O Selo e o Penhor do Espírito como realidades na vida de todo crente (3)

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O Selo do Espírito

“Em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho (eu)agge/lion) da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados (sfragi/zw) com o Santo Espírito da promessa” (Ef 1.13).

 

O selo foi realizado definitivamente. A palavra significa também “consignar”, “guardar”, “certificar” e “reconhecer”, indicando:

 

  • Autenticidade e confirmação: (Jr 32.10-11,44; Jo 33; 1Co 9.2). Somos verdadeiramente filhos de Deus;

 

  • Possessão: Como a grande importância do selo é jurídica, vemos neste emprego o fato de pertencermos a Deus, porque fomos comprados com o Seu próprio sangue; somos possessão de Deus;

 

  • Proteção/privacidade: O selo era empregado para garantir uma boa conservação dos documentos e o sigilo de seu conteúdo (Is 29.11; Dn 12.4). Ninguém poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Rm 8.38-39). É Deus mesmo Quem nos preserva intocáveis para o dia da redenção. Notemos que o selo normalmente é externo. Em nosso caso, o selo é interno; fomos selados pelo Espírito que em nós habita.

 

O Espírito em nós é o selo de Deus garantindo a autenticidade e preservação de Sua propriedade até ao resgate final (2Co 1.22; 5.5; Ef 1.13-14; 1Pe 2.9).[1] Somos o Templo do Espírito (1Co 3.16; 6.19). Fomos comprados pelo precioso sangue de Jesus e, agora, pertencemos ao Senhor (At 20.28; 1Co 6.20; 7.23; 1Pe 1.18-19).

O Espírito que hoje é a garantia do não mais domínio de Satanás sobre nós, é, ao mesmo tempo, o sinal da nossa total libertação futura da influência conducente de Satanás, do pecado e da carne.  “A nossa redenção ainda não se completou, mas está assegurada”.[2]

Comentando o texto de Efésios 1.13, escreveu Calvino:

Os selos imprimem autenticidade tanto aos alvarás como aos testamentos. Além disso, o selo era especialmente usado nas epístolas, para identificar o escritor. Em suma, um selo distingue o que é genuíno e indubitável do que é inautêntico e fraudulento. Tal ofício Paulo atribui ao Espírito Santo, não só aqui, mas também no capítulo 4.30 e em 2 Coríntios 1.22. Nossas mentes jamais se fazem suficientemente firmes, de modo que a verdade prevaleça conosco contra todas as tentações de Satanás, enquanto o Espírito não nos confirme nela. A genuína convicção que os crentes têm da Palavra de Deus, acerca de sua própria salvação e toda religião, não emana das percepções da carne, ou de argumentos humanos e filosóficos, e, sim, da selagem do Espírito, o que faz suas consciências mais seguras e todas as dúvidas removidas. O fundamento da fé seria quebradiço e instável, se porventura ela repousasse na sabedoria humana; portanto, visto que a pregação é o instrumento da fé, por isso o Espírito Santo torna a pregação eficaz.[3]

 

O selo do Espírito nos distingue de tudo o mais. O Espírito é a autenticação[4] definitiva, verdadeira[5] e inviolável de nossa salvação. Ele é o sinal do futuro em nós e a garantia de sua consumação.[6] No selo vemos exemplificada a autoridade de seu autor e a garantia de que o conteúdo do que foi selado seja preservado em segurança (Vejam-se: Mt 27.66; Dn 6.17; Rm 15.28 [ARA: “Consignado”]).

Deus nos concedeu o Espírito como um selo de inviolabilidade e preservação. O Espírito mesmo é Quem constitui os Presbíteros para pastorearem o rebanho do Sumo Pastor que é Deus, até que Cristo volte (At 20.28; 1Pe 5.1-4). Notemos, portanto, que ao mesmo tempo em que Ele age em nós individualmente, atua por meio de Seus servos para a edificação e preservação do povo de Deus.

O Espírito em nós é a garantia presente e maravilhosamente real, de que participaremos da plenitude da Sua herança reservada para os Seus.[7] Assim, podemos dizer com Berkhof que, “o Novo Testamento nada sabe de uma escatologia futurista ou de uma escatologia realizada, senão de uma escatologia em realização”.[8]

 

Maringá, 24 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] Veja-se: John Owen, Two Discourses Concerning the Holy Spirit and His Work. In: The Works of John Owen, [CD-ROM], (Ages Software, 2000), Vol. IV, p. 504ss. “A ideia de selar é tirada da prática antiga de selar documentos reais especiais. Documentos eram autenticados apertando o anel com sinete do rei em cera, deixando uma impressão que indica a posse e autorização da realeza. Em certo sentido, o Espírito age como o anel de sinete do rei divino. Ele faz um sinal indelével em nossas almas, indicando ser dono de nós. Um selo também era usado para evitar uma invasão. Assim como o túmulo de Cristo foi selado para evitar violação por ladrões, assim nós somos selados para evitar que o maligno nos arrebate dos braços de Cristo” (R.C. Sproul, O Que é Teologia Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 172).

[2] Walter T. Conner, A Obra do Espírito Santo, Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1961, p. 114.

[3]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.13), p. 36.

[4] Paulo fala que os crentes em Corinto se constituem no “selo”, a legitimação do seu apostolado: Se não sou apóstolo para outrem, certamente, o sou para vós outros; porque vós sois o selo (sfragi/j) do meu apostolado no Senhor” (1Co 9.2/1Co 4.14-15; 2Co 3.1-3; 6.13).

[5] “Entretanto, o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo (sfragi/j): O Senhor conhece os que lhe pertencem. E mais: Aparte-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor” (2Tm 2.19).

[6] Cf. Gordon D. Fee, Paulo, o Espírito e o Povo de Deus, Campinas, SP.: Editora United Press, 1997, p. 59-60.

[7] Veja-se: A.A. Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 38.

[8]Hendrikus Berkhof, La Doctrina del Espíritu Santo, Buenos Aires: Junta de Publicaciones de las Iglesias Reformadas/Editorial La Aurora, (1969), p. 118. Do mesmo modo entende Morris: “Uma escatologia puramente ‘realizada’ é calamitosa, tanto por não se ajustar à mensagem do Novo Testamento como por suas trágicas consequências” (Leon Morris, A Doutrina do Julgamento na Bíblia: In: Russel P. Shedd; Alan Pieratt, eds. Imortalidade, São Paulo: Vida Nova, 1992, p. 53).

O Selo e o Penhor do Espírito como realidades na vida de todo crente (2)

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As Primícias do Espírito: O “Já” e o “Ainda não”:

A presença do Espírito em nós é real, ainda que em parte ou, como disse Calvino de forma figurada, afirmando que temos apenas umas poucas gotas do Espírito”.[1]

 

O Espírito faz com que hoje desfrutemos das bênçãos da era futura, porém, não em toda sua plenitude. O Apóstolo Paulo escreve: “…. nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (Rm 8.23). As “primícias do Espírito” trazem consigo a promessa da abundante colheita que teremos no futuro e, ao mesmo tempo, é o antegozo dela. Portanto, o Espírito é uma realidade presente que nos fala da nossa salvação passada (justificação) e presente (santificação), indicando também, a consumação futura da nossa salvação (glorificação) (Rm 8.23-24).

 

O Espírito comunica as “primícias” das bênçãos – sendo ele próprio a principal – concedidas por Deus, as quais serão plenamente manifestadas na eternidade. É Deus mesmo que por sua “primeira parcela” se compromete a comunicar-nos todas as bênçãos adquiridas para nós em Cristo Jesus.[2] O Espírito em nós revela-nos as venturas futuras que agora apenas vislumbramos pela fé, e que já desfrutamos apenas embrionariamente.

 

A amostragem que temos hoje, pelo Espírito, indica a superioridade do que teremos no porvir: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm 8.18).[3]

 

A Igreja anela pela “redenção do nosso corpo” (Rm 8.23), quando teremos um “corpo espiritual” (1Co 15.44), que deve ser entendido não como uma incorporeidade, mas, sim, “uma existência humana total, alma e corpo incluídos, que será criada, penetrada e controlada pelo Espírito de Cristo”.[4] Um corpo “totalmente pertencente à nova era, totalmente sob a direção do Espírito”;[5] glorioso, imperecível e totalmente consagrado a Deus, adequado, assim, à nova vida gerada e preservada pelo Espírito.[6] Ou, nas palavras de Calvino, um corpo no qual “O Espírito será muito mais predominante (…). Será muito mais pleno”.[7] A espiritualidade significa um total controle do Espírito Santo. Esta é a perspectiva do Novo Testamento.[8]

 

Na eternidade já não haverá a luta contra o pecado e o mal; o Espírito será tudo em todos os salvos.  “A vitória total que Cristo imporá sobre Seus inimigos será uma vitória do Espírito Santo”, enfatiza Bavinck.[9]

 

Continuaremos no próximo post sobre o tema.

 

Maringá, 22 de janeiro de 2019

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1]João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 8.23), p. 287. Estejamos atentos à figura de Calvino. Comentando Tt 3.6, diz: “Uma gota do Espírito, por assim dizer, por menor que seja, é como uma fonte a fluir tão abundantemente que jamais secará” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (Tt 3.6), p. 351).

[2] Cf. William Hendriksen, Efésios, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, (Ef 1.14), p. 117.

[3]O Espírito Santo, pois, nos foi outorgado a fim de que pudéssemos nutrir algum tipo de ideia quanto ao que nos aguarda quando chegarmos na glória. Deus nos deu as primícias. (…) Por conseguinte, em certo sentido nossa salvação não é completada, mas será completada, e o Espírito nos é conferido a fim de que possamos, não só saber isso com toda certeza, mas também para podermos até começar a experimentá-lo. E tudo o que experimentamos nesta vida, num sentido espiritual, é simplesmente primícias, ou uma prelibação, algo posto por conta, uma espécie de prestação de Deus, a fim de que pudéssemos saber o que nos está por vir” (David M. Lloyd-Jones, Deus o Espírito Santo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1998, p. 334, 325).

[4]Hendrikus Berkhof, La Doctrina del Espíritu Santo, Buenos Aires: Junta de Publicaciones de las Iglesias Reformadas; Editorial La Aurora, (1969), p. 120.

[5]J.D.G. Dunn, Espírito: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 2, p. 144. De igual forma interpretam: Eduard Schweizer, pneu=ma, etc: In: Gerhard Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 6, p. 421; A.A. Hoekema, A Bíblia e o Futuro, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1989, p. 88-90; Idem., Criados à Imagem de Deus, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 268; W. Hendriksen, A Vida Futura Segundo a Bíblia, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1988, p. 193; Ray Summers, A Vida no Além, 2. ed. Rio de Janeiro: JUERP., 1979, p. 90-91; Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 520; Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 346-349; John Murray, Romanos, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2003, (Rm 8.23), p. 334-335. Charles Hodge, sem aludir ao texto, faz uma distinção entre o céu e o inferno, dizendo: “O céu é um lugar e estado em que o Espírito reina com absoluto controle. O inferno é um lugar ou estado em que o Espírito já não refreia nem controla. A presença ou ausência do Espírito estabelece toda a diferença entre céu e inferno” (Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos Editora, 2001, p. 983-984).

[6] Ferguson escreve: “O corpo no qual a vida futura é vivida será tanto Espiritual quanto gloriosa em sua própria constituição” (Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, p. 347).

[7]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 15.44), p. 483-484.

[8] Vejam-se: John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, p. 184.

[9] Herman Bavinck, Our Reasonable Faith, 4. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1984, p. 388.

O Selo e o Penhor do Espírito como realidades na vida de todo crente (1)

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Na Carta aos Efésios, Paulo descrevendo os grandes privilégios da vida cristã, fala de eternidade a eternidade: da eleição eterna à glorificação futura. Em sua argumentação demonstra que a Trindade está empenhada em nossa salvação. Quando fala do Espírito Santo, usa duas figuras, sobre as quais quero tratar de forma bastante introdutória, em alguns textos.

 

Diz o apóstolo: “Em quem também [Cristo] vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho (eu)agge/lion) da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados (sfragi/zw) com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor (a)rrabw/n) da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef 1.13-14).

 

O Catecismo de Heidelberg (1563), em seu tom eminentemente pastoral, em sua primeira pergunta, lemos:

 

Qual é o teu único conforto na vida e na morte?

 

É que eu pertenço – corpo e alma, na vida e na morte – não a mim mesmo, mas a meu fiel Salvador, Jesus Cristo, que com o Seu precioso sangue pagou plenamente todos os meus pecados e me libertou completamente do domínio do Diabo; que Ele me protege tão bem, que sem a vontade de meu Pai no céu nenhum cabelo pode cair da minha cabeça; na verdade, que tudo deve adaptar-se ao Seu propósito para a minha salvação. Portanto, pelo Seu Santo Espírito, Ele também me garante a vida eterna e me faz querer estar pronto, de todo o coração, a viver para Ele daqui por diante.

 

O Reino de Deus é o Reinado de Deus, o governo triunfante de Cristo sobre todas as coisas. “O Reino de Deus significa que Deus é Rei e age na história para trazer a história a um alvo divinamente determinado”.[1]

 

Isto não é mera abstração de uma fé infundada, cujo único fundamento é a sua confiança no ilusório poder de si mesma. O Reino de Deus indica que há um Rei.  Todas as coisas existem porque Ele mesmo as criou e preserva. Mais: O Seu reinado envolve a realidade visível e invisível. As galáxias mais distantes, que nem sequer os mais potentes telescópios puderam vislumbrá-las; as mais simples e mesmo complexas vidas que habitam no fundo do oceano, em regiões quase inacessíveis aos homens, estão sob o controle de Deus. As coisas quase imperceptíveis de forma significativa a nós: um pardal, as flores e o nosso cabelo que insiste em se ausentar sem o nosso consentimento, na maioria das vezes só percebida nas falhas que deixam, nada, coisa alguma escapa ao Seu domínio e sábio reinado.

 

O reinado de Deus não é algo decorativo ou simbólico; antes, é real e grandemente confortador para os Seus filhos. O Seu poderoso e amoroso domínio envolve graciosamente a nossa salvação, nos preservando em perseverança até o fim. Deus não apenas nos salva, mas, também, deseja que usufruamos do conforto da certeza subjetiva de que estamos seguros sob o Seu cuidado.

 

Falar no Reino é apontar para a concretização do propósito de Deus em Cristo, libertando os homens do poder de Satanás, conduzindo-os à liberdade concedida por Cristo, o Senhor: “…. até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef 1.14). Esta certeza que emana da Palavra é altamente estimulante e confortadora para a Igreja. Ela deve produzir em nós uma atitude de gratidão que tenha reflexos em nosso culto e nossa ética.[2]

 

Todos os que creem em Cristo como Seu Senhor e Salvador pessoal recebem definitivamente o Espírito Santo, o “Santo Espírito da Promessa”, sendo selados para o dia do juízo. A fé é selada pelo Espírito. O Espírito que fora prometido pelo Pai e pelo Filho, agora habita em nós, sendo Ele mesmo o agente do cumprimento das promessas (Ef 1.13/At 1.4,5; 2.33) e parte do cumprimento daquilo que Jesus Cristo prometeu (Jo 14.26; 16.7).[3] O Espírito que é o cumprimento da promessa certamente cumprirá o que Nele foi prometido.[4] Por isso Ele é chamado de Espírito da Promessa, Aquele que nos sela, sendo o nosso penhor; “é o dom da certeza”.[5]

 

Paulo escreve aos Romanos: “O amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado” (Rm 5.5). Anos mais tarde, exortaria a Timóteo: “Guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós” (2Tm 1.14).

Sabemos pelo Espírito que somos filhos de Deus e que, por maior que seja a nossa pobreza material, por mais insignificantes que sejamos considerados social e economicamente, somos súditos do Reino, sendo herdeiros de Deus, tendo o sinal de nossa cidadania e herança – sinal este concedido por Deus.

 

Paulo escreve aos gálatas: E, porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai! De sorte que já não és escravo, porém filho; e, sendo filho, também herdeiro por Deus” (Gl 4.6-7). (Vejam-se: Rm 8.16,17; Ef 1.14,18; Cl 3.24; Tt 3.7/1Jo 3.1,2).

 

É significativo para nossa abordagem, o fato de que o apóstolo diz que Deus enviou “o Espírito de seu Filho”. Ou seja, podemos nos relacionar com o Pai por meio de Seu Filho (Jo 14.6). E, é o Espírito do Filho – Aquele que é eternamente o Filho de Deus – Quem nos conduz ao Filho em nossa irmandade com Ele e, pela mesma graça, na condição de filhos de Deus (Jo 1.12; Gl 3.26).

 

A presença soberana do Espírito é a característica fundamental do cristão; o Espírito é a identidade dos que pertencem a Deus – “….se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9) –, dos filhos adotivos de Deus (Rm 8.15),[6] que são guiados por Ele (Rm 8.14).[7]

 

Quem tem o Espírito, tem a Cristo; quem não possui o Espírito não tem a Cristo e, de fato, não pertence a Ele (Rm 8.9-10). Assim, participar do Espírito é o mesmo que participar do Filho. O próprio Espírito testifica continuamente em nós que somos filhos de Deus e, portanto, herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo (Rm 8.16,17).[8] Embora a certeza de nossa salvação não seja algo essencial à salvação, o Pai deseja comunicar-nos constantemente esta certeza a fim de que a mesma seja subjetivada em nós e, deste modo, possamos viver a plenitude do privilégio e da responsabilidade de nossa filiação.

 

Notemos que esta identidade com Cristo pelo Espírito, é uma identidade de sofrimento e glória; a vida cristã consiste numa identificação com Cristo, em Seus sofrimentos e em Sua glória. “A união com Cristo é a união com Ele na eficácia da sua morte e na virtude da Sua ressurreição – aquele que assim morreu e ressuscitou com Cristo é liberto do pecado, e o pecado não exercerá o seu domínio”.[9]

 

Mas, será que não pecamos mais? Por outro lado, devemos nos acomodar ao pecado “residual” em nossa vida?

 

Continuaremos no próximo domingo, quando voltarei a falar sobre o tema.

 

 

Maringá. 15 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] George E. Ladd, The Presence of the Future: The Eschatology of Biblical Realism, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, Revised Edition, 1974, p. 331.

[2] Ver: R.C. Sproul, O Que é Teologia Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 174.

[3]“…. o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito” (Jo 14.26). “…. convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei” (Jo 16.7).

[4] Veja-se: W. Hendriksen, Efésios, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, (Ef 1.13), p. 117.

[5]Frederick D. Bruner, Teologia do Espírito Santo, São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 209.

[6]Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai(Rm 8.15).

[7]Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14).

[8]“O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados” (Rm 8.16-17).

[9]John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 159.