Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (62)

4) Humildade

A súplica pelo perdão de nossas dívidas aponta para a nossa total incapacidade de pagar-lhe: somos total e irreversivelmente devedores. Portanto, a nossa postura é de humildade diante de Deus, o Senhor que tudo nos dá e perdoa todas as nossas dívidas, porque Ele mesmo providenciou o pagamento por intermédio de seu único e Amado Filho.

“Somos devedores de Deus. Não lhe devemos algo, nem pouco nem muito senão pura e simplesmente tudo: nossa pessoa em sua totalidade, a nós mesmos como criatura que somos, sustentadas e nutridas por sua bondade”, conclui K. Barth (1886-1968).[1]

O perdão de Deus mostra a nossa necessidade de sua misericórdia e a nossa total incapacidade de atingir o padrão de Deus, por isso, só nos resta suplicar humildemente: “perdoa as nossas dívidas” e, mais humildemente ainda, recebermos o perdão, prosseguindo em nossa caminhada, com plena consciência de que tudo que temos é pela graça de Deus.

Lutero (1483-1546), comentando o Pai Nosso, diz:

Isso, porém, deve servir a que Deus nos quebre o orgulho      e nos mantenha na humildade. Pois reservou para si a prerrogativa de que, se alguém quiser jactar-se de sua probidade e menosprezar outros, examine-se a si mesmo e ponha diante dos olhos essa petição: verá então que sua probidade é igual à    dos outros. Diante de Deus todos temos de baixar o topete e estar contentes de que alcançamos o perdão. E ninguém pense que na presente vida vai chegar ao ponto de não precisar desse perdão. Em suma: se Deus não perdoa continuamente, estamos perdidos.[2]

5) Disposição para Perdoar

O Senhor Jesus Cristo nos ensinou a orar:

Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores (…) 14 Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; 15 se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas. (Mt 6.12,14-15).

O perdão concedido por Deus é um imperativo à concessão de perdão ao nosso próximo.

Aquele que foi perdoado é conduzido invariavelmente à disposição de perdoar o seu próximo. Quando perdoamos estamos nos abrindo ao perdão de Deus.

O perdão de Deus pela graça, é capacitante: “O perdão de Deus, quando é recebido, faz ao perdoado capaz de perdoar”, interpreta Barth (1886-1968).[3] 

A nossa disposição em perdoar é um atestado de nossa gratidão a Deus pelo seu perdão.

Calvino comenta:  

Porque não devemos pedir a Deus que nos perdoe os nossos pecados se também, de nossa parte, não perdoamos da maneira expressa no texto a todos os que nos ofenderam ou nos ofenderem. E se retivermos algum ódio em nosso coração, abrigarmos algum desejo de vingança, ou se pensarmos em como prejudicar nossos inimigos, malfeitores ou pessoas mal-intencionadas, não peçamos nesta oração que Deus perdoe os nossos pecados. Como tampouco devemos pedir seu perdão se não nos esforçarmos quanto pudermos para contar com o favor e a amizade dos que nos ofenderam, reconciliando-nos com eles, vivendo em paz e amor com eles, prestando-lhes todo o serviço que pudermos e procurando agradá-los. Porque o que pedimos é que Deus nos perdoe como também nós perdoamos aos outros. Isso é o mesmo que pedir que Ele não nos perdoe, se nós não perdoarmos aos outros. Os que procedem desta maneira, que poderão obter por seu pedido, senão mais grave condenação?[4]

Quando nos dispomos a nos vingar de nossos inimigos, tomamos o direito de Deus para nós e, deste modo, nos privamos da assistência divina.[5] Neste caso, declaramos a nossa autossuficiência. A prática da vingança e a oração se excluem mutuamente.

Calvino vai além:

Embora Deus declare que executará vingança contra nossos inimigos, não temos o direito de nutrir sede de vingança quando somos injuriados. (…) Os fiéis não devem ser vistos como a expressar algum desejo de serem saciados com a visão do derramamento de sangue humano, como se nutrissem muita avidez pelo mesmo.[6]

Jesus diz instrui em lugares diferentes:

E quando estiverdes orando, se tendes alguma cousa contra alguém, perdoai, para que o vosso Pai celeste vos perdoe as vossas ofensas. (Mc 11.25).

Acautelai-vos. Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe. Se por sete vezes no dia pecar contra ti, e sete vezes vier ter contigo, dizendo: Estou arrependido, perdoa-lhe.(Lc 17.3-4).

Como vimos, a base do nosso perdão é o perdão concedido por Deus. Ele não somente nos perdoa, como também nos capacita a perdoar.

Deus faz o nosso perdão possível. “É Deus quem semeia em nossos corações a semente da fé e o ânimo perdoador, conclui Hendriksen (1900-1982).[7]

Paulo escreve aos Colossenses e aos Efésios respectivamente:

Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós. (Cl 3.13).

Antes sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus em Cristo vos perdoou. (Ef 4.32).

A vingança pertence a Deus, não a nós. Manter os olhos fixos nas promessas de Deus e aguardá-la com paciência é um estímulo à perseverança na fé e à prática da Palavra.  O perdão é resultante da confiança no Deus justo e perdoador.

São Paulo, 28 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1] K. Barth, La Oración, Buenos Aires: La Aurora, 1968,p. 75.

[2]Martinho Lutero, Catecismo Maior: In: Os Catecismos, São Leopoldo; Porto Alegre, RS.: Concórdia; Sinodal, 1983, §§ 90-91, p. 469.

[3] Karl Barth, La Oración, Buenos Aires: La Aurora, 1968,p. 78-79.

[4]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 129.

[5] Cf. João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Edições Parakletos, 1999, v. 2, (Sl 38.13), p. 187.

[6]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 3, (Sl 79.10), p. 259. “Sempre que os ímpios, em favor de quem nos devotarmos fazendo-lhes o bem, nos retribuírem mal por bem, Deus certamente será o Juiz deles” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Edições Parakletos, 1999, v. 2, (Sl 38.19-20), p. 192).

[7]G. Hendriksen, El Evangelio Segun San Mateo, Grand Rapids, Michigan: Subcomision Literatura Cristiana, 1986, p. 350.

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