Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (63)

6) Testemunho

Portanto, todo o labor evangelístico da Igreja se ampara neste pressuposto fundamental: Todos os homens pecaram, distanciando-se de Deus, o seu Criador, em quem somente há vida.

A Igreja anuncia o Evangelho sabendo que o homem nada pode fazer para voltar à vida; todos estão mortos em seus delitos e pecados (Ef 2.1,5).

Lloyd-Jones está correto ao declarar que “…. é completamente antiescriturístico favorecer qualquer tipo de evangelização que negligencie a doutrina sobre o pecado”.[1]

A cruz fornece o fundamento de pregação. Não há pregação sem a conscientização da gravidade do pecado e da redenção definitiva por meio de Cristo, o Deus eterno, na cruz.

A Igreja evangeliza consciente de que o pecado envolve de forma terrível e desumanizante toda a raça humana. Ela sabe que a cura para o homem não está nele mesmo, mas, em Jesus Cristo, Aquele que restaura a nossa verdadeira humanidade.

Somente o Deus Criador pode restaurar definitivamente as suas criaturas. Ele se dispôs a isso por meio de seu Filho amado que deu a sua vida pelo seu Povo (Jo 3.16), confiando esta mensagem à Igreja, que proclama o Evangelho do poder de Deus (Rm 1.16), reivindicando que todos os homens se arrependam de seus pecados e, por graça, tornem-se para Deus.

É isso que ensina Paulo:

Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus. Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus. E nós, na qualidade de cooperadores com ele, também vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus (porque ele diz: Eu te ouvi no tempo da oportunidade e te socorri no dia da salvação; eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação). (2Co 5.18-6.2).

O perdão concedido por Deus em Cristo torna-nos responsáveis pelo testemunho desta mensagem.

À igreja cabe a tarefa intransferível de anunciar o perdão de Deus para todos aqueles que sinceramente se arrependerem e receberem a Cristo como Salvador. (Lc 24.47; At 10.42-43; 13.38).

São Paulo, 29 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]D.M. Lloyd-Jones, Santificados mediante a verdade, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas (Certeza Espiritual, v. 3), 2006, p. 115.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (62)

4) Humildade

A súplica pelo perdão de nossas dívidas aponta para a nossa total incapacidade de pagar-lhe: somos total e irreversivelmente devedores. Portanto, a nossa postura é de humildade diante de Deus, o Senhor que tudo nos dá e perdoa todas as nossas dívidas, porque Ele mesmo providenciou o pagamento por intermédio de seu único e Amado Filho.

“Somos devedores de Deus. Não lhe devemos algo, nem pouco nem muito senão pura e simplesmente tudo: nossa pessoa em sua totalidade, a nós mesmos como criatura que somos, sustentadas e nutridas por sua bondade”, conclui K. Barth (1886-1968).[1]

O perdão de Deus mostra a nossa necessidade de sua misericórdia e a nossa total incapacidade de atingir o padrão de Deus, por isso, só nos resta suplicar humildemente: “perdoa as nossas dívidas” e, mais humildemente ainda, recebermos o perdão, prosseguindo em nossa caminhada, com plena consciência de que tudo que temos é pela graça de Deus.

Lutero (1483-1546), comentando o Pai Nosso, diz:

Isso, porém, deve servir a que Deus nos quebre o orgulho      e nos mantenha na humildade. Pois reservou para si a prerrogativa de que, se alguém quiser jactar-se de sua probidade e menosprezar outros, examine-se a si mesmo e ponha diante dos olhos essa petição: verá então que sua probidade é igual à    dos outros. Diante de Deus todos temos de baixar o topete e estar contentes de que alcançamos o perdão. E ninguém pense que na presente vida vai chegar ao ponto de não precisar desse perdão. Em suma: se Deus não perdoa continuamente, estamos perdidos.[2]

5) Disposição para Perdoar

O Senhor Jesus Cristo nos ensinou a orar:

Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores (…) 14 Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; 15 se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas. (Mt 6.12,14-15).

O perdão concedido por Deus é um imperativo à concessão de perdão ao nosso próximo.

Aquele que foi perdoado é conduzido invariavelmente à disposição de perdoar o seu próximo. Quando perdoamos estamos nos abrindo ao perdão de Deus.

O perdão de Deus pela graça, é capacitante: “O perdão de Deus, quando é recebido, faz ao perdoado capaz de perdoar”, interpreta Barth (1886-1968).[3] 

A nossa disposição em perdoar é um atestado de nossa gratidão a Deus pelo seu perdão.

Calvino comenta:  

Porque não devemos pedir a Deus que nos perdoe os nossos pecados se também, de nossa parte, não perdoamos da maneira expressa no texto a todos os que nos ofenderam ou nos ofenderem. E se retivermos algum ódio em nosso coração, abrigarmos algum desejo de vingança, ou se pensarmos em como prejudicar nossos inimigos, malfeitores ou pessoas mal-intencionadas, não peçamos nesta oração que Deus perdoe os nossos pecados. Como tampouco devemos pedir seu perdão se não nos esforçarmos quanto pudermos para contar com o favor e a amizade dos que nos ofenderam, reconciliando-nos com eles, vivendo em paz e amor com eles, prestando-lhes todo o serviço que pudermos e procurando agradá-los. Porque o que pedimos é que Deus nos perdoe como também nós perdoamos aos outros. Isso é o mesmo que pedir que Ele não nos perdoe, se nós não perdoarmos aos outros. Os que procedem desta maneira, que poderão obter por seu pedido, senão mais grave condenação?[4]

Quando nos dispomos a nos vingar de nossos inimigos, tomamos o direito de Deus para nós e, deste modo, nos privamos da assistência divina.[5] Neste caso, declaramos a nossa autossuficiência. A prática da vingança e a oração se excluem mutuamente.

Calvino vai além:

Embora Deus declare que executará vingança contra nossos inimigos, não temos o direito de nutrir sede de vingança quando somos injuriados. (…) Os fiéis não devem ser vistos como a expressar algum desejo de serem saciados com a visão do derramamento de sangue humano, como se nutrissem muita avidez pelo mesmo.[6]

Jesus diz instrui em lugares diferentes:

E quando estiverdes orando, se tendes alguma cousa contra alguém, perdoai, para que o vosso Pai celeste vos perdoe as vossas ofensas. (Mc 11.25).

Acautelai-vos. Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe. Se por sete vezes no dia pecar contra ti, e sete vezes vier ter contigo, dizendo: Estou arrependido, perdoa-lhe.(Lc 17.3-4).

Como vimos, a base do nosso perdão é o perdão concedido por Deus. Ele não somente nos perdoa, como também nos capacita a perdoar.

Deus faz o nosso perdão possível. “É Deus quem semeia em nossos corações a semente da fé e o ânimo perdoador, conclui Hendriksen (1900-1982).[7]

Paulo escreve aos Colossenses e aos Efésios respectivamente:

Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós. (Cl 3.13).

Antes sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus em Cristo vos perdoou. (Ef 4.32).

A vingança pertence a Deus, não a nós. Manter os olhos fixos nas promessas de Deus e aguardá-la com paciência é um estímulo à perseverança na fé e à prática da Palavra.  O perdão é resultante da confiança no Deus justo e perdoador.

São Paulo, 28 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1] K. Barth, La Oración, Buenos Aires: La Aurora, 1968,p. 75.

[2]Martinho Lutero, Catecismo Maior: In: Os Catecismos, São Leopoldo; Porto Alegre, RS.: Concórdia; Sinodal, 1983, §§ 90-91, p. 469.

[3] Karl Barth, La Oración, Buenos Aires: La Aurora, 1968,p. 78-79.

[4]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 129.

[5] Cf. João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Edições Parakletos, 1999, v. 2, (Sl 38.13), p. 187.

[6]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 3, (Sl 79.10), p. 259. “Sempre que os ímpios, em favor de quem nos devotarmos fazendo-lhes o bem, nos retribuírem mal por bem, Deus certamente será o Juiz deles” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Edições Parakletos, 1999, v. 2, (Sl 38.19-20), p. 192).

[7]G. Hendriksen, El Evangelio Segun San Mateo, Grand Rapids, Michigan: Subcomision Literatura Cristiana, 1986, p. 350.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (61)

Somos peregrinos e estrangeiros

A vida cristã não é a de um transeunte em férias, sem compromissos, sem agenda definida. A vida cristã se adéqua melhor à figura do peregrino, sempre buscando o melhor caminho para chegar ao seu destino. O cristão está comprometido com o propósito de seu Senhor (Ef 1.4). Todo o seu coração deve estar voltado para isso.

Somos peregrinos, estrangeiros e hóspedes neste mundo.[1] Valendo-me de uma expressão de Tullian, diria que somos “estrangeiros residentes”.[2] É natural que haja uma tensão em nós. Somos imperfeitos, limitados, temos nossos anseios que, por vezes, tendem a ser maximizados em meio a aspectos da nossa cultura tão convidativos e, em certo sentido, confortáveis. É necessário discernimento para que não caiamos no mundanismo intelectual e vivencial, o que inviabilizaria totalmente a nossa possibilidade de influência em nosso meio. Não podemos permitir que a nossa mente e o nosso comportamento sejam regidos pela forma mundana e pagã de pensar e agir. Ingressaríamos, assim, num ateísmo prático ou funcional.

O nosso problema, por vezes, é que enquanto os padrões de Deus se parecem abstratos e distantes, estamos perfeitamente aculturados aos padrões de nossa cultura que nos assediam continuamente e, portanto, se tornam tão familiares como o personagem de uma novela que se torna símbolo de algum tipo de comportamento. “Para muitos de nós, os padrões deste mundo decaído se tornaram por demais familiares, ao mesmo tempo em que os caminhos de Deus parecem distantes e estranhos”, resume Tullian[3]

No entanto, não há destinação mais nobre e sublime do que a nossa. Somos chamados à glória de Cristo. Isso nos basta. Não como prêmio de consolação, mas, porque não temos vocação maior. O Senhor de todas as coisas, de toda a realidade visível e invisível, nos destina à glória de seu Filho amado.

Portanto, a santificação não é algo periférico, ou acidental na vida do crente, antes, é um propósito para que devamos nos concentrar com todas as nossas forças espirituais a fim de cumprir o plano de Deus para nós. Em síntese: a santificação é um imperativo expresso por Deus em sua Palavra para todos os seus filhos. A vida cristã é um desafio à santidade conforme o propósito de Deus. De fato, não pode existir vida cristã estagnada, acomodada. A vida cristã é um desafio à santidade, conforme o santo e benfazejo propósito de Deus.

Por isso, repito: na vida dos eleitos de Deus não há lugar para a acomodação no pecado. Deus nos chama à santidade conforme o seu propósito sábio, soberano, santo e eterno. Sendo assim, a santificação faz parte essencial da vida da Igreja.

O intenso combate da fé

Os crentes, mesmo com uma nova natureza, tendo sido regenerados, terão que combater o pecado enquanto viverem. Este combate será árduo. A Bíblia não poupa figuras para descrever esta luta com cores vivas. Todavia, a Palavra de Deus nos garante, com ênfase maior, a vitória que temos em Cristo. Daí a nossa certeza de que devemos lutar contra o pecado, sabedores que Deus é por nós nesta luta. Este é o bom combate da fé. Bom por causa de sua necessidade e objetivo. Conforme exorta Paulo a Timóteo: “Combate (a)gwni/zomai) o bom combate (a)gw/n) da fé” (1Tm 6.12).

Este combate (a)gwni/zomai) muitas vezes se manifestará de forma angustiante devido à sua intensidade e gravidade. Por isso a ideia embutida de esforço extremo (Lc 13.24; Cl 1.29; 4.12; 1Tm 4.10), empenho (Jo 18.36), fadiga (Cl 1.29) e, figuradamente, é ilustrada com o esforço de um atleta que compete (1Co 9.25).

Paulo orienta os gálatas evidenciando as duas forças operantes em nós, os regenerados: “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer” (Gl 5.17).

A Confissão de Westminster diz:

Esta santificação é no homem todo, porém imperfeita nesta vida; ainda persistem em todas as partes dele restos da corrupção, e daí nasce uma guerra contínua e irreconciliável – a carne lutando contra o espírito e o espírito contra a carne (XIII.2). (Rm 7.19,23; Gl 5.17; Fp 3.12; 1Ts 5.23; 1Pe 2.11; 1Jo 1.10).

A santidade perfeita no céu encontra os seus primórdios na vida dos eleitos aqui na terra. Isto indica a nossa responsabilidade presente.

O Apóstolo João, instrui e consola, nos estimulando à esperança gloriosa que teremos no Senhor:

Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é. E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro. (1Jo 3.2-3).

“Como na presente vida não atingiremos pleno e completo vigor, é mister que façamos progresso até à morte”, conclui Calvino.[4]

Cristo morreu por nós para que ele nos apresentasse “a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem cousa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.27). Dentro desta perspectiva, a Igreja procura viver de forma santa para se encontrar com Cristo, conforme o seu propósito sacrificial. “Teremos de ser santos antes de morrer, se quisermos ser santos quando estivermos na glória”, exorta-nos Ryle (1816-1900).[5]

O desejo da Igreja deve ser de se encontrar com Cristo de forma íntegra e irrepreensível. Por isso ela é chamada a viver hoje na presença de Deus, estando sempre preparada para o seu encontro final e jubiloso com o Senhor Jesus. Este era o alvo da intercessão de Paulo: “O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5.23).

Como vimos, Jesus Cristo, que se santificou pela Igreja e que se entregou por ela, exerce o seu poder para apresentá-la com alegria a si mesmo, uma Igreja irrepreensível, diante do escrutínio da sua glória (Jd 24; Ef 5.25-27).

O nosso padrão de santidade não é um simples “melhoramento” diante dos padrões humanos, mas sermos conforme Cristo: fomos eleitos para Cristo, a fim de sermos “conformes à imagem” dele. Portanto, devemos ser seus imitadores, seguindo as suas pegadas (Vejam-se: Rm 8.28-30/Jo 13.15; 2Co 3.18; Ef 4.32; 5.1-2; Fp 2.5-8; 2Ts 2.13; 1Pe 1.13-16; 2.21). “A santidade não é negativa, é positiva; é ser como Deus (…). A santidade não significa simplesmente obter vitória sobre pecados particulares. É ser como Deus, que é santo”, exorta-nos Lloyd-Jones.[6]

São Paulo, 28 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “….os filhos de Deus, onde quer que estejam, não passam de hóspedes deste mundo. De fato, no primeiro sentido ele (Pedro), no início da Epístola, os chama de peregrinos, como transparece do contexto; aqui, porém, o que ele diz é comum a todos eles. Pois as concupiscências da carne nos mantêm enredados quando em nossa mente permanecemos no mundo e cremos que o céu não é nossa pátria; mas quando vivemos como forasteiros ao longo desta vida, não vivemos escravizados à carne” (John Calvin, Calvin’s commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1996 (reprinted), v. 22, (1Pe 2.11), p. 78). “Somos estrangeiros e peregrinos neste mundo, (…) não possuímos morada fixa senão no céu. Portanto, sempre que formos expulsos de algum lugar, ou alguma mudança no suceder, tenhamos em mente, segundo as palavras do apóstolo aqui, que não temos lugar definido sobre a terra, porquanto nossa herança é o céu; e quando formos cada vez mais provados, então nos preparemos para nossa meta final. Os que desfrutam de uma vida tranquila, comumente imaginam que possuem para si um repouso neste mundo. Portanto é bom que nós, que somos inclinados a esse gênero de pândega, que somos constantemente levados de um a outro lado, tão propensos à contemplação das coisas aqui de baixo, aprendamos a volver sempre nossos olhos para o céu” (João Calvino, Exposição de Hebreus,São Paulo: Edições Paracletos, 1997, (Hb 13.14), p. 391-392). “Quanto trazemos ainda conosco de nossa carne é algo que não podemos ignorar, pois ainda que a nossa habitação está no céu, todavia somos ainda peregrinos na terra” (J. Calvino, Exposição de Romanos,(Rm 13.14), p. 462). Vejam-se também: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.11), p. 166; D.M. Lloyd-Jones, O supremo propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 367.

[2]W. G. Tullian Tchividjian, Fora de moda, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 93.

[3] W. G. Tullian Tchividjian, Fora de moda, p. 39.

[4]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 4.15), p. 130.

[5]J.C. Ryle, Santidade, São José dos Campos, SP.: FIEL., 1987, p. 46.

[6] D. Martyn Lloyd-Jones, O combate cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 127.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (60)

3) Santificação

O perdão não é produzido por boas obras nossas, no entanto, é um forte estímulo a que procuremos viver em consonância com a vontade de Deus. O pecador perdoado é motivado a procurar se harmonizar com o propósito de Deus revelado nas Escrituras.

John Owen (1616-1642) escreveu:

O perdão não é merecido por obras piedosas realizadas antes, porém, é o mais forte motivo para se viver piedosamente depois de recebê-lo (…). Aquele que presume tê-lo recebido, e não se sente obrigado a ser obediente a Deus por causa do perdão que recebeu, na verdade não goza dele![1]

Deus nos diz na sua Palavra, que Ele nos redimiu para si mesmo a fim de vivermos para Ele, em harmonia com a sua vontade, encontrando assim a felicidade decorrente da nossa obediência.

Desfaço as tuas transgressões como a névoa, e os teus pecados como a nuvem; torna-te para mim, porque eu te remi. (Is 44.22).

Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque ele é rico em perdoar”.(Is 55.7).

O perdão de Deus não nos torna imunes ao pecado, antes, nos conduz a uma batalha confiante contra tudo aquilo que desagrada a Deus; em outras palavras: “O homem que recebeu o perdão de Deus prossegue numa luta contínua e incessante contra o pecado”, escreveu Aulén (1879-1977).[2]

A Palavra de Deus demonstra enfaticamente que a nossa salvação não é um fim em si mesma, antes é o início da vida cristã, por meio da qual nos tornamos filhos de Deus e progredimos em santificação até a consumação de todo propósito de Deus em nossa vida.

Devemos estar atentos para o fato de que a salvação (justificação, regeneração, união com Cristo), não é a linha de chegada da vida cristã; antes, é o ponto de partida.  Nós não nascemos espiritualmente “acabados”,[3] antes, fomos gerados espiritualmente para o nosso crescimento, amadurecimento completo. O perdão indica a nossa restauração, para que possamos agora, neste estado de convalescência, nos alimentar da Palavra em oração, nos fortalecendo espiritualmente. O Deus que nos regenera é o mesmo que nos preserva saudável nesta nova vida.[4]

D.M. Lloyd-Jones (1899-1981) exorta-nos quanto a isso:

Cristianismo não é você parar na conversão e no conhecimento de que os seus pecados estão perdoados, e, então, contentar-se com isso pelo resto da vida; cristianismo é ingressar e desenvolver-se rumo à medida da estatura da plenitude de Cristo. Precisamos desenvolver nossas mentes e nossas faculdades, se é que desejamos tomar posse disso. Se nos contentamos com  menos que isso, não passamos de crianças em Cristo, e somos indignos deste glorioso evangelho.[5]

Árvores altas com raízes profundas

O nosso crescimento externo deve ser acompanhado pelo aprofundamento e solidificação de nossas raízes.  Altura exige profundidade e solidez. Por isso, o nosso crescimento profissional, social, econômico, cultural etc., deve vir acompanhado necessariamente de um alimento mais sólido, buscado não na mera superfície, para que possamos ter, não simplesmente, uma aparência espiritual teatral e cosmética, mas real e verdadeira.

Árvores mais altas necessitam de raízes mais profundas e vigorosas. A nossa projeção em geral vem acompanhada de tentações mais sofisticadas e sutis, às quais se configuram de maneira diferente. Possivelmente o nosso arsenal espiritual, se não estiver em constante sincronia com a Palavra, estará desatualizado para uma batalha na qual já entramos vencidos porque nem sequer a percebemos como tal…

Berkhof (1873-1957) usa uma figura para ilustrar a nossa nova condição:

Uma criança recém-nascida é, salvo exceções, perfeita em suas partes, mas não está no grau de desenvolvimento ao qual foi destinada. Justamente assim, o novo homem é perfeito em suas partes, mas, na presente vida, continua imperfeito no grau de desenvolvimento espiritual.[6]

O crente é chamado a uma caminhada constante. O Cristianismo é um caminho de vida, fundamentado na prática do Evangelho, conforme ensinado por Jesus Cristo. A santificação é, portanto, um desafio a perseguirmos este caminho, empenhando-nos por fazer a vontade de Deus. Por isso, a santificação nos fala de caminharmos sempre em direção ao alvo proposto por Deus, com os nossos corações humildes, desejosos em agradar a Deus, de fazer a vontade dele com o sentimento adequado.

São Paulo, 28 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] John Owen, Apud A. Booth, Somente pela Graça, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1986, p. 33.

[2] G. Aulén, A Fé Cristã, São Paulo: ASTE, 1965, p. 252.

[3] “O novo nascimento não produz o produto acabado. A nova coisa nascida de Deus acha-se tão longe de estar completa como o bebê recém-nascido uma hora atrás. Esse novo ser humano, no momento em que nasce, é colocado nas mãos de poderosas forças modeladoras que em grande medida determinarão se ele será um cidadão correto ou um criminoso. A única esperança para ele é poder escolher mais tarde as forças que o modelarão, e,  pelo exercício do seu poder de escolha, colocar-se nas mãos certas. Nesse sentido ele se modela a si próprio, e finalmente é responsável pelo resultado” (A.W. Tozer, O Poder de Deus, 2. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1986, p. 115).

[4] Vejam-se algumas boas analogias sobre a justificação e a santificação em Augustus H. Strong, Teologia sistemática, São Paulo: Hagnos, 2003, v. 2, p. 606-607

[5] D.M. Lloyd-Jones, As insondáveis riquezas de Cristo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 254. Do mesmo modo, Veja-se: J.C. Ryle, Santidade, São José dos Campos, SP.: FIEL., 1987, p. 39.

[6] L. Berkhof, Teologia sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990,p. 541.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (59)

Algumas aplicações: Qual deve ser a atitude do perdoado?

1) Gratidão

           A certeza do nosso perdão, gerado pela graça misericordiosa de Deus, deve nos levar, à semelhança de Davi, a bendizer ao Senhor: “Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nem um só de seus benefícios. Ele é quem perdoa todas as tuas iniquidades; quem sara todas as tuas enfermidades” (Sl 103.2-3).

2) Arrependimento sincero

O genuíno arrependimento produz forte tristeza pelo pecado, o santo desejo de não mais cometê-lo e, quando possível, corrigir os efeitos dele.

Erickson resume:

O arrependimento é a tristeza verdadeira de uma pessoa pelos seus pecados acompanhada da resolução de se afastar deles. Há outras formas de uma pessoa sentir pesar pelos seus erros, cujas motivações são diferentes. Se pecamos e as consequências são desagradáveis, pode ser que sintamos remorso pelo que fizemos, mas isso não é verdadeiro arrependimento. É mera penitência. O verdadeiro arrependimento é a tristeza da pessoa pelo que seu pecado fez contra Deus e pelo mal a ele infligido. Essa tristeza é acompanhada de um desejo genuíno de abandonar o pecado. Há pesar pelo pecado, mesmo que o pecador não tenha sofrido qualquer consequência pessoal por causa dele.[1]

Deus deseja que nos arrependamos de nossos pecados e, como evidência desta transformação, mudemos de comportamento. Na parábola dos dois filhos contada por Jesus, temos exemplificado este princípio:

E que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Chegando-se ao primeiro, disse: Filho, vai hoje trabalhar na vinha. Ele respondeu: Sim, senhor; porém não foi. Dirigindo-se ao segundo, disse-lhe a mesma cousa. Mas este respondeu: não quero, depois arrependido, foi. Qual dos dois fez a vontade (qe/lhma)do Pai? Disseram: O segundo. Declarou-lhes Jesus: Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus. Porque João veio a vós outros no caminho da justiça, e não acreditastes nele; ao passo que publicanos e meretrizes creram. Vós, porém, mesmo vendo isto não vos arrependestes, afinal, para acreditardes nele.

(Mt 21.28-32)

A vontade de Deus é que os homens, confrontados com a mensagem salvífica de Deus, se arrependam de seus pecados, recebendo a Cristo como seu Salvador pessoal, iniciando uma nova fase em sua vida, tendo como princípio animador agradar a Deus, sendo-lhe obediente.

Frutos do arrependimento

O arrependimento, portanto, envolve uma atitude de abandono do pecado e uma prática da Palavra de Deus. Esta prática consiste nos “frutos do arrependimento”.

Paulo, testemunhando diante do rei Agripa a respeito do seu ministério, diz: “Pelo que ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial, mas anunciei primeiramente aos de Damasco e em Jerusalém, por toda a região da Judéia, e aos gentios, que se arrependessem e se convertessem a Deus praticando obras dignas de arrependimento”(At 26.19,20. Veja-se também: At 20.21).

O arrependimento e a fé são passos iniciais, inseparáveis e complementares[2] da vida cristã como resposta ao chamado divino. No entanto, ambos devem acompanhar a nossa vida. Devemos continuar crendo em Deus em todas as circunstâncias e cultivar, pelo Espírito, uma atitude de arrependimento pelas nossas falhas.[3]

“O espírito quebrantado e o coração contrito são as marcas permanentes da alma crente”, resume Murray.[4] Isto indica o fato de que somos pecadores e, ainda que não mais dominados pelo pecado, continuamos mantendo esta luta em nosso coração. As nossas quedas seguidas de um arrependimento sincero, nos envergonha porque percebemos o quão distante estamos do alvo proposto por Deus para nós. O arrependimento pleno é um ideal da vida cristã que jamais será concretizado neste estado de existência.

Olyott escreve sobre isso com a sua costumeira sensibilidade:

Arrependimento é ter vergonha de quem você é. Você faz o que você faz porque você é quem você é. E o que você é, é o que Deus diz que você é: um pecador! O evangelho é que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar pecadores! E sem esse sentido claro de pecado, você não pode ser salvo.[5]

O arrependimento é parte integrante e essencial de nossa santificação. Deus deseja que procuremos agradá-lo em todas as coisas. No entanto, sabemos que pecamos, falhamos, não atingimos o alvo proposto por Deus. Por isso, conscientes de nossos pecados, devemos nos arrepender, buscando o perdão de Deus e o reparo para o nosso erro.

A Confissão de Westminster(1647) resume: “O pecador pelo arrependimento, de tal maneira sente e aborrece os seus pecados, que, deixando-os, se volta para Deus, tencionando e procurando andar com Ele em todos os caminhos dos seus mandamentos” (XV.2).

São Paulo, 28 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Millard J. Erickson, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 908.

[2]“O arrependimento é fruto da fé, que é, ela própria, fruto da regeneração. Contudo, na vida real, o arrependimento é inseparável da fé, sendo o aspecto negativo (a fé é o aspecto positivo) de voltar-se para Cristo como Senhor e Salvador. A ideia de que pode haver fé salvadora sem arrependimento, e que uma pessoa pode ser justificada por aceitar Jesus como Salvador, e ao mesmo rejeitá-lo como Senhor, é uma ilusão destrutiva” (J.I. Packer, Teologia Concisa, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 152-153). Vejam-se: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 2, (II.5), p. 129ss.; A.A. Hoekema, Salvos pela graça, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 129.

[3] Ferguson argumenta de forma simples, porém, objetiva destacando o perigo de entendermos o “arrependimento” apenas como ato único (“emoção inicial”) na vida cristã (Veja-se: Sinclair Ferguson A Graça do Arrependimento. São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2014, p. 46ss.).

[4]John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 130.

[5]Stuart Olyott, Jonas – O Missionário bem sucedido que fracassou, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2012, p. 58.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (58)

3) É uma disposição renovada

             Deus nos perdoa todas as vezes que o procuramos sinceramente, arrependidos de nossos pecados, dispostos a modificar a nossa vida, a não mais pecar contra Ele. 

Deus mesmo é quem nos diz: “Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, orar e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então Eu os ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra” (2Cr 7.14).

            Deus está sempre disposto a nos perdoar. Quando arrependidos, confessamos-lhe os nossos pecados, Ele nos perdoa.

Acontece, porém, que nem sempre temos consciência de todas as nossas iniquidades. Sabendo disso, o salmista suplica: “Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas” (Sl 19.12).

            O perdão de Deus é ilimitado. Por isso, Ele com a sua misericórdia ilimitada providenciou o nosso perdão definitivo em Cristo Jesus.

4)   É para sempre

    O perdão de Deus não tem prazo de validade. Nem precisamos pagar por uma garantia estendida. O sangue de Cristo tem um valor eterno.

As bênçãos comunicadas por sua obra têm um valor infinito e para sempre. Quando Deus nos perdoa em Cristo, Ele não cultiva mágoas de nossos pecados anteriores.[1]

Deus nos diz na sua Palavra: “Pois, perdoarei as suas iniquidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei” (Jr 31.34; Hb 8.12; 10.17).

            “Jamais me lembrarei”. A promessa de Deus não é condicionada; é absoluta. Ela não pode ser revertida; não está determinada pelo nosso “bom comportamento”. Se assim fosse, o perdão de Deus não perduraria. Entretanto, Ele diz que jamais se lembrará dos nossos pecados… Jamais! Esta é a sua promessa.

Notemos que não há um “esquecimento” em Deus, mas, sim, o seu propósito deliberado de não mais considerar as nossas faltas.

            É Deus mesmo quem nos declara justificado. O absolutamente justo, pelos seus justos e santos critérios declara que já não há mais condenação para nós.

Haverá alguém que possa apresentar novas provas contra nós que já não tivessem sido expiadas por Cristo? Exulta Paulo: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Rm 8.33).

Ora, se isso é assim, poderia alguém raciocinar: por que, então, os crentes oram constantemente pedindo perdão a Deus pelos seus pecados?

Creio que as palavras de A. Booth (1734-1806) são oportunas aqui:

O fato de os crentes orarem continuamente para que Deus lhes perdoe os pecados não significa que eles já não estejam perdoados. Eles buscam a consciência de que foram perdoados. Não vamos imaginar que toda vez que eles pecam, arrependem-se, confessam o seu pecado e pedem perdão, Deus realiza novos atos de perdão. Contudo, eles precisam conscientizar-se sempre de que o perdão já lhes pertence, por serem filhos de Deus.[2]

            Portanto, ao suplicarmos o perdão de Deus, estamos dizendo: Senhor, dá-me consciência do teu perdão, garantido de forma definitiva por meio da Pessoa e Obra de Cristo Jesus. 

            O Catecismo de Heidelberg (1563), na questão 56, lemos:

Que é o que crês sobre “a remissão dos pecados”?

     R. Que, por causa da obra reconciliadora de Cristo, Deus não se lembrará mais dos meus pecados ou da maneira pecaminosa contra a qual tenho de lutar durante toda a minha vida; mas que ele graciosamente imputa a mim a justiça de Cristo, de modo que eu jamais virei a ser condenado.

São Paulo, 23 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]“Deus, simplesmente, não guarda mágoas contra as pessoas que se humilham e lhe pedem perdão por intermédio de Jesus Cristo” (O. Palmer Robertson, Jonas – um estudo sobre compaixão,  São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 42).

[2] A. Booth, Somente pela graça, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1986, p. 32. Do mesmo modo escreveu L. Berkhof: “Esta consciência do perdão e de um renovado relacionamento filial muitas vezes é perturbada e obscurecida pelo pecado, e de novo é despertada e fortalecida pela confissão e oração, e por um renovado exercício da fé”(L. Berkhof, Teologia sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 519).

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (57)

E. Características do perdão de Deus

1)   É gratuito

             Não há condições meritórias a serem cumpridas antes do perdão nos ser concedido. O arrependimento, como já vimos, não torna o perdão compulsório; ele na realidade é uma concessão da graça de Deus.

“A fé e o arrependimento não devem ser reputados coisas meritórias mediante as quais merecemos o perdão. Pelo contrário, são os meios pelos quais nos apropriamos da graça de Deus”, escreve Leon Morris (1914-2006).[1]

            Zaqueu, a mulher samaritana, Paulo, o carcereiro de Filipos, todos eles foram perdoados sem o cumprimento de quaisquer exigências anteriores. Arrependidos de seus pecados, eles creram em Jesus Cristo, recebendo a salvação que lhes fora destinada.

Todos estes homens, como nós também um dia, estavam distantes de Deus, sendo considerados seus inimigos. No entanto, Deus em Cristo nos reconciliou consigo mesmo, conforme escreve o apóstolo: “Porque se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida”(Rm 5.10).

            Portanto, quando suplicamos pelo perdão, estamos dizendo: “Senhor, por tua graça plenamente manifestada em Cristo, perdoa todas as minhas iniquidades e capacita-me a não mais pecar contra Ti”.

2)   É pleno

             Quando Deus nos perdoa, independentemente da gravidade de nosso pecado, Ele não mais toma em consideração a nossa ofensa. Numa linguagem figurada e enfática, Deus diz:“Perdoarei as suas iniquidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei” (Jr 31.34).

            Paulo nos diz que Cristo nos libertou de nossas transgressões,“perdoando todos os nossos delitos” (Cl 2.13).

            O perdão de Deus envolve todos os nossos pecados, por maiores que sejam. Nenhum resíduo de nossos pecados ficou sem purificação e perdão.

Lembremo-nos de que um único pecado, por “menor” que seja dentro da nossa escala de valores, nos conduziria à morte eterna.

            Ninguém pode dizer: os meus pecados são grandes demais para serem perdoados ou: os meus pecados são tão pequenos que não precisam ser confessados. O fato é que, como temos visto, todos pecamos por palavras, pensamentos, ações e omissões (Rm 3.23). Porém, Deus nos purifica de todos os nossos pecados.

O perdão de Deus é um milagre que ultrapassa a nossa compreensão: O Deus onisciente apaga, se esquece totalmente de nossas transgressões. Ele já não considera em nossas relações as nossas faltas anteriores que foram perdoadas.

O profeta Miquéias, estupefato com isto, escreve:

Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniquidade, e te esqueces da transgressão do restante da tua herança? O Senhor não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer na misericórdia. Tornará a ter compaixão de nós; pisará aos pés as nossas iniquidades, e lançará todos os nossos pecados nas profundezas do mar. (Mq 7.18-19).

“De tal maneira Deus tratou dos nossos pecados que Ele os tomou e os lançou nas profundezas do mar do seu esquecimento eterno. Os nossos pecados, em Cristo, são perdoados absoluta, final e completamente; para que não se vejam nunca mais”, enfatiza Lloyd-Jones.[2]

E Deus mesmo nos diz: “Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e dos teus pecados não me lembro” (Is 43.25). (Vejam-se também: Sl 25.7;  32.2; 51.1,9; 79.8; 85.3; 103.9, 12; 130.3; Is 38.17; Jr 3.12; 31.34).

Numa linguagem figurada, Deus diz que ainda que o pecado perdoado seja buscado, não será encontrado (Jr 50.20).

            No Novo Testamento, João reafirma esta verdade: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9).

E Jesus Cristo dá uma demonstração evidente da plenitude do perdão de Deus, quando diz a respeito da mulher que lhe ungira os pés: “Perdoados lhe são os seus muitos pecados” (Lc 7.47).

O perdão de Deus é integral; isto significa que o seu perdão equivale ao cancelamento definitivo de uma dívida; não há mais lembrança, ela é tida como quitada.

Na parábola do “credor incompassivo”, encontramos no senhor compassivo, que perdoou ao servo que pedia misericórdia, a ilustração desta afirmação: “E o senhor daquele servo, compadecendo-se, mandou-o embora, e perdoou-lhe a dívida” (Mt 18.27).

Quando Deus nos perdoa, Ele nos livra do poder dominante do pecado. Todavia, muitas das consequências de nossos pecados perdoados continuam.

Teremos, portanto, que arcar com elas. No entanto, o Deus que nos perdoa também nos fortalece com sua graça, nos capacitando a lidar com isso, nos ensinando inclusive à maior humildade e persistência em nossa fé.

Muitas vezes é justamente no meio desta batalha que amadurecemos em nossa fé e na capacidade de resistência às tentações.

São Paulo, 23 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Leon Morris, Perdão: In: J.D. Douglas, ed. org.O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 3, p. 1268a.

[2] D.M. Lloyd-Jones, O supremo propósito de Deus: Exposição sobre Efésios 1.1-23, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 162.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (56)

2) A misericórdia de Deus

Se para recebermos o perdão é necessário que nos arrependamos e confessemos os nossos pecados (Pv 28.13; Mq 1.4; Mc 1.15; Lc 24.47; At 2.38; 5.31; Hb 6.1; Tg 5.16; 1Jo 1.9). Contudo, é necessário que se diga, que o arrependimento não nos dá o direito ao perdão. O arrependimento não é o gerador do perdão. Deus não é obrigado a nos perdoar. O arrependimento é condição essencial ao perdão, porém, insisto, não o torna obrigatório: Deus é soberano na concessão da sua misericórdia perdoadora. Misericórdia automerecida é uma contradição. Ele nos perdoa graciosamente, fundamentado nos merecimentos de Cristo Jesus.

            Deus nos perdoa não porque seja obrigado, mas, porque Ele é misericordioso.[1] Ele olha para o nosso estado de miséria espiritual e livremente se compadece de nós e nos alivia, nos perdoando os pecados, apagando toda a nossa iniquidade.

O salmista escreve:“Ele, porém, que é misericordioso, perdoa a iniquidade, e não destrói; antes muitas vezes desvia a sua ira, e não dá largas a toda a sua indignação”(Sl 78.38).

            Daniel em sua oração tem a mesma percepção:

Inclina, ó Deus meu, os teus ouvidos, e ouve; abre os teus olhos, e olha para a nossa desolação, e para a cidade que é chamada pelo  teu nome, porque não lançamos as nossas súplicas perante a tua face fiados em nossas justiças, mas em tuas muitas misericórdias. (Dn 9.18).

            Nos alegremos com o salmista:   “Pois tu, Senhor, és bom e compassivo (xl;s)’ (salach); abundante em benignidade para com todos os que te invocam” (Sl 86.5). Amém.

3) O amor de Deus

           Deus nos perdoa porque nos ama. O seu amor não encontra motivo em nós para amar. Todavia Deus que é amor, nos ama porque resolveu nos amar. Em outras palavras, como interpreta Calvino: “Deus jamais encontrará em nós algo digno de seu amor, senão que Ele nos ama porque é bondoso e misericordioso”.[2] (Jo 3.16; Rm 5.8; Cl 3.12-14).

            O perdão de Deus jamais poderá ser compreendido sem a consideração devida do seu amor eterno e imutável.[3] Jesus mesmo nos ensinou que“Aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama” (Lc 7.47). O seu perdão fundamenta-se no seu amor, que é soberanamente livre e invencível.

São Paulo, 23 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “A misericórdia não é um direito ao qual o homem faz jus. A misericórdia é aquele atributo adorável de Deus, pelo qual tem dó dos miseráveis e os alivia” (A.W. Pink, Deus é Soberano, p. 23).

[2]João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (Tt 3.4), p. 347.

[3]John Murray (1898-1974) observou acertadamente que, “nenhum estudo da expiação pode ser devidamente desenvolvido sem reconhecer em primeiro lugar o livre e soberano amor de Deus (…). Este amor é a causa ou a fonte da expiação” (John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 11, 13).

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (55)

D. A base do perdão

1)   A Obra de Cristo

A base de nosso perdão é a obra expiatória de Cristo, coroada com a sua ressurreição (Lc 24.46-47; Rm 4.25; 1Co 15.17; 2Co 5.15). O perdão de nossos pecados ampara-se no sacrifício remidor de Cristo.

O perdão para a todo e qualquer pecado nosso, custou a Cristo a sua oferta voluntária em nosso favor, envolvendo todos os seus sofrimentos e morte na cruz. Sem a obra de Cristo não haveria perdão para nós.[1] As Escrituras insistem neste ponto:

No qual (Jesus) temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados segundo a riqueza da sua graça (Ef 1.7).

Antes sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Cristo vos perdoou (Ef 4.32).

Sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus (Rm 3.24).

É por isso que o perdão concedido por Deus é em nome de Cristo.

            Pedro quando anuncia o Evangelho à casa de Cornélio, relembra o ministério de Cristo e a missão conferida à igreja de pregar a mensagem do senhorio de Cristo (At 10.36,42): Dele todos os profetas dão testemunho de que, por meio de seu nome, todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados” (At 10.43/1Jo 2.12). A relação é evidente entre a obra de Cristo, a fé e o perdão.

            Paulo descrevendo a obra de Cristo em nossa salvação, resume: 13 Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, 14 no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” (Cl 1.13-14).

            O próprio Senhor Jesus na instituição da Ceia, estabelece a relação entre o seu sangue ali simbolizado e a nossa expiação: 27 A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos;  28 porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26.27-28/Ef 1.7).[2]

Calvino (1509-1564) de modo surpreendente afirma: “Deus se paga a si mesmo por Sua misericórdia manifestada em seu Filho, nosso Salvador Jesus Cristo, que uma vez por todas se ofereceu ao Pai para ser Ele próprio a satisfação que Lhe deveríamos prestar”.[3]

O perdão sempre foi em Cristo

            Mesmo no Antigo Testamento, os patriarcas, os profetas e o povo em geral foram perdoados, não porque ofereceram sacrifícios, mas sim, pela fé no Cristo que viria. As ofertas quando apresentadas como ato sincero de obediência a Deus eram aceitas como expressões de fé.

A obra de Cristo envolve todos os crentes: todos os fiéis do passado, presente e futuro.[4] “A única maneira de alguém ser perdoado, antes de Cristo, depois de Cristo e em qualquer ocasião, é através de Cristo, e este crucificado”, enfatiza Lloyd-Jones.[5]

            A obra de Cristo envolve todo o seu povo. Ninguém ficará de fora nem jamais houve ou haverá redenção fora do sacrifício único e vicário de Cristo: a obra de Cristo é completa e suficiente. No Calvário, o Senhor Jesus não verteu uma gota sequer de sangue que fosse em vão. Não houve desperdício, nem carência. Ele expiou os pecados de todo e exclusivamente de seu povo.

            Escreve Calvino:

Em cada época, desde o princípio, houve pecados que necessitavam de expiação. Portanto, a menos que o sacrifício de Cristo fosse eficaz, nenhum dos [antigos] pais haveria obtido a salvação. Visto que se achavam sujeitos à ira divina, qualquer remédio para livrá-los teria resultado em nada, se Cristo, ao sofrer uma vez por todas, não sofresse o suficiente para reconciliar os homens com a graça de Deus, desde o princípio do mundo e até ao fim. A não ser que desejemos muitas mortes, contentemo-nos com um só sacrifício. (…) Não está no poder do homem inventar sacrifícios como lhe apraz. Eis aqui uma verdade expressa pelo Espírito Santo, a saber: que os pecados não são expiados por um sacrifício, a menos que haja derramamento de sangue. Por conseguinte, a ideia de que Cristo é sacrificado muitas vezes não passa de uma invenção diabólica.[6]

            Paulo nos diz que o triunfo de Cristo em nos perdoar, concedendo-nos vida, foi manifesto na cruz do Calvário:

E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões, e pela incircuncisão da   vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz. (Cl 2.13-15).

Lloyd-Jones enfatiza:

A mensagem não é que Deus está disposto a perdoar o fato do Calvário, mas que Deus perdoa por meio do Calvário. É o que Deus fez no Calvário que produz o perdão para nós. O Calvário não é meramente uma proclamação ou um anúncio do amor de Deus e da Sua prontidão para perdoar; é Deus mediante o que Ele fez em Cristo e por meio dEle na cruz do Calvário, criando um meio pelo qual Ele pode reconciliar-nos consigo.[7]

            Em Cristo obtivemos a justificação e o perdão. A justificação é um ato judicial onde Deus declara já não haver culpa em nós porque nossos pecados foram pagos. A Lei foi cumprida. O perdão é um ato soberano por meio do qual Deus livremente desiste de aplicar as sanções da Lei aos pecadores. Portanto, a justificação traz consigo o perdão e outros elementos tais como: reconciliação, paz, adoção etc.[8]

            Portanto, nunca é demais insistir no ponto de que o perdão que nos vem pela graça, custou um alto preço para o nosso Salvador: o seu precioso sangue. A graça é o benefício das obras de Cristo. “Sem derramamento de sangue não há remissão”(Hb 9.22).“O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7).

     A paz flui da justificação,[9] sendo aquela as primícias desta.[10] Deus nos declara justos em Cristo perdoando todos os nossos pecados, promovendo assim a paz

Por isso, já não há condenação para todos aqueles que estão em Cristo (Rm 8.1). O perdão está associado de forma dependente à autoentrega graciosa de Deus em Cristo (Rm 8.32/2Co 5.21).

            O perdão não torna Deus indiferente ao pecado, nem revela uma frouxidão ou atenuação no padrão de Deus (Ex 34.6-7); mas, sim, o seu amor ativo em Cristo que teve como trajetória eternamente definida a cruz, o sacrifício.[11] A cruz revela a gravidade de nossa ofensa ao Deus santo, a santa majestade de Deus e, também, a grandeza incomensurável e incompreensível de seu amor.

Por isso, Paulo apresenta como prova cabal do amor de Deus por nós, o fato da encarnação e morte de Cristo em nosso favor: “Deus prova  (suni/sthmi) (evidencia, demonstra, mostra) o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). “O perdão é obra exclusiva de Deus, é dom de Deus”, resume Aulén (1879-1977).[12]

São Paulo, 22 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “A ilusão mais perigosa de todas é o farisaísmo. Essa é a verdadeira barreira a Jesus Cristo. Toda a rejeição da graça de Deus toma essa forma. Aqueles que recusam o perdão gratuito de Deus por meio de Cristo fazem assim porque acham que não precisam desse perdão. Eles não admitem que são pecadores. Eles negam que estejam desesperadamente perdidos” (Gene Edward Veith, Jr, De todo o teu entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 79).

[2] O Catecismo de Heidelberg (1563), capta bem esse sentido ao tratar dos sacramentos: “São os sinais e selos santos e visíveis instituídos por Deus para que, pelo seu uso por nós, ele possa, de modo mais completo, revelar-nos e selar a promessa do Evangelho, por causa do sacrifício único de Cristo realizado na cruz, Ele, de graça, nos concede o perdão de pecados e a vida eterna” (Perg. 66).

[3]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 129.

[4]“Quando o Filho de Deus sofreu e morreu, Ele assim expiou os pecados de todos os que o aceitaram ou iriam aceitá-lo por meio de uma fé viva, ou seja, por todos os crentes de ambas as dispensações. Os méritos da cruz estendem-se tanto para trás como para adiante” (W. Hendriksen, Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, (Rm 3.25-26), p. 178).

[5] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, São Paulo: FIEL., 1984, p. 359. “Ninguém pode dizer, nem por um momento, que pessoas como Davi, Abraão, Isaque e Jacó não foram perdoadas. Mas não o foram por causa daqueles sacrifícios que ofereceram. Eles foram perdoados porque olhavam para Cristo. Não percebiam isso claramente, mas criam no ensinamento e faziam essas ofertas pela fé. Criam na Palavra de Deus, que Ele um dia no porvir, proveria um sacrifício, e pela fé se mantiveram firmes nisso. Foi a fé em Cristo que os salvou, exatamente como é a fé em Cristo que salva agora” (D.M. Lloyd-Jones, A Cruz: A Justificação de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, (s.d.), p. 9-10).

[6]João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 9.26), p. 245-246. “A razão pela qual Deus ordenara que se oferecessem vítimas como expressão de ações de graça foi, como é bem notório, para ensinar ao povo que seus louvores eram contaminados pelo pecado, e que necessitavam de ser santificados exteriormente. Por mais que proponhamos a nós mesmos louvar o nome de Deus, outra coisa não fazemos senão profaná-lo com nossos lábios impuros, não houvera Cristo se oferecido em sacrifício com o propósito de santificar a nós e às nossas atividades sagradas (Hb 10.7). É através dele, como aprendemos do apóstolo, que nossos louvores são aceitos” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Edições Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 66.15), p. 631).

[7]D.M. Lloyd-Jones, O supremo propósito de Deus: Exposição sobre Efésios 1.1-23, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 145.

[8] Veja-se: A.A. Hodge, Esboços de Teologia, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2001, p. 706.

[9]Veja-se: Thomas Watson, A Fé Cristã, estudos baseados no breve catecismo de Westminster, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 268.

[10]R.C. Sproul, A santidade de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 162.

[11] “A cruz de Cristo se tornou o ápice de uma vida que sempre foi o caminho da cruz” (A.H. Leitch, Justiça: In: M.C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 3, p. 820).

[12] G. Aulén, A Fé Cristã, São Paulo: ASTE, 1965, p. 258.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (54)

B. O sentido básico do perdão 

             Perdoar significa considerar o devedor como se não houvesse ofendido em nada; não lhe imputar nenhuma dívida. Por isso mesmo, após o perdão, o devedor deixou de ser um devedor, ou mesmo, um devedor perdoado, para ser apenas uma pessoa, sem maiores adjetivos.

Desse modo, tanto a ofensa como o perdão já não contam mais. Com o perdão de Deus o nosso relacionamento com Ele é restabelecido.

Agora, não nos iludamos. O perdão de Deus, longe de minimizar o pecado e a sua gravidade, realça a misericórdia de Deus.

            A petição, “perdoa-nos as nossas dívidas”, ensinada por Jesus Cristo por meio do Pai Nosso, significa que nós, admitindo o nosso pecado, pedimos a Deus que pela sua misericórdia não nos considere como de fato somos: devedores dignos de castigo.

C. A descrição bíblica do perdão

               O Antigo Testamento usa três termos principais (e seus cognatos) para descrever o perdão:[1]

a) Kãphare (“Kipher”) – palavra de origem desconhecida –, que significa, “reconcili-ar”, “cobrir”, “purgar”, “expiar”, “perdoar”. Esta palavra está ligada ao sacrifício, indicando que alguma expiação foi efetuada. (Ex 32.30; Lv 8.15; Nm 5.8; Dt 21.8; 2 Sm 21.3; Sl 65.4; 78.38; 79.9; Is 6.7; Is 22.14; 43.3; Jr 18.23; Dn 9.24; Ez 16.63; 45.20).

b) Nãshãh (“Nãshãh”), “Elevar”, “carregar”, “remover”, “remir”, “levantar”, “livrar”. Este termo apresenta a ideia de que o pecado cometido foi levantado e carregado (removido) para longe; esquecido. (Gn 18.26; 41.51; 50.17; Ex 10.17; 1Sm 15.25; Jó 7.21; 11.6; Sl 25.18; 32.1,5; 85.2; Is 2.9; 33.24; 44.21).

c) Sãlah (“Sãlah”), “Perdoar”, “esquecer”, “desculpar”. (Ex 34.9; Lv 4.20,26,31; 5.6,10,13; 1Rs 8.34,36,39; Sl 25.11; 130.4; Is 55.7). No livro do profeta Jeremi-as, encontramos a celebração jubilosa do futuro perdão de Deus, relacionado com a Nova Aliança (Vejam-se: Jr. 31.31-34; 33.8; 50.20/Hb 8.6-13).

            Enquanto Nãshãh é utilizado para o perdão concedido por Deus bem como pelo homem, Kãphar e Sãlah são empregados exclusivamente para o perdão de Deus.

            O Antigo Testamento enfatiza que todo pecado exige expiação, e esta é feita por meio do derramamento de sangue (Lv 17.11/Hb 9.22). Isso não significa que o sacrifício tivesse em si mesmo poder para remir o pecador, mas, ele adquire esse valor porque foi o método estabelecido por Deus para perdoar,[2] por meio do qual o homem, quando agia sinceramente conforme as prescrições divinas, indicava o seu arrependimento e obediência ao caminho proposto por Deus.

            O ritual sem um coração sincero de nada adiantava. Por isso mesmo as constantes admoestações de Deus quanto a uma prática apenas externa, destituída do sentimento correto (Vejam-se: Is 1.10-17; Am 5.21-22).

            Os sacrifícios no Antigo Testamento apontam, especialmente a partir de Isaías, para a vinda do Messias, O Servo de Deus, que daria a Sua vida em resgate do seu povo. (Vejam-se: Is 40-42; 52.13-15; 53; 55). O sacrifício de Cristo indica aspectos contundentes de seu amor, o triste significado de nossa desobediência, a justiça de Deus e a sua misericórdia gloriosa.

            O Novo Testamento emprega quatro palavras principais para descrever o perdão:

  • Pa/resij (“Paresis”), “Remissão”, “não levar em conta”, “deixar passar”, “mandar embora”, “passar por cima”(* Rm 3.25).
  • A)fi/hmi (“Aphiëmi”), “Deixar ir”, “enviar”, “soltar”,  cancelar”, “desistir”, “abandonar”(Mt 4.11; 6.12; 12.31-32; 18.12,21,27,32, 35; Mc 2.5,7). O substantivo A)fe/sij (“Aphesis”),“Desobrigação”, “perdão”, “libertação”, “cancelamento”(Mt 26.28; Mc 1.4; At 2.38; Ef 1.7; Cl 1.14; Hb 9.22.
  • O verbo A)polu/w (“Apolyõ”),“Libertar” (de doenças, um prisioneiro) “perdoar”, “livrar”, “despachar” (uma assembleia, turbas, indivíduos). (Mt 5.31,32; 14.15;15.23; 27.15,17,21,26;  At 19.40; 28.18,25; Hb 13.23). Somente em Lc 6.37 tem o sentido claro de perdoar (Ocorre 68 vezes no NT).
  • Xari/zomai (“Charizomai”),“Mostrar favor ou bondade”, “dar como favor”, “ser gracioso com alguém”, “perdoar”.(Lc 7.42,43; At 27.24; Rm 8.32; 2 Co 2.7,10; Ef 4.32; Cl 2.13; 3.13) (empregada 21 vezes no NT). Neste verbo aparece de modo explícito o nosso dever de perdoar como resultado do perdão concedido por Deus.

Iniciativa de Deus

    O perdão é descrito sempre nas Escrituras como sendo uma iniciativa de Deus. Ele mesmo em textos diferentes nos diz:

Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e dos teus pecados não me lembro. (Is 43.25).

Desfaço as tuas transgressões como a névoa, e os teus pecados como a nuvem; torna-te para  mim, porque eu te remi. (Is 44.22).

Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniquidade, e te esqueces da transgressão do restante da tua herança? O Senhor não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer na misericórdia. Tornará a ter compaixão de nós; pisará aos pés as nossas iniquidades, e lançará todos os nossos pecados nas profundezas do mar. (Mq 7.18-19).

Perdoarei as suas iniquidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei. (Jr 31.34) (Vejam-se: Jr 5.1; 33.8; Ez 36.25).

            O perdão é um favor de Deus, uma prerrogativa sua, não algo a que temos direito por nossos merecimentos. Daniel, diz: “Ao Senhor, nosso Deus, pertence a misericórdia e o perdão” (Dn 9.9/Sl 130.4).

            “Deus (…) é rico em perdoar” (Is 55.7). Portanto, “Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não atribui iniquidade e em cujo espírito não há dolo”(Sl 32.2).

            Grider (1921-2006) nos chama a atenção para o fato de que “nenhum livro de religião, a não ser a Bíblia, ensina que Deus perdoa completamente o pecado”.[3]

São Paulo, 22 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Para uma visão mais completa dos termos, veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 185-186.

[2] Eichrodt, seguindo Büchler diz que “A expiação não é uma forma imediata de remoção do pecado independentemente de seu perdão, senão um método de perdão” (Walter Eichrodt, Teologia del Antiguo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1975, v. 2, p. 440).

[3] J.K. Grider,  Perdão: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1990, v. 3, p. 136. Esta declaração não entra em conflito com o fato de que os deuses dos povos do Antigo Testamento eram aplacados em sua ira e esta consciência de “perdão” era testemunhada pelos seus adoradores. (Cf. J. Scharbert, Perdão: In: Heinrich Fries, (direção de), Dicionário de Teologia, 2. ed. São Paulo: Loyola, 1987, v. 4, p. 229-230). Contudo, um exemplo explícito de um “deus” declarando o perdão absoluto parece ser estranho à literatura antiga, fora da Bíblia.