Mordecai, um homem comprometido com o seu povo

Retomando a cena do artigo anterior, devemos observar que entre um banquete e outro, o rei não conseguiu dormir bem.  Revendo o Livro dos Feitos Memoráveis de seu reino, Assuero lê sobre Mordecai que havia salvo sua vida (Et 2.21-23; 6.1-2).

    O rei descobre então que Mordecai não recebera honra alguma pelo seu feito. Sem associar Mordecai às tramas de Hamã seu inimigo, pergunta a este como deve fazer com um homem a quem se pretendia honrar.

    Hamã profundamente vaidoso, pensa que o rei está se referindo a ele mesmo, Hamã. Afinal, “a quem mais o rei poderia querer conferir tão grande honra?”, pergunta-se retoricamente (Et 6.6-10).

    Parte da ironia do texto é que Hamã, sem de fato querer, tem de amargamente cumprir o preceito evangélico de fazer com o próximo o que desejava que lhe fosse feito. E assim se cumpriu, ainda de forma angustiosa, sentindo-se naturalmente profundamente humilhado (Et 6.11-12).

    Mal Hamã desabafara com sua esposa e amigos, chega o convite indigesto para o novo banquete. Que diferença entre o primeiro e o segundo; o primeiro é motivo de orgulho e partilhar glórias (Et 5.9-12) e ainda, seguindo o conselho de sua mulher, já preparara uma forca para Mordecai (Et 5.14).

    Agora há uma certa expectativa. Não há a mesma alegria de antes. A humilhação recente ainda estava na pauta de sua mente e afluía em sua emoções.

    Quando Ester faz então o seu arrazoado pedido ao rei, o nome do grande arquiteto de extermínio de seu povo aparece: Hamã (Et 7.1-6). Agora, toda a frieza de Hamã cai por terra. Ele ficou naturalmente perturbado sabendo que o seu fim estava próximo. Se desespera tentando obter o perdão da rainha judia. Tudo em vão e, pior, isso irrita ainda mais o rei que determina a sua morte. Ele é enforcado na forca que ele mesmo preparara para Mordecai (Et 7.6-10).  

    Agora Mordecai é o homem forte do reino. A lei de extinção dos judeus foi suspensa, conforme a súplica de Ester pelo seu povo. Ela mesma como rainha do reino Persa não se esquecera de suas origens. Intercede então pelo “meu povo” (Et 8.3-7).  

    Como evidência da confiança do rei em Mordecai, conferiu-lhe a responsabilidade de fazer um novo edito com os dizeres que desejasse (Et 8.8ss.). Mordecai se tornou respeitado em todo o reino (Et 4.4).

    Os judeus não só foram preservados, sentindo-se fortalecidos ao contrário de seus adversários, como promoveram a matança destes em toda a extensão do reino.

    Após o extermínio de seus inimigos, os judeus puderam ter sossego (Et 9.16). Isto parece indicar a situação de pressão na qual viviam, num estado de guerra constante.

    As comemorações festivas após estas guerras transformaram-se na Festa do Purim, onde primava a alegria e troca de alimentos a fim de que todos pudessem participar desta festividade (Et 3.7-9). Aqui temos mais um aspecto irônico do Livro. A sorte para a determinação do genocídio dos judeus transformou-se em nome de festa de alegria daqueles que deveriam ser mortos. A sorte os enganou. O melhor dia para matar transformou-se no dia de morrer.

    Esta comemoração se tornou por iniciativa oficial de Ester e Mordecai em festa anual, entrando no calendário festivo de Israel (fevereiro/março), sendo marcada por intensa alegria, própria da sensação de livramento (Et 9.29-32).

    Ao longo da história, a Festa de Purim, que é antecedida por um dia de jejum como recordação do “jejum de Ester”, tem servido de grande alento para os judeus, confiantes de que Deus os preserva em meio às maiores adversidades. Ainda hoje na Festa de Purim o livro de Ester é lido.

Considerações finais

          A nossa vocação é aqui e agora no mundo onde vivemos, dentro das esferas que Deus nos possibilita trabalhar. Precisamos ter sensibilidade espiritual e nos dispor a obedecê-lo com inteligência, submissão e determinação.

    O Livro conclui atestando a lealdade de Mordecai ao seu povo. Ao longo da narrativa vemos um homem íntegro que cuidou de sua prima órfã, sendo amado e respeitado pelos seus familiares, não temia expor sua vida pelos seus ideais, sendo honrado por Deus diante de todos os seus inimigos.

    Mesmo assumindo um poder elevado, não se esqueceu de seus propósitos diante de Deus. À semelhança de Ester, certamente educada por ele com esses valores, perseverou na sua causa de liderar de forma legislativa e executiva o seu povo com justiça (Et 10.3).

          Veith, Jr. comenta: “A nossa vocação já está, aqui, onde nós estamos e no que estamos fazendo agora. (…) Os cristãos precisam compreender que o presente é o momento quando você é chamado a ser fiel. Não podemos fazer nada em relação ao passado. O futuro está totalmente nas mãos de Deus. Agora é o que temos”.[1]

          Firmados na Palavra de Deus devemos ser ousados no realizar a sua obra.  Nunca devemos desconsiderar a Palavra de Deus, para que não sejamos acusados com justiça de menosprezo para com a graça dele.

          Nenhuma reforma espiritual pode ser feita em detrimento da Palavra de Deus. Somos chamados por ele a fazer algo agora. Esta é a nossa vocação imediata. Qual é a sua vocação?

          A pergunta de Deus a Moisés é de relevância aqui: Que é isso que tens na mão? Respondeu-lhe: Um bordão” (Êx 4.2). O que temos em nossas mãos se constitui em instrumento colocado por Deus mesmo para que cumpramos a nossa vocação.

    Que esses modelos sejam inspiradores para todos nós em nossa fidelidade a Deus e ação na sociedade em que vivemos. Amém.

 Maringá, 08 de março de 2021.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Gene Edward Veith, Jr., Deus em Ação, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 46,47.

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