Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (11)

A graça da fé e do serviço

 

A Igreja é a comunidade formada pelo próprio Deus, sendo constituída por pessoas que tiveram e têm, pela graça de Deus, a fé salvadora depositada unicamente em Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, a igreja é constituída pelo povo que foi chamado para servir.

 

Na Igreja vemos a graça da salvação e a graciosidade do serviço. Servir é graça (2Co 8.4).[1] A resposta cristã à graça de Deus, é uma fé Cristocêntrica, que se concretiza em gratidão e serviço.

 

O mistério maravilhoso e insondável, é que a nossa resposta também é graça. Por isso, podemos afirmar que o lema da Reforma Somente pela Graça, significa dizer que toda honra e glória pertencem a Deus.[2] Esta é uma das maravilhosas doutrinas das Escrituras.[3]

 

“No Novo Testamento, ninguém vinha à Igreja simplesmente para ser salvo e feliz, mas para ter o privilégio de servir ao Senhor. E nós deveríamos ter diante de nós, o benefício que recebemos de servir e trabalhar na Igreja”, acentua com precisão Karl Barth (1886-1968).[4]

 

Todos os crentes recebem do Senhor talentos para servir nessa igreja. À luz do Novo Testamento, é inconcebível a existência de um cristão sem algum dom da graça.[5]Por sua vez, os dons recebidos têm muito a ver com as habilidades com as quais nascemos, mas, que na realidade, foram dadas também por Deus.  Portanto, ensina Calvino, “Sejam quais forem os dons que possuamos, não devemos ensoberbecer-nos por causa deles, visto que eles nos põem sob as mais profundas obrigações para com Deus”.[6]

 

O que quero enfatizar, é que a raiz da palavra graça, é a mesma da palavra dom, no grego xa/rij, daí podermos falar da Igreja, como uma comunidade carismática, visto ser ela constituída daqueles que receberam a graça da fé e o dom para servir.

 

Mas, o que significa graça?[7] Graça, de forma mais ampla, incluído o conceito de misericórdia, pode ser definida como um favor imerecido, manifestado livre e continuamente por Deus aos pecadores que se encontravam em um estado de depravação e miséria espirituais, merecendo o justo castigo pelos seus pecados.[8] (Rm 4.4/Rm 11.6; Ef 2.8,9).[9]

 

No capítulo 4 da Epístola aos Efésios, Paulo trata de modo especial da unidade da Igreja dentro da variedade de funções. Assim, está implícita a figura tão cara a Paulo, a da Igreja como Corpo de Cristo, mostrando que o segredo do bom funcionamento do corpo é a utilização adequada de todas as suas partes.

 

Organicamente, cada membro, por mais insignificante que nos possa parecer, tem um papel importante a desempenhar dentro do equilíbrio do todo. Certamente, existem diferenças de beleza e elegância entre nossos órgãos, todavia, todos são essenciais.

 

Do mesmo modo, na Igreja de Cristo, ainda que haja diferenças entre nós, e não sejamos considerados pelos homens como dignos de algum valor, o fato é que todos somos essenciais no serviço do Reino: Devemos frisar, no entanto, que não somos ontologicamente essenciais; antes, Deus, por graça nos tornou essenciais no seu Reino e, por isso, agora o somos.

 

Maringá, 15 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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[1]“Pedindo-nos, com muitos rogos, a graça (xa/rij) de participarem da assistência aos santos” (2Co 8.4).

[2] Vejam-se: James M. Boice, Fundamentos da Fé Cristã: Um manual de teologia ao alcance de todos,  Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2011, p. 449; D.M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 125, 127.

[3] Veja-se: C.H. Spurgeon, El Tesoro de David, Barcelona: Libros CLIE, 1989, v. 1, (Sl 3.8), p. 27.

[4] Karl Barth, The Faith of the Church: A commentary on the Apostle’s Creed according to Calvin’s Catechism, Great Britain: Fontana Books, 1960, p. 116.

[5] Veja-se: H.-H. Esser, Graça: In:  Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 2, p. 322.

[6] João Calvino, Efésios, (Ef 4.7), p. 113.

[7] Trato desse assunto de forma mais abrangente em meu livro: A Soberania de Deus e a Responsabilidade humana, Goiânia, GO.: Cruz, 2016.

[8] Vejam-se outras definições em: A.W. Pink, Os Atributos de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985, p. 69; Idem., Deus é Soberano, São Paulo: Fiel, 1977, p. 24; A. Booth, Somente pela Graça, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1986, p. 31; João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 5.15), p. 193; R.P. Shedd, Andai Nele, São Paulo: ABU., 1979, p. 15; W. Hendriksen, 1 y 2 TimoteoTito, Grand Rapids, Michigan: S.L.C., 1979, (Tt 2.11), p. 419; L. Berkhof, Teologia Sistemática, p. 74; W. Barclay, El Pensamiento de San Pablo, Buenos Aires: La Aurora, 1978, p. 154; L. Boettner, Predestinación, Grand Rapids, Michigan: S.L.C., (s.d.), p. 258; D.M. Lloyd-Jones, Por que Prosperam os Ímpios, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1983, p. 103; J.I. Packer, O Conhecimento de Deus, São Paulo: Mundo Cristão, 1980, p. 120; Tom Wells, Fé: Dom de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985, p. 101; Samuel Falcão, Predestinação, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1981, p.100-101; James Moffatt, Grace in the New Testament, New York: Ray Long & Richard R. Smith. Ind., 1932, p. 5; Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 146, 147; John Gill, “A Complete Body of Doctrinal and Practical Divinity,The Collected Writings of: John Gill, (CD-ROM), (Albany, OR: Ages Software, 2000), I.13, p. 195-196; John MacArthur, O Evangelho Segundo os Apóstolos, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2011, p. 72.

[9]“Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida” (Rm 4.4). “E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (Rm 11.6). 8Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; 9não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (10)

Comunidade carismática

 

Os cristãos não só professam crer no Espírito Santo, mas são também os receptores de Seus dons. – Charles Hodge.[1]

 

A igreja envolve variedade e unidade. Somos pessoas diferentes, com personalidades distintas, porém, fomos também criados à imagem de Deus. Somos a imagem de Deus, a despeito da queda. Fomos recriados em Cristo.  Temos a responsabilidade de viver como reflexo dessa imagem que nos caracteriza e nos aproxima grandemente de Deus. O Espírito Santo é o unificador da Igreja, aplicando em nossos corações o fruto da obra de Cristo, nos regenerando, transformando o nosso coração, nos possibilitando viver, por graça, em comunhão com o Senhor.

 

Stott (1921-2011) explica:

 

A igreja é uma, porque o Espírito habita em todos os crentes. A igreja é multifacetada, porque o Espírito distribui diferentes dons aos crentes. De forma que o dom do Espírito (que Deus nos dá) cria a unidade da igreja, e os dons do Espírito (que o Espírito dá) diversifica o ministério da igreja.[2]

 

A Igreja é uma comunidade carismática porque todos os seus membros receberam dons (xa/risma) (= “resultado de uma ação”, “prova de favor”, “benefício” ou “dádiva”)[3] para o serviço de Deus na Igreja. Os dons concedidos pelo Espírito, longe de servirem para confusão ou vanglória, devem ser utilizados com humildade (1Co 4.7/2Co 5.18),[4] para a edificação e aperfeiçoamento dos santos (1Co 12.1-31/Ef 4.11-14/Rm 12.3-8).[5]

 

Calvino acertadamente diz que “se a igreja é edificada por Cristo, prescrever o modo como ela deve ser edificada é também prerrogativa dele”.[6]

 

Do mesmo modo acentua Kuyper (1837-1920): “Os carismata ou dons espirituais são os meios e o poder divinamente ordenados pelos quais o Rei habilita a sua Igreja a realizar sua tarefa na terra”.[7]

 

O Carisma tem sempre um fim social: a Igreja; a comunhão dos santos.[8] E também, como elemento de ajuda na proclamação do Evangelho (Hb 2.3-4).[9]

 

Calvino trabalha insistentemente com este princípio:

 

As Escrituras exigem de nós e nos advertem a considerarmos que qualquer favor que obtenhamos do Senhor, o temos recebido com a condição de que o apliquemos em benefício comum da Igreja.

Temos de compartilhar liberalmente e agradavelmente todos e cada um dos favores do Senhor com os demais, pois isto é a única coisa que os legitima.

Todas as bênçãos de que gozamos são depósitos divinos que temos recebido com a condição de distribuí-los aos demais.[10]

 

O Espírito é soberano na distribuição dos dons. Eles não podem ser reivindicados (1Co 12.11,18), antes, devem ser recebidos como manifestação da graça de Deus e utilizados para a glória de Deus. Devemos cultivar os dons que recebemos (1Co 12.31), provavelmente no uso que fazemos dele em amor para a glória de Deus no serviço da igreja.

 

Maringá, 15 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Editora Hagnos, 2001, p. 391.

[2] John Stott. Batismo e Plenitude do Espírito Santo, 2. ed. (ampliada), São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 64.

[3] H. Conzelmann,  xa/risma: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 9, p. 403.

[4] “Ninguém possui coisa alguma, em seus próprios recursos, que o faça superior; portanto, quem quer que se ponha num nível mais elevado não passa de imbecil e impertinente. A genuína base da humildade cristã consiste, de um lado, em não ser presumido, porque sabemos que nada possuímos de bom em nós mesmos; e, de outro, se Deus implantou algum bem em nós, que o mesmo seja, por esta razão, totalmente debitado à conta da divina graça” (João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 4.7), São Paulo: Paracletos, 1996, p. 134-135).

[5] Obviamente, não estamos trabalhando aqui com as categorias de Max Weber (1864-1920), que define Carisma como “Uma qualidade pessoal considerada extracotidiana (…) e em virtude da qual se atribuem a uma pessoa poderes ou qualidades sobrenaturais, sobre-humanos ou, pelo menos, extracotidianos específicos ou então se a toma como enviada por Deus, como exemplar e, portanto, como ‘líder’” (Max Weber, Economia e Sociedade: Fundamentos da Sociologia Compreensiva, Brasília, DF.: Editora Universidade de Brasília, 1991, v. 1, p. 158-159). Como o próprio Weber explica, “O conceito de ‘carisma’ (‘graça’) foi tomado da terminologia do cristianismo primitivo” (Ibidem., p. 141). Weber tomou a palavra emprestada em Rudolph Sohm (1841-1917), da sua obra Direito Eclesiástico para a Antiga Comunidade Cristã (Cf. Ibidem., p. 141). A análise das questões relativas ao domínio carismático, “estão no centro das reflexões de Weber” (Julien Freund, A Sociologia de Max Weber, Rio de Janeiro: Forense, 1980, p. 184).

[6] J. Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 4.12), p. 125.

[7] Abraham Kuyper, The Work of the Holy Spirit, Chaattanooga: AMG. Publishers, 1995, p. 196.

[8] Veja-se: Frederick D. Bruner, Teologia do Espírito Santo, São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 229.

[9]3 Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? A qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram;  4 dando Deus testemunho juntamente com eles, por sinais, prodígios e vários milagres e por distribuições do Espírito Santo, segundo a sua vontade” (Hb 2.3-4). Veja-se: João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 2.4), p. 56.

[10]João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 36. “Qualquer habilidade que um fiel cristão tenha, deve dedicá-la ao serviço de seus companheiros crentes, como também submeter, com toda sinceridade, seus próprios interesses ao bem-estar comum da Igreja” (João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 36).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (9)

Herança gloriosa

 

Considerando que Deus já iluminara os olhos do coração dos efésios, Paulo ora no sentido de que eles pudessem entender a extensão da riqueza da glória de sua herança que nos foi outorgada definitivamente em Cristo, estando esta glória associada ao propósito final do seu chamamento.

 

Percebam então, que não há nenhum mal em pensar, ocupar a nossa mente com a herança graciosa que nos aguarda.  Se entendermos que a “celestialidade” e glória do céu estão não em um lugar, mas, em uma Pessoa, Jesus Cristo, devemos, sem dúvida, ambicionar ardentemente o céu.[1]

 

Aqui (Ef 1.18) Paulo retoma o que falara no verso 14, dizendo ser o Espírito Santo “o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef 1.14).[2]

 

Calvino está correto ao afirmar que “o conhecimento dos santos nunca é suficientemente puro, senão que alguns problemas turvam seus olhos, e a obscuridade os impede a que vejam com clareza”.[3] A dificuldade, portanto, não está na revelação de Deus, nos seus atos na história e no testemunho do Espírito, mas, em nossa incapacidade, fruto, por vezes, de nossa incredulidade, em enxergar o que Deus tem nos concedido.

 

No Novo Testamento além da associação natural do verbo herdar (klhronome/w), do substantivo herança (klhronomi/a) e do adjetivo herdeiro (klhrono/moj)[4] com o recebimento de posses da parte dos pais (Mt 21.37-38; Lc 12.13; Gl 4.30), encontramos, com maior ênfase, a conotação espiritual.

 

À luz do Novo Testamento podemos dizer que a oração de Paulo envolve a consciência de:

a) Vida eterna (Mt 19.29; Mc 10.17; Lc 10.25; 18.18; Tt 3.7; Hb 9.15),

b) Salvação (Ef 1.14,18; Cl 3.24; 1Pe 1.4; Hb 1.14/Hb 6.12/At 20.32),

c) Glória futura (Rm 8.17-18) e

d) Bênção escatológica (1Pe 3.9/Hb 12.17/Ap 21.7).

 

Devemos observar que todas estas heranças advêm de Cristo, visto que Ele é o herdeiro único e pleno de todas as coisas.

 

O escritor de Hebreus descrevendo aspectos da Revelação progressiva de Deus, pontifica com Jesus Cristo, a Palavra final de Deus:   “Nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro (klhrono/moj) de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (Hb 1.2).

 

Quando Paulo se despede dos presbíteros de Éfeso reunidos em Mileto, fala sobre os lobos ferozes que surgiriam na Igreja e que não poupariam o rebanho. No entanto, em sua advertência há uma palavra de grande consolo:

 

29 Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. 30 E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles. 31 Portanto, vigiai, lembrando-vos de que, por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um. 32Agora, pois, encomendo-vos ao Senhor e à palavra da sua graça, que tem poder para vos edificar e dar herança (klhronomi/a) entre todos os que são santificados. (At 20.29-32).

 

Paulo confia os presbíteros à Palavra da graça de Deus. Por meio da Palavra Deus nos edifica e nos conduz à herança entre os que são santificados. Os presbíteros não poderiam perder este alto privilégio, especialmente quando estivessem em dificuldades, lutando pela fé em meio à presença de lobos vorazes – falsos mestres – que, certamente com o apoio de muitas ovelhas ingênuas ou mal-intencionadas, seriam ouvidos, admirados e seguidos. Eles deveriam persistir no ensino da Palavra. Somente por meio dela a igreja.

 

Aqui há algo de excelsa magnitude: Somos herança de Deus e, ao mesmo tempo, feitura dele (Ef 2.10).[5] A igreja é o reflexo dos atos da Trindade. O Deus Trino atua de tal forma que a Sua igreja foi constituída e é preservada até a consumação definitiva da obra de Cristo, quando Ele será glorificado na Igreja e a Igreja nele:

 

Quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram, naquele dia (porquanto foi crido entre vós o nosso testemunho). Por isso, também não cessamos de orar por vós, para que o nosso Deus vos torne dignos da sua vocação e cumpra com poder todo propósito de bondade e obra de fé, a fim de que o nome de nosso Senhor Jesus seja glorificado em vós, e vós, nele, segundo a graça do nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo. (2Ts 1.10-12).

 

Sem dúvida, a Igreja de Deus é a herança de Cristo confiada pelo Seu Pai.

 

 

Maringá, 13 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] “Livremo-nos, pois, da espiritualidade que se orgulha de que é extraordinariamente pura porque não está interessada nem no céu nem no inferno. (…) Não hesito em asseverar que quanto mais perto estivermos de Cristo, mais meditaremos na glória que Ele preparou para nós. Esta é uma invariável e infalível prova da verdadeira espiritualidade” (D.M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 369).

[2]Sobre a herança dos filhos e o Espírito como penhor de nossa salvação, veja-se: Hermisten M.P. Costa, Efésios – O Deus bendito, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 86-89; 113-116.

[3]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.16), p. 40.

[4] Quanto à origem e emprego da palavra, vejam-se: W. Foerster; J. Herrmann, klh=roj, etc.: In: G. Kittel, ed. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 3, p. 758-785; J. Eichler, Herança: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 2, p. 364-371; G. Giacumakis Jr., Herança (Palavras): In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 3, p. 77; E.M. Blaiklock, Herança (Conceito): In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 3, p. 77-80; W. Barabas, Herdeiro: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 3, p. 80-81; J.H. Friedrich, klhrono/moj: In: Horst Balz; G. Schneider, eds. Exegetical Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, MI.: Eerdmans, 1999 (Reprinted), v. 2, p. 298-299.

[5]Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (8)

Olhos do coração iluminados para enxergar

 

No Novo Testamento, Paulo ora pelos irmãos de Éfeso:      

17Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria (sofi/a) e de revelação (a)poka/luyij) no pleno conhecimento (e)pi/gnwsij)[1] dele,18Iluminados (fwti/zw)[2] os olhos do vosso coração (kardi/a), para saberdes (oi)=da) qual é a esperança do seu chamamento (klh=sij),[3] qual a riqueza da glória da sua herança (klhronomi/a) nos santos (Ef 1.17-18).

 

Mesmo os crentes efésios conhecendo a Deus, tendo uma dimensão real e maravilhosa de Sua majestade, Paulo ora no sentido de que eles tenham seus olhos iluminados, não para adquirir algo externo ou uma visão mística, antes, para enxergar aspectos grandiosos do propósito de Deus em sua vida, muitos dos quais já usufruímos ainda que sem consciência disso.

 

O apóstolo ora para que Deus ilumine “os olhos do vosso coração (kardi/a)” (18). Biblicamente, o coração denota a personalidade integral do homem[4] – envolvendo geralmente a emoção, o pensamento e a vontade.

 

O coração, que na linguagem veterotestamentária é usado de forma efetiva referindo-se ao homem todo, traz consigo o sentido de responsabilidade, visto que somente o homem age conscientemente.[5] Por isso, Deus exige de seus servos integridade de coração. Somos responsáveis diante de Deus por nossas palavras e atos. O coração aponta para “o homem essencial”.[6]

 

De fato, o coração é a sede essencial de nossa existência enquanto seres que pensam, sentem e agem. O que ocorre nele é determinante de nosso pensar e agir. Deus se agrada de atos que sejam a expressão de um coração totalmente devotado a Ele.[7]

 

O salmista Davi expressa o seu contentamento: “Agrada-me fazer a Tua vontade, ó Deus meu; dentro em meu coração está a Tua lei” (Sl 40.8). Salomão exorta: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Pv 4.23).

 

Deus fala por meio de Isaías: “Ouvi-me, vós que conheceis a justiça, vós, povo, em cujo coração está a minha lei” (Is 51.7).

 

Na primeira carta que Calvino escreveu depois de ter se fixado em Genebra (1536), alegra-se com o avanço da Reforma e a consequente diminuição da superstição e idolatria. Então diz: “Deus permita que os ídolos sejam erradicados também do coração”.[8]

 

Deus deseja o nosso coração, ou seja: a inteireza de nosso ser: “Dá-me filho meu, o teu coração, e os teus olhos se agradem dos meus caminhos” (Pv 23.26).

 

Bavinck (1854-1921) escreveu de modo sensível:

 

Assim como o coração no sentido físico é o ponto de origem e de força propulsora da circulação do sangue, assim também, espiritual e eticamente ele é a fonte da mais elevada vida do homem, a sede de sua autoconsciência, de seu relacionamento com Deus, de sua subserviência à Sua lei, enfim, de toda a sua natureza moral e espiritual. Portanto, toda a sua vida racional e volitiva tem seu ponto de origem no coração e é governada por ele.[9]

 

Deste modo, a oração de Paulo é no sentido de que Deus conceda aos efésios um entendimento lúcido e claro de seus privilégios em Cristo, conhecimento este que, longe de ser meramente intelectual, dominasse as suas emoções e modelasse a sua vontade de forma santa em direção a Deus.

 

Portanto, como igreja, não necessitamos de novas revelações, precisamos sim, ter os olhos abertos pela graça para que, com sabedoria e submissão, nos aprofundemos nestas verdades já reveladas; nas bênçãos que continuamente recebemos de Deus ainda que não as percebamos por uma insensibilidade pecaminosa e desleixo ou, simplesmente, porque as banalizemos (Ef 1.3). Por isso Paulo ora a Deus. Somente Deus, pelo Espírito, pode operar em nós esta capacitação espiritual.

 

O pecado que obscureceu os nossos olhos também nos tornou avessos a Deus. Somente por Deus poderemos ter um coração esclarecido para as verdades espirituais. Necessitamos, portanto, da regeneração de nossos corações para vermos a Deus em suas manifestações tão contundentes em sua revelação e em nossa vida.

 

Entretanto, é fundamental destacar, que não podemos simplesmente nos acostumar com a consciência dos privilégios que temos na vida cristã, precisamos nos aprofundar neles hoje, agora, neste estado de existência.

 

Paulo, então, já de início desperta a nossa atenção para o fato de que fomos chamados por Deus. A fé é a nossa resposta propiciada pelo próprio Deus para que atendamos ao Seu chamado eterno que se efetua na história e se concretizará na vida eterna: “Iluminados (fwti/zw) os olhos do vosso coração (kardi/a), para saberdes (oi)=da) qual é a esperança do seu chamamento (klh=sij), qual a riqueza da glória da sua herança (klhronomi/a) nos santos” (Ef 1.18).

 

 

Maringá, 13 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] E))pi/gnwsij = “conhecimento intenso”, “conhecimento correto”. *Rm 1.28; 3.20; 10.2; Ef 1.17; 4.13; Fp 1.9; Cl 1.9,10; 2.2; 3.10; 1Tm 2.4; 2Tm 2.25; 3.7; Tt 1.1; Fm 6; Hb 10.26; 2Pe 1.2,3,8; 2.20.

[2] foti/zw * Lc 11.36; Jo 1.9; 1Co 4.5; Ef 1.18; 3.9; 2Tm 1.10; Hb 6.4; 10.32; Ap 18.1; 21.23; 22.5.

[3] *Rm 11.29; 1Co 1.26; 7.20; Ef 1.18; 4.1,4; Fp 3.14; 2Ts 1.11; 2Tm 1.9; Hb 3.1; 2Pe 1.10.

[4] G. Ernest Wright (1907-1974) salienta que na doutrina de Israel sobre o homem, “o EU, ou a identidade, não está associado a qualquer faculdade particular, ou órgão do ser humano, quer seja sua natureza psíquica, seu espírito ou sua razão. O EU é a criatura total. Pensa-se no homem com ser volitivo e ativo. Se algum termo especial, mais que outro, sugere a ideia pessoal é a palavra ‘coração’, mas o ‘coração’ não é parte ou faculdade do homem” (G.E. Wright, A Doutrina Bíblica do Homem na Sociedade, São Paulo: ASTE., 1966, p. 137). Trato deste assunto com mais detalhes em meu livro, O Pai Nosso: Temas teológicos analisados a partir da oração ensinada por Jesus, São Paulo: Cultura Cristã, 2001.

[5]Walter Eichrodt, Teologia del Antiguo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1975, v. 2, p. 150.

[6] Conforme expressão de Vorländer. (H. Vorländer, Homem: In: Colin Brown, ed. ger., O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 2, p. 376). “O ‘coração do homem’ representa, portanto, o mais íntimo centro que é de importância vital; aquilo que é básico, central, substantivo, e de inescrutável essência” (J.M. Lower, Heart: In: Merril C. Tenney, gen. ed. The Zondervan Pictorial Encyclopaedia of the Bible, 5. ed. Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1982, v. 3, p. 58). Spykman segue linha semelhante: “O coração representa o centro unificador de toda a existência do homem, o ponto de concentração espiritual de todo nosso ser, o aspecto interior reflexivo que estabelece a direção a todas as relações de nossa vida. É a vertente de todos nossos desejos, pensamentos, sentimentos, de nosso agir, e de qualquer outra expressão da vida. É a fonte principal da qual flui todo movimento do intelecto do homem, de suas emoções, e de sua vontade, como também toda outra ‘faculdade’ ou modo de nossa existência. Em resumo, o coração é o mini-eu. O que tem meu coração me tem a mim, porém totalmente” (Gordon J. Spykman, Teología Reformacional: Un Nuevo Paradigma para Hacer la Dogmática, Jenison, Michigan: The Evangelical Literature League, 1994, p. 242).

[7]Veja-se: John Piper, Pense – A Vida da Mente e o Amor de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 126.

[8]Carta escrita ao seu amigo Francis Daniel no dia 13 de outubro de 1536. In: João Calvino, Cartas de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 30.

[9]Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 19.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (7)

Igreja herdeira e herança

 

No Salmo 17 Davi afirma que os homens mundanos tem valores e expectativas apenas terrenas: Homens mundanos, cujo quinhão  (חלק) (chêleq) é desta vida e cujo ventre tu enches dos teus tesouros; os quais se fartam ([b;f’) (saba`)[1]de filhos e o que lhes sobra deixam aos seus pequeninos” (Sl 17.14).

 

No Salmo 16, temos um contraste. Vejamos:

 

O período em que Davi fugia da perseguição sanguinária de Saul, foi muito profícuo. Ele pôde amadurecer em todos os sentidos e, é desta fase da sua vida que temos alguns salmos magistrais.

 

O Salmo 16, de sua autoria (At 2.25; At 13.35-37), possivelmente foi escrito nesta época. Davi está então longe de seus familiares, sem terra, é um foragido em seu próprio país, odiado por muitos, convivendo com homens que, pelo que parece, pouco conheciam a Deus.

 

Nesse difícil e insólito contexto, o salmista confessa com alegria ao seu próprio Senhor, tê-lo como herança, “recompensa”[2] e quinhão:[3]

 

2 Digo ao SENHOR: Tu és o meu Senhor; outro bem não possuo, senão a ti somente. (…)  5 O SENHOR é a porção (hn”m’) (manah)[4] da minha herança  (חלק) (chêleq) e o meu cálice; tu és o arrimo da minha sorte.  6 Caem-me as divisas em lugares amenos, é mui linda a minha herança (hl’x]n:) (nachalah)[5] (Sl 16,2,5,6).  

 

Davi, que de certa forma fora desterrado, declara ter Deus por herança. No deserto, quando poupa pela segunda vez a vida de Saul, diz a este: “…. Eles me expulsaram hoje para que eu não tenha parte na herança do Senhor, como que dizendo: Vai, serve a outros deuses” (1Sm 26.19).

 

Esta experiência não foi apenas de Davi. Como os levitas não herdariam nenhuma porção da Terra Prometida, sendo isso, aparentemente injusto, Deus mostra que além de lhes prover o sustento (Nm 18.20-32/Ez 44.28-31), se declara a sua herança: “Pelo que Levi não tem parte nem herança com seus irmãos; o SENHOR é a sua herança (hl’x]n:) (nachalah), como o SENHOR, teu Deus, lhe tem prometido” (Dt 10.9).

 

Sem dúvida nada é maior do que esse privilégio transcendente e concreto; infinito e pessoal: O Deus presente. Aquele que é “a realidade final”[6] de todas as coisas. Deus é o maior bem que podemos ter quer aqui, quer na eternidade.[7]

 

De modo semelhante, o salmista Asafe exclama: “Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em Quem me compraza na terra (…). Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança (חלק) (chêleq) para sempre” (Sl 73.25,26).

 

Essa certeza conduz o profeta a esperar confiantemente nele: “A minha porção (חלק) (chêleq) é o SENHOR, diz a minha alma; portanto, esperarei nele” (Lm 3.24).

 

No Antigo Testamento o povo de Israel é chamado de herança de Deus (Dt 9.29; [8]Dt 4.20; Ex 34.9; Sl 78.71; 94.5,14; 106.40), bem como a Terra Prometida (Sl 79.1).

 

A Palavra de modo surpreendente nos mostra que aqueles que têm a Deus por herança são herança de Deus. Dito de outro modo, Deus tem a sua Igreja como o seu povo peculiar e especial. Ninguém pode nos abater ou destruir. Somos o povo escolhido de Deus; a sua herança eterna, conquistada por Cristo Jesus. Deus nos preserva para si mesmo.

 

Por isso, o clamor de Davi: “Salva o teu povo, e abençoa a tua herança (hl’x]n:) (nachalah); apascenta-os, exalta-os para sempre” (Sl 28.9). Do mesmo modo, o salmista: “O Senhor não há de rejeitar o seu povo, nem desamparar a sua herança (hl’x]n:) (nachalah)(Sl 94.14).

 

Portanto, o salmista pode declarar de forma confiante: “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor, e o povo que ele escolheu para a sua herança (hl’x]n:) (nachalah) (Sl 33.12).[9]

 

Deus nos predestinou para si mesmo, a fim de que nos tornássemos seus filhos, “para louvor da glória de sua graça que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça” (Ef 1.6-7). Isso é magnífico. Nós em nossa pequenez, pecadores que somos, por graça, somos tomados por Deus como sua herança para sempre. Deus se alegra em ter a Igreja como sua propriedade santificada para sempre. Esta verdade escapa à nossa compreensão e imaginação. Somente podemos aprender isso por meio da Palavra de Deus. Somos herdeiros de Deus e, o mais fascinante de tudo: somos herança de Deus.

 

 

São Paulo, 12 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Acesse todos os textos dessa série aqui.


[1] Dependendo do contexto, a palavra tem o sentido de satisfazer as necessidades físicas e espirituais. Assim, significa, satisfação, plenitude, abundância, fartura. (Veja-se: Bruce K. Waltke, Sabar: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1463-1465). Contrastando consigo mesmo – o verbo “fartar” no verso 14 é o mesmo traduzido por “satisfazer” no 15 – ele revela sua fé para além desta vida, apontando para a glorificação futura: “Eu, porém, na justiça contemplarei a tua face; quando acordar, eu me satisfarei ([b;f’) (saba`) com a tua semelhança” (Sl 17.15).

[2] Ec 2.10.

[3] Sl 145.5.

[4] A palavra era empregada para as porções especiais dos animais sacrificados, que eram separadas para os sacerdotes e levitas (2Cr 31.4; Ne 12.44,47; 13.10).

[5] Herança concedida por Deus ao seu povo (Sl 28.9; 33.12; 47.4; 105.11).

[6] Francis A. Schaeffer, O Grande Desastre Evangélico. In: Francis A. Schaeffer, A Igreja no Século 21, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 272.

[7]Veja-se: Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 17 e 25.

[8] Todavia, são eles o teu povo e a tua herança, que tiraste com a tua grande força e com o braço estendido” (Dt 9.29).

[9]Sobre Israel como herança de Deus, Vejam-se: Dt 4.20; 1Sm 10.1; 2Sm 21.14; Sl 33.12; 74.2; 78.62; 94.5,14; 106.40; Is 19.25; 47.6; 63.17; Jr 12.14; Jl 2.17; 3.2. Deus disciplina a sua herança: Jr 12.7-9; Jl 2.17; os filhos como herança do Senhor: Sl 127.3; herança dada por Deus: Sl 135.12; 136.21-22; Jr 3.18; proteção: Is 54.17; 58.14.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (6)

2. O Espírito e a igreja

 

Quando pensamos em igreja instituída em geral somos levados a espiritualizá-la, como uma entidade ideal fora da história em uma dimensão diferente ou, materializá-la, transformando-a em uma empresa onde só importam as questões numéricas e quantitativas. Desse modo, é equação é bastante simples: quanto maior a igreja, melhor.

Definição de Igreja

Podemos definir a Igreja como sendo a comunidade de pecadores regenerados, que pelo dom da fé, concedido pelo Espírito Santo, foram justificados, respondendo positivamente ao chamado divino, o qual fora decretado na eternidade e efetuado no tempo, e agora vivem em santificação, proclamando, quer com sua vida, quer com suas palavras, o Evangelho da Graça de Deus, até que Cristo venha.

 

O Espírito e a nossa confissão

Conforme já enfatizamos em diversos lugares, sabemos biblicamente que sem o Espírito não haveria Igreja. Isso, porque não haveria crente em Cristo. A Igreja é composta por pessoas que confessam o Senhorio de Cristo. Esta confissão só é possível pela ação poderosa do Espírito (Cf. 1Co 12.3/Rm 10.9-10).[1] A igreja é o reflexo dos atos da Trindade.

 

A relação entre Cristo e a igreja transcende qualquer analogia humana. As analogias são feitas para expressar aspectos, ainda que limitados, dessa realidade inexaurível em termos compreensíveis a nós em nossa limitação. O Deus Trino atua de tal forma que a Sua igreja foi constituída e é preservada até a consumação definitiva da obra de Cristo, quando Ele será glorificado na Igreja e a Igreja nele:

 

Quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram, naquele dia (porquanto foi crido entre vós o nosso testemunho). Por isso, também não cessamos de orar por vós, para que o nosso Deus vos torne dignos da sua vocação e cumpra com poder todo propósito de bondade e obra de fé, a fim de que o nome de nosso Senhor Jesus seja glorificado em vós, e vós, nele, segundo a graça do nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo. (2Ts 1.10-12).

 

A Igreja é a comunidade daqueles que foram chamados do mundo para Deus pela operação do Espírito, daqueles “que tem a mesma fonte genética, o sangue de Cristo, o novo nascimento”, resume Ribeiro (1919-2003).[2]

 

O Espírito regenerador

 

A Igreja é uma comunidade de pecadores regenerados. A regeneração é efetuada pelo Espírito (Cf. Jo 3.3,5; Tt 3.5).[3] Logo, sem a ação regeneradora do Espírito, não existiriam cristãos nem Igreja.

 

O Espírito é a alma da Igreja, Quem lhe dá ânimo e vitalidade. É o Espírito Quem dirige os homens à porta de salvação que é Cristo (Jo 10.9).[4]  Conforme vimos acima, durante toda a história o Espírito tem operado poderosamente constituindo a igreja de Deus, “o corpo místico” de Cristo

 

Boanerges Ribeiro (1919-2003) acentua a especificidade e especialidade da Igreja:

 

A Igreja resulta de uma ação especial, não “rotineira”, de Deus entre os homens. O que organiza a Igreja, o que faz dos indivíduos de outra forma dispersos uma comunidade é a presença permanente de uma pessoa certa e determinada, o Santo Espírito Divino.[5]

São Paulo, 11 de junho de 2019

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Acesse todos os textos dessa série aqui.

 


[1]Por isso, vos faço compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus afirma: Anátema, Jesus! Por outro lado, ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo(1Co 12.3). Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação(Rm 10.9-10).

[2]Boanerges Ribeiro, O Senhor que Se Fez Servo, São Paulo: O Semeador, 1989, p. 46.

[3]3 A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (…) 5 Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus(Jo 3.3,5). “Não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo(Tt 3.5).

[4] Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem(Jo 10.9).

[5]Boanerges Ribeiro, O Senhor que Se Fez Servo, São Paulo: O Semeador, 1989, p. 36.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (5)

1.3. É preservada por Cristo (Continuação)

 

É extremamente difícil combater a um inimigo invisível.[1]  Satanás procura confundir a Igreja, usando para isto várias táticas; uma delas é semear o joio no meio do trigo, para que não saibamos quem é quem e, na pressa de distinguirmos um do outro, percamos parte do trigo e fiquemos com o joio (Mt 13.24-30; 36-43).

 

No entanto, a despeito de nossa debilidade, Deus preserva a sua Igreja. Satanás usa de suas artimanhas para destruir a Igreja de Deus, entretanto, ela é sustentada pelo próprio Cristo. “O diabo não é tão contra nós como é contra Deus. Nada somos aos olhos seus, exceto que somos o povo de Deus. A paixão e ambição consumidora do diabo é danificar e destruir a obra de Deus”, escreve Lloyd-Jones (1899-1981).[2]

 

Satanás é muito poderoso. Sozinhos jamais poderíamos vencê-lo. Servos de Deus, em tempos diferentes, destacaram este ponto:

 

Aqueles que a tal combate se preparam na confiança de si próprios não compreendem suficientemente com quão aguerrido e bem equipado adversário se tenham de haver.[3]

Existe um inimigo superior, inevitável, a quem é totalmente impossível resistir se Deus não vêm em nosso auxílio.[4]

O homem que ainda não descobriu o poder da tentação é o mais típico novato em questões espirituais (…). O poder do inimigo contra nós somente é inferior ao poder de Deus. Ele é mais poderoso que qualquer homem que jamais viveu; e os santos do Velho Testamento caíram diante dele.[5]

 

O nosso conforto é-nos assegurado pelas Escrituras, conforme escreve Paulo e Pedro respectivamente: “Todavia, o Senhor é fiel; ele vos confirmará e guardará do Maligno” (2Ts 3.3). “Sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo. Nisto exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações” (1Pe 1.5).

 

A História é o palco das artimanhas de Satanás contra a Igreja de Deus, mas, também, é a descrição da vitória de Cristo conforme o enredo escrito na eternidade. O mundo é o teatro de Deus e Ele mesmo tem o controle perfeito de todo o enredo e de todas as pessoas que ali estão. Satanás já condenado está.

 

            Em nossos dias, a Igreja enfrenta uma batalha ideológica, para a qual devemos estar preparados, tendo como elemento norteador a Palavra de Deus, que nos apresenta valores eternos que não se confundem.

 

Há também o fascínio do relativismo, subjetivismo, pragmatismo, toleracionismo, entre outros ismos que assolam a igreja. Um mal evidente é a falta de relevância do sentido de verdade. Onde não existe verdade, não há pecado.[6]

 

Em uma sociedade pragmática e imediatista onde o verdadeiro é o que funciona, e me proporciona mais conforto e sucesso, já não existe interesse pela verdade. Ela tornou-se irrelevante.[7] No entanto, a busca da verdade pela verdade é uma característica fundamental da Igreja.

 

Já que cabe à Igreja o privilégio de proclamar a Palavra, ela tem de compreender as Escrituras para anunciá-la com fidelidade e vivenciá-la para proclamar com autoridade. Por isso, a Igreja é chamada de “coluna e baluarte da verdade”, porque a ela foram confiados os oráculos de Deus (Rm 3.2/1Tm 3.15).

 

A Igreja como baluarte da verdade está amparada no fundamento que consiste na obra de Deus realizada por intermédio de Cristo (Mt 16.18/Ef 2.20).[8] “Escrevo-te estas coisas, esperando ir ver-te em breve; para que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna (stu=loj)[9] e baluarte (* e(drai/wma) da verdade (a)lh/qeia) (1Tm 3.14-15).

 

Bavinck (1854-1921) aplica o conceito paulino:

 

A Igreja deve ser o pilar e o terreno da verdade (1Tm 3.15), ou seja, deve ser um pedestal e uma fundação sobre a qual a verdade seja apresentada, mantida e estabelecida contra o mundo. Quando a Igreja negligencia e se esquece do seu dever com relação à Escritura ele se torna remissa em seu dever e mina sua própria existência.[10]

 

Deus se dignou em preservar a verdade por meio da sua Igreja. Quando ela falha, neste propósito, ainda que a verdade não seja abalada em sua essência, ela se torna fragilizada em sua exposição e aceitação.

 

A igreja enfrenta aqui dois perigos evidentes:

a) A “barganha” com o mundo. Na pretensão de ser ouvida de forma impactante, negocia os seus valores por meio da assimilação dos valores seculares. Na adoção desta prática, perde totalmente a sua relevância como voz profética de Deus para a sua geração. A igreja é chamada a ser o sinal da presença de Deus no mundo e na história. A sua diferença deveria ser evidente não pelo fato de querer ser diferente ou ser igual, mas, porque em sua natureza ela não é obra de carne e sangue, mas do Espírito. Por isso, a sua existência não pode negar a sua essência.

 

No Antigo Testamento, “o santuário era o penhor ou emblema do pacto de Deus”, argumenta Calvino.[11] Era o sinal concreto e visível da presença de Deus que, obviamente, ultrapassava em muito os limites do templo.

 

Assim como no Antigo Testamento, o templo era o símbolo da presença de Deus no meio de Israel, a Igreja, constituída de todos os eleitos de Deus, deve refletir, na atualidade, a realidade da presença dele entre os homens. A Igreja é o testemunho da presença e da atuação de Deus entre os homens. A Igreja é o reflexo da presença de Deus.

 

A Igreja diz ao mundo mediante a sua própria realidade histórica e testemunho, que ainda há esperança de salvação. A Igreja como luz do mundo e sal da terra, constitui-se numa bênção inestimável para toda a humanidade.[12]

 

A Igreja, portanto, é a presença de Jesus Cristo por meio de seu povo, em prol do mundo. Embora provisória, essa presença é real, humana e histórica. Cristo age por meio da Igreja realizando sua obra e confirmando sua vitória. Nesse sentido, não há salvação fora da Igreja, desde que esta se disponha a servir e glorificar Jesus Cristo.[13]

 

Portanto, a igreja não foi constituída para barganhar com o mundo, antes para apresentar em sua vida e testemunho o Evangelho de Jesus Cristo e o seu poder transformador.

 

b) A “privatização” da fé: a minha religião e nada mais. Criamos aqui uma espécie de tribalismo religioso onde cultivamos a nossa fé intramuros e nada temos a ver com o que se passa “lá fora”, exceto, quem sabe, por meio da internet ou televisão. Neste caso, a palavra de ordem é a autopreservação. Queremos apenas preservar nossos valores, associando o progresso a uma maior semelhança conosco. No profeta Jonas, temos um tipo ideal desta compreensão equivocada.[14]

 

Kuyper (1837-1920) nos alerta quanto a esse perigo de forma eloquente:

 

(…) Muito menos, devem os crentes se retirar para seus nichos eclesiásticos, e, satisfeitos com o simples ato de possuírem fé, deixar nas mãos dos descrentes a construção do templo da ciência, como se esta não lhes dissesse respeito. Os cristãos não podem agir assim porque o empreendimento científico não é um exercício do orgulho humano, mas, sim, um dever que o próprio Deus nos delegou.[15]

 

A igreja é chamada a atuar no mundo, tendo uma compreensão missionária de sua essência e existência. Esta compreensão programática engloba uma agenda que envolve uma mudança de perspectiva em nossa relação familiar, profissional, social, econômica, política e religiosa. A relevância da verdade sustentada pela igreja deve se manifestar em todas as esferas.

 

A Igreja tem, portanto, a grande responsabilidade de estudar a Palavra, proclamá-la e vivenciá-la. Ela é o meio de demonstração desta verdade (Ef 3.8-11).[16] A nossa responsabilidade primeira é com a verdade de Deus.[17] Um desafio para a igreja, portanto, é pregar esta verdade com integridade, profundidade, firmeza e humildade.[18]

 

A relevância da igreja está na essência de sua proclamação. Deus se dignou em preservar a verdade por meio da Igreja. Deus continua e continuará preservando o Seu povo.

 

Maringá, 6 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

*Acesse todos os textos dessa série aqui.


[1]“Quando o inimigo é invisível, maior é o perigo” (João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 6.12), p. 190). “A vida cristã não é um mar de rosas; é um campo de batalha, na qual o crente tem de lutar continuamente pela sua vida. A primeira regra para o sucesso é: conheça o seu inimigo” (J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 76-77).

[2]D.M. Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 85.

[3]J. Calvino, As Institutas, III.20.46.

[4]Karl Barth, La Oración, Buenos Aires: La Aurora, 1968, p. 86.

[5]D.M. Lloyd-Jones, Por Que Prosperam os Ímpios?, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985, p. 16-17. Em outro lugar, Lloyd-Jones diz: “Se você não reconhecer que, todo o tempo em que estiver nesta vida e neste mundo, haverá este terrível poder infernal dentro de você, ao seu redor e sobre você, então será um mero neófito nestes assuntos! (…) O primeiro passo é que o homem tem que reconhecer e confessar sua pecaminosidade” (David M. Lloyd-Jones, O Clamor de um Desviado: Estudos sobre o Salmo 51, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1997, p. 16-17). “Só o cristão imaturo pensa que pode lidar com a tentação”. Somente este é que diz: “‘Isto nunca vai acontecer comigo. Não caio nessa’” (Tony Evans, Chega de Ceder à Tentação: In: Bruce H. Wilkinson, ed. ger. Vitória sobre a Tentação, 2. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p. 177).

[6] Para um estudo mais abrangente destas questões, veja-se: Hermisten M.P. Costa, Introdução à Cosmovisão Reformada, Goiânia, GO.: Editora Cruz, 2016.

[7] Veja-se: William L. Craig, Apologética Cristã para Questões difíceis da vida, São Paulo: Vida Nova, 2010, p. 11.

[8] Ver: J. Blunck, Firme: In: Colin Brown, ed. ger., O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 2, p. 246.

[9] * Gl 2.9; 1Tm 3.15; Ap 3.12; 10.1.

[10]Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste,SP.: SOCEP., 2001, p. 129.

[11] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 28.1), p. 601. Veja-se também: João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 27.7), p. 532-533.

[12]Veja-se: R.B. Kuiper, El Cuerpo Glorioso de Cristo, Grand Rapids, Michigan: Subcomision Literatura Cristiana de la Iglesia Christiana Reformada, 1985, p. 242-247.

[13]Jacques de Senarclens, Herdeiros da Reforma, São Paulo: ASTE, 1970, p. 357.

[14]Veja-se: Tullian Tchividjian, Surpreendido pela graça, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 99-100.

[15] A. Kuyper, Sabedoria e prodígios: graça comum na ciência e na arte, Brasília, DF.: Monergismo, 2018, p. 93.

[16] 8 A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo 9 e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas, 10 para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais, 11 segundo o eterno propósito que estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Ef 3.8-11).

[17] Ver: Wayne A. Mack; David Swavely, A Vida na Casa do Pai, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 17-24.

[18]Veja-se: Joshua Harris, Ortodoxia humilde: defendendo verdades bíblicas sem ferir as pessoas, São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 21.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (4)

1.3. É preservada por Cristo

“Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18).

 

Creio que aqui há uma promessa que envolve conquista e preservação. Dentro desse semitismo, “as portas do inferno (da morte) não prevalecerão”, temos algumas possibilidades de interpretação. Parece-me que o sentido primário não é necessariamente de que as portas do inferno avançarão contra a igreja, ou, nem que as portas da morte iriam dominar ou separar a igreja, mas, que as portas do inferno (da morte) não resistirão à igreja em seu avanço na pregação do Evangelho libertando os homens do poder de satanás − a sua casa será invadida (Mc 3.27)[1] − para o Reino de Deus.

 

Ninguém poderá deter a igreja em sua caminhada de fé (conquista). Também creio que há o aspecto defensivo (preservação). As portas da morte não vencerão a igreja a despeito de todas as armadilhas de satanás. Jesus, o Cristo, mesmo sofrendo e morrendo pelas mãos dos anciãos, ressuscitaria (Mt 16.21)[2] e continuará preservando o seu povo.

 

Temos uma promessa com grande teor escatológico: Por meio da igreja que o Senhor edifica, o império das trevas não resistirá o poder do Evangelho anunciado. O Senhor consumará a sua obra. A Igreja será guardada e preservada intacta (Rm 1.16/Cl 1.13/1Co 15.24/Ef 5.25-27; Jd 24-25).[3]

 

Em síntese, a Igreja nesta vida se deparará sempre com as investidas do diabo que tentará bloquear o seu avanço e, se possível, destruí-la, mas, o Deus fiel a sustentará.

 

Obviamente Jesus não está se referindo a uma igreja em particular, a uma denominação, mas sim, à sua Igreja, composta por todos aqueles que permanecem unidos a Cristo, “e que por um só Espírito guarda e observa a união da fé, junto com a concórdia e caridade fraterna”, escreve Calvino.[4]

 

Aqui Jesus se refere provavelmente às tentativas de satanás, que se concentrarão na Igreja, visando destruí-la.

 

Paulo fala dos “desígnios[5] de Satanás (2Co 2.11), indicando a ideia de que ele tem metas definidas, estratégias elaboradas, um programa de ação com variedades de técnicas e opções a serem aplicadas conforme as circunstâncias. Satanás, comenta Lloyd-Jones, “fará qualquer coisa para conseguir vantagem sobre nós, diz o apóstolo, fará qualquer coisa para derrubar-nos, para fazer-nos parecer ridículos e para pôr em desgraça o nome de Deus”.[6] Ele emprega toda a sua “energia” para realizar os seus propósitos.[7]

 

Satanás age contra nós como um brilhante estrategista, buscando a melhor tática para nos vencer. “A astúcia é a grande característica do diabo”, conclui Lloyd-Jones.[8]

 

Paulo, interpretando o acontecimento histórico registrado em Gênesis, diz: “Mas receio que, assim como a serpente enganou (e)capata/w = desviou, seduziu, desencaminhou) a Eva com a sua astúcia (panourgi/a[9] = “ardil”, “truque”, “maquinação”, “trapaça”), assim também sejam corrompidas as vossas mentes, e se apartem da simplicidade e pureza devidas a Cristo” (2Co 11.3).

 

Sem dúvida, a grande arma de Satanás é a sagacidade, a astúcia, a artimanha, o ardil. Isto faz com que ele aja de forma variada, tenha um repertório multiforme, sinistro de ataques. A sua força está de modo especial na sua inteligência, associada à sua perspicácia, que foram desenvolvidas ao longo de séculos de história.

 

Um dos métodos de Satanás, é aproveitar a nossa distração; quando relaxamos a nossa defesa em determinado ponto, ali tornar-se-á a sua prioridade. Satanás sabe escolher e manusear com sagacidade as suas armas. Como disse Spurgeon (1834-1892): “Se você for um gigante, ele não vai aparecer diante de você com estilingue e uma pedra. Virá armado até os dentes para derrubá-lo”.[10]

 

Aliás, este fato vem indicar que Satanás não é uma força impessoal; uma força não planeja, não faz tramas, nem arma ciladas; isto é próprio de um ser pessoal. O seu nome Satana=j[11] indica de fato aquilo que ele é: “O adversário”.

           

Ele prepara ciladas para que, dominados por ele, façamos a sua vontade. Paulo exorta aos efésios: “Revesti-vos de toda a armadura de Deus,[12] para poderdes ficar firmes contra as ciladas (meqode/ia)[13] do diabo”(Ef 6.11).

 

Esta palavra envolve um “plano ou sistema deliberado”.  Ela é da mesma raiz da nossa palavra “método” (me/qodoj).[14] As ciladas de Satanás visam sempre nos induzir ao erro. Ele, portanto, atua de forma metódica, seguindo sempre um plano para obter êxito nos seus propósitos.

 

Paulo, falando dos critérios necessários para o presbiterato, diz: É necessário que ele tenha bom testemunho dos de fora, a fim de não cair no opróbrio e no laço (pagi/j)[15] do diabo” (1Tm 3.7).  Nos laços e armadilhas preparados pelo diabo.

 

            Não é à toa que no Apocalipse, Satanás é denominado de “o sedutor (plana/w) (= enganador, extraviador, desencaminhador) de todo o mundo” (Ap 12.9).

 

Considerando a astúcia de Satanás, temos que admitir que ele tem um bom discernimento do tempo, do momento adequado. Ele procura agir sempre na hora mais propícia para obter vantagem dentro dos seus propósitos. O Novo Testamento ilustra o que estamos dizendo: Quando Jesus sentiu fome; Satanás tenta com o pão (Mt 4.2,3); após a tentação de Jesus no deserto, Satanás se retira estrategicamente até o momento “oportuno” (kairo/j)[16](Lc 4.13). Quando Cristo falou aos seus discípulos que era preciso que Ele fosse preso e morto, Satanás, certamente considerando que este era o momento próprio, usa a Pedro – que havia acabado de confessar a Jesus como o Cristo – para tentar o Senhor (Mt 16.21-23). Percebam, portanto, a sua ousadia.[17]

 

Calvino é enfático:

 

Satanás labora muito mais do que imaginamos para banir de nossas mentes, por todos os meios possíveis, a fé na sã doutrina; e visto que nem sempre é fácil fazer isso através de um franco ataque à nossa fé, ele se arma contra nós secretamente e pelo uso de métodos indiretos e a fim de destruir a credibilidade de seu ensino, ele desperta suspeitas acerca da vocação dos santos mestres.[18]

 

Pouco mais de trinta anos depois dessa experiência, Pedro, inspirado por Deus, instrui as igrejas da Dispersão, dizendo que Satanás anda em derredor, como um leão rugindo continuadamente, procurando quem possa atacar (1Pe 5.8).[19] Ele está atento, vigilante, arquitetando seu plano para nos pegar, nos enlaçar. Ele procura aperfeiçoar as suas técnicas, observa também a nossa maneira de pensar, agir e responder, verificando os nossos pontos visivelmente mais resistentes e analisando as situações mais apropriadas.

 

Ele não tem nenhuma pressa que o conduza à afobação; sabe esperar para dar o bote, no momento que considera “oportuno”. E, se há alguma coisa que satanás tem, é o senso de tempo, de oportunidade, ele é um “perito”[20] em tentar;[21] por isso, não nos iludamos, satanás está à espreita de forma vigilante, aguardando e propiciando as suas condições favoráveis de ataque.

 

Packer, nos fala sobre isso:

 

Se formos vigilantes contra Satanás em um ponto da muralha de nosso viver, ele tentará rompê-la em outro ponto, esperando por um momento quando nos sentirmos seguros e felizes, e quando, provavelmente, nossas defesas estarão fracas. Assim prosseguem os seus ataques, o dia inteiro e todos os dias.[22]

 

No Apocalipse lemos que Satanás sabe do pouco tempo que lhe resta (Ap 12.12),[23] por isso, a sua urgência devoradora, que obedece sempre a sua estratégia. Quanto a nós, devemos estar atentos constantemente (1Pe 5.8), cuidando para não dar “lugar ao diabo” (Ef 4.27).

 

Murray nos alerta:

 

O reconhecimento da presença de Satanás é extremamente importante. Ele mantém diante de nós o fato de que o mal não é meramente uma ideia, mas um grande poder pessoal. Ensina-nos que os erros em relação ao evangelho não é um engano inocente, mas são enganos demoníacos: há cristos falsos e evangelhos falsos. A existência de Satanás, como dirigente de todos os homens e mulheres não-regenerados, é, também, prova de que a diferença entre cristãos e não-cristãos é absoluta e radical.[24]

 

Maringá, 6 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Acesse todos os textos dessa série aqui.


[1]“Ninguém pode entrar na casa do valente para roubar-lhe os bens, sem primeiro amarrá-lo; e só então lhe saqueará a casa” (Mc 3.27).

[2]“Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia” (Mt 16.21).

[3]Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1.16). “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Cl 1.13). “E, então, virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder” (1Co 15.24). 25Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, 26para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, 27 para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.25-27). 24 Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória, 25 ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos os séculos. Amém!” (Jd 24-25).

[4]Juan Calvino, Resposta ao Cardeal Sadoleto, 4. ed. Barcelona: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1990, p. 30-31.

[5] A palavra traduzida por “desígnio” (no/hma) ocorre cinco vezes no NT., sendo utilizada apenas por Paulo: 2Co 2.11; 3.14; 4.4; 10.5; 11.3; Fp 4.7, tendo o sentido de “plano” (Platão, Política, 260d), “intenção maligna”, “intrigas”, “ardis”. Com exceção de Fp 4.7, a palavra sempre é usada negativamente no NT. No/hma é o resultado da atividade do nou=j (mente). (J. Behm; E. Würthwein, nou=j, etc.: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds., Theological Dictionary of the New Testament, v. 4, p. 960). “É a faculdade geral do juízo, que pode tomar decisões e pronunciar certos ou errados os vereditos, conforme as influências às quais tem sido expostas” (J. Goetzmann, Razão: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 4, p. 32).

[6]D. M. Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 90.

[7] “Satanás aplica toda sua energia pra tirar qualquer coisa de Cristo” (João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.3), p. 35).

[8] D.M. Lloyd-Jones, O Combate Cristão, p. 75.

[9] Ocorre 5 vezes no NT.: Lc 20.23; 1Co 3.19; 2Co 4.2; 11.3; Ef 4.14.

[10]C.H. Spurgeon, Um Antídoto contra os Artifícios de Satanás: In: Bruce H. Wilkinson, ed. ger. Vitória sobre a Tentação, 2. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p. 184.

[11] NT. * Mc 1.13; At 26.18; 2Co 2.11; 12.7; 2Ts 2.9; 1Tm 5.15; Ap 2.9,13; 3.9.

[12]Quanto à armadura romana e o treinamento do exército, Veja-se: Flavio Josefo, La Guerras de los Judios, Barcelona: CLIE., [1985], Tomo I, III.3. p. 311ss.

[13] A palavra “cilada” significa, “tramas, “ardis”, “maquinações”, “astúcia”. [* Ef. 4.14 (aqui traduzida por “induzir” (ARA); “enganar” (ARC); 6.11]. Este é o significado original da palavra, variando conforme a conjunção com outras (Veja-se: entre outras obras, H.E. Dana; Julius R. Mantey, Manual de Gramatica del Nuevo Testamento Griego, Buenos Aires: Casa Bautista de Publicaciones, 1975, p. 104-105).  Meqode/ia é da mesma raiz da nossa palavra “método”, que também provém do grego me/qodoj, termo formado por meta/ (“no meio de”, “no centro de”) e o(do/j (“caminho”). Em Aristóteles (384-322) a palavra (me/qodoj) tinha o sentido de “investigação”, sendo por vezes usada como sinônimo de “teoria” (qewri/a) e “ciência” (e)pisth/mh).(Veja-se: Aristóteles, Física, III, 1; 200 b 13; VII, 1; 251 a 7, etc. Cf. Método: In: A. Lalande, Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia, São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 678. [Observações de R. Eucken e J. Lachelier]). Etimologicamente, portanto, método é o emprego de um caminho, andar dentro e por meio dele. Podemos definir operacionalmente método, como o conjunto de elementos e processos necessários a se obter determinado objetivo. É o caminho para a consecução de um objetivo proposto. Lalande (1867-1963) acentua que etimologicamente a palavra significa demanda e, “por consequência, esforço para atingir um fim, investigação, estudo” (Método: A. Lalande, Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia, p. 678).

[14] Esta não ocorre nas Escrituras.

[15] pagi/j significa “armadilha”, “rede”, “laço” [* Lc 21.34 (ARA) na ACR e BJ, no verso 35; Rm 11.9; 1Tm 3.7; 6.9; 2Tm 2.26].

[16]A ideia da palavra no contexto sugere “oportunidade”, “tempo certo”, “tempo favorável”, etc. (Veja-se: Mt 24.45; Mc 12.2; Lc 20.10; Jo 7.6,8; At 24.25; Gl 6.10; Cl 4.5; Hb 11.15).

[17] Veja-se: Hermisten M.P. Costa, O Pai Nosso, São Paulo: Cultura Cristã, 2001.

[18]João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (2Tm 1.11), p. 210.

[19]“Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar” (1Pe 5.8).

[20]O verbo peira/w que traduzimos por tentar (O substantivo é peira/zw, tentação) é de onde provém o termo latino “peritus”, português “perito”, aquele que tem perícia, habilidade, destreza, instrução; sabe por experiência, experimentado. Aliás, esta era uma das conotações de peira/w no grego secular, indicando “saber por experiência” (Vejam-se: H. Seesemann, peira/w: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds., Theological Dictionary of the New Testament, v. 6, p. 23-36; peira/zw: In: William F. Arndt; F.W. Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature, 2. ed. Chicago: University Press, 1979, p. 640).

[21] Como diz Packer: “Satanás testa o povo de Deus ao manipular as circunstâncias dentro dos limites que lhe são permitidos por Deus” (J.I. Packer, Tentação: In: J.D. Douglas, editor org. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo, SP.: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 3, p. 1581).

[22]J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 83.

[23]“Por isso, festejai, ó céus, e vós, os que neles habitais. Ai da terra e do mar, pois o diabo desceu até vós, cheio de grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta” (Ap 12.12).

[24]Iain Murray, A controvérsia não resolvida: unidade com não-evangélicos, São Paulo: Os Puritanos, 2002, p. 38-39.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (3)

1.2. É edificada por Cristo

 

Ainda que Deus seja suficiente a si mesmo e se satisfaça exclusivamente consigo mesmo, não obstante quer que sua glória se manifeste na Igreja. − João Calvino.[1]

 

“Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (Mt 16.18).

 

A igreja não é uma criação tardia, um plano “b” ou, um adendo de Deus dentro de seus desígnios “impotentes”. Antes, ela sempre fez parte do propósito eterno de Deus. A Igreja é edificada pelo próprio Cristo.

 

 “Edificarei a minha igreja”, afirma o Senhor Jesus. A igreja não pertence a terceiros. Ela é do Senhor. Ele mesmo a edifica. A expressão “minha igreja” indica a relação pessoal que o Senhor mantém com o seu povo. A Igreja é edificada pessoalmente pelo próprio Cristo. Deus não confiou esta tarefa a mais ninguém. A igreja não é uma abstração divina que permanece num plano ideal distante da realidade e inatingível. Ela se concretiza pelo poder de Deus. A história é, em grande parte, o processo executivo de Deus na realização de seu desígnio sábio e santo. Somos a família de Deus formada por Ele conforme sua livre vontade.

 

Como temos insistido, Paulo escreveu aos Efésios:

 

19Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, 20edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; 21no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, 22no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito (Ef 2.19-22).

 

Na criação de nossos primeiros pais, Adão e Eva, temos a concretização histórica do propósito eterno de Deus,[2] como nos diz o apóstolo:

 

8Não te envergonhes, portanto, do testemunho de nosso Senhor, nem do seu encarcerado, que sou eu; pelo contrário, participa comigo dos sofrimentos, a favor do evangelho, segundo o poder de Deus, 9 que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos. (2Tm 1.8-9).

Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade, 2na esperança da vida eterna que o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos eternos. (Tt 1.1-2).

 

O Senhor tem ao longo da história edificado a sua igreja. A confissão da identidade do Filho é fundamental para o ingresso na Igreja. Essa confissão se torna possível pela graça reveladora de Deus (Mt 16.16,17). Essa revelação é feita de acordo com o propósito de Deus. Nenhum de nós, jamais confessaria a Cristo sem o poder de Deus respaldado na obra de Cristo (Mt 16.19). Ou seja: a nossa confiança não é vazia. Ela tem como referência fundamental a veracidade da obra vicária e completa de Cristo.

 

Em outro contexto vemos que o que Paulo fala sobre a necessária confissão do senhorio de Cristo tem como pano de fundo, a obra realizada por Jesus Cristo: “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação” (Rm 10.9-10).

 

Há uma coerência lógica: crer e confessar. O crer, no entanto, é precedido pelo conhecer. “Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27).

 

            Poder conhecer a Deus é sempre uma iniciativa da graça divina. O nosso conhecimento é um ato de fé, e esta é procedente da graça.[3] O conhecer, portanto, é um ato da graça de Deus. Sem o Pai que se agencia pelo Espírito, jamais conheceríamos salvadoramente a Jesus como o Cristo e Senhor.[4] “O verdadeiro mistério só pode ser entendido como um mistério genuíno mediante a revelação”, escreve Brunner.[5] Isso é graça! (2Pe 3.18).

 

            O apóstolo faz eco a essa graça, escrevendo: “Por isso, vos faço compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus afirma: Anátema, Jesus! Por outro lado, ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo” (1Co 12.3).

 

A Igreja é o Corpo de Cristo; o povo constituído por Deus por intermédio do seu Espírito, para cultuá-Lo, viver a sua Palavra e proclamar a sua salvação em Cristo.[6] Portanto, é o Deus Trino quem elege o seu povo e o chama eficazmente por meio da Palavra, para fazer parte da sua Igreja.  O próprio Senhor Jesus nos instrui:

 

37Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora. (…) 44 Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. (…)  65 E prosseguiu: Por causa disto, é que vos tenho dito: ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido (Jo 6.37,44,65).

 

Quando o apóstolo Paulo fala aos presbíteros de Éfeso, lhes instrui: “Agora, pois, encomendo-vos ao Senhor e à palavra da sua graça, que tem poder para vos edificar e dar herança entre todos os que são santificados” (At 20.32).

 

A forma ordinária da qual Deus se vale para edificar a sua igreja é por meio da Palavra. Ele nos regenera (1Pe 1.23); chama (Rm 10.17), edifica e santifica (Jo 17.17) pela Palavra.

 

Paulo diz que passou três anos pregando todo o desígnio de Deus (At 20.27,31). Ele não se deteve em sabedoria humana, em debates frívolos ou em exibicionismo de saber, antes anunciou o Evangelho da graça de Deus (At 20.24).

 

            Calvino também não se deixou levar por essa tentação. Em 1551, escreveu em resposta a uma carta de Laelius Socino (1525-1562),[7] onde ele fazia várias especulações:

 

Certamente, ninguém pode ser mais adverso ao paradoxo do que eu, e não tenho nenhum deleite em sutilezas. No entanto, nada jamais me impedirá de confessar abertamente aquilo que tenho aprendido da Palavra de Deus, pois nada, senão o que é útil, é ensinado na escola desse mestre. Ela é meu único guia, e aquiescer às suas doutrinas manifestas será a minha constante regra de sabedoria. (…) Se você tem prazer em flutuar em meios a essas especulações etéreas, permita-me, peço-lhe eu, humilde discípulo de Cristo, meditar naquilo que conduz à edificação da minha fé.[8]

 

Por isso, Paulo quando se despede, prevê as dificuldades que viriam, surgidas muitas delas dentro da própria Igreja,[9] até mesmo, é possível, da parte de presbíteros (At 20.29-30),[10] no entanto, ele não estabelece nenhum método mirabolante, antes os orienta a ficarem atentos – contínua e perseverantemente[11] – e os encomenda à Palavra (At 20.31-32).[12] Demonstra também a necessidade de autovigilância (At 20.28).

 

Stott (1921-2011) comenta:

 

Notamos que os pastores efésios devem primeiro vigiar a si mesmos, e só depois ao rebanho que lhes foi confiado pelo Espírito Santo. Pois eles não podem dar um cuidado adequado aos outros se negligenciarem o cuidado e a instrução de suas próprias almas.[13]

 

A Palavra de Deus é um antídoto contra os lobos vorazes que desejam se apossar do rebanho e contra os homens pervertidos que procuram corromper o povo de Deus. A Palavra é poderosa para nos edificar e santificar. Por isso, caberia àqueles presbíteros, pregar a Palavra, assim como Paulo o fizera. “A Igreja e o evangelho são inseparáveis. (…) A Igreja é tanto o fruto como o agente do evangelho, visto que por meio do evangelho a igreja se desenvolve e por meio desta se propaga aquele”, interpreta Stott.[14]

 

Em Corinto, a despeito de grupos na igreja desejarem moldar o Evangelho às suas preferências e gostos pessoais, o apóstolo Paulo continuava firme, sem tergiversar em sua mensagem:

 

22Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria; 23mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios. (…) 4A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, 5para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana; e, sim, no poder de Deus (1Co 1.22-23; 2.4-5).

 

Deus fornece-nos todos os meios para o nosso crescimento; precisamos, portanto, aprender na própria Palavra, a nos valer desses meios:

 

Pedro instrui a igreja:

 

Pelo seu divino poder nos têm sido doadas todas as cousas que nos conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas para que por elas vos torneis coparticipantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo (2Pe 1.3-4).

 

O método escolhido por Deus para edificar e preservar a sua Igreja é a pregação da Palavra. Paulo é enfático: Aprouve (eu)doke/w)[15] a Deus salvar aos que creem, pela loucura da pregação” (1Co 1.21).

 

Ao longo da História o Espírito tem estabelecido a Igreja, chamando por meio da Palavra os homens para constituírem a Igreja de Deus. “Do mesmo modo que o Espírito Santo formou o corpo físico de Jesus Cristo na encarnação, assim também forma o corpo místico de Jesus Cristo, ou seja, a igreja”, interpreta Palmer 1922-1980).[16]

 

A Igreja de Deus está sendo formada e aperfeiçoada. Por isso, ela não é perfeita, mas, está sendo lapidada pelo próprio Deus: 21no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, 22no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito” (Ef 2.21-22).

 

Lutero (1483-1546) trata dessa questão de modo sensibilizante, descrevendo a sua luta e a fragilidade aparente da igreja:

 

Nós, pela graça de Deus, esforçamo-nos para conseguir, aqui, em Wittenberg, um tipo ideal de Igreja cristã. A Palavra é ensinada entre nós com pureza, os sacramentos estão sendo usados de forma correta, fazem-se exortações e orações para todas as situações, em suma, todas as coisas ocorrem favoravelmente. Mas algum fanático poderia impedir rapidamente este curso feliz do Evangelho. Num momento, ele poderia destruir aquilo que nós edificamos com grande labor durante muitos anos. (…) A fraqueza e a miséria dessa vida é tão grande, caminhamos a tal ponto em meio aos ardis de satanás que, em pouco tempo, algum fanático, muitas vezes, destrói e arruína, completamente, aquilo que os verdadeiros ministros edificaram, trabalhando, dia e noite, durante vários anos. Por experiência própria, aprendemos isso, hoje, com grande dor na alma, todavia, não podemos curar esse mal.

Visto que a Igreja é tão frágil e delicada e é tão facilmente subvertida, devemos estar vigilantes contra aqueles espíritos fanáticos que, quando ouviram alguns sermões ou leram algumas páginas nas Sagradas Letras, sem demora, julgam-se mestres de todos os alunos e professores, contra toda a autoridade.[17]

 

A igreja de Deus nessa dimensão terrena, ainda luta contra os inimigos de fora e, a sua própria fragilidade interna resultante de seu pecado e acomodação nele.

 

Por isso, “as imperfeições e as marcas na igreja visível ainda estão sendo refinadas pelo Mestre de obras”, alegoriza MacArthur.[18]  Explorando a figura, podemos dizer que a igreja está em construção: um canteiro de obras com frequência não faz jus à obra que está sendo feita; as coisas se parecem um tanto desarrumadas, com pilhas de tijolos, areia, pedra, ferro, madeira, ferramentas jogadas, escombros, valetas, etc.

 

Assim é a igreja no tempo presente, com suas imperfeições, constituída por pessoas como nós, precisando ser instruídas, corrigidas, consoladas, estimuladas, enfim, precisando ser acabadas. No entanto, o nosso Arquiteto e Mestre de obras tem todo o controle da construção. Ele consumará a sua obra. Ele reunirá as suas ovelhas: “Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor” (Jo 10.16).

 

Deus arregimenta o seu povo, concluindo assim, a sua obra iniciada na eternidade:

 

29 Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. 30 E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou. (Rm 8.29-30).

 

Packer, bem ao seu estilo, escreve de forma consoladora:

 

Essa esperança é uma certeza, pois a sentença justificadora é uma decisão judiciária do último dia, trazida ao presente: é um veredito final, que jamais será revertido. “E aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30). Observemos que Paulo usa o verbo “glorificar” no passado. Aquilo que Deus decidiu fazer é como se já o tivesse feito!. De acordo com isso, a pessoa justificada pode ter a certeza de que coisa alguma jamais a separará do amor de seu Salvador e de seu Deus (Rm 8.35ss.).[19]

 

Maringá, 6 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Acesse todos os textos dessa série aqui.

 


[1]João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 2.17), p. 100.

[2] “Se uma ‘igreja’ começou em determinado ano, na verdade é, por definição, uma seita. A verdadeira igreja visível de acordo com as Escrituras, começou no Éden. A alegação dispensacionalista de que a igreja começou no Pentecoste é totalmente falsa. (…) Se nossa igreja começou em qualquer outro tempo que não no Éden, não permanecendo em continuidade pactual com o povo do pacto de Deus, então essa igreja é uma seita” (Jonathan Gerstner, Alicerçada na Rocha Eterna: In: John MacArthur, et. al. Avante, Soldados de Cristo: uma reafirmação bíblica da Igreja, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 50-51).

[3] “Todo conhecimento é fé” (Gordon H. Clark, Uma visão cristã dos Homens e do Mundo, Brasília, DF.: Monergismo, 2013, p. 305).

[4]“A razão natural jamais guiará os homens a Cristo. O fato de serem eles dotados de sabedoria para dirigir suas vidas e de se formarem em filosofia e ciências se reduz e resulta em nada” (João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.5), p. 38).

[5]Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 157.

[6]Calvino comentando Gálatas 4.26, diz: “A Igreja enche o mundo todo e é peregrina sobre a terra. (…) Ela tem sua origem na graça celestial. Pois os filhos de Deus nascem, não da carne e do sangue, mas pelo poder do Espírito”.  Continua: “Eis a razão por que a Igreja é chamada a mãe dos crentes. E, indubitavelmente, aquele que se recusa a ser filho da Igreja debalde deseja ter a Deus como seu Pai. Pois é somente por meio do ministério da Igreja que Deus gera filhos para si e os educa até que atravessem a adolescência e alcancem a maturidade” (João Calvino, Gálatas, (Gl 4.26), p. 144).

[7]Este é tio de Fausto Paolo Socino (1539-1604), teólogo italiano que entre outras heresias fruto de uma interpretação puramente racional das Escrituras, negava a doutrina da Trindade, a divindade de Cristo, sustentando a ressurreição apenas de alguns fiéis etc. O movimento herético conhecido como Socinianismo é derivado dos ensinamentos de ambos.

[8]João Calvino, Cartas de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 93. “O propósito divino não é satisfazer nossa curiosidade, e, sim, ministrar-nos instrução proveitosa. Longe, com todas as especulações que não produzem nenhuma edificação” (J. Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (2Tm 2.14) p. 233). Veja-se também: Segundo Prefácio de Calvino à tradução da Bíblia feita por Pierre Olivétan (1546), In: Eduardo Galasso Faria, ed. João Calvino: Textos Escolhidos, São Paulo: Pendão Real, 2008, p. 34.

[9]“Se existe algo que a história nos ensina, este ensino é que os ataques mais devastadores desfechados contra a fé sempre começaram com erros sutis surgidos dentro da própria igreja” (John F. MacArthur Jr., Com Vergonha do Evangelho, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1997, p. 11).

[10] 1Tm 1.3; 2Tm 1.15; Ap 2.1-7.

[11] O presente imperativo do verbo (grhgore/w) (de onde vem Gregório), vigiar, ficar acordado, desperto, indica uma vigilância contínua e perseverante.

[12] “Grande prudência é requerida daqueles que têm a incumbência da segurança de todos; e grande diligência, daqueles que têm o dever de manter vigilância, dia e noite, para a preservação de toda a comunidade” (João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 12.8), p. 434).

[13] John R.W. Stott, A Mensagem de Atos: Até os confins da terra, São Paulo: ABU, (A Bíblia Fala Hoje),1994, (At 20.28-35), p. 369.

[14]John R.W. Stott; Basil Meeking, editores, Dialogo Sobre La Mision, Grand Rapids, Michigan: Nueva Creación, 1988, p. 62.

[15] Deus fez esta escolha com prazer. Eu)doki/a: “Boa vontade”, “favor”, “beneplácito”. Enfatiza a liberdade do propósito de Deus e o deleite – ainda que não necessário –, que acompanha o Seu propósito. Deus é Quem “escolhe” o que quer e se agrada em cumprir o seu plano (Mt 11.26; Lc 2.14; Ef 1.5,9).

[16]Edwin H. Palmer, El Espiritu Santo, Edinburgh: El Estandarte de la Verdad, (s.d.), Edição Revista, p. 198.

[17] Martinho Lutero, Comentário à Epístola aos Gálatas: In: Martinho Lutero: Obras Selecionadas, São Leopoldo, RS.; Porto Alegre, RS.; Canoas, RS.: Sinodal; Concórdia; Ulbra, 2008, v. 10, (Gl 1.4), p. 65. Veja também: Ibidem., (Gl 1.2), p. 45).

[18]John MacArthur, Eu Amo a Tua Igreja, ó Deus!: In: John MacArthur, et. al. Avante, Soldados de Cristo: uma reafirmação bíblica da Igreja, São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p. 14). (Alude ao texto de Ef 2.21-22).

[19]J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 128.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (2)

I – A IGREJA DO TRINO DEUS

1. A Igreja de Cristo: A rocha inabalável

 

A Igreja não recebeu essa Escritura de Deus para simplesmente repousar sobre ela, muito menos para enterrar esse tesouro na terra. Pelo contrário, a Igreja é chamada para preservar essa Palavra de Deus, explaná-la, pregá-la, aplicá-la, traduzi-la, difundi-la no estrangeiro, recomendá-la e defendê-la – em uma palavra, fazer com que os pensamentos de Deus, revelados na Escritura, triunfem em todos os lugares e em todas as épocas sobre o pensamento do homem. Toda a obra que a Igreja é chamada a fazer é de ministrar a Palavra de Deus. A Igreja ministra a Palavra de Deus quando ela é pregada na assembleia dos crentes, é interpretada e aplicada, quando é compartilhada nos sinais do pacto e quando a disciplina é mantida. Em um sentido mais amplo, o serviço da Palavra é muito mais abrangente. − Herman Bavinck (1854-1921).[1]

 

No capítulo primeiro de Efésios, o Apóstolo Paulo descreve de forma doxológica aspectos dos grandes feitos de Deus de eternidade à eternidade, tendo como ponto fundamental a Sua graça abençoadora que nos elege, redime, adota e sela (Ef 1.3-14). A manifestação da soberania de Deus culmina na ressurreição de Cristo, tornando público o seu poder e a glória do Filho acima de todos os poderes.

 

Demonstra então, que todas as criaturas estão subordinadas ao Filho por meio de quem todas as coisas foram criadas e são preservadas:

 

19E qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; 20 o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais,  21acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro. (Ef 1.19-21).

 

Neste contexto, de modo surpreendente, Paulo introduz a Igreja, dizendo: “22E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, 23a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.22-23).

 

Toda esta oração tem em vista a Igreja, o povo escolhido de Deus, o Corpo de Cristo. Ele deseja que a igreja tenha consciência dos altos privilégios dos quais ela é destinatária pela obra grandiosa de Cristo.

 

Analisemos biblicamente alguns aspectos da Igreja de Deus:

 

1.1. Está fundamentada em Cristo

 

Os papistas (…) agem de forma ridícula quando o põem em lugar de Cristo como o fundamento da Igreja, como se ele, também, não estivesse fundamentando em Cristo, como os demais. − João Calvino.[2]

 

Após a confissão de Pedro de que Jesus é o Cristo (Mt 16.16), o Senhor então lhe diz: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (Mt 16.18).

 

O nome Pedro (pe/troj) significa “pedaço de rocha” (quebrado), “pedra”; “um pequeno deslocamento do maciço rochoso”. Entretanto, Jesus disse que sobre esta pedra (pe/tra), rocha, rochedo, “cadeia de montanhas rochosa”. Ele edificaria a Sua igreja.

 

Apesar de haver esta distinção nas palavras utilizadas, é necessário que se diga que na literatura clássica, a diferença entre os termos não é tão nítida, sendo as palavras usadas, por vezes, indistintamente.[3]

 

Todavia, comparando este texto com outros das Escrituras, podemos entender que aqui a pedra se refere a Cristo ou, como é muito comumente interpretado, à profissão de fé de Pedro como Jesus sendo o Cristo. Nesse caso, a afirmação é de que a Igreja é edificada sobre esta confissão.

 

Na parábola dos “lavradores maus”, Jesus cita o Salmo 118.22: “A pedra (li/qoj) que os construtores rejeitaram, esta veio a ser a principal pedra, angular” (Lc 20.17). Aqui o Senhor demonstra que Ele, somente Ele é o fundamento inabalável da Igreja. Os escribas e sacerdotes, mesmo não concordando com a interpretação, entenderam corretamente que Jesus referia-se a eles e a si mesmo (Lc 20.19).[4]

 

Sem Cristo não há igreja. Em outras palavras: Igreja sem Cristo é uma contradição não meramente de palavras, mas, de essência. Somente a igreja é constituída pelo povo chamado, reunido e congregado por Cristo para viver nele e para Ele.

 

Paulo assim se expressa combatendo o pueril sectarismo coríntio: “Porque ninguém pode lançar outro fundamento (qeme/lioj), além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1Co 3.11/Rm 15.10).

 

O apóstolo referindo-se aos judeus, vale-se de figura semelhante: “E beberam da mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra (pe/tra) espiritual que os seguia. E a pedra (pe/tra) era Cristo” (1Co 10.4).

 

Novamente, o apóstolo afirma que todos estamos edificados em Cristo, a pedra angular: 20edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular (a)krogwniai=oj);[5] 21no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor” (Ef 2.20-21).

 

Portanto, o fundamento da Igreja não é o homem com as suas fraquezas e pecado, nem a sua vacilante confissão de fé; mas sim, o próprio Cristo, como rocha eterna e inabalável.

 

Maringá, 6 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Acesse todos os textos dessa série aqui.


 

[1] Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 129.

[2] João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.42), p. 78.

[3] Cf. W. Mundle; C. Brown, Pedra: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 495,500.

[4] Naquela mesma hora, os escribas e os principais sacerdotes procuravam lançar-lhe as mãos, pois perceberam que, em referência a eles, dissera esta parábola; mas temiam o povo” (Lc 20.19).

[5] Is 28.16; 1Pe 2.6.