A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (34)

Os crentes, mesmo com uma nova natureza, tendo sido regenerados, terão que combater o pecado enquanto viverem. Este combate será árduo. A Bíblia não poupa figuras para descrever esta luta com cores vivas. Todavia, a Palavra de Deus nos garante, com ênfase maior, a vitória que temos em Cristo. Daí a nossa certeza de que devemos lutar contra o pecado, sabedores que Deus é por nós nesta luta. Este é o bom combate da fé. Bom por causa de sua necessidade e objetivo. Conforme exorta Paulo a Timóteo: Combate (a)gwni/zomai) o bom combate (a)gw/n) da fé” (1Tm 6.12).

 

Este combate (a)gwni/zomai) muitas vezes se manifestará de forma angustiante devido à sua intensidade e gravidade. Por isso a ideia embutida de esforço extremo (Lc 13.24; Cl 1.29; 4.12; 1Tm 4.10), empenho (Jo 18.36), fadiga (Cl 1.29) e, figuradamente, é ilustrada com o esforço de um atleta que compete (1Co 9.25).

 

Paulo orienta os gálatas evidenciando as duas forças operantes em nós, os regenerados: “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer” (Gl 5.17).

 

A Confissão de Westminster diz:

Esta santificação é no homem todo, porém imperfeita nesta vida; ainda persistem em todas as partes dele restos da corrupção, e daí nasce uma guerra contínua e irreconciliável – a carne lutando contra o espírito e o espírito contra a carne (XIII.2). (Rm 7.19,23; Gl 5.17; Fp 3.12; 1Ts 5.23; 1Pe 2.11; 1Jo 1.10).

 

Paulo escreve aos coríntios atestando a realidade da tentação, mas, ao mesmo tempo, indicando que ela não é vitoriosa sobre nós: “Não vos sobreveio tentação que não fosse humana, mas Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar” (1Co 10.13).

 

Notemos que a promessa de Jesus se refere ao seu socorro que nos conduz à vitória. Todavia, isto não exclui a gravidade da tentação, da luta contra a carne, o mundo e o diabo. Em nosso desejo renovado de agradar a Deus, encontraremos sempre no pendor de nossa carne uma luta contra este propósito, para que façamos a vontade do velho homem, surgindo daí, um combate renhido. Todavia, a nossa nova natureza triunfará pelo Espírito de Deus que em nós habita e cuja presença nos identifica como filhos de Deus (Rm 8.9,14,16).

 

O escritor aos Hebreus, tendo em vista o combate cristão, toma o sofrimento de Cristo como um exemplo e estímulo para a Igreja: “Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis desmaiando em vossas almas” (Hb 12.3). No momento seguinte, indicando a gravidade desse combate, adverte os seus ouvintes: “Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue” (Hb 12.4).

 

Paulo, com intenso vigor, mostra a dramaticidade do nosso confronto: “A nossa  luta não é contra o sangue e a carne, e, sim,           contra os principados e potestades deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12). O apóstolo descreve a nossa luta contra Satanás que está empenhado em nos afastar de Deus, em nos tornar alvos do entristecimento do Espírito que nos selou para “o dia da redenção”, quando se efetuará o resgate final da propriedade de Deus, que somos nós (Ef 1.12-13; 4.30).

 

Entretanto, apesar desse combate real – e não devemos minimizá-lo – a Palavra de Deus nos mostra a segurança que temos em Cristo Jesus: “Aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6). Pedro, à igreja perseguida e provada, diz: “Sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo” (1Pe 1.5). Continua: “Nisto exultais” (1Pe 1.6).

 

A Palavra de Deus nos diz que, apesar de uma luta intensa, do combate atroz contra o mundo, a carne e o diabo podemos já, nesta vida, exultar, na certeza do cuidado de Deus que nos garante a vitória final. Nesse mesmo espírito, escreveu Judas:

 

Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da  sua glória, ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos os séculos. Amém (Jd 24-25).

 

A Confissão de Westminster (1647) conclui o capítulo XIII dizendo:

 

Nesta guerra, embora prevaleçam por algum tempo as corrupções que restam (Rm 7.23), contudo, pelo contínuo socorro da eficácia do santificador Espírito de Cristo, a parte regenerada vence (Rm 6.14; Ef 4.15,16; 1Jo 5.4), e assim os santos crescem em graça (2Pe 3.18), aperfeiçoando a sua santidade no temor de Deus (2Co 7.1) (XIII.3).

 

Jesus morreu pelo seu povo, e nenhum de nós será arrebatado de suas mãos (Jo 6.37-40,44,65; 10.18-29/Rm 6.14; Fp 1.6; 1Jo 3.9; 5.4,18). A nossa chamada é para combater o bom combate da fé, a seguirmos “o Caminho” com perseverança, confiados, unicamente na graça de Deus.

 

Devemos recorrer aos recursos que Deus nos fornece para nos preservar puros. Paulo escreve à igreja com o coração puro: “Ora, o intuito da presente admoestação visa ao amor que procede de coração puro (kaqaro/j), e de consciência boa, e de fé sem hipocrisia” (1Tm 1.5).

 

Timóteo, jovem ministro, deveria ser exemplo, entre outras coisas, em sua pureza: “Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza (a)gnei/a) (1Tm 4.12).[1] Do mesmo modo, no trato com as senhoras e moças da igreja: “As mulheres idosas, como a mães; às moças, como a irmãs, com toda a pureza (a)gnei/a) (1Tm 5.2).

 

Paulo tem a consciência de ter servido a Deus com a consciência pura: “Dou graças a Deus, a quem, desde os meus antepassados, sirvo com consciência pura (kaqaro/j), porque, sem cessar, me lembro de ti nas minhas orações, noite e dia” (2Tm 1.3).

 

Continuaremos no próximo post.

 

 

Maringá, 22 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este post faz parte de uma série. Acesse aqui a série completa

 


 

[1]Foge, outrossim, das paixões da mocidade. Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro (kaqaro/j), invocam o Senhor” (2Tm 2.22).

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