O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (16)

C. A Mensagem do Antigo Testamento se Cumpriu

1) A Pregação na Igreja Primitiva

Como podemos perceber, os primeiros pregadores cristãos não se preocuparam com a Retórica clássica e, menos ainda com palavras de sabedoria (1Co 2.4,5).[1] Eles seguiram o estilo dos escribas e anciãos da Sinagoga, evitando num primeiro momento, qualquer tipo de helenização.

Essa atitude pode ser explicada da seguinte forma:

     1) Se eles queriam evangelizar os judeus, teriam que entrar no seu campo de estudo – o Antigo Testamento –, que de fato era a única porta de entrada, apresentando uma exegese contundente, todavia, com um quadro de referência diferente, considerando a explícita relação entre as profecias messiânicas e Jesus de Nazaré. Daí o ensino e pregação da Igreja que consistia numa confissão: “Jesus, o Cristo” (At 5.42).

     2) Qualquer tentativa de discurso que refletisse uma retórica grega, poderia proporcionar elementos que facultassem aos rabinos argumentarem de que o Cristianismo era um fenômeno desagregador da cultura judaica, o que contribuiria para a sua repulsa imediata.

     3) Os primeiros pregadores cristãos, em sua grande maioria, ignoravam a retórica grega. Havia por certo, nobres exceções, como por exemplo, Apolo de Alexandria (At 18.24), cidade cosmopolita e intelectualizada e, Paulo de Tarso, que deu mostra em seus escritos e sermões preservados por Lucas, de estar familiarizado com a Retórica e os poetas gregos.

     4) O descrédito da Retórica, devido aos falsos mestres que usavam deste recurso para ensinar sofismas, defendendo não a verdade mas sim, aquilo para o qual foram pagos.

     A pregação da Igreja Primitiva consistia na demonstração de que as promessas do Antigo Testamento tinham se cumprido em Cristo. Isso é plenamente demonstrado no fato de os pregadores cristãos citarem com frequência passagens do Antigo Testamento e as explicarem à luz da vida e obra de Jesus, o Cristo.[2]

     Biblicamente, o Evangelho é a boa mensagem de Deus, declarando que em Jesus Cristo temos o cumprimento de suas promessas a Israel, e que o caminho da salvação foi aberto a todos os povos. Deste modo, o Evangelho não deve ser colocado em contraposição ao Antigo Testamento, como se o Deus do Antigo Testamento fosse outro Deus[3] ou que Deus mesmo tivesse alterado Sua maneira de tratar com o homem, mas antes, é o cumprimento da Sua promessa (Mt 11.2-5)[4].[5]

     O ponto central para compreensão da unidade do Evangelho está na atitude de Jesus Cristo que, na Sinagoga, ao ler a profecia de Isaías, identificou-se como O que fora prometido: Ele é o Messias. Registra Lucas:

Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou, num sábado, na sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se para ler. Então, lhe deram o livro do profeta Isaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar (Eu)aggeli/zw) os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor. Tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos na sinagoga tinham os olhos fitos nele. Então, passou Jesus a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir. (Lc 4.16-21).

     “Jesus Cristo é o cumprimento de todas as profecias e promessas do Velho Testamento”, resume Lloyd-Jones.[6] De passagem, devemos dizer que o fato mais importante concernente à adoração no Novo Testamento é a centralidade de Jesus Cristo,[7] Aquele que é o cumprimento das promessas e profecias do Antigo Testamento, sendo o Senhor e Mediador único e definitivo da Aliança selada entre Deus e o Seu Povo. A visão desta Aliança é a chave que abre as portas para a compreensão de toda teologia bíblica. A Pessoa de Cristo é o elo que une os dois Testamentos.[8] Em suma, Jesus Cristo é o fundamento da verdadeira adoração a Deus.

     A novidade da Boa Mensagem, especialmente no Evangelho de Mateus, não está, como se tem pretendido, em alguns dos seus conceitos, tais como: a Paternidade de Deus,[9] o Deus de amor, perdão e misericórdia; pois nada disto falta ao Antigo Testamento. Ela também não consiste simplesmente, na ênfase destes elementos que, no caso, estariam sombreados no Antigo Testamento (embora isto também ocorra); na realidade, a novidade está na palavra já mencionada, cumprimento. Aquilo que é prometido no Antigo Testamento atingiu o seu clímax: o prometido se cumpriu.[10]

     O Novo Testamento não diz algo novo a respeito de Deus; ele apenas mostra que Deus cumpriu as suas promessas (Vejam-se: Mt 1.21-23; 8.17; Mc 15.28; At 2.16-36; 13.32-35/[11]1Co 15.3-4; 1Pe 1.10-12).[12]

     Conforme interpreta Calvino (1509-1564): “…. no que tange à substância da Escritura, nada se acrescentou. Os escritos dos apóstolos nada contêm além de simples e natural explicação da lei e dos profetas juntamente com uma clara descrição das coisas expressas neles”.[13]

     Os apóstolos atribuíram ao Antigo Testamento a mesma relevância que fora conferida por Jesus Cristo em Sua vida e ensinamentos (Vejam-se: Mc 8.31; Lc 4.21; 24.27,32,44; Jo 5.39; 10.35,36; 13.18; 17.12; 18.9; At 2.17-36; 3.11-26; 4.4; 5.42; 9.22; 13.22-42,44; 17.11; 18.28; 23.23-31).

     A Boa Nova de Deus recebe, entre outras, as seguintes designações no Novo Testamento: “Evangelho de Deus” (Rm 1.1; 1Ts 2.9); “Evangelho de Cristo” (Mc 1.1; Rm 15.19; 1Co 9.12; 2Co 2.12; Gl 1.7); “Evangelho da Promessa” (At 13.32); “Evangelho da graça de Deus” (At 20.24); “Evangelho da glória de Cristo” (2Co 4.4); “Evangelho da glória de Deus” (1Tm 1.11); “Evangelho da vossa salvação” (Ef 1.13); “Evangelho da paz” (Ef 6.15); “Evangelho eterno” (Ap 14.6). Contudo, o Novo Testamento fala frequentemente no Evangelho, sem o definir (Cf. Mc 1.15; 8.35; 14.9; 16.15; At 15.7;[14] Rm 11.28; 2Co 8.18): O Evangelho é a Boa Nova procedente de Deus, não é fruto de uma conquista ou invenção humana; por isso, Ele não carece de maiores adjetivos; a Sua procedência garante a sua qualidade e efetividade: Ele é a Boa Nova por excelência;[15] é o “Poder de Deus” (Rm 1.16) por meio do qual somos gerados em Cristo (1Co 4.15).[16]

     Portanto, antes de ser uma mensagem a nosso respeito, o Evangelho é a mensagem de Deus, procedente de Deus cujo conteúdo primeiro é a respeito do próprio Deus. Deste modo, Jesus Cristo é o próprio Evangelho; Ele é a encarnação da Boa Nova de salvação concedida por Deus ao Seu povo. O Evangelho, antes de ser uma mensagem, é uma Pessoa: Jesus Cristo,[17] o Deus encarnado: verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

     O Evangelho envolve a Sua pessoa e o Seu ensino. Não existe Evangelho sem Jesus Cristo; portanto, não há mensagem a ser anunciada sem a Sua encarnação, morte e ressurreição. Por isso, pregar o Evangelho significa pregar Jesus Cristo:[18] “Esforçando-me, deste modo, por pregar o evangelho (eu)aggeli/zw), não onde Cristo já fora anunciado, para não edificar sobre fundamento alheio” (Rm 15.20).[19]

     O Novo Testamento desconhece a forma plural “Evangelhos” – ainda que ela seja usada na Septuaginta ta\ eu)agge/li/a (2Sm 4.10), “recompensa pelas boas novas” e ”h( eu)aggeli/a” (2Sm 18.20,22,25,27; 2Rs 7.9) -, isto porque o Evangelho é um só. Se alguém proclamar outro, seja considerado “anátema” (= maldito) (Gl 1.8,9). Harrison, comentando a respeito dos registros evangélicos, observou acertadamente que, “Aos olhos da igreja primitiva estes documentos eram virtualmente um. Juntos, eles abarcavam o evangelho único, que foi diversamente expressado por Mateus, Marcos, Lucas e João. O feito de Cristo foi a causa de um novo tipo de literatura”.[20] As quatro narrativas são na realidade uma descrição inspirada do mesmo e único Evangelho; biblicamente falando, “evangelhos” é uma contradição de termos. Não há outro Evangelho (Gl 1.6-9).[21]

     A forma plural referindo-se aos registros de Mateus, Marcos, Lucas e João, só é documentada a partir de Justino, o Mártir (100-167 AD), que por volta do ano 155 AD., na sua obra Primeira Apologia, descrevendo a Santa Ceia e o seu significado, escreveu: “….Os Apóstolos nas Memórias por eles escritas, que se chamam Evangelhos, nos transmitiram….”.[22]

     Assim, quando falamos de Evangelhos, no plural, estamos nos referindo não à mensagem, que é uma só, mas às narrativas inspiradas feitas pelos Evangelistas. Há um só Evangelho com quatro registros redigidos por Mateus, Marcos, Lucas e João.

São Paulo, 12 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus” (1Co 2.4-5).

[2]Vejam-se: James M. Boice, O Pregador e a Palavra de Deus: In: J.M. Boice, ed. O Alicerce da Autoridade Bíblica, p. 151ss.; Michael Green, Evangelização na Igreja Primitiva, São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 94ss.

[3] Conforme sustentava Márcion (… c. 165). A respeito de seus ensinamentos, vejam-se, entre outros: Tertulian, The Five Books Against Marcion. In: Alexander Roberts; James Donaldson, eds. Ante-Nicene Fathers, 2. ed.Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1995, v. 3, p. 269-475; Irineu, Irineu de Lião, São Paulo: Paulus, 1995, I.27.2-4. p. 109-110; Justino de Roma, I Apologia, 58, p. 73-74.

[4]“Quando João ouviu, no cárcere, falar das obras de Cristo, mandou por seus discípulos perguntar-lhe: És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro? E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho (eu)aggeli/zw) (Mt 11.2-5).

[5]Cf. R.H. Mounce, Evangelho: In: J.D. Douglas, ed. org. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 1, p. 566.

[6] D.M. Lloyd-Jones, Deus o Pai, Deus o Filho,São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1997 (Grandes Doutrinas Bíblicas, v. 1), p. 317.

[7] Cf. John M. Frame, Worship in Spirit and Truth, Phillipsburg, NJ.: P & R. Publishing, 1996, p. 25ss.

[8] Ver: Confissão de Westminster, VII.6.

[9]É muito comum a afirmação de que o Deus do Antigo Testamento é um “Deus Vingador” e, o do Novo Testamento, é o “Deus Pai”, “Deus de amor”. Tal distinção, além de ser maléfica pois, prejudica a compreensão da unicidade da Teologia Bíblica – dicotomizando Deus e a Sua Palavra –, é ilusória, amparada em uma visão superficial das Escrituras. Tanto no Antigo como no Novo Testamento, encontramos a revelação de Deus como Pai de amor, bondade e justiça. (Vejam-se: Hermisten M.P. Costa, O Pai Nosso: A Oração do Senhor,São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, 319p.; Hermisten M.P. Costa, Eu Creio, São Paulo: Edições Parakletos, 2002, 479p.).

[10] “Os profetas do Antigo Testamento viveram no período de anúncio; os apóstolos estavam vivendo no tempo do cumprimento” (John Stott, O Incomparável Cristo, São Paulo: ABU., 2006, p. 19).

[11]“Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles. Ora, tudo isto aconteceu para que se cumprisse (plhro/w) o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel (que quer dizer: Deus conosco)“ (Mt 1.21-23). “Chegada a tarde, trouxeram-lhe muitos endemoninhados; e ele meramente com a palavra expeliu os espíritos e curou todos os que estavam doentes; para que se cumprisse (plhro/w) o que fora dito por intermédio do profeta Isaías: Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças” (Mt 8.16-17). “Com ele crucificaram dois ladrões, um à sua direita, e outro à sua esquerda. E cumpriu-se (plhro/w) a Escritura que diz: Com malfeitores foi contado” (Mc 15.27-28). “Nós vos anunciamos o evangelho (eu)aggeli/zomai) da promessa feita a nossos pais, como Deus a cumpriu plenamente (e)kplhro/w) a nós, seus filhos, ressuscitando a Jesus, como também está escrito no Salmo segundo: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei. E, que Deus o ressuscitou dentre os mortos para que jamais voltasse à corrupção, desta maneira o disse: E cumprirei a vosso favor as santas e fiéis promessas feitas a Davi. Por isso, também diz em outro Salmo: Não permitirás que o teu Santo veja corrupção” (At 13.32-35).

[12]Vejam-se: Chr. Senft, Evangelho: In: Jean-Jacques Von Allmen, dir., Vocabulário Bíblico,2. ed. São Paulo: ASTE, 1972, p. 137 e Michael Green, Evangelização na Igreja Primitiva, p. 95ss. J. Calvino escreveu: “Com efeito, recebo o Evangelho como a clara manifestação do mistério de Cristo. E uma vez que o Evangelho é chamado por Paulo ‘a doutrina da fé’ (1Tm 4.6), reconheço, na verdade, que se lhe contam como partes todas e quaisquer promessas que amiúde ocorrem na Lei acerca da graciosa remissão dos pecados, mediante as quais Deus reconcilia os homens a Si” (J. Calvino, As Institutas,II.9.2).

[13] João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Edições Paracletos, 1998,(2Tm 3.17), p. 264.

[14]“…. arrependei-vos e crede no evangelho (eu)agge/lion)(Mc 1.15). “Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho (eu)agge/lion) salvá-la-á” (Mc 8.35). “E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho (eu)agge/lion) a toda criatura” (Mc 16.15). “Havendo grande debate, Pedro tomou a palavra e lhes disse: Irmãos, vós sabeis que, desde há muito, Deus me escolheu dentre vós para que, por meu intermédio, ouvissem os gentios a palavra do evangelho (eu)agge/lion) e cressem” (At 15.7).

[15] Vejam-se, por exemplo: Rm 10.16; 1Co 1.17; 9.14, 23; 15.1; 2Co 4.3; Gl 2.5,14; Fp 1.5,7,12,16; 2.22; 4.3,15; 1Ts 1.5; 2.4; 2Tm 1.8; Fm 13.

[16]“Porque, ainda que tivésseis milhares de preceptores em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; pois eu, pelo evangelho (eu)agge/lion), vos gerei em Cristo Jesus“ (1Co 4.15).

[17]Stott resumiu: “A boa nova é Jesus” (John R.W. Stott, A Missão Cristã no Mundo Moderno, Viçosa, MG.: Ultimato, 2010, p. 66). “O conteúdo do Evangelho é Jesus mesmo, não um credo ou uma doutrina ou teoria acerca Dele” (Alan Richardson, Así se hicieron los Credos: Una breve introducción a la historia de la Doctrina Cristiana, Barcelona: Editorial CLIE, 1999, p. 17).

[18] Veja-se: Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 41-43.

[19]Para um estudo mais detalhado do emprego da palavra Evangelho, Vejam-se: Gerhard Friedrich, Eu)aggeli/zomai: In: Gerhard Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, v. 2, p. 707-737; U. Becker, Evangelho: In: Colin Brown, ed. ger. ONovo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 2, p. 166-174; Rudolf Bultmann, Teologia Del Nuevo Testamento, Salamanca: Ediciones Sigueme, 1980, p. 134-135; William F. Arndt; F. Wilbur Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature,2. ed. Chicago: University Press, 1979, in loc. p. 317-318; Euaggelion: W. Barclay, Palavras Chaves do Novo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1988, p. 73; Isidro Pereira, Dicionário Grego-Português e Português-Grego, 7. ed. Braga: Livraria Apostolado da Imprensa, (1990), in loc; Hermisten M.P. Costa, Evangelhos Sinóticos: Belo Horizonte, MG. 1980, 34p.; W.G. Kummel, Introdução ao Novo Testamento, São Paulo: Paulinas, 1982, p. 33-34; E.F. Harrison, Introducción al Nuevo Testamento, Grand Rapids, Michigan: Subcomision Literatura Cristiana, 1980, p. 131ss.; R.H. Mounce, Evangelho: In: J.D. Douglas, ed. org., O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 1, p. 566-567; R.H. Mounce, Evangelho: In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, v. 2, 1990, p. 109. H.J. Jager, Palabras Clave del Nuevo Testamento, 2. ed. Madrid: Fundacion Editorial de Literatura Reformada, 1982, v. 1, p. 7ss.; Evangelho: In: W.E. Vine; Merril F. Unger; William White Jr., Dicionário Vine: O Significado Exegético e Expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento, p. 629; John N. Oswalt, Bãsar: In: R. Laird Harris; Gleason L. Archer, Jr.; Bruce K. Waltke, orgs. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 227.

[20]E.F. Harrison, Introducción al Nuevo Testamento, p. 132.

[21]“Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho (eu)agge/lion), o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho (eu)agge/lion) de Cristo. Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho (eu)aggeli/zw) que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho (eu)aggeli/zw) que vá além daquele que recebestes, seja anátema” (Gl 1.6-9).

[22]Justino, Primeira Apologia,66, p. 82. (Ver: Eusebio de Cesarea, Historia Eclesiástica,Madrid: La Editorial Catolica, S.A., (Biblioteca de Autores Cristianos), 1973, III.37.2. p. 187; V.8.2ss. p. 296ss). Devemos observar, que, mesmo fora dos escritos do Novo Testamento, a palavra evangelho continuou sendo usada no sentido singular. Por exemplo: No Didaquê, obra anônima publicada por volta do ano 100 d.C., lemos: “E não oreis como os hipócritas, mas como o Senhor os mandou em Seu Evangelho….” (Didaquê, VIII.2) (Vejam-se também, Inácio de Antioquia (c. 30-110), Epístola aos Filadélficos,V.1-2; VIII.2; IX.2; Epístola aos Esmirnenses,V.1; VII.2. In: Cartas de Santo Inácio de Antioquia, 3. ed. São Paulo: Vozes, 1984; Irineu, Irineu de Lião,São Paulo: Paulus, 1995, IV.20.6; Eusebio de Cesarea, Historia Eclesiástica,V.24.6.

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (15)

B. Uma Proclamação Poderosamente Submissa e Inteligente (Continuação)

Portanto, como há outras vozes querendo nos afastar da verdade, apresentando um caminho que, à primeira vista, pode nos parecer mais convidativo e tentador, devemos perseverar no caminho da verdade. Paulo recrimina o esmorecimento dos gálatas que começando a crer corretamente na graça de Deus, agora, passam a viver, como se fosse possível, pelas obras. O legalismo judaico se constituía num impedimento aos judeus cristãos: “Vós corríeis bem; quem vos impediu (e)gko/ptw)[1] de continuardes a obedecer à verdade (a)lh/qeia)?” (Gl 5.7).

     Os falsos mestres, privados da verdade,[2] procuram desviar-nos da verdade pervertendo os ensinamentos da Palavra.

     Paulo cita dois falsos mestres de seu tempo, Himeneu[3] e Fileto, que, seguindo ensinamentos gnósticos, com uma linguagem corrosiva, eliminavam a esperança na ressurreição futura, pervertendo a fé de alguns:

Além disso, a linguagem deles corrói como câncer (ga/ggraina);[4] entre os quais se incluem Himeneu e Fileto. Estes se desviaram da verdade (a)lh/qeia), asseverando que a ressurreição já se realizou, e estão pervertendo (a)natre/pw = “arruinar”, “virar”[5]) a fé a alguns. (2Tm 2.17-18).

     A falsa doutrina é contagiante. Paulo  exorta a Tito com veemência  a respeito dos insubordinados, especialmente judeus: “É preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo (a)natre/pw) casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância” (Tt 1.11).

     Por causa dos falsos mestres o caminho da verdade será infamado. Escreve Pedro:

Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas (yeudoprofh/thj),[6]assim também haverá entre vós falsos mestres  (yeudodida/skaloj), os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. E muitos seguirão as suas práticas libertinas (a)se/lgeia), e, por causa deles, será infamado (blasfhme/w)[7] o caminho da verdade” (2Pe 2.1-2).

     Pedro diz que o presbítero como pastor do rebanho deve estar em condições de alimentar o seu rebanho com a Palavra e, também, saber combater àqueles que tentarão seduzir os fiéis com “palavras fictícias  (plasto/j)  (2Pe 2.3).

     O falso mestre é aquele que ensina a mentira, o engano: cria imagens que nada são para corromper seus ouvintes, conduzindo-os a negar o próprio Senhor Jesus Cristo e, também, à viverem libertinamente (a)se/lgeia), ou seja, de modo dissoluto e lascivo.[8] Por causa disso, o caminho do Evangelho seria caluniado, reprovado, “blasfemado”. 

     A mensagem desses falsos mestres consiste numa corrupção do Evangelho. Plasto/j parece ter o sentido aqui de palavras artisticamente elaboradas, moldadas, sugestivas, porém, falsas, forjadas em seu próprio proveito, e, que por isso mesmo estão em oposição à verdade.

     Curiosamente este é o termo de onde vem a nossa palavra plástico.[9] O ensino cristão envolve arte, mas não arte plástica para com a verdade.

     Nós cristãos, precisamos treinar os nossos ouvidos: “Porque o ouvido prova  (!x;B’)(bahan)(examina, testa prova) as palavras, como o paladar, a comida” (Jó 34.3/Jo 12.11).

São Paulo, 12 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]No seu emprego militar a palavra tinha o sentido de cortar uma árvore para causar um impedimento ou, abrir uma vala que obstaculizasse temporariamente o caminho do inimigo, daí a palavra tomar o sentido de “impedimento”, “empecilho”, “obstáculo”.

[2]“Altercações sem fim, por homens cuja mente é pervertida e privados da verdade (a)lh/qeia), supondo que a piedade é fonte de lucro” (1Tm 6.5).

[3] Paulo se referira a este como que alguém que naufragou na fé (1Tm 1.19-20).

[4]Esta palavra só ocorre aqui em todo o Novo Testamento. É deste termo que provém palavra gangrena.

[5] A palavra é usada no sentido literal Jo 2.15: “Em tendo feito um azorrague de cordas, expulsou todos do templo, bem como as ovelhas e os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou (a)natre/pw) as mesas”.

[6] Jesus Cristo já nos alertara sobre eles. Vejam-se: Mt 7.15; 24.11,24; Lc 6.26. O apóstolo João falaria mais tarde de sua realidade presente (1Jo 4.1).

[7] O verbo Blasfhme/w, que tem o sentido de “injuriar”, “difamar”, ”insultar”, “caluniar”, “maldizer”, “falar mal”, “falar para danificar”, etc., é formado de duas palavras, Bla/yij derivada de Bla/ptw = “injuriar”, “prejudicar” (* Mc 16.18; Lc 4.35) e Fhmi/ = “falar”, “afirmar”, “anunciar”, “contar”, “dar a entender”. A Blasfêmia tem sempre uma conotação negativa, de “maldizer”, “caluniar”, “causar má reputação”, etc., contrastando com Eu)fhmi/a (“boa fama” * 2Co 6.8) e Eu)/fhmoj (“boa fama” * Fp 4.8) (Eu)/ & fh/mh). No Fragmento 177 de Demócrito, lemos: “Nem a nobre palavra encobre a má ação, nem é a boa ação prejudicada pela má palavra (Blasfhmi/a)”. Paulo diz que o mal testemunho dos judeus contribuía para que os gentios blasfemassem o nome de Deus (Rm 2.24, citando Is 52.5). Compare este fato com a orientação de Paulo, 1Tm 6.1; Tt 2.5.

A falsa doutrina propicia a prática da blasfêmia (1Tm 6.3,4), bem como os falsos mestres (2Pe 2.1-2,10-12).

[8]A)se/lgeia ocorre nos seguintes textos do Novo Testamento: Mc 7.22; Rm 13.13; 2Co 12.21; Gl 5.19; Ef 4.19; 1Pe 4.3; 2Pe 2.2,7,18; Jd 4.

[9]A palavra grega plastiko/j é derivada do verbo pla/ssw, cujo advérbio utilizado por Pedro é plasto/j. A nossa palavra plástico vem do grego (plastiko/j) passando pelo latim (plasticus), sempre de forma transliterada, significando aquilo “que tem propriedade de adquirir determinadas formas sensíveis, por efeito de uma ação exterior”.

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (14)

B. Uma proclamação poderosamente submissa e Inteligente (Continuação)

Mesmo havendo um tipo de linguagem que propiciava a persuasão, Paulo não se valia deste método. Diz aos coríntios: “A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva (peiqo/j) de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder” (1Co 2.4).

Há sempre o risco de substituir o poder de Deus pela “técnica”, pela capacidade de convencer os nossos ouvintes. Neste caso, substituiríamos o conteúdo pelo sucesso, a soberania de Deus pelo poder de nossos argumentos.[1] É preciso um cuidado especial neste ponto.

Calvino se detém especialmente nesta questão: “Para que possa haver eloquência, devemos estar sempre em alerta a fim de impedir que a sabedoria de Deus venha sofrer degradação por um brilhantismo forçado e corriqueiro”.[2] A eloquência “é um dom muito excelente, mas que, quando se vê divorciado do amor, de nada serve para alguém obter o favor divino”.[3] A questão está em não usar desses meios como sendo a força do Evangelho, esquecendo-nos de sua simplicidade que é-nos comunicada pelo Espírito.

Continua o reformador em lugares diferentes:

Não devemos condenar, nem rejeitar a classe de eloquência que não almeja cativar cristãos com um requinte exterior de palavras, nem intoxicar com deleites fúteis, nem fazer cócegas em seus ouvidos com sua suave melodia, nem mergulhar a Cruz de Cristo em sua vã ostentação.[4]
O Espírito de Deus também possui uma eloquência particularmente sua.[5]  
A eloquência que está em conformidade com o Espírito de Deus não é bombástica nem ostentosa,[6] como também não produz um forte volume de ruídos que equivalem a nada. Antes, ela é genuína e eficaz, e possui muito mais sinceridade do que refinamento.[7]

Paulo recordando aos crentes de Corinto o que lhes havia ensinando, diz: “Irmãos, venho lembrar-vos o evangelho (eu)angge/llion) que vos anunciei (eu)aggeli/zw)  (…) que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras” (1Co 15.1,3).

Notemos que Paulo escrevia à igreja, aos crentes. Não havia um novo Evangelho a ser pregado. Ele precisava apenas ser recordado em seu conteúdo e significado: “venho lembrar-vos o evangelho que vos anunciei”. Na realidade, Paulo estava declarando (lembrando) o Evangelho que já fora evangelizado (anunciado); nada havia a acrescentar e, ao mesmo tempo, a mensagem transmitida não era descartável: permanecia com o mesmo valor e relevância.  Portanto, evangelizar, proclamar as Boas Novas, é um trabalho contínuo. Não se encerra, simplesmente, com o primeiro anúncio:  “venho lembrar-vos o evangelho que vos anunciei”.

Uma característica distintiva do homem é a capacidade de julgar, discernindo o bem do mal.[8] Esta capacidade deve ser exercitada por nós no emprego dos recursos que Deus nos tem fornecido. Dentro da nossa linha de estudo, devemos estar atentos ao uso que fazemos da palavra como instrumento de persuasão. Como ouvintes, devemos também permanecer alerta para que não sejamos persuadidos pela beleza do discurso, sem verificar a sua validade. Resumindo: “Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” (Cl 2.8).

 No Novo Testamento temos diversas orientações sobre isso. Devemos dar crédito à verdade procedente de Deus (1Ts 2.10-13). Contudo, como muitos falsos mestres têm saído pelo mundo, faz-se necessário provar os espíritos.

Precisamos exercitar o ceticismo cristão que não aceita tudo, contudo, não rejeita a procura da verdade:[9]

Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai (dokima/zw)[10]os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora. Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo. Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo. Eles procedem do mundo; por essa razão, falam da parte do mundo, e o mundo os ouve.  Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos ouve; aquele que não é da parte de Deus não nos ouve. Nisto reconhecemos o espírito da verdade (a)lh/qeia) e o espírito do erro.(1Jo 4.1-6).[11]

A verdade não gera mentira: “….mentira alguma jamais procede da verdade (a)lh/qeia) (1Jo 2.21).

O nosso desejo de servir a Deus não nos deve tornar presas fáceis de qualquer ensinamento ou doutrina. Precisamos cientificar-nos se aquilo que é-nos transmitido procede ou não de Deus. Para este exame temos as Escrituras Sagradas como fonte de todo conhecimento revelado a respeito de Deus e do que ele deseja de nós. Foi assim que a nobre Igreja de Beréia procedeu ao ouvir Paulo e Silas. Ainda que aqueles irmãos  tenham recebido a Palavra com avidez, isto não os impediu de examinar[12] “as Escrituras todos os dias para ver se as cousas eram de fato assim”(At 17.11). “Eles combinavam receptividade com questionamento crítico”.[13]

São Paulo, 12 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1] Packer desenvolve este tema de forma pertinente:

            “Se considerarmos que nossa tarefa consiste não simplesmente em apresentar Cristo, mas realmente em produzir convertidos – evangelizando não apenas fielmente, mas também com sucesso – então nossa maneira de evangelizar tornar-se-á pragmática e calculista. Terminaríamos por concluir que nosso equipamento básico, tanto para tratar pessoalmente como para pregar publicamente, deve ser duplo. Precisaríamos possuir não apenas uma compreensão clara do significado e aplicação do evangelho, mas igualmente uma técnica irresistível capaz de induzir os ouvinte a aceitá-lo. Assim sendo, precisaríamos nos esforçar por experimentar e desenvolver tal técnica. E deveríamos avaliar toda evangelização, tanto a nossa como a de outras pessoas, não pelo critério da mensagem pregada, mas também dos resultados visíveis. E, se nossos próprios esforços não estivessem produzindo frutos, concluiríamos que nossa técnica ainda precisa de melhoramentos. E caso estivessem produzindo fruto, concluiríamos que isso justifica a técnica usada. Se assim fosse, deveríamos considerar a evangelização como uma atividade que envolve uma batalha de vontades entre nós mesmos e aqueles para quem pregamos, uma batalha cuja vitória dependeria de havermos detonado uma barragem suficiente de efeitos calculados. Dessa maneira, nossa filosofia de evangelização tornar-se-ia terrivelmente semelhante à filosofia da lavagem cerebral. E já não poderíamos mais argumentar, quando tal semelhança fosse aceita como fato, que essa não é a concepção certa de que seja evangelizar. Pois seria um conceito apropriado de evangelização, se a produção de convertidos fosse responsabilidade nossa.

“Isso nos mostra o perigo de esquecermos as implicações práticas da soberania de Deus” (J.I. Packer, Evangelização e Soberania de Deus, 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 22-23).

[2]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 2.13), p. 91.

[3]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 13.1), p. 394.

[4]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 1.17), p. 55. “Deus quer que sua Igreja seja edificada com base na genuína pregação de sua Palavra, não com base em ficções humanas. (…) Nesta categoria estão questões especulativas que geralmente fornecem mais para ostentação – ou algum louco desejo – do que para a salvação de homens” (João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 3.12), p. 112). “A pregação de Cristo é nua e simples; portanto, não deve ela ser ofuscada por um revestimento dissimulante de verbosidade” (João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 1.17), p. 54). “(A) fé saudável equivale à fé que não sofreu nenhuma corrupção proveniente de fábulas” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (Tt 1.14), p. 320). “Se porventura desejarmos conservar a fé em sua integridade, temos de aprender com toda prudência a refrear nossos sentidos para não nos entregarmos a invencionices estranhas. Pois assim que a pessoa passa a dar atenção às fábulas, ela perde também a integridade de sua fé” (João Calvino, As Pastorais, (Tt 1.14), p. 320).

[5] João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 1.17), p. 56.

[6]“Pois ninguém é mais radical do que os mestres desses discursos bombásticos, quando fazem pronunciamentos precipitados sobre coisas das quais nada sabem” (João Calvino, As Pastorais,(1Tm 1.7), p. 34).

[7]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 1.17), p. 56.

[8] Aristóteles, A Política, I.1.10, p. 14.

[9] Vejam-se: François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 233; Gene Edward Veith, Jr., De todo o teu entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 129-131.

[10]Dokima/zw ressalta o aspecto positivo de “provar” para “aprovar”, indicando a genuinidade do que foi testado (2Co 8.8; 1Ts 2.4; 1Tm 3.10).

[11]Archibald Alexander (1772-1851), um dos fundadores do Seminário de Princeton e seu primeiro professor de Teologia Sistemática, resumiu:

       “Na avaliação da experiência religiosa é de todo importante manter continuamente à vista o sistema de verdade divina contido nas Sagradas Escrituras; caso contrário, nossa experiência, como ocorre muito frequentemente, se degenerará em entusiasmo. (…) Em nossos dias não há nada mais necessário que estabelecer na religião, uma cuidadosa distinção entre as experiências verdadeiras e as falsas; para ‘provar os espíritos se procedem de Deus.’ E ao fazer esta discriminação, não há outro padrão de prova senão a infalível Palavra de Deus. Tragamos cada pensamento, motivo, impulso e emoção, ante esta pedra de toque. ‘À lei e ao testemunho, se não falam de acordo com estes, é porque não há luz neles’” (Archibald Alexander, Thoughts on Religious Experience,Carlisle, Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1989 (Reprinted), p. XVIII).

[12] A palavra traduzida por “examinando” é a)nakri/zw, que tem o sentido de “fazer uma pesquisa cuidadosa”, um “exame criterioso”, “inquirir”. (*Lc 23.14; At. 4.9; 12.19; 17.11; 24.8; 28.18; 1Co 2.14,15 (duas vezes); 4.3 (duas vezes),4; 9.3; 10.25,27; 14.24). Conforme vemos em Lc 23.14; At 4.9 e 24.8, o verbo era usado para “investigações judiciais”. “Este verbo implica em integridade e ausência de preconceito. Desde então, o adjetivo ‘bereano’ tem sido aplicado a pessoas que estudam as Escrituras com imparcialidade e cuidado” (John R.W. Stott, A Mensagem de Atos: até os confins da terra, São Paulo: ABU Editora, 1994, (At 17.11), p. 308).

[13] John R.W. Stott, A Mensagem de Atos: até os confins da terra, (At 17.11), p. 308.

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (13)

B. Uma proclamação poderosamente submissa e inteligente

A proclamação do Evangelho compete a nós; é uma responsabilidade inalienável e essencial de toda a Igreja.[1] Não compreendemos exaustivamente a relação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana, contudo, a Bíblia ensina estas duas verdades: Deus é soberano e o homem é responsável diante de Deus por suas decisões (Rm 1.18-2.16).[2] O nosso confronto com os mistérios da Palavra deve nos conduzir à adoração sincera (Rm 11.33-36).

Em nosso testemunho, procuramos anunciar o Evangelho de forma inteligível, nos dirigindo a seres racionais a fim de que entendam a mensagem e creiam. Por isso, ao mesmo tempo em que sabemos que é Deus quem converte o pecador, devemos usar os recursos de que dispomos – que não contrariem a Palavra de Deus -, para atingir a todos os homens.

A nossa proclamação deve ser apaixonada, no sentido de que queremos alertar os homens para a realidade do Evangelho, “persuadindo-os” pelo Espírito, a se arrependerem de seus pecados e a se voltarem para Deus (Vejam-se: Lc 5.10; Rm 11.13-14; 1Co 9.19-23; 2Co 5.11)[3].[4]

Cremos que o Espírito da verdade nos capacita a proclamar o Evangelho com fidelidade e sabedoria. Evangelizar não é um exercício de aniquilamento da razão, antes é um desafio à utilização de uma mente sã, que só pode ser restaurada pelo poder do Espírito. Toda verdade procede de Deus e, o Espírito de Deus nos concede este discernimento na compreensão e no uso da verdade. “O Espírito Santo é o Espírito da verdade, que se importa com a verdade, ensina a verdade e dá testemunho da verdade”, enfatiza Stott.[5]

O Livro de Atos registra que Paulo por três semanas pregou, conforme seu costume, na sinagoga de Tessalônica.

Lucas usa alguns termos muito interessantes para descrever a pregação de Paulo:

Tendo passado por Anfípolis e Apolônia, chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga de judeus. Paulo, segundo o seu costume, foi procurá-los e, por três sábados, arrazoou (diale/gomai) com eles acerca das Escrituras, expondo (dianoi/gw) e demonstrando (parati/qhmi) ter sido necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos; e este, dizia ele, é o Cristo, Jesus, que eu vos anuncio. Alguns deles foram persuadidos (pei/qw) e unidos a Paulo e Silas, bem como numerosa multidão de gregos piedosos e muitas distintas mulheres, (At 17.1-4).

Analisemos os verbos usados por Lucas:

     a) “Arrazoar”(diale/gomai).[6] No grego clássico a palavra tinha o emprego usual de “conversar” ou “discutir”. (Ver: Mc 9.34). A partir de Sócrates (469-399 a.C.) passou a ser usada com o sentido de persuasão por meio de perguntas e respostas. Em Aristóteles (384-322 a.C.), tem o sentido de investigação dos fundamentos últimos do conhecimento.[7] Daí o sentido de argumentar, conduzir uma discussão e discursar, envolvendo sempre a ideia de estímulo intelectual por intermédio do intercâmbio de  ideias.[8] Enfim, envolvia uma argumentação com o fim de persuadir, sendo permitida à congregação fazer perguntas.[9]

     Paulo, portanto, passou três semanas fazendo perguntas, ouvindo indagações, respondendo, argumentando com respeito ao Antigo Testamento e à Pessoa de Cristo. A pregação do Evangelho envolve raciocínios e argumentos. Lucas registra também que em Corinto: “Todos os sábados [Paulo] discorria (diale/gomai)na sinagoga, persuadindo tanto judeus como gregos” (At 18.4). Este era o método habitual de Paulo. Ele usou do mesmo recurso na sinagoga de Tessalônica (At 17.2);[10] na sinagoga de Atenas e na praça (At 17.17);[11] na sinagoga de Éfeso e na escola de Tirano durante dois anos (At 18.19; 19.8-10),[12] na igreja em Trôade (At 20.7,9)[13] e diante de violento Procurador Félix (At 24.25).[14]

     b) “Expor”(dianoi/gw).[15] “Abrir completamente”. Tem o sentido figurado de “explanar” e “interpretar”. Ou seja: pelo Espírito, a exposição de Paulo tornava a mensagem compreensível, “abria o significado” do texto, evidenciado a sua aplicabilidade ao contexto de seus ouvintes (Cf. Lc 24.31-32).[16] As pessoas poderiam não crer no que foi proclamado; contudo, não poderiam alegar falta de compreensão.

     c) “Demonstrar”(parati/qhmi).[17] “Colocar ao lado”, “colocar diante de”. Figuradamente tem o sentido de apresentar evidências; ou seja, provar com passagens bíblicas a veracidade de seu argumento. “Citar para provar”, “demonstrar”. Ou seja: Paulo argumentava biblicamente o que ensinava, demonstrando, por exemplo, o cumprimento das profecias em Cristo e, ao mesmo tempo, confrontava as teses de seus oponentes com textos bíblicos.

     d) “Persuadir” (pei/qw), que significa convencer despertando a confiança de alguém sobre o quê foi persuadido, “dar crédito” (At 27.11). Lucas também registra que alguns dos judeus e numerosa multidão de gregos – homens e mulheres distintas –, “foram persuadidos (pei/qw) e unidos a Paulo e Silas” (At 17.4). Paulo esforçava-se por persuadir os seus ouvintes a respeito do Evangelho (At 13.43; 18.4;19.8,26; 26.28; 28.23-24; 2Co 5.11).[18]

     Becker argumenta: “Paulo não procurava dar origem à fé no Deus único e, sim, persuadir os ouvintes quanto à graça que acabava de ser dada por meio de Cristo”.[19] Seus ouvintes não seriam levados à fé simplesmente pela sabedoria humana. No entanto, devemos estar conscientes que a proclamação não exclui de forma alguma a nossa razão..[20]

São Paulo, 12 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1] “A evangelização é a inalienável responsabilidade de toda comunidade cristã, bem como de todo indivíduo crente” (J.I. Packer, Evangelização e soberania de Deus, 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 21).

[2] Vejam-se: J.I. Packer, Evangelização e Soberania de Deus, p. 16-27; R.B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1976, p. 27.

[3]“….Disse Jesus a Simão: Não temas; doravante serás pescador de homens” (Lc 5.10). “Dirijo-me a vós outros, que sois gentios! Visto, pois, que eu sou apóstolo dos gentios, glorifico o meu ministério, para ver se, de algum modo, posso incitar à emulação os do meu povo e salvar alguns deles” (Rm 11.13-14). “Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível. Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus; para os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo assim vivesse, para ganhar os que vivem debaixo da lei, embora não esteja eu debaixo da lei. Aos sem lei, como se eu mesmo o fosse, não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei. Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns. Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele” (1Co 9.19-23). “E assim, conhecendo o temor do Senhor, persuadimos os homens e somos cabalmente conhecidos por Deus; e espero que também a vossa consciência nos reconheça” (2Co 5.11).

[4] Veja-se: J.I. Packer, Evangelização e Soberania de Deus, p. 36-37.

[5] John R.W. Stott, A Verdade do Evangelho: um apelo à Unidade, Curitiba, PR.; São Paulo, SP.: Encontro; ABU., 2000, p. 130.

[6] A palavra tem o sentido de “dissertar” (At 17.17; 19.8; 24.25); “discorrer” (At 18.4; 19.9; Hb 12.5); “pregar” (At 18.19); “exortar” (At 20.7); “discursar” (At 20.9); “discutir” (At 24.12); “disputar” (Jd 9).

[7]Ver: Gottlob Schrenk, diale/gomai: In: Gerhard Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, v.  2, p. 93.

[8]Cf. A.T. Robertson, “Word Pictures in the New Testament, Vol. 3 – Acts,” The Master Christian Library, (CD-ROM), Version 8 (Rio, Wi: Ages Software, 2000),in loc.

[9]Cf. D. Furst, Pensar: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo dicionário internacional de Teologia do Novo Testamento, v.  3, p. 515.

[10] “Paulo, segundo o seu costume, foi procurá-los e, por três sábados, arrazoou com (diale/gomai) eles acerca das Escrituras” (At 17.2).

[11]“Por isso, dissertava (diale/gomai) na sinagoga entre os judeus e os gentios piedosos; também na praça, todos os dias, entre os que se encontravam ali” (At 17.17).

[12]“Chegados a Éfeso, deixou-os ali; ele, porém, entrando na sinagoga, pregava (diale/gomai) aos judeus” (At 18.19). “Durante três meses, Paulo frequentou a sinagoga, onde falava ousadamente, dissertando (diale/gomai) e persuadindo com respeito ao reino de Deus. Visto que alguns deles se mostravam empedernidos e descrentes, falando mal do Caminho diante da multidão, Paulo, apartando-se deles, separou os discípulos, passando a discorrer (diale/gomai) diariamente na escola de Tirano. Durou isto por espaço de dois anos, dando ensejo a que todos os habitantes da Ásia ouvissem a palavra do Senhor, tanto judeus como gregos” (At 18.8-10).

[13]“No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os (diale/gomai) e prolongou o discurso até à meia-noite. (…) Um jovem, chamado Êutico, que estava sentado numa janela, adormecendo profundamente durante o prolongado discurso (diale/gomai) de Paulo, vencido pelo sono, caiu do terceiro andar abaixo e foi levantado morto” (At 20.7,9).

[14]“Dissertando (diale/gomai) ele acerca da justiça, do domínio próprio e do Juízo vindouro, ficou Félix amedrontado e disse: Por agora, podes retirar-te, e, quando eu tiver vagar, chamar-te-ei” (At 24.25).

[15]A palavra tem o sentido de “expor” (Lc 24.32) e, especialmente, de “abrir”: abrir o ventre (Lc 2.23); abrir o céu (At 7.56). No sentido figurado: abrir os ouvidos (Mc 7.34-35); abrir os olhos para que compreenda (Lc 24.31/Gn 3.5,7); abrir o coração (At 16.14); abrir a mente (Lc 24.45).

[16]Comentando At 16.14, onde a mesma palavra é empregada, Stott escreve: “Percebemos que a mensagem era de Paulo, mas a iniciativa salvadora vinha de Deus. A pregação de Paulo não era efetiva em si mesma; o Senhor operava através dela. E a obra do Senhor não era direta em si; Ele preferiu operar por intermédio da pregação de Paulo. Sempre é assim” (John R.W. Stott, A Mensagem de Atos: até os confins da Terra, São Paulo: ABU Editora, 1994, (At 16.13-15), p. 296).

[17] Significa “propor” (Mt 23.24,31); “distribuir” (Mc 6.41; 8.6-7); oferecer (Lc 10.8; 11.6); confiar (Lc 12.48); entregar (Lc 23.46); encomendar (At 14.23; 20.32; 1Pe 4.19); “pôr diante de” (1Co 10.27); “encarregar” (1Tm 1.18); transmitir (2Tm 2.2).

[18]“Despedida a sinagoga, muitos dos judeus e dos prosélitos piedosos seguiram Paulo e Barnabé, e estes, falando-lhes, os persuadiam (pei/qw) a perseverar na graça de Deus” (At 13.43). “E todos os sábados discorria na sinagoga, persuadindo (pei/qw) tanto judeus como gregos” (At 18.4). “Durante três meses, Paulo frequentou a sinagoga, onde falava ousadamente, dissertando e persuadindo (pei/qw) com respeito ao reino de Deus” (At 19.8). Demétrio insuflando o povo: “e estais vendo e ouvindo que não só em Éfeso, mas em quase toda a Ásia, este Paulo tem persuadido (pei/qw) e desencaminhado muita gente, afirmando não serem deuses os que são feitos por mãos humanas” (At 19.26). “Então, Agripa se dirigiu a Paulo e disse: Por pouco me persuades (pei/qw) a me fazer cristão” (At 26.28). “Havendo-lhe eles marcado um dia, vieram em grande número ao encontro de Paulo na sua própria residência. Então, desde a manhã até à tarde, lhes fez uma exposição em testemunho do reino de Deus, procurando persuadi-los (pei/qw) a respeito de Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas. Houve alguns que ficaram persuadidos (pei/qw) pelo que ele dizia; outros, porém, continuaram incrédulos” (At 28.23-24). “E assim, conhecendo o temor do Senhor, persuadimos (pei/qw) os homens e somos cabalmente conhecidos por Deus; e espero que também a vossa consciência nos reconheça” (2Co 5.11).

[19]O. Becker, Fé: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 2, p. 214.

[20] Veja-se o excelente tópico do livro de Stott: John R.W. Stott, Crer é também Pensar, São Paulo: ABU., 1984 (2. impressão), p. 45-51.

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (12))

3.3.2. A Relação entre a Retórica e a Homilética

A Homilética se propõe a utilizar alguns dos recursos da Retórica para a transmissão da Palavra de Deus; desta forma, podemos dizer que a Retórica é o gênero e a Homilética é a espécie.

Se a Retórica visa convencer o homem quanto a qualquer tema; a Homilética, diferentemente, procura oferecer recursos para que possamos convencer – humanamente falando –, o homem quanto à necessidade de arrependimento e fé em Jesus Cristo. O seu objetivo, portanto, é mais nobre pois, está comprometido com a ordem de Cristo (Mt 28.20; Mc 16.15; At 1.8), a prática apostólica (Cf. At 13.43; 17.4; 19.8; 26.28; 28.23; 2Co 5.11) e a necessidade presente do homem, de encontrar a salvação em Cristo Jesus, em Quem somente há salvação (At 4.12).

3.3.3. A Retórica Grega e a Pregação Cristã

A. Escândalo e Loucura

O pregador é o que interpreta e ensina as verdades divinas. – Agostinho (354-430).[1]

Como já mencionamos, o Cristianismo não é ficção; é história real. Paulo mostra que a pregação da Palavra foi o método prazerosamente estabelecido por Deus para alcançar os seus: “…. aprouve (eu)doke/w)[2] a Deus salvar aos que creem, pela loucura (mwri/a)[3] da pregação” (1Co 1.22).     Pelo fato de os homens não conseguirem entender salvadoramente a mensagem do Evangelho dentro do seu quadro de referência naturalista ou simplesmente deísta, consideram-na loucura: Tudo que não se adéqua ao seu padrão de pensamento é escândalo (pedra de tropeço) ou loucura. Isto não significa que o homem natural, não regenerado, não possa entender a mensagem do Evangelho e até mesmo explicá-la a outros; o problema é que esta mensagem não faz sentido espiritual para ele. Ou seja: eu consigo entender o que você quer dizer só que não creio no que você diz.[4]

     A mensagem da cruz é considerada loucura pelos que estão a perecer, justamente porque ela não possui qualquer atrativo de sabedoria humana que a recomende às suas mentes.[5]

     Barclay (1907-1978), comenta que “os gregos estavam intoxicados com palavras bonitas; e o pregador cristão com sua tosca mensagem lhe parecia um personagem cru e inculto, do qual podiam mofar-se e ridicularizar em lugar de escutá-lo e respeitá-lo”.[6]

     A fé cristã é para ser vivida e proclamada. A pregação caracteriza essencialmente a fé cristã e a sua proclamação. Paulo, então indaga:

Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas! (Rm 10.14-15).

     No final de sua vida, Paulo, com a consciência certa de ter concluído fielmente o seu ministério, exorta ao jovem Timóteo:

Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas (mu=qoj = lenda, mito). Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério. (2Tm 4.2-5).

     A despeito da irracionalidade moderna, inclusive entre nós ditos evangélicos que temos ignorado não impunemente as grandes batalhas acadêmicas e consequentemente éticas com as quais nos deparamos[7] – o desafio de Deus para nós não é para nos tornarmos irracionais ou ignorantes, antes é para que submetamos a nossa inteligência à Palavra. Aqui não se pede nenhum sacrifício lógico-racional, antes o que se requer, é a humildade para reconhecer a nossa limitação diante da majestosa sabedoria de Deus (Rm 11.33-36), exercitando deste modo, por graça, a humanamente louca sabedoria de Deus em nossa vida, reconhecendo a nossa suficiência não em nossa inteligência ou valores, mas em Deus. A pregação do Evangelho revela a insensatez de nossa sabedoria e a verdadeira sabedoria de Deus, que, em princípio, parece loucura. Isto é altamente ofensivo aos sábios deste mundo tão convictos de seus conhecimentos e métodos.

     Calvino (1509-1564) comenta:

O fato de que o Evangelho é aroma de morte para os ímpios não vem tanto de sua própria natureza, mas da própria perversidade humana. Ao determinar um caminho de salvação, ele elimina a confiança em quaisquer outros caminhos.[8]

     À frente:

Toda verdade proclamada referente a Cristo é completamente paradoxal pelo prisma do juízo humano. Entretanto, o nosso dever é prosseguir em nossa rota. Cristo não deve ser suprimido só porque para muitos ele não passa de pedra de ofensa e rocha de escândalo. Ao mesmo tempo que ele prova ser destruição para os ímpios, em contrapartida ele será sempre ressurreição para os fiéis.[9]

     Quero dizer mais uma palavra. A pregação fundamenta-se no princípio de que a Palavra de Deus é infalível e que Deus continua a falar por meio dela. Ou seja: A voz de Deus não se esgotou quando o cânon foi reconhecido,[10] mas, Deus continua a falar por meio de Sua Palavra escrita e por meio dos pregadores que expõem esta Palavra com fidelidade. O Deus que falou no passado continua a falar hoje.[11]

Maringá, 08 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1] Agostinho, A Doutrina Cristã,IV.4.6. p. 217.

[2] Tanto o verbo (eu)doke/w) quanto o substantivo (eu)doki/a) enfatizam aquilo ou aquele que é prazeroso, considerando a essência da coisa ou o que se tem em vista. Assim, vemos que Deus Se compraz em Jesus Cristo, o Filho amado (Mt 3.17; 12.18; 17.5; 2Pe 1.17), em quem reside, conforme a vontade de Deus, toda a plenitude da divindade (Cl 1.19/2.9). Deus tem prazer em revelar a Sua vontade aos “pequeninos” (Mt 11.25-26; Lc 10.21), concedendo o Seu Reino (Lc 12.32). Ele nos predestinou para adoção conforme o seu “beneplácito” (eu)doki/a)(Ef 1.5,9), assim como vocaciona os Seus servos conforme Sua vontade (Gl 1.15-16). Deus tem prazer em salvar o Seu povo por intermédio da pregação da Palavra (1Co 1.21). Deus opera em nós conforme a Sua liberdade soberana e prazerosa (Fp 2.13). No entanto, estas palavras não são utilizadas somente para Deus, elas também descrevem atitudes e aspirações humanas, como o desejo de Paulo pela salvação dos judeus (Rm 10.1); a sua oração em favor dos tessalonicenses (2Ts 1.11); a voluntariedade prazerosa da Igreja em socorrer os irmãos necessitados (Rm 15.26-27); o desejo de deixar o corpo para estar com Cristo (2Co 5.8); a abnegação de Paulo em prol dos tessalonicenses, compartilhando a sua própria vida (1Ts 2.8 “estávamos prontos” (eu)doke/w)/1Ts 3.1-5: Verso 1: “pareceu-nos bem (eu)doke/w) ficar sozinhos em Atenas”); sofrer pelo testemunho de Cristo, a quem amava (2Co 12.10). O Evangelho deve ser pregado: “de boa vontade” (eu)doki/a)(Fp 1.15).

[3]A ideia da palavra é de algo “imbecil”, “tolo”, “insensato”. Na literatura clássica está relacionada à falta de conhecimento e discernimento. Dentro do aspecto da insensatez, esta figura é aplicada ao sal que, se se tornar “insípido” (mwrai/nw) (Mt 5.13; Lc 14.34-35) para nada mais serve. No emprego feito por Paulo: a loucura da mensagem da cruz de Cristo está justamente pela sua falta de sentido intelectual para aqueles que querem avaliar o seu conteúdo dentro de seus pressupostos viciados. Em síntese, o Evangelho soa como algo “simplório”. Paulo diz que Deus tornou “louca” (mwrai/nw) a sabedoria deste mundo (1Co 1.20). Por sua vez, os ímpios se considerando sábios, “tornaram-se loucos” (mwrai/nw) (Rm 1.22/Jr 10.14 (“estúpido” (mwrai/nw)), em sua idolatria, recebendo o justo castigo de Deus (Rm 1.23-27)). Deste modo, a sabedoria de Deus será sempre loucura (mwri/a) para os sábios deste mundo que querem simplesmente adequar o Evangelho aos seus pressupostos (1Co 1.18,23; 2.14). Dentro desta perspectiva, Deus escolheu então as “cousas loucas (mwro/j) do mundo” (1Co 1.27). Por outro lado, os que creem na loucura (mwri/a) da pregação serão salvos (1Co 1.21). A loucura (mwro/j) de Deus é mais sábia do que a sabedoria deste mundo (1Co 1.25). A sabedoria deste mundo é loucura (mwri/a) diante de Deus (1Co 3.19). Deus sabe que os pensamentos destes “sábios” são “vãos” (= “nulos”, “fúteis” (ma/taioj) *At 14.15; 1Co 3.20; 15.17; Tt 3.9; Tg 1.26; 1Pe 1.18)(1Co 3.20) Portanto, se quisermos nos tornar sábios para Deus, tornemo-nos loucos (mwro/j) para as cousas deste mundo (1Co 3.18). De certa forma, somos os loucos de Cristo (1Co 4.10). Por sua vez, ilustrando que a “loucura” ou “insensatez” não são boas em si mesmas, Paulo faz recomendações práticas para que rejeitemos as questões “sábias” deste mundo que consistem em discussões e questões “insensatas” que produzem contendas, não tendo utilidade (2Tm 2.23; Tt 3.9 (“fúteis” (ma/taioj)). Portanto, o Evangelho não tem a “loucura” e “insensatez” como virtudes (Mt 23.16-17; 25.1-13). A verdadeira sabedoria consiste em ouvir a Palavra de Deus e praticá-la. Loucura é desprezá-la (Mt 7.24-27).

[4] Ver: James M. Boice, O Evangelho da Graça, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 108-109.

[5] Cf. João Calvino, Exposição de 1 Coríntios,São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 1.18), p. 56.

[6] William Barclay, 1 y 2 Corintios,p. 32.

[7]“A igreja está hoje perecendo por falta de pensamento, não por excesso do mesmo” (J.G. Machen, Cristianismo y Cultura, Barcelona: Asociación Cultural de Estudios de la Literatura Reformada, 1974, p. 19). “O empobrecimento intelectual em relação à fé pode levar ao empobrecimento espiritual” (William L. Craig, A Verdade da Fé Cristã, São Paulo: Vida Nova, 2004. p. 14). “Quero também mostrar que os cristãos não precisam ter medo de pensar; que, na verdade, os cristãos têm vantagens sobre não-cristãos quando se trata de usar o intelecto” (Gene Edward Veith, Jr., De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 13). Vejam-se também as oportunas observações de Craig. (William L. Craig, A Verdade da Fé Cristã, São Paulo: Vida Nova, 2004. p. 11-16).

[8]João Calvino, Exposição de Romanos,(Rm 1.16), p. 58.

[9]João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 6.1), p. 201-202.

[10] Quanto à questão do reconhecimento do cânon, veja-se: Hermisten M.P. Costa, A Inspiração e Inerrância das Escrituras, 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.

[11] Veja-se uma boa exposição deste ponto in: John Stott, Eu Creio na Pregação, São Paulo: Editora Vida, 2003, p. 106ss.

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (11)

3.3. Retórica e Homilética

3.3.1. Definição de Retórica

A palavra Retórica, é uma transliteração do grego R(htorikh/ ( = “eloquência”). A palavra é proveniente de R(h/twr (= “orador público”, “advogado”, “homem de Estado”). Ocorre apenas em At 24.1, no NT. Estas palavras são derivadas de R(h=ma (= “palavra”, “expressão verbal”, “linguagem”, “poema”). Em Aristóteles (384-322 a.C.), R(h=ma significa um verbo, contrastando com um o/)noma, substantivo.[1]

     A retórica mantém estreita relação com os sofistas. Górgias (c. 483-c.375 a.C.), o sofista, disse que o objetivo da retórica é “pela palavra, convencer os juízes no tribunal, os senadores no conselho, os eclesiastas na assembleia e em todo outro ajuntamento onde se congreguem cidadãos”.[2] Desta forma, a capacidade do retórico era demonstrada na habilidade de “disputar com qualquer pessoa sobre qualquer assunto” e isto se revelava na rapidez com que persuadia as multidões.[3] A essência da retórica de Górgias era persuadir;[4] e nisto a retórica sofista foi muito bem sucedida.[5]

Sócrates (469-399 a.C.) e Platão (427-347 a.C.) manifestaram interesse pelas questões retóricas e seus problemas. Platão, por exemplo, opõe-se à retórica de Górgias, porque ele crê na existência de critérios absolutos e universais, que possibilitem reconhecer o verdadeiro e o justo.[6] É justamente isto que distingue a retórica de Górgias da retórica de Platão. Na perspectiva de Platão, a retórica deveria ser utilizada por pessoas interessadas na verdade.[7]

Aristóteles (384-322 a.C.), definiu Retórica como sendo “a faculdade de ver teoricamente o que, em cada caso, pode ser capaz de gerar a persuasão”.[8] Segundo ele, a tarefa da retórica, “não consiste em persuadir, mas em discernir os meios de persuadir a propósito de cada questão, como sucede com todas as demais artes”.[9] Aristóteles, dentro de uma perspectiva ética, observa ainda, que a retórica não deveria ser usada para a persuasão do imoral;[10] todavia, o mau uso da retórica não anulava o seu valor.[11] A retórica deveria ser útil ao cidadão. Esta é a sua função política; ou seja: social.[12]

A Retórica é a arte de falar bem, visando à instrução e principalmente a persuasão. O fim da Retórica é convencer e, o instrumento de que dispõe é a palavra. Creio que Demócrito (c. 460- c.370 a.C.), estava certo ao afirmar que “para a persuasão a palavra frequentemente é mais forte que o ouro”.[13] Por isso, a arte da persuasão não acompanhada de um senso moral, torna-se extremamente perigosa, visto que podemos com a palavra, usando as técnicas da Retórica, tentar convencer que o branco é preto e vice-versa, conforme o nosso interesse pessoal, agindo do mesmo modo que os sofistas na Antiguidade.

A obra de Demóstenes (c. 460-c. 370 a.C.), Oração à Coroae em Shakespeare (1564-1616), Júlio César,a oração de Marco Antônio diante do cadáver de César, se constituem em dois bons exemplos literários concernentes ao poder da retórica. A retórica cristã visa levar o ouvinte a fazer a vontade de Deus.

Resultado de imagem para oradores gregos
Gravura de Demóstenes

Tucídides (c. 465-395 a.C.), observou em sua monumental obra, História da Guerra do Peloponeso, que:

A significação normal das palavras em relação aos atos muda segundo os caprichos dos homens. A audácia irracional passa a ser considerada lealdade corajosa em relação ao partido; a hesitação prudente se torna covardia dissimulada; a moderação passa a ser uma máscara para a fraqueza covarde, e agir inteligentemente equivale à inércia total. Os impulsos precipitados são vistos como uma virtude viril, mas a prudência no deliberar é um pretexto para a omissão.[14]

Statue of Greek philosopher Thucydides in front of Parliament building in Vienna, Austria.
Gravura de Tucídides

Sócrates (469-399 a.C.) entendia que o mérito do orador residia em dizer a verdade.[15] Somente nestes termos ele aceitaria ser chamado de orador.[16]

Maringá, 08 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Aristóteles, Arte Poética, São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Os Pensadores, v. 4), XX 1457a, 10-14, p. 461.

[2] Platão, Górgias, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, S.A., 1989, 452e, p. 58-59.

[3] Platão, Górgias, 457a, p. 67. Lembremo-nos que a Retórica Sofística, inventada por Górgias (c.483-c.375 a.C.), era famosa. Górgias dizia: “A palavra é uma grande dominadora que, com pequeníssimo e sumamente invisível corpo, realiza obras diviníssimas, pois pode fazer cessar o medo e tirar as dores, infundir a alegria e inspirar a piedade (…). O discurso, persuadindo a alma, obriga-a, convencida, a ter fé nas palavras e a consentir nos fatos (…). A persuasão, unida à palavra, impressiona a alma como quer (…). O poder do discurso com respeito à disposição da alma é idêntico ao dos remédios em relação à natureza do corpo. Com efeito, assim como os diferentes remédios expelem do corpo de cada um diferentes humores, e alguns fazem cessar o mal, outros a vida, assim também entre os discursos alguns afligem e outros deleitam, outros espantam, outros excitam até o ardor os seus ouvintes, outros envenenam e fascinam a alma com persuasões malvadas” (Górgias, Elogio de Helena, 8, 14).

            “Quanto à sabedoria e ao sábio, eu dou o nome de sábio ao indivíduo capaz de mudar o aspecto das coisas, fazendo ser e parecer bom para esta ou aquela pessoa o que era ou lhe parecia mau” (Palavras de Protágoras, conforme, Platão, Teeteto, 166d, p. 36).

“Mas deixaremos de lado Tísias e Górgias? Esses descobriram que o provável deve ser mais respeitado que o verdadeiro; chegariam até a provar, pela força da palavra, que as cousas miúdas são grandes e que as grandes são pequenas, que o novo é antigo e que o velho é novo” (Platão, Fedro, 267, p. 251). A retórica era uma das marcas características da sofística (Cf. W.K. C. Guthrie, Os Sofistas, p. 167).

[4] Platão, Górgias, 453a, p. 59-60; 455a, p. 64.

[5] Veja-se: Armando Plebe, Breve História da Retórica Antiga, São Paulo: EPU; EDUSP., 1978, p. 21ss.

[6] Platão, Górgias, 455a, p. 64.

[7] Veja-se: Platão, Fedro, 278, p. 266-267; Idem, Fédon, 90bss. p. 102-103.

[8] Aristóteles, Arte Retórica, I.2.1. p. 33.

[9] Aristóteles, Arte Retórica, I.1.14. p. 31.

[10] Aristóteles, Arte Retórica, I.1.12. p. 31.

[11]Aristóteles, Arte Retórica, I.1.13. p. 31. Agostinho escreveria mais tarde: “É um fato, que pela arte da retórica é possível persuadir o que é verdadeiro como o que é falso” (Agostinho, A Doutrina Cristã, IV.2.3. p. 214).

[12] Ver: Retórica: J. Ferrater Mora, Dicionário de Filosofia, São Paulo: Edições Loyola, 2001, v. 4, p. 2524b.

[13]Demócrito, Fragmento 51: In: Victor Civita, ed. Os Pré-Socráticos, p. 330. Demócrito estava muito atento à importância da persuasão; ele observou corretamente que aquele “que é conduzido ao dever pela persuasão, não é provável que, às ocultas ou às claras, cometa uma falta” (Frag., 181, p. 342).

[14]Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, Brasília, DF.: Editora Universidade de Brasília, 1982, II.82. p. 167.

[15] Platão, Apologia de Sócrates, I. 18a, p. 11.

[16] Platão, Apologia de Sócrates, I.17b, p. 11

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (10)

3.2. Homilética e homilia

             A palavra “homilética”, é a transliteração do verbo o(mile/w, que significa “conversar com”, “falar”. Este verbo ocorre quatro vezes no Novo Testamento e apenas nos escritos de Lucas (Lc 24.14,15; At 20.11; 24.26). Na Septuaginta, ocorre também 4 vezes Pv 5.19 (“saciar”, no sentido de proximidade); Pv 15.12 (“chegará”, no sentido de “associar-se”); Pv 23.30 (2 vezes).[1]

     Na literatura clássica, vemos que Xenofonte (c. 430-355 a.C.) também empregou esta palavra no sentido de “conversação”.[2]

     O verbo o(mile/w provém de outra palavra grega, o(/miloj (o(mou= = “junto com” & i)/lh = “uma equipe”, “turma”, “companhia”), que significa, “multidão”, “turma”, “companhia”, “assembleia”. O(/miloj ocorre apenas uma vez no NT e mesmo assim, sem grande fundamentação documental (Ap 18.17).[3]

     Na Literatura Clássica, este termo é encontrado em Homero (c. IX séc. a.C.).[4]

     Uma outra palavra relacionada com Homilética, é “Homilia” (gr. o(mili/a), derivada da mesma raiz de “Homilética”, significando: “associação”, “companhia”, “conversação”. Ela é empregada apenas uma vez no NT (1Co 15.33), quando Paulo, provavelmente, cita a comédia do poeta ateniense, Menandro (c. 342 -c. 291 a.C.), intitulada Thais.[5]Xenofonte (c. 430-355 a.C.) também usou “Homilia” no sentido de “companhia”,[6] “palestra”[7]e “conversação”.[8]

     A Igreja Latina traduziu “Homilia” por sermão, passando, então, as duas palavras, num primeiro momento, a serem empregadas de forma intercambiável. Todavia, posteriormente, elas passaram a designar um tipo de discurso; O Sermão,[9] designava um discurso desenvolvido sobre um tema. A Homilia, pressupunha um método de análise, e a explicação de um parágrafo ou verso da Escritura, que era lido durante os cultos.[10]

     O uso do termo “Homilética” referindo-se à pregação, data do século XVII, quando foi usado por Baier (1677) e Krumholf (1699).[11]

     Creio que a definição de Broadus (1827-1895) a respeito de homilética expressa bem o conceito primitivo da pregação entre os Pais da Igreja: “A adaptação da retórica às finalidades especiais e aos reclamos da prédica cristã”.[12]

Maringá, 08 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] ARA não traduz as ocorrências.

[2] Xenofonte, Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, IV.3.2. p. 147.

[3]A palavra não aparece no Texto de Nestle-Aland. Ela ocorre em alguns manuscritos menores, sendo empregada no Textus Receptus, podendo ser traduzida por “a companhia em navios” (tw=n ploi/wn o( o(/miloj).

[4]Homero, Ilíada, 18.603; 24.712.

[5]Menandro, Frag. p. 62, n° 218.

[6]Xenofonte, Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, I.2.20.

[7]Xenofonte, Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, I.2.6.

[8]Xenofonte, Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, I.2.15.

[9]A nossa palavra “sermão”, é a transliteração do latim “sermo”, que significa, “conversação”, “conversa”, “maneira de falar”, etc.

[10] Cf. WM. M. Taylor, et. al. Homiletics: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: Or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, Chicago: Funk & Wagnalls, Publishers, (revised edition), 1887, v. 2, p. 1011; Homilética: In: Russel N. Champlin; João Marques Bentes, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v. 2, p. 154. No Dicionário de Antônio Geraldo da Cunha, encontramos a seguinte definição de homilia: “Sermão que tem por objeto explicar assuntos doutrinários” (Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, p. 415).

[11] Cf. WM. M. Taylor, et. al. Homiletics: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: Or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, v. 2, p. 1011b.

[12] J. A. Broadus, O Preparo e Entrega de Sermões, p. 10.

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (9)

3.1. Cristianismo, tempo e história (continuação)

Bavinck (1854-1921) corretamente destaca a singularidade de Cristo para o Cristianismo:

Ele ocupa um lugar completamente único no Cristianismo. Ele não foi o fundador do Cristianismo em um sentido usual, ele é o Cristo, o que foi enviado pelo Pai e que fundou Seu reino sobre a terra e agora expande-o até o fim dos tempos. Cristo é o próprio Cristianismo. Ele não está fora, Ele está dentro do Cristianismo. Sem Seu nome, pessoa e obra, não há Cristianismo. Em outras palavras, Cristo não é aquele que aponta o caminho para o Cristianismo, Ele mesmo é o caminho.[1]

     Se formos sinceros em nossa investigação bíblica, não restam muitas alternativas para nós. Ou Jesus Cristo é de fato Deus conforme o seu próprio testemunho e, assim, podemos então considerá-lo de forma decorrente como um grande mestre, um bom homem, justo e misericordioso, ou Ele é um farsante não merecendo a nossa fé nem mesmo o nosso respeito.

     Barth (1886-1968) coerentemente afirma que a Escritura não nos deixa vagueando em nossa fé, antes, quando nos fala de Deus, aponta para Jesus Cristo, em quem nossa atenção e pensamentos devem se concentrar.[2]

     Stott (1921-2011) coloca a questão nestes termos: “Jesus deve ser adorado ou apenas admirado? Se ele é Deus, é digno de nossa adoração, fé e obediência; se não é Deus, dedicar a ele essa devoção é idolatria”.[3]

     Se as reivindicações divinas e redentivas do Jesus Cristo histórico são verdadeiras como de fato são, a mensagem do Evangelho deve ser anunciada ao mundo para que aqueles que crerem sejam salvos.

     Noll resume bem ao dizer que: “Estudar a história do cristianismo é lembrar continuamente o caráter histórico da fé cristã”.[4]

Sem o fato histórico da encarnação, morte e ressurreição de Cristo, podemos falar até de experiência religiosa, mas não de experiência cristã. A experiência cristã depende fundamentalmente destes eventos.[5] É por isso que a pregação da Igreja primitiva, conforme nos mostram as Escrituras, estava fundamentalmente amparada na certeza da ressurreição do Senhor.[6]

Quando focamos o nosso olhar na experiência, corremos o risco de perdermos a dimensão da essência, do referente, que é Deus. Neste processo, como escreveu Barth (1886-1968), “a passagem da experiência do Senhor à experiência de Baal é curta. O religioso e o sexual são extremamente semelhantes”.[7]

Jesus Cristo é o clímax da Revelação. Ele é a Palavra Final de Deus. Nele temos não uma metáfora ou um sinal, antes, temos o próprio Deus que Se fez homem na história.

Sire escreveu de modo esclarecedor:

Jesus Cristo é a revelação final e especial de Deus. Porque Jesus Cristo era verdadeiramente Deus Ele nos mostrou mais plenamente com quem Deus era semelhante do que qualquer outra forma de revelação. Porque Jesus foi também completamente homem, Ele falou mais claramente a nós do que pode fazê-lo qualquer outra forma de revelação.[8]

     A História é de grande relevância para a escatologia e para a teologia. Lloyd-Jones (1899-1981) chega a dizer que “‘O problema da história’ é o grande tema da Bíblia Sagrada”.[9]

     A História da Igreja, bem como da Teologia, tem um lado divino: Deus dirige a História e, um lado humano: os fatos compartilhados por todos nós que a vivemos. Os atos de Deus, na História, não são objeto de análise do historiador. Não somos Lucas, inspirados infalivelmente por Deus, apresentando uma interpretação inspirada.[10] A relação entre a história e a teologia é extremamente complexa e de difícil interpretação.[11] Além disso, é preciso delimitar a esfera de domínio do historiador e do teólogo. Somos homens comuns, que procuramos estabelecer métodos, examinar documentos, fazer-lhes perguntas e interpretá-los a bem da melhor compreensão possível do que aconteceu.

     Nesse sentido, a História é uma ciência social “cujo objeto é o conhecimento do processo de transformação da sociedade ao longo do tempo”.[12] Ela tem como pressuposto, a consciência de determinada ignorância – aliás, a consciência da ignorância é um requisito fundamental para o historiador – para a qual buscaremos uma solução.[13]

     Contudo não captamos o fato absolutamente. Ele, como “conhecimento autêntico e seguro”, sempre nos escapa;[14] compreendemos, sim, as versões, as nossas versões dos fatos que julgamos serem coerentes com eles. No entanto, há uma interação mutativa: as evidências interferem em nossa cosmovisão e esta, por sua vez, fornece-nos novos cânones – provisórios é verdade – de aproximação das mesmas evidências que, agora, podem já não ser consideradas evidências.

O estudo do passado, se devidamente compreendido, ainda que não exaustivamente, pode nos levar a reavaliar as nossas próprias suposições que, em muitos casos, são “crenças correntes”[15] já tão bem estabelecidas que julgávamos acima de qualquer “suspeita”. Georges Duby (1919-1996), colocou isto de forma bela e ao mesmo tempo angustiante: “Todo historiador se extenua para conseguir a verdade; essa presa escapa-lhe sempre”.[16]

A História da Igreja, por exemplo, é uma ciência que não está atrelada a nenhuma ciência em particular. Como ciência histórica, deve apresentar um quadro histórico e cronológico dos principais fatos da vida da Igreja do período analisado. Para que isso seja feito com clareza, tornam-se necessárias fontes documentais. Nelas, possamos a nos alicerçar para exaurir as informações de cada época, a fim de formular um quadro interpretativo coerente com os documentos disponíveis.

Maringá, 08 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 311.

[2]Karl Barth, Church Dogmatics, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 2010, II/2, p. 52-53.

[3]Timothy Dudley, Cristianismo autêntico: 968 textos selecionados das obras de John Stott, São Paulo: Editora Vida, 2006, p. 44. C.S. Lewis escreveu de forma contundente: “Um homem que fosse só homem, e dissesse as coisas que Jesus disse, não seria um grande mestre de moral: seria ou um lunático, em pé de igualdade com quem diz ser um ovo cozido, ou então seria o Demônio. Cada um de nós tem que optar por uma das alternativas possíveis. Ou este homem era, e é, Filho de Deus, ou então foi um louco, ou cuspir nele e matá-lo como um demônio; ou podemos cair a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas não venhamos com nenhuma bobagem paternalista sobre ser Ele um grande mestre humano. Ele não nos deu esta escolha. Nem nunca pretendeu” (C.S. Lewis, A essência do Cristianismo, São Paulo: ABU Editora, 1979, p. 29). Boice com maestria analisa as opções fornecidas por Lewis. Veja-se: James M. Boice, Fundamentos da Fé Cristã, Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2011, p. 238-240. John Piper faz algo semelhante, com uma aproximação diferente. (Veja-se: John Piper, Um homem chamado Jesus Cristo, São Paulo: Vida, 2005, p. 11-12). Do mesmo modo, Josh McDowell, Mais que um carpinteiro, Venda Nova, MG.: Editora Betânia, 1989,p. 26-35.

[4]Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2000,p. 16. Vejam-se também: Clyde P. Greer, Jr., Refletindo honestamente sobre a história: In: John F. MacArthur Jr. ed. ger. Pense Biblicamente!: recuperando a visão cristã do mundo, São Paulo: Hagnos, 2005, p. 400-401.

[5] Cf. J. Gresham Machen, Cristianismo e Liberalismo, São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 77.

[6] “Gostemos ou não, não podemos escapar ao fato de que historicamente o Cristianismo foi fundado sobre a crença na ressurreição” (Alan Richardson, Así se hicieron los Credos: Una breve introducción a la história de la Doctrina Cristiana, Barcelona: Editorial CLIE, 1999, p. 24).

[7] Karl Barth, A Palavra de Deus e a palavra do homem, São Paulo: Novo Século, 2004, p. 217.

[8]James W. Sire, O universo ao lado, São Paulo: Hagnos, 2004, p. 40.

[9] D.M. Lloyd-Jones, Do temor à fé, Miami: Editora Vida, 1985, p. 9.

[10]Carson constatando a secularização na prática e nos discursos, arrematou: “Hoje não existe um departamento de história na terra que aprovaria uma dissertação de doutoramento que tentasse inferir algumas coisa sobre a providência” (D.A. Carson, O Deus amordaçado: o Cristianismo confronta o pluralismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2013, p. 38-39). Por sua vez, estimulando a nossa modéstia na interpretação da histórica, veja-se: Darryl G. Hart, 1929 e tudo aquilo, ou o que o calvinismo diz aos historiadores em busca de significado?: In: David W. Hall, Calvino em praça pública,  São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p 19-34.

[11] Ver: Michel De Certeau, A Escrita da História, 2. ed.Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002, p. 33ss.

[12]Nelson W. Sodré, Formação histórica do Brasil, São Paulo: Brasiliense, (1962), p. 3.

[13]Veja-se: R.G. Collingwood, A Ideia de História, Lisboa: Editorial Presença, (s.d.), p. 21.

[14] “O homem sente necessidade absoluta de chegar ao conhecimento autêntico do que verdadeiramente aconteceu, ainda que tenha consciência da pobreza dos meios de que para isso dispõe” (Johan Huizinga, El Concepto de la Historia y Otros Ensayos, 4. reimpresión,México: Fondo de Cultura Econômica, 1994, p. 92).

[15]Veja-se: Quentin Skinner, Liberdade antes do Liberalismo,São Paulo: Editora UNESP/Cambridge, 1999, p. 90.

[16] Georges Duby, O Prazer do Historiador: In: Pierre Nora, et. al. Ensaios de Ego-História,Lisboa: Edições 70, (1989), p. 110.

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (8)

A Pregação Cristã

A. Cristianismo, tempo e história

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E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei – Agostinho.[1]
Deus inseriu a revelação da Bíblia na História; Ele não a forneceu (como poderia ter feito) em forma de livro-texto teológico. Localizando a revelação na história, que sentido teria para Deus ter-nos fornecido uma revelação cuja história fosse falsa? Também o homem foi inserido neste universo que, como as Escrituras mesmo dizem, fala de Deus. Que sentido, então, teria para Deus ter nos oferecido sua revelação em um livro cheio de falsidades acerca do universo? A resposta para ambas as questões deve ser “nada disso faria sentido!”. Está claro, portanto, que, do ponto de vista das Escrituras em si, podemos observar uma unidade por todo o campo do conhecimento. Deus falou, numa forma linguística e proposicional, verdades sobre si mesmo e verdades sobre o homem, a sua história e o universo. ‒ Francis A. Schaeffer.[2]

A concepção cristã de tempo, mesmo com as suas variações, influenciou diretamente todo o mundo ocidental. A compreensão de que o tempo tem um início, meio e fim era totalmente estranha às culturas pagãs.[3] A questão da história e do tempo é fundamental para o Cristianismo pela sua própria constituição.

O Cristianismo é uma religião de história.[4] Elimine, por exemplo, a historicidade dos 11 primeiros capítulos de Gênesis, e estaremos mutilando o sentido das Escrituras e, por isso mesmo, os fundamentos da fé cristã. Pelo fato de a Criação ter ocorrido na história, bem como a Queda, a promessa (Gn 3.15) e o Dilúvio, é que tudo o mais faz sentido. Se a Queda é apenas uma lenda, porque precisaríamos crer na encarnação, morte e ressurreição de Cristo como fato histórico? Bastaria a criação de outra lenda para, quem sabe, remediar o que fora inventado anteriormente.

A revelação dá-se na história. Qual o sentido de Deus falar e agir na história e, ao mesmo tempo, fornecer por meio de sua Palavra uma história mentirosa, cheia de equívocos e erros? Grande parte dos ensinamentos doutrinários das Escrituras provém de fatos históricos não apenas de proposições doutrinárias.[5] Na história vemos a demonstração prática dos ensinamentos de Deus, revelando os acertos e fracassos de suas criaturas em serem fiéis ao seu Senhor, e, ao mesmo tempo, a demonstração de sua misericórdia incompreensível que atinge o seu ápice na encarnação do Verbo.      O Cristianismo não se ampara em lendas, antes, em fatos os quais devem ser testemunhados, visto que têm uma relação direta com a vida dos que creem.[6] O Cristianismo é uma religião de fatos, palavra e vida. Os fatos, corretamente compreendidos, têm uma relação direta com a nossa vida. A fé cristã fundamenta-se no próprio Cristo: O Deus-Homem. Sem o Cristo Histórico não haveria Cristianismo.[7] A sua força e singularidade estão neste fato, melhor dizendo: na pessoa de Cristo, não simplesmente nos seus ensinamentos.[8] O Cristianismo é o próprio Cristo. A encarnação é toda e inclusivamente missionária: o Verbo fez-se carne e habitou entre nós (Jo 1.14). É por isso também, que o Cristianismo é uma religião de memória, relatando os feitos de Deus e desafiando o povo a reafirmar a sua fé a partir do rememorar dos atos de Deus


[1]Agostinho, Confissões, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, v. 6), 1973, XI.14.17. p. 244.

[2]Francis A. Schaeffer, O Deus que intervém,  2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 146.

[3]Cf. Gene Edward Veith, Jr, De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 22-23.

[4] Veja-se a exposição de Alan Richardson, Así se hicieron los Credos: Una breve introducción a la historia de la Doctrina Cristiana, Barcelona: Editorial CLIE, 1999, p. 15ss.

[5] Veja-se, por exemplo: Francis A. Schaeffer, Nenhum conflito final: a Bíblia sem erro em tudo o que ela afirma, Brasília, DF.: Monergismo, 2017, p. 13-33.

[6] Veja-se: F.A. Schaeffer, O Deus que intervém, São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 250-251.

[7] Georges Duby (1919-1996), dentro de uma perspectiva puramente histórica, admite: “O Cristianismo, que impregnou fundamentalmente a sociedade medieval, é uma religião da história. Proclama que o mundo foi criado num dado momento e que, num outro, Deus fez-se homem para salvar a humanidade. A partir disso, a história continua e é Deus quem a dirige” (Georges Duby, Ano 1000, ano 2000, na pista de nossos medos, São Paulo: Editora UNESP;  Imprensa Oficial do Estado, 1999, p. 16). “Os historiadores insistiram com justeza sobre o fato de que o cristianismo é uma religião histórica, ancorada na história e se afirmando como tal” (Jacques Le Goff, Tempo: In: Jacques Le Goff; Jean-Claude Schmitt, coords. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Bauru,SP.; São Paulo, SP.: Editora da Universidade Sagrado Coração; Imprensa Oficial do Estado, 2002, v. 2, p. 534). “O cristianismo, como também a religião de Israel, da qual ele nasceu, se apresenta como uma religião histórica de forma absolutamente concreta, em comparação à qual nenhuma das outras religiões do mundo pode se equiparar – nem mesmo o Islã, apesar de este se aproximar mais do cristianismo e do judaísmo, nesse sentido, que qualquer outra religião” (Christopher Dawson, Dinâmicas da História no Mundo,  São Paulo: É Realizações Editora, 2010, p. 343). Do mesmo modo: Marc Bloch, Apologia da história, ou, O ofício do historiador, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, p. 58. Veja-se também: Gordon H. Clark, Uma visão cristã dos homens e do mundo, Brasília, DF.: Monergismo, 2013, p. 85, 92.

[8]Veja-se: Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 23ss. “Qualquer coisa que se apresente como cristianismo, mas que não insista na absoluta e essencial necessidade de Cristo, não é cristianismo. Se Ele não for o coração, a alma e o centro, o princípio e o fim do que é oferecido como salvação, não é a salvação cristã, seja lá o que for” (D. M. Lloyd-Jones, O supremo propósito de Deus: Exposição sobre Efésios 1.1-23, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 143). “O evangelho nos confronta com fatos. Ele se baseia completamente numa pessoa; está fundamentado em fatos definidos que ocorreram ao longo da história. (…) Ele me conduziu por entre os fatos, ao longo do túnel das trevas em direção à aurora que ilumina a outra extremidade” (D.M. Lloyd-Jones, Não se perturbe o coração de vocês, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2016, p. 29). Veja-se Alister E. McGrath, A gênese da doutrina: fundamentos da crítica doutrinária, São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 195ss.

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (7)

C. Sim, contudo…

 Agostinho (354-430), dentro de outro contexto histórico, quando o Império Romano já não era visto como “inimigo”, tem uma posição mais equilibrada do uso da cultura clássica. Ele valoriza a Filosofia. Contudo, entende que nem todos os chamados filósofos o são de fato, visto que o filósofo é aquele que ama a sabedoria. “Pois bem – argumenta Agostinho –, se a sabedoria é Deus, por quem foram feitas todas as coisas, como demonstraram a autoridade divina e a verdade, o verdadeiro filósofo é aquele que ama a Deus”.[1]

Em outro lugar, partindo de exemplos bíblicos, instrui-nos quanto à possibilidade de nos valer de recursos vários, mesmo provenientes, dos pagãos:

Os que são chamados filósofos, especialmente os platônicos, quando puderam, por vezes, enunciar teses verdadeiras e compatíveis com a nossa fé, é preciso não somente não serem eles temidos nem evitados, mas antes que reivindiquemos essas verdades para nosso uso, como alguém que retoma seus bens a possuidores injustos.[2]

De fato, verificamos que os egípcios não apenas possuíam ídolos e impunham pesados cargos a que o povo hebreu devia abominar e fugir, mas tinham também vasos e ornamentos de ouro e prata, assim como quantidade de vestes. Ora, o povo hebreu, ao deixar o Egito, apropriou-se, sem alarde, dessas riquezas (Ex 3.22), na intenção de dar a elas melhor emprego. E não tratou de fazê-lo por própria autoridade, mas sob a ordem de Deus (Ex 12.35-36). E os egípcios lhe passaram sem contestação esses bens, dos quais faziam mau uso.

Ora, dá-se o mesmo em relação a todas as doutrinas pagãs. Elas possuem, por certo, ficções mentirosas e supersticiosas, pesada carga de trabalhos supérfluos, que cada um de nós, sob a conduta de Cristo, ao deixar a sociedade dos pagãos, deve rejeitar e evitar com horror. Mas eles possuem, igualmente, artes liberais, bastante apropriadas ao uso da verdade e ainda alguns preceitos morais muito úteis. E quanto ao culto do único Deus, encontramos nos pagãos algumas coisas verdadeiras, que são como o ouro e a prata deles. Não foram os pagãos que os fabricaram, mas os extraíram, por assim dizer, de certas minas fornecidas pela Providência divina, as quais se espalharam por toda parte e das quais usaram, por vezes, a serviço do demônio. Quando, porém, alguém se separa, pela inteligência, dessa miserável sociedade pagã, tendo-se tornado cristão, deve aproveitar-se dessas verdades, em justo uso, para a pregação do Evangelho. Quanto às vestes dos egípcios, isto é, às formas tradicionais estabelecidas pelos homens, mas adaptadas às necessidades de uma sociedade humana, da qual não podemos ser privados nesta vida, será permitido ao cristão tomá-las e guardá-las a fim de convertê-las em uso comum.

Aliás, que outra coisa fizeram muitos de nossos bons fiéis? Não vemos sobrecarregado com ouro, prata, vestes tiradas do Egito, Cipriano, esse doutor suavíssimo e beatíssimo mártir? Com que quantidade, Lactâncio? E Victorino, Optato, Hilário, sem citar os que vivem ainda hoje? Com que quantidade, inumeráveis gregos o fizeram? E o que executou, em primeiro lugar, o fidelíssimo servo de Deus, Moisés, instruído com toda a sabedoria dos egípcios? (At 7.22)”.[3]

Contudo, à frente reconhece a superioridade das Escrituras sobre todas as demais coisas:

Quanto é pequena a quantidade de ouro, prata e vestes tirada do Egito por esse povo hebreu em comparação com as riquezas que lhe sobrevieram em Jerusalém, e que aparecem sobretudo com o rei Salomão (1Rs 10.14-23), assim é igualmente pequena a ciência – se bem que útil – recolhida nos livros pagãos, em comparação com a ciência contida nas divinas Escrituras. Porque tudo o que um homem tenha aprendido de prejudicial alhures, aí está condenado, e tudo o que aprendeu de bom, aí está ensinado. E quando cada um tiver encontrado tudo o que aprendeu de proveitoso em outros livros, descobrirá muito mais abundantemente aí. E o que é mais, o que não aprendeu em nenhuma outra parte, somente encontrará na admirável superioridade e profundidade destas Escrituras.[4]

A linha de avaliação crítica de cada contribuição,[5] conforme adotada por Agostinho parece ter prevalecido;[6] afinal, o apóstolo Paulo também se valera das contribuições de rabinos judeus e de pagãos que os ajudavam em sua argumentação, sem, contudo, ser influenciado por seus ensinamentos. Assim permanece a consciência de que todas as coisas provêm de Deus e, que as concepções verdadeiras da realidade – ainda que nos lábios de ímpios (Cf. At 17.28;Tt 1.12) –, podem ser instrumentos úteis para a elaboração e transmissão da verdade divina. Isto porque qualquer tipo de conhecimento parte de Deus, que é a sua fonte inesgotável. Portanto, toda verdade é proveniente de Deus, havendo inclusive pontes entre o que pensadores pagãos disseram e a plenitude da verdade conforme revelada nas Escrituras.[7]

     No entanto, esta questão voltaria a estar no auge das discussões entre os puritanos[8] a respeito da formação dos Ministros.[9]

Maringá, 07 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Agostinho, A Cidade de Deus, 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1990, v. 1, VIII.1.

[2] Devemos nos lembrar de que Agostinho aventa a possibilidade de Platão ter tido contato com as Escrituras (Agostinho, A Cidade de Deus, 2. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1990, (v. 1), VIII.11). Acredita na possibilidade de Platão ter tido contato com o profeta Jeremias no Egito (Santo Agostinho, A Doutrina Cristã, São Paulo: Paulinas, 1991, II.29. p. 135). (Há outra edição em português: Santo Agostinho, A doutrina cristã: Manual de exegese e formação cristã, São Paulo: Paulus (Patrística; 17), 2002).

[3] Santo Agostinho, A Doutrina Cristã, II.41. p. 149-151.

[4] Santo Agostinho, A Doutrina Cristã, II.43. p. 153-154. Para uma abordagem mais completa das opiniões do “Pais da Igreja”, vejam-se: Henri-Irénée Marrou, História da Educação na Antiguidade,5. reimpr. São Paulo: EPU. 1990, p. 484ss; Etienne Gilson, A Filosofia na Idade Média,São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 1ss; Ruy A. da Costa Nunes, História da Educação na Antiguidade Cristã,São Paulo: EPU/EDUSP. 1978, p. 5ss; Philotheus Boehner; Etienne Gilson, História da Filosofia Cristã, 3. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1985, p. 35; Battista Mondin, Curso de Filosofia, São Paulo: Paulinas, 1983, v. 1, p. 216-222. É muito interessante também, a obra de Charles Norris Cochrane, Cristianismo y Cultura Clásica, (2. reimpresión), México: Fondo de Cultura Económica, 1992, p. 213ss.

[5] Ver: Alister E. McGrath, Teologia, sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, p. 52-54.

[6]“Foi a fórmula de servidão (ciência/filosofia como serva da teologia) de Agostinho, e não o discurso retórico de Tertuliano que moldou a relação entre a cristandade e as ciências naturais durante a Idade Média e para além dela” (David C. Lindberg, O destino da ciência na cristandade patrística e medieval: In: Peter Harrison, org. Ciência e religião,  São Paulo: Editora Ideias & Letras, 2014, p. 44).

[7]Essas pontes evidenciam-se de modo transparente no comentário feito no segundo século, por Justino: “…. se há coisas que dizemos de maneira semelhante aos poetas e filósofos que estimais, e outras de modo superior e divinamente, e somos os únicos que apresentamos demonstração, por que nos odeiam injustamente mais do que a todos os outros? Assim, quando dizemos que tudo foi ordenado por Deus, parecerá apenas que enunciamos um dogma de Platão; ao falar sobre conflagração, outro dogma dos estoicos; ao dizer que são castigadas as almas dos iníquos que, ainda depois da morte, conservarão a consciência, e que as dos bons, livres de todo castigo, serão felizes, parecerá que falamos como vossos poetas e filósofos; que não se devem adorar obras de mãos humanas, não é senão repetir o que disseram Menandro, o poeta cômico, e outros com ele, que afirmaram que o artífice é maior do que aquele que o fabrica” (Justino de Roma, I Apologia, 20.3-5. p. 37-38).

[8] Veja-se também a citação nesta mesma direção de alguns puritanos em Leland Ryken, Santos no Mundo, São José dos Campos, SP.: FIEL, 1992, p. 177-179.

[9]Cf. R. Hooykaas, A Religião e o Desenvolvimento da Ciência Moderna, Brasília, DF.: Editora Universidade de Brasília, 1988, p. 186ss.