Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (39)

A Sabedoria do Espírito em nossa cotidianidade

A sabedoria que procede de Deus tem virtudes próprias que não a confundem. Vejamos o tratamento instrutivo que apresenta Tiago:

 

13Quem entre vós é sábio (sofo/j) e inteligente (e)pisth/mwn)? Mostre em mansidão de sabedoria (sofo/j), mediante condigno proceder, as suas obras. 14 Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade. 15 Esta não é a sabedoria sofo/j) que desce lá do alto; antes, é terrena, animal e demoníaca. 16 Pois, onde há inveja e sentimento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins. 17 A sabedoria (sofo/j), porém, lá do alto é, primeiramente, pura (a(gno/j = santa, honesta);[1] depois, pacífica (ei)rhniko/j),[2] indulgente (e)pieikh/j[3] = moderada, cordata, tolerante, gentil), tratável (*eu)peiqh/j = simpática, razoável), plena de misericórdia (mesto/j e)/(leoj) e de bons frutos (karpo/j a)gaqo/j), imparcial (*a)dia/kritoj = inabalável, resoluta, isenta de duplicidade), sem fingimento (a)nupo/kritoj[4] = não hipócrita, real, verdadeira). 18 Ora, é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz. (Tg 3.13-18).

 

A sabedoria bíblica consiste não no acúmulo de conhecimento, antes, em um modo de vida que reflita a sabedoria de Deus revelada em Cristo Jesus, em quem temos o modelo encarnado da plenitude de sabedoria. Ser sábio é aplicar o conhecimento adquirido à arte de viver em comunhão com Deus refletindo isso em todas as dimensões de nossa existência. Sabedoria é a associação teórica e prática entre conhecimento e santidade que se manifesta em piedade.

 

De acordo com a nossa nova natureza, devemos andar com sabedoria, de forma distinta de nossa antiga vida, procurando compreender a vontade de Deus, tendo o cuidado para não sermos enganados por falsos ensinamentos que cultivam uma mera e vazia aparência de verdade:

 

6Ninguém vos engane com palavras vãs; porque, por essas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência. 7Portanto, não sejais participantes com eles. 8 Pois, outrora, éreis trevas, porém, agora, sois luz no Senhor; andai como filhos da luz 9 (porque o fruto da luz consiste em toda bondade, e justiça, e verdade), 10provando sempre o que é agradável ao Senhor. 11E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as. 12 Porque o que eles fazem em oculto, o só referir é vergonha. 13Mas todas as coisas, quando reprovadas pela luz, se tornam manifestas; porque tudo que se manifesta é luz. 14Pelo que diz: Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará. 15Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios (*a)/sofoj), e sim como sábios (sofo/j), 16 remindo o tempo, porque os dias são maus. 17Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor. (Ef 5.6-17).

 

A Palavra, por nos revelar Jesus Cristo, o Deus Encarnado e, decorrentemente, por suas instruções, torna-nos sábios para a salvação preparada por Deus para nós desde a eternidade. As Escrituras nos capacitam a ter um padrão unificador da realidade, indo além da mera aparência ou de verdades fragmentadas. Deste modo, onde alguns ouvem um ruído, poderemos perceber uma sinfonia.[5] Em lugar de variadas cores, talvez desconexas para muitos, enxerguemos o arco-íris. Onde outros veem com admiração um céu estrelado, veremos a manifestação da glória de Deus (Sl 8.1; 19.1).[6]

 

Paulo exorta Timóteo a permanecer naquilo que aprendeu desde a infância. Como é um privilégio poder ter usufruído desde a mais tenra idade uma formação bíblica.[7] Por outro lado, os pais e avós nem sempre percebem de imediato os frutos de seus ensinamentos, porém, devemos perseverar em ensinar as Sagradas letras deixando com Deus os resultados que certamente aparecerão:

 

3Dou graças a Deus, a quem, desde os meus antepassados, sirvo com consciência pura, porque, sem cessar, me lembro de ti nas minhas orações, noite e dia. 4 Lembrado das tuas lágrimas, estou ansioso por ver-te, para que eu transborde de alegria 5 pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que, primeiramente, habitou em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também, em ti. (2Tm 1.3-5).

14Tu, porém, permanece (me/nw = continuar, ficar, morar) naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste 15 e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio (sofi/zw) para a salvação pela fé em Cristo Jesus. (2Tm 3.14-15).

 

De passagem, devemos observar a responsabilidade dos que ensinam. A palavra é o conteúdo da mensagem do Ministro: A Escritura torna o homem sábio para a salvação; por isso ele precisa manejá-la bem visto que os falsos mestres também a empregam como pretexto para justificar os seus falsos ensinamentos.

 

Paulo exorta a Timóteo: Procura (spouda/zw = “esforçar-se com zelo”, “apressar-se”) apresentar-te a Deus, aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem (o)rqotome/w = “cortar em linha reta”, “endireitar”) a Palavra da verdade (a)lh/qeia)” (2Tm 2.15).

 

O sábio manejo da Escritura significa estudá-la, vivenciá-la e proclamá-la conforme o seu propósito. O manejo sábio da Escritura envolve, necessariamente, fidelidade ao Senhor da Escritura. A igreja, portanto, é chamada a ser serva e não senhora da Revelação.

 

Calvino instrui:

 

É uma recomendação por demais sublime das Escrituras dizer que a sabedoria suficiente para a salvação não pode ser encontrada em outra parte (…). Ao mesmo tempo, porém, ele nos diz o que devemos buscar na mesma Escritura, pois os falsos profetas também fazem uso dela em busca de pretexto para o seu ensino. Para que ela nos seja proveitosa para a salvação, temos que aprender a fazer dela um uso correto.[8]

 

A Palavra de Deus deve habitar em nós e nós nela, perseverando inabalavelmente em seus ensinamentos. Permanecer na Palavra significa permanecer em Deus, no Seu amor e Deus em nós. Observem a relação estabelecida por Cristo entre o permanecer nele, a Palavra permanecer em nós, a obediência e o amor de Deus em nós:

 

4 permanecei (me/nw) em mim, e eu permanecerei[9] em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer (me/nw) na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes (me/nw) em mim. 5 Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece (me/nw) em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. 6 Se alguém não permanecer (me/nw) em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam. 7 Se permanecerdes (me/nw) em mim, e as minhas palavras permanecerem (me/nw) em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito. 8 Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tornareis meus discípulos. 9Como o Pai me amou, também eu vos amei; permanecei (me/nw) no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis (me/nw) no meu amor; assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço (me/nw). (Jo 15.4-10).

 

Esta Palavra nos torna sábios para a salvação. Ela nos conduz à compreensão do propósito de Deus por meio de Sua verdade revelada, não para a elaboração do mal ou invencionices vazias (2Pe 1.16),[10] antes, para nos instruir naquilo que edifica. A sabedoria concedida por Deus deve nos tornar sábios para o bem, como indica Paulo: “Pois a vossa obediência é conhecida por todos; por isso, me alegro a vosso respeito; e quero que sejais sábios (sofo/j) para o bem e símplices (a)ke/raioj[11] = puro, sem mistura, sem mescla, não adulterado, intacto. Sentido figurativo de: pureza, inocência, integridade) para o mal” (Rm 16.19).

 

A palavra (a)ke/raioj) é aplicada ao leite e ao vinho que não foram misturados com água; à pureza do metal e à muralha de uma fortaleza que se manteve intacta. Portanto, a sabedoria do Espírito é pura, sem dissimulação nem segundas intenções.

 

Jesus Cristo nos instrui: “Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices (a)ke/raioj) como as pombas” (Mt 10.16).

 

A sabedoria cristã dos filhos de Deus se revela no seu uso para o bem. A sabedoria que procede de Deus (Tg 1.17) não é empregada para o mal, para destruir ou satisfazer os nossos desejos egoístas.

 

Maringá, 09 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] *2Co 7.11; 2Co 11.2; Fp 4.8; 1Tm 5.22; Tt 2.5; Tg 3.17; 1Pe 3.2; 1Jo 3.3.

[2] *Hb 12.11; Tg 3.17.

[3] *Fp 4.5; 1Tm 3.3; Tt 3.2; Tg 3.17; 1Pe 2.18.

[4] *Rm 12.9; 2Co 6.6; 1Tm 1.5; 2Tm 1.5; Tg 3.17; 1Pe 1.22.

[5]Veja a figura em Polanyi, citada por McGrath (Alister E. McGrath, Surpreendido pelo sentido: ciência, fé e o sentido das coisas, São Paulo: Hagnos, 2015, p. 24).

[6]“Ó SENHOR, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome! Pois expuseste nos céus a tua majestade” (Sl 8.1). “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19.1).

[7]“Se porventura alguém tenha adquirido desde sua tenra juventude um sólido conhecimento das Escrituras, o mesmo deve considerar tal coisa como uma bênção especial da parte de Deus” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (2Tm 3.15), p. 261).

[8] João Calvino, As Pastorais, (2Tm 3.15), p. 261.

[9] Esta palavra não consta no original, é apenas dito: “E eu em vós”.

[10]“Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas (sofi/zw), mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade” (2Pe 1.16).

[11] *Mt 10.16; Rm 16.19; Fp 2.15.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (38)

A Sabedoria do Espírito

Sem dúvida, como temos insistido, na oração de Paulo ele se refere ao Espírito Santo: “Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria (sofi/a) e de revelação (a)poka/luyij) no pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) dele” (Ef 1.17).

 

Surge, então, a pergunta: Como pode ele suplicar em relação aos efésios, que Deus lhes dê Espírito de sabedoria e revelação, considerando que eles eram crentes e, por isso, já possuíam o Espírito Santo?

 

Na realidade, aqui temos uma oração pelo crescimento espiritual dos efésios; ele ora pelo fortalecimento espiritual daqueles irmãos. Somente pelo maior conhecimento de Deus poderemos, de fato, amadurecer e nos fortalecer em nossa fé. (Ef 3.16)[1].[2]

 

Este tipo de oração não era estranho a Paulo. Ele também ora para que os Colossenses conhecessem a vontade de Deus em sabedoria: “Por esta razão, também nós, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós e de pedir que transbordeis de pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) da sua vontade, em toda a sabedoria (sofi/a) e entendimento (su/nesij) espiritual” (Cl 1.9).

 

Aqui temos em essência o desejo de Paulo para a igreja: Que ela tivesse uma genuína espiritualidade, fundamentada no conhecimento de Deus, controlada pela Escritura, se manifestando em santidade e amor em todas as facetas da vida, tendo a Cristo como Senhor de todos os aspectos de sua existência.[3]

 

Portanto, este conhecimento, pelo qual o apóstolo ora, tem sempre como ingrediente essencial a prática do mesmo. Conhecer a Deus tem implicações práticas que se refletem em nossa comunhão com Deus, em nossa relação conosco e com o nosso próximo. Observem a sequência da oração de Paulo: “A fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) de Deus” (Cl 1.10).

 

Como temos enfatizado, todos somos incapazes de entender os “mistérios de Deus” até que Ele mesmo por Sua graça nos ilumine.[4] “A Palavra de Deus é uma espécie de sabedoria oculta, a cuja profundidade a frágil mente humana não pode alcançar. Assim, a luz brilha nas trevas, até que o Espírito abra os olhos ao cego”.[5] A voz de Deus é única, no sentido de que, não há contradição. Em Sua revelação (Geral e Especial) haverá sempre uma multiforme e harmoniosa mensagem a respeito de glória de Deus e da necessidade de nosso retorno à comunhão com o nosso Criador.

 

Se Deus pelo Espírito não iluminar a nossa mente, desobstruindo os nossos olhos, jamais a entenderemos salvadoramente.[6] Portanto, quando o Espírito aplica a Palavra ao nosso coração, Ele produz a sua boa obra em nós, gerando a fé salvadora que se direciona para Cristo e para os feitos de Sua redenção.[7] Paulo, portanto, está correto em pedir a Deus que conceda aos efésios Espírito de sabedoria e de revelação.

 

De semelhante modo, devemos pedir sabedoria a Deus, como nos instrui Tiago:

 

5 Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria (sofi/a), peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida. 6 Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; pois o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento. 7 Não suponha esse homem que alcançará do Senhor alguma coisa; 8 homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus caminhos. (Tg 1.5-8). (Ver também 2Pe 3.15).

 

Contrastando com esta sabedoria, o poeta trágico grego, Eurípides (480-406 a.C.), cuja obra mais conhecida é Medeia (435 a.C.), em certa ocasião, escreveu:

 

Os sábios têm duas línguas, uma para dizer o que pensam e a outra para falar conforme as circunstâncias: quando o querem, têm talento para fazer o preto aparecer como branco e o branco como preto, soprando com a mesma boca o calor e o frio e exprimindo com palavras exatamente o contrário do que sentem no peito.[8]

 

No entanto, a perspectiva bíblica, como temos visto, é totalmente diferente. Analisemos alguns aspectos desta sabedoria.

 

Maringá, 09 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]“Para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior” (Ef 3.16).

[2]Veja-se: William Hendriksen, Efésios, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, (Ef 1.17), p. 123-125.

[3] Vejam-se: Joel R. Beeke, Espiritualidade Reformada, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2014, p. 18; Francis A. Schaeffer, Um Manifesto Cristão. In: Francis A. Schaeffer, A Igreja no Século 21, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 166; Francis A. Schaeffer, O Grande Desastre Evangélico. In: Francis A. Schaeffer, A Igreja no Século 21, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 288; Francis A. Schaeffer, A Arte e a Bíblia, Viçosa, MG.: Editora Ultimato, 2010, p. 17.

[4] Cf. João Calvino, As Institutas, II.2.21.

[5] João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 2.11), p. 89.

[6]Vejam-se: João Calvino, As Institutas, III.2.33; Juan Calvino, Autoridad y Reverencia que Debemos a la Palabra de Dios: In: Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 17), p. 208; John Calvin, Commentary on the Book of the Prophet Isaiah, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, (Calvin’s Commentaries), 1996, v. 8/4, (Is 59.21), p. 271.

[7]Cf. William Hendriksen, O Evangelho de João, São Paulo: Cultura Cristã, 2004, (Jo 17.20), p. 772.

[8] Apud: Erasmo de Roterdam, Elogio da Loucura, Rio de Janeiro: Editora Tecnoprint, (s.d.), p. 82.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (37)

Aos arrogantes coríntios, que com uma suposta sabedoria inexistente queriam limitar Cristo aos seus modestos e frágeis cânones intelectuais, o apóstolo indaga:

 

20Onde está o sábio (sofo/j)? Onde, o escriba? Onde, o inquiridor deste século? Porventura, não tornou Deus louca (mwrai/nw) a sabedoria (sofi/a) do mundo? 21Visto como, na sabedoria (sofi/a) de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria (sofi/a), aprouve (eu)doke/w)  a Deus salvar os que creem pela loucura (mwri/a) da pregação (1Co 1.20-21).

 

A ideia da palavra traduzida por “loucura’, é de algo “imbecil”, “tolo”, “insensato”. Na literatura clássica está relacionada à falta de conhecimento e discernimento. Dentro do aspecto da insensatez, esta figura é aplicada ao sal que, se se tornar “insípido” (mwrai/nw) (Mt 5.13; Lc 14.34-35) para nada mais serve. No emprego feito por Paulo, a loucura da mensagem da cruz de Cristo está justamente pela sua falta de sentido intelectual para aqueles que querem avaliar o seu conteúdo dentro de seus pressupostos viciados. Em síntese, o Evangelho soa como algo “simplório”. Paulo diz que Deus tornou “louca” (mwrai/nw) a sabedoria deste mundo (1Co 1.20). Por sua vez, os ímpios se considerando sábios, “tornaram-se loucos(mwrai/nw) (Rm 1.22/Jr 10.14 (“estúpido” [mwrai/nw]), em sua idolatria, recebendo o justo castigo de Deus (Rm 1.23-27).

 

Deste modo, a sabedoria de Deus será sempre loucura (mwri/a) para os sábios deste mundo que querem simplesmente adequar o Evangelho aos seus pressupostos (1Co 1.18,23; 2.14). Dentro desta perspectiva, Deus escolheu então as cousas loucas (mwro/j) do mundo” (1Co 1.27). Em outras palavras, Deus deliberou em Sua sabedoria que a sabedoria humana não seria o caminho para conhecê-lo.[1]

 

A sabedoria deste mundo é loucura (mwri/a) diante de Deus (1Co 3.19). Deus sabe que os pensamentos destes “sábios” são “vãos” (= “nulos”, “fúteis” [ma/taioj] *At 14.15; 1Co 3.20; 15.17; Tt 3.9; Tg 1.26; 1Pe 1.18)(1Co 3.20).

 

Por outro lado, os que creem na loucura (mwri/a) da pregação serão salvos (1Co 1.21). A loucura (mwro/j) de Deus é mais sábia do que a sabedoria deste mundo (1Co 1.25). Mas, qual a diferença entre a sabedoria de Deus e a sabedoria do mundo? A diferença fundamental, é que a sabedoria deste mundo tenta anular a cruz de Cristo, buscando um caminho mais de acordo com os seus pressupostos, realçando a sua capacidade e autonomia, buscando em si mesmos a solução de seus problemas e, descobrem tristemente, que seus reservatórios estão vazios.[2] A sabedoria de Deus, por sua vez, mostra na cruz, o pecado humano e a sua total incapacidade de salvar-se, estando totalmente perdido, realçando a graça redentora de Deus (Rm 3.34-26; 5.6-11).

 

Piper resume:

 

Em outras palavras, a cruz ofende a sabedoria humana porque ela humilha o homem e exalta a imerecida graça de Deus.[3] (…) O âmago da sabedoria de Deus é a paixão de Deus por demonstrar sua graça em Cristo para o gozo eterno daqueles que creem. Visto que todos nós somos pecadores indignos, a cruz é central para essa sabedoria. Sem a cruz, não poderíamos ter essa sabedoria. (…) A essência da sabedoria de Deus é exaltar a glória de sua graça manifestada em Cristo crucificado.[4]

 

Portanto, se quisermos nos tornar sábios para Deus, tornemo-nos loucos (mwro/j) para as cousas deste mundo (1Co 3.18).[5]

 

De certa forma, somos os loucos de Cristo (1Co 4.10). Por sua vez, ilustrando que a “loucura” ou “insensatez” não são boas em si mesmas, Paulo faz recomendações práticas para que rejeitemos as questões “sábias” deste mundo que consistem em discussões e questões “insensatas” que produzem contendas, não tendo utilidade (2Tm 2.23; Tt 3.9 [“fúteis” (ma/taioj]). Portanto, o Evangelho não tem a “loucura” e “insensatez” como virtudes (Mt 23.16-17; 25.1-13). A verdadeira sabedoria consiste em ouvir a Palavra de Deus e praticá-la. Loucura é desprezá-la (Mt 7.24-27).

 

A sabedoria deste mundo tenta excluir Deus, por isso a loucura desta suposta sabedoria que astutamente torna a realidade apenas material, ou, quando muito, vê a vida como sendo dominada por alguma força cósmica impessoal. Dentro desta perspectiva secular-mística, a mensagem do Evangelho permanece como loucura. Ela é inacessível à compreensão puramente humana e limitada.

 

Portanto, o argumento de Paulo quanto à proclamação do Evangelho:

 

A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; porquanto está escrito: Ele apanha os sábios (sofo/j) na própria astúcia deles (1Co 3.19).

Expomos sabedoria (sofo/j) entre os experimentados; não, porém, a sabedoria (sofo/j) deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada (katarge/w) (algo que desvanece, se dilui) (1Co 2.6).

 

Lloyd-Jones (1899-1981) colocou esta questão nestes termos:

 

Se vocês não partirem deste elemento de mistério e de encantamento, nunca irão crer no Evangelho. “Não julgues o Senhor pela débil razão”. Reconheça a sua finitude pessoal, a sua pecaminosidade, a sua incapacidade total para entender a mente do Deus eterno.[6]

 

Assim, sendo, o cristão deve aceitar este paradoxo: tornar-se louco diante dos valores deste século para entender a verdadeira e definitiva sabedoria:

 

18 Ninguém se engane a si mesmo: se alguém dentre vós se tem por sábio neste século, faça-se estulto para se tornar sábio. 19 Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; porquanto está escrito: Ele apanha os sábios na própria astúcia deles. 20 E outra vez: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são pensamentos vãos (1Co 3.18-20).

 

Por isso a nossa fé não pode se apoiar em sabedoria humana, mas, no poder de Deus. Paulo sabia bem deste risco, certamente tão tentador para muitos. Relembra então aos coríntios, como foi a sua chegada entre eles:

 

Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria (sofi/a). 2Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. 3 E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. 4 A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria (sofi/a), mas em demonstração do Espírito e de poder, 5 para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria (sofi/a) humana, e sim no poder de Deus (1Co 2.1-5/2Co 1.12).[7]

 

Continua:

 

Mas falamos a sabedoria (sofi/a) de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória (1Co 2.7).

Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria (sofi/a) humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais (1Co 2.13).

 

A pregação entre os colossenses não foi diferente:

 

24 Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja; 25 da qual me tornei ministro de acordo com a dispensação da parte de Deus, que me foi confiada a vosso favor, para dar pleno cumprimento à palavra de Deus: 26 o mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos; 27 aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória; 28 o qual nós anunciamos, advertindo a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria (sofi/a), a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo; 29 para isso é que eu também me afadigo, esforçando-me o mais possível, segundo a sua eficácia que opera eficientemente em mim (Cl 1.24-29).

 

Do mesmo modo entre os efésios:

 

8A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo 9 e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas, 10 para que, pela igreja, a multiforme sabedoria (sofi/a) de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais, 11 segundo o eterno propósito que estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor, 12 pelo qual temos ousadia e acesso com confiança, mediante a fé nele (Ef 3.8-12).

 

Maringá, 09 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Veja-se: John Piper, Pense – A Vida da Mente e o Amor de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 205.

[2]“Em sua insanidade arrogante, os homens afirmam que são mais sábios do que Deus, ao asseverarem seu próprio pensamento e abordagem quanto à vida. E aqueles que os ouvem procuram, em grande número, as cisternas rotas da filosofia humanista deles, em busca de respostas para a vida. Mas tudo que descobrem são reservatórios vazios que escarnecem de sua sede” (Steven J. Lawson, O tipo de pregação que Deus abençoa, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2013, p. 52).

[3] “A cruz se levanta como testemunho da infinita dignidade de Deus e o infinito ultraje do pecado” (John Piper, A Supremacia de Deus na Pregação, São Paulo: Shedd Publicações, 2003, p. 31).

[4]John Piper, Pense – A Vida da Mente e o Amor de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 209,210.

[5] Ninguém se engane a si mesmo: se alguém dentre vós se tem por sábio (sofo/j) neste século, faça-se estulto (mwro/j) para se tornar sábio (sofo/j) (1Co 3.18).

[6] D.M. Lloyd-Jones, Cristianismo Autêntico: Sermões nos Atos dos Apóstolos, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2006, v. 4, p. 304.

[7] Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que, com santidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria (sofi/a) humana, mas, na graça divina, temos vivido no mundo e mais especialmente para convosco” (2Co 1.12).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (36)

A nulidade e loucura da sabedoria humana nas questões espirituais

 

Vemos então, as limitações próprias de nosso intelecto. Paulo suplica pela sabedoria de Deus porque, nós, por nossa própria sabedoria jamais poderemos compreender salvadoramente o que Deus nos tem revelado. E mais: se pudéssemos por nós mesmos fazê-lo, não haveria graça, mas, mérito humano.[1] Assim, não haveria porque louvar o Deus da graça que a derramou abundantemente sobre nós (Ef 1.5-8). A grandeza estaria no homem e em sua capacidade de bem conduzir a sua razão.

 

Porém, como sabemos, a razão humana, por si só, não assistida pela graça, não pode chegar às verdades espirituais.[2] O fato, portanto, é que o Evangelho permaneceria oculto a todos nós se Deus não O manifestasse e não nos concedesse o Espírito de sabedoria para entendê-lo.[3]

 

É por isso que a pregação de Paulo a judeus e gentios não poderia ser outra do que “a Cristo, poder de Deus e sabedoria (sofi/a) de Deus” (1Co 1.24). (Do mesmo modo: 1Co 1.30).

 

A sabedoria do homem sem Deus, em seus devaneios autônomos, o tornou louco, afetando todos os domínios do seu coração, pretendendo passar por sábio autônomo,[4] rejeitou a Deus e a Sua revelação, tornando-se enlouquecidamente escravo de toda sorte de paixões idólatras. Paulo escreve sobre isso aos Romanos:

 

18 A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; 19 porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. 20 Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; 21 porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. 22 Inculcando-se por sábios (sofo/j), tornaram-se loucos (mwrai/nw) 23 e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis (Rm 1.18-23).

 

A idolatria torna os homens cativos de uma forma viciada de pensar. O produto de nossos raciocínios torna-se nulo em sua própria elaboração. As evidências da revelação são sempre ocultadas em seus corações dominados por uma forma rotineira de pensar e determinantemente horizontal, tendo como fim os seus interesses (Rm 1.19-21).

 

Schaeffer (1912-1984) comenta:

 

Quando a Escritura fala do homem sendo deste jeito tolo, não significa que ele é apenas religiosamente tolo. Antes, significa que ele aceitou uma posição que é intelectualmente tola, não somente com respeito ao que a Bíblia diz, mas também em relação àquilo que existe – o universo e sua forma, e a humanidade do homem. Ao se afastar de Deus e da verdade que ele deu, o homem ficou tolamente tolo em relação ao que o homem é e ao que o universo é. Ele é deixado em uma posição com a qual ele não consegue viver, e ele é pego numa multidão de tensões intelectuais e pessoais.[5]

 

Ao que parece a idolatria, já como resultado da obscuridade espiritual, elimina boa parte de nossa sensibilidade espiritual, brutalizando-nos, amortecendo certas faculdades nossas. Por isso, é que a idolatria nunca vem sozinha, ela sempre está acompanhada de outras práticas irracionais e pecaminosas.

 

O salmista comparando a grandeza de Deus com os ídolos feitos pelos homens, arremata: “Como eles se tornam os que os fazem, e todos os que neles confiam” (Sl 135.18). Os homens que se projetam em seus ídolos não têm alternativa possível, senão tornarem-se semelhantes à sua imagem que adoram, afinal, seus ídolos, nada lhes propõem, que já não seja da natureza de seus criadores.

 

Este conceito encontramos também em Oséias, quando relembrando o pecado do povo de Israel no deserto, diz: “Mas eles foram para Baal-Peor, e se consagraram à vergonhosa idolatria, e se tornaram abomináveis como aquilo que amaram” (Os 9.10). A idolatria apenas forneceu as bases justificadoras da prática que desejavam.

 

Como a idolatria é a construção de um deus que se harmonize com seus desejos, nada mais natural de que esta construção humana termine por se tornar no seu modelo de vida e comportamento. Há aqui um círculo vicioso: Crio meus deuses com características semelhantes às minhas a fim de que ele se torne um modelo para que eu continue sendo o que sou, reforçando assim a minha prática.

 

A idolatria traz um desequilíbrio no cerne do pensamento humano, se manifestando em todas outras áreas de sua vida, ainda que nem sempre de modo imediatamente perceptível: a idolatria tende a ser desagregadora do caráter ainda que possa se esconder sob a capa da compreensão tolerante. A idolatria é uma doença espiritual resultante da carência de Deus e da procura equivocada do sagrado.

 

É por isso que a sabedoria deste mundo é nula no que diz respeito ao conhecimento das coisas espirituais. Estamos totalmente cegos. A nossa percepção não alcança nada além do mundo e de seus valores terrenos.[6] “Os homens são estúpidos e jamais entendem coisa alguma pertencente à sua salvação sem que Deus opere neles”.[7]

 

Maringá, 09 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1]“Se todo homem fosse capaz de crer e ter fé de moto próprio, ou a pudesse obter por algum poder de si mesmo, o louvor disso não teria que ser dado a Deus” (João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 132).

[2]Veja-se: John MacArthur, Deus: Face a face com sua majestade, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2013, p. 67.

[3] “O Evangelho só pode ser entendido por meio da fé – não pela razão, nem pela perspicácia do entendimento humano, porque de outro modo ele seria algo oculto de nós” (João Calvino, Colossenses: In: Gálatas – Efésios – Filipenses – Colossenses, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2010, (Cl 2.1-5), p. 531).

[4]“A forma extrema da idolatria é o humanismo, que vê o homem como a medida de todas as coisas” (R.C. Sproul, O que é a teologia reformada: seus fundamentos e pontos principais de sua soteriologia, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 33).

[5]Francis A. Schaeffer, Morte na Cidade, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 12.

[6] Veja-se: João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 153ss.

[7]João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 154.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (35)

5.5. Ser cheio de sabedoria

 

“Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria (sofi/a) (At 6.3).

 

Os diáconos deveriam ser cheios do Espírito e de sabedoria. A sequência é essa mesma. Se os diáconos buscassem sabedoria por si mesmos, sem a direção do Espírito, certamente se secularizariam e cairiam em armadilhas tais como: olhar o diaconato como um estorvo ou uma fonte de lucro. Tentariam transformar a igreja em uma empresa rentável a qualquer preço, etc.

 

Somente pela Espírito poderemos ter a genuína sabedoria espiritual para atuar com discernimento na execução de nossas vocações.

 

Façamos uma digressão para analisar o sentido bíblico da sabedoria. Paulo ora para que o Deus Pai, pelo Espírito que já nos selou, e o temos como penhor de nossa salvação (Ef 1.13-14), aja em nós poderosamente, nos concedendo sabedoria espiritual para podermos conhecer mais a Deus em nossa caminhada na vida cristã. Estudemos um pouco mais sobre o conceito de sabedoria nas Escrituras.

 

“Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria (sofi/a) e de revelação (a)poka/luyij) no pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) dele” (Ef 1.17).

 

A sabedoria pertence a Deus

Devemos primeiramente entender que a sabedoria pertence a Deus. Esta é um dos Atributos de Deus. Todo conhecimento e toda sabedoria fazem parte da natureza essencial de Deus e se revelam em seus atos, na Criação e em Sua Palavra.[1]

 

Sempre é bom reafirmar que a Revelação de Deus não é uma não-revelação, um despiste ou disfarce ou mesmo, algo inconsistente com Ele. Deus dá um testemunho idôneo de si mesmo. Somente Deus pode fazê-lo de forma perfeita e completa.[2] O Deus que revela é o conteúdo da revelação. O Revelador é o Revelado. Deus se revela tal qual é, contudo, de forma que possamos entender. Deus é sábio em Si mesmo, expressando isso em seus atos, Palavra e obras.

 

Paulo, de forma doxológica, conclui a Carta aos Romanos: “Ao Deus único e sábio (sofo/j) seja dada glória, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos. Amém!” (Rm 16.27).

 

Notemos que esta glória atribuída a Deus deve ser dada por meio de Jesus Cristo, seu Filho amado, o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5), por meio de quem a sabedoria de Deus se manifestou de forma encarnada. Por isso é que o culto que prestamos a Deus é por meio dos méritos de Cristo. Todo o nosso relacionamento com o Pai só é possível por meio de Jesus Cristo. Ele é o caminho de todas as bênçãos, sendo Ele mesmo a maior de todas (Rm 8.32).[3]

 

É assim que Paulo escrevera aos Efésios um pouco acima:

 

6 para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, 7 no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, 8 que Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria (sofi/a) e prudência (fro/nhsij = inteligência, bom senso, discernimento) (Ef 1.6-8).

 

Da mesma forma aos Colossenses:

 

1Gostaria, pois, que soubésseis quão grande luta venho mantendo por vós, pelos laodicenses e por quantos não me viram face a face; 2 para que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor, e eles tenham toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo, 3 em quem todos os tesouros da sabedoria (sofi/a) e do conhecimento (gnw=sij) estão ocultos (Cl 2.1-3).

 

Maringá, 09 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1]“Que variedade, SENHOR, nas tuas obras (hf,[]m) (ma`aseh)! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas” (Sl 104.24). Na Criação podemos perceber aspectos da bondade de Deus que nos aliviam em nossas dores e limitações, nos concedendo a visão da harmoniosa variedade e beleza daquilo que criou. Nesta visão, somos conduzidos a admirar e a glorificar a Deus por Sua manifestação de sabedoria, bondade e graça para conosco.

[2]“Pois, como haja a mente humana, que ainda não pode estatuir ao certo de que natureza seja a massa do sol, que entretanto se vê diariamente com os olhos, de reduzir à sua parca medida a imensurável essência de Deus? Muito pelo contrário, como haja de, por sua própria operação, penetrar até a substância de Deus, a fim de perscrutá-la, ela que não alcança nem ao menos a sua própria? Por cuja razão, de bom grado deixemos a Deus o conhecimento de si mesmo, pois, além de tudo, como o diz Hilário, ele próprio, que não foi conhecido, a não ser por si mesmo, é de si mesmo a única testemunha idônea. Ora, deixaremos com ele o que lhe compete se o concebermos tal como ele se nos manifesta; e só poderemos inteirar-nos disto por intermédio de sua Palavra” (João Calvino, As Institutas, (2006), I.13.21).

[3]Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (Rm 8.32).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (34)

5.4. Ser cheio do Espírito Santo

 

“Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito….” (At 6.3).

 

É pelo Espírito que podemos usar adequadamente, de forma correta e intensa de nossa capacidade. O Espírito não nos aliena, antes, nos conduz à percepção mais aprimorada e intensa da Palavra de Cristo que habita ricamente em nós. O Espírito nos estimula e capacita espiritual e intelectualmente a entender e obedecer a Palavra de Deus.

 

Os diáconos precisavam ser cheios do Espírito – como todo o cristão, Ef 5.18 – para poderem, de modo especial, desempenhar as suas atividades dignamente, com discernimento, demonstrando amor, alegria, paz, longanimidade, mansidão etc. que são subprodutos do amor, que é o fruto do Espírito (Gl 5.22,23). “O Espírito Santo nos coloca em um relacionamento correto com Deus e as pessoas”, comenta Stott.[1] O Espírito cria pontes nos conduzindo às pessoas com discernimento e compaixão.

 

O enchimento do Espírito pressupõe o selo e o batismo definitivos do Espírito. Por isso mesmo, não se confunde com eles (Ef 1.13; 4.30; 1Co 12.13).[2] O batismo e o selo do Espírito são realidades efetivas para todos os crentes em Cristo.[3] Já o enchimento é um dever de cada cristão que reconhece a sua eleição eterna para a salvação em santificação (Ef 1.4/2Ts 2.13).

 

A ideia expressa em Ef 5.18, é a de ter o Espírito em todas as áreas da nossa vida, de forma plena e abundante. Aqui, quatro observações devem ser feitas:[4]

 

a) O Verbo “encher” (plhro/w) está no modo imperativo. Portanto, o enchimento” não é algo facultativo ao crente – podendo ou não realizá-lo – antes, é uma ordem expressa de Deus, consistindo em desobediência voluntária o não esforçar-se por fazê-lo.

 

b) O verbo está no tempo presente, expressando uma ordem imperativa e, também, indicando uma experiência que se renova num processo permanente, contínuo, por meio do qual vamos, cada vez mais, sendo dominados por Ele, passando a ter a nossa mente, o nosso coração e a nossa vontade – o homem integral – submetidos ao Espírito.[5] Por isso, podemos interpretar o texto de Ef 5.18, como que Paulo dizendo: “Sede constantemente, momento após momento, controlados pelo Espírito”.

Hoekema (1913-1988) observa que, “o imperativo presente ensina-nos que ninguém pode, jamais, reivindicar ter sido cheio do Espírito de uma vez por todas. Estar sendo continuamente cheio do Espírito é, de fato, o desafio de uma vida toda e o desafio de cada dia”.[6]

 

c) O verbo está no plural. Logo, esta ordem é para todos os cristãos, não apenas para os líderes. Todos nós sem exceção devemos ser enchidos do Espírito. Aqui temos um mandamento explícito para toda a Igreja – “enchei-vos do Espírito!”– não uma opção de vida cristã para alguns, que pode ser seguida ou não. A ordem bíblica é categórica e para todos os crentes em Cristo.[7]

 

d) O verbo está na voz passiva, indicando que o sujeito da ação é passivo. Deus é o autor do enchimento. Notemos, contudo, que nesta progressividade espiritual, haverá sempre a participação voluntária do crente que, consciente de suas necessidades espirituais, procurará cada vez mais intensamente submeter-se à influência do Espírito, recorrendo aos recursos fornecidos pelo próprio Deus para o nosso aperfeiçoamento piedoso (2Pe 1.3-4).[8]

 

A sequência do texto de Efésios nos mostra os frutos práticos e concretos desse “enchimento”.  Paulo, portanto, nos diz que a solução para qualquer dificuldade em nossa vida, seja em que âmbito for, passa pelo enchimento do Espírito. Aqui temos um princípio universal para todo e qualquer problema particular: Enchei-vos do Espírito![9]

 

Este enchimento nunca será definitivo nesta existência, daí a ordem contínua para todos os crentes, que deve ser uma experiência renovada: Enchei-vos do Espírito! A vida cristã tem algo a dizer sobre qualquer área de nossa existência. O Cristianismo não é uma religião de brechas, de compartimentos estanques de nossa existência, antes, de todas as facetas da vida. A mensagem do Evangelho é para todos os homens e para o homem todo em sua inteireza e integralidade.

 

Uma vida autenticamente cristã produz seus reflexos em todas as áreas da nossa existência e da sociedade. Esse aspecto é destacado como um fator de relevância na escolha dos diáconos feita pela igreja.

 

Maringá, 09 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Confira esta série completa aqui


[1] John R.W. Stott, Batismo e Plenitude do Espírito Santo, 2. ed. ampl. São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 44.

[2]“Em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa” (Ef 1.13). “E não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção” (Ef 4.30). “Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito” (1Co 12.13).

[3]“A essência do cristianismo é que o Espírito Santo nos é dado, está em nós, quer tenhamos consciência dele quer não” (D. Martyn Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 123).

[4] Vejam-se: Kenneth S. Wuest, Joias do Novo Testamento Grego, São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1979, p. 29-32; A.A. Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 58-59; John R.W. Stott, Batismo e Plenitude do Espírito Santo, 2. ed. ampl. São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 44-45; Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 650.

[5] “O Espírito Santo preenche a vida controlada por Sua Palavra. Isso dá ênfase ao fato de que o preenchimento do Espírito não é algo estático ou uma experiência emocional, mas um firme controle de vida por meio da obediência à verdade da Palavra de Deus” (John F. MacArthur, Colossenses e Filemon, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 56).

[6] A.A. Hoekema, Salvos pela Graça, p. 58.

[7] Veja-se: A.A. Hoekema, Salvos pela Graça, p. 58.

[8]3 Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, 4 pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis coparticipantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo” (2Pe 1.3-4).

[9]D.M. Lloyd-Jones, Vida no Espírito: no casamento, no lar e no trabalho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 22.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (33)

5.2. Ser discípulo de Cristo

 

 “Ora, naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos (maqhth/j), houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição diária. (…) 3Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço” (At 6.1,3).

 

O que está pressuposto no texto é que todos os membros da igreja devem ser discípulos de Cristo. Não se cogita a existência de um membro nominal sem nenhuma vinculação com o Mestre. O discipulado pressupõe a existência de um mestre a quem seguimos. O discipulado não se resume a uma mera confissão oral, por mais corretamente doutrinariamente que ela seja, mas, além disso, requer atos de obediência.[1]

 

O discipulado cristão envolve a necessidade de uma avaliação de seus privilégios e responsabilidades. Jesus Cristo não deseja discípulos enganados ou iludidos. Ele é extremamente objetivo em seu chamado. (Mc 8.34).[2]

 

Os diáconos, portanto, seriam escolhidos pela Igreja, entre os seus membros, entre os discípulos de Cristo. O diaconato não pode ser terceirizado. Também, os diáconos não são crentes meramente “nominais” que apenas estão no meio de um grupo considerado de discípulos. As próprias qualificações exigidas vão indicar o seu discipulado. A escolha do diácono nunca pode ser uma questão política ou social, antes, é teológica e espiritual. A vida espiritual do escolhido acompanhada do seu testemunho, conforme veremos, se constituem em aspectos essenciais e, por isso mesmo, não negociáveis.

 

Os diáconos servem à Igreja como, na realidade são, servos de Cristo. No segundo século, Inácio (30-110 AD), bispo de Antioquia da Síria, em carta endereçada à Igreja de Trales,[3] instruiu: “Os que são diáconos dos mistérios de Jesus Cristo agradem a todos em tudo. Pois não é de comidas e bebidas que são diáconos, mas são servos da Igreja de Deus”.[4]

 

5.3. Ter boa reputação

 

“Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação (At 6.3).

 

O diácono precisava ter o reconhecimento e testemunho público de uma vida digna. Ele trataria com situações delicadas envolvendo necessidades de irmãos, dinheiro, alimento e bens da igreja. Não deveria pairar suspeita sobre ele, sobre a sua conduta. (Vejam-se comparativamente: At 10.22; 16.2; 22.12 1Tm 5.10; Hb 11.2,4). Um homem conhecido por sua desonestidade, com pendências que o desabonassem, não estaria qualificado para o diaconato.

 

Maringá, 09 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 


[1] Veja-se: Dietrich Bonhoeffer, Discipulado, 2. ed. São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1984, p. 20

[2]Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8.34).

[3] Cidade que distava uns 50 km de Éfeso.

[4]Inácio, Carta aos Tralianos, 2. In: Cartas de Santo Inácio de Antioquia, 3. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1984, p. 58.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (32)

A vontade de Deus e as circunstâncias

 

A vontade de Deus revelada no apostolado de Paulo não era mera abstração, algo distante e apenas virtual, antes, se materializava no seu sincero esforço por discernir a vontade de Deus em seus propósitos por mais santos que eles lhes parecessem. Ilustremos: Paulo desejava muito visitar a Igreja de Roma que ele mesmo não conhecera ainda que tivesse muitos irmãos ali congregados. Ele orava já há algum tempo sobre este assunto:

 

9Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, é minha testemunha de como incessantemente faço menção de vós  10em todas as minhas orações, suplicando que, nalgum tempo, pela vontade (qe/lhma) de Deus, se me ofereça boa ocasião de visitar-vos. (Rm 1.9-10).

 

Quando Paulo estava em Corinto, acredita ter uma boa oportunidade de visitar Roma. Contudo, antes deve passar pela Judéia para levar as ofertas para os santos dali. Sua trajetória seria arriscada, visto ter muitos inimigos na região. Ele então pede aos crentes romanos:

 

30 Rogo-vos, pois, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e também pelo amor do Espírito, que luteis juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor, 31 para que eu me veja livre dos rebeldes que vivem na Judéia, e que este meu serviço em Jerusalém seja bem aceito pelos santos; 32 a fim de que, ao visitar-vos, pela vontade (qe/lhma) de Deus, chegue à vossa presença com alegria e possa recrear-me convosco. (Rm 15.30-32).

 

Ainda que nossos propósitos sejam santos, nem sempre é fácil discernir a vontade de Deus. Paulo cria ter boa ocasião para conhecer os irmãos de Roma, acreditava ter uma mensagem para eles, contudo, deseja saber se esta era a vontade de Deus naquelas circunstâncias. Ele só pôde ter esta certeza depois de preso, quando o próprio Senhor lhe garantiu que assim se sucederia. Todavia, não como Paulo, possivelmente desejava ou esperava (At 23.11).[1]

 

A vocação interna e o testemunho da igreja

 

Retomando o nosso assunto, destacamos que o diácono deve ser eleito pela Igreja (At 6.5). A eleição é uma evidência de que Deus vocacionou aquele irmão para o respectivo ofício. Por isso, a Igreja deve buscar a orientação de Deus com fé e submissão, certa de que Deus também manifesta a sua vontade por intermédio da assembleia da igreja. A certeza subjetiva (chamado interno) deve vir acompanhada, a seu tempo, de uma manifestação objetiva (chamado externo).

 

A sensação do chamado pode não acompanhada da expressão da igreja pode ser algo muito perigoso.

 

Melanchthon (1497-1560) e Lutero (1483-1546) depararam-se explicitamente com esse problema bem no início da Reforma Protestante. Por volta de 1520, na pequena, porém próspera e culta cidade alemã de Zwickau, surgiu um grupo de homens “iluminados” – chamados por Lutero de “profetas de Zwickau”[2] – que alegava ter revelações especiais vindas diretamente de Deus, entendendo ter sido chamado por Deus para “completar a Reforma”.

 

A sua religião partia sempre de uma suposta revelação interior do Espírito. Acreditavam que o fim dos tempos estava próximo – os ímpios seriam exterminados – e que por isso, não era necessário estudar teologia visto que o Espírito estaria inspirando os pobres e ignorantes.  Assim pensando, esses homens diziam:

 

De que vale aderir assim tão estritamente à Bíblia? A Bíblia! Sempre a Bíblia! Poderá a Bíblia nos fazer sermão? Será suficiente para a nossa instrução? Se Deus tivesse tencionado ensinar-nos, por meio de um livro, não nos teria mandado do céu, uma Bíblia? Somente pelo Espírito é que poderemos ser iluminados. O próprio Deus fala dentro de nós. Deus em pessoa nos revela aquilo que devemos fazer e aquilo que devemos pregar.[3]

 

Certo alfaiate, Nícolas Storck, escolheu doze apóstolos e setenta e dois discípulos, declarando que finalmente tinham sido devolvidos à Igreja os profetas e apóstolos.[4] Ele, acompanhado de Marcos Stübner e Marcos Tomás foi a Wittenberg (27/12/1521) – que já enfrentava tumultos liderados por Andreas B. von Carlstadt (c. 1477-1541) e Gabriel Zwilling (c. 1487-1558) – pregar o que considerava ser a verdadeira religião cristã, contribuindo grandemente para a agitação daquela cidade. Stübner, antigo aluno de Wittenberg, justamente por ter melhor preparo, foi comissionado a representá-los. Melanchthon que conversou com Stubner, interveio na questão, ainda que timidamente. Storck,[5] mais inquieto, logo partiu de Wittenberg; Stubner, no entanto, permaneceu, realizando ali um intenso e eficaz trabalho proselitista – “era um momento crítico na história do cristianismo”.[6]

 

Comentando os problemas suscitados pelos “espiritualistas”, o historiador D’aubigné (1794-1872) conclui: “A Reforma tinha visto surgir do seu próprio seio um inimigo mais tremendo do que papas e imperadores. Ela estava à beira do abismo”.[7] Daí ouvir-se em Wittenberg o clamor pelo auxílio de Lutero. E Lutero, consciente da necessidade de sua volta, abandonou a segurança de Warteburgo retornando à Wittenberg[8] a fim de colocar a cidade em ordem (1522), o que fez, com firmeza e espírito pastoral.[9] Mais tarde, ele escreveria: “Onde, porém, não se anuncia a Palavra, ali a espiritualidade será deteriorada”.[10]

 

Não nos iludamos, essa forma de misticismo ainda está presente na Igreja. Tem sido extremamente perniciosa para o povo de Deus, e acarreta um desvio espiritual e teológico, desloca o “eixo hermenêutico” da Palavra para a experiência mística, nos afastando assim, da Escritura e, consequentemente, do Deus da Palavra.

 

Mais tarde, o teólogo Turretini (1623-1687), combatendo os fanáticos de seu tempo, falando da vocação de modo geral, enfatizou:

 

Ora, ainda que não duvidemos de que o sopro interno do Espírito concorra nesta vocação, isso não é suficiente, a menos que haja uma manifestação e confirmação externas, seja por uma manifestação de Deus, pessoalmente, ou por uma declaração da vontade divina, anexa a uma concordância da doutrina proposta com a doutrina revelada por Deus em Sua Palavra, para que não seja confundida com as imposturas dos fanáticos que se vangloriam do sopro e revelações divinos.[11]

 

Maringá, 7 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Confira esta série completa aqui

 


[1] Na noite seguinte, o Senhor, pondo-se ao lado dele, disse: Coragem! Pois do modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma” (At 23.11).

[2]Os principais líderes eram: Nícolas Storck, Marcos Tomás e Marcos Stübner. Tomás Münzer (c. 1490-1525), tornar-se-ia o mais famoso dos que foram influenciados por esse círculo, tendo mais tarde as suas ideias próprias, ainda que fiel aos mesmos princípios. (Veja-se: George H. Williams, La Reforma Radical, México: Fondo de Cultura Económica, 1983, p. 66ss; Jean Delumeau, O Nascimento e Afirmação da Reforma, São Paulo: Pioneira, 1989, p. 101).

[3]Apud J.H. Merle D’aubigné, História da Reforma do Décimo-Sexto Século, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, (s.d.), v. 3, p. 64. Mais tarde, Calvino escreveria, possivelmente referindo-se aos “libertinos”, também conhecidos como “espirituais”: “Ora, surgiram, em tempos recentes, certos desvairados que, arrogando-se, com extremada presunção, o magistério do Espírito, fazem pouco caso de toda leitura da Bíblia e se riem da simplicidade daqueles que ainda seguem, como eles próprios a chamam, a letra morta e que mata.

“Eu, porém, gostaria de saber deles que tal é esse Espírito de cuja inspiração se transportam a alturas tão sublimadas que ousem desprezar como pueril e rasteiro o ensino das Escrituras? Ora, se respondem que é o Espírito de Cristo, certeza dessa espécie é absurdamente ridícula, se, na realidade, concedem, segundo penso, que os apóstolos de Cristo e os demais fiéis na Igreja Primitiva não de outro Espírito hão sido iluminados. O fato é que nenhum deles daí aprendeu o menoscabo da Palavra de Deus; ao contrário, cada um foi antes imbuído de maior reverência, como seus escritos o atestam mui luminosamente. (…)

“Não é função do Espírito Que nos foi prometido configurar novas e inauditas revelações ou forjar um novo gênero de doutrina, mediante quê sejamos distraídos do ensino do evangelho já recebido; ao contrário, Sua função é selar-nos na mente aquela própria doutrina que é recomendada por meio do evangelho” (J. Calvino, As Institutas, I.9.1). Veja-se também: As Institutas, I.9.2-3.

McNeill explica que o termo “libertino” foi usado por Calvino para “designar uma seita religiosa que se espalhou na França e na Península Dinamarquesa, a qual, dando ênfase ao Espírito, rejeitava a Lei. Posteriormente, o termo veio a ser aplicado em Genebra, àqueles que se opunham à disciplina, os quais incluíam pessoas que desconsideravam a lei moral e outros, mais motivados politicamente em resistir a Calvino” (John T. McNeill, The History and Character of Calvinism, New York: Oxford University Press, 1954, p. 169).

[4]Cf. J.H. Merle D’aubigné, História da Reforma do Décimo-Sexto Século, v. 3, p. 64-65; Heinrich W. Erbkam, Münzer: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: Or Dictionary of Biblical, Historical, Doutrinal, and Practical Theology, Chicago: Funk & Wagnalls, Publishers, (revised edition), 1887, v. 2, p. 1596a.

[5]Como resultado das supostas revelações diretas de Deus, Storck e seus companheiros sustentavam que “dentro de cinco a sete anos os turcos invadiriam a Alemanha e destruiriam os sacerdotes e todos os ímpios. Storck via-se como cabeça de uma nova igreja, designada por Deus para completar a Reforma que Martinho Lutero deixara inacabada” (J.D. Weaver, Profetas de Zwickau: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 3, p. 657).

[6] James Atkinson, Lutero e o Nacimiento del Protestantismo, 2. ed. Madrid: Alianza Editorial, 1987, p. 254.

[7]J.H. Merle D’aubigné, História da Reforma do Décimo-Sexto Século, v. 3, p. 71.

[8]Justificando-se com o príncipe o motivo da sua volta, escreveu-lhe no dia de sua chegada a Wittenberg, 7 de março de 1522: “Não são acaso os Wittemberguenses as minhas ovelhas? Não mas teria confiado Deus? E não deveria eu, se necessário, expor-me à morte por causa delas?” (Apud J.H. Merle D’aubigné, História da Reforma do Décimo-Sexto Século, v. 3, p. 83).

[9]Lutero, iniciando no dia 09/3/1522, pregou oito dias consecutivos em Wittenberg. Veja-se o seu primeiro sermão In: Martinho Lutero, Pelo evangelho de Cristo: Obras selecionadas de momentos decisivos da Reforma, Porto Alegre; São Leopoldo, RS.: Concórdia Editora; Editora Sinodal, 1984, p. 153-161. Quanto aos detalhes da sua volta, Vejam-se: J.H. Merle D’aubigné, História da Reforma do Décimo-Sexto Século, v. 3, p. 72ss.; James Atkinson, Lutero e o Nacimiento del Protestantismo, p. 254ss.

[10] Martinho Lutero, Uma Prédica Para que se Mandem os Filhos à Escola (1530): In: Martinho Lutero: Obras Selecionadas, São Leopoldo, RS.; Porto Alegre, RS.: Sinodal; Concórdia, 1995, v. 5, p. 334.

[11] François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 3, p. 268.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (31)

Como há outras vozes querendo nos afastar da verdade, apresentando um caminho que, à primeira vista, pode nos parecer mais convidativo e tentador, devemos perseverar no caminho verdadeiro.

 

Paulo recrimina o esmorecimento dos gálatas que começando a crer corretamente na graça de Deus, agora, passam a viver, como se fosse possível, pelas obras. O legalismo judaico se constituía num impedimento aos judeus cristãos: “Vós corríeis bem; quem vos impediu (e)gko/ptw)[1] de continuardes a obedecer à verdade?” (Gl 5.7). Este impedimento pode ser proveniente do diabo por meio de seus agentes (1Ts 2.14-18) ou do próprio coração humano, onde reside a raiz de nossos pecados.[2]

 

Falsos mestres privados da verdade

 

Os falsos mestres, privados da verdade,[3] procuram desviar-nos dela pervertendo os ensinamentos da Palavra. Paulo cita dois falsos mestres de seu tempo, Himeneu[4] e Fileto, que, seguindo ensinamentos gnósticos, com uma linguagem corrosiva, eliminavam a esperança na ressurreição futura, pervertendo a fé de alguns:

 

 Além disso, a linguagem deles corrói como câncer (ga/ggraina);[5] entre os quais se incluem Himeneu e Fileto. Estes se desviaram da verdade (a)lh/qeia), asseverando que a ressurreição já se realizou, e estão pervertendo (a)natre/pw = “arruinar”, “virar”[6]) a fé a alguns. (2Tm 2.17-18).

 

O contágio da falsa doutrina

 

A falsa doutrina é contagiante. Paulo exorta a Tito com veemência a respeito dos insubordinados, especialmente judeus: “É preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo (a)natre/pw) casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância” (Tt 1.11).

 

Por causa dos falsos mestres o caminho da verdade será infamado.

 

Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas (yeudoprofh/thj),[7] assim também haverá entre vós falsos mestres (yeudodida/skaloj), os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. E muitos seguirão as suas práticas libertinas (a)se/lgeia), e, por causa deles, será infamado (blasfhme/w)[8] o caminho da verdade. (2Pe 2.1-2).

 

Pedro diz que o presbítero, enquanto pastor do rebanho, deve estar em condições de alimentá-lo com a Palavra e, também, saber combater àqueles que tentarão seduzir os fiéis com “palavras fictícias (plasto/j) (2Pe 2.3).

 

O falso mestre é aquele que ensina a mentira, o engano: cria imagens que nada são para corromper seus ouvintes, conduzindo-os a negar o próprio Senhor Jesus Cristo e, também, à viverem libertinamente (a)se/lgeia), ou seja, de modo dissoluto e lascivo.[9]

 

Por causa disso, o caminho do evangelho seria caluniado, reprovado, “blasfemado”. A mensagem desses falsos mestres consiste numa corrupção do evangelho. Plasto/j parece ter o sentido aqui de palavras artisticamente elaboradas, moldadas, sugestivas, porém, falsas, forjadas em seu próprio proveito, e, que por isso mesmo estão em oposição à verdade. Curiosamente este é o termo de onde vem a nossa palavra “plástico”.[10] O ensino cristão envolve arte, mas não “arte plástica” para com a verdade.

 

Treinar nossos ouvidos

 

Nós cristãos, precisamos treinar os nossos ouvidos a fim de não sermos conduzidos ingenuamente por ensinos que mesmo falando o nome de Deus e citando as Escrituras, neguem o Deus das Escrituras: “Porque o ouvido prova (!x;B’)(bahan) (examina, testa) as palavras, como o paladar, a comida” (Jó 34.3/Jo 12.11).

 

Maringá, 7 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

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[1]No seu emprego militar esta palavra tinha o sentido de cortar uma árvore para causar um impedimento ou, abrir uma vala que obstaculizasse temporariamente o caminho do inimigo, daí a palavra tomar o sentido de “impedimento”, “empecilho”, “obstáculo”, “cansar”, “sobrecarregar”. (Vejam-se: G. Stählin, Kopeto/j, etc.: In: G. Kittel, ed., Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1981 (Reprinted), v. 3, p. 855-860; C.H. Peisker, Impedir: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 2, p. 417-418; William F. Arndt; F.W. Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature, Chicago: University Press, 1957, p. 215; F.F. Bruce, Hechos de los Apóstoles: Introducción, comentarios y notas, Michigan: Libros Desafío, 2007, (At 24.4), p. 513-514).

[2]Cf. G. Stählin, Kopeto/j, etc.: In: G. Kittel, ed. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 3, p. 856-857.

[3]“Altercações sem fim, por homens cuja mente é pervertida e privados da verdade (a)lh/qeia), supondo que a piedade é fonte de lucro” (1Tm 6.5).

[4] Paulo se referira a este como que alguém que naufragou na fé (1Tm 1.19-20).

[5]Esta palavra só ocorre aqui em todo o Novo Testamento. É deste termo que provém palavra gangrena.

[6] A palavra é usada no sentido literal Jo 2.15: “Em tendo feito um azorrague de cordas, expulsou todos do templo, bem como as ovelhas e os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou (a)natre/pw) as mesas”.

[7] Jesus Cristo já nos alertara sobre eles. Vejam-se: Mt 7.15; 24.11,24; Lc 6.26. O apóstolo João falaria mais tarde de sua realidade presente (1Jo 4.1).

[8] O verbo Blasfhme/w, que tem o sentido de “injuriar”, “difamar”, “insultar”, “caluniar”, “maldizer”, “falar mal”, “falar para danificar”, etc., é formado de duas palavras, Bla/yij derivada de Bla/ptw = “injuriar”, “prejudicar” (* Mc 16.18; Lc 4.35) e Fhmi/ = “falar”, “afirmar”, “anunciar”, “contar”, “dar a entender”. A Blasfêmia tem sempre uma conotação negativa, de “maldizer”, “caluniar”, “causar má reputação”, etc., contrastando com Eu)fhmi/a (“boa fama” * 2Co 6.8) e Eu)/fhmoj (“boa fama” * Fp 4.8) (Eu)/ & fh/mh). No Fragmento 177 de Demócrito, lemos: “Nem a nobre palavra encobre a má ação, nem é a boa ação prejudicada pela má palavra (Blasfhmi/a)”. Paulo diz que o mal testemunho dos judeus contribuía para que os gentios blasfemassem o nome de Deus (Rm 2.24, citando Is 52.5). Compare este fato com a orientação de Paulo, 1Tm 6.1; Tt 2.5.

A falsa doutrina propicia a prática da blasfêmia (1Tm 6.3,4), bem como os falsos mestres (2Pe 2.1-2,10-12).

[9]A)se/lgeia ocorre nos seguintes textos do Novo Testamento: Mc 7.22; Rm 13.13; 2Co 12.21; Gl 5.19; Ef 4.19; 1Pe 4.3; 2Pe 2.2,7,18; Jd 4.

[10]A palavra grega plastiko/j é derivada do verbo pla/ssw, cujo advérbio utilizado por Pedro é plasto/j. A nossa palavra plástico vem do grego (plastiko/j) passando pelo latim (plasticus), sempre de forma transliterada, significando aquilo “que tem propriedade de adquirir determinadas formas sensíveis, por efeito de uma ação exterior”.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (30)

Provar os espíritos

 

O nosso desejo de servir a Deus não nos deve tornar presas fáceis de qualquer ensinamento ou doutrina. Precisamos cientificar-nos se aquilo que é-nos transmitido procede ou, não, de Deus. Para este exame, temos as Escrituras Sagradas como fonte de todo conhecimento revelado a respeito de Deus e do que ele deseja de nós.

 

Foi assim que a nobre Igreja de Bereia procedeu ao ouvir Paulo e Silas. Ainda que aqueles irmãos tenham recebido a Palavra com avidez, isto não os impediu de examinar[1] “as Escrituras todos os dias para ver se as cousas eram de fato assim” (At 17.11). “Eles combinavam receptividade com questionamento crítico”, resume Stott (1921-2011).[2]

 

Um bom princípio é examinar o que se nos apresenta como realidade dentro de suas multifárias percepções, não nos deixando seduzir e guiar por nossas inclinações ou pelas tendências massificantes. Em geral, quando nos faltam critérios objetivos, apelamos para o gosto como critério definitivo e solitário. Assim, somos conduzidos simplesmente por princípios que nos agradam sem verificar a sua veracidade. O fim disso pode ser trágico. Desse modo, por mais autoeloquentes que possam se configurar aspectos da chamada realidade, precisamos examiná-los antes de os tomarmos como pressupostos para a aceitação de outras declarações também reivindicatórias.

 

Os bereanos tinham um padrão de verdade. Eles criam na sua existência e acessibilidade. Examinaram o que Paulo dizia à luz das Escrituras, ou seja: o Antigo Testamento. Se não tivermos um referencial teórico claro, como poderemos analisar de modo coerente a realidade? Sem referências, tudo é possível dentro de um quadro interpretativo forjado conforme as circunstâncias e meus interesses. Todo absoluto envolve antíteses.

 

Meditação na Palavra

 

O salmista relata a sua abençoada prática:

 

97Quanto amo a tua lei! É a minha meditação (hx’yf) (sihãh) (considerar, perscrutar, cogitar), todo o dia! 98 Os teus mandamentos me fazem mais sábio (~k;x’) (chakam)[3] que os meus inimigos; porque, aqueles, eu os tenho sempre comigo. 99 Compreendo mais do que todos os meus mestres, porque medito (hx’yf) (Sihãh) nos teus testemunhos (tWd[e) (`eduth).[4] 100Sou mais prudente (!yBi) (biyn) que os idosos, porque guardo os teus preceitos. 101 De todo mau caminho desvio os pés, para observar a tua palavra. 102 Não me aparto dos teus juízos (jP’v.mi) (mishpat),[5] pois tu me ensinas (hr’y”) (yarah).[6] (Sl 119.97-102).

 

Aquilo sobre o que meditamos, normalmente, molda a nossa perspectiva da realidade e o nosso comportamento.[7] O salmista meditava na Palavra de Deus.

 

O meditar na Palavra e nos feitos de Deus é uma prática abençoadora pelo fato de ocupar nossas mentes e corações com o que realmente importa; estimula a nossa gratidão e perseverança em meio às angústias.[8] Isto nos traz grande alívio. Davi no deserto se confortava meditando nos feitos de Deus: “No meu leito, quando de ti me recordo e em ti medito (hg’h‘) (hãgãh), durante a vigília da noite. Porque tu me tens sido auxílio; à sombra das tuas asas, eu canto jubiloso” (Sl 63.6-7/Sl 77.11-12; 143.5).

 

O verbo que é usado de forma negativa e positiva na Escritura (hg’h‘) (hãgãh), tem o sentido de murmurar, gemer, meditar, planejar, imaginar. É possível que a Palavra fosse “murmurada”, lida a meia voz durante a sua contínua meditação.[9] Este meditar tinha como objetivo de, por meio da aprendizagem dos mandamentos de Deus,[10] adequar a sua vida aos ensinamentos ali contidos, não apenas um exercício intelectual e sensorial (Js 1.8).

 

Meditar na Palavra tem o sentido de considerá-la em nossas decisões, refletir sobre os seus ensinamentos. A meditação deve modelar, corrigir e confirmar o nosso comportamento. A meditação aqui é uma exortação à assimilação existencial da Palavra a fim de que esta se evidencie em nossa prática.

 

Comênio (1592-1670) define:

 

A meditação é a consideração frequente, atenta e devota das obras, das palavras e dos benefícios de Deus, e de como tudo provém de Deus (que opera ou permite) e de como, por caminhos maravilhosos, todos os desígnios da vontade divina são exatamente realizados.[11]

 

Esta sabedoria espiritual exige um laborioso processo de compreensão, entendimento e prática da verdade. Portanto, a nossa sabedoria consiste em nos submeter às Escrituras.

 

Martinho Lutero (1483-1546) constatou acertadamente: “Quão grande dano tem havido quando se tenta ser sábio e interessante sem ou acima da Escritura”.[12]

 

Paulo instrui à Igreja para que a Palavra de Cristo habite, se assenhoreie de nosso coração, nos dirigindo em nossa mútua instrução, com sabedoria, louvor e gratidão: Habite (e)noike/w),[13] ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria (sofi/a), louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração” (Cl 3.16).

 

 

Maringá, 7 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

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[1] A palavra traduzida por “examinando” é a)nakri/zw, que tem o sentido de “fazer uma pesquisa cuidadosa”, um “exame criterioso”, “inquirir”. (* Lc 23.14; At. 4.9; 12.19; 17.11; 24.8; 28.18; 1Co 2.14,15 (duas vezes); 4.3 (duas vezes),4; 9.3; 10.25,27; 14.24). Conforme vemos em Lc 23.14; At 4.9 e 24.8, o verbo era usado para “investigações judiciais”. “Este verbo implica em integridade e ausência de preconceito. Desde então, o adjetivo ‘bereano’ tem sido aplicado a pessoas que estudam as Escrituras com imparcialidade e cuidado” (John R.W. Stott, A Mensagem de Atos: até os confins da terra, São Paulo: ABU Editora, 1994, (At 17.11), p. 308).

[2] John R.W. Stott, A Mensagem de Atos: até os confins da terra, (At 17.11), p. 308.

[3] “A ideia essencial (…) representa um modo de pensar e uma atitude para com as experiências da vida, incluindo questões de interesse geral e moralidade básica. Tais assuntos se relacionam à prudência em negócios seculares, habilidades nas artes, sensibilidade moral e experiência nos caminhos do Senhor” (Louis Goldberg, Hãkam: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 459).

[4] De modo pactual confirma e adverte quanto à natureza de Deus, à veracidade e seriedade das exigências da Lei de Deus enfatizando a Aliança. Deus dá testemunho de Si mesmo (Ex 25.16-22).

[5]Enfatizam a suprema autoridade de Deus em nos prescrever as leis que devem regular as nossas relações e exigir que as cumpramos (Dt 4.1,5,8,14; 5.1; 6.1).

[6] Figuradamente tem o sentido de mostrar, indicar, “apontar o dedo”. Encaminhar (Gn 46.28); disparar (Sl 11.2; 64.4); apontar (Sl 25.8); atingir (Sl 64.4); desferir (Sl 64.7). No hifil, conforme o texto citado, tem o sentido de “ensinar”. (Do mesmo modo: Sl 86.11; 119.33; Pv 4.4; 4.11, etc.).

[7]“Todos nós meditamos e somos moldados pelo objeto de nossa meditação” (Randy Alcorn, Decisões diárias cumulativas, coragem em uma causa e uma vida de perseverança: In: John Piper; Justin Taylor, eds. Firmes: um chamado à perseverança dos santos. São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2010, p. 99).

[8]“Quando formos premidos pela adversidade, ou envolvidos em profundas aflições, meditemos nas promessas de Deus, nas quais a esperança de salvação nos é demonstrada, de modo que, usando este escudo como nossa defesa, rompamos todas as tentações que nos assaltam” (João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 4), p. 89).

[9] Vejam-se: Mark D. Futato, Interpretação dos Salmos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 55-56; Hebert Wolf, Hagâ: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 337; Willem A. VanGemeren, Psalms. In: Frank E. Gaebelein, ed. ger., The Expositor’s Bible Commentary, Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1991, v. 5, (Sl 1), p. 55; M.V. Van Pelt; W.C. Kaiser, Jr., Hgh: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 981-982; Helmer Ringgren; A. Negoitã, Haghah: In: G. Johannes Botterweck; Helmer Ringgren; Heinz-Josef Fabry, eds., Theological Dictionary of the Old Testament, Grand Rapids, MI.: Eerdamans, 1978, v. 3, p. 321-324.

[10]“A aprendizagem é o processo mediante o qual a experiência passada do amor de Deus é traduzida, pelos aprendizes, em obediência à Torá de Deus” (D. Müller, Discípulo: In: Colin Brown, ed. ger. Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 1, p. 662).

[11]João Amós Coménio, Didáctica Magna, 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (1985), XXIV.7. p. 355.

[12]Lutero, Apud Phillip J. Spener, Mudança para o Futuro: Pia Desideria, Curitiba, PR.; São Bernardo do Campo, SP.: Encontrão Editora; Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, 1996, p. 43.

[13] *Rm 7.17; 8.11; 2Co 6.16; Cl 3.16; 2Tm 1.5,14.