Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (69) – Final

Considerações finais

 

O que sei é que ninguém conseguiu discorrer contra esta predestinação, que defendemos de acordo com as santas Escrituras, a não ser incorrendo em erro – Agostinho.[1]

 

Jamais haveremos de ser claramente persuadidos, como convém, que nossa salvação flui da fonte da graciosa misericórdia de Deus, até que se nos haja feito conhecida sua eterna eleição, que, mercê deste contraste, ilumina a graça de Deus: que à esperança da salvação não adota Ele a todos indiscriminadamente; pelo contrário, dá a uns o que nega a outros. – João Calvino.[2]

 

A realidade pertence a Deus, quem a criou, e lhe confere sentido. Quando, então nos referimos ao conhecimento que podemos ter do próprio Deus, do seu caráter e majestade, temos de reafirmar a verdade bíblica de que esse conhecimento provém do próprio Deus.

 

Portanto, Deus só pode ser conhecido por Ele mesmo. Daí a necessidade de revelação para que possamos conhecê-lo, e nos relacionarmos com Ele.[3] Deus em sua integridade se revela verdadeiramente como é em sua natureza essencial.[4] Este conhecimento resultante da graça é único, singular e pessoal.[5]

 

No entanto, não é demais enfatizar que o nosso conhecimento a respeito de Deus é um “conhecimento-de-servo” delimitado pelo próprio Senhor, considerando, inclusive, o pecado humano.

 

Em outras palavras, citando Frame: “É um conhecimento acerca de Deus como Senhor, e um conhecimento que está sujeito a Deus como Senhor”.[6]

 

O nosso conhecimento nunca é autorreferente com validade própria e por iniciativa nossa.[7] “Visto que somos seres finitos e não podemos enxergar o todo da realidade de uma vez, nossa perspectiva da realidade é necessariamente limitada por nossa finitude”.[8]

 

Como temos insistido, poder conhecer a Deus é sempre uma iniciativa da graça divina. O nosso conhecimento é um ato de fé, e esta é procedente da graça[9] que se manifesta no fato de Deus se revelar e de nos possibilitar conhecer. Mais: nunca somos ou seremos o padrão de verdade. Os nossos pensamentos e as nossas supostas experiências concretas não têm poder autorreferentes, antes, precisam sempre ser validados pela Palavra, que é a verdade (Jo 17.17).

 

Só pensamos verdadeiramente quando pensamos à luz da Palavra. Por isso, é que conhecer a Deus é algo singular porque somente Deus é soberano e, somente a partir dele podemos conhecê-lo. E tudo isso, por meio de Jesus Cristo, o Deus encarnado,[10] a revelação pessoal de Deus.[11]

 

Conhecer a Deus em sua soberania, portanto, é um dom da graça do soberano Deus. Este conhecimento, por sua vez, nos liberta para que possamos conhecer a nós mesmos e as demais coisas da realidade.[12] Somente a partir de um genuíno conhecimento de Deus poderemos nos conhecer verdadeiramente bem como toda a realidade. O conhecimento de Deus possibilita-nos enxergar a realidade em suas múltiplas facetas com os seus valores próprios conferidos pelo próprio Deus que a sustenta. A verdade nos liberta (Jo 8.32).

 

O homem é um ser paradoxal. Isso se evidencia no fato de sustentarmos posições diferentes e, até mesmo excludentes sobre o mesmo assunto. Isso em geral, depende das circunstâncias que, com frequência são de caráter passional.  Na realidade, tendemos a ser mais subjetivos do que imaginamos ou estaríamos dispostos a admitir.

 

Uma doutrina que facilmente é objeto de posicionamentos contraditórios é a soberania de Deus.[13] Gostamos de alardear a nossa liberdade, a nossa capacidade de escolha e persuasão. Quando assim fazemos, falar em soberania de Deus parece diminuir um pouco a nossa autoconfiança e suposta autonomia; portanto, consideramos ser melhor deixá-la guardada em alguma gaveta para onde empurramos os papéis que não estão sendo utilizados e não sabemos bem o que fazer com eles.

 

No entanto, quando nos vemos sem recursos, sem perspectivas favoráveis, sem saber o que fazer, podemos, sem talvez nos darmos conta, nos contentar com uma fé singela no cuidado de Deus e, podemos então dizer para nós mesmos: “Deus é soberano, Ele sabe o que faz”; “nada acontece por acaso…”.

 

A bem da verdade, nós mesmos, crentes em Cristo, com certa frequência tendemos a adotar atitude semelhante. Calvino (1509-1564) capta bem isso ao dizer: “Mesmo os santos precisam sentir-se ameaçados por um total colapso das forças humanas, a fim de aprenderem, de suas próprias fraquezas, a depender inteira e unicamente de Deus”.[14]

 

Parece que esta é uma das doutrinas mais repudiadas pelo homem natural e, ao mesmo tempo, é a doutrina mais consoladora para todos nós que cremos em Cristo Jesus.

 

No Antigo Testamento os judeus insensíveis aos seus próprios pecados, tomaram o aparente silêncio de Deus como uma aprovação tácita de seus erros, projetando em Deus o seu comportamento. Considerando que eles mesmos procediam deste modo, pensavam que Deus fosse igual a eles. No entanto, Deus, no momento próprio, exporia diante deles os seus delitos: “Tens feito estas coisas, e eu me calei; pensavas que eu era teu igual; mas eu te arguirei e porei tudo à tua vista” (Sl 50.21). Calvino diz que o homem pretende usurpar o lugar de Deus: “Cada um faz de si mesmo um deus e virtualmente se adora, quando atribui a seu próprio poder o que Deus declara pertencer-lhe exclusivamente”.[15]

 

De fato, os homens estão dispostos a reconhecer espontaneamente diversas virtudes em Deus: o seu amor, sua graça, bondade, perdão, tolerância, provisão etc. Agora, a sua soberania, jamais.[16] Pink (1886-1952) entende que “negar a soberania de Deus é entrar em um caminho que, seguindo até à sua conclusão lógica, leva a manifesto ateísmo”.[17]

 

A nossa dificuldade está em reconhecer a Deus como o Senhor que reina. Aquele que é o criador e mantenedor de toda a realidade, em quem somente existe autoridade absoluta em sua essência e decisões.[18]

 

A Palavra, por sua vez, nos desafia a aprender com Ela a respeito de Deus. O nosso Deus, entre tantas perfeições, é o Deus soberano. Sem este atributo, Deus não seria Deus: “Verdadeiramente reconhecer a soberania de Deus é, portanto, contemplar o próprio Deus soberano”.[19] No entanto, Jó demonstra a dificuldade de nossa compreensão, ao indagar: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos! Que leve sussurro temos ouvido dele! Mas o trovão do seu poder, quem o entenderá?” (Jó 26.14).

 

Aplicando este princípio à doutrina da eleição, podemos dizer como Calvino: “Quando Deus seleciona dentre toda a raça humana um pequeno número ao qual abraça com Seu paternal amor, esta é uma inestimável bênção que Ele derrama sobre eles”.[20]

 

Portanto, a doutrina da eleição quando estudada dentro de uma perspectiva bíblica, com o coração desejoso de ouvir a voz de Deus, configura-se como um meio eficaz para o nosso fortalecimento na fé,[21] na certeza de que, apesar de nossas fraquezas, das nossas deficiências, Deus nos elegeu antes dos tempos eternos e nos confirmará até o fim em santidade. A nossa eleição repousa na promessa de Deus; e isto nos basta. Por isso, encontramos nesta doutrina “excelente fruto de consolação”.[22]

 

Quero concluir estas anotações, com as estimulantes e confortadoras palavras de algumas Confissões ao tratar sobre esta doutrina:

 

A todos os que sinceramente obedecem ao Evangelho, esta doutrina fornece motivo de louvor, reverência e admiração para com Deus, bem como de humildade, diligência e abundante consolação.[23]

Do sentimento interno e da certeza desta eleição tem os filhos de Deus maior motivo para humilhar-se diante dEle, adorar a profundidade da Sua misericórdia, purificar-se a si mesmos, e por sua parte amar-Lhe ardentemente, que de modo tão eminente lhes amou primeiro.[24]

A piedosa meditação da Predestinação e da nossa eleição em Cristo, está cheia de um suavíssimo, doce e inexplicável conforto para os piedosos, e aos que sentem em si mesmos a operação do Espírito de Cristo.[25]

 

            Exercitemos e colhamos, pois, os doces e suaves frutos deste ensino bíblico. Que Deus nos ajude a viver, por graça, em louvor, testemunho e alegre consolo desse inefável e misericordioso privilégio. A Deus toda glória. Amém!

 

São Paulo, 04 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] S. Agostinho, A Graça (II), São Paulo: Paulus, 1999, p. 265.

[2] João Calvino, As Institutas, III.21.1.

[3]Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Prolegômena, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 287ss.

[4] “Deus se revela como ele verdadeiramente é. Seus atributos revelados verdadeiramente revelam sua natureza” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 98).

[5] “Conhecer a Deus é uma coisa completamente única, singular, visto que Deus é único, é singular” (John M. Frame, A Doutrina do conhecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 25).

[6]John M. Frame, A Doutrina do conhecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 56.

[7]A respeito de um comportamento oposto, escreveu Lloyd-Jones: “Não há maior obra-prima do diabo do que seu sucesso em persuadir as pessoas de que é seu conhecimento superior que as leva a rejeitar o cristianismo. Mas exatamente o oposto é que é verdadeiro. O diabo as mantém na ignorância porque, enquanto permanecerem nela, elas farão o que ele manda. A partir do momento em que recebem a luz – o evangelho é chamado de ‘luz’ – elas veem o diabo e o abandonam” (David Martyn Lloyd-Jones, Uma Nação sob a Ira de Deus: estudos em Isaías 5, 2. ed. Rio de Janeiro: Textus, 2004, p. 68).

[8]Norman Geisler; Peter Bocchino, Fundamentos Inabaláveis: resposta aos maiores questionamentos contemporâneos sobre a fé cristã, São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 50.

[9] “Todo conhecimento é fé” (Gordon H. Clark, Uma visão cristã dos Homens e do Mundo, Brasília, DF.: Monergismo, 2013, p. 305).

[10] “Toda nossa luz e conhecimento consistem (…) em conhecer a Deus na pessoa de seu Filho unigênito. Com isso, digo eu, é que devemos nos contentar” (João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 146-147).

[11] “A plenitude do ser de Deus é revelada nEle. Ele não apenas nos apresenta o Pai e nos revela Seu nome, mas Ele nos mostra o Pai em Si mesmo e nos dá o Pai. Cristo é a expressão de Deus e a dádiva de Deus. Ele é Deus revelado a Si mesmo e Deus compartilhado a Si mesmo, e portanto Ele é cheio de verdade e também cheio de Graça” (Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 25-26). Veja-se: Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 167.

[12] Veja-se: Hermisten M.P. Costa, A Soberania de Deus e a responsabilidade humana, Goiânia, GO.: Editora Cruz, 2016.

[13]Para um estudo mais abrangente desse tema, veja-se: Hermisten M.P. Costa, A Soberania de Deus e a responsabilidade humana, Goiânia, GO.: Editora Cruz, 2016.

[14] João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 1.8), p. 22.

[15] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 100.1-3), p. 549. Veja-se também: João Calvino, Instrução na Fé, Goiânia, GO: Logos Editora, 2003, Caps. 1-3, p. 11-14.

[16]Kennedy diz precisamente isso: “O motivo por que tantas pessoas se opõem a essa doutrina [predestinação] é que elas querem um Deus que seja qualquer coisa, menos Deus. Talvez permitam-lhe ser algum psiquiatra cósmico, um pastor prestativo, um líder, um mestre, qualquer coisa, talvez… contanto que Ele não seja Deus. E isso por uma razão muito simples… elas mesmas querem ser Deus. Essa sempre foi a essência do pecado – o fato que o homem pretende ser Deus” (James Kennedy, Verdades que transformam, São Paulo: Editora Fiel, 1981, p. 31).

[17] A.W. Pink, Deus é Soberano, Atibaia, SP.: Editora Fiel, 1977, p. 21. Em outro lugar: “Os idólatras do lado de fora da cristandade fazem ‘deuses’ de madeira e de pedra, enquanto que os milhões de idólatras que existem dentro da cristandade fabricam um Deus extraído de suas mentes carnais. Na realidade, não passam de ateus, pois não existe alternativa possível senão a de um Deus absolutamente supremo, ou nenhum deus” (A.W. Pink, Os Atributos de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985, p. 28). “Defender a crença num ‘poder do alto’ nebuloso é balançar entre o ateísmo e um cristianismo total com suas exigências pessoais” (R.C. Sproul, Razão para Crer, São Paulo: Mundo Cristão, 1986, p. 48).

[18] Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 235.

[19] A.W. Pink, Deus é Soberano, p. 138.

[20] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 48.1), p. 352.

[21] Veja-se: João Calvino, As Institutas, III.24.9.

[22] João Calvino, As Institutas, III.24.4.

[23]Confissão de Westminster, III.6.

[24]Cânones de Dort, I.13.

[25]Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra, Capítulo XVII.

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (68)

A estrutura do pensamento de Calvino tornou-se uma força motriz poderosa para o trabalho missionário.[1] Acontece que o envio de missionários para outras cidades e países era uma questão delicada para a qual a Companhia de Pastores manteve, enquanto pôde, sigilo absoluto até mesmo do Conselho Municipal.[2] Os nomes dos missionários eram em geral mantidos no anonimato. A primeira vez[3] que tais nomes são mencionados na Companhia de Pastores de Genebra foi em 22 de abril de 1555, Jehan Vernoul e Jehan Lauvergeat, enviados para as igrejas dos vales de Piemonte e Jacques Langlois  Tours, Lausanne e Lyon, onde seria martirizado em 1572.[4]

 

Outro exemplo: o envio de dois ministros para a missão no Brasil, em resposta ao apelo de Villegagnon,[5] é descrita de forma sumaríssima: O registro simplesmente menciona (25/08/1556) que Pierre Richier († 1580)[6] e M.  Guillaume Charretier (Chartier)[7] foram enviados.[8] A própria correspondência que vinha dos franceses no Brasil para Calvino, recorria a algum de seus pseudônimos.[9]

 

Genebra se tornou um grande centro missionário, irradiando pelo mundo a sua teologia e o seu ardor evangelístico.[10] Em 1567, Genebra já tinha enviado mais de 120 missionários para França que atuavam de forma “clandestina” por causa das perseguições.[11]

 

Muitos dos alunos de Genebra quando voltavam para seus países, com o coração em chamas, levavam consigo a Palavra, esforçando-se por difundir o Evangelho consistentemente visto em Genebra. A perseguição e o martírio faziam parte involuntários deste nobre ideário. Contudo, vezes sem conta, este era o preço. Lawson diz que devido a isso, a Academia de Genebra ficou conhecida como a “Escola da Morte, de Calvino”.[12]

 

A proclamação do Evangelho objetiva glorificar a Deus. Escreve Calvino: “O nome de Deus nunca é melhor celebrado do que quando a verdadeira religião é extensamente propagada e quando a Igreja cresce, a qual por essa conta é chamada ‘plantações do Senhor, para que Ele seja glorificado’ [Is 61.3]”.[13]

 

Este objetivo da Academia faz jus à compreensão missionária de Calvino. Considerando que o reino de Deus envolve todos os povos – Jesus Cristo não foi enviado apenas aos judeus[14] –, a mensagem do Evangelho deve ser anunciada a todos.

 

Comentando 1Tm 2.4, afirma: “…. nenhuma nação da terra e nenhuma classe social são excluídas da salvação, visto que Deus quer oferecer o Evangelho a todos sem exceção”.[15] À frente: “Aqueles que se encontram sob o governo do mesmo Deus não são excluídos para sempre da esperança de salvação”.[16] Por isso, “O Senhor ordena aos ministros do Evangelho (que preguem) em lugares distantes, com o propósito de espalhar a doutrina da salvação em cada parte do mundo”.[17]

 

Analisando uma das implicações da petição “venha o Teu Reino”, comenta: “Portanto, nós oramos pedindo que venha o reino de Deus; quer dizer, que todos os dias e cada vez mais o Senhor aumente o número dos Seus súditos e dos que nele creem”.[18]

 

Em outro lugar, acrescenta: “Não existe outra forma de edificar a igreja de Deus senão pela luz da Palavra, em que o próprio Deus, por sua própria voz, aponta o caminho da salvação. Até que a verdade brilhe, os homens não podem se unir juntos, na forma de uma verdadeira Igreja”.[19]

 

Comentando o Salmo 96, Calvino sustenta que:

 

O salmista está exortando o mundo inteiro, e não apenas os israelitas, ao exercício da devoção. Isso não poderia ser efetuado, a menos que o evangelho fosse universalmente difundido como meio de comunicar conhecimento de Deus. (…) O salmista notifica, consequentemente, que o tempo viria quando Deus erigiria seu reino no mundo de uma maneira totalmente imprevista. Ele notifica ainda mais claramente como ele procede, ou, seja: que todas as nações partilhariam do favor divino. Ele convoca a todos a anunciarem sua salvação e, desejando que a celebrassem dia após dia, insinua que ela não era de uma natureza transitória ou evanescente, mas que duraria para sempre.[20]

 

Prudência recomendada:

 

Se alguém assim se dirige ao povo: “Se não credes é porque Deus já os há predestinado à condenação”, esse não somente alimentaria a negligência como também a malícia. Se alguém também para com o tempo futuro estenda a asserção de que não hajam de crer os que ouvem, porquanto hão sido condenados, isto seria mais maldizer do que ensinar. (…) Como nós não sabemos quem são os que pertencem ou deixam de pertencer ao número e companhia dos predestinados, devemos ter tal afeto, que desejemos que todos se salvem; e assim, procuraremos fazer a todos aqueles que encontrarmos, sejam participantes de nossa paz (…). Quanto a nós concerne, deverá ser a todos aplicada, à semelhança de um remédio, salutar e severa correção, para que não pereçam eles próprios, ou a outros não percam. A Deus, porém, pertencerá fazê-la eficaz àqueles a Quem preconheceu e predestinou”.[21]

 

Deste modo, a doutrina da eleição longe de ser um obstáculo à evangelização, é na realidade um estímulo vital e consolador.[22] Esta doutrina ainda que nem sempre tenha sido vista por este ângulo; tendo inclusive alguns tentado justificar a sua inércia partindo de uma interpretação racionalizada, a verdade é que o zelo missionário de Calvino tem muito a ver com este ensinamento da Escritura. A doutrina da predestinação não tornou a evangelização desnecessária; antes, a torna fundamental, já que é por meio do Evangelho que Deus chama o seu povo.

 

Devemos trabalhar com urgência dentro da esfera que nos foi confiada por Deus. O que não nos pertence deixemos onde está de modo firme e seguro: sob os cuidados de Deus.

 

O nosso trabalho deve ser feito com total confiança em Deus, sabendo que cabe a Ele converter o coração do homem e, que a rejeição do Evangelho neste momento não implica necessariamente na rejeição absoluta. Esta convicção nos estimula a trabalhar com fervor e alegre perseverança:

 

Visto que a conversão de uma pessoa está nas mãos de Deus, quem sabe se aqueles que hoje parecem empedernidos subitamente não sejam transformados pelo poder de Deus em pessoas diferentes? E assim, ao recordarmos que o arrependimento é dom e obra de Deus, acalentaremos esperança mais viva e, encorajados por essa certeza, aceleraremos nosso labor e cuidaremos da instrução dos rebeldes. Devemos encará-lo da seguinte forma: é nosso dever semear e regar e, enquanto o fazemos, devemos esperar que Deus dê o crescimento (1Co 3.6). Portanto, nossos esforços e labores são por si sós infrutíferos; e no entanto, pela graça de Deus, não são infrutíferos.[23]

 

A nossa responsabilidade é clara na concepção do reformador: “É nosso dever proclamar a bondade de Deus a toda nação”.[24]

 

A Academia tornou-se grandemente respeitada em toda a Europa.  O grau concedido aos seus alunos era amplamente aceito e considerado em universidades de países protestantes como, por exemplo, na Holanda. O historiador católico Marc Venard, (1929-2014) comenta que a Academia “será daí em diante um viveiro de pastores para toda a Europa reformada”.[25] A Academia contribuiu em grandes proporções para fazer de Genebra “um dos faróis do Ocidente” admite o católico Daniel-Rops (1901-1965).[26]  A formação dada em Genebra era intelectual e espiritual; os alunos participavam dos cultos das quartas-feiras bem como em todos os três cultos prestados a Deus no domingo.[27] Um escritor referiu-se a Genebra deste modo: “Deus fez de Genebra Sua Belém, isto é, Sua casa do pão”.[28]

 

Gaffarel (1843-1920) em notícia bibliográfica à edição francesa da obra do missionário Jean de Léry (1534-1611), escreveu com clareza em 1878:

 

Da França, da Itália, da Inglaterra, da Espanha e até da Polônia acorreram inúmeros prosélitos. Genebra tornou-se a cidadela do protestantismo e foi nessa fonte ardente, de fé e eloquência que ardorosos missionários vieram buscar sua inspiração, a fim de espalhar em seguida, mundo afora, a doutrina e as ideias do mestre.[29]

 

Sem dúvida, entre os Reformadores, Calvino foi quem mais amplamente compreendeu a abrangência das implicações do Evangelho, nas diversas facetas da vida humana,[30] entendendo que “o Evangelho não é uma doutrina de língua, senão de vida. Não pode assimilar-se somente por meio da razão e da memória, senão que chega a compreender-se de forma total quando ele possui toda a alma, e penetra no mais íntimo recesso do coração”.[31]

 

Cabe a nós, portanto, pregar o Evangelho com sinceridade, de forma inteligente, com amor e entusiasmo. Quanto aos resultados, estes pertencem a Deus, escapam da nossa esfera de ação.[32]

 

 

São Paulo, 04 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] S.L. Morris, The relation of Calvin and Calvinism to Missions: In: R.E. Magill, ed., Calvin Memorial Addresses, Richimond VA.: Presbyterian Committee of Publication, 1909, p. 133.

[2] Vejam-se detalhes em Alister E. McGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 211-213.

[3] Cf. Alister E. McGrath, A Vida de João Calvino, p. 211.

[4] Robert-M. Kingdon; J.F. Bergier, Registres de La Compagnie des Pasteurs de Genève au Temps de Calvin, Tome II, 1553-1564, Genève: Librairie E. Droz, 1962, p. 62-63.

[5] Cf. Jean de Léry, Viagem à Terra do Brasil, 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, (1960), p. 51-52. Léry narra que “Ao receber as suas cartas e ouvir as notícias trazidas, a igreja de Genebra rendeu antes de mais nada graças ao Eterno pela dilatação do reino de Jesus Cristo em país tão longínquo, em terra estranha e entre um povo que ignorava inteiramente o verdadeiro Deus” (p. 51).

[6] Antes de aderir ao protestantismo era monge carmelita e doutor em teologia. Calvino achava que ele tinha algum problema no cérebro (Carta a Farel de 14/02/1558). Carta 2814. In: Herman J. Selderhuis, ed., Calvini Opera Database 1.0, Netherlands: Instituut voor Reformatieonderzoek, 2005, v. 17).

[7] Posteriormente Calvino demonstrou ter dúvida quanto à integridade de Chartier (Carta a Macarius de 15/03/1558). Carta 2833. In: Herman J. Selderhuis, ed., Calvini Opera Database 1.0, Netherlands: Instituut voor Reformatieonderzoek, 2005, v. 17). Macarius (pastor Jean Macard), no entanto, depois de investigar, atesta a fidelidade de Chartier (Cartas de Macarius a Calvino de 21/03/1558 e 27/03/1558). Cartas 2838 e 2841. In: Herman J. Selderhuis, ed., Calvini Opera Database 1.0, Netherlands: Instituut voor Reformatieonderzoek, 2005, v. 17).

[8] Robert-M. Kingdon; J.F. Bergier, Registres de La Compagnie des Pasteurs de Genève au Temps de Calvin, Tome II, 1553-1564, Genève: Librairie E. Droz, 1962, p. 68.

[9]Veja-se: Frans L. Schalkwijk, O Brasil na Correspondência de Calvino: In: Fides Reformata, São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, IX/1 (2004) 101-128. Vejam-se também as explicações a respeito dos pseudônimos e fac-símiles das respectivas assinaturas in: Emile Doumergue, Jean Calvin: Les hommes et les choses de son temps, Lausanne: Georges Bridel & Cie Editerurs, 1899, v. 1, p. 558-573 (Apêndice nº VIII).

[10]Veja-se: Philip E. Hughes, John Calvin: Director of Missions: In: John H. Bratt., org. The Heritage of John Calvin, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1973, p. 44-45.

[11] Cf. Carl Lindberg, As Reformas na Europa, São Leopoldo, RS.: Sinodal, 2001, p. 337.

[12]Steven J. Lawson, A Arte Expositiva de João Calvino, São José dos Campos, SP.: Fiel, © 2008, 2010, p. 26.

[13] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Edições Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 102.21), p. 581.

[14] Cf. John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 7, (Is 2.4), p. 99. Do mesmo modo: John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), (Mq 4.3), p. 101.

[15]João Calvino, As Pastorais, (1Tm 2.4), p. 60. Ver também: John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. XII, (Ez 18.23), p. 246-249.

[16] João Calvino, As Pastorais, (1Tm 2.5), p. 62.

[17]John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. XVII, (Mt 28.19), p. 384.

[18]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 124.

[19] Ver: John Calvin, Commentary on the Prophet Micah. In: John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), (Mq 4.1-2), p. 101.

[20] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 96.1), p. 514-515.

[21] João Calvino, As Institutas, III.23.14. Do mesmo modo assevera Packer: “Até onde os cristãos saibam, os reprovados não têm face, não nos cabendo tentar identificá-los. Devemos, antes, viver à luz da certeza de que qualquer um pode ser salvo, se ele ou ela arrepender-se e colocar sua fé em Cristo.

“Devemos ver todas as pessoas que encontramos como possivelmente incluídas entre os eleitos” (Eleição: In: J.I. Packer, Teologia Concisa: Síntese dos Fundamentos Históricos da Fé Cristã, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 142).

[22]Veja-se: Hermisten M.P. Costa, Breve Teologia da Evangelização, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996. O conceituado teólogo batista Millard Erickson, conclui: “A predestinação não anula o incentivo para a evangelização e as missões. Não sabemos quem são os eleitos e os não eleitos, portanto, precisamos continuar a divulgar a Palavra. Nossos esforços evangelísticos são os meios que Deus usa para levar a salvação aos eleitos. A ordenação de Deus para o fim também inclui a ordenação dos meios para atingir tal fim. O conhecimento de que as missões são o meio de Deus é uma forte motivação para o empenho e nos dá confiança de que será bem-sucedido” (Millard J. Erickson, Introdução à Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 390).

[23]João Calvino, As Pastorais, (2Tm 2.25), p. 246-247.

[24]John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 7, (Is 12.5), p. 403.

[25] Marc Venard, O Concílio Lateranense V e o Tridentino. In: Giuseppe Alberigo org. História dos Concílios Ecumênicos, São Paulo: Paulus, 1995, p. 339. Do mesmo modo escreve Willemart: “Genebra torna-se o centro de formação dos pastores que serão enviados para todas as comunidades francesas e que permitirão a unidade da Igreja Evangélica Reformada” (Philippe Willemart, A Idade Média e a Renascença na literatura francesa, São Paulo: Annablume, 2000, p. 42).

[26]Daniel-Rops, A Igreja da Renascença e da Reforma: I. A reforma protestante, São Paulo: Quadrante, 1996, p. 414.

[27]Cf. Charles W. Baird, A Liturgia Reformada: Ensaio histórico, Santa Bárbara D’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 29.

[28] Apud Charles W. Baird, A Liturgia Reformada: Ensaio histórico, p. 30.

[29] Paul Gaffarel, Notícias Biográficas: In: Jean de Léry, Viagem à terra do Brasil, 2. ed. São Paulo: Livraria Martins Fontes, (1951), p. 11.

[30] Veja-se: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 28; Wilson C. Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1985, p. 188-189.

[31]John Calvin, Golden Booklet of the True Christian Life, 6. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1977, p. 17. Do mesmo modo, ver: João Calvino, As Pastorais, (Fm 6), p. 368.

[32] Vejam-se: J. Calvino, As Institutas, II.5.5,7; III.24.2,15.

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (67)

Calvino, em diversas partes de seus escritos demonstrou a compreensão de que o Evangelho deveria ser pregado a todos. Analisemos um pouco de sua obra em Genebra (1536-1538; 1541-1564).

 

Para Calvino, cosmovisão é um compromisso de fé e prática. Por isso, o seu trabalho em Genebra consistiu na aplicação de sua fé às condições concretas de sua existência. A fé é chamada a se materializar nos desafios que se configuram diante de nós em nossa história de vida.

 

Calvino que estudara em universidades de renome na França, tendo como mestres alguns dos grandes professores de sua época, conhecia bem a dureza estrutura e rotina universitária. Antes de ser um teólogo ele fora um humanista. A sua filosofia de ensino reflete a sua apurada formação e maturidade intelectual dentro de um referencial que partia das Escrituras tendo a soberania de Deus como princípio orientador e a glória de Deus como fim de todas as coisas, inclusive de nosso saber.

 

Já na sua primeira permanência em Genebra (1536-1538) insistiu junto aos Conselhos para melhorar  as  próprias  condições do ensino, bem como os recursos das  escolas. Ele apresentou ao conselho municipal um projeto educacional (1536) gratuito que se destinava a todas as crianças – meninos e meninas[1] –, tendo um grande apoio público.  Desta proposta surgiu o Collège de Rive. Temos aqui o surgimento da primeira escola primária, gratuita e obrigatória de toda a Europa:[2] “Popular, gratuita e obrigatória”.[3] No entanto o Collège de Rive encerrou suas atividades durante o período de Calvino em Estrasburgo (1538-1541), sendo reativado com a sua volta definitiva para Genebra (1541).[4]

 

A partir de 1541, com todas as lutas que enfrentou em Genebra, pôde, contudo, reestruturar o sistema educacional desta cidade. Visto que o Estado estava empobrecido, apelou para doações e legados.[5]

 

Fiel ao seu princípio de que “as escolas teológicas [são] berçários de pastores”,[6] Calvino, que havia trabalhado com Johannes Sturm (1507-1589) em Estrasburgo (1538-1541), criou uma Academia em Genebra (Schola Privata e a Schola Publica) tendo o culto inaugural em 5/6/1559 no templo de Saint-Pierre. Como diz Compayré, a Academia teve uma origem modesta.[7] Calvino, no entanto, esforçou-se por constituir um corpo docente competente, sendo ajudado neste propósito por um incidente político. Alguns ministros de Lausanne que em 1558 haviam protestado contra a proposição de Berna a respeito da autoridade secular foram depostos em janeiro de 1559, vindo para Genebra. No entanto, a Academia no seu início teve apenas cinco professores: João Calvino e Theodore Beza (1519-1605) que revezavam no ensino de Teologia; Antoine-Raoul Chevalier ou Le Chevalier (1507-1572), professor de Hebraico, François Bérauld, professor de Grego e Jean Tagaut († 1560), professor de Artes (Filosofia).[8]

 

A base da formação educacional em Genebra era a Bíblia. Competia à família (apesar de suas limitações iniciais) e ao Estado o cuidado com a educação. No entanto, a igreja tinha um papel especialíssimo. Os pastores eram responsáveis pelo ensino nas escolas elementares e nos colégios.

 

Calvino não concebia a Academia distante da igreja, antes, sustentava dois princípios fundamentais: a unidade da Academia e a união íntima da Academia com a Igreja.[9] Com este propósito, todos os professores estavam sob a jurisdição disciplinar da igreja devendo subscrever a Confissão de Fé adotada.[10]

 

O currículo incluía disciplinas tais como: Teologia, Hebraico, Grego, Filosofia, Matemática e Retórica. Entre outros, eram estudados autores gregos e latinos, como: Heródoto, Xenofonte, Homero, Demóstenes, Plutarco, Platão, Cícero, Virgílio e Ovídio.[11] NAs Institutas, escreveu: “Admito que a leitura de Demóstenes ou Cícero, de Platão ou Aristóteles, ou de qualquer outro da classe deles, nos atrai maravilhosamente, nos deleita e nos comove ao ponto de nos arrebatar”.[12]

 

Com o estabelecimento da Academia, o historiador Charles Borgeaud (1861-1941), antigo professor da Universidade de Genebra, disse que “Esta foi a primeira fortaleza da liberdade nos tempos modernos”.[13]

 

Além disso, Genebra se tornou um grande centro missionário, uma verdadeira “escola de missões”, porque os foragidos que lá se instalaram, puderam, posteriormente, levar para os seus países e cidades o Evangelho ali aprendido. “O estabelecimento da Academia foi em parte realizado por causa do desejo de suprir e treinar missionários evangélicos”, informa-nos Mackinnon (1860-1945).[14] Destacamos que, com exceção de Isaías, todos os comentários de Calvino sobre os profetas “consistem em sermões direcionados a alunos em treinamento para o trabalho missionário, principalmente na França”.[15]

 

Como curiosidade cito que a palavra colportor que deriva do francês colporteur, significa “levar no pescoço”. Esse nome está associado ao costume dos colportores valdenses de levar os escritos sagrados debaixo da roupa (“porteur à col”) presos por uma correia em forma de alça que passa pelo pescoço.

 

Maringá, 3 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 *Leia esta série completa aqui.

 


[1] Como curiosidade menciono que no Brasil, a primeira escola para moças foi aberta no Rio de Janeiro, capital no Império, em 1816. (Vejam-se:   Laurence Hallewell, O Livro no Brasil: sua história.  São  Paulo: T.A. Queiroz; EDUSP., 1985, p. 87; Luiz  Agassiz; Elizabeth C. Agassiz, Viagem ao Brasil: 1865-1866,  Belo Horizonte, MG.: Itatiaia; Editora da Universidade de São Paulo, 1975, p. 292-293).

[2] John T. McNeill, The History and Character of Calvinism, p. 135. Inter alia: Charles Borgeaud, Histoire l’Université de Genève, Genève: Georg & Cº, Libraires de L’Université, 1900, p. 16-18; Lorenzo Luzuriaga, História da Educação Pública, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959, p. 1, 5-6; Elmer L. Towns, John Calvin. In: Elmer L. Towns, ed.  A History of Religious Educators, Michigan: Baker Book House, 1985, p. 168-169; Philip Schaff, History of the Christian Church, v. 8, p. 804.

[3]Eugène Choisy,  L’ État Chrétien Calviniste: Genève au XVIme  siècle, Genève: Librairie Georg & Cia. 1909, p. 9.

[4]Ford L. Battles, Interpreting John Calvin, p. 61-62; John T. McNeill, The History and Character of Calvinism, p. 192; Robert W. Pazmiño, Temas Fundamentais da Educação Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 149.

[5]Calvino pessoalmente chegou a sair pedindo donativos de casa em casa para a escola. Veja-se: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 192-193.

[6]J. Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 3.1), p. 82.  Em carta ao Rei Eduardo VI da Inglaterra (janeiro de 1551), na qual ele o instrui quanto ao uso devido das bolsas acadêmicas nas universidades, Calvino diz que “uma vez que as escolas contêm as sementes do ministério, é extremamente necessário conservá-las puras e totalmente livres de toda espécie de erva daninha”. À frente diz que as escolas devem ser pilares do Evangelho. (João Calvino, Cartas de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p.  88,89).

[7]Gabriel Compayré, Histoire Critique des Doctrines de L’Éducation en France Depuis le Seizième Siècle, 2. ed. Paris: Librairie Hachette Et Cie. 1880, v. 1, p. 149.

[8]Charles Borgeaud, Histoire  l’Université de Genève,  p. 64-68; 638; Gabriel Compayré, Histoire Critique des Doctrines de L’Éducation en France Depuis le Seizième Siècle,  v. 1, p. 149; W. Stanford Reid, Calvin and the Founding of the Academy of Geneva: In: Westminster Theological Journal, 18, (1955), p. 10.

[9] Charles Borgeaud, Histoire l’Université de Genève, p. 79.

[10] Elmer L. Towns, John Calvin. In: Elmer L. Towns, ed.  A History of Religious Educators, p. 170.

[11]Vejam-se: Philip Schaff, History of the Christian Church, v. 8, p. 805; Ronald S. Wallace, Calvino, Genebra e a Reforma, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003, p. 88; Gerald L. Gutek, Historical and Philosophical Foundations of Education: A Biographical Introduction, 3. ed, Columbus, Ohio: Merril Prentice Hall, 2001, p. 92.

[12] João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, v.  1,  I.24. p. 74. Ver também: Heber Carlos de Campos, A “Filosofia Educacional” de Calvino e a Fundação da Academia de Genebra. In: Fides Reformata, 5/1 (2000) 41-56, p. 51.

[13] Charles Borgeaud, Histoire l’Université de Genève,  p. 83.

[14] James MacKinnon, Calvin and the Reformation, Londres: Penguin Books, 1936, p. 195.

[15] T.H.L. Parker em Prefácio à Versão Inglesa do Comentário de Daniel (João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, p. 13).

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (66)

11.10. Proclamação[1]

 

Agostinho (354-430) fez algumas indagações pertinentes:

 

Alguns dizem: “A doutrina da predestinação é prejudicial à utilidade da pregação”. Como se fosse contrária à pregação do apóstolo: O Doutor dos Gentios não proclamou tantas vezes a predestinação na fé e na verdade e por acaso desistiu de pregar a Palavra de Deus? (…) Por que julgamos a doutrina da predestinação, que a Escritura divina proclama, como prejudicial à pregação, aos mandamentos, à exortação e à correção, que aparecem tantas vezes na mesma Escritura?[2]

 

De fato, há sempre o perigo de nossa teologia se transformar em um cerceamento das Escrituras, como se pretendêssemos delimitar de forma policiada a Deus, um “velhinho caduco” que já não diz coisa-com-coisa e, por isso, precisa ser atenuado em Sua Revelação.

 

Calvino (1509-1564), comentando Gálatas 4.26, diz:

 

A Igreja enche o mundo todo e é peregrina sobre a terra. (…) Ela tem sua origem na graça celestial. Pois os filhos de Deus nascem, não da carne e do sangue, mas pelo poder do Espírito.

Continua:

 

Eis a razão por que a Igreja é chamada a mãe dos crentes.[3] E, indubitavelmente, aquele que se recusa a ser filho da Igreja debalde deseja ter a Deus como seu Pai. Pois é somente através do ministério da Igreja que Deus gera filhos para si e os educa até que atravessem a adolescência e alcancem a maturidade.[4]

 

A peregrinação da Igreja tem um sentido missionário (“Até os confins da terra”) e escatológico (“Até a consumação do século”): Enquanto ela caminha, confronta os homens com a mensagem do Evangelho, conclamando a todos ao arrependimento e fé em Cristo Jesus até que Ele volte.

 

Deus chama os seus eleitos por meio da pregação da Palavra. “Deus quer que o Evangelho seja proclamado ao mundo todo e em todo o tempo para que seja congregada a soma total dos eleitos”, escreve Kuiper.[5] A Palavra de Deus é sempre um ato criador, por meio da qual Deus chama, convence, transforma e edifica os Seus.

 

Cada um de nós que foi alcançado pela Graça de Deus, tornou-se um instrumento de testemunho da bendita salvação, a fim de que o povo de Deus seja salvo (Rm 10.14-17/At 18.9-11).[6] A Igreja é chamada para fora do mundo a fim de invadir o mundo com a pregação do Evangelho (Mt 5.14-16; Mc 16.15-16; At 1.8; 1Co 9.16).[7] A eleição eterna de Deus, inclui os fins e os meios.[8] Os meios de Deus são infalíveis porque Deus também o é.[9]

 

Nós somos o meio ordinário estabelecido por Deus para que o mundo ouça a mensagem do Evangelho. Jesus Cristo confiou à Igreja a tarefa evangelística. A Igreja, escreve Kuiper, é “o agente por excelência para a evangelização”.[10] Nenhum homem será salvo fora de Cristo; mas para que a salvação ocorra ele tem que conhecer o Evangelho da graça. Como crerão se não houver quem pregue? (Rm 10.13-15). “O evangelismo pelo qual Deus leva os seus eleitos à fé é um elo essencial na corrente dos propósitos divinos”, conclui Packer.[11]

 

Ridderbos (1909-2007), diz acertadamente que “A igreja é o povo que Deus separou para Si em sua atividade salvífica, para que mostrasse a imagem de Sua graça e Sua salvação”.[12]

 

Aqui também, podemos frisar o ponto, de que quando estamos levando o Evangelho a todos os homens, cumprindo prazerosamente parte de nossa missão, estamos de fato demonstrando o nosso amor pelo nosso próximo, desejando que ele conheça a Cristo e, segundo a misericórdia de Deus, se arrependa e creia.[13]

 

Como bem observou Kuiper (1886-1966):

 

A eleição requer a evangelização. Todos os eleitos de Deus têm que ser salvos. Nenhum deles pode perecer. E o evangelho é o meio pelo qual Deus lhes comunica a fé salvadora. De fato, é o único meio que Deus emprega para esse fim.[14](Ef 1.13).

 

O meio ordinário de Deus agir é chamando, persuadindo e congregando o Seu povo por intermédio do Seu povo. Em outras palavras, nós somos instrumentos, “elos vitais” no desenvolvimento do propósito salvífico de Deus, proclamando a Sua Palavra de salvação.[15] Deus opera por meio da Sua Palavra, contudo, conforme já citamos as palavras de Calvino, “só quando Deus irradia em nós a luz de seu Espírito é que a Palavra logra produzir algum efeito. Daí a vocação interna, que só é eficaz no eleito e apropriada para ele, distingue-se da voz externa dos homens”.[16]

 

            Cabe aqui uma palavra de advertência e consolo quanto à nossa responsabilidade e limite: Quem será salvo? Quantos serão salvos? São perguntas que não nos compete fazer. Contudo, a nossa responsabilidade é de cumprir a ordem expressa de Cristo, de anunciar o Evangelho a todas as pessoas, sabendo que a conversão é uma operação do Espírito, que ultrapassa à nossa capacidade.[17]

 

Compete-nos apenas pregar, não especular.[18] Calvino nos ensina mais uma vez:

 

Ademais, devemos depreender dessa passagem que a doutrina da predestinação não serve para nos arrebatar para as especulações extravagantes, mas para abater todo orgulho em nós, bem como a tola opinião que sempre concebemos do nosso valor e mérito próprios, e para mostrar que Deus tem livre poder sobre nós, bem como privilégio e domínio soberano, de tal modo que pode reprovar a quem quiser e eleger a quem lhe apetecer.[19]

 

 

São Paulo, 31 de maio de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 *Leia esta série completa aqui.

 


[1] Aspectos desse assunto foram desenvolvidos em meu livro: Efésios: O Deus Bendito, São Paulo: Cultura Cristã, 2010.

[2]S. Agostinho, A Graça (II), São Paulo: Paulus, 1999, p. 247,248.

[3] “A Igreja é a mãe comum de todos os piedosos” (João Calvino, Efésios, (Ef 4.12), p. 125).

[4] João Calvino, Gálatas, (Gl 4.26), p. 144. Veja-se: As Institutas, IV.1.1.

[5] R.B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica, p. 21. (Veja-se, também, p. 39).

[6] “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas! Mas nem todos obedeceram ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem acreditou na nossa pregação? E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.14-17). “Teve Paulo durante a noite uma visão em que o Senhor lhe disse: Não temas; pelo contrário, fala e não te cales; porquanto eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal, pois tenho muito povo nesta cidade. E ali permaneceu um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus” (At 18.9-11). O pequenino e edificante livro de Tyler é baseado neste texto. Ver: Bennet Tyler, Eleição: incentivo para pregar o Evangelho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, (s.d.), 24p.

[7]Vejam-se: Michael Green, Estratégia e Métodos Evangelísticos na Igreja Primitiva: In: A Missão da Igreja no Mundo de Hoje,    São Paulo; Belo Horizonte, MG.: ABU; Visão Mundial, 1982, p. 67-68 e Bruce L. Shelley, A Igreja: O Povo de Deus, São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 127.

[8] Confissão de Westminster, (1647), III.6. Ver também: R.C. Sproul, Eleitos de Deus, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998, p. 190;; Bennet Tyler, Eleição: incentivo para pregar o Evangelho, p. 12ss.

[9] “Os muitos meios para o fim de salvar cada um dos eleitos são tão eficazes que terminam sempre em resultados bem-sucedidos. Os meios são infalíveis porque Deus é infalível” (R.K. McGregor Wright, A Soberania Banida: Redenção para a cultura pós-moderna, São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p. 143).

[10] R.B. Kuiper, El Cuerpo Glorioso de Cristo, p. 220. (Veja-se todo o capítulo, p. 220-226).

[11] J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p.146.

[12] Herman Ridderbos, El Pensamiento del Apóstol Pablo, Buenos Aires: La Aurora, 1987, v. 2, § 53, p. 9.

[13] John Stott observou bem este ponto, ao declarar em 1974: “A Grande Comissão não explica ou esgota, nem supera o Grande Mandamento. O que ela faz, na verdade, é acrescentar ao mandamento do amor e serviço ao próximo uma nova e urgente dimensão cristã. Se de fato amamos o nosso próximo, não há dúvida de que lhe diremos as boas novas de Jesus” (John R.W. Stott, A Base Bíblica da Evangelização: In: A Missão da Igreja no Mundo de Hoje, São Paulo; Belo Horizonte, MG. ABU;  Visão Mundial, 1982, p. 37).

[14] R.B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica, p. 28.

[15] Veja-se: J.I. Packer, Evangelização e Soberania de Deus, p. 66-67.

[16] João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 10.16), p. 374 A vocação eficaz do eleito, “não consiste somente na pregação da Palavra, senão também na iluminação do Espírito Santo” (J. Calvino, As Institutas, III.24.2). Do mesmo modo, Spurgeon escreveu: “Nós nunca conheceremos nada enquanto não formos ensinados pelo Espírito Santo, que fala mais ao coração do que ao ouvido”  (C.H. Spurgeon, Firmes na Verdade, Lisboa: Peregrino, 1987, p. 72).

[17] Na manhã do domingo de 2 de outubro de 1859, o então jovem ministro Charles Spurgeon (1834-1892), pregava em Londres sobre “O Sangue do Concerto Eterno” (Hb 13.20). Ao aproximar-se do final de sua exposição, diz: “O decreto da eleição é limitado, porém as boas novas abrangem o mundo todo. A ordem que recebi de Deus é a de proclamar as boas novas a toda criatura debaixo do céu. A aplicação eficaz do evangelho está restringida aos eleitos de Deus, e consequentemente pertence à vontade secreta de Deus, porém não é assim com a mensagem; esta deve ser anunciada a todas as nações” (C.H. Spurgeon, Sermões no Ano do Avivamento, p. 60).

[18]  “A predestinação divina se constitui realmente num labirinto do qual a mente humana é completamente incapaz de desembaraçar-se. Mas a curiosidade humana é tão insistente que, quanto mais perigoso é um assunto, tanto mais ousadamente ela se precipita para ele. Daí, quando a predestinação se acha em discussão, visto que o indivíduo não pode conter-se dentro de determinados limites, imediatamente, pois, mergulha nas profundezas do oceano de sua impetuosidade” (J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.14), p. 329-330). Ver: João Calvino, Efésios, (Ef 1.4), p. 26.

[19]  João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p.  82.

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (65)

11.8. Bendizer a Deus com gratidão

 

Paulo inicia a sua doxologia (Ef 1.3-14) bendizendo a Deus, demonstrando que Deus é digno de ser bendito. A palavra bendito, (Eu)loghto\j = “louvado”, “bem-aventurado”)(Hebraico: Baruk; Latim: Benedictus) ocorre 8 vezes no Novo Testamento e é sempre usada para Deus (Mc 14.61; Lc 1.68; Rm 1.25; 9.5; 2Co 1.3; 11.31; Ef 1.3; 1Pe 1.3).[1] A fraseologia desta saudação, também empregada em 2Co 1.3, assemelha-se à de Pedro em 1Pe 1.3. Na Epístola aos Coríntios, Paulo bendiz a Deus considerando o fato de que é Ele quem nos conforta em toda a nossa tribulação; Pedro bendiz a Deus considerando a nossa regeneração efetuada pela misericórdia de Deus, para que tenhamos uma viva esperança através da ressurreição de Cristo. Em Efésios, Paulo, contemplando a extensão da obra do Deus triúno de eternidade a eternidade efetuando a nossa eleição, dá graças a Deus. (Ver o Salmo 103).[2]

 

Paulo diz que Deus, o Pai, tem, ao longo da história, manifestado as suas bênçãos eternas para conosco – Paulo, os efésios e todos os santos em todos os tempos – nas regiões celestiais em Cristo Jesus. Notemos aqui, que Deus é Pai do “nosso Senhor Jesus Cristo” (path\r tou= kuri/ou h)mw=n )Ihsou= Xristou=).

 

Paulo bendiz a Deus com uma expressão de ação de graças, considerando as bênçãos de Deus que recebemos por Cristo: “que nos tem abençoado” (3). Conforme já vimos, o particípio aoristo (eu)logh/saj), indica dentro deste contexto, um fato consumado e a ação continuada de Deus. Deus na eternidade já nos abençoou definitivamente de forma completa; contudo essas bênçãos são-nos comunicadas de forma constante através da história. Essa realidade é altamente estimulante: cada bênção de Deus, o Seu cuidado mantenedor e preservador constitui-se na administração de Sua graça, concedida em Cristo Jesus desde a eternidade. Devemos então, considerar que, “se desejamos refrear nossas paixões, devemos recordar que todas as coisas nos têm sido dadas com o propósito de que possamos conhecer e reconhecer o seu autor”.[3]

 

Paulo dá graças a Deus considerando então as bênçãos de Deus derramadas sobre o seu povo: no passado: (Eleição) (Ef 1.3,4); no presente: (Redenção) (Ef 1.7); no futuro: (Posse definitiva da vida eterna) (Ef 1.12-14).

 

As bênçãos que nos são dadas são espirituais (pa/sh eu)logi/a pneu)=matikh=|) (“toda sorte de benção espiritual”). Ou seja, elas procedem do Espírito Santo, sendo comunicadas à nossa alma. Devemos estar atentos ao fato de que tudo que temos provém de Deus, por intermédio de Cristo, sendo comunicado pelo Espírito. De modo especial o texto destaca algumas dessas bênçãos: a eleição (4-5), a redenção (7), o selo do Espírito (13-14). Portanto, comenta Calvino, “é uma tentação muito grave, ou seja, avaliar alguém o amor e o favor divinos segundo a medida da prosperidade terrena que ele alcança”.[4]

 

O mesmo Espírito que nos abençoa, orienta-nos em nossa adoração, a fim de que ofereçamos a Deus “hinos e cânticos espirituais” (Ef 5.19), conforme acentuou Old: “Os hinos e salmos que são cantados na adoração são músicas espirituais, isto é, elas são as músicas do Santo Espírito (Atos 4.25; Ef 5.19)”.[5] (Ver: Cl 3.16).

 

Como vimos, Paulo ao meditar sobre a extensão da obra do Deus triúno de eternidade a eternidade efetuando a nossa eleição, bendiz a Deus. Os eleitos bendizem a Deus pelo que Ele é e pelo que Ele fez por nós. A gratidão deve nortear o nosso relacionamento com Deus. “Não há um caminho mais direto (à gratidão), do que o de tirarmos nossos olhos da vida presente e meditar na imortalidade do céu”, adverte-nos Calvino.[6]

 

            Deus deve ser sempre o alvo de nossa adoração sincera, resultante de um coração consciente e agradecido, que reconhece a Sua Glória e os Seus atos salvadores e abençoadores (2Ts 2.13/Ef 5.20). Comentando o Salmo 6, Calvino assim se expressa: “Depois de Deus nos conceder gratuitamente todas as coisas, ele nada requer em troca senão uma grata lembrança de seus benefícios”.[7]

 

O estudo desta doutrina não deve servir de pretexto para o nosso exercício de lógica ou de nossa capacidade de argumentação e persuasão, mas sim, de gratidão, num ato de adoração reverente.

 

A Igreja em sua caminhada terrena, apresenta-se ao Seu Senhor como oferta voluntária e total, na qual está expressa uma atitude de adoração, gratidão e consagração: Adoração pelo que o Senhor é; Gratidão pelo que Deus fez (eleição, regeneração, justificação, adoção) e continua fazendo (santificação); Consagração, como testemunho de que o Deus adorado é o seu Deus. Assim, a Igreja vivencia a sua natureza litúrgica (Rm 12.1).

 

“O culto é a essência e o coroamento da atividade cristã”, escreve Moule (1908-2007).[8] Por isso, é que podemos fazer coro à declaração de Boanerges Ribeiro (1919-2003) de que, “Adorar a Deus é a nossa mais alta atividade pois coloca o espírito humano em comunicação com Deus eterno. Atividade tão essencial que é o próprio Deus quem busca adoradores”.[9]

 

Agostinho (354-430), de forma poética, mostra que o nosso louvor a Deus é o fruto do trabalho do Agricultor em nós. Embora o nosso louvor nada acrescente a Deus, nós crescemos quando sinceramente bendizemos o Senhor atestando o resultado de Sua obra em nós:

 

Quando Deus nos abençoa, nós crescemos, e quando bendizemos ao Senhor, também crescemos; ambas as coisas são para o nosso proveito. Ele nada ganha quando o bendizemos, nem diminui por nossas maldições. (…) A bênção do Senhor vem-nos em primeiro lugar, e por consequência também nós bendizemos ao Senhor. A primeira é a chuva, e esta é o fruto. Por isso estamos entregando a Deus, o agricultor, que nos manda a chuva e nos cultiva, o fruto que produzimos. Cantemos estas palavras com devoção, mas não estéril, nem só de voz, mas com um coração sincero.[10]

 

11.9. Certeza da vitória em Cristo

A nossa salvação é certa; somos vencedores por meio de Cristo Jesus. Nada pode nos separar do Seu amor. Ninguém pode impedir a consumação do propósito glorioso de Deus em nós. Por isso, devemos viver na paz, que é o resultado da segurança que Deus nos comunica (Ap 17.14/Rm 8.33-39; 1Co 15.57,58; 2Co 2.14).

 

Se a nossa salvação dependesse de nós, de nossa vontade, poder e fidelidade, certamente fracassaria. Graças a Deus que a nossa salvação é toda ela obra do Deus soberano que nos elege, nos chama e preserva até o fim.[11]

 

Calvino (1509-1564), comentando o texto de 2Tm 2.19, diz: “A despeito de toda a fraqueza da carne, os eleitos, não obstante, não correm esse risco, porque não estão firmados em sua própria capacidade, mas estão fundados em Deus”.[12]

 

Teresina, 30 de maio de 2019

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa.

 

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[1] Na Septuaginta, a única vez que a palavra é usada para referir-se ao homem é em Gênesis 24.31.

[2]Ver: R.C.H. Lenski, The Interpretation of St. Paul´s Epistles to the Ephesians, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1998, (Ef 1.3), p. 349.

[3]João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 72.

[4] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 17.14), p. 346.

[5]Hughes Oliphant Old, Worship: That Is Reformed According to Scripture, Atlanta: John Knox Press, 1984, p. 6.             Agostinho (354-430), comentando de forma belíssima o salmo 148, diz: “Sabeis o que é hino? É um cântico com louvor a Deus. Se louvas a Deus sem canto, não é hino. Se cantas e não louvas a Deus, não é hino; se louvas outra coisa não pertencente ao louvor de Deus, apesar de cantares louvores, não é um hino. O hino, pois, consta de três coisas: canto [canticum], louvor [laudem], de Deus. Portanto, louvor a Deus com cântico chama-se hino” (S. Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulus, (Patrística, 9/3), 1998, (Sl 148.17), v. 3, p. 1142).

[6]João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 73.

[7]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 6.5), p. 129. Por sua vez, “os ímpios e hipócritas correm para Deus quando se veem submersos em suas dificuldades; mas assim que se veem livres delas, olvidando seu libertador, se regozijam com frenética hilaridade” (João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 28.7), p. 608).

[8] C.F.D. Moule, As Origens do Novo Testamento, São Paulo: Paulinas, 1979, p. 45.

[9]B. Ribeiro, O Senhor que Se Fez Servo, São Paulo: O Semeador, 1989, p. 46-47.

[10] S. Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulus, 1997, v. 1, (Sl (65) 66.1), p. 361.

[11] “Deus nos elegeu para sermos seu povo peculiar, a fim de fazer notório seu poder nos preservando e nos defendendo” (João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 46.7), p. 335). Vejam-se:  D. M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 90; D. M. Lloyd-Jones, Vida No Espírito: No Casamento, no Lar e no Trabalho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 137; John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, p. 98.

[12]J. Calvino, As Pastorais, (2Tm 2.19), p. 239. De modo semelhante, declara Spurgeon: “O sangue é o símbolo, o sinal, a garantia, a segurança e o selo do concerto da graça para você. Ele pode ser considerado um telescópio através do qual cada um consegue ver as distâncias espirituais. Com seu olho natural ninguém pode ver sua eleição, mas através do sangue de Cristo pode enxergá-la com nítida clareza. Ponha sua confiança no sangue, pobre pecador, e chegará a descobrir que o sangue do pacto eterno constitui uma prova de que você é um herdeiro do céu” (C.H. Spurgeon, Sermões no Ano do Avivamento, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 59-60).

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (64)

11.6. Amor a Deus

 

“O conceito de predestinação pressupõe a eleição, e esta, o amor (…). Por onde, todos os predestinados são eleitos e amados”, conclui Tomás de Aquino (1225-1274).[1]

 

A eleição revela a graça amorosa e misericordiosa de Deus. Todos merecíamos ser condenados. Mas Deus, sendo rico em misericórdia nos salvou. Há uma conexão entre eternidade e tempo, causa e efeito: O amor de Deus antecede ao nosso e nos capacita a respondê-Lo com fé e amor.[2]  Conforme resume João: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19/1Jo 4.9,10; Rm 5.8-10).

 

Kuiper (1886-1966) é contundente ao dizer que:

 

Como o amor de Deus é infinito, desprezar esse amor é pecado de proporções infinitas. No entanto, é o que fazem aqueles que, por sua descrença, rejeitam o Filho de Deus, dom do Seu amor (…). Rejeitar este amor é incorrer no banimento eterno da presença de Deus. Responder com fé e amor é herdar a vida eterna. Nada pode ser mais urgente do que a escolha de uma destas atitudes.[3]

 

O nosso amor a Deus revela-se em nossa obediência aos Seus preceitos, conforme nos ensina o Senhor Jesus:

 

21 Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele.  (…) 23 Respondeu Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada. (Jo 14.21,23).

 

11.7. Firme esperança em Cristo

 

A predestinação, conforme Calvino a entendia, não é nem uma torre de igreja de onde se vê a paisagem humana, nem um travesseiro para dormir. Antes, é uma fortaleza em momentos de tentação e provação, e uma confissão de louvor à graça de Deus e à Sua glória. – Timothy George.[4]

 

Como vimos, Paulo dá graças a Deus pela vida dos tessalonicenses, reconhecendo, entre outras virtudes, a esperança perseverante que a igreja depositara em Deus: “Recordando-nos, diante do nosso Deus e Pai, da operosidade da vossa fé, da abnegação do vosso amor e da firmeza da vossa esperança (u(pomonh=j th=j e)lpi/doj) (1Ts 1.3).

 

Recordemos um pouco a história. A Igreja de Tessalônica foi fundada por Paulo e Silas durante a Segunda Viagem Missionária (At 17.1-10).   Pregou durante 3 semanas na Sinagoga. Possivelmente permaneceu ali mais tempo. Alguns judeus foram convertidos, assim como muitos gregos e mulheres distintas (nobres) (At 17.2-4).  Outros judeus, no entanto, movidos de inveja, subornaram homens da malandragem (a)gorai=oj = “vagabundo”, “desordeiro”, “homens de mercado”) (At 17.5)[5] e juntos alvoroçaram a cidade, movendo uma perseguição contra Paulo e Silas, invadindo inclusive a casa de um certo Jasom que os havia hospedado.

 

A palavra, ou mais propriamente, o grito desses homens que conclamava o povo à perseguição era: “Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui” (At 17.6).

 

A acusação que causou um reboliço no povo e nas autoridades era: “Todos estes procedem contra o decreto de César, afirmando ser Jesus outro rei” (At 17.7).

 

Jasom e outros irmãos foram presos e posteriormente libertos após pagarem a fiança estipulada (At 17.9); fiança, que pode ter sido apenas um compromisso de não mais hospedar tais homens e promover a sua partida da cidade.

 

À noite, irmãos cuidadosos promoveram a saída de Paulo e Silas de Tessalônica, indo então para Beréia (80 km), onde continuaram o seu trabalho (At 17.10).

 

     Notemos que a afirmação de que“Estes que têm transtornado (a)nastato/w = “sublevar”, “incitar”, “revolucionar”)[6] o mundo chegaram também aqui” (At 17.6), ou mais literalmente: “estes que têm causado problemas em todo lugar”, indica por um lado, que a fama de seu trabalho era evidente, causando grande transformação; por outro lado, revela também, que a sua mensagem era olhada com desconfiança, especialmente por parte dos judeus.

 

Aqui aprendemos, de passagem, quão revolucionário é o Evangelho. Ele afeta a nossa mente e coração, transformando a nossa maneira de ver, sentir e agir no mundo, apresentando-nos um novo senso de valores, o qual é regido pela Palavra de Deus.[7]  “Quando o cristianismo entra em ação realmente deve causar uma revolução tanto na vida do indivíduo como na da sociedade”.[8]

 

            Pouco mais de 1 ano depois destes episódios, Paulo escreveu a primeira epístola aos tessalonicenses, dando graças a Deus porque a igreja continuava firme no Senhor e o vigor da sua fé estava sendo divulgado na Macedônia e Acaia, repercutindo assim, a Palavra de Deus (1Ts 1.7-10).

 

Com a saída de Paulo, a Igreja continuou sendo afligida. A perseguição fora tão intensa que Paulo, quando partiu para Beréia e depois para Atenas, pediu a Timóteo que ficara com Silas em Beréia, que fosse à Tessalônica verificar como os irmãos estavam resistindo a esta situação, bem como para confirmá-los e exortá-los. Paulo só teve alívio quando Timóteo regressou, acompanhado de Silas, encontrando-se com ele em Corinto, relatando a firmeza da Igreja (At 17.15,16/1Ts 3.1-7/At 18.5/1Ts 1.3).

 

Posteriormente, na sua segunda epístola,  Paulo mais uma vez agradece a Deus pela perseverança dos tessalonicenses

 

Irmãos, cumpre-nos dar sempre graças  (Eu)xariste/w)[9] a Deus no tocante a vós outros, como é justo, pois a vossa fé cresce sobremaneira (u(perauca/nw),[10] e o vosso mútuo amor de uns para com os outros vai aumentando, a tal ponto que nós mesmos nos gloriamos de vós nas igrejas de Deus, à vista da vossa constância (u(pomonh/) e fé, em todas as vossas perseguições (diwgmo/j) [11] e nas tribulações (qli/yij) que suportais. (2Ts 1.3,4).

 

Na primeira epístola, Paulo recordara diante de Deus a firme esperança daquela jovem e sofrida igreja:           “Recordando-nos, diante do nosso Deus e Pai, da (…) firmeza da vossa esperança (u(pomonh=j th=j e)lpi/doj) (1Ts 1.3).

 

O substantivo u(pomonh/ (perseverança) e o verbo u(pome/nw (perseverar), têm o sentido de persistir, permanecer, firmeza, constância, paciência, resistência.[12] Os termos descrevem não simplesmente uma atitude passiva de deixar os fatos acontecerem, mas, sim, um comportamento ativo que enfrenta as dificuldades, tendo uma perspectiva que ultrapassa a simples visão adversa do momento; é, portanto, uma perseverança viril na prova: aceita os embates da vida, porém, ao aceitá-los, transforma-os em novas conquistas. A palavra quer dizer uma resistência persistente, a despeito das circunstâncias difíceis. Uma fé que se fortalece ainda mais no meio das adversidades.[13]

 

Esta paciência é uma perseverança corajosa, que encara os desafios de sua fé e permanece fiel ao seu Senhor; ela é uma qualidade espiritual, o produto de um andar submisso e guiado pelo Espírito. Por isso ela pode ser descrita como “a graça para suportar”. Esta resistência se alicerça sobre a fé. A fé consiste na entrega da alma a Cristo, confiando inteiramente nos Seus cuidados. Tal consagração confere ao crente a disposição e o poder de suportar dificuldades provenientes de sua lealdade irrestrita a Cristo. A nossa fé, portanto, se evidencia em nossa paciência em suportar as adversidades. E assim, a vida cristã vai sendo lapidada, aprimorada em seus contornos por meio das dificuldades comuns a todos aqueles que querem permanecer fiéis ao Senhor: “A tribulação produz perseverança (u(pomonh/) (Rm 5.3); é a fé provada que produz a “constância” (Tg 1.3).

 

A nossa esperança em Cristo não é uma utopia, ilusão humana, forjada pela nossa imaginação, um mero mecanismo racional para nos dar tranquilidade emocional e espiritual. A esperança que temos emana de Deus e está depositada nas Suas promessas. Nós esperamos firmemente a concretização daquilo que para nós é certo, porque foi prometido por Deus; a Palavra de Deus é sempre a palavra final para nós e dela procedem a nossa fé e esperança (Rm 10.17; 15.4).

 

Venema pontua:

 

A principal observação anunciada na revelação de Deus referente ao futuro é a da esperança. O povo de Deus espera, ansioso, o retorno de Cristo porque ele promete a conclusão da obra redentora de Deus para eles e para toda a criação. A abordagem cristã para o futuro é sempre a da esperança nutrida pela Palavra. O futuro é nítido porque está cheio de promessas; promessas estas da Palavra de Deus.[14]

 

No meio das tribulações, das angústias e das incompreensões, podemos sempre esperar em Deus, certos da Sua ação providente e poderosa. Quando depositamos a nossa esperança no Deus da Palavra, não temos com que nos preocupar; a nossa esperança nunca será frustrada, porque Deus é fiel; Ele sempre cumpre a Sua Palavra. “O único meio pelo qual, em nossa aflição, podemos obter a vitória é pela esperança que resplandece sobre nós, em meio às trevas, e pela influência mantenedora que desponta de nossa expectativa do favor divino”, escreveu Calvino.[15]

 

Esperar em Deus, portanto, envolve o exercício de nossa fé, fazendo-a amadurecer e se fortalecer cada vez mais. No Antigo Testamento, vemos que diante de uma iminente invasão Assíria, Isaías desafia o povo de Israel a confiar em Deus e não nos recursos dos egípcios. Ele declara: “… Os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam” (Is 40.31).

 

O escritor de Hebreus diz: “Com efeito, tendes necessidade de perseverança (u(pomonh/), para que havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa” (Hb 10.36).

 

A promessa de Deus sempre se cumpre; nós é que precisamos perseverar nela. Esta é a vontade de Deus, que permaneçamos firmes na Sua Palavra. “A herança da vida eterna já nos está garantida, visto, porém, que esta vida se assemelha a uma pista de corrida, temos que nos esforçar por alcançar a meta final”, consola-nos Calvino.[16]

 

A recomendação do escritor de Hebreus é:Guardemos firme (kate/xw[17]) a confissão da esperança (e)lpi/j), sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel” (Hb 10.23). Outra vez: “Com efeito, tendes necessidade de perseverança (u(pomonh/), para que havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa” (Hb 10.36).

 

Paulo reconhece a eleição dos crentes de Tessalônica devido às manifestações concretas de fé, amor e esperança em Cristo Jesus (1Ts 1.3-4). A perseverança é uma das evidências de nossa filiação divina; ou seja: de nossa eleição eterna.[18]

 

Teresina, 29 de maio de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]S. Tomás de Aquino, Suma Teológica, 2. ed. Porto Alegre; Caxias do Sul, RS.: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes; Livraria Sulina Editora; Universidade de Caxias do Sul, 1980, v. 1, I.23.4. p. 235.

[2]Veja-se: William Hendriksen, O Evangelho de João, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, (Jo 3.16), p. 191.

[3] R.B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1976, p. 72.

[4] Timothy George, A Teologia dos Reformadores, São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 233.

[5]a)gorai=oj = “vagabundo”, “desordeiro”, “homens de mercado”.

[6] * At 17.6; 21.38; Gl 5.12.

[7] “A experiência cristã que acontece apenas no coração, e que não renovou nossa mente, é inadequada e, de acordo com Jesus, profundamente falha. Falta-lhe o arrependimento e seu amor é incompleto” (Oliver Barclay, Mente Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 16).

[8] William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, (Hechos de los Apostoles), Buenos Aires: La Aurora, 1974, v. 7, p. 138.

[9] Vejam-se: 1Ts 1.2; 2Ts 2.13.

[10] Esta palavra, que só ocorre neste texto, é muito forte, significando aumentar muitíssimo, aumentar extraordinariamente, extremamente, crescer maravilhosamente, crescer e abundar. Paulo está dizendo que a fé daqueles irmãos crescia de um modo extraordinário, mesmo sob a pressão das perseguições (1Ts 3.4-5).

[11]O substantivo “perseguição” (Diwgmo/j = “caça”, “pôr em fuga”) dá a entender a figura simbólica de um animal caçado, de uma presa perseguida, de um tormento incansável e sem misericórdia. Esta palavra denota mais especificamente as perseguições promovidas pelos inimigos do Evangelho; ela se refere sempre à perseguição por motivos religiosos (Vejam-se: Mc 4.17; At 8.1; 13.50; Rm 8.35; 2Tm 3.11). Conforme já mencionamos, o verbo Diw/kw é utilizado sistematicamente para aqueles que perseguiam a Jesus, os discípulos e a Igreja (Mt 5.10-12; Lc 21.12; Jo 5.16; 15.20). Lucas emprega este mesmo verbo para descrever a perseguição que Paulo efetuou contra a Igreja (At 22.4; 26.11; 1Co 15.9; Gl 1.13,23; Fp 3.6), sendo também a palavra usada por Jesus Cristo quando pergunta a Saulo do porquê de sua perseguição (At 9.4-5/At 22.7-8/At 26.14-15).

[12]U(pome/nw (u(po/ = “sob” & me/nw = “permanecer, ficar, esperar, aguardar”), tem o sentido de “permanecer debaixo de”; “manter-se firme debaixo de”. (Para um estudo mais detalhado desta palavra, veja-se: Hermisten M.P. Costa, O Pai Nosso, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001).

[13]William Barclay (1907-1978) assim comentou o sentido da palavra: “Não é paciência que pode sentar-se e curvar a sua cabeça deixando as coisas descerem contra ela e aguentar passivamente a tempestade passar. Não é meramente ‘passar por’ algumas coisas. É o espírito que pode suportar as coisas, não simplesmente com resignação, mas com a esperança fulgurante; não é o espírito que fica sentado num só lugar, esperando estaticamente, mas, sim, o espírito que suporta as coisas porque sabe que estas coisas o estão levando para um alvo de glória; não é a paciência que aguarda inflexivelmente o fim, mas a paciência que espera radiantemente a aurora” (William Barclay, Palavras Chaves do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1988, p. 101).

[14]Cornelius P. Venema, A Promessa do futuro, São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 28.

[15] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 3, (Sl 69.13), p. 26.

[16]João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 10.36), p. 290.

[17] Tem o sentido de reter (Lc 4.42, 2Ts 2.6-7); conservar (Fm 13).

[18] Cf. S. Agostinho, A Graça (II), p. 105-111.

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (63)

11.4. Humildade

 

“Aquele que deriva cada coisa tão-somente da fonte da divina mercê nada encontra em si mesmo digno de recompensa aos olhos de Deus”, comenta Calvino.[1]

 

A nossa salvação é obra exclusiva e total de Deus. Todos nós, sem exceção, somos inteiramente dependentes da graça de Deus; por isso, não há lugar para vanglória e arrogância, e sim, humildade.[2]

 

A humildade começa pela contemplação da majestade e santidade de Deus. Como decorrência disso, podemos perceber a triste e  concreta condição na qual nos encontramos por causa de nosso pecado. Desse modo, compreendemos de forma real o quanto dependemos de Deus e de Sua misericórdia.

 

A fé que é o meio pelo qual recebemos a salvação, é um dom da graça de Deus (Ef 2.8). O motivo de nos gloriar está em Deus, Quem, por graça, nos conduziu ao caminho da fé.[3] Nada há em nós a partir do qual possamos derivar qualquer atitude soberba e arrogante. Deus é a nossa glória (Sl 3.3).

 

A nossa humildade sincera diante de Deus se revela em nossa atenção e submissão à Palavra e, também, caracterizará o modo de todas as nossas relações sociais.[4]

 

C.H. Spurgeon (1834-1892), infere conclusivamente: “Desconheço qualquer outra coisa que nos possa humilhar tão profundamente quanto a doutrina bíblica da eleição (…). Aquele que se sente orgulhoso de sua eleição, é porque não é um dos eleitos do Senhor”.[5] (Ef 2.9; 1Co 4.7; 2Co 3.5).

 

11.5. Santificação

 

A fé que não envolve uma influência santificadora sobre o caráter da pessoa não é melhor que a fé dos demônios. Antes, é uma ‘fé morta, por estar sozinha’. Não é o dom de Deus. Não é a fé dos eleitos de Deus. Em suma, onde não há a santificação da vida, não há fé real em Cristo. A verdadeira fé opera através do amor. Ela constrange o homem a viver para o Senhor, movido por profundo senso de gratidão pela redenção recebida. – J.C. Ryle (1816-1900).[6]

 

Conforme já tratamos, Paulo em lugares diferentes relaciona a santificação com o propósito salvador de Deus decorrente de nossa eleição eterna:

 

 Assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor. (Ef 1.4).

Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade. (2Ts 2.13).

Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais da prostituição. (1Ts 4.3).

 

A santificação não é opcional, antes, algo projetado por Deus para os obedientes filhos da família da fé (1Pe 1.14-16/Hb 10.16), já que a Trindade é santa e Jesus Cristo se constitui no modelo ao qual todos devemos seguir.

 

A obra trinitária envolve os fins e os meios. Deus nos restaura à Sua comunhão por meio do Filho e, pelo Espírito nos habilita a prosseguir em nossa santificação até a consumação de Sua obra em nós. A glorificação futura é tão certa que podemos falar dela como já tendo sido concretizada. “Aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30).[7]

 

Como fica claro biblicamente, o propósito de nossa eleição é que sejamos santos e irrepreensíveis diante de Deus (Ef 1.4; Jd 24). Por isso, a consciência de nossa eleição, deve nos conduzir de forma imperativa a um crescimento espiritual por intermédio do conhecimento de Cristo. Deus nos elegeu para Ele, a fim de que vivamos neste mundo transitório e mutável, com os valores eternos, tendo como modelo permanente, a imagem de Cristo (Rm 8.29).

 

Spurgeon (1834-1892), acentuou corretamente que  “Deus escolhe o Seu povo para que seja crente e santo (…). Você pode aproximar-se de Jesus Cristo como um pecador, mas não pode aproximar-se dEle como uma pessoa eleita enquanto sua santidade não for visível”.[8]

 

Em outro lugar, acrescenta: “De que maneira, pois, as pessoas podem manifestar gratidão para com Aquele que se ofereceu em sacrifício a não ser pela santificação? Agora, motivados pelo sacrifício redentor, somos avivados para o zelo intenso e a devoção”.[9]

 

A eleição longe de servir de pretexto à licenciosidade e à frouxidão moral,[10] é um forte estímulo à santificação. A advertência de Agostinho serve como referência: “Não presumas de tua justiça para alcançar o reino, não presumas da misericórdia de Deus para continuar a pecar”.[11]

 

A nossa real justificação tem implicações éticas. A santificação é a grande evidência de nossa nova relação com Deus. A nossa justificação (subjetiva) nos dá o status de filhos. Como tais, salvos para sempre (Ef 1.5,13-14).[12] O desafio para nós hoje é viver em harmonia com a nossa nova natureza e condição, andando, conforme vimos, nas obras preparadas por Deus para nós (justificação demonstrativa) (Ef 2.8-10).[13]

 

A santificação é o processo por meio do qual nós, filhos de Deus, vamos aprendendo a andar como tais. A Palavra é poderosa neste objetivo à medida que a vamos compreendendo e praticando. Santificação é o processo de assunção da nossa identidade como autênticos filhos de Deus.

 

O ato eterno de nossa glorificação está fundamentado em nossa eleição e, o futuro da santificação é a nossa glorificação. O decreto eletivo de Deus envolve a nossa santificação. A boa obra de Deus em nós será concluída conforme determinada na eternidade (Fp 1.6).

 

Todos os eleitos, santos em Cristo, se santificam progressivamente rumo à glória final, à semelhança de Jesus Cristo, o nosso irmão mais velho (Rm 8.29-30).

 

Assim sendo, esse crescimento se findará na Segunda Vinda de Cristo, quando seremos transformados definitivamente na Sua imagem, conforme escreveu Calvino:

 

Agora começamos a exibir a imagem de Cristo, e somos transformados nela diária e paulatinamente; porém, esta imagem depende da regeneração espiritual. Mas, depois, seremos restaurados à plenitude, quer em nosso corpo, quer em nossa alma; o que agora teve início será levado à completação, e alcançaremos, em realidade, o que agora apenas esperamos.[14]

 

Teresina, 29 de maio de 2019

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa.

 

 

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[1]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 25.6), p. 544.

[2] Veja-se: J. Calvino, As Institutas, III.21.1. Lutero, falando sobre a Predestinação, escreveu: “Duas coisas obrigam à pregação da predestinação. A primeira é a humilhação do nosso orgulho e o reconhecimento da graça de Deus; e a segunda é a natureza da fé Cristã em si mesma” (Martin Luther, De Servo Arbitrio. In: E. Gordon Rupp; Philip S. Watson, eds. Luther and Erasmus: Free Will and Salvation, Philadephia, The Westminter Press, 1969, p. 137).

[3] Cf. S. Agostinho, A Graça (II), p. 110.

[4] Veja-se, em especial: Jerry Bridges, A Vida Frutífera, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 40-45.

[5]C.H. Spurgeon, Eleição, São Paulo: FIEL, 1984, p. 30. “Nenhuma doutrina irá expulsar o narcisismo da autoajuda de nossas igrejas e púlpitos tão bem como essa. Nenhuma doutrina é mais adequada para fazer com que a graça justificadora de Deus em Cristo seja mais central. Nenhuma doutrina é melhor sucedida em colocar o homem em seu devido lugar e ver a Deus em seu” (Michael Horton, As Doutrinas da Maravilhosa Graça, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003, p. 87). Packer nos adverte entretanto, que, “O ensino bíblico sobre a eleição visa tornar os crentes humildes, confiantes, alegres e ativos, mas essa doutrina pode ser asseverada e propagada de uma maneira que os torna orgulhosos, presunçosos, complacentes e preguiçosos” (J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 144).

[6] J.C. Ryle, Santidade, São José dos Campos, SP.: FIEL, 1987, p. 40.

[7]“Essa esperança é uma certeza, pois a sentença justificadora é uma decisão judiciária do último dia, trazida ao presente: é um veredito final, que jamais será revertido. ‘E aos que justificou, a esses também glorificou’ (Rm 8.30). Observemos que Paulo usa o verbo ‘glorificar’ no passado. Aquilo que Deus decidiu fazer é como se já o tivesse feito!. De acordo com isso, a pessoa justificada pode ter a certeza de que coisa alguma jamais a separará do amor de seu Salvador e de seu Deus (Rm 8.35ss.)” (J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 128).

[8]C.H. Spurgeon, Eleição, São Paulo: FIEL, 1984, p. 25.

[9]C.H. Spurgeon, Batalha Espiritual, Paracatú, MG.: Sirgisberto Queiroga da Costa, editor, 1992, p. 56.

[10] “É uma atitude ímpia dissociar a santidade de vida da graça da eleição” (João Calvino, Efésios, (Ef 1.4), p. 26).

[11]S. Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulus, 1997, v. 1, Sl 31, “II. Sermão ao Povo”, p. 350.

[12]5 nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, (…) 13 em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; 14 o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef 1.5,13-14).

[13]8Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; 9 não de obras, para que ninguém se glorie. 10 Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.8-10).

[14]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 15.49), p. 488.

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (62)

11.2. Serviço

 

Como já vimos, um dos propósitos da eleição, é que sirvamos a Deus. O privilégio da eleição é um chamado urgente e indissolúvel ao serviço.[1] O eleito de Deus é, entre outras coisas, aquele que serve a Deus e ao seu irmão (Ef 2.10; 2Tm 2.21; 1Pe 1.2).

 

Paulo dá graças a Deus pela operosidade da fé dos tessalonicenses: “e)/rgwn th=j pi/stewj” (1Ts 1.3). A fé não é algo simplesmente contemplativo, ela se manifesta em atos. A palavra empregada por Paulo, traduzida por “operosidade” (e)/rgon), tem o sentido tanto de trabalho ativo, como de resultado do trabalho feito.

 

Paulo diz ter sido confortado com as notícias trazidas por Silas concernentes ao fato de que os tessalonicenses, mesmo sob forte tribulação, permaneciam firmes na fé (1Ts 2.14/1Ts 3.7).

 

Ainda que de passagem, vemos que o nosso trabalho deve ser guiado pela fé e, a fé, se materializa no trabalho. A Igreja de Corinto era fruto do trabalho de Paulo (1Co 9.1).

 

Tiago diz que “a fé sem obras é morta” (“pi/stij xwri\j e)/rgwn nekra/ e)sti/n”) (Tg 2.26). Ou seja, a verdadeira fé se manifesta em atos de obediência. A fé operosa é aquela que obedece aos mandamentos de Deus.

 

A fé dos tessalonicenses era tão ativa, que já se repercutira nas regiões da Macedônia e Acaia (1Ts 1.7-9). Um fato que se tornou notório foi a sua conversão a Deus e o abandono da idolatria (1Ts 1.9). O mesmo aconteceria posteriormente com a Igreja de Roma. Paulo então escreveu: “Dou graças a meu Deus mediante Jesus Cristo, no tocante a todos vós, porque em todo mundo é proclamada a vossa fé” (Rm 1.8).

 

A nossa eleição revela-se em nosso serviço: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra (e)/rgon) do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho (ko/poj) não é vão” (1Co 15.58).

 

Neste sentido, Paulo instrui a Tito quanto ao que deveria ensinar:

 

Fiel é esta palavra, e quero que, no tocante a estas coisas, faças afirmação, confiadamente, para que os que têm crido (pepisteuko/tej)  em Deus sejam solícitos na prática de boas obras (kalw=n[2] e)/rgwn). Estas coisas são excelentes e proveitosas aos homens. (Tt 3.8).

 

Afinal, fomos criados em Cristo para as boas obras: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras (e)/rgoij a)gaqoi=j[3]), as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10).

 

Nós agradamos a Deus quando cumprimos em nós o propósito da eterna eleição. Paulo diz que devemos viver de modo agradável a Deus, “frutificando em toda boa obra (e)/rgw a)gaqw=) e crescendo no pleno conhecimento de Deus” (Cl 1.10). O crescimento e fortalecimento da nossa fé é demonstrado por intermédio de nossa operosidade (1Ts 1.3,8).

 

11.3. Amor laborioso

 Paulo, realçando as virtudes dos tessalonicenses, dá graças a Deus pela eleição daqueles irmãos, destacando em sua cotidianidade, a “abnegação do vosso amor” (ko/pou[4] th=j a)ga/phj) (1Ts 1.3).[5]

 

O apóstolo enfatiza a atividade laboriosa de amor que, também, pode ter o aspecto da abnegação; contudo, não é exclusivamente isso. A ideia da expressão é de um amor que não teme ser importunado; sabe que o amor envolve compromissos, preocupações, labor, fadiga, importunação. O amor revelado pelos tessalonicenses não era simplesmente declarativo; ele se manifestava em atos concretos que exigiam esforços, dificuldades e exaustão.

 

Curiosamente, Paulo é quem mais utiliza esta palavra para se referir ao seu ministério: “….em tudo recomendando-nos a nós mesmos como ministros de Deus: na muita paciência, nas aflições, nas privações, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos (ko/poj)(2Co 6.4-5).(Ver: 2Co 11.23,27). Paulo trouxe à memória dos tessalonicenses, a lembrança do seu labor, de como ele se esforçou por pregar o Evangelho sem depender financeiramente daqueles irmãos: “Porque, vos recordais, irmãos, do nosso labor (ko/poj) e fadiga; e de como, noite e dia labutando para não vivermos à custa de nenhum de vós, vos proclamamos o evangelho de Deus” (1Ts 2.9/2Ts 3.8; At 20.35; 1Co 4.12; 15.10).

 

Paulo também relembra aos irmãos que quando teve de partir de Tessalônica devido à perseguição que se moveu contra ele, manteve-se preocupado com a Igreja. Assim, tendo enviado Silas e Timóteo para verificar o estado da Igreja, aguardou-os num primeiro momento em Atenas: “Foi por isso que, já não me sendo possível continuar esperando, mandei indagar o estado da vossa fé, temendo que o Tentador vos provasse, e se tornasse inútil o nosso labor (ko/poj) (1Ts 3.5).

 

Escrevendo aos Romanos, destaca algumas irmãs que se exauriam no trabalho de Deus: “Saudai a Maria que muito trabalhou (kopia/w) por vós” (Rm 16.6). “Saudai a Trifena e a Trifosa, as quais trabalhavam (kopia/w) no Senhor. Saudai a estimada Pérside que também muito trabalhou (kopia/w) no Senhor” (Rm 16.12).

 

Ao Anjo da Igreja de Éfeso, o Senhor diz: “Conheço as tuas obras, tanto o teu labor (ko/poj) como a tua perseverança….” (Ap 2.2). Na visão do Apocalipse, João registra a palavra vinda do céu: “Escreve: Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas (ko/poj), pois as suas obras (e)/rgon) os acompanham” (Ap 14.13).

 

O nosso amor laborioso e operante para com o nosso próximo, é uma evidência de nossa eleição. Esta evidência deve ser vista pelo crente como sua responsabilidade e privilégio

 

São Paulo, 28 de maio de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

 *Leia esta série completa aqui.

 


[1]Ver: Gordon J. Spykman, Teología Reformacional: Un Nuevo Paradigma para Hacer la Dogmática, Jenison, Michigan: The Evangelical Literature League, 1994, p. 394.

[2]Kalo/j, “bom”, “útil” A palavra grega indica algo que é essencialmente bom, formoso – a ideia de beleza estética está classicamente presente nesta palavra –, útil e honroso.

[3]A)gaqo/j, denota o que é moral e praticamente bom. A vontade de Deus é boa (a)gaqo/j) (Rm 12.2) porque Ele é bom. (Lc 18.19).

[4]O verbo kopia/w e o substantivo ko/poj (“aflição”, “dificuldade”, “trabalho”, “labuta”) descrevem um trabalho estafante, difícil, árduo, trabalhar até à exaustão.

[5] ECR (Trinitariana) traduz melhor: “trabalho do amor”; também a BJ: “esforço da vossa caridade”.

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (61)

11. Atitudes para com esta doutrina

 

A santidade, a inocência, e assim toda e qualquer virtude que porventura exista no homem, são frutos da eleição. – João Calvino.[1]

 

Podemos ser salvos sem muitos dos dons do Espírito, mas não podemos ser salvos sem o fruto do Espírito. –  A.A. Hoekema (1913-1988).[2]

 

Não sabemos quem ou quantos serão salvos – isso faz parte de secreta providência de Deus -, no entanto, podemos indicar biblicamente, o comportamento que deve caracterizar o eleito de Deus. Spurgeon (1834-1892), colocou esta questão da seguinte forma:

 

O grande livro dos decretos de Deus está firmemente fechado para a curiosidade humana (…). O livro não pode ser aberto, mas Deus publicou muitas de suas páginas. Não divulgou a página na qual os nomes dos redimidos estão escritos; porém a página do decreto sagrado onde é descrito o caráter dos eleitos está inserida em Sua Palavra.[3]

 

A eleição não é conhecida simplesmente pela nossa posição doutrinária ou por nossos discursos teológicos, mas, pelo nosso testemunho. Calvinistas e Arminianos, sem dúvida, poderão ser salvos, se arrependidos de seus pecados, confiarem unicamente em Cristo para sua salvação. Está certo doutrinariamente, ainda que seja de extrema relevância, não significa ser salvo. Necessitamos urgentemente de nos arrependermos e crer perseverantemente em Jesus Cristo.

 

Muito mais do que uma simples premissa teológica, a eleição de Deus é uma força dinâmica na vida dos crentes envolvendo toda a nossa existência. A humilde convicção da eleição eterna de Deus deve redundar em louvor a Deus e modelar o nosso caráter à imagem do Eleito de Deus, Jesus Cristo (Rm 8.29-30)

 

Portanto, ainda que o nosso conhecimento não seja absoluto, nem inspirado, temos as evidências. Paulo e Silas, por exemplo, puderam “ver” – um conhecimento fundamentado na experiência –, perceber nos crentes de Tessalônica, evidências de sua eleição, daí dizer: Reconhecendo (oi)=da), irmãos, amados de Deus, a nossa eleição” (1Ts 1.4).[4]

 

Ainda que a fé como fruto da eleição “tenha residência secreta nos recessos do coração, ela se comunica com os homens através das boas obras”, afirma Calvino.[5]

 

11.1. Fé na verdade

 

Deus nos escolheu para salvação mediante a fé na verdade. A fé, escreve Calvino, “é um conhecimento firme e certo da vontade de Deus concernente a nós, fundamentado sobre a verdade da promessa gratuita feita em Jesus Cristo, revelada ao nosso entendimento e selada em nosso coração pelo Espírito Santo”.[6] No entanto, escreve em outro lugar: “Nada é mais solicitamente intentado por Satanás do que impregnar nossas mentes, ou com dúvidas, ou com menosprezo pelo evangelho”.[7]

 

“O evangelho da vossa salvação” é para ser crido e vivido (Ef 1.13). Por isso, a pregação cristã nada mais é do que a proclamação do Evangelho; o Poder de Deus para a salvação (Rm 1.16).

 

Creio que aqui está um dos problemas vitais da igreja em todos os tempos. Com isto não estou dizendo que a Igreja ao longo da história tenha negado de forma confessional a Palavra de Deus. Antes, o que estou declarando é que a Igreja tem negado a Palavra de Deus de forma existencial e vivencial.

 

Esta recusa prática tem se caracterizado na não consideração dos preceitos de Deus em seu caminho, guardando a Palavra em salas específicas – com um primoroso isolamento acústico –  reservadas para tratar de determinados assuntos específicos e não a deixando percorrer toda a igreja a fim de fazer uma faxina geral, expurgando aquilo que esteja distante dos preceitos divinos, nos conduzindo a uma reorganização total de nossa vida.

 

Crer na Palavra significa recebê-la como fundamento e norma do nosso comportamento. Todas as vezes que desconsideramos as Escrituras em nossas decisões, estamos, na realidade, negando a eficácia das promessas de Deus, demonstrando não a ter recebido como Palavra autoritativa de Deus.

 

Paulo se alegra com o fato de que os efésios e os tessalonicenses haviam de modo correto, respectivamente, crido e recebido a Palavra ensinada, o Evangelho, como Palavra de Deus:

 

Vós, depois que ouvistes (a)kou/w = “entender”, “atender”) a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados (sfragi/zw) com o Santo Espírito da promessa. (Ef 1.13).

Outra razão ainda temos nós para, incessantemente, dar graças a Deus: é que, tendo vós recebido  (paralamba/nw)[8] a palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, acolhestes (de/xomai = “receber”)[9] não como palavra de homens, e, sim, como, em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós, os que credes. (1Ts 2.13/1Ts 1.6/Jo 17.17).[10]

 

Os tessalonicenses ativamente “tomaram posse da Palavra” (paralamba/nw) que ouviram e, num ato subsequente, a receberam de forma prazerosa em seus corações (de/xomai). O receber pode ser um ato ou processo mais imediato; porém, o acolher envolve um processo de assimilação prazerosa, compreensão, aplicação e obediência.

 

Pelo Espírito eles creram, “acolheram” a mensagem e, a partir de então, Deus continuou operando eficaz e poderosamente em sua vida; notem bem; na vida dos que creram. O ouvir deve ser acompanhado pela fé; a Palavra não pode ser dissociada da fé. “A Palavra só exerce o seu poder em nós quando a fé entra em ação”, interpreta Calvino.[11] (Hb 4.2).[12]

 

Neste texto (1Ts 2.13), o tempo verbal de “acolher” (indicativo aoristo), significa uma ação realizada no passado. Os tessalonicenses revelavam no seu dia-a-dia, terem “acolhido“, “recebido” o “Evangelho” definitivamente como Palavra de Deus. A aceitação do Evangelho sempre traz frutos.

 

Paulo continua o seu argumento dizendo que este fato se materializava no comportamento da igreja: “Tanto é assim, irmãos, que vos tornastes imitadores das igrejas de Deus existentes na Judéia em Cristo Jesus” (1Ts 2.14).

 

Insistimos: Evidenciamos a nossa eleição por meio da recepção confessional e existencial da Palavra.

 

 

São Paulo, 28 de maio de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

 *Leia esta série completa aqui.

 


[1]João Calvino, Efésios, (Ef 1.4), p. 25.

[2] A.A. Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 51.

[3]C.H. Spurgeon, Sermões do ano de Avivamento, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 83,84. (Pregado em 6 de março de 1859).

[4]Ver: W. Hendriksen, 1 e 2 Tessalonicenses, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998, (1Ts 1.4), p. 71-72 e R.C.H. Lenski, Commentary on the New Testament, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1998, v. 9, (1Ts 1.4), p. 223.

[5] João Calvino, As Pastorais, (Fm 6), p. 368.

[6]João Calvino, As Institutas, III.2.7 (Calvino explica detalhadamente esta definição a partir do Livro III, capítulo 2, seção 14ss). (Vejam-se também: J. Calvino, As Institutas, I.7.5.; J. Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 11.11), p. 318; J. Calvino, Sermones Sobre La Obra Salvadora De Cristo, Jenison, Michigan: T.E.L.L. 1988, “Sermon nº 13”, p. 156).

[7]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.13), p. 35.

[8] Tem o sentido pessoal de tomar para si, levar consigo, tomar posse. É o próprio Senhor quem escolhe três discípulos para Se revelar (Mt 17.1; 20.17; 26.37/Mc 5.40). Ele mesmo, o Senhor Jesus nos receberá no céu (Jo 14.3/Mt 24.40).

[9] Tem também o sentido de “receber”, “aceitar”, “aprovar”. Estevão sendo apedrejado ora: “…. Senhor Jesus, recebe (de/xomai) o meu espírito!” (At 7.59).

[10] Com efeito, vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, tendo recebido (de/xomai) a palavra, posto que em meio de muita tribulação, com alegria do Espírito Santo” (1Ts 1.6).

[11] João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 4.2), p. 101. Para uma visão interpretativa diferente, entendendo que a variação das palavras aqui é irrelevante, veja-se: Andreas J. Köstenberger; Richard D. Patterson, Convite à interpretação bíblica: A tríade hermenêutica, São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 599-600.

[12]“Porque também a nós foram anunciadas as boas-novas, como se deu com eles; mas a palavra que ouviram não lhes aproveitou, visto não ter sido acompanhada pela fé naqueles que a ouviram” (Hb 4.2).

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (60)

10.4.4. Nossa responsabilidade

 

Como vimos, a nossa responsabilidade é preservar a unidade, tendo a paz de Deus como elemento orientador. Pedro, na sua segunda epístola trata deste assunto, a paz, mostrando como a igreja deve se comportar na era presente: Vivendo em paz. A paz, como todo o nosso bem-estar espiritual, está relacionada à nossa submissão ao Espírito Santo. “O pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz (ei)rh/nh) (Rm 8.6).

 

A paz com nossos irmãos não é algo mecânico, resultado natural de nossa paz com Deus. Em Cristo fomos reconciliados com Deus. A unidade da Igreja é uma realidade em Cristo. No então, somos pecadores, não nos tornamos perfeitos. O pecado ainda que não mais nos domine, continua a exercer influência. Por isso, cabe à Igreja preservá-la mediante um comportamento fundamentado nos princípios bíblicos. Jesus Cristo na Oração Sacerdotal ora para que a unidade cristã já existente seja aperfeiçoada (Jo 17.22-23).[1]

 

A verdade bíblica, é que nossa paz com Deus deve refletir-se em nossa paz com o nosso próximo, cultivando-a e preservando-a. Paulo, assim se despede da igreja de Corinto: “Quanto ao mais, irmãos, adeus! Aperfeiçoai-vos, consolai-vos, sede do mesmo parecer, vivei em paz (ei)rhneu/w); e o Deus de amor e de paz (ei)rh/nh) estará convosco (2Co 13.11).

 

Paulo apresenta uma recomendação preventiva: “Seja a paz (ei)rh/nh) de Cristo o árbitro (brabeu/w)[2] em vosso coração, à qual, também, fostes chamados em um só corpo; e sede agradecidos (Cl 3.15). As nossas atitudes, decisões e escolhas, devem ser dirigidas pela paz de Cristo que arbitra, governa e lidera o nosso coração. Desse modo, havendo pessoas que dificultem a paz, devemos tentar promovê-la.[3]

 

Devemos manifestá-la em nossa cotidianidade. “Se possível, quanto depender de vós, tende paz (ei)rhneu/w) com todos os homens(Rm 12.18).[4] Como nem sempre nos parece possível, devemos persegui-la, buscá-la intensamente.

 

Ao jovem Timóteo, Paulo exorta: Foge (feu/gw),[5] outrossim, das paixões da mocidade. Segue (diw/kw)[6] a justiça, a fé, o amor e a paz (ei)rh/nh) com os que, de coração puro, invocam o Senhor” (2Tm 2.22). (Do mesmo modo: Hb 12.14).

 

A paz, portanto, nunca deve ser à revelia da justiça e do amor. Paz na injustiça é apenas um mascaramento do sofrimento e um aumento da amargura que se revelará de forma ainda mais grave. Por outro lado, a paz em detrimento do amor pode ser apenas uma concessão racional cuja durabilidade logo se extinguirá. “Segundo a visão de Deus, paz é muito mais do que a ausência de algo. É a presença da justiça que produz relacionamentos verdadeiros. A paz não é apenas a suspensão da guerra; a paz é a criação da justiça que reúne inimigos em amor”, argumenta MacArthur.[7]

 

Jesus Cristo diz ao Pai que transmitiu a sua glória aos seus discípulos para que eles fossem aperfeiçoados (tele/iow)[8] na unidade” (Jo 17.23). Na realidade, para que fossem aperfeiçoados na condição de um, tendo o Pai e Filho como modelo (Jo 17.22). Ele já se referira ao Pai dizendo: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30).  Nesta oração, Jesus Cristo usara este verbo (tele/iow) para descrever a concretização de sua missão (Jo 17.4/Jo 19.28[9]).

 

            Calvino comenta que “A ajuda mútua que as diferentes partes do corpo oferecem umas às outras, não é considerada pela lei da natureza como um favor, mas, sim, como algo lógico e normal, cuja negativa seria cruel”.[10]

 

Leiamos mais uma vez o que Paulo escreveu aos efésios: Esforçando-vos diligentemente (Spouda/zw) por preservar (thre/w) a unidade do Espírito no vínculo (Su/ndesmoj) da paz” (Ef 4.3). A ideia expressa neste substantivo, Su/ndesmoj,[11] é a de unir, manter as coisas ligadas, ligar, algemar, prender, amarrar, acorrentar. (*At 8.23; Ef 4.3; Cl 2.19; 3.14). “A paz promove a perpetuação da unidade”.[12] A paz enlaça, envolve a unidade com as cordas do amor. (Veja-se: Cl 3.14).[13]

 

Não devemos permitir que a “unidade do Espírito” seja abalada em nosso relacionamento. A unidade é obra do Espírito, mas cabe a nós viver a sua plenitude no vínculo da paz (Rm 12.18) e no amor de Cristo (Jo 13.34-35; 15.12,17). Conforme já indicamos, o próprio tempo verbal de “esforçando-vos”, (Spouda/zw) (particípio presente), apresenta o conceito de um esforço contínuo, sem esmorecimento.[14]

 

Comentando sobre o egoísmo humano que gera divisões na Igreja e, ao mesmo tempo, a falta de tolerância, Calvino escreve exortando-nos a amar os nossos irmãos:

 

Há tanta rabugice em quase todos esses indivíduos que, estando em seu poder, de bom grado fariam para si suas próprias igrejas, porquanto se torna difícil acomodarem-se aos modos das demais pessoas. Os ricos invejam uns aos outros, e raramente se encontra um entre cem que acredite que os pobres são também dignos de ser chamados e incluídos entre seus irmãos. A menos que haja similaridade em nossos hábitos, ou alguns atrativos pessoais, ou vantagens que nos unam, será muitíssimo difícil manter uma perene comunhão entre nós. Essa advertência, pois, se torna mais que necessária a todos nós, a fim de sermos encorajados a amar, antes que odiar, e não nos separarmos daqueles a quem Deus nos uniu. Torna-se urgente que abracemos com fraternal benevolência àqueles que nos são ligados por uma fé comum. É indubitável que a nós compete cultivar a unidade da forma a mais séria, porque Satanás está bem alerta, seja para arrebatar-nos da Igreja, ou para desacostumar-nos dela de maneira furtiva.[15]

 

Em 19 de agosto de 1561, na Dedicatória de seu comentário do Profeta Daniel, Calvino fala de seu esforço por manter a paz – o que nem sempre tem sido possível – e, ao mesmo tempo, estimula seus irmãos a não ultrapassarem determinados limites. Escreve:

 

Mais ainda, é vossa incumbência, amados irmãos, tomar prudente cuidado para que a verdadeira religião possa novamente readquirir uma posição sã; isto é, até onde cada um tiver o poder e a vocação. Não é necessário dizer o quanto tenho lutado para remover toda e qualquer ocasião geradora de tumultos até agora. Clamo aos anjos e a vós para testemunhardes diante do supremo juiz que não é de minha responsabilidade que o progresso do reino de Cristo não tenha sido calmo e inofensivo. De fato, julgo ser em decorrência de meu cuidado que pessoas particulares ainda não passaram dos limites.[16]

 

A unidade da Igreja revela ao mundo o fato de que Deus nos ama como ama a seu Filho unigênito e, que este amor, se revelou de forma insofismável, na vinda do seu Filho amado para morrer pelos pecadores (Jo 3.16/Jo 17.21-23). Desta forma, a Igreja é o testemunho histórico do amor de Deus.

 

Francis Schaeffer (1912-1984), comentando sobre a nossa responsabilidade, diz:

 

Não podemos esperar que o mundo creia que o Pai mandou o Filho, que as reivindicações de Jesus sejam verdadeiras, e que o cristianismo seja verdadeiro, a não ser que o mundo veja alguma realidade na unidade de cristãos verdadeiros.[17]

 

Jesus Cristo considerou bem-aventurado os promotores da paz: “Bem-aventurados os pacificadores (ei)rhnopoio/j),[18] porque serão chamados filhos de Deus (Mt 5.9). Tiago diz que a sabedoria concedida por Deus, “lá do alto”, “é primeiramente pura; depois pacífica (ei)rhniko/j)[19] (Tg 3.17).

 

A sabedoria concedida por Deus não é intrigante nem facciosa; ela não está contaminada pelo espírito de discórdia e divisão, antes, é direcionada para promover a paz e a edificação na Palavra. A grande estratégia da sabedoria é promover a paz.

 

A Igreja, portanto, deve estar comprometida com a paz: procurar a paz, evitar as contendas e as atitudes que provocam dissensões.

 

Pedro, então, diz que a Igreja deve se esforçar para que Cristo quando voltar a encontre em paz com Deus e com o seu semelhante (2Pe 3.14).

 

Devemos procurar a paz, não a divisão e os mexericos que causam tanto mal à vida da Igreja. Lembremo-nos, contudo, que o fundamento da paz está em Cristo Jesus, não na acomodação do erro.

 

Temos um exemplo importante em Calvino. Conforme já citamos, o Reformador mesmo desejando a paz, entendia que essa paz nunca poderia ser em detrimento da verdade.

 

Naturalmente, há uma condição para entendermos a natureza desta paz, ou seja, a paz da qual a verdade de Deus é o vínculo. Pois se temos de lutar contra os ensinamentos da impiedade, mesmo se for necessário mover céu e terra, devemos, não obstante, perseverar na luta. Devemos, certamente, fazer que a nossa preocupação primária cuide para que a verdade de Deus seja mantida em qualquer controvérsia; porém, se os incrédulos resistirem, devemos terçar armas contra eles, e não devemos temer sermos responsabilizados pelos distúrbios. Pois a paz, da qual a rebelião contra Deus é o emblema, é algo maldito; enquanto que as lutas, indispensáveis à defesa do reino de Cristo, são benditas.[20]

 

Portanto, zelemos por nossa Igreja, estejamos atentos para nos encontrar com o Senhor. Esforcemo-nos para que ele nos encontre em paz: em paz com Deus e com os homens, fundamentados na verdade.

 

 

São Paulo, 22 de maio de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 *Leia esta série completa aqui.

 


[1] “O que Ele pede em oração aqui é que esta união, que já existe, seja guardada, seja continuada e seja preservada por Seu Pai” (D.M. Lloyd-Jones, Crescendo no Espírito. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2006 (Certeza Espiritual: v. 4), p. 157).

[2] Esta palavra só ocorre aqui. Ela tem o sentido também de “dar prêmios”, “julgar”, “reger”. No grego clássico, o brabeu/w funcionava como juiz de um jogo. No entanto a palavra também era empregada de forma metafórica, significando “liderar”, “reger” e “determinar”. A forma brabei=on ocorre 2 vezes no NT. sendo traduzida por “prêmio” (1Co 9.24 e Fp 3.14).

[3]Bom é o sal; mas, se o sal vier a tornar-se insípido, como lhe restaurar o sabor? Tende sal em vós mesmos e paz (ei)rhneu/w) uns com os outros” (Mc 9.50).

[4]Aparta-te do mal e pratica o que é bom; procura a paz e empenha-te por alcançá-la” (Sl 34.14).

[5] O verbo, no presente imperativo indica uma ação que deve se tornar um hábito de vida.

[6]O verbo está no presente imperativo ativo. Associando-se o fugir ao seguir, temos um comportamento constante e complementar que deve fazer parte da conduta cristã.

[7]John MacArthur Jr., O Caminho da Felicidade, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 151.

[8] A palavra tem o sentido de “cumprir”, “completar” (At 20.24); “terminar” (Lc 2.43; 13.32); “realizar” (Jo 4.34; 5.36), “consumar” (Jo 17.4; 19.28; At 19.28; Tg 2.22), “aperfeiçoar”; ”tornar perfeito”; “aperfeiçoado” (2Co 12.9; Hb 2.10; 5.9; 7.19; 9.9; 10.1,14;11.40; 12.23; 1Jo 2.5; 4.12,17,18); “perfeito” (Hb 7.28; 1Jo 4.18); “perfeição” (Fp 3.12).

[9]“Depois, vendo Jesus que tudo já estava consumado (tele/w), para se cumprir (tele/iow) a Escritura, disse: Tenho sede” (Jo 19.28).

[10]João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 39.

[11]O verbo sunde/w ocorre uma única vez no NT (Hb 13.3). Ele é constituído de duas palavras su/n, “junto com” e de/w, “amarrar”, “atar”, “prender”, “algemar”, “casar” (Mt 12.29; 16.19; Lc 13.16; Jo 19.40; At 9.2; 21.11,13,33; Rm 7.2; 1Co 7.27, etc.). Do mesmo modo, o substantivo (Su/ndesmoj) é composto de su/n, “junto com” e desmo/j, “prisão”, “cadeia”, “algemas” (Lc 13.16; At 23.29,31; Fp 1.7,13,14,17; 2Tm 2.9, etc.). No texto de Efésios, Paulo já empregara a expressão para si, como “prisioneiro de Cristo Jesus” (Ef 3.1) e “prisioneiro do Senhor” (Ef 4.1). Em ambos os textos, a palavra é de/smioj, expressão muito utilizada por Lucas e pelo próprio Paulo para falar de suas prisões. Ver: At 16.25; 23.18; 25.14; 27; 28.17; 2Tm 1.8; Fm 1,9.

[12]William Hendriksen, Exposição de Efésios, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, (Ef 4.2-3), p. 230.

[13]“Acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo (su/ndesmoj) da perfeição (teleio/thj) (Cl 3.14).

[14] Lloyd-Jones interpretando o emprego de Spouda/zw no texto, diz: “Devemos apressar-nos a fazer alguma coisa, a mostrar grande interesse, a expressar solicitude – ‘esforçando-vos para guardar’. Acima de tudo mais, diz o apóstolo, como cristãos nesta vocação para a qual vocês foram chamados, apressem-se a fazer isto, sejam diligentes quanto a isto, nunca o esqueçam, seja esta a coisa principal da sua vida; acima de todas as outras coisas, mostrem grande interesse e solicitude com respeito a unidade que existe entre vocês” (D.M. Lloyd-Jones, A Unidade Cristã, p. 36-37).

[15]João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 10.25), p. 272-273.

[16]João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, p. 26.

[17] F.A. Schaeffer, O Sinal do Cristão, Goiânia, GO.: ABUB; APLIC., 1975, p. 24. Veja-se também, A. Richardson, Introdução à Teologia do Novo Testamento, São Paulo: ASTE., 1966, p. 286-287. Em conversa que Schaeffer teve com Lloyd-Jones em Londres (?), este o chamou a atenção para o fato de que no divisionismo fundamentalista nos Estados Unidos estaria, por vezes, se excedendo na falta de bondade (Cf. William Edgar, Francis Schaeffer e a vida cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2018, p. 52).

[18] Esta palavra só ocorre aqui.

[19] Esta palavra ocorre duas vezes no NT.: Hb 12.11; Tg 3.17.

[20]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Edições Paracletos, 1996, (1Co 14.33), p. 437.