A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (37) (Final)

Considerações finais

 

Enquanto o Senhor não os abrir, os olhos de nosso coração são cegos. – João Calvino.[1]

 

Reconheço e declaro que a fé é propriamente, toda ela, obra do Espírito Santo, por cuja iluminação conhecemos a Deus e os imensos tesouros da Sua bondade; e mais, sem a Sua luz o nosso entendimento seria tão cego que nós não poderíamos ver coisa alguma, e tão desprovido de sensibilidade que não poderíamos perceber e acolher bem as realidades espirituais. – João Calvino.[2]

 

Nessas considerações finais desejo recapitular alguns pontos.

 

Como vimos, a fé é a boa obra do Espírito Santo operada em nós (Jo 6.29). Esta fé pressupõe a nossa condição de pecadores,[3] necessitados de salvação, e, também, a livre graça de Deus.

 

A fé é a nossa declaração de que Deus efetuou de forma poderosa e eficaz o nosso novo nascimento. Passamos a ter vida. A fé é, portanto, o nosso primeiro ato após a nossa ressurreição espiritual.[4] “A fé salvadora, desde o início, dirige os olhos de nossa mente e de nosso coração para longe de nós mesmos e na direção da graça de Deus em Cristo”.[5]

 

Assim sendo, denominamos de fé salvífica aquele dom da graça de Deus, por meio do qual somos habilitados a receber a Jesus Cristo como nosso único e suficiente Salvador e, a crer em todas as promessas do Deus Triúno, conforme estão registradas nas Escrituras.

 

A fé salvífica é produto da graça de Deus que age por meio da sua Palavra registrada na Bíblia (At 3.16; At 14.27; 18.27; Rm 10.17; Ef 2.8; 6.23; Fp 1.29; Hb 12.2; Tg 1.18; 1Pe 1.23; 1Jo 5.1-5).[6]

 

Como temos demonstrado ao longo desses textos, essa fé se materializa em nossas ações que, durante toda a nossa vida vão sendo moldadas pela Palavra.

 

Calvino escreve com propriedade enfatizando a ação primeira de Deus em nos regenerar para que possamos crer:

 

Somos reconhecidos como filhos de Deus, não por conta de nossa própria natureza, nem por nossa própria iniciativa, mas porque o Senhor nos gerou voluntariamente (Tg 1.18), ou seja, com base em seu amor imerecido. Daqui se deduz, primeiramente, que a fé não provém de nossa própria ação, senão que é fruto da regeneração  espiritual. Pois o Evangelista afirma que ninguém pode crer, a não ser que seja gerado por Deus. Daqui se depreende que a fé é um dom celestial. Além do mais, a fé não é um mero e frio conhecimento, porquanto ninguém pode crer se porventura não for renovado pelo Espírito de Deus.[7]

 

A genuína fé, identificada como salvadora, não é uma crença qualquer, cujo teor seja indefinido, tendo como virtude apenas o fato de poder crer, uma espécie de fé na fé. Ao contrário disso, tem como conteúdo, a Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Fé é o abandono de toda confiança em obra produzida por nós mesmos como fundamento de nossa justificação e salvação. Ela também está convencida intelectualmente de sua veracidade e incontestabilidade (Hb 11.1). Como vimos, além deste elemento intelectual, consiste em uma rendição incondicional ao seu Senhor, em quem descansa de forma amorosa e confiante.[8]

 

A fé que não parte de um conhecimento verdadeiro e, por isso mesmo, não é vivencial, não é a verdadeira fé bíblica. A fé é persuadida pelo conhecimento que a possibilitou crer.[9] “A fé salvadora é um conhecimento seguro que produz segurança e certeza. Conhecimento e segurança caminham juntos”.[10]

 

Quando a nossa fé é autocentrada tendemos a nos frustrar ou a praticar uma autocomiseração espiritual visto que nos frustramos com as promessas que não foram feitas, contudo, foram por nós idealizadas. Neste caso, ainda com o foco equivocado nos inclinamos a achar que Deus falhou ou, que a nossa fé não foi suficiente. Este é o caminho de uma busca de fé meritória que, sendo seguido, nos distanciaria cada vez mais das Escrituras.

 

A fé não pode ser geradora de promessas divinas, antes, propulsora de uma vida que se harmonize com a promessa que procede de Deus.

 

Quando Paulo e Barnabé chegam à igreja de Antioquia, fazem um relato sumário de seu trabalho. Eles desejam compartilhar com todos os atos de Deus em sua missão entre os gentios.

 

Registra Lucas: Ali chegados, reunida a igreja, relataram quantas coisas fizera Deus com eles e como abrira aos gentios a porta da fé(At 14.27). Enfatizam o poder soberano e operante de Deus em seu ministério e, como Deus operou eficazmente chamando os seus pela fé. É por meio da Palavra que Deus nos gerou espiritualmente, tornando-nos seus filhos.

 

Deus providencia os meios para que os seus eleitos ouçam o Evangelho e, ao mesmo tempo, os chama poderosamente, aplicando a Palavra aos seus corações.

 

Calvino resume este ensinamento:

 

O reino do céu deveras se nos abre pela pregação externa do evangelho, mas ninguém entra nele a menos que Deus lhe estenda sua mão; ninguém se aproxima a menos que seja interiormente atraído pelo Espírito. Portanto, Paulo e Barnabé mostram, pelos resultados, que sua vocação era aprovada e ratificada por Deus, porquanto a fé dos gentios era precisamente como se um selo fosse impresso pela mão de Deus, a fim de a confirmar.[11]

 

Deus é quem abre o nosso coração e mente para que possamos entender salvadoramente a mensagem do Evangelho. Ilustremos isso com alguns episódios narrados por Lucas.

 

Após a ressurreição de Cristo os discípulos ainda não entendiam adequadamente as Escrituras em relação ao Messias, Jesus Cristo. Com dois deles, no caminho de Emaús, o Senhor abriu-lhes os olhos para que a compreendessem e cressem por meio da exposição das Escrituras. Foi esta a percepção deles.

 

Narra Lucas:

 

E aconteceu que, quando estavam à mesa, tomando ele o pão, abençoou-o e, tendo-o partido, lhes deu; então, se lhes abriram (dianoi/gw)[12] os olhos, e o reconheceram; mas ele desapareceu da presença deles. E disseram um ao outro: Porventura, não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha (dianoi/gw) as Escrituras? (Lc 24.30-32).

 

Agora, com os demais discípulos, Jesus mostra como as Escrituras se cumpriram em seu ministério, vida, morte e ressurreição. Lucas resume: “Então, lhes abriu (dianoi/gw) o entendimento (nou=j) para compreenderem (suni/hmi) as Escrituras” (Lc 24.45).

 

De passagem, podemos observar que o caminho para atingir a mente e o coração das pessoas é a exposição da Palavra. O Espírito que opera por meio dela não força as evidências, nem nos obriga a diminuir a nossa capacidade de pensar, antes, nos faz enxergar e crer nas evidências que estão ali diante de nós tão eloquentemente (At 3.16; 16.14;[13] 18.27; Rm 4.16; 1Co 3.5; Fp 1.29).[14]

 

Lucas relata aspectos da rotina evangelística de Paulo:

 

Paulo, segundo o seu costume, foi procurá-los e, por três sábados, arrazoou com eles acerca das Escrituras, expondo (dianoi/gw = “explicando”, “interpretando”) e demonstrando ter sido necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos; e este, dizia ele, é o Cristo, Jesus, que eu vos anuncio. (At 17.3).

 

A minha fé se constitui em mão receptora, não criadora ou geradora de algum bem a que venhamos a receber.[15]

 

Sem a graça de Deus jamais creríamos na mensagem do Evangelho, jamais poderíamos entendê-la de forma salvadora, portanto, de modo algum seríamos salvos. Assim sendo, não é demais enfatizar: não há mérito na fé.[16]

 

Por sua vez, esta Palavra uma vez ouvida e entendida, produz frutos em seus receptores. Conforme já nos referimos, Paulo dá graças a Deus pela vida dos colossenses a esse respeito:

 

3 Damos sempre graças a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, quando oramos por vós, 4desde que ouvimos (a)kou/w) da vossa fé em Cristo Jesus e do amor que tendes para com todos os santos; 5por causa da esperança que vos está preservada nos céus, da qual antes ouvistes (proakou/w)[17] pela palavra da verdade do evangelho, 6 que chegou até vós; como também, em todo o mundo, está produzindo fruto e crescendo, tal acontece entre vós, desde o dia em que ouvistes (a)kou/w) e entendestes (e)piginw/skw = conhecer acuradamente, intensamente) a graça de Deus na verdade. (Cl 1.3-6).

 

Somos, portanto, chamados a viver a nossa fé em grata obediência a Deus, onde Ele nos colocar e aonde Ele nos mandar. Peçamos a Deus discernimento e frutifiquemos em nossa fé. A Deus toda Glória. Amém.

 

 

São Paulo, 26 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.16), p. 41.

[2]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.10), p. 145.

[3] Veja-se o desenvolvimento deste argumento em: Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 408ss.

[4]Cf. John MacArthur, O Evangelho Segundo os Apóstolos, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2011, p. 88.

[5] Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 223.

[6] “Pela fé em o nome de Jesus, é que esse mesmo nome fortaleceu a este homem que agora vedes e reconheceis; sim, a fé que vem por meio de Jesus deu a este saúde perfeita na presença de todos vós” (At 3.16). “Querendo ele percorrer a Acaia, animaram-no os irmãos e escreveram aos discípulos para o receberem. Tendo chegado, auxiliou muito aqueles que, mediante a graça, haviam crido(At 18.27). Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo(Ef 6.23). “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele (Fp 1.29). “Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus” (Hb 12.2). “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que dele é nascido. 2 Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus: quando amamos a Deus e praticamos os seus mandamentos. 3 Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; ora, os seus mandamentos não são penosos, 4 porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. 5 Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus?” (1Jo 5.1-5).

[7]João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.13), p. 47-48.

[8] Para uma descrição sumária deste ponto, entre outros, vejam-se: R.C. Sproul, O Que é teologia Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 59-60; L. Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 506-508; Hermisten M.P. Costa, Eu Creio, São Paulo: Paracletos, 2002, p. 103-104; Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 409-412. Para uma abordagem histórica e crítica, um pouco mais ampla, veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 128-135; 212-215.

[9]Veja-se: Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 412.

[10] Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 99.

[11]John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1996 (Reprinted), v. 19, (At 14.27), p. 31.

[12] Este verbo tem uma aplicação espiritual, conforme a do texto de Lc 24.31,32,45, e também física (Mc 7.34-35).

[13]Conrad Pellikan (1478-1556), um dos tradutores da Bíblia de Zurique (1529), comentando At 16.4, escreveu: “…. ninguém pode ter fé na Palavra por suas próprias forças, Mas somente pelo dom do Espírito Santo. Portanto, ao ouvir as promessas do evangelho, não tenhamos esperança no poder da carne, mas oremos para que o Senhor abra nossos corações, conceda-nos o dom do Espírito, coloque em nós a fé e nos preencha com a obra da justiça” (Esther Chung Kim; Todd R. Hains, Comentário Bíblico da Reforma – Atos, São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 275).

[14] “Pela fé em o nome de Jesus, é que esse mesmo nome fortaleceu a este homem que agora vedes e reconheceis; sim, a fé que vem por meio de Jesus deu a este saúde perfeita na presença de todos vós” (At 3.16). “Certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu (dianoigw) o coração para atender às coisas que Paulo dizia (At 16.14). “Querendo ele percorrer a Acaia, animaram-no os irmãos e escreveram aos discípulos para o receberem. Tendo chegado, auxiliou muito aqueles que, mediante a graça, haviam crido(At 18.27). “Essa é a razão por que provém da fé, para que seja segundo a graça, a fim de que seja firme a promessa para toda a descendência, não somente ao que está no regime da lei, mas também ao que é da fé que teve Abraão (porque Abraão é pai de todos nós” (Rm 4.16). “Quem é Apolo? E quem é Paulo? Servos por meio de quem crestes, e isto conforme o Senhor concedeu a cada um” (1Co 3.5). “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele (Fp 1.29).

[15]“A fé não é chamada de mão porque trabalha ou merece a justificação de algum modo, e sim porque ela recebe Cristo, abraça-o e se apropria dele mediante a imputação divina. A fé não é uma mão criativa, e sim uma mão receptiva” (Joel R. Beeke, Justificação pela Fé Somente (A Relação da Fé com a Justificação): In: John F. MacArthur, Jr., et. al., A Marca da Vitalidade Espiritual da Igreja: Justificação pela Fé Somente, São Paulo: Editora Cultura Cristã, (2000), p. 56).

[16]“Não existe orgulho na fé. Fé é simplesmente a crença de que nada podemos fazer para nos salvar, mas que confiamos plenamente na graça de Deus” (Peter Jones, Verdades do Evangelho x Mentiras pagãs, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 34).

[17] Esta palavra só ocorre aqui em todo o NT.

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (36)

Implicações doutrinárias e práticas

 

  1. A verdadeira fé é aquela que ouve a Palavra de Deus e descansa perseverantemente nas Suas promessas.

 

Analisando a paciência de Davi revelada no salmo 40, Calvino extrai uma “preciosa” lição:

 

Embora Deus não se apresse em surgir em nosso socorro, no entanto propositadamente nos mantém em suspenso e perplexidade; entretanto, não devemos perder a coragem, já que a fé não é totalmente provada senão pela longa espera.

 

Continua:

 

É possível que Deus nos socorra mais lentamente do que gostaríamos, mas quando parece não tomar ele conhecimento de nossa condição, ou, se é que podemos usar tal expressão, quando parece inativo e a dormitar, isso é totalmente diferente de enganar; pois se somos incapazes de suportar, mediante o vigor e o poder invencíveis da fé, o tempo oportuno de nosso livramento por fim se manifestará.[1]

 

  1. A fé salvadora encontra o seu momento de decisão, quando o pecador tocado pelo Espírito, diz na integridade de seu ser: “Eu creio Senhor”.

 

  1. A fé salvadora é a boa obra do Espírito Santo em nós, baseando-se nos feitos do Pai e do Filho: A fé é resultado do ministério da Trindade em favor do Seu Povo.

 

  1. “Se o caminho para Deus só é aberto para a fé, segue-se que todos quantos se encontram fora da fé não podem agradar a Deus”, constata Calvino.[2]

 

  1. A fé em Deus se revela eloquentemente em nosso modo de viver, agir, falar e decidir. (1Ts 1.3,8). Em outras palavras: “A fé não é alguma espécie de crença intelectual que vocês carregam consigo numa mochila, não é algo que vocês manipulam, põem e dispõem, quando quiserem, mas é algo que se assenhoreia de todo o ser de vocês”, ensina Lloyd-Jones. [3]

 

  1. Pela fé Deus nos capacita a vencer as tentações e as armadilhas de Satanás (1Pe 5.8,9; 1Jo 5.4,5).

 

  1. A doutrina da justificação pela graça mediante a fé, como centro[4] e fundamento da fé cristã, amparada na perfeita satisfação propiciada por Cristo às exigências do Pai,[5] de nenhum modo exclui a responsabilidade que temos de viver de modo prático a nossa fé. A fé deve ser evidenciada pelos seus frutos resultantes da sincera obediência a Deus.

 

  1. A genuína teologia cristã é compreensível, transformadora e operante. A Igreja como manifestação histórica do Reino é desafiada a apresentar em sua fé operante (práxis)[6] a eficácia da ética de Jesus Cristo e, a demonstrar o quanto a igreja leva a sério o seu Senhor.

 

  1. “Indubitavelmente, olhar para Deus é uma propriedade da fé, mesmo nas circunstâncias mais tentadoras, e pacientemente esperar pelo socorro que lhe fora prometido por Deus”, estimula-nos Calvino.[7] 
  2.  O culto que prestamos a Deus deve ser a manifestação de uma alma crente que pela fé conhece o seu Senhor, a Quem adora. (2Pe 3.18).

 

  1. O Senhor conhece a nossa fé (Ap 2.13,19). Usemos, pois, dos meios fornecidos por Deus para o nosso alimento espiritual e, assim, vivamos em comunhão com Ele (Hb 11.4-7). A fé faz parte de nossa responsabilidade.[8]

 

Finalmente, orienta-nos o escritor inspirado:

 

22 Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. 23 Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se ao homem que contempla, num espelho, o seu rosto natural; 24 pois a si mesmo se contempla, e se retira, e para logo se esquece de como era a sua aparência. 25 Mas aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar. (Tg 1.22-25).

 

Temos, portanto, que nos apegar à verdade ouvida para que não nos desviemos dela. O escritor de Hebreus após falar a respeito da superioridade de Cristo sobre todas as coisas exorta-nos a dar atenção à sua Palavra, para que não nos desviemos, por negligência, em nossa rota de obediência a ele: “Por esta razão, importa que nos apeguemos, com mais firmeza, às verdades ouvidas (a)kou/w), para que delas jamais nos desviemos” (Hb 2.1).

 

São Paulo, 26 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 40.1), p. 215.

[2]João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 11.6), p. 304.

[3] D. Martyn Lloyd-Jones, Deus o Espírito Santo, p. 189.

[4]Veja-se: Franklin Ferreira; Alan Myatt, Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual, São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 812.

[5]Veja-se: Thomas Watson, A Fé Cristã, estudos baseados no breve catecismo de Westminster, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 264.

[6] Jeremias denomina isso de “fé vivencial” (J. Jeremias, O Sermão do Monte, 4. ed. São Paulo: Paulinas, 1980, p. 57).

[7]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 25.5), p. 543.

[8] Veja-se: John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 126.

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (34)

Os crentes, mesmo com uma nova natureza, tendo sido regenerados, terão que combater o pecado enquanto viverem. Este combate será árduo. A Bíblia não poupa figuras para descrever esta luta com cores vivas. Todavia, a Palavra de Deus nos garante, com ênfase maior, a vitória que temos em Cristo. Daí a nossa certeza de que devemos lutar contra o pecado, sabedores que Deus é por nós nesta luta. Este é o bom combate da fé. Bom por causa de sua necessidade e objetivo. Conforme exorta Paulo a Timóteo: Combate (a)gwni/zomai) o bom combate (a)gw/n) da fé” (1Tm 6.12).

 

Este combate (a)gwni/zomai) muitas vezes se manifestará de forma angustiante devido à sua intensidade e gravidade. Por isso a ideia embutida de esforço extremo (Lc 13.24; Cl 1.29; 4.12; 1Tm 4.10), empenho (Jo 18.36), fadiga (Cl 1.29) e, figuradamente, é ilustrada com o esforço de um atleta que compete (1Co 9.25).

 

Paulo orienta os gálatas evidenciando as duas forças operantes em nós, os regenerados: “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer” (Gl 5.17).

 

A Confissão de Westminster diz:

Esta santificação é no homem todo, porém imperfeita nesta vida; ainda persistem em todas as partes dele restos da corrupção, e daí nasce uma guerra contínua e irreconciliável – a carne lutando contra o espírito e o espírito contra a carne (XIII.2). (Rm 7.19,23; Gl 5.17; Fp 3.12; 1Ts 5.23; 1Pe 2.11; 1Jo 1.10).

 

Paulo escreve aos coríntios atestando a realidade da tentação, mas, ao mesmo tempo, indicando que ela não é vitoriosa sobre nós: “Não vos sobreveio tentação que não fosse humana, mas Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar” (1Co 10.13).

 

Notemos que a promessa de Jesus se refere ao seu socorro que nos conduz à vitória. Todavia, isto não exclui a gravidade da tentação, da luta contra a carne, o mundo e o diabo. Em nosso desejo renovado de agradar a Deus, encontraremos sempre no pendor de nossa carne uma luta contra este propósito, para que façamos a vontade do velho homem, surgindo daí, um combate renhido. Todavia, a nossa nova natureza triunfará pelo Espírito de Deus que em nós habita e cuja presença nos identifica como filhos de Deus (Rm 8.9,14,16).

 

O escritor aos Hebreus, tendo em vista o combate cristão, toma o sofrimento de Cristo como um exemplo e estímulo para a Igreja: “Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis desmaiando em vossas almas” (Hb 12.3). No momento seguinte, indicando a gravidade desse combate, adverte os seus ouvintes: “Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue” (Hb 12.4).

 

Paulo, com intenso vigor, mostra a dramaticidade do nosso confronto: “A nossa  luta não é contra o sangue e a carne, e, sim,           contra os principados e potestades deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12). O apóstolo descreve a nossa luta contra Satanás que está empenhado em nos afastar de Deus, em nos tornar alvos do entristecimento do Espírito que nos selou para “o dia da redenção”, quando se efetuará o resgate final da propriedade de Deus, que somos nós (Ef 1.12-13; 4.30).

 

Entretanto, apesar desse combate real – e não devemos minimizá-lo – a Palavra de Deus nos mostra a segurança que temos em Cristo Jesus: “Aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6). Pedro, à igreja perseguida e provada, diz: “Sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo” (1Pe 1.5). Continua: “Nisto exultais” (1Pe 1.6).

 

A Palavra de Deus nos diz que, apesar de uma luta intensa, do combate atroz contra o mundo, a carne e o diabo podemos já, nesta vida, exultar, na certeza do cuidado de Deus que nos garante a vitória final. Nesse mesmo espírito, escreveu Judas:

 

Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da  sua glória, ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos os séculos. Amém (Jd 24-25).

 

A Confissão de Westminster (1647) conclui o capítulo XIII dizendo:

 

Nesta guerra, embora prevaleçam por algum tempo as corrupções que restam (Rm 7.23), contudo, pelo contínuo socorro da eficácia do santificador Espírito de Cristo, a parte regenerada vence (Rm 6.14; Ef 4.15,16; 1Jo 5.4), e assim os santos crescem em graça (2Pe 3.18), aperfeiçoando a sua santidade no temor de Deus (2Co 7.1) (XIII.3).

 

Jesus morreu pelo seu povo, e nenhum de nós será arrebatado de suas mãos (Jo 6.37-40,44,65; 10.18-29/Rm 6.14; Fp 1.6; 1Jo 3.9; 5.4,18). A nossa chamada é para combater o bom combate da fé, a seguirmos “o Caminho” com perseverança, confiados, unicamente na graça de Deus.

 

Devemos recorrer aos recursos que Deus nos fornece para nos preservar puros. Paulo escreve à igreja com o coração puro: “Ora, o intuito da presente admoestação visa ao amor que procede de coração puro (kaqaro/j), e de consciência boa, e de fé sem hipocrisia” (1Tm 1.5).

 

Timóteo, jovem ministro, deveria ser exemplo, entre outras coisas, em sua pureza: “Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza (a)gnei/a) (1Tm 4.12).[1] Do mesmo modo, no trato com as senhoras e moças da igreja: “As mulheres idosas, como a mães; às moças, como a irmãs, com toda a pureza (a)gnei/a) (1Tm 5.2).

 

Paulo tem a consciência de ter servido a Deus com a consciência pura: “Dou graças a Deus, a quem, desde os meus antepassados, sirvo com consciência pura (kaqaro/j), porque, sem cessar, me lembro de ti nas minhas orações, noite e dia” (2Tm 1.3).

 

Continuaremos no próximo post.

 

 

Maringá, 22 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]Foge, outrossim, das paixões da mocidade. Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro (kaqaro/j), invocam o Senhor” (2Tm 2.22).

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (33)

 

A santificação jamais terá fim nesta vida. Nós não somos perfeitos, nem o seremos enquanto estivermos neste modo de vida terreno. Buscamos a perfeição e caminhamos em sua direção. Contudo, como não estamos livres da influência do pecado, significa que a nossa caminhada não é sempre na mesma direção. Muitas vezes, avançamos, outras vezes, lamentavelmente retrocedemos. Somos tentados a seguir atalhos que se mostram fascinantes, mas que nos conduzem ao desvio de rota do propósito de Deus em nos tornar cada vez mais santos conforme à imagem de Seu Filho.

 

Todavia, neste processo, até mesmo as nossas quedas e desvios, de alguma forma, fazem parte do nosso currículo salvador – deixando cicatrizes em nossa alma, é verdade –  que tem como propósito final glorificar a Deus.

 

A oração do Pai Nosso indica que somos pecadores carentes da misericórdia perdoadora de Deus.[1] O pecado continuará por todo este estado de existência a exercer influência sobre nós, por isso, qualquer conceito de perfeccionismo espiritual, que declare que o crente não mais peca, é ilusório e, portanto, antibíblico.[2] A Palavra de Deus ensina enfaticamente que nós pecamos mesmo após o nosso novo nascimento.[3] A Escritura nos desafia e instrui: “Quem pode dizer: Purifiquei o meu coração, limpo estou do meu pecado?” (Pv 20.9). “Não há homem justo sobre a terra, que faça o bem e que não peque” (Ec 7.20). (Vejam-se: Rm 6.20; 7.13-25; Tg 3.2. 1Jo 1.8).

 

O pecado tem um poder sutil. Ele nos aliena de Deus e, consequentemente de nós mesmos. Fornece-nos óculos coloridos por meio dos quais nunca enxergamos a gravidade de nossa real situação. A visão do pecado, por esta óptica, sempre nos parecerá fascinante e atraente. O Cristianismo, no entanto, tem como um de seus ingredientes fundamentais, a consciência de que somos pecadores e, que, sem o perdão de Deus permanecemos sob a sua ira.

 

O apóstolo João não nos deixa nutrir nenhuma ilusão quanto a isso. Escreve aos crentes de todas as épocas, e nos adverte quanto ao fato concreto e real de nossos pecados: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós” (1Jo 1.10/1Jo 2.1).

 

Todavia, é preciso que entendamos que a consciência da não existência do perfeccionismo espiritual não nos pode conduzir ao extremo oposto de nos acomodar com o pecado e, até mesmo, nutrir certo orgulho em preservá-lo. Pecado intocável certamente é cultivado com mimos em nosso coração por satanás.

 

Portanto, a questão aqui é de equilíbrio: Não alcançamos a perfeita santidade, contudo, devemos buscá-la constantemente sem esmorecer. O que nos distingue da nossa antiga condição, além da consciência de que somos pecadores, é que não mais temos prazer no pecado. Podemos até dizer que o pecado é um acidente de percurso na vida dos regenerados.[4]

 

Isto indica a necessidade de o convertido adquirir novos hábitos pela prática da verdade em amor (Ef 4.15).[5] A graça de Deus é educadora (Tt 2.11-15), agindo por meio das Escrituras, nos corrigindo e educando na justiça para o nosso aperfeiçoamento (2Tm 3.16,17). Alguns desses hábitos são: leitura da Palavra, oração, participação dos cultos, esforço no anúncio do Evangelho e ajuda aos irmãos na fé.

 

O nosso crescimento externo deve ser acompanhado pelo aprofundamento e solidificação de nossas raízes.  Altura exige profundidade e solidez. Por isso, o nosso crescimento profissional, social, econômico, cultural, etc., deve vir acompanhado necessariamente de um alimento mais sólido, buscado não na mera superfície, para que possamos ter, não simplesmente, uma aparência espiritual teatral e cosmética, mas real e verdadeira.

 

Árvores mais altas necessitam de raízes mais profundas e vigorosas. A nossa projeção em geral vem acompanhada de tentações mais sofisticadas e sutis, às quais se configuram de maneira diferente. Possivelmente o nosso arsenal espiritual, se não estiver em constante sincronia com a Palavra, estará desatualizado para uma batalha na qual já entramos vencidos porque nem sequer a percebemos como tal…

 

Ao povo da Aliança que se desviara do caminho do Senhor, este lhe diz: “Aprendei (למד) (lâmad) a fazer o bem” (Is 1.17).[6] A santificação é justamente isto: um santo aprendizado guiado pelo Espírito, tendo como constituição normativa e legislativa do nosso pensar, agir e sentir, a Palavra de Deus. Portanto, a santificação envolve uma nova “alfabetização” espiritual guiada pela Palavra de Deus.

 

Louis Berkhof (1873-1957) usa uma figura para ilustrar a nossa nova condição:

 

Uma criança recém-nascida é, salvo exceções, perfeita em suas partes, mas não está no grau de desenvolvimento ao qual foi destinada. Justamente assim, o novo homem é perfeito em suas partes, mas, na presente vida, continua imperfeito no grau de desenvolvimento espiritual.[7]

 

O crente é chamado a uma caminhada constante.            O Cristianismo é um caminho de vida, fundamentado na prática do evangelho, conforme ensinado por Jesus Cristo. A santificação é, portanto, um desafio a perseguirmos este caminho, empenhando-nos por fazer a vontade de Deus. Por isso, a santificação nos fala de caminharmos sempre em direção ao alvo proposto por Deus, com os nossos corações humildes, desejosos em agradar a Deus, de fazer a vontade dele com o sentimento adequado. A vida cristã não é a de um transeunte em férias, sem compromissos, sem agenda definida. A vida cristã se adéqua melhor à figura do peregrino, sempre buscando o melhor caminho para chegar ao seu destino. O cristão está comprometido com o propósito de seu Senhor (Ef 1.4). Todo o seu coração deve estar voltado para isso.

 

Portanto, a santificação não é algo periférico, ou acidental na vida do crente, antes, é um propósito para que devamos nos concentrar com todas as nossas forças espirituais a fim de cumprir o plano de Deus para nós. Em síntese: a santificação é um imperativo expresso por Deus em sua Palavra para todos os seus filhos. A vida cristã é um desafio à santidade conforme o propósito de Deus. De fato, não pode existir vida cristã estagnada, acomodada. A vida cristã é um desafio à santidade, conforme o santo e benfazejo propósito de Deus.[8]

 

Por isso, repito: na vida dos eleitos de Deus não há lugar para a acomodação no pecado. Deus nos chama à santidade conforme o seu propósito sábio, soberano, santo e eterno. Sendo assim, a santificação faz parte essencial da vida da Igreja.

 

Maringá, 22 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

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[1] Lutero (1483-1546), em seus sermões sobre o “Pai Nosso”, proferidos em 1517, nos chama a atenção para o fato de que, quando oramos a Deus pedindo que “Faça a Sua vontade”, estamos afirmando que desobedecemos a Deus, confessando “contra nós próprios” que não cumprimos a Sua vontade. Acrescenta: “… Uma vez que temos de fazer esta oração até a morte, segue-se que até à hora da nossa morte seremos também acusados de sermos os que desobedeceram a vontade de Deus. Quem, pois, pode ser orgulhoso ou subsistir à sua própria oração, quando nela descobre que, se Deus o quisesse tratar com justiça, o poderia fazer, a toda a hora e com toda a equidade condenando-o e reprovando-o como desobediente, desobediência que ele confessa com a sua boca e de que está convencido?” Portanto, conclui Lutero, esta petição deve nos conduzir à humildade, reconhecendo a iniquidade de nossa “vontade própria”, e a procurar sinceramente na graça de Deus a remissão de toda a nossa desobediência (Martinho Lutero, Explicação do Pai Nosso, Lisboa: Edições 70, (Estante Espiritualidade), (1996), p. 46ss).

[2] Veja-se a exposição da teoria e a sua refutação em: Augustus H. Strong, Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos, 2003, v. 2, p. 618-624.

[3] “Quanto trazemos ainda conosco de nossa carne é algo que não podemos ignorar, pois ainda que a nossa habitação está no céu, todavia somos ainda peregrinos na terra” (J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 13.14), p. 462). Veja-se também: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.11), p. 166.

[4]Calvino escreve: “Todavia, que ninguém se engane nem se vanglorie do seu mal, ao ouvir que o pecado habita sempre em nós. Isso não é dito para que os pecadores durmam sossegados em seus pecados, mas unicamente com este propósito: que aqueles que, aborrecidos, tentados e espicaçados por sua carne, não fiquem desolados, não se desanimem e não percam a esperança; antes, que vejam que continuam no caminho certo e que tiveram bom proveito ao sentirem que a sua concupiscência vai diminuindo pouco a pouco, dia após dia, até chegarem à meta almejada, a saber, a eliminação derradeira e final da sua carne, alcançando a perfeição quando esta vida mortal tiver fim” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.11), p. 166). Do mesmo modo, ver: Juan Calvino, El Carácter de Job, Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 1), p. 32.

[5] “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Ef 4.15).

[6] Em outro lugar o salmista suplica: “Faze-me, Senhor, conhecer os teus caminhos, ensina-me (למד)(lâmad) as tuas veredas” (Sl 25.4). A ideia básica de (למד)(lâmad) é a de treinar e educar, acostumar-se a; familiarizar-se com; aprender. Para um estudo mais pormenorizado do emprego da Lâmad, veja-se: Hermisten M.P. Costa, Introdução à Educação Cristã, Brasília, DF.: Monergismo, 2013.

[7] L. Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 541.

[8] “Cristianismo não é você parar na conversão e no conhecimento de que os seus pecados estão perdoados, e então contentar-se com isso pelo resto da vida; cristianismo é ingressar e desenvolver-se rumo à medida da estatura da plenitude de Cristo. Precisamos desenvolver nossas mentes e nossas faculdades, se é que desejamos tomar posse disso. Se nos contentamos com menos que isso, não passamos de crianças em Cristo, e somos indignos deste glorioso evangelho” (D.M. Lloyd-Jones, As Insondáveis Riquezas de Cristo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 254).

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (32)

As Escrituras Sagradas nos ensinam que a eleição de Deus não é um ato isolado. O Deus Trino está comprometido intensamente com a concretização desta eleição em santidade até a consumação de sua obra. Em outras palavras, Deus está ativamente interessando em nossa santificação.

 

A justificação eterna e objetiva, conforme os propósitos de Deus em Cristo, e a justificação subjetiva,[1] recebida pela fé, se consumam em nossa união com Cristo,[2] em quem somente há a justiça perfeita exigida por Deus. A obra de Cristo envolve ambos os aspectos da mesma graça. Esta união se revela e se desenvolve em nossa obediência aos mandamentos de Deus. O desafio para nós hoje é viver em harmonia com a nossa nova natureza e condição, andando, conforme vimos, nas obras preparadas por Deus para nós (justificação demonstrativa) (Ef 2.8-10).[3]  “A justiça imputada para justificação e a justiça inerente para a santificação devem estar inseparavelmente unidas”, conclui Thomas Watson (c. 1620-1686),[4]

 

A Santíssima Trindade opera eficazmente em nós para que sejamos santos. Por isso, fundamentados na Palavra de Deus, podemos dizer que o Deus Trino é o autor de nossa santificação. Daí a oração de Paulo: “O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo” (1Ts 5.23).[5]

 

Quando falamos da santidade de todo o povo de Deus, estamos nos referindo ao fato de que todos nós, os crentes em Cristo, fomos separados por Deus para Ele mesmo. Esta é a ideia fundamental de santificar, separar. Deus nos separou como sua propriedade peculiar. Somos o seu povo, pertencemos exclusivamente a Ele.

 

A Igreja é santa e pecadora, este é um dos paradoxos da Igreja. Com isto não queremos dizer que a Igreja santa seja apenas uma abstração de nossa mente e que a Igreja pecadora seja de fato a única realidade histórica. Não. A santidade e a pecaminosidade fazem parte da vida da Igreja, não simplesmente como ideal (que está apenas no plano imaginário), mas como algo real e concreto.

 

Quando fomos convertidos por Deus, fomos santificados, separados do mundo para Deus. Ato contínuo, iniciou-se o processo de santificação: de crescimento espiritual, que consiste no abandono do velho modo de vida e uma progressão rumo à obediência perfeita à vontade de Deus. A santificação, portanto, começa pelo restabelecimento de nossa comunhão com Deus em Cristo Jesus.[6]

 

A santidade da Igreja não pode ser negada pela falha de seus membros em viverem de acordo com a sua nova natureza genética, em Cristo. Esta omissão vergonhosa aponta para a nossa falsidade “ideológica”: somos o povo santo de Deus, no entanto, é verdade, muitas vezes nos comportamos como pessoas totalmente estranhas à Aliança, esquecendo-nos deliberadamente das bênçãos de Deus, do seu senhorio e de quem somos.

 

A Igreja é santa porque foi santificada, separada para si mesmo por Cristo Jesus. A santidade é um dom de Deus, resultante de nossa comunhão com ele (santidade posicional).[7] Por outro lado, o fracasso da Igreja em não viver santamente aponta para a necessidade de assim fazê-lo (Rm 1.7),[8] sendo coerente com a sua natureza.[9]

 

Deus nos escolheu para que fôssemos santos. Aos colossenses Paulo relaciona a nossa responsabilidade de santidade com o privilégio de nossa eleição: “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade” (Cl 3.12). Aos tessalonicenses, conforme já citamos, Paulo estabelece a conexão de forma clara e direta: “Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação,            pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2Ts 2.13).

 

Deus é absolutamente santo, majestoso em sua santidade (Êx 15.11; Sl 99.9; Is 6.3)[10] e deseja do seu povo uma vida de santidade.      Nós fomos separados dos valores deste mundo a fim de progredirmos em nossa fé. Somos santos em santificação![11]

 

A santificação como um processo tem início no ato de Deus. Em outras palavras, estamos dizendo que fomos separados do mundo (sendo santificados), para crescermos, progredirmos em nossa fé (santificação). O Espírito opera em nós a salvação que se evidencia em santificação. A santidade posicional requer necessariamente a santidade existencial!

 

Paulo cultua a Deus considerando que Deus nos escolheu na eternidade para sermos santos (Ef 1.4).[12] Deus nos elegeu para sermos aquilo que não éramos. Assim, a escolha divina não foi alicerçada em mérito algum. O seu propósito é tornar-nos santos.

 

A doutrina da santificação pressupõe que não somos perfeitos. Ela está relacionada com o homem pecador, cônscio de seus pecados, mas que, ao mesmo tempo, insatisfeito com a sua prática, deseja se aperfeiçoar espiritualmente.

 

O ponto relevante aí é que essa insatisfação com o pecado, acompanhada pelo desejo de santificar-se, pertence ao homem que foi gerado de novo pelo Espírito que agora nele habita, e desperta no coração dele desejos santos de crescimento e amadurecimento espiritual.

 

A vida cristã não significa apenas ser salvo. A salvação é apenas o seu início, consistindo numa busca efetiva por conhecer a Deus por meio da sua Palavra, e vivenciá-la diariamente. O fato é que, ou buscamos a santidade, ou na realidade nunca fomos eleitos por Deus. Esta é a verdade bíblica pura e simples: não há eleição e, consequentemente, vida cristã, sem santificação (Ef 1.4).

 

São Paulo, 20 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Vejam-se: L. Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 520-521; Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 203ss.; 222ss.; Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 383-384.

[2]“A justiça que nos justifica, portanto, não deve ser separada da pessoa de Cristo. Ela não consiste de um dom material ou espiritual que Cristo nos concede fora de Si mesmo, ou que nós podemos aceitar e receber sem que aceitemos e recebamos a pessoa de Cristo. Não há possibilidade de se desfrutar dos benefícios de Cristo sem que haja comunhão com a pessoa de Cristo e a comunhão com Cristo invariavelmente traz consigo os benefícios de Cristo. Para ser aceito diante de Deus, para ser livre de toda culpa e punição e para desfrutar da glória de Deus e da vida eterna, nós temos que ter Cristo, não algo dele, mas o próprio Cristo” (Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 499).

[3]8Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; 9 não de obras, para que ninguém se glorie. 10 Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.8-10).

[4]Thomas Watson, A Fé Cristã, estudos baseados no breve catecismo de Westminster, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 266.

[5] Sobre a Trindade como agende de nossa santificação, veja-se: Hermisten M.P. Costa, A felicidade segundo Deus: teologia para a vida na perspectiva das Bem-Aventuranças, Goiânia, GO.: Editora Cruz, 2016.

[6]“A santificação é questão de estarmos corretamente relacionados com Deus e de nos tornarmos inteiramente devotados a ele. Santificação é tornar-me positivamente santo” (D.M. Lloyd-Jones, Santificados Mediante a Verdade, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, (Certeza Espiritual, v. 3), 2006, p. 91). À frente: “Santificação é ser devotado a Deus, não somente ser separado do mundo, e sim separado para Deus e para compartilhar Sua vida – santidade positiva” (D.M. Lloyd-Jones, Santificados Mediante a Verdade, p. 91).

[7] Que Hoekema chama de “santificação definitiva” (Anthony A. Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 215).

[8]A todos os amados de Deus, que estais em Roma, chamados para serdes santos, graça a vós outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (Rm 1.7).

[9] Veja-se: Bill J. Leonard, La Natureza de la Iglesia, Buenos Aires: Casa Bautista de Publicaciones, 1989, p. 126ss.

[10]A palavra santo é de difícil interpretação. A sua origem está relacionada a cortar e separar. A ideia que talvez prevaleça é de algo acima. Deus como absolutamente santo está acima de todas as coisas. Por isso, Ele é santo em si mesmo pelo próprio fato de ser Deus. Dizer que Deus é santo é dizer que Deus é Deus. Por isso, quando a palavra se refere a Deus, relaciona-se com a sua Majestade. Ele não se confunde com a Sua criação. Ele a transcende qualitativamente em todos os modos. Ele está acima de tudo o que existe.

“A santidade de Deus, dessa forma, se torna uma expressão da perfeição do seu ser, a qual transcende toda as criaturas” (Jackie A. Naude, Qds: In: Willem A., Vangemeren, org. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 3, p. 876). Somente Ele é absolutamente santo; não há nem haverá outro.

[11] “O Novo Testamento não diz que os crentes devem ter vidas santas a fim de se tornarem santos; ao invés disso, ensina que os crentes, por serem santos, devem viver vidas santas! Esse, pois, é o primeiro e fundamental aspecto do dom divino da santificação” (J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 162-163).

[12]Assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor” (Ef 1.4).

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (31)

6.9. Santificação

A justificação é um presente gratuito à parte das obras, mas a graciosa imputação de Deus de Sua justiça e o perdão das transgressões não podem ser reais, se não forem acompanhadas de santidade. – Russell P. Shedd.[1]

 

Toda fé adulta teve outrora seu período de infância; nem ela é tão perfeita em alguém que não haja mais qualquer necessidade de progresso. Portanto, aqueles que já eram crentes, passam a crer ainda mais, enquanto fazem progresso diariamente rumo ao alvo. E, assim, aqueles que já alcançaram os primórdios da fé, que então se esforcem continuamente para obter progresso. – João Calvino.[2]

 

Eu creio, Senhor, na divina promessa,

Vitórias já tive nas lutas aqui.

Contudo, é mui certo que a gente tropeça;

Por isso, Senhor, eu preciso de ti. [3]

 

Há uma relação indissolúvel entre fé, justificação e santificação. Por isso, os assuntos estão inter-relacionados e, de forma recorrente, os conectamos em nossa abordagem.

 

Não fomos salvos porque Deus se agradou de nossas supostas obras de justiça, do nosso justo modo de viver, antes, ele nos declarou justos, perdoando os nossos pecados, aplicando em nós a justiça de Cristo, nos capacitando a viver em novidade de vida, conforme o nosso novo status.

 

O preço de nossa justificação, gratuita para nós, custou o sangue de Cristo Jesus. A justificação, por envolver a regeneração,[4] é uma vocação incondicional à santificação conforme a vontade de Deus.[5]

 

A justificação nos livra da condenação do pecado. Deus chama pecadores, todavia, não deseja que continuem assim, antes, infunde neles a justiça de Cristo, dando-lhes um novo coração, mudando as inclinações de sua alma, habilitando-os a toda boa obra (Ef 2.8-10)[6].[7]

 

Por sua vez, deve ser acentuado que a justificação subjetiva marca o nosso novo itinerário de vida, já selado em nossa eleição eterna, rumo à glorificação com o Senhor, vivendo, conforme o propósito de Deus, para as boas obras, fruto da fé,[8] preparadas pelo próprio Deus para o seu povo (Ef 2.10).

 

A justificação é frutuosa. A graça justificadora jamais é estéril. A justificação implica necessariamente em santificação. A santificação pressupõe essencialmente a justificação. Não ousemos dividir o indivisível. A separação destas duas realidades concernentes à nossa salvação, propicia cair no equívoco da anomia, declarando que já não há mais lei. Desse modo, o caminho lógico a ser seguido é o de que não precisaríamos de santificação visto que, considerados salvos, poderíamos fazer o que bem entendêssemos. No entanto, a verdade bíblica é outra: somos declarados justos para vivermos em santidade.[9]

 

“Cristo a ninguém justifica, a quem ao mesmo tempo, não santifique”, declara Calvino[10] Todavia, a realidade do pecado ainda existe em nós. O justificado é simultaneamente justo e pecador (“Simul justus et peccator”) conforme expressão de Lutero (1483-1546).[11] Ele é declarado justo por Deus. Aqui não é o ponto final, antes, o início. As evidências de seu novo nascimento vão, gradativamente, se tornando mais claras por meio de sua obediência a Deus em santificação.

 

Neste processo de aperfeiçoamento há, fundamentalmente, a necessidade de nosso crescimento e amadurecimento. Deus não somente nos salva, mas, também, nos faz crescer em nossa caminhada.

 

A graça não é um ato condescendente de Deus para com os nossos pecados, um simples “alvará de soltura sobrenatural”[12]que nos autoriza ou, pelo menos, faz vistas grossas à nossa volta ao pecado anteriormente perdoado. Não.

 

Na educação divina (disciplina), vemos estampada a Sua graça que atua de forma pedagógica, instrutiva e corretiva: “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos (paideu/w) para  que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos no presente século, sensata, justa e piedosamente  (eu)sebw=j)” (Tt 2.11-12).

 

A santificação, portanto, é uma vocação imperativa e incondicional dos crentes. Aqueles a quem Deus elegeu, na eternidade, e chamou, no tempo, para si, os destina à uma vida de santidade. O chamado de Deus, portanto, não é virtual ou apenas teatral, antes, é real, tendo implicações óbvias no nosso pensar, sentir, decidir e agir. O propósito de Deus é reunir ao longo da história o seu povo a fim de constituir na eternidade, de forma definitiva a sua igreja, remida em Cristo, santificada em Cristo e que se assemelhe ao seu Senhor. “O maior desejo de Deus é ter santos no céu que sejam semelhantes ao seu próprio Filho”, conclui Shedd (1929-2016).[13]

 

São Paulo, 19 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Russell P. Shedd, A Justificação: A resposta de Deus para uma vida cristã autêntica, 2. ed. rev. São Paulo: Vida Nova, 2010, p. 28. À frente, enfatiza: “A ausência de boas obras, então, é a prova concreta de que qualquer justificação alegada é imaginária” (Russell P. Shedd, A Justificação: A resposta de Deus para uma vida cristã autêntica, 2. ed. rev. São Paulo: Vida Nova, 2010, p. 30).

[2]João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 2.11), p. 95.

[3] Primeira estrofe do Hino “Necessidade”, nº 68 do Hinário Presbiteriano Novo Cântico. Hino composto pelo pastor metodista, Antônio de Campos Gonçalves (1899-1983) (letra) e Henriqueta Rosa Fernandes Braga (1909-1983) (música).

[4] “A regeneração é inseparável de seus efeitos, e um destes efeitos é a fé” (John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 119).

[5]“É certamente verdade que somos justificados em Cristo tão somente pela misericórdia divina, mas é igualmente verdade e correto que todos quantos são justificados são chamados pelo Senhor para que vivam uma vida digna de sua vocação. Portanto, que os crentes aprendam abraçá-lo, não somente para a justificação, mas também para a santificação, assim como ele se nos deu para ambos os propósitos, para que não venham a mutilá-lo com uma fé igualmente mutilada” (João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.13), p. 274). Ver também: João Calvino, Efésios, (Ef 2.10), p. 63.

[6]8Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; 9 não de obras, para que ninguém se glorie. 10 Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.8-10).

[7] “A justificação é unicamente pela fé. A santificação não é unicamente pela fé. A totalidade da vida cristã é uma vida de fé, porém na santificação temos que agir, e desenvolver, despir-nos e vestir-nos; como o apóstolo nos diz em todos esses pormenores que nos oferece aqui. (Ef 4)” (D.M. Lloyd-Jones, As Trevas e a Luz, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1995, p. 130).

[8] Vejam-se: Catecismo de Heidelberg, p. 86; Confissão Belga, Art. 24; Segunda Confissão Helvética, XVI.2; Confissão de Westminster, XVI.2.

[9]“…. Nunca se deve abrir uma lacuna entre a justificação e a santificação. (…) Você não pode, você não deve tentar dividir Cristo. É falsa a doutrina que diz que você pode ser justificado sem ser santificado. É impossível; você é ‘santo’ antes de ser ‘fiel’. Você foi separado. É por isso que você crê. Estas coisas estão entrelaçadas indissoluvelmente. Não permita Deus que as separemos ou que as dividamos, jamais!” (D.M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 33). “Aqueles que são justificados, também são sempre santificados; aqueles que são santificados sempre foram justificados. Deus uniu essas duas realidades espirituais, e elas não podem ser separadas uma da outra” (J.C. Ryle, Santidade, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 1987, p. 53). À frente: “Todas as pessoas justificadas são santificadas, e todas as pessoas santificadas foram justificadas. Aquilo que Deus ajuntou, portanto, que o homem não ouse separar” (p. 74). “A justiça imputada para justificação e a justiça inerente para a santificação devem estar inseparavelmente unidas. A santidade, de fato, não é a causa de nossa santificação, mas é acessória” (Thomas Watson, A Fé Cristã, estudos baseados no breve catecismo de Westminster, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 266). “A alegação de que a justificação pode ser genuína sem a confirmação da santificação é um perigoso engano” (Russell P. Shedd, A Justificação: A resposta de Deus para uma vida cristã autêntica, 2. ed. rev. São Paulo: Vida Nova, 2010, p. 47).

[10] João Calvino, As Institutas, III.16.1.

[11] Vejam-se: G.C. Berkouwer, Faith and Sanctification, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1952, p. 71ss.; R.C. Sproul, A natureza forense da justificação: In: John F. MacArthur, Jr., et. al., A Marca da Vitalidade Espiritual a Igreja: Justificação pela Fé Somente, São Paulo: Editora Cultura Cristã, (2000), p. 34.

[12]Devo esta expressão a MacArthur (John MacArthur, O Evangelho Segundo os Apóstolos, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2011, p. 70).

[13]Russell P. Shedd, “Alegrai-vos no Senhor”: uma exposição de Filipenses, São Paulo: Vida Nova, © 1984 (Reimpressão: 1993), p. 19.

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (30)

O Espírito ora conosco e por nós. Ele, juntamente com Cristo, em esferas diferentes, intercede por nós: “Cristo intercede por nós no céu, e o Espírito Santo na terra. Cristo nosso Santo Cabeça, estando ausente de nós, intercede fora de nós; o Espírito Santo nosso Consolador intercede em nosso próprio coração quando Ele o santifica como Seu templo”, contrasta Kuyper (1837-1920).[1]

 

A intercessão de Cristo respalda-se nos Seus merecimentos, obtendo para os Seus eleitos, os frutos da Sua Obra expiatória (Rm 8.34; Hb 7.25; 1Jo 2.1).[2]

 

Creio ser necessário enfatizar que a intercessão de Cristo não minimiza o nosso pecado nem atenua a nossa responsabilidade. O Pai sabe que somos pecadores contumazes. O Filho nos conhece bem. O Espírito que opera em nós vivencia a nossa teimosia e capacidade quase invencível em fazer o mal e perseverar nele. Por isso, não há tons amenos na intercessão do Filho a nosso favor. Porém, há a dignidade daquele que nos representa junto ao Pai. Ele cumpriu todas as demandas da Lei em nosso lugar. Nos vestiu com a capa de sua santa justiça e nos apresenta imaculados diante da majestade do Pai. A intercessão de Cristo é uma antecipação do que teremos na glorificação futura. A Igreja será uma expressão alegre da majestosa obra da Trindade revelada no Filho (Jd 24-25).

 

O Espírito, por sua vez, intercede por nós considerando as nossas necessidades vitais e costumeiramente imperceptíveis aos nossos próprios olhos.

 

Calvino observou que na oração, “a língua nem sempre é necessária, mas a oração verdadeira não pode carecer de inteligência e de afeto de ânimo”,[3] a saber: “O primeiro, que sintamos nossa pobreza e miséria, e que este sentimento gere dor e angústia em nossos ânimos. O segundo, que estejamos inflamados com um veemente e verdadeiro desejo de alcançar misericórdia de Deus, e que este desejo acenda em nós o ardor de orar”.[4]

 

Spener (1635-1705), falando sobre a oração, segue uma linha semelhante:

 

Não é suficiente que se ore exteriormente, com a boca, pois a oração verdadeira e mais necessária acontece no nosso ser interior, podendo expressar-se em palavras ou permanecer na alma, mas, de qualquer maneira, lá acha e encontra Deus.[5]

 

O Espírito, que procede do Pai e do Filho, é Quem nos guia em nossas orações, fazendo-nos orar corretamente ao Pai. De fato, Deus propiciou para nós todos os elementos fundamentais para a nossa santificação (2Pe 1.3). A ação do Espírito aponta nesta direção, indicando também, que as nossas orações são “imperfeitas, imaturas, e insuficientes”, por isso Ele nos auxilia, nos ensinando a orar como convém.

 

Paulo fala que nós, os crentes em Cristo, recebemos o Espírito de ousada confiança em Deus, que nos leva, na certeza de nossa filiação divina, a clamar “Aba, Pai”. ”Porque não recebestes o espírito de escravidão para viverdes outra vez atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos Aba, Pai” (Rm 8.15). O fato de Paulo usar a mesma expressão de Cristo para nós “significa que, quando Jesus deu a Oração Dominical aos Seus discípulos, também lhes deu autoridade para segui-Lo em se dirigirem a Deus como ‘abbã’, dando-lhes, assim, uma participação na Sua condição de Filho”.[6] Somente pelo Espírito poderemos nos dirigir a Deus desta forma, como uma criança que se lança sem reservas nos braços do seu Pai amoroso.

 

Quando oramos sabemos que estamos falando com o nosso Pai. Desta forma, a oração é uma prerrogativa dos que estão em Cristo. Somente os que estão em Cristo pela fé, têm a Deus como o seu legítimo Pai (Jo 1.12; Rm 8.14-17; Gl 4.6; 1Jo 3.1-2). De onde se segue que esta oração (Pai Nosso), apesar de não mencionar explicitamente o nome de Cristo, é feita no Seu nome, visto que somos filhos de Deus – e é nesta condição que nos dirigimos a Deus – por intermédio de Cristo Jesus (Gl 3.26).[7] Portanto, quando oramos o Pai Nosso sinceramente, na realidade estamos orando no nome de Jesus Cristo, pois, foi Ele mesmo quem nos ensinou a fazê-lo. Assim, devemos, pelo Espírito – nosso intercessor – no nome de Jesus – nosso Mediador – orar “Pai nosso que estás no céu….”.

 

O Espírito que em nós habita e nos leva à oração testemunha em nós que somos filhos de Deus. “O próprio Espírito testifica (summarture/w) com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16); O Pai Nosso é a “Oração dos Filhos”.[8] Valendo-me de expressões de Bonhoeffer (1906-1945), podemos dizer que o Pai Nosso é um “resumo” de todas as orações das Escrituras,[9] tornando-se um “gabarito”, por meio do qual devemos analisar a integridade bíblica de nossa oração.[10]

 

O problema, dentro do contexto vivido por Jesus, é que muitos dos judeus, na realidade, ofereciam as suas orações aos homens, mesmo usando o nome de Deus. Usar o nome de Deus não é garantia de estarmos nos dirigindo a Ele. Do mesmo modo, podemos estar tão preocupados com a forma de nossas orações que nos esquecemos do Pai; é a Ele que a nossa oração é destinada; portanto, cabe a Ele, que vê em secreto, julgá-la. A nossa oração não necessita de publicidade para que Deus a ouça; Ele vê em secreto e nos recompensa conforme o que vê (Mt 6.6).

 

No Antigo Testamento, por intermédio de Isaías, Deus recrimina os judeus dizendo que eles sacrificavam simplesmente porque gostavam de fazê-lo, não porque quisessem agradá-Lo. O ritual é que era prazeroso, não a satisfação de Deus:

 

Como estes escolheram os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações, assim eu lhes escolherei o infortúnio e farei vir sobre eles o que eles temem; porque clamei e ninguém respondeu, falei, e não escutaram; mas fizeram o que era mau perante mim, e escolheram aquilo em que eu não tinha prazer (Is 66.3-4).

 

Bonhoeffer (1906-1945) comenta:

 

Uma criança aprende a falar porque seu pai fala com ela. Ela aprende a falar a língua paterna. Assim também nós aprendemos a falar com Deus, porque Deus falou e fala conosco. Pela palavra do Pai no céu seus filhos aprendem a comunicar-se com Ele. Ao repetir as próprias palavras de Deus, começamos a orar a Ele. Não oramos com a linguagem errada e confusa de nosso coração, mas pela palavra clara e pura que Deus falou a nós por meio de Jesus Cristo, devemos falar com Deus, e Ele nos ouvirá.[11]

 

     Orar é exercitar a nossa confiança no Deus da Providência, sabendo que nada nos faltará, porque Ele é o nosso Pai. A oração tem sempre uma conotação de submissão confiante. Portanto, orar ao Pai, como temos enfatizado, significa sintonizar a nossa vontade com a dEle; sabendo que Ele é santo e a Sua vontade também o é (Mt 6.9,10).

 

    A presença e direção do Espírito na vida do povo de Deus é uma realidade. Desconsiderar este fato significa desprezar o registro bíblico e o testemunho do Espírito em nós (Rm 8.16). “A vida cristã é companheirismo com o Pai e com o Filho, Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo”.[12]

 

O Espírito em nós é uma fonte de consolo e estímulo à perseverança e obediência devida a Deus. Consideremos este fato – à luz da Palavra e da nossa experiência – em todos os nossos caminhos, e o Espírito mesmo nos iluminará.

 

 

 São Paulo, 18 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

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[1] Abraham Kuyper, The Work of the Holy Spirit, Chaattanooga: AMG. Publishers, 1995, p. 670.

[2] “Não temos como medir esta intercessão pelo nosso critério carnal, pois não podemos pensar do Intercessor como humilde suplicante diante do Pai, com os joelhos genuflexos e com as mãos estendidas. Cristo contudo, com razão intercede por nós, visto que comparece continuamente diante do Pai, como morto e ressurreto, que assume a posição de eterno intercessor, defendendo-nos com eficácia e vívida oração para reconciliar-nos com o Pai e levá-lo a ouvir-nos com prontidão” (J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.34), p. 304).

[3]J. Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 240. Para uma interpretação alternativa do texto de Romanos 8.26-27, consulte Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, p. 916-917, que associa a passagem a “suspiros e gemidos inarticulados que nós mesmos emitimos em oração, que então o Espírito Santo transforma em intercessão efetiva diante do trono divino” (p. 916).

[4]J. Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 243.

[5]Ph. J. Spener, Mudança para o Futuro: Pia Desideria, São Paulo; Curitiba. PR.: Encontrão Editora; Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, São Bernardo do Campo, SP.: 1996, p. 119.

[6] O. Hofius, Pai: In: Colin Brown, ed. ger., O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 383.

[7] Veja-se: João Calvino, As Institutas, III.20.36.

[8] Conforme expressão de Lloyd-Jones (1899-1981) (D.M. Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, São Paulo: FIEL., 1984, p. 358). Veja-se a relação feita por Calvino entre a oração e a convicção de nossa filiação divina (João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.16), p. 279-280).

[9]“Todas as orações da Bíblia estão resumidas no Pai Nosso. A sua amplitude infinita abrange-as todas. No entanto, o Pai Nosso não torna as orações da Bíblia supérfluas, mas elas são a riqueza inesgotável do Pai Nosso e o Pai Nosso é sua coroa e síntese” (Dietrich Bonhoeffer, Orando com os salmos, Curitiba, PR.: Editora Encontrão, 1995, p. 15).

[10]“O Pai Nosso se torna o gabarito pelo qual conferimos se estamos orando em nome de Jesus ou em nosso próprio nome” (Dietrich Bonhoeffer, Orando com os salmos, Curitiba, PR.: Editora Encontrão, 1995, p. 15).

[11]Dietrich Bonhoeffer, Orando com os Salmos, Curitiba, PR.: Encontrão Editora, 1995, p. 12-13.

[12]D.M. Lloyd-Jones, Salvos desde a Eternidade, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 1), p. 98.

 A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (29)

Outro ponto relevante, é que a oração no Espírito é sempre por intermédio de Cristo. Isto significa que quando oramos, o fazemos por iniciativa do Espírito, por intermédio de Cristo, no nome de Cristo. Portanto, orar genuinamente significa harmonizar a nossa vontade com a do Filho, alinhando a nossa vontade com a dele.[1] Orar ao Pai não significa simplesmente usar o Seu nome, mas, sim, dirigir-nos de fato a Ele conforme os Seus preceitos, em submissão à Sua vontade.

 

Uma oração francamente oposta aos ensinamentos de Jesus não pode ser considerada de fato uma oração dirigida ao Pai, por mais que usemos e repitamos o nome de Jesus. Deste modo, é necessário que tenhamos cuidado para que não cometamos falsidade ideológica em nossas orações. Orar em nome de Jesus é dizer ao Pai que o Seu Filho eterno, o nosso irmão mais velho, subscreveu o que estamos dizendo. Orar no nome de Jesus significa a confiança única e exclusiva na suficiência de Seus méritos.[2]

 

A nossa oração não pode ser uma diminuição da santidade de Cristo. Como bem compreendeu Pink (1886-1952), ao escrever:

 

Solicitar algo a Deus, em nome de Cristo, quer dizer solicitar-lhe algo em harmonia com a natureza de Cristo! Pedir algo em nome de Cristo, a Deus Pai, é como se o próprio Cristo estivesse formulando a petição. Só podemos pedir a Deus aquilo que Cristo pediria. Pedir em nome de Cristo, pois, significa deixar de lado nossa vontade própria, aceitando a vontade do Senhor![3]

 

O Espírito nos dirige para que não usemos o nome do Filho em vão; porque somente Ele pode nos mostrar qual é a vontade de Deus e nos capacitar a aceitá-la com fé. Quando oramos no Espírito estamos confessando a nossa pequenez e, ao mesmo tempo, testemunhando a nossa fé na soberania de Deus.

 

“O Espírito constrói uma determinada atmosfera em torno de toda a oração autêntica, e dentro desse círculo próprio é que a oração vive e triunfa; fora dele, a oração é apenas uma formalidade morta”, enfatiza Spurgeon (1834-1892).[4]

 

Agostinho (354-430), comentando o Salmo 102.2 – quando o salmista diz “… inclina-me os teus ouvidos; no dia em que eu clamar; dá-te pressa em acudir-me” – faz uma paráfrase: “Escuta-me prontamente, pois peço aquilo que queres dar. Não peço como um homem terreno bens terrenos, mas já redimido do primeiro cativeiro, desejo o reino dos céus”.[5]

 

Paulo, discorrendo sobre a fraqueza humana, a exemplifica na vida cristã no fato de nem ao menos sabermos orar como convém (Rm 8.26-27).[6] Por isso o Espírito que em nós habita nos auxilia em nossas orações, fazendo-nos pedir o que convém, capacitando-nos a rogar de acordo com a vontade de Deus. A oração eficaz é aquela que tem o Espírito como seu autor. Sem o auxílio do Espírito jamais oraríamos com discernimento.

 

Calvino, analisando o fato de que pedimos tantas coisas erradas a Deus e que, se Ele nos concedesse o que solicitamos, traria muitos males sobre nós,[7] ao tratar da Oração do Senhor, afirma:

 

Nem podemos abrir a boca diante de Deus, sem grave perigo, a não ser que o Espírito nos instrua sobre a norma certa de orar [Rm 8.26]. Em quão maior apreço merece ser julgado entre nós este privilégio, quando o Unigênito Filho de Deus nos sugere à boca palavras que desvencilhem nossa mente de toda vacilação![8]

 

A oração genuína é sempre precedida do senso de necessidade e de uma fé autêntica nas promessas de Deus.[9]

 

Graças a Deus porque todos nós, em Cristo, temos o Espírito de oração (Zc 12.10), porque sem Ele jamais poderíamos orar de modo aceitável ao Pai. “A própria oração é uma forma de adoração”, instrui-nos Sproul (1939-2017).[10]

 

Por outro lado, o auxílio do Espírito não deve servir de pretexto para a nossa indolência e irresponsabilidade espiritual.

 

Interpreta Calvino em textos diferentes:

 

Aqui não se diz que, lançando o ofício da oração sobre o Espírito de Deus, podemos adormecer negligentes ou displicentes, como alguns se acostumaram a blasfemar, dizendo: devemos ficar à espera, sem nenhuma preocupação, até que o Espírito chame a atenção da nossa mente, até então ocupada e distraída com outras coisas. Muito ao contrário, aqui somos induzidos a desejar e a implorar tal auxílio, com aversão e desgosto por nossa preguiça e displicência.[11]

 

Quando nos sentirmos frios, e indispostos para orar, supliquemos logo ao Senhor que nos inflame com o fogo de seu Espírito, pelo qual sejamos dispostos e suficientes para orar como convém.[12]

 

Muitas vezes estamos tão confusos diante das opções que temos, que não sabemos nem mesmo como apresentar os nossos desejos e as nossas dúvidas diante de Deus. Todavia o Espírito nos socorre. Ele “ora a nosso favor quando nós mesmos deveríamos ter orado, porém não sabíamos para que orar”.[13]

 

Comentando o Salmo 91.12, diz o reformador: “Nunca podemos aquilatar os sérios obstáculos que Satanás poria contra nossas orações não nos sustentasse Deus da maneira aqui descrita”.[14]

 

Ele ilustra a sua tese:

 

Chamo tentação espiritual quando não somente somos açoitados e afligidos em nossos corpos; senão quando o diabo opera de tal modo em nossos pensamentos que Deus se nos converte em inimigo mortal, ao que já não podemos ter acesso, convencidos de que nunca mais terá misericórdia de nós.[15]

 

Precisamos, portanto, “que o mesmo Deus nos ensine, conforme ao que Ele sabe que convém, e que Ele nos leve guiando como que pela mão, e que nós o sigamos”.[16] Orar como convém é orar segundo a vontade de Deus, colocando os nossos desejos em submissão com o santo propósito de Deus; isto só é possível pelo Espírito de Deus que Se conhece perfeitamente (1Co 2.10-12).[17] Assim, toda oração genuína é sob a orientação e direção do Espírito (Ef 6.18; Jd 20).[18]

 

O Catecismo Maior de Westminster ensina:

 

Não sabendo nós o que havemos de pedir, como convém, o Espírito nos assiste em nossa fraqueza, habilitando-nos a saber por quem, pelo quê, e como devemos orar; operando e despertando em nossos corações (embora não em todas as pessoas, nem em todos os tempos, na mesma medida) aquelas apreensões, afetos e graças que são necessários para o bom cumprimento do dever.[19]

 

 

São Paulo, 15 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]“A oração não é um recurso conveniente para impormos a nossa vontade a Deus, ou para dobrar a Sua vontade à nossa, mas, sim, o meio prescrito de subordinar a nossa vontade à de Deus. É pela oração que buscamos a vontade de Deus, abraçamo-la e nos alinhamos com ela. Toda oração verdadeira é uma variação do tema, ‘Faça-se a tua vontade'” (John R.W. Stott, I,II e III João, Introdução e Comentário, São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1982, p. 159). Na mesma perspectiva, escreveu MacArthur: “A oração ajuda a alinhar os nossos desejos com a vontade de Deus. Ela agrada a Deus porque é um ato de obediência à Sua Palavra, mas não fornece informações adicionais a Ele” (John MacArthur, Deus: Face a face com sua majestade, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2013, p. 61).

[2]Charles Hodge, Systematic Theology, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1976 (Reprinted), v. 3, p. 705.

[3]A.W. Pink, Deus é Soberano, Atibaia, SP.: FIEL, 1977, p. 134. Veja-se também: R. Youngblood, Significados do Nomes nos Tempos Bíblicos. In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 3, p. 25.

[4] C.H. Spurgeon, Firmes na Verdade, Lisboa: Edições Peregrino, LDA., 1987, p. 85.

[5] Agostinho, Comentários aos Salmos, São Paulo: Paulus, 1998, v. 3, p. 12.

[6]26 Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. 27 E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos” (Rm 8.26-27).

[7]Bernardo de Claraval (1090-1153), disse: “Não permitam que eu tenha tamanha miséria, pois dar a mim o que desejo, dar a mim o que meu coração almeja, é um dos mais terríveis julgamentos do mundo” (Apud Jeremiah Burroughs, Aprendendo a Estar Contente, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1990, p. 28).

[8]João Calvino, As Institutas ou Tratado da Religião Cristã, 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, III.20.34. Comentando o texto de Romanos 8.26, Calvino segue a mesma linha: “O Espírito, portanto, é Quem deve prescrever a forma de nossas orações” (João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 8.26), p. 291). Ver também, J. Calvino, O Catecismo de Genebra, Perg. 254.

[9] Veja-se: João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, p. 34.

[10] R.C. Sproul, O Ministério do Espírito Santo, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 187.

[11]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, v. 3, (III.9), p. 95.

[12]João Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 245. In: Catecismos de la Iglesia Reformada, Buenos Aires: La Aurora, 1962.

[13] Edwin H. Palmer, El Espiritu Santo, Edinburgh: El Estandarte de la Verdad, (s.d.), Edição Revista, p. 190.

[14] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 91.12), p. 454.

[15]Juan Calvino, El Carácter de Job, Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 1), p. 28.

[16]J. Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 254.

[17]Leenhardt, comenta: “Para orar ‘como convém’ é preciso orar ‘segundo a vontade de Deus’; isto, entretanto, não pode advir senão de Deus, Que só Se conhece. O mais é ação estéril” (Franz J. Leenhardt, Epístola aos Romanos, São Paulo: ASTE., 1969, p. 226).

[18]“Com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos” (Ef 6.18). “Vós, porém, amados, edificando-vos na vossa fé santíssima, orando no Espírito Santo” (Jd 20).

[19] Catecismo Maior de Westminster, Perg. 182.

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (28)

6.6. Passamos da morte para a vida; das trevas para a luz

Deus nos salvou do domínio do pecado para Ele mesmo nos concedendo vida. (Jo 5.24; 12.46/[1]Ef 2.1; 5.8).

 

6.7. Certeza da vida eterna

 

A visão Reformada aponta para o fato da total incapacidade de nos salvar a nós mesmos. Ao mesmo tempo, enfatiza a livre graça de Deus que providencia a salvação para o Seu povo. A salvação, portanto, está condicionada à fé em Cristo Jesus, recebendo os seus merecimentos, sendo transformados por Deus e, deste modo, declarados justos aos olhos de Deus.[2] A justificação descortina diante de nós o caminho da glorificação. O Deus que nos justifica é o mesmo que nos glorificará (Rm 8.30). “A justificação é coroada com a glorificação”, exulta Watson (c. 1620-1686).[3] Nos propósitos de Deus a regeneração se consumará necessariamente na glória futura.

 

“A fé não se satisfaz com probabilidades, mas com a plena verdade”, exulta Calvino (1509-1564).[4] Deus nos garante já nesta vida a certeza de que temos a vida eterna. “Os santos no céu são mais felizes que os crentes aqui na terra, porém sua salvação não é mais segura que a destes últimos”, rejubila-se Boettner (1901-1990).[5] (Jo 3.13-18, 36; 6.40,47; 11.25,26; 1Tm 1.16; 1Jo 5.13).[6]

 

6.8. A intercessão eficaz de Jesus e do Espírito

 

Quando o Espírito nos testifica que somos filhos de Deus, ele, ao mesmo tempo, imprime esta confiança em nossos corações, para que ousemos invocar a Deus como nosso Pai. – João Calvino.[7]

 

A oração é uma das maiores bênçãos que Deus concedeu ao Seu povo. Deus propicia-nos condições para falar com Ele; ensina-nos a fazê-lo de modo correto – quanto à forma e à essência – e assiste-nos com o Seu Santo Espírito que habita em nós, os crentes em Cristo.

 

Todavia, a oração pode, de modo lamentável, tornar-se uma prática rotineira, mecânica, sem maior significado qualitativo para a nossa existência: em suma, por vezes negamos a existência da oração em nossa suposta prática devocional. Isso, até que tomemos consciência da nossa situação e precisemos clamar das “profundezas” a Deus (Sl 130.1).[8] Esta situação não foi estranha a diversos personagens bíblicos.

 

Josafá, perseguido de forma implacável pelas lanças sírias, registra o Cronista: “Josafá, porém, gritou e o Senhor o socorreu; Deus os desviou dele” (2Cr 18.31).

 

Jonas, no ventre do grande peixe, antes disposto a fugir da presença de Deus (Jn 1.3), agora diz: “Na minha angústia, clamei ao SENHOR, e ele me respondeu; do ventre do abismo, gritei, e tu me ouviste a voz. (…) Quando, dentro de mim, desfalecia a minha alma, eu me lembrei do SENHOR; e subiu a ti a minha oração” (Jn 2.2,7).

 

Habacuque, num primeiro momento, sem entender o porquê de Deus permitir a maldade dos judeus sem aparentemente puni-los e, posteriormente, Deus punindo o Seu povo por meio dos ímpios Caldeus, encontra as suas profundezas na torre, e diz: “Por-me-ei na minha torre de vigia, colocar-me-ei sobre a fortaleza e vigiarei para ver o que Deus me dirá e que resposta eu terei à minha queixa (tx;k;AT)(tôkêchâh)[9] (Hc 2.1).

 

Aqui, portanto, entramos em um terreno maravilhoso, surpreendente e altamente abençoador.  Em nossas orações, ainda que nem sempre pensemos nisto e, por vezes, somos equivocadamente tentados a exclusivisar uma das pessoas da Trindade, vemos, no entanto, na oração de Paulo a presença não meramente figurativa, antes, real e abençoadora da Santíssima Trindade (Ef 1.15-23). A Trindade faz parte essencial de nossa fé.[10] A doutrina da trindade está estreitamente relacionada à nossa salvação. Encontramos a paz para o nosso coração inquieto na graça que procede do Deus Triúno.[11]

 

Paulo reconhece este fato. Deus deseja que partilhemos da intimidade da relação da Trindade, nos dirigindo ao Pai, pela mediação do Filho sob a direção iluminadora do Espírito.[12] Lembremo-nos de que Trindade é habitualmente o nome cristão para Deus, fazendo, portanto, parte do cerne de nossa fé.[13] Curiosamente, foi a busca da Igreja pela compreensão do mistério do Cristo encarnado que a fez desenvolver e precisar de forma enriquecedora o conceito de Trindade.[14] E a igreja estava certa.

 

O que Deus revelou é para nós e para os nossos filhos para que O adoremos em obediência (Dt 29.29). Por sua vez, sabemos que a Trindade nos deu a Trindade. Sem a ação trinitária, jamais conheceríamos o Pai, o Filho e o Espírito Santo. É por eles que conhecemos o Deus Triúno e nos relacionamos com Ele em santa adoração. Analisemos um pouco melhor este assunto:

 

O Espírito é Quem nos ensina a orar como convém; ou seja: orar segundo a vontade de Deus. A oração é educativa, pois nos desafia a confiar nas promessas de Deus registradas na Sua Palavra e, assim, na medida em que confiamos, podemos amadurecer a nossa fé por meio do aprendizado experiencial de que Deus cumpre fielmente as Suas promessas. “Com a oração encontramos e desenterramos os tesouros que se mostram e descobrem à nossa fé pelo Evangelho”, observou Calvino.[15] Portanto, este tesouro não pode ser negligenciado como se “enterrado e oculto no solo!”.[16] Admite: “Agora, quanto é necessário, e de quantas maneiras o exercício da oração é útil para nós, não se pode explicar satisfatoriamente com palavras”.[17]

 

São Paulo, 15 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5.24). Eu vim como luz para o mundo, a fim de que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas” (Jo 12.46).

[2] “A visão reformada da justificação forense se fundamenta no princípio de que pela imputação da justiça de Cristo o pecador é agora feito formalmente, mas não materialmente, justo aos olhos de Deus” (R.C. Sproul, Justificação pela Fé Somente: a natureza forense da justificação: In: John F. MacArthur, Jr., et. al., A Marca da Vitalidade Espiritual da Igreja: Justificação pela Fé Somente, São Paulo: Editora Cultura Cristã, (2000), p. 33).

[3] Thomas Watson, A Fé Cristã, estudos baseados no breve catecismo de Westminster, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 265.

[4]João Calvino, As Pastorais, (Tt 1.1), p. 299.

[5] Loraine Boettner, La Predestinación, Michigan: SLC. (s.d.), p. 156.

[6]13 Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem que está no céu.  14 E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado,  15 para que todo o que nele crê tenha a vida eterna.  16 Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.  17 Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.  18 Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. (…) 36 Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus(Jo 3.13-16; 36). 40 De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. (…) 47 Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna(Jo 6.40,47). Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna(1Tm 1.16).

[7] João Calvino, Romanos, 2. ed. São Paulo: Edições Parakletos, 2001, (Rm 8.16), p. 288.

[8] “Das profundezas clamo a ti, SENHOR” (Sl 130.1).

[9]Esta palavra que corre 28 vezes no Antigo Testamento, é empregada especialmente no livro de Provérbios, com o sentido de: Repreensão (Pv 1.23,25, 30; 3.11; 6.23; 10.17; 12.1; 13.18; 15.5, 10,31,32; 27.5; 29.1; Ez 25.17); Defesa (Jó 13.6); Disciplina (2Rs 19.3; Pv 5.12); Argumento (Jó 23.4); Réplica (Sl 18.14); Castigo (Sl 39.11; 73.14; 149.7; Is 37.3; Ez 5.15; Os 5.9).

A oração do profeta é um protesto, um arrazoado sincero e audacioso de um homem que quer mas não consegue compreender o modo de Deus agir, daí a sua queixa, a sua réplica, o seu argumento contra o desígnio de Deus.

Calvino comenta: “Não é de se estranhar se os fiéis, mesmo em oração, nutram em seus corações divergências e emoções conflitantes. O Espírito Santo, porém, que os habita, amenizando a violência de sua dor, pacifica todas as suas queixas e os conduz paciente e cordialmente à obediência” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, v. 2, (Sl 44.2), p. 282).

[10] “A Trindade é a língua na qual a verdade cristã é falada. Ela dá forma à verdade. A Trindade não é periférica, quanto menos é opcional. Ela está no maravilhoso e grandioso cerne de nossa fé” (Tim Chester, Conhecendo o Deus Trino: porque Pai, Filho e Espírito Santo são boas novas, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2016, p. 18).

[11]Veja-se: B.B. Warfield, The Biblical Doctrine of the Trinity: In: B.B. Warfield, The Works of Benjamin B. Warfield, Grand Rapids, MI.: Baker Book House, 2000 (Reprinted), v. 1, p. 168.

[12]“O propósito original de Deus foi que o ser humano partilhasse a intimidade familiar jubilosa da Trindade” (J.I. Packer, O Plano de Deus para Você, 2. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2005, p. 125).

[13] Veja-se: Tim Chester, Conhecendo o Deus Trino: porque Pai, Filho e Espírito Santo são boas novas, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2016, p. 18.

[14]Pelikan (1923-2006) chega a dizer que “o dogma da Trindade foi desenvolvido como a resposta da igreja à questão sobre a identidade de Jesus Cristo” (Jaroslav Pelikan, A tradição cristã: uma história do desenvolvimento da doutrina: O surgimento da tradição católica 100-600, v.1, São Paulo: Shedd Publicações, 2014, p. 235). Novamente: “O auge do desenvolvimento doutrinal da igreja primitiva foi o dogma da Trindade” (Jaroslav Pelikan, A tradição cristã: uma história do desenvolvimento da doutrina: O surgimento da tradição católica 100-600, v.1, p. 185). “É verdade que as controvérsias cristológicas que remontam ao ano 360 não são no fundo mais do que uma consequência lógica das discussões sobre a fé trinitária” (B. Studer, Trindade: In: Ângelo Di Berardino, org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Petrópolis, RJ.; São Paulo: Vozes; Paulinas, 2002, p. 1389). “É possível argumentar que a doutrina da Trindade encontra-se intimamente associada ao desenvolvimento da doutrina sobre a divindade de Cristo. Quanto mais a igreja insistia no fato de Cristo ser Deus, mas era pressionada a esclarecer a forma como Cristo se relacionava com Deus” (Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 378). No final do segundo século, Irineu (c. 130-200 AD) testemunha que a Igreja de Deus, espalhada por toda face da terra, declarava a sua fé trinitária – conforme recebera dos discípulos – a saber: “a fé em um só Deus, Pai onipotente, que fez o céu e a terra, o mar e tudo quanto nele existe; em um só Jesus Cristo, Filho de Deus, encarnado para nossa salvação; e no Espírito Santo que, pelos profetas, anunciou a economia de Deus” (Irineu, Irineu de Lião, São Paulo: Paulus, 1985, I.10.1. p. 61-62). Ainda segundo ele, esta pregação era comum na Igreja “Unanimemente as prega, ensina e entrega, como se possuísse uma só boca” (Irineu, Irineu de Lião, I.10.2. p. 62).

[15]João Calvino, As Institutas, III.20.2.

[16]João Calvino, As Institutas, III.20.1.

[17]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 92.

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (25)

 

6.5. Justificação

 

O Evangelho demonstra como um Deus justo pode justificar aos pecadores crentes. – J.I. Packer.[1]

 

Somos declarados justos pela justiça de Cristo. A justificação nos transfere de uma condição de condenado para a de herdeiro de Deus (Jo 3.18; At 13.39; Rm 3.28,30; 5.1; Gl 2.16; 3.24/Rm 8.1,7).[2] Sem a revelação bíblica isso seria inimaginável a nós.

 

É importante que se diga que o homem não se encontra nessa condição de pecador condenado por algum equívoco, perseguição, ou injustiça, antes pelos seus próprios pecados. Dito de outro modo, o homem trabalhou para isso. Ele conquistou o seu “salário” com muito esforço e perseverança.  A morte é um justo pagamento pelo nosso trabalho (Rm 6.23).

 

Na justificação ainda que Deus não realize nada em nós, significa que Deus já a fez pela regeneração e continuará fazendo pela santificação.

 

Na regeneração recebemos um coração novo, com uma santa disposição; na justificação Deus nos declara justos, perdoando todos os nossos pecados, os quais foram pagos completa e definitivamente por Cristo; por isso, já não há nenhuma condenação sobre nós; estamos em paz com Deus amparados pela justiça de Cristo (Vejam-se: Rm 5.1; 8.1,31-33).[3] O preço de nossa justificação, para nós gratuita, foi o sangue de Cristo Jesus. [4]

 

A nossa justificação é pela graça mediante a fé (Gl 3.11; Fp 3.9; Tt 3.4-7). “A fé é o instrumento pelo qual o pecador recebe e aplica a si tanto Cristo como sua justiça”.[5] O veredito de Deus sobre o pecador o considera justo porque ele, pela fé, aceitou a justiça de Cristo. Esta justiça nada tem a ver com obras humanas, antes é uma “justiça de fé”. É uma justiça amparada nas obras de Cristo que recebemos pela fé.

 

Desenvolvamos um pouco mais esse assunto.

 

A doutrina da justificação pela graça mediante a fé é o ponto capital onde se fundamenta a fé cristã e, consequentemente, a nossa relação com Deus.[6] Uma expressão inspirada nos escritos de Lutero (1483-1546) referindo-se à justificação, como “o artigo pelo qual a igreja se sustenta ou cai”, era comumente usada no século XVII por teólogos luteranos e reformados.[7]

 

A doutrina da justificação é a “artéria da graça”,[8] pela qual fluem os demais privilégios da vida cristã. Devemos deixar claro que o fundamento de nossa justificação não é a fé, mas a justiça de Cristo que é imputada a nós pela fé.[9] Diante da santidade e majestade de Deus, quem, em sã consciência, honesta e sensatamente ousaria se considerar justo? E mais: O Deus santo não pode receber nem ter comunhão com um pecador.[10]

 

O salmista, já sabendo a resposta, pergunta: Se observares (rm;v’) (shamar), SENHOR, iniquidades, quem, Senhor, subsistirá?” (Sl 130.3). Ele não se ilude. Sabe que o escrutínio de Deus é perfeito. Quem passaria ileso? Quem pode dizer diante de Deus que não tem pecado?

 

Davi suplica: “Não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não há justo nenhum vivente” (Sl 143.2).

 

Elifaz indaga: “Seria, porventura, o mortal justo diante de Deus? Seria, acaso, o homem puro diante do seu Criador? Eis que Deus não confia nos seus servos (anjos)[11] e aos seus anjos atribui imperfeições”[12] (Jó 4.17-18).

 

O “observar” (rm;v’) (shamar) de Deus (Sl 130.3), tem o sentido aqui de “observar diligentemente”, “verdadeiramente atentar”, “prestar muita atenção em”; uma rígida e judiciosa observação das faltas com o objetivo de prestar contas, como em Jó: “Se eu pecar, tu me observas (rm;v’) (shamar);[13] e da minha iniquidade não me perdoarás” (Jó 10.14).[14]

 

Esta é a situação do homem finito perante o Deus infinito: a sua grandeza e senso de perfeição e de justiça são como nada diante do Deus santo e perfeito. A majestade de Deus revela a pequenez de nossas perspectivas e referências. Moisés escreve: “Diante de ti puseste as nossas iniquidades e, sob a luz do teu rosto, os nossos pecados ocultos” (Sl 90.8).

 

Davi, consciente dos limites do seu próprio escrutínio, escreve: “Quem há que possa discernir (!yBi) (biyn) as próprias faltas (ha’ygIv.) (shegiy’ah)(= erros)? Absolve-me das que me são ocultas” (Sl 19.12). A palavra faltas (ha’ygIv.) (shegiy’ah) está geralmente associada aos pecados cometidos inconscientemente. Daí a dificuldade de discernir tais faltas.

 

Entretanto, a suposta ignorância não inocenta o infrator. O não ter percebido a indicação de contramão em determinada rua não invalida a possibilidade da multa caso seja flagrado trafegando no sentido proibido.

 

O conhecimento da Palavra dá-nos maior sensibilidade espiritual. Por isso mesmo, temos maior consciência de nossos pecados e, ao mesmo tempo, sabemos das limitações do tribunal de nossa consciência.[15]

 

A minha consciência é um elemento importante em meu progresso espiritual, ainda que não seja o tribunal definitivo.[16] No entanto, Deus nos conhece perfeitamente. Ele tem o perfeito discernimento do que somos e pensamos.

 

O salmista sabe que é pecador, ainda que por vezes, involuntariamente. Tem consciência de que Deus o conhece perfeitamente. No entanto, sabe que o seu Deus além de onisciente, é um Deus santo, cujo padrão é a sua perfeita santidade.

 

Os nossos pecados sempre são uma afronta à santidade de Deus. Eles precisam ser expiados. Contudo, como fazê-lo adequada e completamente se sou pecador e a minha dívida parece aumentar sempre?

 

Davi, consciente disso roga o perdão de Deus: Absolve-me (hq;n”) (naqah) (= tornar isento, ficar livre) das que me são ocultas (rt;s’) (cathar) (Sl 19.12). Davi recorre a Deus porque somente ele pode perdoar nossas faltas.[17]

 

Como então, Deus pode nos considerar justos, sendo ele Santo? Como pode o homem pecador tornar-se justo aos olhos de Deus? Deus diminuiu o seu padrão legal?

 

Calvino (1509-1564) apresenta a resposta:

 

Lemos que justificado diante de Deus é aquele que, ao juízo de Deus, não só é considerado justo, mas que também foi aceito em razão de sua justiça, porque, como a iniquidade é abominável à vista de Deus, assim o pecador não pode achar graça a seus olhos, na qualidade de pecador e por quanto tempo for tido como tal. Consequentemente, onde quer que haja pecado, aí também se manifesta a ira e vingança de Deus. Portanto, justificado é aquele que não é tido na conta de pecador, mas de justo, e por esse título se posta firme diante do tribunal de Deus, onde todos os pecadores se prostram abatidos. Da mesma forma, se um inocente acusado for levado perante o tribunal de um juiz imparcial, depois de ser julgado segundo sua inocência, se diz que foi justificado diante do juiz; assim é justificado diante de Deus aquele que, excluído do número dos pecadores, tem a Deus por testemunha e arauto de sua justiça. (…) Será justificado pela fé aquele que, excluído da justiça das obras, apreende pela fé a justiça de Cristo, revestido da qual aparece perante Deus não como pecador, mas, pelo contrário, como justo. Portanto, interpretamos a justificação simplesmente como a aceitação mercê da qual, recebidos à sua graça, Deus nos tem por justos. E dizemos que ela consiste na remissão dos pecados e na imputação da justiça de Cristo.[18]

 

Certamente, como temos insistido, não podemos baratear o perdão de Deus. Devemos nos lembrar de que o perdão gratuito de Deus custou o precioso sangue de seu Filho.

 

Continuaremos desenvolvendo esse assunto no próximo post.

 

São Francisco do Sul, 10 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este post faz parte de uma série. Acesse aqui a série completa

 


 

[1]J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 128.

[2]Cf. J.I. Packer, O Conhecimento de Deus, São Paulo: Mundo Cristão, 1980, p. 121.

[3]“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1). “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). 31 Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? 32 Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? 33 Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Rm 8. 31-33).

[4]Veja-se: J.I. Packer, O Conhecimento de Deus, p. 121.

[5] Catecismo Maior de Westminster, Pergunta, 73.

[6] Veja-se: João Calvino, As Institutas, III.11.1. Turretini diz que ela é “a principal plataforma da religião cristã” (François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 2, p. 757). “A doutrina da justificação pela graça é o âmago da fé cristã” (Franklin Ferreira; Alan Myatt, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 812). “…. é a própria estrutura e o pilar do cristianismo. Um erro sobre a justificação é algo perigoso, como um defeito em uma fundação. A justificação dada por Cristo e a fonte da água da vida” (Thomas Watson, A Fé Cristã, estudos baseados no breve catecismo de Westminster, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 264).

[7]Veja-se: Alister E. McGrath, Lutero e a Teologia da Cruz, São Paulo: Cultura Cristã, 2015, p. 41-42. Fazendo eco a esta expressão, mais tarde escreveria Bavinck: “A justificação é a doutrina sobre a qual a igreja fica de pé ou cai. Ou devemos fazer alguma coisa para sermos salvos ou nossa salvação é puramente um dom da graça. Deus não coloca de lado a lei que nos julga adequadamente; somente porque Cristo suportou a ira de Deus nós somos reconhecidos como justos nele” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 180-181).

[8] Devo esta expressão a Kuyper (Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 329).

[9]“A fé não é a base da justificação; se o fosse, a fé tornar-se-ia uma obra meritória. (…) De acordo com Paulo, não é sobre a nossa fé, mas sobre a retidão de Cristo, que a nossa justificação está alicerçada” (J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP. Fiel, 1994, p. 130,131). Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 217ss.; p. 266.

[10]Veja-se: Thomas Watson, A Fé Cristã, estudos baseados no breve catecismo de Westminster, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 266.

[11] Aqui não indica o pecado dos anjos; antes, que Deus realiza as suas próprias tarefas essenciais.

[12]BJ: “Verbera o erro”; ACR: “Atribui loucura”. “O significado da palavra traduzida imperfeições no v. 18b, que ocorre somente aqui, é totalmente desconhecido, e tem dado origem a muitas conjecturas e emendas” (Francis I. Anderson, Jó: Introdução e Comentário, São Paulo: Mundo Cristão; Vida Nova, 1984, (Jó 4.18), p. 112).

[13]Vejam-se: Hermann J. Austel, Shama’: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1585-1587; Keith N. Schoville, Smr: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 4, p. 181-183.

[14] Do mesmo modo: “Ainda que eu seja justo, a minha boca me condenará; embora seja eu íntegro, ele me terá por culpado” (Jó 9.20). “….observas (rm;v’) (shamar) todos os meus caminhos e traças limites à planta dos meus pés” (Jó 13.27).

[15] “Faríamos bem em relembrar que, fazendo de nosso conhecimento e de nossa consciência miseravelmente imperfeitos e a medida de nossa pecaminosidade, estamos pisando em terreno perigoso” (J.C. Ryle, Santidade, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 1987, p. 23).

[16]“A consciência não é um tribunal celestial, porém é o mais elevado tribunal terreno, pois é o sistema de alerta da alma” (John MacArthur, Certezas que impulsionam um ministério duradouro: In: John Piper; Justin Taylor, eds. Firmes: um chamado à perseverança dos santos, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2010, p. 70).

[17]O verbo está no piel. Neste modo, sempre Deus é o sujeito da ação. (Veja-se: Milton C. Fisher; Bruce K. Waltke, Nãqâ: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 998.

[18] João Calvino, As Institutas, III.12.2.