou, em primeiro lugar, o fidelíssimo servo de Deus, Moisés, instruído com toda a sabedoria dos egípcios? (At 7.22)”.[3]

Contudo, à frente reconhece a superioridade das Escrituras sobre todas as demais coisas:

Quanto é pequena a quantidade de ouro, prata e vestes tirada do Egito por esse povo hebreu em comparação com as riquezas que lhe sobrevieram em Jerusalém, e que aparecem sobretudo com o rei Salomão (1Rs 10.14-23), assim é igualmente pequena a ciência – se bem que útil – recolhida nos livros pagãos, em comparação com a ciência contida nas divinas Escrituras. Porque tudo o que um homem tenha aprendido de prejudicial alhures, aí está condenado, e tudo o que aprendeu de bom, aí está ensinado. E quando cada um tiver encontrado tudo o que aprendeu de proveitoso em outros livros, descobrirá muito mais abundantemente aí. E o que é mais, o que não aprendeu em nenhuma outra parte, somente encontrará na admirável superioridade e profundidade destas Escrituras.[4]

A linha de avaliação crítica de cada contribuição,[5] conforme adotada por Agostinho parece ter prevalecido;[6] afinal, o apóstolo Paulo também se valera das contribuições de rabinos judeus e de pagãos que os ajudavam em sua argumentação, sem, contudo, ser influenciado por seus ensinamentos. Assim permanece a consciência de que todas as coisas provêm de Deus e, que as concepções verdadeiras da realidade – ainda que nos lábios de ímpios (Cf. At 17.28;Tt 1.12) –, podem ser instrumentos úteis para a elaboração e transmissão da verdade divina. Isto porque qualquer tipo de conhecimento parte de Deus, que é a sua fonte inesgotável. Portanto, toda verdade é proveniente de Deus, havendo inclusive pontes entre o que pensadores pagãos disseram e a plenitude da verdade conforme revelada nas Escrituras.[7]

     No entanto, esta questão voltaria a estar no auge das discussões entre os puritanos[8] a respeito da formação dos Ministros.[9]

Maringá, 07 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Agostinho, A Cidade de Deus, 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1990, v. 1, VIII.1.

[2] Devemos nos lembrar de que Agostinho aventa a possibilidade de Platão ter tido contato com as Escrituras (Agostinho, A Cidade de Deus, 2. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1990, (v. 1), VIII.11). Acredita na possibilidade de Platão ter tido contato com o profeta Jeremias no Egito (Santo Agostinho, A Doutrina Cristã, São Paulo: Paulinas, 1991, II.29. p. 135). (Há outra edição em português: Santo Agostinho, A doutrina cristã: Manual de exegese e formação cristã, São Paulo: Paulus (Patrística; 17), 2002).

[3] Santo Agostinho, A Doutrina Cristã, II.41. p. 149-151.

[4] Santo Agostinho, A Doutrina Cristã, II.43. p. 153-154. Para uma abordagem mais completa das opiniões do “Pais da Igreja”, vejam-se: Henri-Irénée Marrou, História da Educação na Antiguidade,5. reimpr. São Paulo: EPU. 1990, p. 484ss; Etienne Gilson, A Filosofia na Idade Média,São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 1ss; Ruy A. da Costa Nunes, História da Educação na Antiguidade Cristã,São Paulo: EPU/EDUSP. 1978, p. 5ss; Philotheus Boehner; Etienne Gilson, História da Filosofia Cristã, 3. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1985, p. 35; Battista Mondin, Curso de Filosofia, São Paulo: Paulinas, 1983, v. 1, p. 216-222. É muito interessante também, a obra de Charles Norris Cochrane, Cristianismo y Cultura Clásica, (2. reimpresión), México: Fondo de Cultura Económica, 1992, p. 213ss.

[5] Ver: Alister E. McGrath, Teologia, sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, p. 52-54.

[6]“Foi a fórmula de servidão (ciência/filosofia como serva da teologia) de Agostinho, e não o discurso retórico de Tertuliano que moldou a relação entre a cristandade e as ciências naturais durante a Idade Média e para além dela” (David C. Lindberg, O destino da ciência na cristandade patrística e medieval: In: Peter Harrison, org. Ciência e religião,  São Paulo: Editora Ideias & Letras, 2014, p. 44).

[7]Essas pontes evidenciam-se de modo transparente no comentário feito no segundo século, por Justino: “…. se há coisas que dizemos de maneira semelhante aos poetas e filósofos que estimais, e outras de modo superior e divinamente, e somos os únicos que apresentamos demonstração, por que nos odeiam injustamente mais do que a todos os outros? Assim, quando dizemos que tudo foi ordenado por Deus, parecerá apenas que enunciamos um dogma de Platão; ao falar sobre conflagração, outro dogma dos estoicos; ao dizer que são castigadas as almas dos iníquos que, ainda depois da morte, conservarão a consciência, e que as dos bons, livres de todo castigo, serão felizes, parecerá que falamos como vossos poetas e filósofos; que não se devem adorar obras de mãos humanas, não é senão repetir o que disseram Menandro, o poeta cômico, e outros com ele, que afirmaram que o artífice é maior do que aquele que o fabrica” (Justino de Roma, I Apologia, 20.3-5. p. 37-38).

[8] Veja-se também a citação nesta mesma direção de alguns puritanos em Leland Ryken, Santos no Mundo, São José dos Campos, SP.: FIEL, 1992, p. 177-179.

[9]Cf. R. Hooykaas, A Religião e o Desenvolvimento da Ciência Moderna, Brasília, DF.: Editora Universidade de Brasília, 1988, p. 186ss.

O Palhaço e o Profeta: Uma indefinição vocacional e as suas graves consequências

Costumamos lamentar, hoje em dia, que os ministros não sabem pregar; mas não é igualmente verdadeiro que nossas congregações não sabem ouvir”[1]

J.I. Packer

Certa vez, um circo se instalou próximo de uma cidadezinha dinamarquesa. Este circo pegou fogo. O proprietário do circo vendo o perigo do fogo se alastrar e atingir a cidade, mandou o palhaço, que já estava vestido a caráter, pedir ajuda naquela cidade a fim de apagar o fogo, falando do perigo iminente. Mas, inútil foi todo o esforço do palhaço para convencer os seus ouvintes. Os aldeões riam e aplaudiam o palhaço entendendo ser esta uma brilhante estratégia para fazê-los participar do espetáculo. Quanto mais o palhaço falava, gritava e chorava, insistindo em seu apelo, mais o povo ria e aplaudia. O fogo se propagou pelo campo seco, atingiu a cidade e esta foi destruída.[1]

     De forma semelhante, temos muitas vezes apresentado uma mensagem incompreensível aos nossos ouvintes, talvez porque ela também seja incompreensível a nós.

     As pessoas se acostumaram a nos ouvir brincar e baratear tanto as coisas sagradas, que já não conseguem descobrir o sagrado em nossas brincadeiras. Alguns pregam como se estivessem no picadeiro. A nossa mensagem parece ser feita de palha, como as vestes dos palhaços eram preenchidas originariamente.

     Por outro lado, nossos ouvintes, por não perceberem a diferença entre o propósito de cada função, comentem uma falsidade ideológica-vocacional. Assim, o picadeiro (afeito ao palhaço) e o púlpito (afeito ao profeta), se intercambiam. Esse comportamento mutante, seria até tolerável por parte do palhaço, reforçado por um aplauso, por vezes, literal, quase litúrgico.

     Deste modo, a profecia (pregação) torna-se motivo de simples gostar ou não gostar e o circo perde um de seus prováveis talentosos componentes. Assim, sem nos darmos conta, estamos compactuando com a indiferença de nossos ouvintes, que, de certa forma, estão “cansados” da palavra “Evangelho”, sem que na realidade, nunca tenham sido ensinados a respeito do Evangelho de Cristo.

     Nesse caso, a avaliação da mensagem pregada fica restrita ao gostar ou não do ouvinte. Se gostei foi boa, se não, é ruim. Criamos uma categoria arbitrária e solitária do que de fato ou pretensamente fato é verdadeiro ou não a partir do gosto, como se este também não fosse afetado pelas consequências do pecado. Na realidade, o gostar ou não deve estar subordinado ao exame das Escrituras (At 17.11). Procedendo como os bereanos, examinando as Escrituras, descobriremos, para surpresa nossa, o quão o nosso gosto pode ser pecaminoso e inconsequente em muitas situações.

     O Evangelho é uma mensagem acerca de Deus – da sua Glória e de Seus atos salvadores -; acerca do homem – do seu pecado e miséria -; acerca da salvação e da condenação condicionada à submissão ou não a Cristo como Senhor de sua vida. Essa mensagem que envolve uma decisão na história, ultrapassa a história, visto ter valor eterno. Portanto, não podemos brincar com ela, não podemos fazer testes: estamos falando de vida e morte eternas (Jo 3.16-18).[2]

      Albert Martin apresenta uma crítica pertinente:

O esforço desnatural de certos pregadores para serem “contadores de piadas”, entre a nossa gente, constitui uma tendência que precisa acabar. A transição de um palhaço para um profeta, é uma metamorfose extremamente difícil.[3]

     O mundo por sua vez, deseja ansiosamente ouvir, porém, não a Palavra de Deus (1Jo 4.5). Como há falsos pregadores e falsos mestres, é necessário provar o que está sendo proclamado para ver se o seu conteúdo se coaduna com a Palavra de Deus (At 17.11,12/1Jo 4.1-6).

     No entanto, neste período de grandes e graves transformações, torna-se evidente que os homens, de forma cada vez mais veemente, querem ouvir mais o reflexo de seus desejos e pensamentos, a homologação de suas práticas. Assim sendo, a palavra que deveria ser profética, tende com demasiada frequência – mesmo assinando o seu obituário – a se tornar apenas algo apetecível ao público alvo, aos seus valores e devaneios, ou, então, nós pregadores, somos tentados a usar de nossa eloquência para compartilhar generalidades da semana, sempre, é claro, com uma alusão bíblica aqui ou ali, para justificar a nossa pregação. O fato é que uma geração incrédula, é sempre acintosamente crítica para com a palavra profética.

     Parece-me correto o comentário de Vincent (1834-1922) quando declara que: “A demanda gera o suprimento. Os ouvintes convidam e moldam os seus próprios pregadores. Se as pessoas desejam um bezerro para adorar, o ministro que fabrica bezerros logo é encontrado”.[4]

     Portanto, é preciso atenção redobrada para não cairmos nesta armadilha já que não é difícil confundir os efeitos de uma mensagem pelo conteúdo do que anunciamos: A proclamação cristã deve ser avaliada primeiramente pelo seu conteúdo, não simplesmente pelo seu aparente resultado. O que Deus exige de nós é fidelidade. Os resultados estão nas mãos de Deus porque, de fato, pertencem a Deus.  

     Iain Murray está correto ao afirmar:

O crescimento espiritual na graça de Cristo vem em primeiro lugar. Onde esse crescimento é menosprezado em troca da busca de resultados, pode haver sucesso, mas será de pouca duração e, no final, diminuirá a eficácia genuína da Igreja. A dependência de número de membros ou a preocupação com números frequentemente tem se confirmado como uma armadilha para a igreja.[5]  

     Evangelizar é declarar o poder de Deus, que transforma os homens, unindo-os a si, preservando-os até o fim.

     Imaginem um jovem entre centenas de outros, ansiosamente procurando seu nome nas listas afixadas nas paredes na universidade a fim de saber se foi aprovado ou não no vestibular. De repente surge um amigo com um sorriso largo e com os braços abertos, dizendo: “parabéns, você foi aprovado”. O jovem dá-lhe um abraço apertado, pula, grita, ri, chora, comemora… Depois de alguns minutos de euforia, aquele “amigo” diz: “É brincadeira; seu nome não consta entre os aprovados”. Se você fosse aquele vestibulando, como reagiria? Pense nisto: Se você corretamente não admite brincadeiras com coisas sérias, o Evangelho, que envolve vida e morte eternas seria passível de brincadeiras, de gracejos? A pregação é assunto para profetas, não para palhaços. As vocações são diferentes. Pensemos nisso.

     Maringá, 10 de outubro de 2019

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Esta parábola é contada por Kierkegaard (1813-1855) e aplicada nas obras de Harvey Cox, (A Cidade do Homem, 2. ed.Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1971, p. 270) e J. Ratzinger (Introdução ao Cristianismo, São Paulo: Herder, 1970, p. 7-8). Todavia a aplicação que ambos fazem é distinta uma da outra. A que faço é diferente da de ambos.

[2]“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3.16-18).

[3] Albert N. Martin, O Que há de errado com a pregação de hoje? São Paulo: Fiel, (s.d.), p. 23. Mais recentemente escreveu Lawson: “Esse tipo de pregação nominal satisfaz aos ouvintes por substituir a exposição bíblica por entretenimento. Substitui a teologia por teatro. Oferece avaliações saudáveis no lugar da sã doutrina. Nesta mudança infeliz, o drama da redenção dá lugar a simples apresentações teatrais. Essa pregação desprezível tem transformado muitos púlpitos em um palco de fim de semana para atores que se mascaram de pregadores” (Steven J.  Lawson, O tipo de pregação que Deus abençoa,  São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2013, p. 37).

[4] Marvin R. Vincent, Word Studies in the New Testament,  Peabody, Massachusetts: Hendrickson  Publishers, (s.d),v. 4, (2Tm 4.3), p. 321.

[5]Iain Murray, A Igreja: Crescimento e Sucesso: In: Fé para Hoje,São José dos Campos, SP.: Fiel, nº 6, 2000, p. 27.


[1]J.I. Packer, Entre os gigantes de Deus: Uma visão puritana da vida cristã,São José dos Campos, SP.: FIEL, 1996, p. 275.

O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (2)

2. Razões para a tristeza

 

A Bíblia não é um livro de autoajuda. Ela de fato não simplesmente nos ajuda, mas nos mostra o caminho definitivo para a sua concretização eterna, a salvação em Cristo Jesus que envolve o tempo e a eternidade. Portanto, ela não trata de segredinhos para enganar, disfarçar ou esconder nossas rugas, manchas, “estrias” ou mazelas espirituais. Ela nos ensina que antes da alegria vem o choro; antes da felicidade vem a tristeza.

 

A Escritura descreve diversos momentos de angústia e tristeza entre os seres humanos, quer por motivos nobres, quer não; de homens e mulheres piedosos, ou não. Este sentimento acompanhado pelas lágrimas é comum ao ser humano. De forma ilustrativa, indiquemos algumas circunstâncias de tristeza e lágrimas:

1) Morte

A consciência da morte[1] que, por causa do pecado, pode ser tão grave, intensa e esmagadora para o homem,[2] soando como algo anormal,[3] pode e deve ser olhada como o caminho para a glória, como escreveu Calvino:

 

Somente os crentes genuínos conhecem a diferença entre este estado transitório e a bem-aventurada eternidade, para a qual foram criados; eles sabem qual deve ser a meta de sua vida. Ninguém, pois, pode regular sua vida com uma mente equilibrada, senão aquele que, conhecendo o fim dela, isto é, a morte propriamente dita, é levado a considerar o grande propósito da existência humana neste mundo, para que aspire o prêmio da vocação celestial.[4]

 

Não é de se estranhar que a morte seja um dos aspectos mais indicados nas Escrituras como sendo causador de tristeza, dor e lágrimas.

 

A) A Morte de filhos

 

 1) Jacó, quando pensou que José, seu filho preferido, havia morrido, chorou intensamente, se negando, inclusive, a ser consolado pelos familiares: 34 Então, Jacó rasgou as suas vestes, e se cingiu de pano de saco, e lamentou o filho por muitos dias. 35 Levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas, para o consolarem; ele, porém, recusou ser consolado e disse: Chorando, descerei a meu filho até à sepultura. E de fato o chorou seu pai” (Gn 37.34-35).

 

2) Davi chora intensamente a morte de seus filhos. Amnom, morto por ordem de Absalão, e, posteriormente, pela morte deste:

 

Absalão, porém, fugiu e se foi a Talmai, filho de Amiúde, rei de Gesur. E Davi pranteava a seu filho [Amnon] todos os dias. (2Sm 13.37).[5]

Então, o rei, profundamente comovido, subiu à sala que estava por cima da porta e chorou; e, andando, dizia: Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho! (2Sm 18.33).

 

Com esta lamentação intensa e contínua pela morte de Absalão, algo constrangedor aconteceu, como nos chama atenção MacArthur: “O pranto de Davi por Absalão foi tão intenso que seus soldados ficaram envergonhados da vitória”.[6]

 

Joabe foi fundamental para admoestar a Davi mostrando-lhe o quanto estava sendo nefasto o seu comportamento:

 

Disseram a Joabe: Eis que o rei anda chorando e lastima-se por Absalão. 2 Então, a vitória se tornou, naquele mesmo dia, em luto para todo o povo; porque, naquele dia, o povo ouvira dizer: O rei está de luto por causa de seu filho. 3 Naquele mesmo dia, entrou o povo às furtadelas na cidade, como o faz quando foge envergonhado da batalha. 4 Tendo o rei coberto o rosto, exclamava em alta voz: Meu filho Absalão, Absalão, meu filho, meu filho! 5 Então, Joabe entrou na casa do rei e lhe disse: Hoje, envergonhaste a face de todos os teus servos, que livraram, hoje, a tua vida, e a vida de teus filhos, e de tuas filhas, e a vida de tuas mulheres, e de tuas concubinas, 6 amando tu os que te aborrecem e aborrecendo aos que te amam; porque, hoje, dás a entender que nada valem para contigo príncipes e servos; porque entendo, agora, que, se Absalão vivesse e todos nós, hoje, fôssemos mortos, então, estarias contente. (2Sm 19.1-6).

 

As Escrituras narram que Davi reagiu positivamente a esta sincera e necessária repreensão (2Sm 19.8-15).

 

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este artigo faz parte de uma série. Confira aqui a série completa.

 


 

[1] “O que distingue os humanos de todas as outras criaturas é a autoconsciência. Sabemos que estamos vivos e que morreremos, e não conseguimos deixar de questionar por que a vida é assim e qual é o seu significado” (Charles Colson; Harold Fickett, Uma boa vida, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 20).

[2] “Durante toda a minha vida, meu pensamento esteve ocupado pelo problema com o qual todos se defrontam: o sentido da vida e da morte. É, no fundo, a única questão contra a qual se choca desde a origem o animal pensante, o único que enterra seus mortos, o único que pensa na morte, que pensa sua morte. Para iluminar seu caminho nas trevas, para adaptar-se à morte, esse animal tão bem adaptado à vida só tem duas luzes: uma se chama religião, a outra se chama ciência” (Jean Guitton, in: Jean Guitton; Grichka Bogdanov; Igor Bogdanov, Deus e a Ciência, em direção ao metarrealismo, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992, p. 14). Veja-se: William Edgar, Razões do Coração, Brasília, DF.: Refúgio, 2000, p. 79ss.

[3] J. I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 185.

[4]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 90.12), p. 440. Vejam-se: João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 61,66; João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, (Dn 3.24-25), p. 218-219.

[5] É possível que isto tenha acontecido devido ao fato de Davi não ter punido corretamente a Amnon pelo ato de violentar a sua meia-irmã Tamar. (Veja-se: Francis A. Schaeffer, Não há gente sem importância, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 109).

[6] John MacArthur, O Caminho da Felicidade, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 67.

O Protestantismo Brasileiro e a Proclamação da República – Anotações jornalísticas –

1. A tolerância inicial ao Protestantismo

Os Tratados de 1810 firmados entre Brasil e Inglaterra (Tratado de Aliança e Amizade, e o de Comércio e Navegação) e a Constituição de 1824 foram fundamentais para a implantação do Protestantismo no Brasil. Com isso, abriram-se as portas para o ingresso de imigrantes que traziam consigo sua cultura repleta de valores de uma religião até então desconhecida.

Nesta esteira vieram depois os missionários que objetivavam não apenas pastorear imigrantes, mas, sim, evangelizar os nativos. Neste afã, se valeram de distribuição de Bíblias – trabalho já documentado em 1816 –, panfletos, sermões, pregações, conversas, polêmicas etc. Aos poucos, o protestantismo foi adquirindo o seu espaço próprio, enfrentando, é verdade, perseguições episódicas, mas, na medida do possível, recorria à lei e, em geral seus recorrentes eram atendidos pelas autoridades constituídas.

Houve, por certo, um jogo de força por parte dos protestantes, omissão de certas autoridades e até mesmo interesse de parte do clero brasileiro e de alguns intelectuais (republicanos e positivistas) na implantação do protestantismo. Deste modo, os templos foram surgindo e a igreja se desenvolvendo, deixando aos poucos de ser uma coisa obscura para ter de fato uma boa projeção na sociedade, atingindo homens do campo e da cidade, pessoas de vida modesta e intelectuais.

No Brasil imperial não houve um “rio de sangue” resultante de uma perseguição estrutural por parte da igreja romana e do povo. Sem dúvida, houve perseguições – e por vezes intensa –, contudo sempre localizada e não institucionalizada. A mentalidade brasileira tinha um espírito de tolerância resultante em grande parte da sua própria constituição étnica, da miscigenação de povos e raças.

Como a Inquisição não teve penetração no Brasil, exceto as visitas do Santo Ofício, isto contribuiu para formar uma mentalidade mais tolerante entre os católicos. Onde a Inquisição era voraz em suas práticas, os seus horrores dominavam também as mentes. Nesses países, o protestantismo não teve como florescer senão tardiamente. O Brasil não conheceu de forma plena a força dos tentáculos da Inquisição, ainda que tenha se ressentindo de sua influência de modo especial na Bahia, Grão-Pará (Atual Pará) e Pernambuco.

O Brasil contou também com outro ingrediente fundamental entre os intelectuais: o liberalismo. Este, como filho legítimo do Iluminismo – tão expressivo em suas conquistas na Europa –, teve preponderância no final do século XVIII em Portugal. Onde o Iluminismo teve ascensão, o espírito de tolerância era um ingrediente natural e compulsório. Ele não tardou a manifestar os seus efeitos em Portugal, especialmente por intermédio do marquês de Pombal.

Como muitos dos Constituintes brasileiros (1823) estudaram em Coimbra após a reforma pombalina (1759), estes receberam uma influência iluminista e liberal que se manifestou em sua perspectiva religiosa.

Outro elemento relevante foi o econômico. Isto é por demais evidente em diversos discursos dos parlamentares na Constituinte de 1823.

O fato é que a Constituição de 1824 ofereceu a base legal para a implantação do culto protestante no Brasil e para a prática de culto acatólico por parte de brasileiros.

2. Mais do que tolerância: Igualdade.

Num passo seguinte, após o estabelecimento do protestantismo no Brasil, percebemos que estes desejavam não apenas a tolerância, mas, sim, a igualdade na liberdade dos cultos. Assim, quando a República foi proclamada, na semana seguinte a Imprensa Evangélica traz um editorial entusiasta, com o título: “Estados Unidos do Brazil”[1]. Nele o articulista diz:

 

Acabamos de presenciar o acontecimento mais estupendo e extraordinário que se tem dado no século presente. Já está consumado, já ninguém duvida de sua realidade, mas tão maravilhoso ele se apresenta aos nossos olhos, que mais parece um sonho ilusório do que um fato real e acabado.

 

No entanto, o articulista explica que o acontecimento estupendo não se refere simplesmente à mudança na forma de governo, mas, ao fato digno de orgulho: O Brasil “ter realizado a reforma mais radical sem deixar perceber a mínima alteração na ordem pública, e no sossego da nação”. Neste clima de profunda transformação e ao mesmo tempo de paz, não houve mudança nem “oscilação no câmbio, que se altera a qualquer queda ou mudança no ministério!”.

O autor encerra o artigo entusiasmado com a República e com as novas perspectivas de liberdade religiosa:

 

Entretanto, vendo no governo atual ordem, liberdade e garantia, e esperando dele ainda a mais completa liberdade de cultos, não pode deixar de aderir de coração à nova forma de governo e prestar-lhe todo o seu apoio.
Todos os acatólicos, que no antigo regime apenas tinham uma tolerância para o seu culto e isto, para humilhação, em casa sem forma exterior de templo, ficarão sumamente satisfeitos vendo agora surgir a mais plena liberdade de cultos ou antes a plena liberdade de cultos que é o que deve ser decretado pela república [2].

 

A antiga esperança torna-se agora uma exigência. A própria monarquia já se dispusera a fazer tal abertura: “O governo provisório da República não deve demorar por mais tempo o decreto da abolição da união da igreja com o estado, estabelecendo a plena igualdade de cultos no Brasil” [3].

Toca então, no brio dos republicanos:

 

Ora, como poderá o governo da República sustentar por mais tempo a grande injustiça, ou antes o odioso monopólio, que até a própria monarquia já não podia mais suportar?
O verdadeiro governo republicano deve ser a última expressão da liberdade, da igualdade da fraternidade; enquanto porém se vir ainda uma religião privilegiada e cheia de regalias para uns, e as outras apenas toleradas para outros enquanto se observar que para uns, o estado faz a despesa do culto, e para outros nega-lhes até o direito de terem uma igreja com forma exterior de templo, quando ambos pagam, na mesma razão, os direitos para as despesas da nação; enquanto se vir esta injustiça revoltante de uns quererem ter mais direitos de que os outros, não se pode admitir que haja liberdade, igualdade e fraternidade no Brasil [4].

 

O articulista defende a manutenção da igreja pelos próprios fiéis, sem verbas estatais:

 

Cada religião deve manter-se à custa de seus próprios fiéis; aqueles que desejam ver nos templos ricos parâmetros, luxuriosos enfeites, e deslumbrantes decorações, abram a bolsa e paguem convenientemente esta regalia, e não queiram que os cofres do estado, que contém só o suor dos que trabalham, a satisfaçam esta despesa vaidosa e inteiramente desnecessária.
A manutenção de cada culto deve correr exclusivamente por conta de seus respectivos crentes; cada cidadão deve pagar aquilo de que goza; obrigar, porém, a todos os cidadãos a concorrerem para o subsídio de um culto que só parte da nação aceita, é isto uma injustiça revoltante, é uma tirania que a República não deve de modo algum tolerar por mais tempo [5].

 

O Editorial da Imprensa de 07/12/1889 reafirma a sua confiança na República brasileira e vaticina o futuro católico romano:

 

Estamos satisfeitos com o advento da República porque podemos ter a liberdade e justiça, que reclamamos há muitos anos [6].
Temos confiança nos homens que hoje dirigem os altos negócios do Estado e esperamos ter em breve, plena liberdade para os nossos cultos e sabemos que o romanismo perderá grande parte do prestígio que nunca soube merecer [7].

 

No mesmo editorial, conclama o povo evangélico a solidificar a liberdade esperada com a proclamação do Evangelho:

 

A nossa tarefa não está completa. (…) Às Igrejas Evangélicas compete o trabalho de lançar as bases da liberdade da pátria sobre a Rocha dos séculos, para que seja conhecida a religião pura sem a qual não pode haver verdadeira liberdade em país qualquer [8].
Por mais que proclamem a liberdade e a fraternidade no Brasil ou em outro país qualquer, onde não haja uma aceitação geral da Sagrada Escritura, de seus princípios divinos e de sua moral pura e severa, não pode haver uma República bem assentada e bem dirigida [9].

 

A Imprensa continuou a sua empreitada pró liberdade de Culto. Na edição de 14/12/1889, se propõe a mostrar que o católico romano de fato – aquele que segue os mandamentos da “Santa Madre Igreja” –, é uma minoria dos 15 milhões de habitantes do Brasil [10].

No Editorial de 21 de dezembro de 1889, a Imprensa já se torna mais moderada em seu entusiasmo, pedindo às igrejas que orem pela República: “Atualmente o horizonte está carregado. Assinalamos tudo isto em nossas colunas, não para causar desânimo no espírito de qualquer pessoa, mas para chamar as igrejas evangélicas à oração” [11].

Na última edição da Imprensa de 1889, há um rememorar dos fatos que marcaram de modo especial aquele ano, pelos quais a igreja deve agradecer a Deus. Um deles é a República, para a qual pede-se oração bem como para o Governo provisório [12].

Em 24 de fevereiro de 1891 é promulgada a “Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil”. No Art. 72, “Declaração de Direitos”, lemos:

 

§ 2º Todos são iguais perante a lei. (…)
§ 3º Todos os indivíduos e confissões religiosas podem exercer pública e livremente o seu culto, associando-se para esse fim e adquirindo bem, observadas as disposições do direito comum.
§ 7º Nenhum culto ou igreja gozará de subvenção oficial, nem terá relações de dependência ou aliança com o Governo da União, ou o dos Estados.
§ 28. Por motivo de crença ou função religiosa, nenhum cidadão brasileiro poderá ser privado de seus direitos civis e políticos nem se eximir de cumprimento de qualquer dever cívico.

O desejo acalentando durante tantos anos fora agora realizado: separação entre Igreja e Estado e a total liberdade religiosa. No entanto, perseguições se intensificariam a partir daí. Mas, essa parte foge ao corte deste post e da competência deste articulista.

 

São Paulo, 13 de novembro de 2018.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] Imprensa Evangélica, 23/11/1889, p. 369-370.
[2] Imprensa Evangélica, 23/11/1889, p. 370. No periódico metodista encontramos alegria semelhante. Veja-se: Expositor Christão, 01/12/1889, p. 1. Para uma análise mais ampla do contexto social, político, econômico e intelectual deste período, veja-se: José Murilo de Carvalho, Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi, São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 15-41.
[3] Imprensa Evangélica, 23/11/1889, p. 370.
[4] Imprensa Evangélica, 30/11/1889, p. 377.
[5] Imprensa Evangélica, 30/11/1889, p. 378.
[6] Imprensa Evangélica, 07/12/1889, p. 385.
[7] Imprensa Evangélica, 07/12/1889, p. 386.
[8] Imprensa Evangélica, 07/12/1889, p. 385.
[9] Imprensa Evangélica, 07/12/1889, p. 385.
[10] Imprensa Evangélica, 14/12/1889, p. 393-394.
[11] Imprensa Evangélica, 21/12/1889, p.401.
[12] Imprensa Evangélica, 28/12/1889, p. 410.