A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (35)

Já indicamos que a santificação é um processo que não encontra a sua perfeição nesta vida. A sua conclusão se dará em nossa glorificação futura, quando Deus completar a sua obra iniciada em nós (Rm 8.29-30; Fp 1.6). Nesse sentido, a consumação da santificação tem dois aspectos, um espiritual e outro físico: espiritual, em nossa alma quando morrermos; físico, quando Cristo voltar em glória, ressuscitarmos e tivermos os nossos corpos glorificados. Assim, a santificação será total.[1] A perspectiva do encontro com Cristo, quando Ele regressar em glória, deve nos motivar, hoje, solicitamente, à santificação, a fim de vivermos em santidade na sua presença, puros como ele é puro.

 

     A santificação é um processo que tem início no ato de Deus. Em outras palavras, estamos dizendo que fomos separados do mundo (sendo santificados), para crescermos, progredirmos em nossa fé (santificação). O Espírito opera em nós a salvação que se evidencia em santificação (1Co 6.11; 2Co 3.18; 1Pe 1.2/Jo 17.17). O mesmo Espírito que nos regenerou por meio da Palavra (Tg 1.18; 1Pe 1.23), age mediante esta mesma Palavra para que vivamos de fato, como novas criaturas que somos. A Bíblia é o instrumento eficaz do Espírito porque ela foi inspirada pelo Espírito Santo (2Pe 1.21). O Espírito não somente testifica que somos filhos de Deus, mas, também, nos ensina pela Palavra a nos comportar como filhos (Rm 8.14),[2] desenvolvendo em nós, ou seja, em todos os cristãos, o caráter de Cristo que consiste no fruto do Espírito.[3]

 

Paulo escreve aos coríntios: “Tendo, pois, ó amados, tais promessas, purifiquemo-nos (kaqari/zw) de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus” (2Co 7.1).

H. Spurgeon (1834-1892), amparado nas Escrituras, exulta confiante:

 

O Senhor Jesus tem poder para nos levar lá! Ele lutará contra nossos inimigos para nós. Jesus nos guardará de cair no pecado, e levará todos aqueles pelos quais ele morreu para a terra celestial. Ninguém será deixado para trás. Estaremos seguros e felizes com ele para sempre. O Senhor Jesus nos apresentará a Deus e estaremos com aqueles que alcançaram o céu antes de nós.[4]

 

A santidade perfeita no céu encontra os seus primórdios na vida dos eleitos aqui na terra. Isto indica a nossa responsabilidade presente. “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é. E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro” (1Jo 3.2-3). “Como na presente vida não atingiremos pleno e completo vigor, é mister que façamos progresso até à morte”, conclui
Calvino.[5]

 

Cristo morreu por nós para que ele nos apresentasse “a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem cousa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.27). Dentro desta perspectiva, a Igreja procura viver de forma santa para se encontrar com Cristo, conforme o seu propósito sacrificial. “Teremos de ser santos antes de morrer, se quisermos ser santos quando estivermos na glória”.[6]

 

O desejo da Igreja deve ser de se encontrar com Cristo de forma íntegra e irrepreensível. Por isso ela é chamada a viver hoje na presença de Deus, estando sempre preparada para o seu encontro final e jubiloso com o Senhor Jesus. Este era o alvo da intercessão de Paulo:O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5.23).

 

Como vimos, Jesus Cristo, que se santificou pela Igreja e que se entregou por ela, exerce o seu poder para apresentá-la com alegria a si mesmo, uma Igreja irrepreensível, diante do escrutínio da sua glória (Jd 24; Ef 5.25-27).

 

O nosso padrão de santidade não é um simples “melhoramento” diante dos padrões humanos, mas sermos conforme Cristo: fomos eleitos para Cristo, a fim de sermos “conformes à imagem” dele. Portanto, devemos ser seus imitadores, seguindo as suas pegadas (Vejam-se: Rm 8.28-30/Jo 13.15; 2Co 3.18; Ef 4.32; 5.1-2; Fp 2.5-8; 2Ts 2.13; 1Pe 1.13-16; 2.21). “A santidade não é negativa, é positiva; é ser como Deus (…). A santidade não significa simplesmente obter vitória sobre pecados particulares. É ser como Deus, que é santo”, exorta-nos Lloyd-Jones.[7]

 

6.10. Paz e alegria

Agora, já não há condenação para nós que estamos pela fé em Cristo Jesus: estamos em paz com Deus. A alegria espiritual é o resultado da nossa comunhão com Deus (Rm 5.1; 1Pe 1.6-9).[8] “A alegria do Espírito é inseparável da fé”, afirmou corretamente Calvino.[9]

 

 

Maringá, 22 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este post faz parte de uma série. Acesse aqui a série completa

 


[1] Veja-se: Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 625.

[2] Veja-se: Hendrikus Berkhof, La Doctrina del Espíritu Santo, p. 80. Do mesmo modo, A.A. Hoekema, Salvos pela Graça,p. 37.

[3] Veja-se: James M. Boice, Fundamentos da Fé Cristã: Um manual de teologia ao alcance de todos, Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2011, p. 330-333.

[4]C.H. Spurgeon, Sermões Sobre a Salvação, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 12.

[5]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 4.15), p. 130.

[6]J.C. Ryle, Santificação, São José dos Campos, SP.: FIEL., 1987, p. 46.

[7] D. Martyn Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 127.

[8]Quanto à desconfiança puritana do “excesso de alegria”, Veja-se: J.I. Packer, Entre os Gigantes de Deus: uma Visão Puritana da Vida Cristã, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1996, p. 197-198.

[9]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 51.8-9), p. 436.

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