A Santidade de Deus e a necessidade de arrependimento: uma pregação urgentemente necessária (6)

Arrependimento contínuo e operante

 

Deus deseja que nos arrependamos de nossos pecados e, como evidência desta transformação, mudemos de comportamento. Na parábola dos dois filhos, contada por Jesus, temos exemplificado este princípio:

 

E que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Chegando-se ao primeiro, disse: Filho, vai hoje trabalhar na vinha. Ele respondeu: Sim, senhor; porém não foi. Dirigindo-se ao segundo, disse-lhe a mesma cousa. Mas este respondeu: não quero, depois arrependido, foi. Qual dos dois fez a vontade (qe/lhma) do Pai? Disseram: O segundo. Declarou-lhes Jesus: Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus. Porque João veio a vós outros no caminho da justiça, e não acreditastes nele; ao passo que publicanos e meretrizes creram. Vós, porém, mesmo vendo isto não vos arrependestes, afinal, para acreditardes nele. (Mt 21.28-32).

 

A vontade de Deus é que os homens, confrontados com a mensagem salvífica de Deus, se arrependam de seus pecados, recebendo a Cristo como seu Salvador pessoal, iniciando uma nova fase em sua vida, tendo como princípio animador agradar a Deus, sendo-Lhe obediente.

 

Arrependimento e fé para sempre

 

O arrependimento é parte integrante e essencial de nossa santificação. Deus deseja que procuremos agradá-Lo em todas as coisas. No entanto, sabemos que pecamos, que falhamos, que não atingimos o alvo proposto por Deus; por isso, conscientes de nossos pecados, devemos nos arrepender, buscando o perdão de Deus e o reparo para o nosso erro.

A Confissão de Westminster (1647) resume: “O pecador pelo arrependimento, de tal maneira sente e aborrece os seus pecados, que, deixando-os, se volta para Deus, tencionando e procurando andar com Ele em todos os caminhos dos seus mandamentos” (XV.2).

 Considerando o nosso progresso espiritual em direção ao modelo definitivo, Jesus Cristo, Calvino (1509-1564) destaca três elementos essenciais no arrependimento os quais devem nos acompanhar em toda vida cristã: “O ensino do arrependimento contém a regra do viver santo; ele demanda negação de nós mesmos, mortificação de nossa carne e meditação sobre a vida celestial”.[1]

Em outro lugar:

 

Esta restauração, na verdade, não se consuma em um momento, ou em um dia, ou em um ano; antes, através de avanços contínuos, ainda que amiúde de fato lento, Deus destrói em seus eleitos as corrupções da carne, os limpa de sua imundície e a si os consagra por templos, renovando-lhes todos os sentimentos à verdadeira pureza, para que se exercitem no arrependimento toda sua vida e saibam que não há nenhum fim para esta luta senão na morte.[2]

Julgo que aquele que aprendeu a ficar profundamente insatisfeito consigo mesmo aprendeu muito de proveito, não para permanecer estacionado neste lamaçal, sem dar um passo além; antes, pelo contrário, de modo que se apresse para Deus e por ele suspire; para que, enxertado na morte e na vida de Cristo, se aplique ao perpétuo arrependimento.[3]

 

O arrependimento e a fé são passos iniciais, inseparáveis e complementares[4] da vida cristã como resposta ao chamado divino. No entanto, ambos devem acompanhar a nossa vida. Devemos continuar crendo em Deus em todas as circunstâncias e cultivar, pelo Espírito, uma atitude de arrependimento pelas nossas falhas.[5] “O espírito quebrantado e o coração contrito são as marcas permanentes da alma crente”.[6]

Isso indica o fato de que somos pecadores e, ainda que não mais dominados pelo pecado, continuamos mantendo esta luta em nosso coração. As nossas quedas seguidas de um arrependimento sincero nos envergonham, porque percebemos o quão distante estamos do alvo proposto por Deus para nós. O arrependimento pleno é um ideal da vida cristã que jamais será concretizado neste estado de existência.

Olyott escreve sobre isso com a sua costumeira sensibilidade:

 

Arrependimento é ter vergonha de quem você é. Você faz o que você faz porque você é quem você é. E o que você é, é o que Deus diz que você é: um pecador! O evangelho é que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar pecadores! E sem esse sentido claro de pecado, você não pode ser salvo.[7]

 

Deus deseja que procuremos agradá-lo em todas as coisas. No entanto, sabemos que pecamos, que falhamos, que não atingimos o alvo de santidade proposto por Deus, por isso, conscientes de nossos pecados, devemos nos arrepender, buscando o perdão de Deus e o reparo para o nosso erro.

 

Disciplina amorosa: formativa e corretiva

A disciplina corretamente entendida, envolve ensino e repreensão. O ensino correto previne muitos males e conduz o fiel ao arrependimento pelos seus pecados. Deste modo, biblicamente, devemos entender a disciplina de maneira formativa e corretiva.[8] A disciplina formativa que consiste no ensino da Palavra é, pelo Espírito, amplamente corretiva.

Na disciplina de Deus, além de revelar a sua justiça, ele tem, em seus filhos, este propósito primordial: conduzir-nos ao arrependimento:

 

Porque a Deus não Lhe basta ferir-nos com sua mão, a menos que também nos toque interiormente com Seu Espírito Santo. (…) Até que Deus nos toque no mais profundo de nosso interior, é certo que não faremos nada senão dar coices contra Ele, cuspindo mais e mais veneno; e toda vez que nos punir rangeremos os dentes, e nada mais faremos senão atacá-Lo. (…) Então vocês veem como Deus mostra Sua justiça cada vez que pune os homens, ainda que tal punição não seja uma solução para sua emenda.[9]

 

Temos uma boa síntese do significado bíblico de arrependimento no Catecismo Menor de Westminster, em resposta à pergunta 87: “O que é arrependimento para a vida?”:

 

Arrependimento para a vida é uma graça salvadora, pela qual o pecador, tendo uma verdadeira consciência de seu pecado, e percepção da misericórdia de Deus em Cristo, se enche de tristeza e de aversão pelos seus pecados, os abandona e volta para Deus, inteiramente resolvido a prestar-lhe obediência (At 11.18; At 2.37; Jl 2.13; 2Co 7.11; Jr 31.18,19; At 26.18; Sl 119.59).

 

Maringá, 2r de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Acesse aqui esta série de estudos completa

 


[1] John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1996 (Reprinted), v. 19, (At 20.21), p. 245.

[2] João Calvino, As Institutas, (2006), III.3.9.

[3] João Calvino, As Institutas, (2006), III.3.20.

[4]“O arrependimento é fruto da fé, que é, ela própria, fruto da regeneração. Contudo, na vida real, o arrependimento é inseparável da fé, sendo o aspecto negativo (a fé é o aspecto positivo) de voltar-se para Cristo como Senhor e Salvador. A ideia de que pode haver fé salvadora sem arrependimento, e que uma pessoa pode ser justificada por aceitar Jesus como Salvador, e ao mesmo rejeitá-lo como Senhor, é uma ilusão destrutiva” (J.I. Packer, Teologia Concisa, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 152-153). Vejam-se: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 2, (II.5), p. 129ss.; A.A. Hoekema, Salvos pela graça, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 129.

[5] Ferguson argumenta de forma simples, porém, objetiva destacando o perigo de entendermos o “arrependimento” apenas como ato único (“emoção inicial”) na vida cristã (Veja-se: Sinclair Ferguson A Graça do Arrependimento. São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2014, p. 46ss.).

[6]John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 130.

[7]Stuart Olyott, Jonas – O Missionário bem sucedido que fracassou, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2012, p. 58.

[8] Veja-se o excelente artigo: John Armstrong, Chorar pelos que erram e os caídos erguer: In: John F. MacArthur Jr., et. al., Avante, Soldados de Cristo: uma reafirmação bíblica da Igreja, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 85-110.

[9]Juan Calvino, Bienaventurado el Hombre a Quem Dios Corrige: In: Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 3), p. 48.        Juan Calvino, Bienaventurado el Hombre a Quem Dios Corrige: In: Sermones Sobre Job, p. 49). (Vejam-se também: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 4, (IV.17), p. 204; João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 79.1), p. 250.

A Santidade de Deus e a necessidade de arrependimento: uma pregação urgentemente necessária (5)

Graça do arrependimento

 

No arrependimento não há mérito nem arrogância, antes, vergonha e, em um segundo momento, atitude de gratidão a Deus por nos ter aceito, que se manifesta em frutos de obediência. O pecador arrependido não se protege em supostos atenuantes,[1] antes, certo de seu pecado, culpa, e da gravidade de ter ofendido a Deus,[2] busca a consciência do misericordioso perdão[3] de seu Senhor.

 

O arrependimento distingue-se, assim, do remorso, que é apenas uma tristeza por um ato pecaminoso, em geral, percebido por causa das consequências, ainda que parciais, do seu pecado (Jr 3.7). Esta tristeza (remorso) pelo pecado faz parte do arrependimento, contudo, ela sozinha é insuficiente.[4]

 

O arrependimento é por si só fruto da graça de Deus; é uma tristeza produzida por Deus em nossos corações. Somente a verdadeira convicção do pecado, resultante da contemplação do Deus santo, pode nos conduzir à consciência de nossa pobreza espiritual e ao choro de arrependimento pelos nossos pecados.

 

Insisto: O arrependimento sincero é uma “concessão”, um presente[5] de Deus. Afirma o apóstolo Paulo: “Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento (meta/noia) para a salvação” (2Co 7.10/2Tm 2.25). “A bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento (meta/noia) (Rm 2.4/At 11.18; Hb 12.17).

 

“A fé e o arrependimento não devem ser reputados coisas meritórias mediante as quais merecemos o perdão. Pelo contrário, são os meios pelos quais nos apropriamos da graça de Deus”, escreve Morris (1914-2006).[6] Em síntese: “O arrependimento não está no poder do homem”.[7] Por isso, ele é próprio do novo homem.[8] Deste modo, podemos falar como nos Cânones de Dort, “que o homem crê e se arrepende mediante a graça que recebeu”.[9]

 

O conceito de arrependimento, envolvendo uma mudança radical na vida do homem é um conceito cristão sem paralelo na literatura grega.[10]

 

O arrependimento bíblico consiste em voltar-se total e integralmente para Deus.  Envolve uma atitude de abandono do pecado e uma prática da Palavra de Deus.[11] Esta prática consiste nos “frutos do arrependimento”.

 

Paulo, testemunhando diante do rei Agripa a respeito do seu ministério, diz:

 

Pelo que ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial, 20mas anunciei primeiramente aos de Damasco e em Jerusalém, por toda a região da Judéia, e aos gentios, que se arrependessem e se convertessem a Deus praticando obras dignas de arrependimento (meta/noia). (At 26.19,20. Vejam-se também: At 20.21/Lc 3.8).

 

Maringá, 24 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Acesse aqui esta série de estudos completa

 


 

[1]“A autodefesa vai-se quando vemos que não merecemos nada senão castigo. Compreendemos que somos miseráveis, que somos vis. O homem muda, pois, o seu conceito sobre si próprio” (D.M Lloyd-Jones, Romanos: Exposição Sobre Capítulos 2:1 a 3:20: o justo juízo de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1999, p. 85). Veja-se: Allan Harman, Comentário do Antigo Testamento ‒ Salmos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, (Sl 32-3-5), p. 157.

[2]“Jamais aplicaremos seriamente o perdão divino, enquanto não tivermos obtido uma visão tal de nossos pecados, que nos inspire terror” (João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 51.3), p. 424).

[3]“De fato o perdão de pecados é realizado definitiva e perfeitamente em Deus, mas nos é dado e apropriado por nós em nossas vidas através da fé e do arrependimento” (Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 462).

[4] Quanto à confusão feita nas traduções entre arrependimento e remorso, veja a excelente obra de meu antigo mestre, Oadi Salum, Teologia Sistemática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 362-363.

[5]“O arrependimento é um presente do Cristo que subiu ao céu, no seu glorioso ofício de Mediador” (Sinclair B. Ferguson, Arrependimento, Recuperação e Confissão: In: James M. Boice; Benjamin Sasse, orgs. Reforma Hoje, São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p. 143).

[6] Leon Morris, Perdão: In: J.D. Douglas, ed. org. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 3, p. 1268a.

[7]João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 6.6), p. 155.

[8] Cf. Herman Bavinck, Teologia Sistemática, p. 479.

[9]Os Cânones de Dort, São Paulo: Cultura Cristã, (s.d.), III-IV.12.

[10] Cf. J. Goetzmann, Conversão: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 1, p. 499.

[11]“O arrependimento bíblico, então, não é meramente sentir um remorso que nos deixa onde estamos; é uma inversão radical que nos leva de volta pela estrada de nossas peregrinações pecaminosas, criando em nós uma mentalidade completamente nova. É cair em si espiritualmente (cf. Lc 15.17). A vida não é mais caracterizada pela exigência ‘dá-me’ (Lc 15.12) e sim pelo pedido ‘faze-me’ (Lc 15.19)” (Sinclair B. Ferguson, Arrependimento, Recuperação e Confissão: In: James M. Boice; Benjamin Sasse, orgs. Reforma Hoje, São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p. 131).

A Santidade de Deus e a necessidade de arrependimento: uma pregação urgentemente necessária (4)

Santo e pecadores

 

Devido à depravação de nossa natureza – todos pecamos e somos responsáveis diante de Deus –, a proximidade de Deus nos faz mais sensíveis a essa realidade de pecado e impureza. A contemplação da Sua gloriosa santidade realça de forma eloquente a gravidade de nosso pecado.[1]

 

Schaeffer (1912-1984) coloca a questão nestes termos:

 

Nós pecamos deliberadamente contra o santo de Deus; é por isso que a nossa situação é desesperadora. (…)

O problema não está na quantidade de pecados que praticamos, mas em quem ofendemos. Nós pecamos contra um Deus infinitamente santo, que realmente existe. E, a partir do momento em que pecamos contra um Deus infinitamente santo, que realmente existe, nosso pecado é infinito.[2]

 

Diversos servos de Deus ilustram a seriedade da percepção concreta da santidade do Senhor e responderam a isso:

 

Pedro, após pesca maravilhosa, registra Lucas, “prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador” (Lc 5.8).

 

Algo muito curioso aconteceu aqui. Aqueles que conheciam a Cristo, em geral, desejavam a sua presença, ter sua companhia, ouvir suas palavras e se beneficiar de seus milagres. Pedro no entanto, quando se depara com Cristo, vendo de forma estupefata o seu poder, se aterroriza de si mesmo: “Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador” (Lc 5.8).

 

Pecadores não arrependidos não podem se sentir à vontade na presença do Deus santo.[3] A glória da majestade de Deus revela de forma contundente e vergonhosa a nossa condição de miseráveis pecadores.

 

Paulo, o apóstolo de Cristo, que tinha uma visão correta da glória de Deus e uma genuína dimensão espiritual da pecaminosidade humana, escreve: “Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1Tm 1.15).

 

Esta experiência foi comum também a diversos servos de Deus: Moisés, Jó, Isaías, Ezequiel, Daniel e João (Vejam-se: Ex 3.6; Jó 42.5-6; Is 6.1-5; Ez 1.28; Dn 10.9; Ap 1.17).

 

O fato é que jamais poderemos sentir a necessidade de arrependimento e de sermos santos sem que antes e durante, tenhamos a consciência de nosso pecado.

 

De modo enfático assevera Lloyd-Jones (1899-1981): “Nunca houve um santo sobre a face da terra que não tenha visto a si mesmo como um vil pecador; de modo que se você não sente que é um vil pecador, não é parecido com os santos”.[4]

 

No entanto, como o nosso conhecimento de Deus é menor do que estes homens tiveram, a nossa consciência do pecado também é diminuta. A contemplação da santidade de Deus ilumina as nossas trevas, mostrando-nos como realmente somos e o quanto necessitamos de Deus.

 

É somente a partir de nossa relação restabelecida com o Deus santo por meio de Jesus Cristo, que começamos a enxergar a realidade – incluindo a nós mesmos em nossa pecaminosidade – de forma diferente. Isto fará mudar a nossa forma de pensar e agir.

 

 

Maringá, 24 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] “A seriedade do insulto aumenta com a dignidade daquele que é insultado” (John Piper, A Paixão de Cristo, São Paulo: Mundo Cristão, 2006, p. 22). “A santidade é, sem dúvida, o mais importante de todos os atributos de Deus” (John MacArthur, Deus: Face a face com sua majestade, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2013, p. 47).

[2]Francis Schaeffer. A Obra Consumada de Cristo, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003, p. 75.

[3] Sproul desenvolve esse argumento de forma habilidosa e edificante. Veja-se: R.C. Sproul, A santidade de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 66ss.

[4] David M. Lloyd-Jones, O Clamor de um Desviado: Estudos sobre o Salmo 51, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1997, p. 40.

A Santidade de Deus e a necessidade de arrependimento: uma pregação urgentemente necessária (3)

Santo, Santo, Santo

O salmista cantando as maravilhas de Deus conclama o povo a, juntamente com ele, adorar a Deus considerando a santidade do Senhor:

 

Exaltai ao SENHOR, nosso Deus, e prostrai-vos ante o escabelo de seus pés, porque ele é santo (vAdq’) (qadosh). (Sl 99.5).

 Exaltai ao SENHOR, nosso Deus, e prostrai-vos ante o seu santo monte, porque santo (vd,qo)(qodesh) é o SENHOR, nosso Deus.  (Sl 99.9).

 

A palavra santo é de difícil interpretação. A sua origem está relacionada a cortar, separar. A ideia que talvez prevaleça é de algo acima. Deus como absolutamente santo está acima de todas as coisas.

Por isso, quando a palavra se refere a Deus, relaciona-se com a sua Majestade. Deus não se confunde, Ele está acima de todas as coisas. Ele transcende a tudo o que existe. “A santidade de Deus, dessa forma, se torna uma expressão da perfeição do seu ser, a qual transcende toda as criaturas”.[1]

 O conceito de santidade de Deus é único entre todos os povos.  Como escreveu Strauss (1899-1973): “Não há deus santo para Aristóteles nem para os gregos em geral”.[2]

Na Antiguidade, ainda que não isoladamente, encontramos um filósofo pagão que criticou com discernimento as práticas religiosas de seu tempo.

Xenófanes (c. 570-c.460 a.C.) faz uma crítica mordaz a Homero e Hesíodo, dizendo:

 

Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo o que para os homens é opróbrio e vergonha: roubo, adultério e fraudes recíprocas.

Como contavam dos deuses muitíssimas ações contrárias às leis: roubo, adultério, e fraudes recíprocas.

Mas os mortais imaginam que os deuses são engendrados, têm vestimentas, voz e forma semelhantes a eles.

Tivessem os bois, os cavalos e os leões mãos, e pudessem, com elas, pintar e produzir obras como os homens, os cavalos pintariam figuras de deuses semelhantes a cavalos, e os bois semelhantes a bois, cada (espécie animal) reproduzindo a sua própria forma

Os etíopes dizem que os seus deuses são negros e de nariz chato, os trácios dizem que têm olhos azuis e cabelos vermelhos.[3]

 

Deus é intrinsicamente santo, do mesmo modo que é justo, bondoso e poderoso. A sua santidade é necessária e absoluta. A santidade, por sua vez, permeia com beleza, de forma indissolúvel e essencial todos os atributos de Deus. A santidade não é mais um atributo mas, aquilo que qualifica todo o ser de Deus.

Assim, em todos os seus atributos vemos expressões da beleza de sua santidade. “A santidade é o padrão de todas as Suas ações”, resume Pink (1886-1952).[4]

O poder de Deus é santo (não é tirânico); a justiça de Deus é perfeita (não é crueldade) a sua misericórdia fundamenta-se em sua justiça (não é mero sentimento circunstancial).[5]

 Um dos recursos da literatura hebraica para enfatizar um conceito ou ensinamento, era a repetição de uma palavra. Pronunciar uma palavra três vezes é conferir um grau superlativo à mensagem. Quando nos deparamos com o livro de Isaias, durante a visão do profeta, encontramos no canto alegre de adoração e louvor por parte dos Serafins essa gloriosa ênfase: E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória(Is 6.3).

Sproul (1939-2017) observa que nenhum dos atributos de Deus é assim dito três vezes; as Escrituras não dizem que Ele é amor, amor, amor ou misericórdia, misericórdia, misericórdia ou justiça, justiça, justiça. Mas Deus é santo, santo, santo.[6]

Fora de Deus não existe santidade. Toda santidade é relacional e derivada de Deus.  Por isso, podemos dizer que toda santidade nas Escrituras é teorreferente. E mais: somente Deus pode santificar todas as coisas (Ex 31.23; Lv 20.8; 21.8; 15,23; 22.9,16,32; Ez 20.12; 37.28)

A santidade de Deus que envolve a sua glória e separação daquilo que é comum, não exclui o aspecto relacional de sua revelação.

Deus é transcendente e pessoal. É o Deus santo, o totalmente outro, mas, que se relaciona conosco (Os 11.9).

 

 

Maringá, 24 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]Jackie A. Naude, Qds: In: Willem A., Vangemeren, org. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 3, p. 876.

[2]Leo Strauss, Nicolás Maquiavelo: In: Leo Strauss y Joseph Cropsey, compiladores. Historia de la Filosofia Política, México: Fondo de Cultura Económica, © 1993, 1996 (reimpresión), p. 286.

[3]Xenófanes, Fragmentos, 11-16. In: Gerd A. Bornheim, org. Os Filósofos Pré-Socráticos, 3. ed. São Paulo: Cultrix, 1977, p. 32. Mais tarde, um escritor cristão do segundo século, fazendo uma apologia do Cristianismo – que estava sendo severamente perseguido durante o reinado de Adriano (117-138 AD), a quem destina o seu escrito –, critica o politeísmo grego: “Os gregos, que dizem ser sábios, mostraram-se mais ignorantes do que os caldeus, introduzindo uma multidão de deuses que nasceram, uns varões, outros, fêmeas, escravos de todas as paixões e realizadores de toda espécie de iniquidades. Eles mesmos contaram que seus deuses foram adúlteros e assassinos, coléricos, invejosos e rancorosos, parricidas e fratricidas, ladrões e roubadores, coxos e corcundas, feiticeiros e loucos. (…) Daí vemos, ó rei, como são ridículas, insensatas e ímpias as palavras que os gregos introduziram, dando nome de deuses a esses seres que não são tais. Fizeram isso, seguindo seus maus desejos, a fim de que, tendo deuses por advogados de sua maldade, pudessem entregar-se ao adultério, ao roubo, ao assassínio e a todo tipo de vícios. Com efeito, se os deuses fizeram tudo isso, como não o fariam também os homens que lhes prestam culto? (…) Os homens imitaram tudo isso e se tornaram adúlteros e pervertidos e, imitando seu deus, cometeram todo tipo de vícios. Ora, como se pode conceber que deus seja adúltero, pervertido e parricida?” (Aristides de Atenas, Apologia, I.8-9. In: Padres Apologistas, São Paulo: Paulus, 1995, p. 43-45).

[4]A.W. Pink, Os atributos de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985, p. 42

[5]Veja-se: Joel R. Beeke; Mark Jones, Teologia Puritana: Doutrina para a vida, São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 125.

[6]Cf. R.C. Sproul, A santidade de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 35-36.

 

A Santidade de Deus e a necessidade de arrependimento: uma pregação urgentemente necessária (2)

O arrependimento como marca contínua da vida cristã

O arrependimento marca o início da vida cristã e, também, caracteriza a sua totalidade. Packer resume: “A mudança é radical, tanto interior como exteriormente: ânimo e opinião, vontade e afetos, conduta e estilo de vida, motivos e propósitos são todos envolvidos. Arrependimento significa começo de uma nova vida”.[1]

A primeira evidência de nosso arrependimento é uma nova visão a respeito de Deus e de seu caráter. Pelo arrependimento, podemos constatar, com vergonha e tristeza, que a essência de todo pecado é que ele é contra Deus. Ainda que nossos atos sejam justificados cultural e socialmente, se não forem condizentes com a Palavra, são pecaminosos e, portanto, atos maus diante de Deus. Por isso, Davi, no alto de seu prestígio e poder, arrependido, teve que confessar a Deus o seu pecado que culminou em adultério com Bate-Seba e a morte de Urias (2Sm 11): “Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mal ([r;)(ra`) perante os teus olhos, de maneira que serás tido por justo no teu falar e puro no teu julgar” (Sl 51.4).

 

O terrível é que muitas vezes usamos dos recursos que Deus nos dá justamente para ofendê-lo, blasfemando o seu nome. É o que Deus diz ao rebelde e contumaz povo de Israel: “Adestrei e fortaleci os seus braços; no entanto, maquinam ([r;)(ra`) contra mim” (Os 7.15).

 

Uma vez que Deus não é indiferente ao pecado, ao povo rebelde, ordena: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade ([;ro) (roa`) de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal ([[;r’) (ra`a`)(Is 1.16).

 

Também adverte em diversas passagens e contextos:

 

Ai daqueles que, no seu leito, imaginam a iniquidade e maquinam o mal ([r;)(ra`)! À luz da alva, o praticam, porque o poder está em suas mãos. (Mq 2.1).

Não permitas que meu coração se incline para o mal ([r;)(ra`), para a prática da perversidade na companhia de homens que são malfeitores; e não coma eu das suas iguarias. (Sl 141.4).

14Buscai o bem e não o mal ([r;)(ra`), para que vivais; e, assim, o SENHOR, o Deus dos Exércitos, estará convosco, como dizeis. 15Aborrecei o mal, e amai o bem ([r;)(ra`), e estabelecei na porta o juízo. (Am 5.14-15).

Tão certo como a justiça conduz para a vida, assim o que segue o mal ([r;)(ra`), para a sua morte o faz. (Pv 11.19).

Quem procura o bem alcança favor, mas ao que corre atrás do mal ([r;)(ra`), este lhe sobrevirá. (Pv 11.27).[2]

Ai do perverso! Mal ([r;)(ra`) lhe irá; porque a sua paga será o que as suas próprias mãos fizeram. (Is 3.11).

 

 

Maringá, 24 de janeiro d e2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]J.I. Packer, Teologia Concisa, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 152.

[2]       “O homem depravado cava o mal ([r;)(ra`), e nos seus lábios há como que fogo ardente” (Pv 16.27).

 

A Santidade de Deus e a necessidade de arrependimento: uma pregação urgentemente necessária (1)

Temo que os cristãos evangélicos, exagerando a graça, às vezes fazem pouco do pecado por causa disso. Não existe suficiente tristeza por causa do pecado entre nós. Deveríamos experimentar mais ‘tristeza segundo Deus’ no arrependimento cristão. (John R.W. Stott, A Mensagem do Sermão do Monte, 3. ed. São Paulo: ABU., 1985, p. 31).

 

O arrependimento acontece no primeiro dia de nossa vida cristã, e todos os dias após isso. (Stuart Olyott, Jonas – O Missionário bem sucedido que fracassou, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2012, p. 45).

 

A essencialidade de arrependimento

O arrependimento é fundamental à nossa salvação. Ele é parte essencial da mensagem do Evangelho (Mt 3.2; 4.17; Mc 1.14-15; Lc 24.46-47; At 20.21; 26.18-20; Ap 3.19).1 Todos são notificados desta necessidade (At 17.30).2 O pregador do Evangelho tem a responsabilidade de conclamar seus ouvintes ao arrependimento (1Co 9.22; 2Co 5.20).3

No entanto, isto não é suficiente. O arrependimento só é possível por Deus. É uma dádiva de Deus concedida a judeus e gentios (At 5.31; 11.18).4 Ele envolve o nosso coração, mente e vontade.5 A raiz do “arrependimento evangélico”6 está no coração, o centro vital do ser humano.7 Ele consiste em uma mudança de mente, ocasionando um sentimento de “tristeza piedosa”8 pelos nossos pecados, que se caracteriza de forma concreta em seu abandono,9 refletindo isso na adoção de novos valores, ideais, objetivos e práticas. Um falso arrependimento é gerador de condenação justamente pela sensação enganosa de perdão e a autocondescendência para continuar pecando.10

O arrependimento, insisto, não é apenas uma questão intelectual, antes envolve uma revisão, reorganização e redirecionamento de nossa vida a partir de nosso novo nascimento espiritual operado pelo Espírito.11

Maringá, 24 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


1 “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3.2).

2Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam (metanoew)(At 17.30).

3 Vejam-se: Walter J. Chantry, O Evangelho hoje: autêntico ou sintético? São Paulo: Fiel, 1978, p. 41-49; John MacArthur, O Evangelho Segundo os Apóstolos, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2011, p. 91-109.

4“Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento (meta/noia) e a remissão de pecados” (At 5.31). “E, ouvindo eles estas coisas, apaziguaram-se e glorificaram a Deus, dizendo: Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento (meta/noia) para vida” (At 11.18).

5Hoekema assim define: “o retorno consciente da pessoa regenerada, para longe do pecado e para perto de Deus, numa completa mudança de vida, manifestando-se numa nova maneira de pensamento, sentimento e vontade” (Anthony A. Hoekema, Salvos Pela Graça, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 133). Especialmente, p. 133-135.

6 Expressão usada por Calvino. Veja-se: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 2, (II.5), p. 130-131.

7“Assim como o coração no sentido físico é o ponto de origem e de força propulsora da circulação do sangue, assim também, espiritual e eticamente ele é a fonte da mais elevada vida do homem, a sede de sua autoconsciência, de seu relacionamento com Deus, de sua subserviência à Sua lei, enfim, de toda a sua natureza moral e espiritual. Portanto, toda a sua vida racional e volitiva tem seu ponto de origem no coração e é governada por ele” (Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 19).

8 “A verdadeira conversão surge da tristeza piedosa, isto e, uma tristeza em harmonia com a vontade de Deus, uma tristeza que, portanto, não é meramente de caráter ético, mas também de caráter religioso, pertence a Deus, sua vontade e sua palavra e ao pecado como pecado até mesmo independente de suas consequências. Ela é requerida por Deus, mas também é dada por Deus” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 141). “Se Deus nos esmaga com tristeza piedosa, isso é um ato de pura graça. É o seu ato de misericórdia para nos levar à fé e à conversão” (R.C. Sproul, O que é arrependimento? São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2014, p. 43).

9Analisando diversas passagens bíblicas, Bavinck, conclui: “A conversão sempre consiste em uma mudança interna de mente que leva as pessoas a olharem para seu passado pecaminoso à luz da face de Deus; conduz à tristeza, desgosto, humilhação e confissão de pecados; e é, tanto interna quanto externamente, o começo de uma nova vida ético religiosa” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 142). Veja-se também: Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 479-480).

10 Vejam-se algumas ilustrações sobre “falso arrependimento” em: Thomas Watson, A Doutrina do Arrependimento, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2012, p. 17ss; John Owen, Para vencer o pecado e a tentação, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 109; Jim Elliff, Arrependimento ineficaz. (http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/253/O_Arrependimento_Ineficaz) (Consulta feita em 24.01.19).

11 Veja-se: A.A. Hoekema, Salvos pela graça, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 133-135.