Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (67)

Calvino, em diversas partes de seus escritos demonstrou a compreensão de que o Evangelho deveria ser pregado a todos. Analisemos um pouco de sua obra em Genebra (1536-1538; 1541-1564).

 

Para Calvino, cosmovisão é um compromisso de fé e prática. Por isso, o seu trabalho em Genebra consistiu na aplicação de sua fé às condições concretas de sua existência. A fé é chamada a se materializar nos desafios que se configuram diante de nós em nossa história de vida.

 

Calvino que estudara em universidades de renome na França, tendo como mestres alguns dos grandes professores de sua época, conhecia bem a dureza estrutura e rotina universitária. Antes de ser um teólogo ele fora um humanista. A sua filosofia de ensino reflete a sua apurada formação e maturidade intelectual dentro de um referencial que partia das Escrituras tendo a soberania de Deus como princípio orientador e a glória de Deus como fim de todas as coisas, inclusive de nosso saber.

 

Já na sua primeira permanência em Genebra (1536-1538) insistiu junto aos Conselhos para melhorar  as  próprias  condições do ensino, bem como os recursos das  escolas. Ele apresentou ao conselho municipal um projeto educacional (1536) gratuito que se destinava a todas as crianças – meninos e meninas[1] –, tendo um grande apoio público.  Desta proposta surgiu o Collège de Rive. Temos aqui o surgimento da primeira escola primária, gratuita e obrigatória de toda a Europa:[2] “Popular, gratuita e obrigatória”.[3] No entanto o Collège de Rive encerrou suas atividades durante o período de Calvino em Estrasburgo (1538-1541), sendo reativado com a sua volta definitiva para Genebra (1541).[4]

 

A partir de 1541, com todas as lutas que enfrentou em Genebra, pôde, contudo, reestruturar o sistema educacional desta cidade. Visto que o Estado estava empobrecido, apelou para doações e legados.[5]

 

Fiel ao seu princípio de que “as escolas teológicas [são] berçários de pastores”,[6] Calvino, que havia trabalhado com Johannes Sturm (1507-1589) em Estrasburgo (1538-1541), criou uma Academia em Genebra (Schola Privata e a Schola Publica) tendo o culto inaugural em 5/6/1559 no templo de Saint-Pierre. Como diz Compayré, a Academia teve uma origem modesta.[7] Calvino, no entanto, esforçou-se por constituir um corpo docente competente, sendo ajudado neste propósito por um incidente político. Alguns ministros de Lausanne que em 1558 haviam protestado contra a proposição de Berna a respeito da autoridade secular foram depostos em janeiro de 1559, vindo para Genebra. No entanto, a Academia no seu início teve apenas cinco professores: João Calvino e Theodore Beza (1519-1605) que revezavam no ensino de Teologia; Antoine-Raoul Chevalier ou Le Chevalier (1507-1572), professor de Hebraico, François Bérauld, professor de Grego e Jean Tagaut († 1560), professor de Artes (Filosofia).[8]

 

A base da formação educacional em Genebra era a Bíblia. Competia à família (apesar de suas limitações iniciais) e ao Estado o cuidado com a educação. No entanto, a igreja tinha um papel especialíssimo. Os pastores eram responsáveis pelo ensino nas escolas elementares e nos colégios.

 

Calvino não concebia a Academia distante da igreja, antes, sustentava dois princípios fundamentais: a unidade da Academia e a união íntima da Academia com a Igreja.[9] Com este propósito, todos os professores estavam sob a jurisdição disciplinar da igreja devendo subscrever a Confissão de Fé adotada.[10]

 

O currículo incluía disciplinas tais como: Teologia, Hebraico, Grego, Filosofia, Matemática e Retórica. Entre outros, eram estudados autores gregos e latinos, como: Heródoto, Xenofonte, Homero, Demóstenes, Plutarco, Platão, Cícero, Virgílio e Ovídio.[11] NAs Institutas, escreveu: “Admito que a leitura de Demóstenes ou Cícero, de Platão ou Aristóteles, ou de qualquer outro da classe deles, nos atrai maravilhosamente, nos deleita e nos comove ao ponto de nos arrebatar”.[12]

 

Com o estabelecimento da Academia, o historiador Charles Borgeaud (1861-1941), antigo professor da Universidade de Genebra, disse que “Esta foi a primeira fortaleza da liberdade nos tempos modernos”.[13]

 

Além disso, Genebra se tornou um grande centro missionário, uma verdadeira “escola de missões”, porque os foragidos que lá se instalaram, puderam, posteriormente, levar para os seus países e cidades o Evangelho ali aprendido. “O estabelecimento da Academia foi em parte realizado por causa do desejo de suprir e treinar missionários evangélicos”, informa-nos Mackinnon (1860-1945).[14] Destacamos que, com exceção de Isaías, todos os comentários de Calvino sobre os profetas “consistem em sermões direcionados a alunos em treinamento para o trabalho missionário, principalmente na França”.[15]

 

Como curiosidade cito que a palavra colportor que deriva do francês colporteur, significa “levar no pescoço”. Esse nome está associado ao costume dos colportores valdenses de levar os escritos sagrados debaixo da roupa (“porteur à col”) presos por uma correia em forma de alça que passa pelo pescoço.

 

Maringá, 3 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 *Leia esta série completa aqui.

 


[1] Como curiosidade menciono que no Brasil, a primeira escola para moças foi aberta no Rio de Janeiro, capital no Império, em 1816. (Vejam-se:   Laurence Hallewell, O Livro no Brasil: sua história.  São  Paulo: T.A. Queiroz; EDUSP., 1985, p. 87; Luiz  Agassiz; Elizabeth C. Agassiz, Viagem ao Brasil: 1865-1866,  Belo Horizonte, MG.: Itatiaia; Editora da Universidade de São Paulo, 1975, p. 292-293).

[2] John T. McNeill, The History and Character of Calvinism, p. 135. Inter alia: Charles Borgeaud, Histoire l’Université de Genève, Genève: Georg & Cº, Libraires de L’Université, 1900, p. 16-18; Lorenzo Luzuriaga, História da Educação Pública, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959, p. 1, 5-6; Elmer L. Towns, John Calvin. In: Elmer L. Towns, ed.  A History of Religious Educators, Michigan: Baker Book House, 1985, p. 168-169; Philip Schaff, History of the Christian Church, v. 8, p. 804.

[3]Eugène Choisy,  L’ État Chrétien Calviniste: Genève au XVIme  siècle, Genève: Librairie Georg & Cia. 1909, p. 9.

[4]Ford L. Battles, Interpreting John Calvin, p. 61-62; John T. McNeill, The History and Character of Calvinism, p. 192; Robert W. Pazmiño, Temas Fundamentais da Educação Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 149.

[5]Calvino pessoalmente chegou a sair pedindo donativos de casa em casa para a escola. Veja-se: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 192-193.

[6]J. Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 3.1), p. 82.  Em carta ao Rei Eduardo VI da Inglaterra (janeiro de 1551), na qual ele o instrui quanto ao uso devido das bolsas acadêmicas nas universidades, Calvino diz que “uma vez que as escolas contêm as sementes do ministério, é extremamente necessário conservá-las puras e totalmente livres de toda espécie de erva daninha”. À frente diz que as escolas devem ser pilares do Evangelho. (João Calvino, Cartas de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p.  88,89).

[7]Gabriel Compayré, Histoire Critique des Doctrines de L’Éducation en France Depuis le Seizième Siècle, 2. ed. Paris: Librairie Hachette Et Cie. 1880, v. 1, p. 149.

[8]Charles Borgeaud, Histoire  l’Université de Genève,  p. 64-68; 638; Gabriel Compayré, Histoire Critique des Doctrines de L’Éducation en France Depuis le Seizième Siècle,  v. 1, p. 149; W. Stanford Reid, Calvin and the Founding of the Academy of Geneva: In: Westminster Theological Journal, 18, (1955), p. 10.

[9] Charles Borgeaud, Histoire l’Université de Genève, p. 79.

[10] Elmer L. Towns, John Calvin. In: Elmer L. Towns, ed.  A History of Religious Educators, p. 170.

[11]Vejam-se: Philip Schaff, History of the Christian Church, v. 8, p. 805; Ronald S. Wallace, Calvino, Genebra e a Reforma, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003, p. 88; Gerald L. Gutek, Historical and Philosophical Foundations of Education: A Biographical Introduction, 3. ed, Columbus, Ohio: Merril Prentice Hall, 2001, p. 92.

[12] João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, v.  1,  I.24. p. 74. Ver também: Heber Carlos de Campos, A “Filosofia Educacional” de Calvino e a Fundação da Academia de Genebra. In: Fides Reformata, 5/1 (2000) 41-56, p. 51.

[13] Charles Borgeaud, Histoire l’Université de Genève,  p. 83.

[14] James MacKinnon, Calvin and the Reformation, Londres: Penguin Books, 1936, p. 195.

[15] T.H.L. Parker em Prefácio à Versão Inglesa do Comentário de Daniel (João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, p. 13).

2 comentários em “Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (67)”

  1. Acredito que o tema proposto pelo título e sua fiel exposição histórica sempre muito bem embasada é de um valor muito grande para todo aquele que deseja continuar desenvolvendo o aprendizado com excelência.

    Obrigado professor, reverendo , amigo e irmão. Que Deus continue te usando a cada dia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *