Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (33)

5.2. O temor a Deus e a Palavra

Nada há de melhor, para desenvolver esse santo temor, do que o reconhecimento da soberana majestade de Deus. – A.W. Pink.[1]

              O aprendizado do temor a Deus começa pela leitura da Palavra, o refletir sobre a gloriosa e majestosa natureza de Deus, seus mandamentos e atos na história.

     Ilustremos isso.

     Moisés preparando o povo para entrar na Terra Prometida incumbiu aos sacerdotes de organizarem a Festa dos Tabernáculos, uma das três solenidades obrigatórias a todos os judeus.[2]Essas Festas solenes tinham como propósito, manter o povo unido em torno da Aliança, demonstrando às nações vizinhas a condição de povo eleito de Deus e, reafirmar a sua identidade de nação santa escolhida do Senhor, a quem deveriam honrar, obedecer e celebrar.[3]  Nesta solenidade o povo apresentava ofertas a Deus como reconhecimento de suas bênçãos (Dt 16.17):[4]

Quando todo o Israel vier a comparecer perante o SENHOR, teu Deus, no lugar que este escolher, lerás esta lei diante de todo o Israel.12 Ajuntai o povo, os homens, as mulheres, os meninos e o estrangeiro que está dentro da vossa cidade, para que ouçam, e aprendam, e temam (arey) (yare’) o SENHOR, vosso Deus, e cuidem de cumprir todas as palavras desta lei; 13 para que seus filhos que não a souberem ouçam e aprendam a temer (arey) (yare’) o SENHOR, vosso Deus, todos os dias que viverdes sobre a terra à qual ides, passando o Jordão, para a possuir. (Dt 31.11-13).

     O temor do Senhor – o senso de sua grandeza e majestade – deve estar diante de nós, de nossos desejos, projetos e atitudes. Este deve ser o princípio orientador de nossa vida.

     Calvino (15090-1564) faz uma analogia pertinente e esclarecedora:

Visto que os olhos são, por assim dizer, os guias e condutores do homem nesta vida, e por sua influência os demais sentidos se movem de um lado para o outro, portanto dizer que os homens têm o temor de Deus diante de seus olhos significa que ele regula suas vidas e, exibindo-se-lhes de todos os lados para onde se volvam, serve de freio a restringir seus apetites e paixões.[5]

     Por meio deste princípio orientador e regulador temos os nossos olhos abertos para as maravilhas de Deus. Longe de ser algo inibidor, é libertador de uma visão míope e cativa de sua percepção enferma.

     Veith Jr., escreve sobre esse ponto:

Temer a Deus não é o fim da sabedoria, mas o começo. Uma pessoa que teme a Deus pode se abrir para as alturas vastas e vertiginosas do conhecimento. Aqueles que “praticam” esse temor de Deus podem ter um “bom entendimento” de tudo.[6]

     A educação bíblica é magnificamente completa, envolvendo o ensino sobre a santidade e a misericórdia de Deus. Mostra-nos o Deus absoluto e, o quanto carecemos dele. Portanto, biblicamente, devemos caminhar dentro dessa perspectiva: Deus é santo/majestoso, isto nos leva a reverenciá-lo com santo temor. Mas, também, Deus é misericordioso, portanto, devemos amá-lo com toda a intensidade de nossa existência. A santidade nos fala de sua justiça. A misericórdia nos conduz a refletir sobre o seu incomensurável amor que fez com que Ele se desse a conhecer, consumando a sua revelação em Jesus Cristo, o Deus encarnado (Hb 1.1-4).

     A eliminação de uma dessas duas percepções do Ser de Deus nos conduziria a uma compreensão equivocada de quem é Deus e, consequentemente de nosso relacionamento com Ele. Uma teologia equivocada promove uma fé distorcida e uma ética estéril. A genuína vida cristã parte sempre de uma compreensão adequada do Deus infinito e pessoal; o Deus que se revela.

     O nosso amor a Deus começa pelo conhecimento de sua majestade. Downs enfatiza corretamente: “O amor por Deus deve estar enraizado apropriadamente no solo de nosso temor de Deus”.[7] Portanto, devemos não simplesmente temer o castigo de Deus, antes temer pecar contra Deus, o nosso Santo e Majestoso Senhor.

     O salmista Davi depois de grande prova e livramento, escreve: “Vinde, filhos e escutai-me; eu vos ensinarei (dml) (lamad)[8] o temor (ha’r>yI) (yir’ah) do SENHOR” (Sl 34.11). Restaurado por Deus após ter pecado, confessado e se arrependido, Davi propõe-se a ensinar o caminho de Deus: “Então, ensinarei (dml) (lamad) aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores se converterão a ti” (Sl 51.13).

     O ensino sobre Deus, envolve, portanto, a sua justiça e misericórdia perdoadora.

Maringá, 06 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1]A.W. Pink, Deus é Soberano,São Paulo: Editora Fiel, 1977, p. 140.

[2]Ela ocorria no final do ano, quando eram reunidos os trabalhadores do campo. Nesses dias todos os judeus deveriam habitar em tendas de ramos: “Sete dias habitareis em tendas de ramos; todos os naturais em Israel habitarão em tendas; para que saibam as vossas gerações que eu fiz habitar os filhos de Israel em tendas, quando os tirei da terra do Egito” (Lv 23.42-43). Esta festa era caracterizada por grande alegria: Alegrar-te-ás, na tua festa, tu, e o teu filho, e a tua filha, e o teu servo, e a tua serva, e o levita, e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva que estão dentro das tuas cidades” (Dt 16.14). Assim descreve Edersheim (1825-1829): “A mais alegre de todas as festas do povo israelita era a Festa dos Tabernáculos. Ela caía justamente num tempo do ano, em que todos os corações estavam repletos de gratidão, de contentamento e de esperança. Já as colheitas estavam guardadas nos celeiros; todos os frutos estavam também sendo recolhidos, a vindima estava feita, e a terra aguardava apenas que as ‘últimas chuvas’ amolecessem e refrescassem o chão, a fim de que nova colheita fosse preparada. (…) Ao lançar os olhos para a terra dadivosa e para os frutos que os havia enriquecido, deveriam os israelitas lembrar-se de que só pela miraculosa intervenção divina tinham eles conquistado esta pátria, cuja propriedade, entretanto, Deus sempre reclamara por direito Seu” (Alfredo Edersheim, Festas de Israel, São Paulo: União Cultural Editora, (s.d.), p. 83).

[3] Cf. Matthew Henry, Comentario Exegético-Devocional a toda la Biblia – El Pentateuco, Barcelona: CLIE, 1983, (Dt 16.1-17), p. 825.

[4]“Cada um oferecerá na proporção em que possa dar, segundo a bênção que o SENHOR, seu Deus, lhe houver concedido” (Dt 16.17).

[5]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 36.1), p. 122-123.

[6]Gene Edward Veith, Jr., De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 135.

[7]Perry G. Downs, Introdução à Educação Cristã: Ensino e Crescimento, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, p. 180.

[8]A ideia básica de (למד) (lamad) é a de aprender, ensinar, treinar, educar, acostumar-se a; familiarizar-se com (Cf. Walter C. Kaiser, Lâmad:In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento,p. 791; D. Müller, Discípulo: In: Colin Brown, ed. ger. Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 1 p. 662; A.W. Morton, Educação nos tempos bíblicos: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 2, p. 261; E.H. Merrill, dml: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 2, p. 800-802.

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (32)

5.1.4. Deus nos concede sabedoria por meio da Palavra (Continuação)

A Igreja como baluarte da verdade

A Sagradas letras são essenciais para a nossa maturidade.  A Igreja é chamada de “coluna e baluarte da verdade”, porque a ela foram confiados os oráculos de Deus (Rm 3.2/1Tm 3.15). A Igreja como baluarte da verdade está amparada no fundamento que consiste na obra de Deus realizada por intermédio de Cristo (Mt 16.18/Ef 2.20).[1] “Escrevo-te estas coisas, esperando ir ver-te em breve; para que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna (stu=loj)[2] e baluarte (* e(drai/wma) da verdade (a)lh/qeia) (1Tm 3.14-15).

Bavinck aplica o conceito paulino:

A Igreja deve ser o pilar e o terreno da verdade (1Tm 3.15), ou seja, deve ser um pedestal e uma fundação sobre a qual a verdade seja apresentada, mantida e estabelecida contra o mundo. Quando a Igreja negligencia e se esquece do seu dever com relação à Escritura ele se torna remissa em seu dever e mina sua própria existência.[3]

Deus se dignou em preservar a verdade por meio da sua Igreja. Quando ela falha, neste propósito, ainda que a verdade não seja abalada em sua essência, ela se torna fragilizada em sua exposição e aceitação.

Paradoxalmente, o que tem faltado à Igreja é sabedoria para discernir, por intermédio da Palavra de Deus, o que está acontecendo.  Muitas vezes, temos sido iludidos, enganados e espoliados espiritualmente, justamente porque nos tem faltado a meditação na Palavra de Deus, acompanhada pela oração para que Deus nos dê a compreensão dos fatos, da sua vontade para o nosso momento presente.

Deus não deseja um povo ingênuo, imaturo quanto à interpretação da realidade. Ele quer que sejamos maduros, aptos para discernir, interpretar os acontecimentos e que, sem titubear, sigamos os seus preceitos.

A sabedoria propiciada por Deus  dá-nos discernimento para que possamos nos valer do que for útil em todos os conhecimentos sem nos perder em meio às suas contradições, tendo como elemento avaliador a Palavra de Deus.

A sabedoria divina oferece-nos um quadro de referência que nos conduz cada vez à gratidão a Deus por tão grandiosa bênção. Para que possamos emitir um juízo de valor é preciso ter valores e um quadro coerente de interpretação a partir de determinado valor ou de um conjunto de valores. Notemos, portanto, que pensar com clareza é uma grande bênção de Deus.[4]

Jesus Cristo afirma que aquele que deseja fazer a vontade de Deus deve examinar a doutrina: “Se alguém quiser fazer a vontade (Qe/lhma)dele (Deus), conhecerá (ginw/skw) a respeito da doutrina (didaxh/), se ela é de Deus” (Jo 7.17).

É necessário discernimento para interpretar as doutrinas que nos são transmitidas a fim de saber se são de Deus ou não. Portanto, devemos desejar conhecer a vontade de Deus (Ef 5.17). 

A esperteza dos falsos mestres

O falso mestre é aquele que ensina a mentira, o engano: cria imagens que nada são para corromper seus ouvintes, conduzindo-os a negar o próprio Senhor Jesus Cristo e, também, à viverem libertinamente (a)se/lgeia), ou seja, de modo dissoluto e lascivo.[5] Por causa disso, o caminho do Evangelho seria caluniado, reprovado, “blasfemado”. A mensagem desses falsos mestres consiste numa corrupção do Evangelho. Plasto/j parece ter o sentido aqui de palavras artisticamente elaboradas, moldadas, sugestivas, porém, falsas, forjadas em seu próprio proveito, e, que por isso mesmo estão em oposição à verdade. Curiosamente este é o termo de onde vem a nossa palavra “plástico”.[6] O ensino cristão envolve arte, mas não “arte plástica” para com a verdade.

Nós cristãos, precisamos treinar os nossos ouvidos: “Porque o ouvido prova  (!x;B’)(bahan)(examina, testa) as palavras, como o paladar, a comida” (Jó 34.3/Jó 12.11).

O caminho da sabedoria é o caminho da santidade. Se nós queremos ser santos, devemos buscar na Palavra de Deus a coragem para cumprir os seus decretos, o ânimo para não nos abatermos com as ciladas do diabo, e o discernimento e sabedoria para que possamos interpretar a Palavra de Deus, avaliando os fatos, e aplicando os princípios eternos de Deus à nossa realidade cotidiana

Meditação e santificação

O nosso meditar na Palavra tem implicações direta em nossa santificação,[7] visto que se constitui em um estímulo constante, por graça de Deus, a que cumpramos os seus mandamentos. Ao mesmo tempo, como nos adverte Calvino, a Palavra nos previne contra as armadilhas diabólicas que visam nos afastar de Deus:

Visto que Satanás está diariamente fazendo novos assaltos contra nós, é necessário que recorramos às armas, e é mediante a lei divina que somos munidos com a armadura que nos capacita  a resistir. Portanto, quem quer que deseje perseverar em retidão e integridade de vida, então que aprenda a exercitar-se diariamente no estudo da Palavra de Deus; pois, sempre que alguém despreze ou negligencie a instrução, o mesmo cai facilmente em displicência e estupidez, e todo o temor de Deus se desvanece em sua mente.[8]

Portanto, o homem bem-aventurado do Salmo 1, é aquele que se agrada em meditar na Palavra, dando atenção aos mandamentos de Deus a fim de poder cumpri-los, tornando-os o modelo de sua agenda de pensar e praticar.

Maringá, 29 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Ver: J. Blunck, Firme: In: Colin Brown, ed. ger., O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 2, p. 246.

[2] * Gl 2.9; 1Tm 3.15; Ap 3.12; 10.1.

[3]Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste,SP.: SOCEP., 2001, p. 129.

[4] Veja-se: John MacArthur Jr., Abaixo a Ansiedade, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, p. 32.

[5]A)se/lgeia ocorre nos seguintes textos do Novo Testamento: Mc 7.22; Rm 13.13; 2Co 12.21; Gl 5.19; Ef 4.19; 1Pe 4.3; 2Pe 2.2,7,18; Jd 4.

[6]A palavra grega plastiko/j é derivada do verbo pla/ssw, cujo advérbio utilizado por Pedro é plasto/j. A nossa palavra plástico vem do grego (plastiko/j) passando pelo latim (plasticus), sempre de forma transliterada, significando aquilo “que tem propriedade de adquirir determinadas formas sensíveis, por efeito de uma ação exterior”.   

[7]“Não podemos fazer progresso na santidade a menos que empreguemos mais tempo lendo e ouvindo a Palavra de Deus, e meditando sobre ela; pois é ela que é a verdade pela qual somos santificados” (Charles Hodge, O Caminho da Vida, New York: Sociedade Americana de Tractados, (s.d.), p. 294).

[8]João Calvino, O Livro dos Salmos,v. 1, (Sl 18.22), p. 383

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (31)

5.1.4. Deus nos concede sabedoria por meio da Palavra (Continuação)

Santo discernimento

Por meio da meditação e prática da Palavra, Deus em sua misericórdia nos concede discernimento como clareza. Este é o testemunho do salmista: “A revelação das tuas palavras esclarece (rAa) (‘ôr) e dá entendimento (!yBii) (bîyn)[1] aos simples (ytiP,) (pethiy) (= ingênuo, tolo, mente aberta)(Sl 119.130).[2] Para que possamos viver com discernimento, nos instrui Provérbios: “Deixai os insensatos (ytiP.) (pethiy) e vivei; andai pelo caminho do entendimento (hn”yB) (biynah)(Pv 9.6).

Deus deseja que exercitemos o senso crítico (Pv 1.4; 14.15) deixando a paixão pela “necedade” (Pv 1.22).[3] MacArthur, pontua:

Um indivíduo simples é como uma porta aberta – ele não tem discernimento sobre o que pode sair ou entrar. Tudo entra porque ele é ignorante, inexperiente, ingênuo e não sabe discernir as coisas. Pode ser até que tenha orgulho de ter uma ‘mente aberta’, apesar de ser verdadeiramente um tolo. Mas a Palavra de Deus faz com que essa pessoa seja ‘sábia’. (…) Ser sábio é dominar a arte do viver diário por intermédio do conhecimento da Palavra de Deus e sabendo aplicá-la em toda situação.[4]

O escritor de Hebreus  exorta a alguns de seus imaturos leitores que não entendiam a superioridade de Cristo sobre todas as coisas:

11A esse respeito temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir (a)koh/). 12Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido. (Hb 5.11-12).

O salmista cantando as maravilhas da Lei de Deus, escreve: “…. o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria (~k;x’) (chakam) aos símplices (ytiP.) (pethiy) (= mente aberta) (Sl 19.7).

O simples por não perceber o mal do qual se aproxima, conduz-se perigosamente: “O prudente vê o mal e esconde-se; mas os simples (ytiP.) (pethiy) passam adiante e sofrem a pena” (Pv 22.3).

Deus concede este entendimento aos símplices, referindo-se às pessoas ingênuas que por não terem desenvolvido uma mente discernidora, é aberta a qualquer conceito,[5] não percebendo as armadilhas e contradições do seu inconsistente mosaico de pensamento.

Deus, por intermédio da sua Palavra,  dá-nos sabedoria espiritual e discernimento para que possamos reconhecer nos seus testemunhos – a Palavra de vida eterna a fim de que vejamos com clareza os sinais dos tempos, sem nos deixar levar por falsas doutrinas engenhosamente criadas pelos homens, seguindo sabiamente o caminho de Deus.

A Palavra nos conduz à maturidade, ao discernimento para que não mais tenhamos uma “mente aberta” onde tudo passe sem fronteira, sendo suscetível a todo tipo de sedução e engano.[6] Faz-se necessário que pensemos e, como nosso pensamento também foi afetado pelo pecado, pensemos sobre o nosso pensamento, rogando o Espírito de sabedoria concedido por Deus (Ef 1.17).[7]

Como escreve Piper, “pensar intensamente sobre a verdade bíblica é o meio pelo qual o Espírito nos mostra a verdade”.[8]  Devemos, portanto, aprender a refletir sobre o ensino bíblico, suplicando o discernimento do Espírito.

Paulo, escrevendo ao jovem Timóteo, recorda o aprendizado que ele recebeu nas Escrituras: “…. desde a infância sabes as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2Tm 3.15).

Maringá, 29 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] O verbo (!yBii) (bîyn) e o substantivo (hn”yBi) (bîynâh) apresentam a ideia de um entendimento, fruto de uma observação demorada, que nos permite discernir para interpretar com sabedoria e conduzir os nossos atos. “O verbo se refere ao conhecimento superior à mera reunião de dados. (…) Bîn é uma capacidade de captação julgadora e perceptiva e é demonstrada no uso do conhecimento” (L. Goldberg, Bîn: In: L. Harris, et. al., eds., Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 172).

  !yBii (bîyn) permite diversas traduções (ARA): Acudir (Sl 5.1) (No sentido de considerar); Ajuizado (Gn 41.33,39); Atentar (Dt 32.7,29; Sl 28.5); Atinar (Sl 73.17; 119.27); Considerar (Jó 18.2; 23,15; 37.14); Contemplar (Sl 33.15); Cuidar (Dt 32.10); Discernir (1Rs 3.9,11; Jó 6.30; 38.20; Sl 19.12); Douto (Dn 1.4); Ensinar (Ne 8.7,9); Entender/entendido/entendimento (Dt 1.13;4.6; 1Sm 3.8; 2Sm 12.19; 1Rs 3.12;1Cr 15.22; 27.32; 2Cr 26.5; Ed 8.16; Ne 8.2,3,8,12; 10.28; Jó 6.24;13.1; 15.9; 23.5; 26.14; 28.23; 32.8,9; 42.3); Fixar no sentido de pensar detidamente (Jó 31.1); Inteligência (Dn 1.17); Mestre (no sentido de expert) (1Cr 25.7,8); Penetrar (com o sentido de discernir) (1Cr 28.9; Sl 139.2); Perceber (Jó 9.11;14.21; 23.8); Perito (Is 3.3); Procurar (Sl 37.10); Prudentemente (2Cr 11.23); Reparar (1Rs 3.21); Revistar (procurar atentamente) (Ed 8.15); Saber/Sabedoria (Ne 13.7; Pv 14.33); “Sisudo” em palavras (1Sm 16.18); Superintender (por ter maior conhecimento) (2Cr 34.12). A LXX geralmente emprega a palavra Suni/hmi (syniêmi) para traduzir o verbo hebraico. Suni/hmi (syniêmi) envolve a ideia de reunir as coisas, analisá-las, tentando chegar a uma conclusão por meio de uma conexão das partes (*Mt 13.13,14,15,19,23,51; 15.10; 16.12; 17.13; Mc 4.12; 6.52; 7.14; 8.17,21; Lc 2.50; 8.10; 18.34; 24.45; At 7. 25 (duas vezes); 28.26,27; Rm 3.11; 15.21; 2Co 10.12; Ef 5.17). Paulo instrui aos efésios: “….Vede prudentemente como andais, não como néscios, e, sim, como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão não vos torneis insensatos, mas procurai compreender(Suni/hmi)qual a vontade do Senhor” (Ef 5.15-17).

[2] Por isso mesmo Deus nos convida a um exame de Sua Palavra. Nela temos os Seus ensinamentos e promessas que, de fato, podem iluminar os nossos olhos, apontando e nos capacitando a seguir o Seu caminho. “Porque o mandamento é lâmpada, e a instrução, luz(rAa) (‘ôr)….”(Pv 6.23). Esta é a experiência do salmista: “Os preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração; o mandamento do SENHOR é puro e ilumina (rAa) (‘ôr) os olhos”(Sl 19.8). “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz (rAa) (‘ôr) para os meus caminhos”(Sl 119.105). Nas Escrituras, seguir a instrução de Deus é o mesmo que andar na luz: “Irão muitas nações e dirão: Vinde, e subamos ao monte do SENHOR e à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos pelas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e a palavra do SENHOR, de Jerusalém (…) Vinde, ó casa de Jacó, e andemos na luz (rAa) (‘ôr) do SENHOR” (Is 2.3,5). “Atendei-me, povo meu, e escutai-me, nação minha; porque de mim sairá a lei, e estabelecerei o meu direito como luz (rAa) (‘ôr) dos povos” (Is 51.4). (Para um estudo mais pormenorizado do emprego da palavra no Antigo Testamento, vejam-se: H. Wolf, ‘ôr: In: L. Harris, et. al., eds., Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 38-42; William Gesenius, Hebrew-Chaldee Lexicon to the Old Testament,3. ed. Michigan: WM. Eerdmans Publishing Co. 1978, p. 23).

[3]“Até quando, ó néscios (ytiP) (pethiy), amareis a necedade (ytiP) (pethiy)? E vós, escarnecedores, desejareis o escárnio? E vós, loucos, aborrecereis o conhecimento?” (Pv 1.22).

[4]John F. MacArthur Jr., Adotando a Autoridade e a Suficiência das Escrituras: In: J.F. MacArthur Jr., ed. ger., Pense Biblicamente!: recuperando a visão cristã do mundo, São Paulo: Hagnos, 2005, p. 39. Veja-se também: J.F. MacArthur Jr., Nossa Suficiência em Cristo, São José dos Campos, SP: Fiel, 1995, p. 68.

[5]“O simples (ytiP.) (pethiy) dá crédito a toda palavra, mas o prudente atenta (yBi) (biyn)para os seus passos” (Pv 14.15).

[6] Cf. Louis Goldberg, Petî: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1249. Para um estudo mais detalhado da palavra, veja-se: M. Saebo, Pth: In: E. Jenni; C. Westermann, eds., Diccionario Teologico Manual Del Antiguo Testamento,  Madrid: Ediciones Cristiandad, 1985, v. 2,  p. 624-628.

[7] “Os cristãos precisam pensar sobre o pensamento. (…) A maioria dos seres humanos, contudo, nunca pensa profundamente sobre o ato de pensar. (…) Devido à devastação intelectual causada pela queda, temos a obrigação  de pensar sobre o ato de pensar. Essa é a razão pela qual o discipulado cristão é, também, uma atividade intelectual” (R. Albert Mohler Jr., O modo como o mundo pensa: Um encontro com a mente natural no espelho e no mercado. In: John Piper; David Mathis, orgs. Pensar – Amar – Fazer,  São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 44,45,54).

“Você não precisa acreditar em tudo o que pensa, e a razão é simples: nós vemos o que queremos ver. (…) O nervo óptico, o único nervo com ligação direta com o cérebro, na verdade transmite mais impulsos do cérebro para o olho do que vice-versa. Isto significa que se cérebro determina o que o olho vê. Você já está precondicionado. É por isso que, se quatro pessoas presenciarem um acidente, cada uma vai relatar algo diferente. Precisamos nos lembrar, e ensinar aos outros, que não devemos acreditar em tudo o que pensamos” (Rick Waren, A batalha pela sua mente. In: John Piper; David Mathis, orgs. Pensar – Amar – Fazer, São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 27). 

[8] John Piper: In: John Piper; D.A. Carson, O Pastor Mestre e O Mestre Pastor, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 64.

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (30)

5.1.4. Deus nos concede sabedoria por meio da Palavra (Continuação)

O apóstolo Paulo é um exemplo positivo disso. Ele desejava muito visitar os crentes romanos; orava por aqueles irmãos. Enquanto isso, imaginava quando estivesse com eles, levaria uma mensagem instrutiva  e um compartilhar da fé edificante e confortador.

Por volta do ano 57 A.D., estando em Corinto, escreve:

Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, é minha testemunha de como incessantemente faço menção de vós 10em todas as minhas orações, suplicando que, nalgum tempo, pela vontadede Deus, se me ofereça boa ocasião de visitar-vos.  11 Porque muito desejo ver-vos, a fim de repartir convosco algum dom espiritual, para que sejais confirmados,  12 isto é, para que, em vossa companhia, reciprocamente nos confortemos por intermédio da fé mútua, vossa e minha.(Rm 1.9-12).

     Nesta ocasião Paulo acredita ter uma boa oportunidade de visitar Roma. Contudo, antes deve passar pela Judéia para levar as ofertas para os santos dali. Sua trajetória seria arriscada visto ter muitos inimigos na região. Ele então pede aos crentes romanos:

30 Rogo-vos, pois, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e também pelo amor do Espírito, que luteis juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor, 31 para que eu me veja livre dos rebeldes que vivem na Judéia, e que este meu serviço em Jerusalém seja bem aceito pelos santos; 32 a fim de que, ao visitar-vos, pela vontade   de Deus, chegue à vossa presença com alegria e possa recrear-me convosco. (Rm 15.30-32).

A nossa imaginação meditativa tende a moldar o nosso comportamento,[1] reforçando propósitos, enchendo-nos de uma alegre perspectiva de concretização do que cremos ser útil e edificante. Deus diz a Josué diante do desafio de conduzir o povo na terra prometida: “Não cesses de falar deste Livro da Lei; antes, medita (hg’h’) (hãgãh) nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu caminho e serás bem-sucedido” (Js 1.8).

O meditar na Palavra e nos feitos de Deus é uma prática abençoadora pelo fato de ocupar nossas mentes e corações com o que realmente importa: estimula a nossa gratidão e perseverança em meio às angústias.[2] Isto nos traz grande alívio.

Davi no deserto se confortava meditando nos feitos de Deus: “No meu leito, quando de ti me recordo e em ti medito (hg’h’) (hãgãh), durante a vigília da noite. Porque tu me tens sido auxílio; à sombra das tuas asas, eu canto jubiloso” (Sl 63.6-7/Sl 77.11-12; 143.5).

Meditar na Palavra tem o sentido de considerá-la em nossas decisões, refletir sobre os seus ensinamentos. Como temos insistido, a meditação deve modelar, corrigir e confirmar o nosso comportamento. A meditação aqui é uma exortação à assimilação existencial da Palavra a fim de que esta se evidencie em nossa prática.

Comênio  (1592-1670) define:

A meditação é a consideração frequente, atenta e devota das obras, das palavras e dos benefícios de Deus, e de como tudo provém de Deus (que opera ou permite) e de como, por caminhos maravilhosos, todos os desígnios da vontade divina são exatamente realizados.[3]

Esta sabedoria espiritual exige um laborioso processo de compreensão, entendimento e prática da verdade. Portanto, a nossa sabedoria consiste em nos submeter às Escrituras.

Martinho Lutero (1483-1546) constatou acertadamente: “Quão grande dano tem havido quando se tenta ser sábio e interessante sem ou acima da Escritura”.[4]

Paulo instrui à Igreja para que a Palavra de Cristo habite, se assenhoreie de nosso coração, nos dirigindo em nossa mútua instrução, com sabedoria, louvor e gratidão: Habite (e)noike/w),[5]  ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria (sofi/a), louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração” (Cl 3.16).

Os efésios, conforme já mencionamos, eram crentes operantes em Cristo. Paulo ora no sentido de seu contínuo crescimento pela graça (Ef 1.17). Crescer na graça não significa crescer simplesmente em uma esfera de nossa existência, mas, em todas elas. Crescer na graça significa crescer em maturidade tendo como modelo perfeito o próprio Cristo, cuja mente é o nosso padrão.

O caminho da maturidade espiritual que se expressa em obediência, envolve, necessariamente, a prática de meditação sincera na Palavra.

Poythress é enfático:

Não há atalho para crescer no entendimento da Escritura e no entendimento de Deus que fala na Escritura. Cada aspecto do entendimento ajuda outro aspecto. É importante crescer, porque um entendimento profundo da Escritura é vital à medida que nos esforçamos para servir a Cristo criativamente em situações que a Bíblia não aborda diretamente. A Bíblia como a Palavra de Deus aborda todas as coisas, quer diretamente, quer na forma de implicação. Ele fala para toda a vida. Mas para ver como isso se dá, pode ser necessário reflexão e meditação.[6]

Maringá, 29 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1]“O coração do justo medita (hg’h’) (hãgãh) o que há de responder, mas a boca dos perversos transborda maldades” (Pv 15.28).

[2]“Quando formos premidos pela adversidade, ou envolvidos em profundas aflições, meditemos nas promessas de Deus, nas quais a esperança de salvação nos é demonstrada, de modo que, usando este escudo como nossa defesa, rompamos todas as tentações que nos assaltam” (João Calvino, O Livro dos Salmos,v. 1, (Sl 4), p. 89).

[3]João Amós Coménio,Didáctica Magna,3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (1985), XXIV.7. p. 355.

[4]Lutero, Apud Phillip J. Spener, Mudança para o Futuro: Pia Desideria, Curitiba, PR.; São Bernardo do Campo, SP.: Encontrão Editora; Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, 1996, p. 43.

[5] *Rm 7.17; 8.11; 2Co 6.16; Cl 3.16; 2Tm 1.5,14.

[6]Vern S. Poythress, O senhorio de Cristo: servindo o nosso Senhor o tempo todo, em toda a vida e de todo o nosso coração, Brasília, DF.: Monergismo, 2019, p. 174.

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (29)

5.1.4. Deus nos concede sabedoria por meio da Palavra (Continuação)

Necessidade de meditação

A palavra “meditar”, em sua origem latina, significa, entre outras coisas, “preparar para a ação”. Desta forma, a meditação não tem um fim em si mesma, mas, sim, visa conduzir o nosso agir e o nosso realizar.[1]

A prática do meditar na Palavra nos confere maior discernimento, nos estimula ao prazer de obedecer a Deus e de partilhar de seus ensinamentos.

Vejam os testemunhos inspirados descritos por servos de Deus:

Meditarei  (x;yfi) (Siha) nos teus preceitos, e às tuas veredas terei respeito. (Sl 119.15/Sl 119.27,48,78,148).
97Quanto amo a tua lei! É a minha meditação (hx’yf)(sihãh) (considerar, perscrutar, cogitar), todo o dia! 98 Os teus mandamentos me fazem mais sábio (~k;x’)(chakam)que os meus inimigos; porque, aqueles, eu os tenho sempre comigo. 99 Compreendo mais do que todos os meus mestres, porque medito (hx’yf)(sihãh) nos teus testemunhos (tWd[e) (`eduth).[2] 100Sou mais prudente (!yBi) (biyn) que os idosos, porque guardo os teus preceitos. 101 De todo mau caminho desvio os pés, para observar a tua palavra. 102 Não me aparto dos teus juízos (jP’v.mi) (mishpat),[3] pois tu me ensinas (hr’y”) (yarah).[4] (Sl 119.97-102).

Aquilo sobre o que meditamos, normalmente, molda a nossa perspectiva da realidade e o nosso comportamento.[5] O salmista meditava na Palavra de Deus.

Este é o contraste estabelecido pelo salmista entre o ímpio e aquele que teme ao Senhor: “Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite” (Sl 1.2).

Enquanto o ímpio persegue freneticamente o conselho e caminho dos ímpios, o fiel, que tem na Palavra o seu prazer, ocupa a sua mente com a Lei do Senhor; de dia e de noite. A ênfase é no objeto da meditação (A Lei) e a sua constância. A meditação é centrada em Deus e sua Palavra; não é uma mera meditação introspectiva ou transcendental, mas, centrada em Deus e dirigida por Deus.[6]   Portanto, todo momento e cada circunstância é oportuno para tomar a Palavra como alvo de nossas cogitações.

Curiosamente, no Salmo 2.1, o verbo “imaginar”(hg’h’) (hãgãh) é o mesmo de “meditar” no Salmo1.2. O verbo que é usado de forma negativa e positiva na Escritura, tem o sentido de murmurar, gemer, meditar, planejar, imaginar.É possível que a Palavra fosse “murmurada”, lida a meia voz durante a sua contínua meditação.[7] Este meditar tinha como objetivo de, por meio da aprendizagem dos mandamentos de Deus,[8] adequar a sua vida aos ensinamentos ali contidos, não apenas um exercício intelectual e sensorial (Js 1.8).

A questão então, está no que ocupa a nossa mente: em meditar na Palavra ou em imaginar cousas vãs?. Quando a nossa imaginação navega sem rumo pode se alimentar de coisas fúteis, tornando-se instrumento de destruição como, por exemplo, para maquinar planos de vingança e calúnia. A nossa imaginação mal utilizada poderá criar estruturas mentais que se constituem em pressupostos concretos para o novo elaborar intelectual, nos conduzindo a um comportamento totalmente distante da realidade, cujo fundamento está em nossa imaginação pecaminosa que se alimentou de si mesma construindo um mundo fictício e, pior, destrutivo. Esta “petição de princípio” imaginativa certamente acarretará muita dor e ansiedade e, pior, sem nenhum fundamento concreto.

Salomão nos instrui quanto ao perigo de invejarmos o ímpio e de desejarmos conviver com ele. Este homem é contagiante em suas maquinações para a violência as quais são verbalizadas para persuadir: “Não tenhas inveja dos homens malignos, nem queiras estar com eles,  2 porque o seu coração maquina (hg’h’) (hãgãh) violência, e os seus lábios falam para o mal” (Pv 24.1-2).

Davi descrevendo seus inimigos que  se aproveitam de sua fragilidade circunstancial, escreve: “Armam ciladas contra mim os que tramam tirar-me a vida; os que me procuram fazer o mal dizem coisas perniciosas e imaginam (hg’h’) (hãgãh) engano todo o dia” (Sl 38.12).

A imaginação pode ser algo extremamente produtiva e útil quando a colocamos à disposição do serviço de Deus, na realização de projetos condizentes com a Palavra. Isto é válido para qualquer atividade, quer seja na arte, na visão missionária – quer próxima, quer distante –, na elaboração de um livro, no planejamento de nosso mês, na preparação de uma festa etc. Podemos usar a nossa imaginação para visualizar o que pretendemos fazer e nos alegrar na consecução desses projetos.

Maringá, 29 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1]Packer assim define: “Meditação é o ato de trazer à mente as várias coisas que se conhecem sobre as atividades, os modos, os propósitos e as promessas de Deus; pensar em tudo isso, refletir sobre essas coisas e aplicá-las à própria vida”(J.I. Packer, O Conhecimento de Deus,  São Paulo: Mundo Cristão, 1980, p. 15).

[2] De modo pactual confirma e adverte quanto à natureza de Deus, à veracidade e seriedade das exigências da Lei de Deus enfatizando a Aliança. Deus dá testemunho de si mesmo (Ex 25.16-22).

[3]Enfatizam a suprema autoridade de Deus em nos prescrever as leis que devem regular as nossas relações e exigir que as cumpramos (Dt 4.1,5,8,14; 5.1; 6.1).

[4]Figuradamente tem o sentido de mostrar, indicar, “apontar o dedo”. Encaminhar (Gn 46.28); disparar (Sl 11.2; 64.4); apontar (Sl 25.8); atingir (Sl 64.4); desferir (Sl 64.7). No hifil, conforme o texto citado, tem o sentido de “ensinar”. (Do mesmo modo: Sl 86.11; 119.33; Pv 4.4; 4.11, etc.).

[5]“Todos nós meditamos e somos moldados pelo objeto de nossa meditação” (Randy Alcorn, Decisões diárias cumulativas, coragem em uma causa e uma vida de perseverança: In: John Piper; Justin Taylor, eds. Firmes: um chamado à perseverança dos santos, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2010, p. 99).

[6] Veja-se: Bruce K. Waltke; James M. Houston; Erica Moore, The Psalms as Christian Worship: A Historical Commentary, Grand Rapids, MI.: Eerdmans, 2010, (Sl 1.2), p. 139.

[7] Vejam-se: Mark D. Futato, Interpretação dos Salmos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 55-56; Hebert Wolf, Hagâ: In:  R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 337; Willem A. VanGemeren,  Psalms. In: Frank E. Gaebelein, ed. ger., The Expositor’s Bible Commentary, Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1991, v.  5, (Sl 1), p. 55; M.V. Van Pelt; W.C. Kaiser, Jr., Hgh: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v.  1, p. 981-982; Helmer Ringgren; A. Negoitã, Haghah: In: G. Johannes Botterweck; Helmer Ringgren; Heinz-Josef Fabry, eds., Theological Dictionary of the Old Testament, Grand Rapids, MI.: Eerdamans, 1978, v. 3, p. 321-324.

[8]“A aprendizagem é o processo mediante o qual a experiência passada do amor de Deus é traduzida, pelos aprendizes, em obediência à Torá de Deus” (D. Müller, Discípulo: In: Colin Brown, ed. ger. Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 1, p. 662).

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (28)

5.1.4. Deus nos concede sabedoria por meio da Palavra

A filosofia cristã genuína entende que somente a Palavra de Deus pode tornar uma pessoa sábia (Sl 19.7). –  W. Gary Crampton; Richard E. Bacon.[1]

É tão somente da Palavra de Deus devemos aprender a sabedoria, e por isso a ninguém mais se deve ouvir para salvação senão aqueles por cuja boca Deus fala. – João Calvino.[2]

Pensar de forma cristã é pensar em termos de revelação. Para o homem secular, Deus e a teologia são os brinquedos da mente. Para o cristão, Deus é real, e a teologia cristã descreve sua verdade revelada a nós. Para a mente  secular, religião é essencialmente uma questão teórica; para a mente cristã, o cristianismo é uma questão de atos e fatos. Os atos e fatos que são a base de nossa fé estão registrados na Bíblia. – Harry Blamires (1916-2017).[3]

Deus é o nosso Mestre por excelência. Como Senhor e Pai amoroso, se comunica pessoal e prazerosamente conosco a fim de também nos instruir.

Portanto, devemos nos valer, com sabedoria, dos recursos que Deus nos deu para avaliar aquilo que chega ao nosso conhecimento: “O ouvido que ouve e o olho que vê, o SENHOR os fez, tanto um como o outro” (Pv 20.12).

Como em todas as coisas, o Senhor Jesus Cristo é o nosso exemplo perfeito. Por meio do profeta Isaías, 750 anos antes, o caráter de Jesus, o Messias, foi descrito com propriedade:

O SENHOR Deus me deu língua de eruditos (dMul) (limmud) (= discípulo, aprendedor), para que eu saiba dizer boa palavra ao cansado. Ele me desperta todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que eu ouça como os eruditos (dMul) (limmud) (= discípulo, aprendedor). (Is 50.4).

Esta erudição é teórica e prática. Significa aprender com avidez e discernimento, vivendo com a sabedoria resultante do relacionamento com Deus, e ensinando com sensibilidade para saber dizer “boa palavra ao cansado”.

O hebraico se vale da mesma raiz gramatical para falar do ensino (piel) e da aprendizagem (qal) porque em suma, só há ensino quando de fato houver aprendizagem. O princípio que deve reger ambos os processos, é o temor do Senhor.

Aprender a lei de Deus de fato, é mais do que simplesmente ser informado sobre, é o mesmo que obedecer a sua vontade (Dt 4.10; 14.23; 17.19; 31.12,13).[4] A obediência não era algo simplesmente intuitivo, antes, amparava-se explicitamente na Lei do Senhor, a qual deve ser lida, ouvida, conhecida e praticada.[5] O povo demonstraria o aprendizado por meio de uma mudança de perspectiva e de comportamento.[6]

Portanto, a súplica do profeta em relação aos discípulos:“Resguarda o testemunho, sela a lei no coração dos meus discípulos (dMul) (limmud)(Is 8.16). À frente, vemos que o povo da antiga dispensação aguardava o Messias, porque, como diz o profeta:“Todos os teus filhos serão ensinados (dMul) (limmud) do SENHOR; e será grande a paz de teus filhos” (Is 54.13).[7]

No Novo Testamento, Jesus Cristo convida a todos:28 Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. 29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei (manqa/nw) de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. 30 Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve. (Mt 11-28-30).

O aprendizado aqui não é apenas teórico, antes, tem a ver com a aceitação da pessoa de Cristo e, consequentemente de seus ensinamentos, se manifestando em um relacionamento pessoal e obediência sincera (Mt 12.46-50).

Portanto, em tudo devemos buscar discernimento, refletindo e retendo a Palavra:

O coração do sábio (!yBi) (bîyn) adquire o conhecimento (t[;D;) (daath), e o ouvido dos sábios (~k’x’) (chakam)[8] procura o saber (t[;D;) (daath). (Pv 18.15).

Não é bom proceder sem refletir (t[;D;) (daath), e peca quem é precipitado. (Pv 19.2).

Quem retém as palavras possui o conhecimento (t[;D;) (daath),[9] e o sereno de espírito é homem de inteligência. (Pv 17.27).

Maringá, 29 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1] W. Gary Crampton; Richard E. Bacon,  Em Direção a uma Cosmovisão Cristã, Brasília, DF.: Monergismo, 2010, p. 19.

[2]João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 3.2),  p. 113-114.

[3] Harry Blamires, A Mente Cristã: como um cristão deve pensar? São Paulo: Shedd Publicações, 2006, p. 111.

[4]“Não te esqueças do dia em que estiveste perante o SENHOR, teu Deus, em Horebe, quando o SENHOR me disse: Reúne este povo, e os farei ouvir as minhas palavras, a fim de que aprenda a temer-me todos os dias que na terra viver e as ensinará a seus filhos” (Dt 4.10).E, perante o SENHOR, teu Deus, no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome, comerás os dízimos do teu cereal, do teu vinho, do teu azeite e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer o SENHOR, teu Deus, todos os dias”(Dt 14.23).Também, quando se assentar no trono do seu reino, escreverá para si um traslado desta lei num livro, do que está diante dos levitas sacerdotes. 19 E o terá consigo e nele lerá todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer o SENHOR, seu Deus, a fim de guardar todas as palavras desta lei e estes estatutos, para os cumprir” (Dt 17.18-19).Esta lei, escreveu-a Moisés e a deu aos sacerdotes, filhos de Levi, que levavam a arca da Aliança do SENHOR, e a todos os anciãos de Israel. Ordenou-lhes Moisés, dizendo: Ao fim de cada sete anos, precisamente no ano da remissão, na Festa dos Tabernáculos, quando todo o Israel vier a comparecer perante o SENHOR, teu Deus, no lugar que este escolher, lerás esta lei diante de todo o Israel. Ajuntai o povo, os homens, as mulheres, os meninos e o estrangeiro que está dentro da vossa cidade, para que ouçam, e aprendam, e temam o SENHOR, vosso Deus, e cuidem de cumprir todas as palavras desta lei; para que seus filhos que não a souberem ouçam e aprendam a temer o SENHOR, vosso Deus, todos os dias que viverdes sobre a terra à qual ides, passando o Jordão, para a possuir” (Dt 31.9-13).

[5]Descrevendo a função dos mestres do Antigo Testamento, Downs comenta: “O professor ensinava o povo a obedecer aos mandamentos de Deus, não simplesmente a conhecê-los. De fato, o conhecimento era tão ligado com a ação na mente hebraica que as pessoas não podiam afirmar saber o que elas não praticavam” (Perry G. Downs, Introdução à Educação Cristã: Ensino e Crescimento, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, p. 26).

[6]Veja-se: Hermisten M.P. Costa, Introdução à Educação Cristã, Brasília, DF.: Monergismo, 2013.

[7] Sobre os usos da palavra hebraica, vejam-se: E.H. Merrill, dml: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 2, p. 800-802; Walter C. Kaiser, Lâmad:In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento,p. 790-791; K.H. Rengstorf, Manqa/nw, etc.: In: G. Friedrich; G. Kittel, ed. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 4, p. 400-405 (especialmente); p. 426-441 (especialmente); A.S. Kapelrud, damfl, etc., In: G. Johannes Botterweck; Helmer Ringgren; Heinz-Josef Fabry, eds., Theological Dictionary of the Old Testament, Grand Rapids, MI.: Eerdmans, 2001, v. 8, p. 4-10. Para uma visão mais ampla, que foge aos objetivos desta nota, vejam-se: A.W. Morton, Educação nos Tempos Bíblicos: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 2, p. 261-280; Hermisten M.P. Costa, Introdução à Educação Cristã, Brasília, DF.: Monergismo, 2013.

[8]“A ideia essencial (…) representa um modo de pensar e uma atitude para com as experiências da vida, incluindo questões de interesse geral e moralidade básica. Tais assuntos se relacionam à prudência em negócios seculares, habilidades nas artes, sensibilidade moral e experiência nos caminhos do Senhor” (Louis Goldberg, Hãkam: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 459). Em síntese, envolve a capacidade de discernir entre o bem e o mal. Veja-se: Robert B. Girdlestone, Synonyms of the Old Testament, Grand Rapids, MI.: Eerdmans, 1981 (Reprinted), p. 74.

[9] Vejam-se também: Pv 10.14; 11.9; 12.1; 13.16; 14.6; 19.25; 21.11; 23.12.

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (27)

5.1.3. A Sabedoria do Espírito em nossa cotidianidade (Continuação)

Como escreveu Pearcey: “A questão importante é o que aceitamos como premissas básicas, pois são elas que moldam tudo o que vem depois”.[1] Há o perigo de, sem nos darmos conta, formar a nossa cosmovisão baseados em um mosaico de peças promíscuas, contraditórias e excludentes.[2]

O homem não é a medida de todas as coisas como queria Protágoras (c. 480-410 a.C.)[3] e os Renascentistas ao revisitarem a sua frase.[4] No entanto, isto não significa a admissão de falta de um referencial, antes, na afirmação de que Jesus Cristo é a medida, o cânon da verdade e, portanto, de toda avaliação que fizermos da realidade que nos circunda.

Os bereanos tinham um padrão de verdade. Eles criam na sua existência e acessibilidade. Examinaram o que Paulo dizia à luz das Escrituras, ou seja: o Antigo Testamento. Se não tivermos um referencial teórico claro, como poderemos analisar de modo coerente a realidade? Sem referências, tudo é possível dentro de um quadro interpretativo forjado conforme as circunstâncias e meus interesses. Todo absoluto envolve antíteses.

Talvez, mesmo para nós cristãos, esteja faltando hoje, ainda que não de hoje, um pensamento cristão,uma mente cativa a Cristo que nos propicie o desenvolvimento de uma cosmovisão cristã.[5]

Cosmovisão é um compromisso de fé e prática. Por isso, o nosso trabalho pastoral consiste na aplicação de nossa fé – criticamente avaliada a partir das Escrituras – às condições concretas de nossa existência. A fé é chamada a se materializar nos desafios que se configuram diante de nós em nossa história de vida. E, como diz Lloyd-Jones (1899-1981): “A fé cristã não é algo que se manifeste à superfície da vida de um homem, não é meramente uma espécie de camada de verniz. Não, mas é algo que está sucedendo no âmago mesmo de sua personalidade”.[6]

Por conseguinte, o ministério pastoral é um serviço que prestamos a Deus por meio da igreja, do povo que Ele mesmo nos concedeu o privilégio de pastorear. Em fidelidade a nossa vocação não podemos perder de vista o nosso propósito: servimos a Deus dentro de nossas limitações e expectativas. A graça de Deus tão necessária é abundante e, por isso, suficiente.

     Tomemos a orientação de Paulo: “Pondera (noe/w) (= atentar, compreender, pensar, entender) o que acabo de dizer, porque o Senhor (ku/rioj) te dará compreensão (su/nesij) (= entendimento, inteligência, discernimento) em todas as coisas” (2Tm 2.7).

O que Paulo instrui a Timóteo é no sentido de que ele reflita sobre o que o Apóstolo lhe escreveu buscando a compreensão no Senhor. Pensamento e oração caminham juntos. “Um ministro que ora está no caminho de ter um ministério bem sucedido”.[7] Contrariamente, a ausência de oração determinará de forma trágica a morte de toda a sua vitalidade espiritual.[8]

A piedade e sua praticidade

Não podemos excluir Deus de nossas pesquisas. A piedade para tudo é proveitosa (1Tm 4.8). Não permitamos que a nossa fé nos afaste de uma pesquisa séria.[9] A nossa fé deve ser o transpirar de nossa teologia. “A fé cristã não é uma fé apática, uma fé de cérebros mortos, mas uma fé viva, inquiridora. Como Anselmo afirmou, a nossa fé é uma fé que busca entendimento”, resume Craig.[10]

A nossa fé nunca pode ser algo ocioso.[11] Devemos, portanto, pensar sobre o pensar rogando a Deus a sua iluminação. As nossas mãos devem ser agentes daquilo que, por graça temos percebido. Deus mesmo, por graça, nos dará o discernimento sobre todas as coisas. Pense sobre isso. Ore, persevere em orar a respeito.  Aos ministros de modo especial: Pregue a Palavra com fidelidade, profundidade, integridade e simplicidade.[12] Cumpra a sua vocação. Ouça o Espírito falando por meio da sua Palavra. Viva esta Palavra. Ensine à Igreja a Palavra do Espírito. Assim Deus será glorificado. Ele mesmo, o Senhor da Glória, haverá de abençoá-los suprindo todas e cada uma de suas necessidades.

São Paulo, 27 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Nancy Pearcey, Verdade Absoluta: libertando o cristianismo de seu cativeiro cultural, Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2006, p. 44.

[2]Veja-se: Nancy Pearcey, Verdade Absoluta: libertando o cristianismo de seu cativeiro cultural, Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2006, p. 48.

[3]Apud Platão, Teeteto, 152a: In: Teeteto-Crátilo, 2. ed. Belém: Universidade Federal do Pará, 1988, p 15. Citado também em Platão, Crátilo, 385e. Aristóteles, diz: “O princípio (…) expresso por Protágoras, que afirmava ser o homem a medida de todas as coisas (…) outra coisa não é senão que aquilo que parece a cada um também o é certamente. Mas, se isto é verdade, conclui-se que a mesma cousa é e não é ao mesmo tempo e que é boa e má ao mesmo tempo, e, assim, desta maneira, reúne em si todos os opostos, porque amiúde uma cousa parece bela a uns e feia a outros, e deve valer como medida o que parece a cada um” (Metafísica, XI, 6. 1 062. Veja-se também, Platão, Eutidemo, 286). Platão diferentemente de Protágoras, entendia que a medida de todas as coisas estava em Deus. “Aos nossos olhos a divindade será ‘a medida de todas as coisas’ no mais alto grau” (Platão, As Leis, Bauru, SP.: EDIPRO, 1999, IV, 716c. p. 189).

[4] “Vivemos em uma cultura que procura nos convencer de que o homem é a medida de todas as coisas ‒ cada um é o próprio capitão de seu destino e o senhor de sua alma” (W. G. Tullian Tchividjian, Fora de Moda, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 44).

[5] “Nossas igrejas estão cheias de pessoas que são espiritualmente nascidas de novo, mas que ainda pensam como não cristãs” (William L. Craig, Apologética Cristã para Questões difíceis da vida, São Paulo: Vida Nova, 2010, p. 14).

[6] David M. Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, São Paulo: Editora Fiel, 1984, p. 89.

[7] John Shaw, The Character of a Pastor According to God’s Considered, Morgan, Pa.: Soli Deo Gloria, 1992, p. 10. Apud Alistair Begg, Pregando para a Glória de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2014, p. 63.

[8] “A oração é a conversa da alma com Deus. (…) Um homem sem oração é necessária e totalmente irreligioso. Não pode haver vida sem atividade. Assim como o corpo está morto quando cessa sua atividade, assim a alma que não se dirige em suas ações a Deus, que vive como se não houvesse Deus, está espiritualmente morta” (Charles Hodge, Systematic Theology, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans,1976 (Reprinted),v. 3, p. 692).

[9] “Torne sua vida ‒ especialmente sua vida de estudos ‒ uma vida de constante comunhão com Deus em oração. O aroma de Deus não permanece por muito tempo sobre uma pessoa que não se demora em sua presença (…). Somos chamados ao ministério da Palavra e da oração, porque sem oração o Deus de nossos estudos será o Deus que não assusta, que não inspira, oriundo de uma prática acadêmica ardilosa” (John Piper, A Supremacia de Deus na Pregação, São Paulo: Shedd Publicações, 2003, p. 57).

[10]William L. Craig, Apologética Cristã para Questões difíceis da vida, São Paulo: Vida Nova, 2010, p. 29. De igual modo: Garrett J. DeWeese; J.P. Moreland, Filosofia Concisa, São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 158.

[11]Veja-se: João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 134.

[12] “O uso de uma linguagem mais difícil pode ser a forma correta em determinadas situações, mas não é a forma correta na pregação. Pregações são feitas verbalmente. Têm como objetivo o ser compreendido. Se, ocasionalmente, é necessário o uso de palavras incomuns, elas são explicadas. Pregadores que não usam palavras do dia-a-dia em suas mensagens não estão ministrando como o seu Mestre” (Stuart Olyot, Ministrando como o Mestre: Aprendendo com os métodos de Jesus, São José dos Campos, SP.: Fiel, © 2005, 2010 (Reimpressão), p. 12). “A pregação de hoje deve ser feita em uma linguagem de comunicação social; caso contrário, haverá um obstáculo ao entendimento” (Francis A. Schaeffer, A Arte e a Bíblia, Viçosa, MG.: Editora Ultimato, 2010, p. 63).

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (26)

Contudo, uma tentação para todos nós é sacrificar princípios que consideramos absolutos, os relativizando a fim de sermos aceitos pelos nossos pares, ou, nos considerar atualizados. Os viúvos intelectuais de hoje, foram, em geral, casados com a moda de ontem. É extremamente fácil e perigoso nos deixarmos seduzir pelos nossos próprios pensamentos a respeito do pensamento vigente e aparentemente definitivo. O nosso amanhã poderá refletir tragicamente o nosso consórcio intelectual e moral de hoje.[1]

O nosso desafio é ser cristãos em todos os desafios que se apresentam em nossa cultura. Portanto, não estamos propondo uma alienação da cultura, nem, simplesmente, uma identificação cultural irresponsável, imaginando que a força da igreja esteja em sua semelhança e não na sua diferença genética e, portanto, naturalmente sobrenatural. Fomos gerados de novo para uma nova vida caracterizada por uma nova esperança, fundamentada na historicidade da ressurreição de Cristo, que perpassa e confere sentido à nossa existência hoje (1Pe 1.3,13,21; 3.15/1Tm 4.10).[2]

      Acreditamos que podemos conhecer a verdade – ainda que não exaustivamente ‒ porque nenhuma cosmovisão está acima de uma avaliação bíblica. Os bereanos se constituem em exemplo de uma avaliação criteriosa do que ouviram, primariamente, com atenção e interesse, independente de quem lhes ensinava, conforme narra Lucas: “Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando (a)nakri/zw) (“fazer uma pesquisa cuidadosa”, um “exame criterioso”, “inquirir”) as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim”(At 17.11).

O nosso desejo de servir a Deus não nos deve tornar presas fáceis de qualquer ensinamento ou doutrina. Precisamos cientificar-nos se aquilo que é-nos transmitido procede ou não de Deus. Para este exame, temos as Escrituras Sagradas como fonte de todo conhecimento revelado a respeito de Deus e do que Ele deseja de nós. O não investigar (Sl 10.4) é um mal em si mesmo. Um bom princípio é examinar o que se nos apresenta como realidade dentro de suas multifárias percepções,[3] não nos deixando seduzir e guiar por nossas inclinações ou pelas tendências massificantes. Em geral, quando nos faltam critérios objetivos, apelamos para o gosto como critério definitivo e solitário. Desse modo, somos conduzidos simplesmente por princípios que nos agradam sem verificar a sua veracidade. O fim disso pode ser trágico. Assim sendo, por mais autoeloquentes que possam se configurar aspectos da chamada realidade, precisamos examiná-los antes de os tomarmos como pressupostos para a aceitação de outras declarações também reivindicatórias. Quando nos omitimos deste exame, deste juízo crítico, sem percebermos, estamos contribuindo para que os ensinamentos hoje aceitos inconsistentemente, amanhã se tornem pressupostos que determinarão as nossas escolhas e avaliações.[4]

As hipóteses de hoje poderão se tornar nas teorias de amanhã e as futuras leis do pensamento e da moral. Neste caso, já estarão acima de qualquer suspeita e discussão: tornaram-se verdade. A ciência é, com frequência, um refinamento das observações cotidianas.[5]

São Paulo, 27 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1] Vejam-se: Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 59; W. G. Tullian Tchividjian, Fora de Moda, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 31.

[2]“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” (1Pe 1.3). “Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo” (1Pe 1.13). “Que, por meio dele (Jesus Cristo), tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus” (1Pe 1.21). “Antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós” (1Pe 3.15). “Ora, é para esse fim que labutamos e nos esforçamos sobremodo, porquanto temos posto a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os homens, especialmente dos fiéis” (1Tm 4.10).

[3] “A prova de que as coisas são apenas valores é óbvia; pegue-se uma coisa qualquer, transmita-lhe diferente sistema de valoração, e se terá outras tantas coisas diferentes em lugar de apenas uma. Compare-se o que é a terra para um lavrador e para um astrônomo: para o lavrador é suficiente pisar a rubra pele do planeta e arranhá-la com o arado; sua terra é um caminho, uns sulcos e umas messes. O astrônomo necessita determinar exatamente o lugar que o globo ocupa em cada instante dentro da enorme suposição do espaço sideral: o ponto de vista da exatidão o obriga a convertê-la em uma abstração matemática, em um caso da gravitação universal. O exemplo poderia continuar indefinidamente.

     “Não existe, portanto, essa suposta realidade imutável e única com a qual se pode comparar os conteúdos das obras artísticas; há tantas realidades quanto pontos de vista. O ponto de vista cria o panorama. Há uma realidade de todos os dias formada por um sistema de laxas relações, aproximativas, vagas o suficiente para os usos da vida cotidiana. Há uma realidade científica forjada em um sistema de relações exatas, impostas pela necessidade de exatidão. Ver e tocar as coisas não são, no fim das contas, senão maneiras de pensá-las” (Ortega y Gasset, Adão no Paraíso: In: Juan Escárnez Sánchez, Ortega y Gasset, Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010, p. 127).

[4]Veja-se: C.S. Lewis, A Abolição do Homem, São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 5.

[5]Creio ser interessante ler o artigo: Taylor B. Jones, Por que uma visão bíblica da Ciência?: In: John MacArthur, ed. ger., Pense Biblicamente!: recuperando a visão cristã do mundo, São Paulo: Hagnos, 2005, especialmente, p. 337-363.

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (25)

5.1.3. A Sabedoria do Espírito em nossa cotidianidade (Continuação)

Mesmo sabendo da real necessidade que temos da sabedoria espiritual concedida por Deus, isso não significa que devamos abdicar de nossa capacidade de pensar conforme Deus nos concedeu. O pensamento e a fé devem caminhar juntos. Não estamos estabelecendo paradoxos. Antes, o que estou afirmando é que o pensar é um imperativo fundamental de nossa condição de imagem de Deus. Como homens e mulheres criados à imagem de Deus devemos nos valer dessa capacidade tão cara concedida a nós.

Precisamos aprender que a fé não elimina a nossa responsabilidade de pensar. Pensar não exclui a nossa fé. Ambas as atitudes devem caracterizar a vida do cristão a fim de que a nossa fé seja compreensível e a nossa razão seja guiada pela fé. A nossa fé e a nossa inteligência devem caminhar de mãos dadas em submissão a Deus.

O pensar confuso, destituído de fundamento, leva-nos à confusão. O seu repetir e propagar cria uma estagnação social em todos os níveis. A confusão intelectual é uma das raízes de repetições infindáveis que sufoca a possibilidade de crescimento, ajudando a perpetuar o erro, o equívoco e o que é obsoleto em sua constituição e prática.

João Calvino (1509-1564), o maior expoente da Reforma Protestante, escreveu com propriedade:

Chamo serviço não somente o que consiste na obediência à Palavra de Deus, mas também aquele pelo qual o entendimento do homem, despojado dos seus próprios sentimentos, converte-se inteiramente e se sujeita ao Espírito de Deus. Essa transformação, que o apóstolo Paulo chama renovação da mente [Rm 12.2], tem sido ignorada por todos os filósofos, apesar de constituir o primeiro ponto de acesso à vida. Eles ensinam que somente a razão deve reger e dirigir o homem, e pensam que só a ela devemos ouvir e seguir; com isso, atribuem unicamente à razão o governo da vida. Por outro lado, a filosofia cristã pretende que a razão ceda e se afaste, para dar lugar ao Espírito Santo, e que por Ele seja subjugada e conduzida, de modo que já não seja o homem que viva, mas que, tendo sofrido com Cristo, nele Cristo viva e reine.[1]

Não vivemos em um mundo de aparências. A realidade é acessível e Deus deseja que a conheçamos. O mundo real foi revelado a nós. Deus nos concedeu meios para conhecê-lo dentro do palco maravilhoso de sua glória revelado na Criação.

O Senhor nos dá compreensão, nos faz ter entendimento de toda a realidade. O real não é uma mera utopia, antes, é acessível e, portanto, conhecível. Se não tivéssemos acesso à realidade, seria, por exemplo, impossível escrever história e, da mesma forma, estudá-la. Qual seria o sentido disso além de um exame psicológico do historiador?[2]

Não vivemos num mundo de imagens, mas, de realidade, por mais desagradável que essa possa se configurar a nós em determinadas circunstâncias. No entanto, precisamos refletir a respeito. Não basta ler, é preciso refletir. O que me faz pensar que o caminho para a compreensão das coisas é um pensar intenso, humilde e submisso a Deus. Nem sempre as coisas se mostram a nós de forma clara e evidente. Precisamos pensar a respeito. O pensar e o repensar podem fazer parte de um processo cognitivo abençoador de considerar, compreender e viver de acordo com o propósito de Deus.

Todo conhecimento parte de um pré-conhecimento que é-nos fornecido pela nossa condição ontologicamente finita e pelas circunstâncias temporais, geográficas, intelectuais e sociais dentro das quais construímos as nossas estruturas de conhecimento. Afinal, a humanidade atesta a sua humanidade; a criatura demonstra a sua condição. Não existe neutralidade existencial porque de fato, não há neutralidade ontológica.[3] Esta realidade pré-julgadora na maioria das vezes é-nos imperceptível. O que pensamos determina a nossa visão e compreensão do objeto. Numa relação de conhecimento, o cérebro influencia mais o olho do que o olho ao cérebro.

É por isso que a visão que tenho, ainda que respaldada por forte elemento referente, é minha visão, com suas particularidades. Em geral, o que me privilegia, me delimita. Em outras palavras: o que me possibilita uma visão mais adequada de um ponto, é justamente o que dificulta a visão mais ampla de outros. É por esse, entre outros motivos, que a ciência é um saber social, constituído de várias visões, de diversos saberes que se completam,[4] se transformam e se aperfeiçoam.

A realidade se mostra a nós com contornos próprios delineados não simplesmente pelo que ela é, mas, também, pelos nossos olhos que a enxergam e pinçam fragmentos desta realidade conferindo-lhes novas configurações com cores mais ou menos vivas, atribuindo-lhes valores muitas vezes bastante distintos dos reais.

Desta forma, a avaliação cristã de todas as coisas deverá ser crítica e construtiva. A cosmovisão do ser pensante, por mais apaixonante e intensa que seja,[5] não pode estar acima de uma avaliação. O seu produto não é simplesmente produto de seu gênio autônomo, desejado, porém, inexistente. Aliás, inclino-me a crer que o seu gênio é profundamente modelado pelo “clima” ou “atmosfera” de sua época, pelas cores com as quais a realidade é pintada e os acordes que dão o tom aos valores hodiernos, ainda que isso não determine uma única forma de apreensão e expressão, como sublinha Wölfflin (1864-1945).[6] Aliás, nem um de nós pode ser separado da história e da sua história.[7]

São Paulo, 26 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 4, (IV.17), p. 184 (Veja-se a nota 5 in loc.).

[2] Sei que a narrativa histórica não é objetiva e que o historiador é fundamental no diálogo com os “fatos”. Para uma abordagem mais detalhada sobre o assunto, veja-se: Hermisten M. P. Costa, Introdução à metodologia das ciências teológicas, Goiânia, GO.: Editora Cruz, 2015, p. 155-208.

[3]Vejam-se: H.R. Rookmaaker, A Arte não precisa de justificativa, Viçosa, MG.: Editora Ultimato, 2010, p. 39; H.R. Rookmaaker, Arte Moderno y la Muerte de una Cultura, Barcelona: CLIE; Publicaciones Andamio, 2002, p. 285-286.

[4] “A ciência é obra coletiva, porquanto supõe vasta cooperação de todos os sábios, não somente de dada época, mas de todas as épocas que se sucedem na história” (Émile Durkheim, Educação e Sociologia,5. ed. São Paulo: Melhoramentos, (s.d.) p. 35).

[5]“Cosmovisão é um compromisso, uma orientação fundamental do coração que pode ser expresso como uma estória ou num conjunto de pressuposições (suposições que podem ser verdadeiras, parcialmente verdadeiras ou totalmente falsas) que sustentamos (consciente ou subconscientemente, consistente ou inconsistentemente) sobre a constituição básica da realidade, e que fornece o fundamento no qual vivemos, nos movemos e existimos” (James W. Sire, Dando nome ao elefante: Cosmovisão como um conceito. Brasília, DF.: Monergismo, 2012, p. 179). “A essência de uma cosmovisão reside profundamente nos recônditos interiores do eu humano”(Ibidem.,p. 180).“Cosmovisões são uma questão do coração”(Ibidem., p. 181).“Se havemos de ter uma cosmovisão cristã, buscaremos eliminar as contradições em nossa cosmovisão”(Ibidem., p. 193).“Vivemos a nossa cosmovisão ou ela não é a nossa cosmovisão” (Ibidem., p. 195).

[6] Heinrich Wölfflin, Conceitos Fundamentais da História da Arte, 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000, (2ª tiragem) 2006, p. 331ss. No campo da história, tempos percepções semelhantes. Destaco dois autores: Jacob Burckhardt (1818-1897) – um dos maiores historiadores do século XIX – referindo-se à sua obra magna sobre o Renascimento (1855), admitiu que: “….os mesmos estudos realizados para este trabalho poderiam, nas mãos de outrem, facilmente experimentar não apenas utilização e tratamento totalmente distintos, como também ensejar conclusões substancialmente diversas” (Jacob Burckhardt, A Cultura do Renascimento na Itália: Um Ensaio,São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 21). Do mesmo modo, um historiador contemporâneo, Delumeau: “Identificar um caminho não implica achá-lo sempre belo, como não implica que não haja outro possível” (Jean Delumeau, A Civilização do Renascimento,Lisboa: Editorial Estampa, 1984, v. 1, p. 21).

[7]“Por mais que lutemos arduamente para evitar os preconceitos associados à cor, credo, classe ou sexo, não podemos evitar olhar o passado de um ponto de vista particular. O relativismo cultural obviamente se aplica, tanto à própria escrita da história, quanto a seus chamados objetos. Nossas mentes não refletem diretamente a realidade. Só percebemos o mundo através de uma estrutura de convenções, esquemas e estereótipos, um entrelaçamento que varia de uma cultura para outra” (Peter Burke, Abertura: a nova história, seu passado e seu futuro: in: Peter Burke, org. A Escrita da História: novas perspectivas, São Paulo: UNESP., 1992, p. 15.).

O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (24)

A Palavra de Deus deve habitar em nós e nós nela, perseverando inabalavelmente em seus ensinamentos. Permanecer na Palavra significa permanecer em Deus, no seu amor e Deus em nós. Observem a relação estabelecida por Cristo entre o permanecer nele, a Palavra permanecer em nós, a obediência e o amor de Deus em nós:

4 permanecei (me/nw) em mim, e eu permanecerei[1] em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer (me/nw) na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes (me/nw) em mim. 5 Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece (me/nw) em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. 6 Se alguém não permanecer (me/nw) em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam. 7 Se permanecerdes (me/nw) em mim, e as minhas palavras permanecerem (me/nw) em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito. 8 Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tornareis meus discípulos. 9Como o Pai me amou, também eu vos amei; permanecei (me/nw) no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis (me/nw) no meu amor; assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço (me/nw).(Jo 15.4-10).

     Esta Palavra nos torna sábios para a salvação. Ela nos conduz à compreensão do propósito de Deus por meio de sua verdade revelada, não para a elaboração do mal ou invencionices vazias (2Pe 1.16),[2] antes, para nos instruir naquilo que edifica. A sabedoria concedida por Deus deve nos tornar sábios para o bem, como indica Paulo:

Pois a vossa obediência é conhecida por todos; por isso, me alegro a vosso respeito; e quero que sejais sábios (sofo/j) para o bem e símplices (a)ke/raioj[3] = puro, sem mistura, sem mescla, não adulterado, intacto)[4] para o mal. (Rm 16.19).

     A palavra (a)ke/raioj) é aplicada ao leite e ao vinho que não foram misturados com água; à pureza do metal e à muralha de uma fortaleza que se manteve intacta. Portanto, a sabedoria do Espírito é pura, sem dissimulação nem segundas intenções. 

Jesus Cristo nos instrui: “Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices(a)ke/raioj) como as pombas” (Mt 10.16).

A sabedoria cristã dos filhos de Deus se revela no seu uso para o bem. A sabedoria que procede de Deus (Tg 1.17) não é empregada para o mal, para destruir ou satisfazer os nossos desejos egoístas.

     Deus, descrevendo a insensibilidade espiritual de Judá, diz: “…. o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios, e não entendidos; são sábios para o mal, e não sabem fazer o bem” (Jr 4.22).

A sabedoria cristã é o oposto disso. Ela se dispõe a ajudar, socorrer, edificar. O seu planejamento é para o bem, nunca para o mal.

Judá estava tão distante de Deus que desaprendera a fazer o bem, os seus pensamentos eram ligeiros, ágeis para o mal. No entanto, o desafio de Deus para nós é para que nos exercitemos na prática do que é justo. E quanto ao mal? Que sejamos puros quanto a ele, não tendo ideias para executá-lo. No entanto, quando nos desafiarem a fazer o bem, que sejamos argutos, prontos, tendo uma visão perspicaz e penetrante. Até para fazer o bem precisamos ter discernimento.

Há, por exemplo, um tipo de assistencialismo que longe de ajudar, cria um espírito de dependência que não se configura como ajuda. Ser sábio para o bem não significa conceder tudo o que nos pede, mas, saber administrar com discernimento os recursos disponíveis, de forma criativa e fraterna visando uma contribuição individual e social. Assim, Deus será glorificado.

Portanto, devemos utilizar a inteligência que Deus nos deu, para edificar, construir, socorrer, nunca para destruir, lucrar desonestamente: isto seria esperteza, que nada tem a ver com o Cristianismo e a pureza que deve caracterizar os filhos de Deus.

     Deus, por intermédio da sua Palavra, nos dá sabedoria espiritual e discernimento para que possamos reconhecer nos seus testemunhos a palavra de vida eterna, a fim de que vejamos com clareza os sinais dos tempos, sem nos deixar levar por falsas doutrinas engenhosamente criadas pelos homens, seguindo, assim, sabiamente o caminho de Deus.

     Um exemplo prático desta sabedoria está na orientação de Paulo no que se refere, ainda que não exclusivamente, à evangelização. Devemos aproveitar as oportunidades, falando com graça e com o sal que Deus nos deu, fruto de nossa transformação espiritual e evidência de nosso discipulado,[5] para que não sejamos insípidos: 5Portai-vos (peripate/w) com sabedoria (sofi/a) para com os que são de fora; aproveitai as oportunidades (kairo/j). 6A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal [com graça e integridade], para saberdes como deveis responder a cada um” (Cl 4.5-6).

     A oração de Paulo é no sentido de que Deus, pelo Espírito, nos dê sabedoria, nos conduzindo à maturidade espiritual (1Co 2.6) para que entendamos a sua revelação em Jesus Cristo mediante o conhecimento intenso de sua Pessoa. Somente pela Sabedoria do Espírito (1Co 2.6-16),[6] tendo como padrão a cruz de Cristo, podemos avaliar toda a realidade, envolvendo a grandeza e a miséria, a sabedoria e a loucura, e, o que de fato é relevante.

     A sabedoria do Espírito nos concede discernimento e um critério absoluto para enxergar todas as coisas. Dizendo de outro modo, Paulo roga a Deus para que os efésios fossem cheios do Espírito Santo.

     A profundidade da sabedoria de Deus revelada na Criação e em seus atos (Rm 11.33-36) não é para ser alvo de especulações, antes, de contemplação adoradora e de nossa vivência na história como povo de Deus.

     Sem o Espírito de sabedoria jamais entenderíamos as maravilhas do Evangelho que consistem no conhecimento não de uma doutrina, mas de uma Pessoa (Jo 17.3).[7]

     Aqui nesta oração temos uma súplica retroalimentadora: pela sabedoria concedida por Deus podemos entender a revelação. Na compreensão progressiva desta revelação vamos adquirindo, por graça, maior sabedoria. O conhecimento de Deus não se esgota. Devemos prosseguir e nos desenvolver neste conhecimento.

     Esta oração se torna concreta em nós na medida em que sinceramente desejamos a sabedoria do alto. A nossa súplica sincera por sabedoria (Tg 1.5)[8] deve vir acompanhada pela leitura e meditação da Escritura.

Goiânia, 25 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Esta palavra não consta no original, é apenas dito: “E eu em vós”.

[2]“Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas (sofi/zw), mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade” (2Pe 1.16).

[3] *Mt 10.16; Rm 16.19; Fp 2.15.

[4] Tem o sentido figurado de pureza, inocência, integridade.

[5]“Bom é o sal; mas, se o sal vier a tornar-se insípido, como lhe restaurar o sabor? Tende sal em vós mesmos e paz uns com os outros” (Mc 9.50/Mt 5.13).

[6]6 Entretanto, expomos sabedoria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada; 7 mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória; 8 sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória; 9 mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. 10 Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus. 11 Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. 12 Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente. 13 Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais. 14 Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. 15 Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém. 16 Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo” (1Co 2.6-16).

[7]“E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).

[8]Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida” (Tg 1.5).