“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (17)


3) No Enviado de Deus vemos o modelo de obediência perfeita

Em Cristo, portanto, temos o modelo de obediência que o Pai requer de nós. A obediência de Cristo é um testemunho de que o Pai lhe enviou: “….as obras que o Pai me confiou para que eu as realizasse, essas que eu faço testemunham a meu respeito de que o Pai me enviou (a)poste/llw) (Jo 5.36). “…. o enviado (a)poste/llw) de Deus fala as palavras dele….” (Jo 3.34).

 4) É impossível crer no Pai sem crer no Enviado

    “A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado (a)poste/llw) (Jo 6.29). Ninguém de fato pode alegar ter fé em Deus, sem crer em Jesus Cristo.

            “E Jesus clamou, dizendo: Quem crê em mim crê, não em mim, mas naquele que me enviou” (Jo 12.44). “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim” (Jo 14.1).[1]

            Sem Jesus Cristo, o Pai continuaria inacessível a nós.[2]

Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém sabe quem é o Filho, senão o Pai; e também ninguém sabe quem é o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. (Lc 10.22).         

Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim. Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto. (Jo 14.6-7).

Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem. (1Tm 2.5).

            Uma fé supostamente depositada no “Pai” sem a aceitação do Filho como Senhor e Salvador, não é a genuína fé bíblica: Ninguém poderá crer em Deus sem fé em Jesus Cristo. Ninguém pode ter a Deus como Pai sem Jesus Cristo como irmão primogênito e Senhor (Rm 8.29).[3] “O objetivo final de nossa fé é Deus mesmo; mas vemos a sua glória através de Cristo, o qual é o caminho divinamente designado para revelar a glória de Deus”, comenta Owen (1616-1683).[4]

            Esta fé não é um sentimento vago a respeito de algo ou alguém, antes é resultado de um genuíno conhecimento de quem é Jesus Cristo. Ele é o Senhor. Crer em Deus até os demônios creem e tremem (*fri/ssw) (= tremer de medo) (Tg 2.19). Todavia, o texto nos fala de uma fé no “Senhor Jesus”. (16).

            Bavinck (1854-1921) assim se expressou:

A fé não justifica por meio de sua própria essência, nem age por ela mesma ser justa, mas por seu conteúdo, porque é fé em Cristo, que é nossa justiça. Se a fé justificasse por si mesma, o objeto desta fé (isto é, Cristo) perderia totalmente seu valor. Mas a fé que justifica é precisamente a fé que tem Cristo como seu objeto e conteúdo.[5]

5) Rejeitar o Enviado equivale a rejeitar quem O enviou

  Os discípulos por crerem no Filho creram também no Pai. Eles receberam o Enviado e quem o enviou. Em Jesus vemos o Pai em sua manifestação máxima. O próprio Senhor afirma: “Quem vos der ouvidos ouve-me a mim; e quem vos rejeitar a mim me rejeita; quem, porém, me rejeitar rejeita aquele que me enviou (a)poste/llw)(Lc 10.16).

6) A verdadeira paternidade de Deus

   Somente em Cristo podemos ter uma relação pessoal com o Pai e, somente pelo Pai reconhecemos o Filho, o Enviado.

Aos judeus, tão ciosos de sua filiação genética de Abraão, e de sua filiação divina, Jesus lhes expõe o seu engano.“Replicou-lhes Jesus: Se Deus fosse, de fato, vosso pai, certamente, me havíeis de amar; porque eu vim de Deus e aqui estou; pois não vim de mim mesmo, mas ele me enviou (a)poste/llw)(Jo 8.42).

            A nossa filiação divina tem como ingrediente fundamental a aceitação do Filho. Os filhos de Deus são os que creem em Cristo (Gl 3.26).

Algumas aplicações

            a) A vida eterna está diretamente relacionada ao crer em Cristo, enviado do Pai: E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste (a)poste/llw)(Jo 17.3). Não há vida eterna sem a fé em Cristo, o enviado de Deus.

            b) A Missão da Igreja inspira-se na missão conferida pelo Pai ao Filho. A oração de Cristo em favor da igreja é para que esta, no cumprimento de sua tarefa, seja um instrumento divino para que o mundo creia:

18 Assim como tu me enviaste (a)poste/llw) ao mundo, também eu os enviei (a)poste/llw) ao mundo. 19 E a favor deles eu me santifico a mim mesmo, para que eles também sejam santificados na verdade. 20 Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; 21 a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia (pisteu/w) que tu me enviaste (a)poste/llw). (Jo 17.18-21).

Após a ressurreição, Jesus Cristo estabelece a conexão entre a sua vinda e a missão de seus discípulos que lhes seria outorgada:“Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou (a)poste/llw), eu também vos envio” (Jo 20.21).

c) Na unidade da Igreja o Filho seria reconhecido pelo mundo como aquele que é amado e enviado do Pai:

22 Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos; 23 eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça (ginw/skw) que tu me enviaste (a)poste/llw) e os amaste, como também amaste a mim.(Jo 17.22-23).

d) A história é regida por Deus que age por intermédio dos meios ordinários e extraordinários para cumprir o seu propósito glorioso. Jesus Cristo, o enviado de Deus, é o próprio Deus que confere sentido à história e à nossa existência. No final, na consumação da história, nós seremos glorificados nele e Ele será glorificado em nós e por nós (Jo 17.10/2Ts 1.10-12).

e) Não podemos ter uma fé vaga a respeito de quem é Jesus Cristo. A pergunta que continua a ressoar e cuja resposta faz toda a diferença se somos ou não cristãos é: “Mas vós …. quem dizeis que eu sou?”(Mt 16.15).

Maringá, 15 de fevereiro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Vejam-se também: Jo 5.24; Mc 11.22; At 20.21; Rm 3.22, 26; 4.24; Gl 2.20; 1Pe 1.21; 1Jo 3.23.

[2]“A personalidade de Deus, para os cristãos, é manifesta na personalidade de Jesus, à parte de quem não sabemos nada sobre Deus (Jo 14.7)” (Gene Edward Veith, Jr., De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 42).

[3]“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8.29).

[4]John Owen, A Glória de Cristo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1989, p. 23. “Por meio da fé, Cristo nos é comunicado, através de quem chegamos a Deus, e através de quem usufruímos os benefícios da adoção” (João Calvino, Efésios, (Ef 1.8), p. 30).

[5]Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 214.

“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (16)


  Retornando à questão, vejamos alguns motivos que caracterizam a importância do reconhecimento do Filho como enviado do Pai:

1) No envio do Filho Deus demonstra ser o Senhor que dirige a História

Aqui devemos afirmar basicamente o cuidado de Deus conosco. O nosso Deus não é o Deus dos deístas,[1] distante de nós, como se o mundo fosse apenas um relógio que funcionasse autonomamente.[2] Antes, Jesus Cristo nos diz que seus discípulos creram no seu testemunho que atestava que o Pai o enviou ao mundo. Deus age na história e o maior de todos os eventos foi a vinda de Cristo.

Paulo indicando o pleno e total controle de Deus sobre a história e a relação pré-existente do Filho com o Pai, resume: “Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou (e)caposte/llw) seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei”(Gl 4.4).

“A plenitude do tempo” (Plh/rwma tou= xro/nou) (Gl 4.4) assinala o momento em que o “cronos[3] está completo; o tempo atingiu a sua plena medição: é o tempo preciso.

            Por isso, é que sem a Pessoa de Cristo, a História permanece como um enigma para todos nós. Jesus Cristo é o centro não apenas do calendário. Ele é de fato o centro significativo da História, assinalando que o grande evento, o evento central da História aconteceu: deu-se o cumprimento absoluto do tempo.[4] “Jesus Cristo é o centro para onde tudo converge. Quem O conhece, conhece a razão de todas as coisas”, enfatiza Pascal (1623-1662).[5] O clímax do plano de Deus se cumpriu.[6]

     O evento de Cristo como fato inconteste dá significado histórico ao nosso hoje existencial; à esperança dos que O antecederam em sua peregrinação histórica (Hb 11) e, à nossa esperança, que se fundamenta na vida, morte e ressurreição de Cristo, conforme o registro inspirado do Evangelho (1Co 15.1-19). A expectativa do futuro está fundamentada nos eventos do passado que, hoje, fazem uma diferença qualitativa na nossa perspectiva de vida. 

2) No envio do Filho vemos o amor salvador do Pai

Jesus Cristo é a prova mais evidente de que Deus nos ama. Leiamos alguns textos bíblicos:

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou (a)poste/llw) o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. (Jo 3.16-17).

Nisto se manifestou (fanero/w) o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado (a)poste/llw) o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele. Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou (a)poste/llw) o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. (1Jo 4.9-10).

E nós temos visto e testemunhamos que o Pai enviou (a)poste/llw) o seu Filho como Salvador do mundo. (1Jo 4.14).

Crer na procedência do Filho significa aceitar o amor do Pai.

Maringá, 15 de fevereiro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Palavra que parece ter sido usada pela primeira vez no século XVI pelos socinianos objetivando distinguirem-se dos ateus (Cf. Deísmo: In: A. Lalande, Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia, São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 236). É neste sentido que o teólogo calvinista, amigo e correspondente de Calvino, Pierre Viret (1511-1571) usou a expressão em 1564 em sua principal obra: “Há vários que confessam que acreditam que existe um Deus e uma Divindade, como os Turcos e os Judeus. Ouvi dizer que há nesse bando aqueles que se chamam Deístas, uma palavra totalmente nova que eles querem opor ao Ateísmo” (P. Viret, Instruction Chrétienne. Apud  Deísmo: In: A. Lalande, Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia, p. 236). Para um estudo detalhado do emprego que Viret fez da expressão, veja-se: C.J. Betts, Early Deism in France: From the so-called `deistes’ of Lyon (1564) to Voltaire’s `Lettres philosophiques’ (1734), Netherlands:  Martinus Nijhoff Publishers, © 1984, p. 6ss.  Para uma leitura mais resumida e acessível, consulte: Piland, Tiffany E., “The Influence and Legacy of Deism in Eighteenth Century America” (2011). Master of Liberal Studies Theses. 8, p. 4-5.  http://scholarship.rollins.edu/mls/8. (Consulta feita em 15.02.2020, às 20h10). A respeito do emprego da palavra ateísmo, veja-se também: R. Albert Mohler Jr., Ateísmo Remix: um confronto cristão aos novos ateístas, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2009, p. 21-22).

[2]O deísmo é uma denominação genérica das doutrinas filosófico-religiosas que surgiram em meados do século XVII, as quais, contrapondo-se ao “ateísmo”, afirmavam a existência de Deus; entretanto, negavam a Revelação Especial, os milagres e a Providência. Esse Deus é concebido preliminarmente como a causa motora do universo. Uma das ideias predominantes era a de que um Deus transcendente criou o mundo dotando-o de leis próprias e retirou-se para o seu ócio celestial, deixando o mundo trabalhar conforme as leis predeterminadas. Uma figura comum ao deísmo do século XVIII era a do relógio de precisão que seria o equivalente ao universo, que trabalha sozinho depois de se lhe dar corda (Figura usada no século XIV por Nicolaus de Oresmes [Cf. J.W. Charley, Deísmo: In: Wilton M. Nelson, ed. ger. Diccionario de Historia de la Iglesia, Miami, Florida: Editorial Caribe, 1989, p. 332]). Neste caso, Deus seria uma espécie de relojoeiro distante, apenas observando a sua criação sem “intervir” em suas questões cotidianas. A conclusão chegada pelos deístas, é a que as leis que regem o universo são imutáveis. O deísmo consequentemente atribui à Criação a capacidade de se sustentar e se governar por si mesma. Temos aqui um naturalismo autônomo.

            Desta forma, Deus é um proprietário ausente, que não age diretamente sobre a Criação; a única relação existente entre o Criador e a Criação, são as Suas leis deixadas, as quais regem o universo de forma determinista (Vejam-se: Destino: In: Voltaire, Dicionário Filosófico, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 23), 1973, p. 154-155; N.L. Geisler; P.D. Feinberg, Introdução à Filosofia, São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 218ss.; William J. Wainwright, Deísmo: In: Robert Audi, dir., Dicionário de Filosofia de Cambridge, São Paulo: Paulus, 2006, p. 212). Deus seria regente do universo “apenas de nome”.

              É significativa a observação de Schaeffer sobre Voltaire e o Deísmo (Veja-se: Francis A. Schaeffer, Como Viveremos, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 77).

[3]xro/noj = Tempo, período de tempo. Esta palavra grega – de onde vem “cronômetro”, “cronologia” –, enfatiza a expansão quantitativa e sequencial do tempo. Ocorre 54 vezes. É traduzida quase que impreterivelmente por “tempo”. Algumas das exceções: “Vezes”: Lc 8.29; “Prazo”: Lc 20.9; “Demora”: Ap 10.6

[4] Veja-se: A.A. Hoekema, A Bíblia e o Futuro, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1989, p. 27; Herman Ridderbos, El Pensamiento de Apóstol Pablo, Buenos Aires: Ediciones Certeza; Editorial Escaton, 1979, v. 1, p. 55-60.

[5]Blaise Pascal, Pensamentos, Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 16), 1973, VIII, 556. p. 178.

[6] Ver: James D.G. Dunn, A Teologia do Apóstolo Paulo, São Paulo: Paulus, 2003, p.183, 525-526.

“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (15)

3.4. Crer (pisteu/w) (Jo 17.8)

 “Manifestei (fanero/w) o teu nome (o)/noma) aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado (thre/w) a tua palavra. (…) Porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam (lamba/nw), e verdadeiramente conheceram  (e)/gnwsan a)lhqw=j) que saí de ti, e creram (pisteu/w) que tu me enviaste (a)poste/llw)”(Jo 17.6,8).

            O sentido do verbo crer, é o de estar totalmente persuadido, convencido. Esta persuasão é resultado de um conhecimento experimental. Os discípulos receberam e conheceram a Palavra encarnada (Jesus Cristo) e a palavra por Ele transmitida. Por isso creem. Estão totalmente convencidos de que Jesus Cristo é o enviado de Deus.

            Sem dúvida, o testemunho de Cristo revela o seu conhecimento intenso e real do Pai. Em outro contexto dissera: “Eu o conheço(oi)=da) porque venho da parte dele e fui por ele enviado (a)poste/llw)”[1] (Jo 7.29).

Os discípulos creram na procedência do Filho partindo da Palavra que eles receberam do Senhor. Na realidade, eles foram convencidos pelo testemunho de Cristo. Não foi algo mágico, antes, foram persuadidos. Notemos que Jesus Cristo manifestou o nome do Pai transmitindo as palavras que Ele lhe dera e, a partir daí, seus discípulos receberam (Jo 17.8) o testemunho de Cristo, reconheceram/ conheceram (Jo 17.7-8) no Pai a fonte de tudo que recebem e a procedência de Jesus Cristo.  Creram (Jo 17.8) que Jesus Cristo foi enviado pelo Pai, e, por fim, guardaram (Jo 17.6) a Palavra.

 Portanto, podemos concluir que o caminho do discipulado começa pela Palavra que, sendo recebida, guardada e crida, conduz-nos a Deus.

João registra que depois de Jesus pregar à mulher samaritana e aos demais samaritanos trazidos por ela,“Muitos outros creram (pisteu/w) nele, por causa da sua palavra” (Jo 4.41). Em outro contexto vemos que quando Jesus testemunhava a respeito do Pai, muitos creram nele:

28 Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do Homem, então, sabereis que EU SOU e que nada faço por mim mesmo; mas falo como o Pai me ensinou. 29 E aquele que me enviou está comigo, não me deixou só, porque eu faço sempre o que lhe agrada. 30 Ditas estas coisas, muitos creram (pisteu/w) nele. (Jo 8.28-30).

Não existe vida cristã sem a convicção de quem é Jesus Cristo e de sua procedência. O mundo, por não conhecer o Pai, também não reconheceu no Filho. o seu enviado. Os discípulos, por graça, tiveram uma percepção especial: “Pai justo, o mundo não te conheceu (mh/ ginw/skw); eu, porém, te conheci (ginw/skw), e também estes compreenderam (pisteu/w) que tu me enviaste (a)poste/llw) (Jo 17.25).

            Jesus Cristo enfatiza a importância de se manter a fé alicerçada na certeza de que o Pai enviou o Filho. A questão então é: por que é necessário crer que o Filho é enviado do Pai?

Jesus ressalta a importância desta convicção durante a sua oração, antes de ressuscitar a Lázaro:

Tiraram, então, a pedra. E Jesus, levantando os olhos para o céu, disse: Pai, graças te dou porque me ouviste. Aliás, eu sabia que sempre me ouves, mas assim falei por causa da multidão presente, para que creiam que tu me enviaste (a)poste/llw) (Jo 11.41-42).

Em uma única identificação direta, Jesus Cristo é chamado de forma definida de Apóstolo, o Enviado de forma única e singular, e, conforme o contexto, superior a Moisés e a Arão: “Por isso, santos irmãos, que participais da vocação celestial, considerai atentamente o Apóstolo (to\n a)po/stoloj)[2] e Sumo Sacerdote da nossa confissão, Jesus” (Hb 3.1).

Maringá, 15 de fevereiro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]O verbo a)poste/llw, significa “enviar’, “mandar” (Mt 2.16; 11.10; Jo 1.6; At 3.20). Primariamente, no grego secular, a palavra com emprego náutico, tinha o sentido de enviar um navio de carga ou uma frota em expedição militar. Somente mais tarde é que a palavra passou a indicar uma pessoa enviada, um emissário. (Vejam-se: K.H. Rengstorf, a)poste/llw: In: Gerhard Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing Co., 1983 (Reprinted), v. 1, p. 398-447 (especialmente, a página 407); E. von Eucken, et. al. Apóstolo: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 1, p. 234-239 (especialmente, a página 234).

[2] Posteriormente, Justino Mártir (c. 100-c.165 AD), também usaria esta expressão para Jesus Cristo (Veja-se: Justino de Roma, I Apologia, São Paulo: Paulus, 1995, 12.9; 63.5, p. 28 e 79).

“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26)(14)


2) Positivamente Considerando

a) Conhecer a Deus é partilhar da intimidade de ser também conhecido. Jesus, o Sumo pastor declara:  “Eu sou o bom pastor; conheço (ginw/skw)  as minhas ovelhas, e elas me conhecem (ginw/skw) a mim,  assim como o Pai me conhece (ginw/skw) a mim, e eu conheço (ginw/skw) o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas” (Jo 10.14-15).

          Conhecer envolve um relacionamento pessoal e afetivo. Jesus Cristo conhece pessoal e afetivamente o Seu povo. O conhecimento de Deus em relação ao Seu povo sempre denota uma relação íntima e amorosa pela qual Ele distingue os seus.[1]  Ele conhece os que lhe pertencem: “O firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo: O Senhor conhece (ginw/skw) os que lhe pertencem. E mais: Aparte-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor” (2Tm 2.19).

          O Senhor sabe que há ovelhas que ainda não fazem parte deste aprisco, mas, que, no momento certo, serão reunidas por Ele mesmo, o Bom Pastor:  

Eu sou o bom pastor; conheço (ginw/skw) as minhas ovelhas, e elas me conhecem (ginw/skw) a mim,  assim como o Pai me conhece (ginw/skw) a mim, e eu conheço (ginw/skw) o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor.(Jo 10.14-16).  (Vejam-se também: Ex 33.17; Am 3.2; Mt 7.23; 1Co 8.3).

 b) Conhecer envolve discernimento e atitude de obediência: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço (ginw/skw), e elas me seguem” (Jo 10.27). Elas o seguem por o identificarem como o seu pastor.

          Aos fariseus que criticam os discípulos de Jesus por colherem espigas de milho para comer no sábado, Jesus lhes diz: “Mas, se vós soubésseis (ginw/skw) o que significa: Misericórdia quero e não holocaustos, não teríeis condenado inocentes”(Mt 12.7). (Ver: Mt 9.13; Os 6.6).

Jesus  revela conhecer o Pai guardando a Sua Palavra. “Entretanto, vós não o tendes conhecido (ginw/skw); eu, porém, o conheço. Se eu disser que não o conheço, serei como vós: mentiroso; mas eu o conheço e guardo (thre/w) a sua palavra” (Jo 8.55).

 c) Conhecer o Filho é o mesmo que conhecer o Pai: É impossível alguém conhecer de fato a Deus Pai sem crer (conhecer) em Jesus Cristo.

          Jesus Cristo afirmara: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.  Se vós me tivésseis conhecido (ginw/skw), conheceríeis (ginw/skw) também a meu Pai. Desde agora o conheceis (ginw/skw) e o tendes visto”(Jo 14.6-7).

          Na sequência, Filipe, seu discípulo, ainda não entendendo perfeitamente o que Jesus dissera, suplica: “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta” (Jo 14.8). Obtém, então, a resposta: “…. Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido (ginw/skw)? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai?  Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras”(Jo 14.9-10).

          Portanto, é impossível alguém conhecer a Deus de fato  não reconhecendo a Cristo como o Deus encarnado, conforme escreve Owen (1616-1683): “Sem Cristo, nunca veríamos a Deus por nenhum momento quer aqui ou na eternidade (…). Somente Ele torna conhecida a anjos e seres humanos a glória do Deus invisível”.[2]

Destaquemos alguns pontos:

      1. O nosso conhecimento pode ser adequado, porém, limitado. Todo conhecimento é fé. Todo conhecimento é graça. Na glória conheceremos perfeitamente o que nos for dado conhecer por graça. O conhecimento de Deus é sempre precedido pela graça, nunca um desvelar-se pela nossa perspicácia intelectual ou “profundidade” espiritual.[3]  Devemos continuar progredindo no conhecimento de Deus.[4] “Antes, crescei na graça e no conhecimento  (gnw=sij)de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 3.18). A graça sempre antecede e possibilita o real conhecimento do Senhor.

      2. O genuíno conhecimento de Deus envolve necessariamente a compreensão de sua Palavra: “Agora, eles reconhecem (ginw/skw)que todas as coisas que me tens dado provêm de ti; porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam, e verdadeiramente conheceram  (ginw/skw)que saí de ti, e creram que tu me enviaste” (Jo 17.7-8).[5]

3. Conhecer a Deus é essencial para o nosso relacionamento com Ele: “Unicamente aquele que recebeu o verdadeiro conhecimento de Deus por meio da Palavra do Evangelho pode chegar a ter comunhão com Cristo”, escreve Calvino.[6] Nós não servimos a um Deus desconhecido.

4. O nosso conhecimento de Deus manifesta-se em obediência:[7] “Aquele que diz: Eu o conheço (ginw/skw) e não guarda (thre/w) os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está a verdade” (1Jo 2.4).

5. O conhecimento de Cristo é preventivo contra o pecado: “Todo aquele que permanece nele não vive pecando; todo aquele que vive pecando não o viu, nem o conheceu (ginw/skw)(1Jo 3.6).

6. Enquanto o oráculo na ilha de Delfos[8] recomendava como máxima“Conhece-te a ti mesmo” (gnwqiseauto/n). Jesus Cristo nos dá a sua Palavra para que possamos conhecer o Pai e, a partir daí sim, possamos conhecer todas as coisas.[9]

7. Conforme já expusemos, reconhecemos a Deus pelo entendimento que o Senhor Jesus Cristo nos dá: “Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento (dia/noia) para reconhecermos o verdadeiro); e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eternal” (1Jo 5.20).  Por isso, toda a nossa meditação na Palavra deve vir acompanhada de oração (Sl 119.18). “Os que conhecem Deus melhor são os que falam mais com Ele”, resume Lloyd-Jones.[10]

Maringá, 13 de fevereiro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Vejam-se: ‘A.W. Pink,  Os Atributos de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985, p. 23ss.; João Calvino,  Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 8.29), p. 295.

[2] John Owen, A Glória de Cristo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1989, p. 17.

[3] “O nosso presente conhecimento é deveras obscuro e débil em comparação com a gloriosa visão que teremos de Cristo em seu último aparecimento”(João Calvino, Exposição de Segunda Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995,  (2Co 3.18), p. 79).

[4] “Verdadeiramente sábio é aquele que sabe quão longe se acha do perfeito conhecimento. Mas devemos progredir em nossa cultura, a fim de não ficarmos sempre no conhecimento rudimentar. (…) É mister que nos esforcemos para que nosso progresso corresponda ao tempo que nos é concedido. (…) No entanto, poucos são aqueles que se disciplinam a fazer um balanço do tempo passado, ou que se preocupam com o tempo por vir. Portanto, somos justamente castigados por nossa negligência, visto que a maioria de nós dissipa sua vida nos estágios elementares, como crianças” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 5.12), p. 140). “O conhecimento dos santos nunca é suficientemente puro, senão que alguns problemas turvam seus olhos, e a obscuridade os impede a que vejam com clareza” (João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.16), p. 40).

[5] “O evangelho não começa com as minhas dores e penas, minha necessidade de orientação, minha aflição. Não, começa com conhecer a Deus (…) O objetivo do cristianismo é levar-nos ao conhecimento de Deus como Deus, e ao conhecimento do Senhor Jesus Cristo” (D. Martyn Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 127).

[6]John Calvin, Golden Booklet of the True Christian Life, 6ª ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1977, p.16.

[7] “Conhecer a Deus é experimentar seu amor em Cristo, e devolver esse amor em obediência” (C.H. Dodd, Apud William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, (I,II,III Juan y Judas), Buenos Aires: La Aurora, 1974,  v. 15, p. 52).

[8] Onde havia o templo dedicado a Apolo.

[9]“Não se pode duvidar de que um dos mais tormentosos pecados e tentações que assediam o cristão mediano é a tendência de examinar-se de maneira errada. (…) Você é introspectivo quando passa o tempo todo olhando para si mesmo, olhando para dentro de si e preocupado única e supremamente consigo mesmo” (D.M Lloyd-Jones, Salvos desde a Eternidade, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 1), p. 86). “Tudo quanto os filósofos têm inquirido sobre o summum bonum  revela estupidez e tem sido infrutífero, visto que se limitam ao homem em seu ser intrínseco, quando é necessário que busquemos felicidade fora de nós mesmos. O supremo bem humano, portanto, se acha simplesmente na união com Deus, Nós o alcançamos quando levamos em conta a conformidade com sua semelhança” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 4.10), p. 105). Para uma perspectiva biblicamente adequada do “autoconhecimento”, consulte: J.I. Packer,  O Plano de Deus para Você, 2. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2005, p. 191-205. Vejam-se também: João Calvino, As Institutas, I.1.1-3; I.6.1-I.9.1-3; David Martyn Lloyd-Jones, Uma Nação sob a Ira de Deus: estudos em Isaías 5, 2. ed. Rio de Janeiro: Textus, 2004,  p. 47-48, 194; R.K. McGregor Wright,  A Soberania Banida: Redenção para a cultura pós-moderna,  São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998, p. 15.

[10] D.M Lloyd-Jones, Salvos desde a Eternidade, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 1), p. 33.

“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (13)


3.3. Conhecer (ginw/skw)(Jo 17.8)  

 Foi por meio da Palavra que os discípulos reconheceram a procedência de Jesus Cristo: Ele procede da parte do Pai.

          O verbo conhecer (ginw/skw) e o substantivo conhecimento (gnw=sij) denotam um conhecimento experimental que faz com que possamos discernir os fenômenos, compreendendo a realidade das coisas.

          Têm também, o sentido de conhecimento pessoal. Este conhecimento é mais do que “saber”, é compreender a razão das coisas. A Pedro, admirado de o Senhor lavar-lhes os pés, Jesus diz: “O que eu faço não o sabes (oi)=da) agora; compreendê-lo-ás (ginw/skw) depois” (Jo 13.7).

          Curiosamente, o verbo conhecer (ginw/skw) aparece sete vezes na Oração Sacerdotal (Jo 17.3,7,8,23, 25 [3 vezes]):

E a vida eterna é esta: que te conheçam (ginw/skw) a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. (Jo 17.3).

Agora, eles reconhecem (ginw/skw)que todas as coisas que me tens dado provêm de ti; porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam, e verdadeiramente conheceram (ginw/skw)que saí de ti, e creram que tu me enviaste. (Jo 17.7-8).

Eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça (ginw/skw)que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim. (Jo 17.23).

Pai justo, o mundo não te conheceu (ginw/skw); eu, porém, te conheci (ginw/skw), e também estes compreenderam (ginw/skw)que tu me enviaste. (Jo 17.25).

          Destaquemos alguns pontos:

1) A vida eterna está em conhecer o Pai e o Filho (3).

2) Por meio da Palavra os discípulos conhecem a Cristo e a sua procedência (7-8,25).

3) O mundo – os que não creem – não conhece a Deus (25).

4) O Filho conhece perfeitamente o Pai (25).[1]

Analisemos alguns aspectos do conhecimento conforme descritos nas Escrituras.

1) Negativamente Considerando

a) O Mundo não conhece o seu Criador: Paulo diz que Deus não ficou sem dar testemunho de si mesmo: “Não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria” (At 14.17). A revelação de Deus foi progressiva, culminando em Jesus Cristo, a Palavra final de Deus:

Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, 2 nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. 3 Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, 4 tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles. (Hb 1.1-4).

          No entanto, os homens não o reconheceram: “O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu (ginw/skw) (Jo 1.10).

b) Usar o nome de Deus não significa relacionar-se com ele: Em geral existem pessoas que gostam de alegar privar da intimidade de homens e mulheres bem conceituados a fim de se promoverem, demonstrar poder ou influência. Israel, por exemplo, gostava de declarar que conhecia a Deus, no entanto, as suas obras negavam esta declaração. Por meio de Oséias, Deus revela esta incoerência: “Transgrediram a minha aliança e se rebelaram contra a minha lei. A mim, me invocam: Nosso Deus! Nós, Israel, te conhecemos ([dy)(yâda‛) (LXX: ginw/skw) (Os 8.1-2).

          Jesus em uma passagem escatológica, nos adverte:

21 Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. 22 Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? 23 Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci (ginw/skw). Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade. (Mt 7.21-23).

          Jesus Cristo declara que nunca os reconheceu como seus discípulos, em momento algum manteve com eles uma relação afetiva (Vejam-se: Êx 7.22; 8.7,18).

 c) Ignorância Espiritual de Israel: Exortando a um povo empedernido, Deus recorre à figura de dois animais para falar da ignorância culposa de Israel. Por intermédio de Isaías, referindo-se a Israel, diz:

Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, ó terra, porque o Senhor é quem fala: Criei filhos, e os engrandeci, mas eles estão revoltados contra mim. O boi conhece ([dy) (yâda‛) (LXX: ginw/skw) o seu possuidor, e o jumento (rAmx]) (châmôr) o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento ([dy) (yâda‛)[2] (LXX: ginw/skw), o meu povo não entende (!yBi) (bîyn).[3] (Is 1.2,3).

          Deus toma dois animais difíceis de trato: o boi e o jumento. Mostra que a obtusidade, a teimosia e a dificuldade de condução destes animais dão-se pela sua própria natureza, no entanto, assim mesmo, eles sabem reconhecer os seus donos, aqueles que lhes alimentam. O homem, por sua vez, como coroa da criação, cedendo ao pecado perdeu totalmente o seu discernimento espiritual. Já não reconhecemos nem mesmo o nosso Criador, antes, lhe voltamos as costas e prosseguimos em outra direção.[4]

No Salmo 32.9, Deus usa figuras fortes para falar da obtusidade daqueles que não atentam para a sua instrução: “Não sejais como o cavalo[5] ou a mula (dr,P,) (pered),[6] sem entendimento (!yBi) (bîyn), os quais com freios e cabrestos são dominados; de outra sorte não te obedecem” (Sl 32.9).

          A destruição de Israel estava relacionada à falta de discernimento da Palavra de Deus. Pouco antes do Cativeiro Assírio, Deus fala por meio de Oséias: “Não castigarei vossas filhas, que se prostituem, nem vossas noras, quando adulteram, porque os homens mesmos se retiram com as meretrizes e com as prostitutas cultuais sacrificam, pois o povo que não tem entendimento (!yBi) (bîyn) corre para a sua perdição” (Os 4.14).

          Os fariseus e os saduceus, apesar de todo o seu conhecimento religioso, tinham os olhos obscurecidos para entenderem o que Jesus fazia e ensinava. Eles sabiam interpretar as condições climáticas e atmosféricas (Mt 16.2,3), mas não conseguiam interpretar corretamente os sinais de Jesus Cristo.

Aproximando-se os fariseus e os saduceus, tentando-o, pediram-lhe que lhes mostrasse um sinal vindo do céu. 2 Ele, porém, lhes respondeu: Chegada a tarde, dizeis: Haverá bom tempo, porque o céu está avermelhado; 3 e, pela manhã: Hoje, haverá tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio. Sabeis (ginw/skw), na verdade, discernir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos? 4 Uma geração má e adúltera pede um sinal; e nenhum sinal lhe será dado, senão o de Jonas. E, deixando-os, retirou-se. (Mt 16.1-4).

Maringá, 13 de fevereiro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]“Entretanto, vós não o tendes conhecido (ginw/skw); eu, porém, o conheço (oi)=da). Se eu disser que não o conheço (oi)=da), serei como vós: mentiroso; mas eu o conheço (oi)=da) e guardo (thre/w) a sua palavra” (Jo 8.55).

[2] Um dos sentidos da palavra hebraica é o de “levar em consideração”, “considerar” (Ver: Os 13.4-5).

[3]O verbo (!yBi) (bîyn) e o substantivo (hn”yBi) (bîynâh) apresentam a ideia de um entendimento, fruto de uma observação demorada, que nos permite discernir para interpretar com sabedoria e conduzir os nossos atos. “O verbo se refere ao conhecimento superior à mera reunião de dados. (…) Bîn é uma capacidade de captação julgadora e perceptiva e é demonstrada no uso do conhecimento” (Louis Goldberg, Bîn: In: Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 172).

[4] Jones explora com vivacidade a analogia do texto. Veja-se: D. M. Lloyd-Jones, O Caminho de Deus, não o nosso, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2003, p. 43-46.

[5] As Escrituras chamam atenção apenas para a força do cavalo, não para a sua suposta inteligência (Sl 33.17; 147.10).

[6]A mula ou o mulo é gerado do cruzamento do cavalo com a jumenta ou do jumento com a égua; entretanto, ele é estéril, não podendo reproduzir-se. “As mulas são valiosas pelo fato que combinam a força do cavalo com a resistência e o passo firme do jumento, além de ter o vigor extra característico dos híbridos” (G.S. Cansdale, Mula: In: J.D. Douglas, ed. org.O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 2, p.1075).

“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (12)

c) Rejeitar a Palavra de Cristo é o mesmo que rejeitar o próprio Cristo. O nosso julgamento será à luz desta Palavra

“Quem me rejeita (a)qete/w) (negar,[1]aniquilar,[2] anular,[3] revogar)[4] e não recebe (lamba/nw) as minhas palavras tem quem o julgue; a própria palavra que tenho proferido, essa o julgará no último dia”(Jo 12.48).

A rejeição a Cristo já estabelece o julgamento. O não receber envolve o receber outra palavra, outra direção oposta. Não há sínteses possíveis aqui.

Quem rejeita o Filho, do mesmo modo, renega o Pai: “Quem vos der ouvidos ouve-me a mim; e quem vos rejeitar (a)qete/w) a mim me rejeita (a)qete/w); quem, porém, me rejeitar (a)qete/w) rejeita (a)qete/w) aquele que me enviou” (Lc 10.16).

Paulo, consciente da procedência de sua mensagem, insiste no ponto de que rejeitar a mensagem por ele anunciada, é o mesmo que rejeitar a Deus, o seu Autor (1Ts 4.8);[5] ela deve ser entendida como a Palavra de Deus para nós.[6] (Voltaremos a tratar sobre esse ponto).

3.2.3. Aquele que recebe o servo de Cristo, O recebe. Quem recebe a Cristo, recebe o Pai.

 “Em verdade, em verdade vos digo: quem recebe (lamba/nw) aquele que eu enviar, a mim me recebe (lamba/nw); e quem me recebe (lamba/nw) recebe (lamba/nw) aquele que me enviou” (Jo 13.20).

            Como é impossível ir ao Pai sem o Filho, e, da mesma forma, é impossível honrar o Pai rejeitando o Filho, receber a Cristo, o eterno Filho de Deus, significa receber também o Pai.

            De forma extensiva, vemos a dignidade, humildade e responsabilidade dos enviados por Cristo. Humildade, porque a fonte de sua autoridade e respeitabilidade, está em Cristo. Dignidade, porque foi enviado pelo próprio Senhor de todas as coisas, que graciosamente compartilha com seus servos a responsabilidade de anunciar o Evangelho (Ef 3.8)[7] e Responsabilidade, pela tarefa que temos de, como embaixadores de Cristo, representá-lo em nossa proclamação e testemunho, com fidelidade e integralidade, na certeza de que Deus agirá, conforme a sua boa vontade.

            O princípio estabelecido é bem resumido por Robertson:

Nunca confie em seus próprios poderes de persuasão como um modo de salvar os pecadores. Nunca espere até se sentir confiante para falar de Cristo. É em Deus e em sua verdade que as pessoas creem. Você deve continuar sendo apenas o instrumento.[8]

            Por isso, a aceitação da mensagem, é a aceitação do  próprio Cristo (Mt 10.40). Os vasos são modestos, porém, o seu conteúdo é de extremo valor: a Palavra do Senhor.

Algumas Aplicações

  1. A Igreja não tem poder para fazer com que as pessoas recebam e guardem a Palavra. Contudo, é sua missão facultar esta oportunidade por meio da pregação fiel da Palavra.
  2. A proclamação da Palavra faz parte do propósito eterno de Deus. Os escolhidos de Deus, confiados a Cristo, foram chamados por intermédio da Palavra transmitida por Cristo.
  3. A Missão da Igreja não termina na proclamação referente à salvação, antes, continua no ensino: A educação cristã é missão essencial da Igreja: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os (dida/skw)a guardar(thre/w) todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.19-20).
  4. Revelamos o nosso amor a Deus por meio de nosso apego à Palavra como norma de todo o nosso pensar e agir.
  5. Há uma relação inseparável: O Pai, o Filho, o Espírito e a Palavra. Ninguém conhecerá o Pai se não for por meio de Cristo, o Logos eterno (a Palavra encarnada) que nos dá a Palavra de Deus. Por isso, ninguém pode dizer que crê em Deus e não crê em Jesus ou que crê em Deus, mas não aceita a Palavra.
  6. O que caracteriza o cristão não é simplesmente os seus bons sentimentos e intenções, mas, ter uma relação direta com Deus por meio da recepção da Palavra: “O essencial é estar definitivamente relacionado com esta mensagem, com esta palavra – “(eles) guardaram a Tua Palavra”.[9]
  7. O desafio para nós cristãos é guardar, nos agarrar à Palavra em todos os nossos caminhos, sustentando, zelando e perseverando nela até o fim.
  8. A Palavra de Deus, meditada e guardada no coração, é preventiva contra o pecado:“Guardo no coração as tuas palavras, para não pecar contra ti” (Sl 119.11).
  9. A nossa relação com a Palavra deve ser de recebê-la e guardá-la integralmente, visto ser toda ela inspirada por Deus (2Tm 3.16). Não guardamos apenas partículas que circunstancialmente podem ser úteis para os nossos interesses duvidosos. Portanto, toda a Palavra de Deus é um tesouro precioso para o servo de Deus.[10]

Maringá, 10 de fevereiro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Mc 6.26.

[2] 1Co 1.19.

[3] Gl 2.21; 1Tm 5.12.

[4] Gl 3.15.

[5] “Dessarte, quem rejeita (a)qete/w) estas coisas não rejeita (a)qete/w) o homem, e sim a Deus, que também vos dá o seu Espírito Santo” (1Ts 4.8).

[6] Veja-se: J. Calvino, As Institutas, I.9.3. “Quando os homens falam, não o devem fazer em seus próprios nomes, nem formular nada que seja de sua vã imaginação e de seu cérebro, mas têm que fielmente apresentar aquilo que Deus lhes determinou e deu em incumbência. (…) Se alguém se introduz para falar no próprio nome, nada há nesse, senão precipitação, pois toma sobre si o que pertence a Deus somente” (João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 25).

[7]8A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo 9 e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas, 10 para que, pela igreja, a multiforme sabedoria (sofi/a) de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais, 11 segundo o eterno propósito que estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor, 12 pelo qual temos ousadia e acesso com confiança, mediante a fé nele (Ef 3.8-12).

[8]O. Palmer Robertson, Jonas – um estudo sobre compaixão, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 48. Conrad Pellikan (1478-1556), um dos tradutores da Bíblia de Zurique (1529), comentando At 16.4, escreveu: “…. ninguém pode ter fé na Palavra por suas próprias forças, Mas somente pelo dom do Espírito Santo. Portanto, ao ouvir as promessas do evangelho, não tenhamos esperança no poder da carne, mas oremos para que o Senhor abra nossos corações, conceda-nos o dom do Espírito, coloque em nós a fé e nos preencha com a obra da justiça” (Esther Chung Kim; Todd R. Hains, Comentário Bíblico da Reforma – Atos, São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 275).

[9]D.M. Lloyd-Jones, Seguros Mesmo no Mundo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 2), p. 80.

[10] Veja-se: C.H. Spurgeon, The Treasury of David,Peabody, Massachusetts: Hendrickson  Publishers, (s.d), v. 3, (Sl 119.11), p. 159.

“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (11)


3.2. Receber (lamba/nw) (Jo 17.8)

     “…. e eles as receberam (lamba/nw)….” (Jo 17.8).

  Receber significa também, tomar (Mt 13.31,33; 14.19); trazer (Mt 16.7); agarrar (Mt 21.35,39); levar (Mt 25.4); assumir (Fp 2.7; Ap 11.17); aceitar (Jo 3.11) etc.Os discípulos receberam a Palavra de Deus conforme transmitida por Jesus Cristo e a assumiram como norma autoritativa de seu procedimento. Analisemos alguns textos:

3.2.1. Receber a Cristo

     “Mas, a todos quantos o receberam (lamba/nw), deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome”(Jo 1.12). É no ato de receber a Cristo pela fé, por intermédio da Palavra anunciada, que se concretiza a nossa filiação. Fomos regenerados. Assim, nos tornamos filhos de Deus. Aqui somos feitos membros da família de Deus.

3.2.2. Aceitar o testemunho de Cristo

    “Em verdade, em verdade te digo que nós dizemos o que sabemos e testificamos o que temos visto; contudo, não aceitais (lamba/nw) o nosso testemunho” (Jo 3.11/Jo 3.32; Jo 5.43).

Tendemos a ser dominados por números e estatísticas. Eles não são maus em si. Contudo, quando se tornam o único parâmetro avaliativo do progresso do Evangelho, certamente nos encantaremos com miragens estatísticas ou, nos frustraremos em nossa visão megalomaníaca eclesiástica.[1]

O certo, é que a Palavra de Deus sempre encontrará rejeição e aceitação. Sabemos, contudo, que Ela permanece sendo o que é: imperecível. Mais: a sua aceitação não indica superioridade intelectual ou sensorial, antes, a graça de Deus. A sua rejeição, por sua vez, não significa, necessariamente, a condição final do pecador. Deus tem seus propósitos e tempo determinado.  Ele um dia também nos alcançou conforme a sua determinação e graça.

Portanto, continuemos a anunciar o Evangelho certos dessas verdades.

a) Somente quem aceita o testemunho de Jesus Cristo poderá certificar-se da veracidade de Deus e da sua Palavra

“Quem, todavia, lhe aceita (lamba/nw) o testemunho, por sua vez, certifica (sfragi/zw)[2] que Deus é verdadeiro” (Jo 3.33). A fé cristã não é um simples teste, um jogo, uma brincadeira com Deus. Não posso brincar com Deus; fazer de conta que aceito para testá-lo.

Para nos “certificar” de Deus temos que aceitar o testemunho de Cristo; e isto é graça. Somente os que aceitam o testemunho, a Palavra de Cristo, poderão, em sua obediência, se certificar de quão verdadeiro Deus é em majestade e em Suas promessas.

b) As pessoas tendem a valorizar a palavra do homem em detrimento da Palavra de Deus

“Eu vim em nome de meu Pai, e não me recebeis (lamba/nw); se outro vier em seu próprio nome, certamente, o recebereis (lamba/nw). Como podeis crer, vós os que aceitais (lamba/nw) glória uns dos outros e, contudo, não procurais a glória que vem do Deus único?”(Jo 5.43-44).

Não há problema algum em acreditarmos no que nos dizem. Sem dúvida, de acordo com as implicações disso e do que teremos que fazer a partir daí, é necessário maior cautela. A questão levantada por Jesus é que os seus ouvintes não se preocupavam com a essência do que foi dito, as evidências e, a sua procedência, mas, se lhes era agradável aos olhos e ouvidos.

O exame crítico é  costumeiramente desejável. Muitas vezes nos aprofundamos na compreensão de um conceito porque exercitamos um justo ceticismo cristão. A partir dessa compreensão, podemos avaliar o quão importante foi-nos dito e, também, a loucura do que quiseram nos fazer passar por verdade. Todavia, um problema comum a nós, é que tendemos a avaliar criticamente –  quando o fazemos -, apenas o que não apreciamos de imediato. O que nos soa agradável aos olhos e ouvidos, não carece de verificação. Confundimos exame crítico com má vontade e, interesse pelo que foi dito, com simplicidade acéfala.[3]

            Ouvidos e olhos vaidosos são péssimos conselheiros. Como nos alerta o livro de Jó:  “Porque o ouvido prova (!x;B’)(bahan)(examina, testa prova) as palavras, como o paladar, a comida” (Jó 34.3/Jo 12.11).

No texto, Jesus Cristo recrimina seus ouvintes, porque eles apreciavam a momentânea, enganosa e transitória glória de homens, rejeitando a genuína e imarcescível glória que provém de Deus.  Em síntese, eles não amavam a Deus nem criam nas Escrituras (Jo 5.47).

A palavra de Cristo não lhes parecia gloriosa porque não vinha com as cores e os sons que desejavam naquele momento. A mensagem de Cristo não era um novo evangelho, mas, um convite a um exame criterioso das Escrituras, onde encontrariam a vida eterna por meio dele, para quem toda ela apontava . Como nos chama atenção Hendriksen (1900-1982), o problema não foi falta de evidências, mas, falta de amor. (Jo 5.31-40).[4]

No entanto, eles, ao longo da história seriam enganados. (At 5.36-37).[5] E assim continuará para aqueles que rejeitam o testemunho de Cristo, sendo seduzidos por Satanás, o grande enganador. Satanás  como imitador de Deus,[6] procura realizar obras semelhantes às de Deus a fim de confundir os homens. Durante o tempo que lhe é permitido, tem sido bastante bem sucedido (2Ts 2.8-10).[7]    

Glória futura? Quem quer saber disso, quando estamos saudáveis e temos aparentemente tudo sob controle? Quando a nossa glória se limita a essa vida, o Reino celestial é mera utopia que empurramos para um lugar e tempo distantes do nosso agora, com seus afazeres tão urgentes. Por isso, inclusive, os judeus rejeitaram a mensagem do Senhor da Glória (Jo 1.11-12/1Co 2.8).

            A maioria das pessoas que conviveu com Jesus Cristo durante o seu ministério terreno não conseguia perceber que aquele homem tão doce e acessível, amado e odiado, reverenciado e temido, era o próprio Deus encarnado. O Deus, o Senhor da glória.[8] Paulo escreve aos coríntios mostrando a nulidade do conhecimento humano diante da sublimidade de Cristo, o Senhor: “Sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor (ku/rioj) da glória” (1Co 2.8/Tg 2.1/Jo 17.1-5; Ef 1.6,12).[9]

             Ele fez-se pobre por amor do Seu povo: “Pois conheceis a graça de nosso Senhor (ku/rioj) Jesus Cristo, que, sendo rico (plou/sioj), se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos (ploute\w) (2Co 8.9).

Maringá, 10 de fevereiro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Veja-se:  João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 3.11), p. 125-127.

[2] A palavra tem o sentido de “atestar”, “confirmar”, “selar”. Ela é especialmente usada para se referir ao selo do Espírito (2Co 1.22; Ef 1.13; 4.30).

[3]“Minha resposta a esta questão é que a doutrina de Deus não está sujeita ao juízo humano, senão que a tarefa do homem é simplesmente julgar, por meio do Espírito de Deus, se é sua Palavra que está sendo declarada, ou se, usando esta como pretexto, os homens estão erroneamente exibindo o que eles mesmos engendraram” (João Calvino, Exposição de 1 Coríntios,São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 14.29), p. 432).

[4] “A falta de amor sempre provoca cegueira. Não foi a falta de evidências, mas a falta de amor, que levou esses homens a rejeitarem a Cristo” (William Hendriksen, O Evangelho de João, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, (Jo 5.44), p. 279).

[5]36 Porque, antes destes dias, se levantou Teudas, insinuando ser ele alguma coisa, ao qual se agregaram cerca de quatrocentos homens; mas ele foi morto, e todos quantos lhe prestavam obediência se dispersaram e deram em nada.  37 Depois desse, levantou-se Judas, o galileu, nos dias do recenseamento, e levou muitos consigo; também este pereceu, e todos quantos lhe obedeciam foram disperses” (At 5.36-37).

[6] “Não me passa despercebido que Satanás é em muitos aspectos um imitador de Deus, a fim de, mediante enganosa similaridade, melhor insinuar-se à mente dos símplices” (J. Calvino,  As Institutas, I.8.2). “Satanás pode imitar muitos dos dons do Espírito Santo”   (D.M. Lloyd-Jones, Salvos desde a Eternidade,  São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 1), p. 92).

[7] “Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia (e)ne/rgeia) de Satanás, com todo poder (du/namij), e sinais (shmei=on) e prodígios (te/raj) da mentira” (2Ts 2.9). Neste texto fica claro que Satanás se vale de todos os recursos a ele disponíveis, contudo, como não poderia ser diferente, amparado na “mentira”,  já que ele é seu pai (Jo 8.44).

[8] Veja-se: R.C. Sproul, A Glória de Cristo, São Paulo: Cultura Cristã, 1997.

[9]“Sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória” (1Co 2.8). “Meus irmãos, não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas” (Tg 2.1). “Tendo Jesus falado estas coisas, levantou os olhos ao céu e disse: Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti, assim como lhe conferiste autoridade sobre toda a carne, a fim de que ele conceda a vida eterna a todos os que lhe deste. E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer; e, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo” (Jo 17.1-5).

“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (10)

b) O Guardar os Mandamentos de Deus[1]

  1) Jesus Cristo guarda a Palavra do Pai

   Jesus revela conhecer o Pai guardando a Sua Palavra:“Entretanto, vós não o tendes conhecido(ginw/skw); eu, porém, o conheço. Se eu disser que não o conheço, serei como vós: mentiroso; mas eu o conheço e guardo (thre/w) a sua palavra” (Jo 8.55). O conhecimento de Deus se manifesta em nossa obediência (guardar) à Palavra.

  2) A prática da Palavra revela a nossa comunhão amorosa e perseverante com Deus, seguindo o exemplo de Jesus Cristo

Jesus Cristo demonstra que o guardar os Seus mandamentos é uma prova de amor e de discipulado. Ele relaciona a obediência ao amor. Diz que o amor se revela em obediência. O Filho obedece ao Pai permanecendo no Seu amor: “Se guardardes(thre/w) os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; assim como também eu tenho guardado(thre/w) os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço”(Jo 15.10).

Ainda no contexto de sua despedida, o Senhor fala aos discípulos:

Se me amais, guardareis (thre/w)os meus mandamentos. (…) Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda (thre/w), esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele. Disse-lhe Judas, não o Iscariotes: Donde procede, Senhor, que estás para manifestar-te a nós e não ao mundo? Respondeu Jesus: Se alguém me ama, guardará (thre/w) a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada. Quem não me ama não guarda (thre/w) as minhas palavras; e a palavra que estais ouvindo não é minha, mas do Pai, que me enviou. (Jo 14.15,21-24).[2]

A genuína fé é conduzida pela Palavra à obediência. “A fé, quando é conduzida à obediência a Deus, mantém nossas mentes fixas em sua palavra”.[3] Este guardar envolve o homem todo: estamos comprometidos em crer/pensar (meditar) na Palavra, experimentá-la e praticá-la.

Guardar a Palavra é transformá-la na palavra final de nossa mente, emoção e vontade. Guardamos a Palavra quando Ela se torna o padrão de nosso pensar, sentir e agir. Como nos diz Lloyd-Jones (1899-1981): guardar é obedecer.

Vocês não guardarão realmente a Palavra se não a obedecerem. É uma palavra que não pode ser guardada só em seu intelecto; também tem que ser colocada em seu coração e em sua vontade. O homem que guarda a Palavra de Deus é o homem cuja personalidade a está guardando, o homem que medita e se regozija nela e cujo coração se inflama por ela, e assim ele a obedece.[4]

 3) São bem-aventurados aqueles que guardam até o fim as palavras reveladas por Deus

No Apocalipse lemos: “Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam (thre/w) as coisas nela escritas, pois o tempo está próximo” (Ap 1.3/Ap 3.3,8,10; 22.7,9).

Ao jovem que pergunta a Jesus, “Mestre, que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna?”, tem a resposta: “Se queres, porém, entrar na vida, guarda (thre/w) os mandamentos”(Mt 19.16,17).

Paulo no ocaso de sua vida, diz que guardou (conservou) a fé: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei (thre/w) a fé”(2Tm 4.7). Durante o seu combate e carreira, que agora se aproximavam do final, ele preservou e fortaleceu a sua fé. O bom combate da fé só é completado se perseverarmos até o final na fé: “Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam (thre/w) os mandamentos de Deus e a fé em Jesus” (Ap 14.12).

4) Deus tem uma herança reservada para os seus

Pedro conforta a Igreja perseguida com a certeza de que Deus, Deus mesmo tem preservado (guardado) para os Seus uma herança maravilhosa que ultrapassa em muito a nossa capacidade de exaustiva percepção (Ef 3.20):

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada  (thre/w) nos céus para vós outros. (1Pe 1.3-4).

c) A Igreja e sua Missão

Após a ressurreição de Jesus Cristo, Ele confia esta missão à Igreja:

Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar (thre/w) todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século. (Mt 28.19-20).

Portanto, a Igreja ensina ao mundo a Palavra e demonstra em sua vida o como, por inteira graça, é possível guardar os mandamentos de Deus. Percebam então, ainda que de passagem, a função “ensinadora” da Igreja. Ela tem a responsabilidade de ensinar aos crentes, aqui chamados de discípulos, a guardar, ou seja, obedecer aos ensinamentos de Cristo.

Portanto, a Igreja é constituída por aqueles que receberam a Palavra e a guardam (praticam). Os novos discípulos por aprenderem gradativamente esta Palavra se tornarão também mestres evangelistas que anunciarão e ensinarão a outros e outros.

No ato contínuo de guardar a Palavra revelamos o nosso amor a Deus que se materializa em obediência confiante. No guardar a Palavra de Deus como fonte e filtro de todas as nossas decisões, evidenciamos a nossa comunhão com o Deus que nos ama, fala e nos preserva. Guardar a Palavra significa preservar nossa mente, nosso coração e, consequentemente, os nossos atos, do pecado:“Guardo [}apfc (çãphan)[5] = “esconder”, “ocultar”, “entesourar”, “armazenar][6] no coração as tuas palavras, para não pecar contra ti” (Sl 119.11).[7]

Maringá, 04 de fevereiro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Na LXX thre/w aparece em especial no Livro de Provérbios. Vejam-se, por exemplo: Pv 3.1,21; 4.23; 19.16; 23.26.

[2]Vejam-se também: 1Tm 6.14; 1Jo 2.3,4,5; 3.22,24; 5.2-3; Ap 3.8, 10; 12.17; 14.12; 22.7,9.

[3]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 1999, v. 2, (Sl  38.10), p. 184.

[4] D.M. Lloyd-Jones, Seguros mesmo no Mundo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 2), p. 89.

[5] Na LXX o verbo usado é kru/tw, que tem o sentido de “esconder”, “ocultar”.

[6] Vejam-se: Sl 37.31;119.2,57,69; Pv 2.10-12. O verbo “guardar” tem o sentido de guardar com atenção, levando-a em consideração no seu agir (Veja-se no sentido negativo: Sl 10.8; 56.6; Pv 1.11,18); esconder algo considerado precioso ou importante a ponto de arriscar a sua própria vida para poder ocultar (Ex 2.2-3; Js 2.4) – Deus também nos “esconde”, nos “protege” dos inimigos (Sl 27.5; 31.19, 20; 83.3) –; ou algo precioso para alguém (Ct 7.13), tendo em vista sempre algum propósito. Portanto, guardar a Palavra no coração significa considerá-la em todo o nosso ser, sendo ela a norteadora do nosso sentir, pensar, falar e agir; o lugar da Palavra deve ser sempre no cerne essencial do homem. A Palavra é guardada em nosso coração quando está presente continuamente, não meramente como um preceito exterior, mas, sim, como um poder interno motivador, que se opõe ao nosso pensar e agir egoístas. A santidade inicia-se no coração, imbuída de um espírito agradecido, tendo como motivação final agradar a Deus.

[7] “A mente que entesoura as Escrituras tem seu gosto e juízo educados por Deus”(Derek Kidner, Salmos 73-150: introdução e comentário,São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1981, (Sl 119.11), p. 437).

“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (9)

3. Produz uma transformação Espiritual (Jo 17.6,8,14)

 A transformação espiritual passa pelo guardar (6), receber (8), reconhecer/conhecer (7,8) e crer (8) em Jesus Cristo e na Sua Palavra.

É importante entender e enfatizar que a Palavra de Deus não tem poder mágico. É fato que Deus opera por meio da Palavra. Contudo, não é por contaminação, osmose ou radiação, antes é pela persuasão e regeneração espiritual, que envolve uma transformação total e absoluta em todo o nosso ser.

Por isso é que precisamos, por graça, entender a Palavra  e  por essa mesma graça discernidora, continuemos em nossa edificação. A graça sempre antecede ao nosso conhecimento e nos assiste em nossa vida à fora.

            A Bíblia fechada não tem poder algum. Nem mesmo aberta ela funciona como talismã em nossa sala, paletó ou bolsa. Ela precisa ser lida, meditada e praticada. (trataremos deste ponto mais à frente).

Manifestei (fanero/w) o teu nome (o)/noma)aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado (thre/w) a tua palavra. Agora, eles reconhecem (ginw/skw) que todas as coisas que me tens dado provêm de ti; porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam (lamba/nw), e verdadeiramente conheceram que saí de ti, e creram (pisteu/w) que tu me enviaste.(Jo 17.6-8).

            Destaquemos algumas das palavras usadas pelo Senhor que indicam a transformação espiritual de seus discípulos:

3.1. Guardar (thre/w) (Jo 17.6)

Os discípulos de Cristo se revelam no fato de guardar a Palavra. No verso 6, Jesus observou que eles têm guardado a Palavra de Deus (teth/rekan), indicando a prática dos discípulos não apenas ocasional ou circunstancial antes, contínua. Ou seja: eles têm revelado em seus atos que guardaram a tua Palavra. Ela faz parte de seus pensamentos, atos e palavras.

            Neste mesmo versículo (6) Jesus Cristo diz que eles pertencem a Deus desde a eternidade. Notemos então, que Deus chama os seus por meio da Palavra. A transmissão da Palavra faz parte do propósito eterno de Deus; é um elo fundamental dentro da consecução do Pacto da Graça, tendo em Jesus Cristo o seu fiel despenseiro.

As Escrituras apontam para Cristo fornecendo-nos um conhecimento fidedigno. Ele nos conduz ao Pai: pertencemos a Deus. Fomos chamados por intermédio da Palavra. Esta é também a mais nobre tarefa da Igreja: glorificar a Deus por meio de sua obediência, anunciando fielmente a Palavra para que os que pertencem a Deus sejam reunidos e possam, juntamente conosco, glorificar a Deus.

Mas, o que significa guardar a Palavra? No texto que estamos analisando a palavra aparece quatro vezes: Além do verso 6, encontramos em sua oração outras menções:

Já não estou no mundo, mas eles continuam no mundo, ao passo que eu vou para junto de ti. Pai santo, guarda-os (thre/w) em teu nome, que me deste, para que eles sejam um, assim como nós. Quando eu estava com eles, guardava-os (thre/w) no teu nome, que me deste, e protegi-os, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura. (…) Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes (thre/w) do mal (Jo 17.11,12,15).

3.1.1. Usos eufemísticos

Em nossa cultura, ainda que não exclusivamente, a palavra guardar tem vários empregos eufemísticos. Cito alguns exemplos:

 a) Perder: “Aquele documento está tão bem guardado que não consigo achá-lo”.

b) Esquecer: Guardar na gaveta, “engavetar”.

c) Matar: Guardar a peixeira, referindo-se ao ato de enfiá-la no seu oponente e, concomitantemente, dizer com um tom tragicamente irônico: “guarda esta peixeira aí para mim”.

d) Reservar: Guardar lugar na fila; reservar algo para um amigo: “guardei para você um cachorro quente da igreja”.

e) Ressentir: “Guardei o que você fez comigo”.

 f) Vingança: “O que é seu está guardado”.

g) Proteger: Guardar o carro. Daí o “guarda noturno” que, se não for vigilante, não “guardando” o sono de dia, termina por dormir à noite.

h) Prender/Deter: “Guardar o meliante”.

3.1.2. Sentido do Novo Testamento

  O verbo thre/w, além guardar, tem o sentido de “deter”, “preservar”, “conservar”, “observar”, “reservar”, “proteger”, guardar com um propósito ou por um tempo determinado (At 25.21;1Pe 1.4; 2Pe 2.4,9,17; 3.7).

a) Manter seguro, preso

Lucas assim narra o episódio da prisão de Pedro:

Pedro, pois, estava guardado (thre/w) no cárcere; mas havia oração incessante a Deus por parte da igreja a favor dele. Quando Herodes estava para apresentá-lo, naquela mesmanoite, Pedro dormia entre dois soldados, acorrentado com duas cadeias, e sentinelas à porta guardavam (thre/w) o cárcere.(At 12.5-6).[1]

Maringá, 04 de fevereiro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Relatando a situação de  Paulo e Silas presos, escreve Lucas: “E, depois de lhes darem muitos açoites, os lançaram no cárcere, ordenando ao carcereiro que os guardasse (thre/w) com toda a segurança” (At 16.23).Félix orienta o Centurião no que se refere a Paulo: “E mandou ao centurião que conservasse a Paulo detido (thre/w), tratando-o com indulgência e não impedindo que os seus próprios o servissem” (At 24.23). “Festo, porém, respondeu achar-se Paulo detido (thre/w) em Cesaréia; e que ele mesmo, muito em breve, partiria para lá” (At 25.4).Festo narrando ao rei Agripa o ocorrido com Paulo, diz: “Mas, havendo Paulo apelado para que ficasse em custódia(thre/w) para o julgamento de César, ordenei que o acusado continuasse detido (thre/w) até que eu o enviasse a César”(At 25.21).

“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (8)

2.6. Manifestar o nome significa manifestar a pessoa

“Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra” (Jo 17.6).“Eu lhes fiz conhecer (gnwri/zw) o teu nome e ainda o farei conhecer (gnwri/zw)….” (Jo 17.26).

 O nome de Deus só pode ser genuinamente conhecido por meio do conhecimento salvador de Jesus Cristo.[1] Deus livre e soberanamente se dá a conhecer em Jesus Cristo. A revelação é um ato da livre graça de Deus.[2]

Jesus Cristo não se perdeu em questões periféricas, antes diz que manifestou o nome de Deus, ou seja: anunciou o caráter, os atos e as perfeições de Deus.

A palavra “Senhor” que aparece em nossas traduções do Antigo Testamento, geralmente é a tradução do tetragrama hebraico hwhy (YHWH), que é reconhecido como sendo o nome pessoal, real, essencial e pactual de Deus (hw”hoy>) (Yehovah), o qual não é atribuído a nenhum outro suposto deus ou seres angelicais.[3] “O ‘nome’ é Deus em revelação”.[4] (hw”hoy>) (Yehovah) é o nome revelacional de Deus (Ex 3.14-15; 6.2-3), “Eu sou o que sou” ou, “Eu sou o que serei” ou ainda: “Eu serei o que serei”. Porém, a sua origem é disputada entre os eruditos, não se tendo uma opinião consensual.[5] No entanto, é o nome com o qual Deus se manifesta a Moisés e pelo nome que quer ser sempre lembrado.

Ninguém pode atribuir nome a Deus. Deus não tem nome no sentido de distingui-lo ou descritivo de sua natureza essencial.[6] Os nomes fazem parte de sua autorrevelação. O desvelar-se adequado e ao mesmo tempo, acomodatício de suas perfeições aludindo a aspectos de sua identidade santa e perfeita.[7] No entanto, nem um nome ou todos os nomes coligados esgotam as suas perfeições. Deus em sua simplicidade, não é composto. Na integridade única de seu ser, há perfeição, totalidade e harmonia absolutas. Deus não tem amor, justiça e santidade, por exemplo, mas, é absolutamente amor, justiça e santidade. É absolutamente absoluto!

Como temos visto, nós podemos conhecer a Deus como Criador porque Ele ao longo da história tem se dado a conhecer claramente na Criação. Nós, cristãos, podemos conhecê-lo pelo nome porque Ele mesmo se apresentou a nós. O Criador que se mostra na Criação, é o nosso Pai, conforme nos foi dado a conhecer em Cristo, nosso irmão mais velho. Conhecer a Deus sempre é graça!

O Senhor é o Deus da Aliança que se revelou por meio de seus atos e da sua Lei. É um Deus Pessoal que se relaciona pessoalmente com o seu povo (Ex 3.14). A grandeza de Deus é-nos manifesta de forma concreta por meio de sua revelação. O mistério é enaltecido no ato de Deus desvelar-se. Isso é grandioso demais para nós.[8]

O nome é a própria Pessoa em Seus atos.[9] Nas Escrituras os nomes de Deus revelam aspectos do seu caráter e perfeição. Quando o nome do Pai é associado ao do Filho e ao do Espírito Santo, “assume o caráter de perfeição e plenitude”.[10]

Ele nos guarda em seu nome que é poderoso. Nele podemos nos refugiar e sentir-nos seguros. Esse é o testemunho dos servos de Deus:

O SENHOR te responda no dia da tribulação; o nome do Deus de Jacó te eleve em segurança. (Sl 20.1).

O mestre de canto. Salmo didático. Para instrumentos de cordas. De Davi, quando os zifeus vieram dizer a Saul: Não está Davi homiziado entre nós? Ó Deus, salva-me, pelo teu nome, e faze-me justiça, pelo teu poder. (Sl 54.1).

Torre forte é o nome do SENHOR, à qual o justo se acolhe e está seguro. (Pv 18.10).[11]

O nome de Deus é a sua própria natureza. O nome abrange tudo quanto nos foi revelado a seu respeito: Todos os seus atributos revelados e todas as suas obras.[12] O nome de Deus está relacionado à sua revelação;[13] Jesus revelou (fanerw/n[14] = “tornar claro”; “manifestar”, “fazer conhecido”) o nome do Pai (Jo 17.6).

 Revelar o nome significa revelar a própria pessoa e o seu caráter. Do mesmo modo: confiar no nome é o mesmo que confiar na pessoa (Sl 9.10; 20.7; 22.22; Mt 12.21[15] etc.).[16] No Salmo 8.1, a majestade de Deus e o seu nome, são poeticamente sinônimos.[17]

     Jesus Cristo diz a Ananias que Paulo, antigo perseguidor e agora convertido a Cristo, era um instrumento escolhido  “…. para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel” (At 9.15).

     O nome também está também relacionado à reputação da pessoa. O Evangelista Marcos registra: “Chegou isto aos ouvidos do rei Herodes, porque o nome de Jesus já se tornara notório (fa/nero/j)….” (Mc 6.14).

     No Apocalipse lemos: “Ao anjo da igreja em Sardes escreve: Estas coisas diz aquele que tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas: Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto”(Ap 3.1).

     Os falsos discípulos usam o nome de Cristo indevidamente, pretendendo uma intimidade inexistente. Profetiza Jesus:

Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade. (Mt 7.22-23).

     Glorificar o nome de Deus é o mesmo que glorificar a Deus. Jesus Cristo ora: “Pai, glorifica o teu nome. Então, veio uma voz do céu: Eu já o glorifiquei e ainda o glorificarei” (Jo 12.28).

            Orar em nome de Jesus é dizer ao Pai que o seu Filho eterno, o nosso irmão mais velho, subscreveu o que estamos dizendo. Orar no nome de Jesus significa a confiança única e exclusiva na suficiência de seus méritos.[18] A nossa oração não pode ser uma diminuição da santidade de Cristo. Como bem compreendeu Pink, ao escrever:

Solicitar algo a Deus, em nome de Cristo, quer dizer solicitar-lhe algo em harmonia com a natureza de Cristo! Pedir algo em nome de Cristo, a Deus Pai, é como se o próprio Cristo estivesse formulando a petição. Só podemos pedir a Deus aquilo que Cristo pediria. Pedir em nome de Cristo, pois, significa deixar de lado nossa vontade própria, aceitando a vontade do Senhor![19]

            O nosso problema fundamental, é que nos falta um conhecimento pessoal de Deus, um conhecimento de quem Ele é. Portanto, de uma confiança resultante da certeza de quem é o Deus em quem cremos.

A Palavra anunciada por Cristo revelava a Deus como Senhor de todas as coisas, evidenciando aspectos da sua natureza. Apenas em caráter ilustrativo podemos afirmar que na Oração Sacerdotal vemos Deus como:

  1. Pai (1)
  2. O Senhor da Glória (1,4,5)
  3. Todo-Poderoso (2). Ele tem autoridade (e)cousi/a) sobre todas as coisas.
  4. Deus que se revela (3). Deus se revela para ser conhecido. Ele enviou o seu Filho com este propósito.
  5. O único Deus verdadeiro (3)
  6. Deus eterno (5)
  7. Pai que escolhe os Seus (6,9)
  8. Todo-Poderoso para guardar os Seus (6,9,11,15)
  9. Pai Santo e Santificador (11,17)
  10. Acolhedor (21). O Pai nos acolhe em Sua intimidade com o Filho a fim de sermos um povo, unido com Eles.
  11. Ama o seu Povo (23)
  12. Ama o Filho (23-24,26)
  13. Pai Justo (25)
  14. Pai que permanece eternamente unido ao Filho (21-24).

Algumas Aplicações

1) A Palavra de Deus não foi transmitida por Jesus Cristo apenas para a nossa satisfação intelectual e espiritual; mas para que sejamos conduzidos a Ele em reverente temor.

Lloyd-Jones (1899-1981 é enfático:

Se a mensagem da Bíblia nunca lhe deixou desconfortável, então você nunca a ouviu de verdade. Muitos pensam que o cristianismo é meramente algo que nos dá um tapinha nas costas dizendo: “Não se preocupe nem se angustie, já tudo irá dar certo”. Contudo isso não é cristianismo: isso é das seitas, isso é psicologia.[20]

2) A Palavra de Deus tem sempre um caráter de urgência: “Hoje é o dia da Salvação” –. Ela se dirige a homens que vivem dentro do tempo, mas, que não são senhores do tempo. Por isso, ela precisa ser anunciada com urgência.

3) A Palavra de Deus é inquietante: Diante de Deus não podemos permanecer omissos. Ela exige uma resposta que reflita uma posição diante do que ouvimos: Não podemos permanecer indiferentes.

4) Isaías confrontado com o Deus da Palavra, diz: “Ai de mim! Estou perdido”(Is 6.5). Na sequência, se posiciona: “Eis-me aqui, envia-me a mim”(Is 6.8).

5) Os discípulos foram confrontados com a Palavra de Deus. Pelo testemunho de Cristo creram que tudo que Ele manifestou proveio de Deus: “eles reconhecem que todas as coisas que me tens dado provêm de ti” (7). Receberam e guardaram a Palavra de Deus: “…. eles têm guardado a tua palavra. (…) Eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam….”(Jo 17.6,8).  A Palavra é para ser crida, recebida e guardada.

Maringá, 04 de fevereiro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Veja-se: Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 167.

[2] “Deus não pode ser apreendido pela mente humana. É mister que Ele se revele através de Sua Palavra; e é à medida que Ele desce até nós que podemos, por sua vez, subir até os céus” [João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6,São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, (Dn  3.2-7), p. 186]. “Ele não nos manda que subamos incontinenti aos céus, e, sim, perscrutando nossa debilidade, Ele mesmo desce até nós” (João Calvino, O Livro dos Salmos,São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 42.1-3), p. 257).

[3] Cf. Paulo Anglada, Soli Deo Gloria: O Ser e as obras de Deus, Ananindeua, PA.: Knox Publicações, 2007, p. 35.

[4]Geerhardus Vos, Teologia Bíblica, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 139.

[5] Uma breve, porém, ótima discussão sobre o assunto temos em Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 144-147. Mais atual, porém, menos crítico: Terence Fretheim, Javé: In: Willem A. VanGemeren, org. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 4, p. 736-741.

[6] Veja-se: François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 253.

[7] “Na Escritura o nome de Deus é autorrevelação. Somente Deus pode dar nome a si mesmo; seu nome é idêntico às perfeições que ele exibe no mundo e para o mundo. Ele se faz conhecido ao seu povo por meio de seus nomes próprios: a Israel, como YHWH, à igreja cristã, como Pai. Os nomes revelados de Deus não revelam seu ser como tal, mas sua acomodação à linguagem humana” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 97).

[8]“O verdadeiro mistério só pode ser entendido como um mistério genuíno mediante a revelação. (…) Porque a revelação do Nome é a automanifestação do Deus que é livre, e exaltado acima deste mundo, é só isto que nos confronta com o verdadeiro mistério de Deus. Por isso a revelação do Nome de Deus está no centro do testemunho bíblico da revelação” (Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 157).

[9] “O nome de Deus, de maneira como o explico, deve ser aqui subentendido como sendo o conhecimento do caráter e perfeições de Deus, até ao ponto em que ele se nos faz conhecido. Não aprovo as especulações sutis daqueles que creem que o nome de Deus significa nada mais nada menos que Deus mesmo” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 8.1), p. 158).

[10] H. Bietenhard; F.F. Bruce, Nome: In: Colin Brown, ed. ger.O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento,v. 3, p. 281.

[11] “Nas Escrituras o nome sempre vale pelo caráter; vale pela perfeição da pessoa e seus atributos; representa o que a pessoa realmente é. O nome é o que revela verdadeiramente a pessoa e é a conotação de tudo o que a pessoa é na essência” (D. Martyn Lloyd-Jones, Seguros mesmo no Mundo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, (Certeza Espiritual, v. 2), 2005, p. 52).

[12] “‘O nome’ significa tudo quanto está envolvido na pessoa de Deus, tudo quanto nos foi revelado a respeito de Deus. Significa Deus em todos os Seus atributos, Deus em tudo quanto Ele é em Si mesmo, Deus em tudo quanto Ele tem realizado e continua realizando”(D. M. Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte,São Paulo: FIEL., 1984, p. 345).“O nome significa a representação gloriosa de Deus no mundo criado” (K. Barth, La Oración,Buenos Aires: La Aurora, 1968, p. 45).

[13] Heródoto registra uma tradição, relacionada com os Pelasgos, os quais em tempos antigos sacrificavam “aos deuses todas as coisas que lhes podiam oferecer (…) lhes dirigiam preces, não lhes dando, todavia, nem nome nem sobrenome, pois nunca os viram designados por tal forma. Chamavam-nos deuses, de um modo geral, considerando-lhes a função de estabelecer e manter a ordem no universo. Não vieram a conhecer senão muito mais tarde os nomes dos deuses, quando os egípcios os divulgaram….” (Heródoto, História,Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.],  II.52).

[14] Este verbo é empregado por João para indicar o início da “manifestação” da glória do Filho através do milagre da transformação da água em vinho (Jo 2.11). Coube a Cristo – Aquele que se manifestou em carne (1Tm 3.16; 2Tm 1.10) – revelar aos seus santos o “mistério” que estivera oculto a respeito da glória de Deus, sendo confiado a Paulo este anúncio (Cl 1.26,27/Tt 1.3). Nesta revelação do Pai no Filho, vemos a manifestação do amor do Deus Pai e do Deus Filho (1Jo 4.9/1Pe 1.20). A manifestação do Filho aniquilou o pecado e o poder do diabo (Hb 9.26; 1Jo 3.5,8). Os irmãos de Jesus, de forma provocativa, desafiaram-no a manifestar publicamente os Seus sinais (Jo 7.4). Por meio da igreja Deus revela a fragrância do conhecimento de Cristo (2Co 2.14). A manifestação final do Filho será glorificante (Cl 3.4; 1Pe 5.4; 1Jo 3.2). Os que abandonam definitivamente a Igreja de Cristo revelam quem realmente são (1Jo 2.19).

[15] “Em ti, pois, confiam os que conhecem ([dy) (yada) o teu nome, porque tu, SENHOR, não desamparas os que te buscam” (Sl 9.10). “Uns confiam em carros, outros, em cavalos; nós, porém, nos gloriaremos em o nome do SENHOR, nosso Deus” (Sl 20.7). “A meus irmãos declararei o teu nome; cantar-te-ei louvores no meio da congregação” (Sl 22.22). “E, no seu nome, esperarão os gentios” (Mt 12.21).

[16]Vejam-se: H. Bietenhard, o(/noma, etc.: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1981 (Reprinted), v. 5, p. 242-283; J.A. Motyer, Nome: In: J.D. Douglas, ed. org.O Novo Dicionário da Bíblia,São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 2, p 1120-1122; H. Bietenhard; F.F. Bruce, Nome: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 276-284; C. Biber, Nome: In: J.J. von Allmen, dir.Vocabulário Bíblico, 2. ed.São Paulo: ASTE., 1972, p. 275-278; J.T. Muller, Nombre: In: E.F. Harrison, ed. Diccionario de Teologia, Michigan; T.E.L.L., 1985, p. 370-371; W. Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora, 1974, v. 6, p. 232-234; Herman Hoeksema, Reformed Dogmatics, 3. ed. Grand Rapids, Michigan: Reformed Publishing Association, 1976, p. 337-338; A. Van Den Born; V. Imschoot, Nome de Deus e Nome Próprio: In: A. Van Den Born, red. Dicionário Enciclopédico da Bíblia, 2. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1977, p. 1048-1050; G. Hendriksen, El Evangelio Segun San Mateo, Grand Rapids, Michigan: Subcomision Literatura Cristiana, 1986, p. 342; A. R. Crabtree, Teologia do Velho Testamento, 2. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1977, p. 61ss.; W.E. Wine, Diccionario Expositivo de Palabras del Nuevo Testamento, Terrassa, Barcelona: CLIE., 1984, v. 3, p. 65; R. Youngblood, Significados dos nomes nos Tempos Bíblicos. In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã,São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 3, p. 25; Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 155-167; Herman Bavinck, Reformed Dogmatics: God and Creation, Grand Rapids, MI.: Baker Academic, 2004, v. 2, p. 95-147; Paulo Anglada, Soli Deo Glória: O Ser e Obras de Deus, Ananindeua, Pará: Knox Publicações, 2007, p. 31-53; Russel P. Shedd, A Solidariedade da Raça: O Homem em Adão e em Cristo,São Paulo: Vida Nova, 1995, p. 18-20; G. Von Rad, Teologia do Antigo Testamento, 2. ed. São Paulo: ASTE, 1973, v. 1, p. 186-192; H.H. Rowley, A Fé em Israel: aspectos do pensamento do Antigo Testamento, São Paulo: Paulinas, 1977, p. 52ss.; Daniel I. Block, O Evangelho segundo Moisés − Reflexões teológicas e éticas no livro de Deuteronômio, São Paulo: Cultura Cristã, 2017,  p. 255ss.

[17] Cf. Peter C. Craigie; Marvin E. Tate, Psalms 1-50, 2. ed. Waco: Thomas Nelson, Inc. (Word Biblical Commentary, v. 19), 2004, (Sl 8), p. 107.

[18]Charles Hodge, Systematic Theology, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1976 (Reprinted), v. 3, p. 705.

[19]A.W. Pink,  Deus é Soberano, p. 134. Veja-se também: R. Youngblood, Significados do Nomes nos Tempos Bíblicos. In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã,v. 3, p. 25.

[20]D.M. Lloyd-Jones, O Caminho de Deus não o nosso, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2003, p. 84.