O Selo e o Penhor do Espírito como realidades na vida de todo crente (5) – Final

Selados em santidade

 

“E não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados (sfragi/zw) para o dia da redenção” (Ef 4.30).

 

     O Espírito se entristece com os nossos pecados, manifestando o Seu desagrado, de modo externo: por intermédio da Palavra de Deus. Interno: por meio de nossa consciência.

 

Todas as vezes que agimos de forma contrária aos ensinamentos da Palavra de Deus, entristecemos ao Espírito que em nós habita. O Espírito também se entristece conosco, quando caminhamos de modo contrário ao propósito de Deus para nós, que é a santificação (1Ts 4.3/2Ts 2.13), quando as obras da carne estão cada vez mais evidentes em nossa vida e o fruto do Espírito parece mais distante do nosso procedimento (Gl 5.16-26).

 

O entristecimento do Espírito, se por um lado revela o nosso pecado, por outro, fala-nos do Seu relacionamento pessoal conosco e de Seu invencível amor, que não se intimida nem se acomoda com a nossa desobediência, antes, se expõe, nos atraindo para Si em amor. Interpreta Graham (1918-2018): “Podemos magoar ou irar alguém que não nos tem afeição, mas entristecer podemos só quem nos ama”.[1]

 

Deste modo, as operações graciosas de Deus não nos devem conduzir à falsa ideia de viver comodamente, deixando Deus realizar a obra enquanto que eu cuido de meus interesses pessoais. A obra de Deus, que é boa em sua própria essência, envolve o uso diligente dos recursos que Deus mesmo coloca à nossa disposição para o nosso crescimento.

 

Na Carta aos filipenses, vemos o próprio Paulo se preocupando em orar pela igreja, estimulá-la e exortá-la por meio da Epístola a que frutificasse em sua fé:

 

E também faço esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção, 10 para aprovardes as coisas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo, 11 cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus. (Fp 1.9-11).

 

Esse fruto (Fp 1.11) se revela no desenvolvimento de nossa salvação, conforme ele exorta a igreja:

 

Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; 13 porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade. (Fp 2.12-13).

 

Os Cânones de Dort (1619) pontuam bem esta questão:

 

Essa certeza de perseverança não produz de modo algum nos crentes um espírito de orgulho ou os torna carnalmente seguros; ao contrário, ela é a verdadeira fonte da humildade, reverência filial, verdadeira piedade, paciência em toda tribulação, orações fervorosas, constância nos sofrimentos e em confessar a verdade e alegria sólida em Deus, de modo que a consideração desse benefício serve como um incentivo para a séria e constante prática de gratidão e boas obras, como é evidente nos testemunhos das Escrituras e nos exemplo dos santos.

A renovada confiança de perseverar não produz licenciosidade ou negligência na piedade naqueles que estão se recuperando de uma apostasia, mas isso os torna mais cuidadosos e diligentes quanto a se manterem nos caminhos do Senhor, que ele preparou, para que, ao andarem neles, eles possam preservar a certeza da perseverança, para que não abusem de sua gentileza paternal e Deus tire delas sua graciosa face, a contemplação da qual é para o piedoso mais preciosa do que a vida, e a retirada dela é mais amarga do que a morte, e eles, em consequência disso, caiam em maiores tormentos da consciência.[2]

 

A eleição de Deus e o seu consequente chamado se revela numa boa obra em nós de transformação e crescimento espiritual.[3] É deste modo que Paulo escreve aos Efésios:         “8 Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus;  9 não de obras, para que ninguém se glorie.  10 Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.8-10).

 

A doutrina da perseverança é bem chamada de perseverança dos santos.[4] Dito de outro modo, a nossa perseverança deve ser em santidade. Portanto, neste processo de aperfeiçoamento há, fundamentalmente, a necessidade de nosso crescimento e amadurecimento. Deus não somente nos salva, mas, também, nos faz crescer em nossa caminhada.

 

A piedade, como evidência de nosso perseverar em santidade, é desenvolvida por meio de nosso crescimento na graça. Na educação divina (disciplina), vemos estampada a Sua graça que atua de forma pedagógica: “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos (paideu/w) para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos no presente século, sensata, justa e piedosamente (eu)sebw=j)” (Tt 2.11-12). A piedade autêntica, por ser moldada pela Palavra, traz consigo os perigos próprios resultantes de uma ética contrastante com os valores deste século: “Ora, todos quantos querem viver piedosamente (eu)sebw=j)[5] em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12). No entanto, há o conforto expresso por Pedro às Igrejas perseguidas: “….o Senhor sabe livrar da provação [peirasmo/j = “tentação”] os piedosos (eu)sebh/j)….” (2Pe 2.9).

 

A piedade deve estar associada a diversas outras virtudes cristãs a fim de que seja frutuosa no pleno conhecimento de Cristo (2Pe 1.6-8).[6] A nossa certeza é que Deus nos concedeu todas as coisas que nos conduzem à piedade. Ele exige de nós, os crentes, “o uso diligente de todos os meios exteriores pelos quais Cristo nos comunica as bênçãos da salvação”[7] e que não negligenciemos os “meios de preservação”.[8]

 

Em Teologia denominamos essas “cousas que nos conduzem à piedade”, de meios de graça ou meios de santificação. Portanto, devemos utilizar de todos os recursos que Deus nos forneceu com este santo propósito: “Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade (e)use/beia), pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude” (2Pe 1.3).[9]

 

A piedade como resultado de nosso relacionamento com Deus deve ter o seu reflexo concreto dentro de casa, sendo revelada por meio do tratamento que concedemos aos nossos pais e irmãos: “….se alguma viúva tem filhos ou netos, que estes aprendam primeiro a exercer piedade (eu)sebe/w) para com a própria casa e a recompensar a seus progenitores; pois isto é aceitável diante de Deus” (1Tm 5.4).[10]

 

Nunca o nosso trabalho, por mais relevante que seja, poderá se tornar num empecilho para a ajuda aos nossos familiares. A genuína piedade é caracterizada por atitudes condizentes para com Deus (reverência) e para com o nosso próximo (fraternidade). Curiosamente, quando o Novo Testamento descreve Cornélio, diz que ele era um homem piedoso (Eu)sebh/j) e temente a Deus (…) e que fazia muitas esmolas ao povo e de contínuo orava a Deus” (At 10.2).

 

A piedade é, portanto, uma relação teologicamente orientada do homem para com Deus em sua devoção e reverência e, a sua conduta biblicamente ajustada e coerente com o seu próximo. A piedade envolve comunhão com Deus e o cultivo de relações justas com os nossos irmãos. “A obediência é a mãe da piedade”, resume Calvino.[11]

 

Ao mesmo tempo, o Senhor Jesus Cristo é poderoso para nos socorrer em nossas tentações (1Co 10.13):[12] “Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso (du/namai) para socorrer os que são tentados” (Hb 2.18). (Ver também: Hb 4.15; Jd 24; 1Pe 1.5).[13]

 

O Espírito aplicou os méritos salvadores de Cristo em nosso coração e, nos preserva íntegros até o fim; nele fomos “selados para o dia da redenção” (Ef 4.30). Pelo fato do Espírito ser Santo, Ele nos quer preservar em santidade até o dia da redenção (Ef 1.13-14). Deus quer nos guardar tal qual Ele é; em santidade. Foi com este propósito que o Filho morreu por nós e, por meio de Seu Espírito, nos preserva (Ef 5.25-27).[14]

 

Pedro encerra a sua carta dizendo: “Antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno” (2Pe 3.18).

 

Portanto, temos nesta doutrina um motivo de conforto e desafio. O desafio é vivermos a intensidade da vida cristã em obediência, no conforto de que é Deus mesmo Quem nos preservará até o fim.[15] Analisaremos alguns outros aspectos pressupostos e decorrentes destes.

“Venha o Teu Reino”

 

A Igreja anela pela concretização plena das virtudes eternas, das quais ela já tem a amostra (Rm 14.17; 15.13; 1Ts 1.6/Gl 5.22,23). É neste espírito que a Igreja ora: “Venha o Teu Reino”. Quem ora pela vinda do Reino, é porque já o conhece, já usufrui das suas riquezas, já provou da sua bem-aventurança (Rm 14.17).[16] Somente um cidadão do Reino pode dizer de forma consciente: “Venha o teu Reino”. Por isso, ele ora para que o Reino já presente venha em toda a sua plenitude sobre todos. Como temos visto, o selo e o penhor não têm um fim em si mesmos, antes apontam para o nosso resgate definitivo (Ef 1.13-14).

 

O Evangelho, como “palavra da verdade”, modifica a nossa vida neste estado de existência e, também, tem implicações escatológicas. Pelo Evangelho ouvido e crido, temos a certeza da nossa salvação. É o Espírito Santo quem nos garante isso. Algo maravilhoso para nós é saber que temos um Deus que cuida de nós, que se compromete com a salvação de Seu povo, nos garantindo e nos concedendo esta certeza.

 

A consumação do Reino se dará quando Cristo voltar. Nós que temos as primícias do Espírito, – usufruímos, portanto, ainda que parcialmente, as delícias do Reino –, pelo Espírito, oramos de forma coerente e ardorosa: “Venha o Teu Reino”.[17] “Vem, Senhor Jesus” (Ap 22.17,20). Amém.

 

Esta alegre certeza me faz lembrar um hino escrito em 1873:

 

 

 

Altos Louvores

 

     Vem, ó Jesus, majestoso reinar;

     Teu povo te espera, não queiras tardar!

     Vem em poder, apressando esse dia,

     Pois tua vontade será feita aqui.

     Oh! Volta na glória, trazendo alegria!

     A Igreja suspira, ansiosa, por ti!

     Vem, ó Jesus, majestoso reinar;

     Teu povo te espera, não queiras tardar![18]

 

 

 

Maringá, 15 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]Billy Graham, O Espírito Santo, São Paulo: Vida Nova, 1988, p. 123.

[2] Os Cânones de Dort In: Sinclair B. Ferguson; Joel R. Beeke, orgs. Harmonia das Confissões Reformadas, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, V.12-13. Vejam-se também: Catecismo de Heidelberg, Perguntas: 1,53,54,127.

[3]“O que acontece com o cristão não é mera reforma ou melhoramento da superfície. O Evangelho não é algo que muda o homem no sentido de torná-lo um pouco melhor, no sentido cultural. Não, é uma obra vital realizada por Deus na alma e sobre a alma, no centro mesmo e nos órgãos vitais da vida e da existência do homem” (D. Martyn Lloyd-Jones, A Vida de Alegria, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2008, p. 42).

[4] Hoekema prefere chamá-la de “perseverança do verdadeiro crente” (Anthony Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 243). Murray argumenta em prol do nome clássico, “perseverança dos santos” (Veja-se: John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 170-171). Sproul, considerando o termo “perseverança” como “um tanto enganoso”, opta por “preservação”, justificando: “Nós perseveramos porque somos preservados por Deus. Se deixados por conta de nossa própria força, nenhum de nós perseveraria. Só porque somos preservados por graça é que somos capazes de perseverar de alguma maneira” (R.C. Sproul, O que é teologia reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 168). À frente: “A graça preservadora de Deus torna a nossa perseverança tanto possível como real” (p. 179).

[5] Este advérbio só ocorre em dois textos do Novo Testamento: 2Tm 3.12; Tt 2.12.

[6]“Por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade (e)use/beia); com a piedade (e)use/beia), a fraternidade; com a fraternidade, o amor. Porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo” (2Pe 1.5-8).

[7] Catecismo Menor de Westminster, Pergunta, 85.  In: A Confissão de Fé, O Catecismo Maior  e o Breve Catecismo, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1991, (Edição Especial), p. 431 (Veja-se  também, a Pergunta, 88).

[8] Confissão de Westminster, XVII.3.

[9]Ver: Hermisten M.P. Costa, A Palavra e a Oração como Meios de Graça: In: Fides Reformata, São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, 5/2 (2000), 15-48.

[10]“Seria uma boa preparação treinar-se para o culto divino, pondo em prática deveres domésticos piedosos em relação a seus próprios familiares” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 5.4), p. 131).

[11] John Calvin, Commentaries of the Four Last Books of Moses, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries, v. 2), 1996 (Reprinted), v. 1, (Dt 12.32), p. 453.

[12]Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças (du/namai); pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais (du/namai) suportar (1Co 10.13).

[13] Porque não temos sumo sacerdote que não possa (du/namai) compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado (Hb 4.15). Ora, àquele que é poderoso (du/namai) para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória, ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos os séculos. Amém!(Jd 24-25). “Que sois guardados pelo poder (du/namij) de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo (1Pe 1.5).

[14]“Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela,  26 para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra,  27 para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.25-27).

[15] Anthony Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 262-263.

[16]Esta é a experiência da Igreja: Ela é na presente era a manifestação do Reino: “A igreja é o centro vivo e ardente do reino, uma testemunha de sua presença e poder, e um precursor de sua vinda final” (Enrique Stob, Reflexiones Éticas: Ensayos sobre temas morales, Grand Rapids, Michigan: T.E.L.L., 1982, p. 68).

[17]“Nós estamos no Reino e, mesmo assim, aguardamos sua manifestação completa; nós compartilhamos de suas bênçãos, mas ainda aguardamos sua vitória total; nós agradecemos a Deus por ter-nos trazido para o Reino do Filho que Ele ama, e ainda assim continuamos a orar: ‘Venha o teu reino’.” (A.A. Hoekema, A Bíblia e o Futuro, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1989, p. 72).

[18] Quarta estrofe do Hino Altos Louvores, nº 46 no Hinário Novo Cântico. Letra de Sarah Poulton Kalley (1825-1907) (1873) e música de compositor inglês Charles Avison (1709-1770), considerado “o mais importante compositor inglês de concertos do século XVIII” (Stanley Sadie, ed. Dicionário Grove de Música: edição concisa, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994, p. 50).

O Selo e o Penhor do Espírito como realidades na vida de todo crente (4)

O Penhor do Espírito

 “Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo e nos ungiu é Deus, que também nos selou (sfragi/zw) e nos deu o penhor (a)rrabw/n) do Espírito em nosso coração” (1Co 1.21-22).

 

O Espírito é também chamado de penhor (a)rrabw/n)[1] da nossa salvação (2Co 1.22; 5.5; Ef 1.14) – indicando assim, o “primeiro pagamento”, “depósito”, o “sinal” de compra com o compromisso solene de efetivar a transação.[2] O Espírito é o sinal e penhor daquilo que teremos no futuro. Ele é a demonstração divina de Sua intenção e promessa.

 

O Espírito é o adiantamento da compra já efetivada e que não será desfeita. Deus é fiel; Ele preserva e cumpre a Sua promessa. Este símbolo permanece até a consecução de toda a transação: Espírito de Deus, no qual fostes selados (sfragi/zw) para o dia da redenção” (Ef 4.30).[3] O Espírito é a garantia de que os eleitos o são para sempre; ninguém poderá, em tempo algum, sob nenhuma circunstância, nos arrancar das mãos de Deus. A nossa segurança, portanto, repousa em Deus, não em nós mesmos.

 

Paulo fortalece a ideia de propriedade, autenticidade e inviolabilidade. Ambas as figuras – “penhor” e “selo” –, assinalam o fato de que pertencemos a Deus e, que a obra que Ele mesmo iniciou será plenamente cumprida em nós (Fp 1.6).[4]

 

Desta forma, o “penhor” e o “selo” do Espírito têm implicações escatológicas, porque apontam para o futuro, quando a obra do Deus Triúno será concluída em nós (1Pe 1.3-9). “O Espírito, portanto, serve como penhor de Deus em nossas presentes vidas, a evidência certa de que o futuro chegou ao presente, e a garantia de que o futuro será realizado em plena medida”.[5]

 

Objetivamente considerando, o penhor assinala a garantia oferecida pelo próprio Deus a respeito de nossa salvação, tendo como sinal de entrada, o próprio Espírito em nós. O penhor é da mesma essência da herança. Portanto, além do conceito de pagamento, temos também a noção de qualidade.[6]

 

Subjetivamente, temos a certeza que o Deus onipotente e fiel cumprirá as Suas promessas, preservando-nos até o fim. O selo e o penhor são sinais de nossa condição transitória; no céu, o Espírito será tudo em todos para sempre.

 

Hoje nós já temos uma amostragem do que será a nossa vida com Cristo, quando o Espírito será tudo em todos nós, os que cremos. Pela amostragem anelamos pela plena concretização em nós da transação já efetivada.

 

Calvino (1509-1564) nos instrui: “Enquanto vivemos neste mundo, necessitamos de um penhor, porque combatemos em esperança; mas quando a possessão mesma se manifestar, então cessará a necessidade e o uso do penhor”.[7]

 

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Palavra tomada emprestada do hebraico.

[2] “A presença do Espírito Santo é a primeira prestação dos benefícios da redenção de Cristo, concedidos àqueles para quem foram adquiridos, e assim a garantia e penhor da consumação dessa redenção no devido tempo” (Archibald A. Hodge, Confissão de Fé Westminster Comentada por A.A. Hodge, São Paulo: Editora os Puritanos, 1999, p. 328).

[3] Veja-se: João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.14), p. 38.

[4] “A metáfora é tomada por empréstimo das transações que são então confirmadas pela entrega de uma garantia, para que nenhum espaço seja deixado para uma mudança de intenção. Daí, ao recebermos o Espírito de Deus, temos as promessas dele confirmadas em nós e não somos assaltados pelo receio de que se retrate. Não que as promessas de Deus sejam por natureza débeis; mas porque nunca descansamos nelas confiadamente, enquanto as mesmas não recebem o endosso do testemunho do Espírito” (João Calvino, Efésios, (Ef 1.14), p. 37).

[5] Gordon D. Fee,  Paulo, o Espírito e o Povo de Deus, São Paulo: United Press, 1997, p. 60.

[6] Ver: Paul E. Brown, O Espírito Santo e a Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 104, 190.

[7] João Calvino, Efésios, (Ef 1.14), p. 37.

O Selo e o Penhor do Espírito como realidades na vida de todo crente (3)

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O Selo do Espírito

“Em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho (eu)agge/lion) da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados (sfragi/zw) com o Santo Espírito da promessa” (Ef 1.13).

 

O selo foi realizado definitivamente. A palavra significa também “consignar”, “guardar”, “certificar” e “reconhecer”, indicando:

 

  • Autenticidade e confirmação: (Jr 32.10-11,44; Jo 33; 1Co 9.2). Somos verdadeiramente filhos de Deus;

 

  • Possessão: Como a grande importância do selo é jurídica, vemos neste emprego o fato de pertencermos a Deus, porque fomos comprados com o Seu próprio sangue; somos possessão de Deus;

 

  • Proteção/privacidade: O selo era empregado para garantir uma boa conservação dos documentos e o sigilo de seu conteúdo (Is 29.11; Dn 12.4). Ninguém poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Rm 8.38-39). É Deus mesmo Quem nos preserva intocáveis para o dia da redenção. Notemos que o selo normalmente é externo. Em nosso caso, o selo é interno; fomos selados pelo Espírito que em nós habita.

 

O Espírito em nós é o selo de Deus garantindo a autenticidade e preservação de Sua propriedade até ao resgate final (2Co 1.22; 5.5; Ef 1.13-14; 1Pe 2.9).[1] Somos o Templo do Espírito (1Co 3.16; 6.19). Fomos comprados pelo precioso sangue de Jesus e, agora, pertencemos ao Senhor (At 20.28; 1Co 6.20; 7.23; 1Pe 1.18-19).

O Espírito que hoje é a garantia do não mais domínio de Satanás sobre nós, é, ao mesmo tempo, o sinal da nossa total libertação futura da influência conducente de Satanás, do pecado e da carne.  “A nossa redenção ainda não se completou, mas está assegurada”.[2]

Comentando o texto de Efésios 1.13, escreveu Calvino:

Os selos imprimem autenticidade tanto aos alvarás como aos testamentos. Além disso, o selo era especialmente usado nas epístolas, para identificar o escritor. Em suma, um selo distingue o que é genuíno e indubitável do que é inautêntico e fraudulento. Tal ofício Paulo atribui ao Espírito Santo, não só aqui, mas também no capítulo 4.30 e em 2 Coríntios 1.22. Nossas mentes jamais se fazem suficientemente firmes, de modo que a verdade prevaleça conosco contra todas as tentações de Satanás, enquanto o Espírito não nos confirme nela. A genuína convicção que os crentes têm da Palavra de Deus, acerca de sua própria salvação e toda religião, não emana das percepções da carne, ou de argumentos humanos e filosóficos, e, sim, da selagem do Espírito, o que faz suas consciências mais seguras e todas as dúvidas removidas. O fundamento da fé seria quebradiço e instável, se porventura ela repousasse na sabedoria humana; portanto, visto que a pregação é o instrumento da fé, por isso o Espírito Santo torna a pregação eficaz.[3]

 

O selo do Espírito nos distingue de tudo o mais. O Espírito é a autenticação[4] definitiva, verdadeira[5] e inviolável de nossa salvação. Ele é o sinal do futuro em nós e a garantia de sua consumação.[6] No selo vemos exemplificada a autoridade de seu autor e a garantia de que o conteúdo do que foi selado seja preservado em segurança (Vejam-se: Mt 27.66; Dn 6.17; Rm 15.28 [ARA: “Consignado”]).

Deus nos concedeu o Espírito como um selo de inviolabilidade e preservação. O Espírito mesmo é Quem constitui os Presbíteros para pastorearem o rebanho do Sumo Pastor que é Deus, até que Cristo volte (At 20.28; 1Pe 5.1-4). Notemos, portanto, que ao mesmo tempo em que Ele age em nós individualmente, atua por meio de Seus servos para a edificação e preservação do povo de Deus.

O Espírito em nós é a garantia presente e maravilhosamente real, de que participaremos da plenitude da Sua herança reservada para os Seus.[7] Assim, podemos dizer com Berkhof que, “o Novo Testamento nada sabe de uma escatologia futurista ou de uma escatologia realizada, senão de uma escatologia em realização”.[8]

 

Maringá, 24 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] Veja-se: John Owen, Two Discourses Concerning the Holy Spirit and His Work. In: The Works of John Owen, [CD-ROM], (Ages Software, 2000), Vol. IV, p. 504ss. “A ideia de selar é tirada da prática antiga de selar documentos reais especiais. Documentos eram autenticados apertando o anel com sinete do rei em cera, deixando uma impressão que indica a posse e autorização da realeza. Em certo sentido, o Espírito age como o anel de sinete do rei divino. Ele faz um sinal indelével em nossas almas, indicando ser dono de nós. Um selo também era usado para evitar uma invasão. Assim como o túmulo de Cristo foi selado para evitar violação por ladrões, assim nós somos selados para evitar que o maligno nos arrebate dos braços de Cristo” (R.C. Sproul, O Que é Teologia Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 172).

[2] Walter T. Conner, A Obra do Espírito Santo, Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1961, p. 114.

[3]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.13), p. 36.

[4] Paulo fala que os crentes em Corinto se constituem no “selo”, a legitimação do seu apostolado: Se não sou apóstolo para outrem, certamente, o sou para vós outros; porque vós sois o selo (sfragi/j) do meu apostolado no Senhor” (1Co 9.2/1Co 4.14-15; 2Co 3.1-3; 6.13).

[5] “Entretanto, o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo (sfragi/j): O Senhor conhece os que lhe pertencem. E mais: Aparte-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor” (2Tm 2.19).

[6] Cf. Gordon D. Fee, Paulo, o Espírito e o Povo de Deus, Campinas, SP.: Editora United Press, 1997, p. 59-60.

[7] Veja-se: A.A. Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 38.

[8]Hendrikus Berkhof, La Doctrina del Espíritu Santo, Buenos Aires: Junta de Publicaciones de las Iglesias Reformadas/Editorial La Aurora, (1969), p. 118. Do mesmo modo entende Morris: “Uma escatologia puramente ‘realizada’ é calamitosa, tanto por não se ajustar à mensagem do Novo Testamento como por suas trágicas consequências” (Leon Morris, A Doutrina do Julgamento na Bíblia: In: Russel P. Shedd; Alan Pieratt, eds. Imortalidade, São Paulo: Vida Nova, 1992, p. 53).

O Selo e o Penhor do Espírito como realidades na vida de todo crente (2)

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As Primícias do Espírito: O “Já” e o “Ainda não”:

A presença do Espírito em nós é real, ainda que em parte ou, como disse Calvino de forma figurada, afirmando que temos apenas umas poucas gotas do Espírito”.[1]

 

O Espírito faz com que hoje desfrutemos das bênçãos da era futura, porém, não em toda sua plenitude. O Apóstolo Paulo escreve: “…. nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (Rm 8.23). As “primícias do Espírito” trazem consigo a promessa da abundante colheita que teremos no futuro e, ao mesmo tempo, é o antegozo dela. Portanto, o Espírito é uma realidade presente que nos fala da nossa salvação passada (justificação) e presente (santificação), indicando também, a consumação futura da nossa salvação (glorificação) (Rm 8.23-24).

 

O Espírito comunica as “primícias” das bênçãos – sendo ele próprio a principal – concedidas por Deus, as quais serão plenamente manifestadas na eternidade. É Deus mesmo que por sua “primeira parcela” se compromete a comunicar-nos todas as bênçãos adquiridas para nós em Cristo Jesus.[2] O Espírito em nós revela-nos as venturas futuras que agora apenas vislumbramos pela fé, e que já desfrutamos apenas embrionariamente.

 

A amostragem que temos hoje, pelo Espírito, indica a superioridade do que teremos no porvir: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm 8.18).[3]

 

A Igreja anela pela “redenção do nosso corpo” (Rm 8.23), quando teremos um “corpo espiritual” (1Co 15.44), que deve ser entendido não como uma incorporeidade, mas, sim, “uma existência humana total, alma e corpo incluídos, que será criada, penetrada e controlada pelo Espírito de Cristo”.[4] Um corpo “totalmente pertencente à nova era, totalmente sob a direção do Espírito”;[5] glorioso, imperecível e totalmente consagrado a Deus, adequado, assim, à nova vida gerada e preservada pelo Espírito.[6] Ou, nas palavras de Calvino, um corpo no qual “O Espírito será muito mais predominante (…). Será muito mais pleno”.[7] A espiritualidade significa um total controle do Espírito Santo. Esta é a perspectiva do Novo Testamento.[8]

 

Na eternidade já não haverá a luta contra o pecado e o mal; o Espírito será tudo em todos os salvos.  “A vitória total que Cristo imporá sobre Seus inimigos será uma vitória do Espírito Santo”, enfatiza Bavinck.[9]

 

Continuaremos no próximo post sobre o tema.

 

Maringá, 22 de janeiro de 2019

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1]João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 8.23), p. 287. Estejamos atentos à figura de Calvino. Comentando Tt 3.6, diz: “Uma gota do Espírito, por assim dizer, por menor que seja, é como uma fonte a fluir tão abundantemente que jamais secará” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (Tt 3.6), p. 351).

[2] Cf. William Hendriksen, Efésios, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, (Ef 1.14), p. 117.

[3]O Espírito Santo, pois, nos foi outorgado a fim de que pudéssemos nutrir algum tipo de ideia quanto ao que nos aguarda quando chegarmos na glória. Deus nos deu as primícias. (…) Por conseguinte, em certo sentido nossa salvação não é completada, mas será completada, e o Espírito nos é conferido a fim de que possamos, não só saber isso com toda certeza, mas também para podermos até começar a experimentá-lo. E tudo o que experimentamos nesta vida, num sentido espiritual, é simplesmente primícias, ou uma prelibação, algo posto por conta, uma espécie de prestação de Deus, a fim de que pudéssemos saber o que nos está por vir” (David M. Lloyd-Jones, Deus o Espírito Santo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1998, p. 334, 325).

[4]Hendrikus Berkhof, La Doctrina del Espíritu Santo, Buenos Aires: Junta de Publicaciones de las Iglesias Reformadas; Editorial La Aurora, (1969), p. 120.

[5]J.D.G. Dunn, Espírito: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 2, p. 144. De igual forma interpretam: Eduard Schweizer, pneu=ma, etc: In: Gerhard Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 6, p. 421; A.A. Hoekema, A Bíblia e o Futuro, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1989, p. 88-90; Idem., Criados à Imagem de Deus, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 268; W. Hendriksen, A Vida Futura Segundo a Bíblia, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1988, p. 193; Ray Summers, A Vida no Além, 2. ed. Rio de Janeiro: JUERP., 1979, p. 90-91; Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 520; Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 346-349; John Murray, Romanos, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2003, (Rm 8.23), p. 334-335. Charles Hodge, sem aludir ao texto, faz uma distinção entre o céu e o inferno, dizendo: “O céu é um lugar e estado em que o Espírito reina com absoluto controle. O inferno é um lugar ou estado em que o Espírito já não refreia nem controla. A presença ou ausência do Espírito estabelece toda a diferença entre céu e inferno” (Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos Editora, 2001, p. 983-984).

[6] Ferguson escreve: “O corpo no qual a vida futura é vivida será tanto Espiritual quanto gloriosa em sua própria constituição” (Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, p. 347).

[7]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 15.44), p. 483-484.

[8] Vejam-se: John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, p. 184.

[9] Herman Bavinck, Our Reasonable Faith, 4. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1984, p. 388.

O Selo e o Penhor do Espírito como realidades na vida de todo crente (1)

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Na Carta aos Efésios, Paulo descrevendo os grandes privilégios da vida cristã, fala de eternidade a eternidade: da eleição eterna à glorificação futura. Em sua argumentação demonstra que a Trindade está empenhada em nossa salvação. Quando fala do Espírito Santo, usa duas figuras, sobre as quais quero tratar de forma bastante introdutória, em alguns textos.

 

Diz o apóstolo: “Em quem também [Cristo] vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho (eu)agge/lion) da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados (sfragi/zw) com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor (a)rrabw/n) da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef 1.13-14).

 

O Catecismo de Heidelberg (1563), em seu tom eminentemente pastoral, em sua primeira pergunta, lemos:

 

Qual é o teu único conforto na vida e na morte?

 

É que eu pertenço – corpo e alma, na vida e na morte – não a mim mesmo, mas a meu fiel Salvador, Jesus Cristo, que com o Seu precioso sangue pagou plenamente todos os meus pecados e me libertou completamente do domínio do Diabo; que Ele me protege tão bem, que sem a vontade de meu Pai no céu nenhum cabelo pode cair da minha cabeça; na verdade, que tudo deve adaptar-se ao Seu propósito para a minha salvação. Portanto, pelo Seu Santo Espírito, Ele também me garante a vida eterna e me faz querer estar pronto, de todo o coração, a viver para Ele daqui por diante.

 

O Reino de Deus é o Reinado de Deus, o governo triunfante de Cristo sobre todas as coisas. “O Reino de Deus significa que Deus é Rei e age na história para trazer a história a um alvo divinamente determinado”.[1]

 

Isto não é mera abstração de uma fé infundada, cujo único fundamento é a sua confiança no ilusório poder de si mesma. O Reino de Deus indica que há um Rei.  Todas as coisas existem porque Ele mesmo as criou e preserva. Mais: O Seu reinado envolve a realidade visível e invisível. As galáxias mais distantes, que nem sequer os mais potentes telescópios puderam vislumbrá-las; as mais simples e mesmo complexas vidas que habitam no fundo do oceano, em regiões quase inacessíveis aos homens, estão sob o controle de Deus. As coisas quase imperceptíveis de forma significativa a nós: um pardal, as flores e o nosso cabelo que insiste em se ausentar sem o nosso consentimento, na maioria das vezes só percebida nas falhas que deixam, nada, coisa alguma escapa ao Seu domínio e sábio reinado.

 

O reinado de Deus não é algo decorativo ou simbólico; antes, é real e grandemente confortador para os Seus filhos. O Seu poderoso e amoroso domínio envolve graciosamente a nossa salvação, nos preservando em perseverança até o fim. Deus não apenas nos salva, mas, também, deseja que usufruamos do conforto da certeza subjetiva de que estamos seguros sob o Seu cuidado.

 

Falar no Reino é apontar para a concretização do propósito de Deus em Cristo, libertando os homens do poder de Satanás, conduzindo-os à liberdade concedida por Cristo, o Senhor: “…. até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef 1.14). Esta certeza que emana da Palavra é altamente estimulante e confortadora para a Igreja. Ela deve produzir em nós uma atitude de gratidão que tenha reflexos em nosso culto e nossa ética.[2]

 

Todos os que creem em Cristo como Seu Senhor e Salvador pessoal recebem definitivamente o Espírito Santo, o “Santo Espírito da Promessa”, sendo selados para o dia do juízo. A fé é selada pelo Espírito. O Espírito que fora prometido pelo Pai e pelo Filho, agora habita em nós, sendo Ele mesmo o agente do cumprimento das promessas (Ef 1.13/At 1.4,5; 2.33) e parte do cumprimento daquilo que Jesus Cristo prometeu (Jo 14.26; 16.7).[3] O Espírito que é o cumprimento da promessa certamente cumprirá o que Nele foi prometido.[4] Por isso Ele é chamado de Espírito da Promessa, Aquele que nos sela, sendo o nosso penhor; “é o dom da certeza”.[5]

 

Paulo escreve aos Romanos: “O amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado” (Rm 5.5). Anos mais tarde, exortaria a Timóteo: “Guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós” (2Tm 1.14).

Sabemos pelo Espírito que somos filhos de Deus e que, por maior que seja a nossa pobreza material, por mais insignificantes que sejamos considerados social e economicamente, somos súditos do Reino, sendo herdeiros de Deus, tendo o sinal de nossa cidadania e herança – sinal este concedido por Deus.

 

Paulo escreve aos gálatas: E, porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai! De sorte que já não és escravo, porém filho; e, sendo filho, também herdeiro por Deus” (Gl 4.6-7). (Vejam-se: Rm 8.16,17; Ef 1.14,18; Cl 3.24; Tt 3.7/1Jo 3.1,2).

 

É significativo para nossa abordagem, o fato de que o apóstolo diz que Deus enviou “o Espírito de seu Filho”. Ou seja, podemos nos relacionar com o Pai por meio de Seu Filho (Jo 14.6). E, é o Espírito do Filho – Aquele que é eternamente o Filho de Deus – Quem nos conduz ao Filho em nossa irmandade com Ele e, pela mesma graça, na condição de filhos de Deus (Jo 1.12; Gl 3.26).

 

A presença soberana do Espírito é a característica fundamental do cristão; o Espírito é a identidade dos que pertencem a Deus – “….se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9) –, dos filhos adotivos de Deus (Rm 8.15),[6] que são guiados por Ele (Rm 8.14).[7]

 

Quem tem o Espírito, tem a Cristo; quem não possui o Espírito não tem a Cristo e, de fato, não pertence a Ele (Rm 8.9-10). Assim, participar do Espírito é o mesmo que participar do Filho. O próprio Espírito testifica continuamente em nós que somos filhos de Deus e, portanto, herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo (Rm 8.16,17).[8] Embora a certeza de nossa salvação não seja algo essencial à salvação, o Pai deseja comunicar-nos constantemente esta certeza a fim de que a mesma seja subjetivada em nós e, deste modo, possamos viver a plenitude do privilégio e da responsabilidade de nossa filiação.

 

Notemos que esta identidade com Cristo pelo Espírito, é uma identidade de sofrimento e glória; a vida cristã consiste numa identificação com Cristo, em Seus sofrimentos e em Sua glória. “A união com Cristo é a união com Ele na eficácia da sua morte e na virtude da Sua ressurreição – aquele que assim morreu e ressuscitou com Cristo é liberto do pecado, e o pecado não exercerá o seu domínio”.[9]

 

Mas, será que não pecamos mais? Por outro lado, devemos nos acomodar ao pecado “residual” em nossa vida?

 

Continuaremos no próximo domingo, quando voltarei a falar sobre o tema.

 

 

Maringá. 15 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] George E. Ladd, The Presence of the Future: The Eschatology of Biblical Realism, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, Revised Edition, 1974, p. 331.

[2] Ver: R.C. Sproul, O Que é Teologia Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 174.

[3]“…. o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito” (Jo 14.26). “…. convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei” (Jo 16.7).

[4] Veja-se: W. Hendriksen, Efésios, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, (Ef 1.13), p. 117.

[5]Frederick D. Bruner, Teologia do Espírito Santo, São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 209.

[6]Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai(Rm 8.15).

[7]Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14).

[8]“O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados” (Rm 8.16-17).

[9]John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 159.