A contribuição da Reforma Protestante para a Educação Pública: esboço introdutório

Mesmo a Reforma Protestante do século XVI tendo como fundamento original a questão religiosa-espiritual, tornou-se um movimento de grande alcance cultural, institucional, social e político na história da Europa e, posteriormente em todo o Ocidente. A amplitude da influência da Reforma em diversos setores da vida estava implícita em sua própria constituição: Era impossível alguém abraçar a Reforma apenas no campo da religião e continuar em tudo o mais a ser um homem de uma ética medieval, com a sua perspectiva da realidade e prática intocáveis.  

1. Martinho Lutero

Lutero quem lançou as bases da moderna escola pública e do ensino obrigatório; e para isso a sua tradução das Escrituras foi fundamental no processo de alfabetização.

A Reforma não apenas ampliou o plano pedagógico renascentista como também, foi efetiva no desenvolvimento da escola primária pública.

Lutero insistiu com as autoridades públicas no sentido de se criarem escolas com vistas à educação secular e eclesiástica. Neste particular, pode-se dizer que Melanchthon (1497-1560) foi o Ministro da Educação de Lutero. A Reforma se valeu amplamente na imprensa como elemento de instrução dos fiéis.  “Sempre defendendo a divulgação da palavra impressa, a Alemanha liderou a alfabetização européia no século XVI”.[1] O fator religioso tornou-se fundamental como estímulo à alfabetização.

Na carta “Aos Conselhos de Todas as Cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs”, de 1524, Lutero, além de tratar do descaso para com as escolas, o esvaziamento das universidades, a necessidade do estudo do alemão e de outros idiomas, a utilização de melhores métodos na educação, a criação de boas bibliotecas e a formação de cidadãos responsáveis, sendo estes o verdadeiro patrimônio de uma cidade.[2]

A ênfase dada por Lutero à Educação, é decorrente da sua visão teológica; isto se torna ainda mais patente, no Prefácio do Catecismo Menor(1529).[3]

Em 1530, num sermão, Lutero declarou a responsabilidade do Estado em obrigar as crianças a irem à escola.[4]

As disciplinas estudadas consistiam em: Leitura, escrita, religião, música sacra e latim, com adaptações do sistema de Melanchthon (1528). Monroe, conclui: “Nenhum outro povo chegou, mesmo aproximadamente, ao aperfeiçoamento dos Estados alemães em assuntos de educação2.”.[5]

2. João Calvino

O reformador francês João Calvino (1509-1564) foi o principal arquiteto da tradição Reformada do Protestantismo.

Para Calvino, cosmovisão é um compromisso de fé e prática. Por isso, o seu trabalho em Genebra consistiu na aplicação de sua fé às condições concretas de sua existência. A fé é chamada a se materializar nos desafios que se configuram diante de nós em nossa história de vida.

Já na sua primeira permanência em Genebra (1536-1538) insistiu junto aos Conselhos para melhorar  as  próprias  condições do ensino, bem como os recursos das  escolas. Ele apresentou ao conselho municipal um projeto educacional (1536) gratuito que se destinava a todas as crianças – meninos e meninas –, tendo um grande apoio público.  Desta proposta surgiu o Collège de Rive. Temos aqui o surgimento da primeira escola primária, gratuita e obrigatória de toda a Europa.

A partir de 1541 Calvino pôde reestruturar o sistema educacional desta cidade. Visto que o Estado estava empobrecido, apelou para doações  e  legados. Calvino criou uma Academia em Genebra (1559).A Academia teve uma origem modesta. Calvino,  no entanto, esforçou-se por constituir um corpo docente competente.

A base da formação educacional em Genebra era a Bíblia. Competia à família (apesar de suas limitações iniciais) e ao Estado o cuidado com a educação. No entanto, a igreja tinha um papel especialíssimo. 

Com o estabelecimento da Academia, o historiador Charles Borgeaud (1861-1941), antigo professor da Universidade de Genebra, disse que “Esta foi a primeira fortaleza da liberdade nos tempos modernos”.[6]

Considerações finais

A ignorância era algo extremamente temido dentro do modelo educacional Reformado-puritano. Para tanto o estudo era amplo, oferecendo uma visão abrangente de todos os ramos do saber, evitando a dicotomia entre o saber religioso e não-religioso, o espiritual e o natural. Como exemplo disso, vemos que “os estudantes ministeriais em Harvard não apenas aprendiam a ler a Bíblia na sua língua original e a expor teologia, mas também estudavam matemática, astronomia, física, botânica, química, filosofia, poesia, história e medicina”.[7]

A ênfase puritana foi marcante em todos os níveis educacionais podendo ser avaliada tanto quantitativa como qualitativamente. Seguindo a tradição da obrigatoriedade do ensino público, conforme enfatizada por Lutero  e pelos calvinistas franceses (1560) e holandeses (1618), “em 1647, o Estado de Massachussets decreta a obrigatoriedade de uma escola primária, sempre que uma povoação agrupe mais de 50 lares”.[8]

Por trás deste ardor pedagógico e social herdado da Reforma estava um firme fundamento teológico. Esta perspectiva amparava-se num conceito de Deus, do homem e de qual o propósito do homem nesta vida.

  1. Deus é reconhecido como o Criador e Senhor de todas as coisas,  sendo o doador da vida e de tudo que temos, a Quem devemos conhecer experiencialmente, amar, obedecer e cultuar.  
  2. O homem como “imagem e semelhança” de Deus deve ser respeitado, amado e ajudado.

A educação, portanto, visava preparar o ser humano para melhor servir a Deus na sociedade a fim de que Deus fosse glorificado. A educação Reformada-Puritana não tinha um fim em si mesma, antes, era caracterizada por um propósito específico conforme definiu John Milton (1608-1674) em 1644.[9]  O saber é para viver autenticamente em comunhão com Deus, refletindo isso no cumprimento de nossos deveres religiosos, familiares, políticos e sociais, agindo no mundo de forma coerente com a nossa nova natureza, objetivando em tudo a Glória de Deus.   

A educação Reformada sempre foi ativista no sentido de que não somente o indivíduo fosse purificado, antes, que envolvesse todas as esferas da vida humana, se manifestando na sociedade em modo de formação e transformação.

São Paulo, 29 de outubro de 2019. Rev


[1]Steven R. Fischer, História da leitura, São Paulo: Editora UNESP., 2006, p. 206.

[2] M. Lutero, Aos conselhos de todas as cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs: In: Martinho Lutero: Obras selecionadas, São Leopoldo, RS.; Porto Alegre:  Sinodal; Concórdia, 1995, v. 5.

[3]Martinho Lutero, Catecismo Menor, Prefácio, § 19-20: In: Lutero, os catecismos, Porto Alegre; São Leopoldo, RS.: Concórdia; Sinodal, 1983, p. 365.

[4] Martinho Lutero, Uma prédica para que se mandem os filhos à escola (1530): In: Martinho Lutero: Obras selecionadas, São Leopoldo, RS.; Porto Alegre:  Sinodal; Concórdia, 1995,  v. 5, p. 362.

[5] Paul Monroe, História da educação,11. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976, p. 190

[6] Charles Borgeaud, Historie de l’Université de Genève: L’Académie de Calvin 1559-1798,  Genève: Georg & Co: Libraires de L’Université, 1900, p. 83.  

[7]Leland Ryken, Santos no mundo,São José dos Campos, SP.: FIEL,  1992, p. 175.

[8]Jean Vial, Introdução. In: Gaston Mialaret; Jean Vial, dirs., História mundial da educação,  Porto: RÉS-Editora, (s.d.), v. 2, p. 9.

[9] John Milton, Milton’s Tractate on Education: A facsimile reprint from the edition of 1673, Cambridge: The University Press, 1897, p. 3-4.8. 

 A lenda do Corpus Christi e o significado real da Ceia do Senhor (4)

9. Nutrimo-nos de Cristo

 

“Grande mistério!” – Agostinho.[1]

 

A Confissão de Westminster, declara:

 

Os que comungam dignamente, participando exteriormente dos elementos visíveis deste sacramento, também recebem intimamente, pela fé, a Cristo crucificado e todos os benefícios da sua morte, e nele se alimentam, não carnal ou corporalmente, mas real, verdadeira e espiritualmente, não estando o corpo e o sangue de Cristo, corporal ou carnalmente nos elementos pão e vinho, nem com eles ou sob eles, mas espiritual e realmente presentes à fé dos crentes nessa ordenança, como estão os próprios elementos aos seus sentidos corporais. (XXIX.7).

 

A Igreja está vital e indissoluvelmente unida a Cristo. Esta união implica em nos alimentarmos – simbólica e sacramentalmente – do Seu corpo e do Seu sangue (Jo 6.53).[2] Aliás, não há outro alimento para a Igreja que não provenha de Cristo, visto que Ele mesmo “é o único alimento que nutre nossas almas”.[3] Ou seja, somos alimentados pela fé, mediante as operações do Espírito Santo em nós.[4] A Ceia é o sacramento da maturação, do crescimento espiritual.[5]

 

Na Ceia não somos apenas testemunhas de um fato histórico, antes, somos participantes e beneficiários do milagre que se repete em nossa existência. Todas as vezes que comemos do pão e bebemos do cálice somos alimentados “pela boca da fé”.[6] Ao longo da história o Senhor tem nos alimentado com pão suficiente para nos conduzir até à consumação de Sua obra salvífica.[7]

 

A questão é: Quando vimos à Ceia, estamos de fato famintos de Deus e da Sua Palavra? Calvino diz que seria uma zombaria vir buscar o alimento sem este santo apetite. Porém, reconhece que esta disposição é operada pelo Espírito. “Daí segue-se que nossas almas devem estar famintas, e ter um desejo e zelo ardente de serem saciadas, para bem encontrar sua comida na Ceia do Senhor”.[8]

 

Jesus diz aos Seus discípulos: “…. Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue, permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente eu vivo pelo Pai; também quem de mim se alimenta, por mim viverá” (Jo 6.53-57).

 

Assim como o pão e o vinho alimentam a nossa carne, o corpo e o sangue de Cristo, representados nos elementos da Ceia, nos alimentam espiritualmente.[9] A Santa Ceia, portanto, é um meio de graça por meio do qual Cristo nos alimenta, fortalecendo e vivificando a nossa fé,[10] sendo esta “única boca e estômago da alma”.[11]

 

Aqui há um indicativo de nossa condição de pecadores, ainda que não acomodados nesta situação pois, se fôssemos perfeitos, para que participar da Ceia? Certamente, Ela perderia em grande parte o seu sentido.

 

Portanto, a nossa participação aponta para a nossa imperfeição e, ao mesmo tempo, para o nosso desejo de nos alimentar de Cristo.[12] Na Ceia denunciamos que somos pecadores e, ao mesmo tempo, proclamamos o desejo e a esperança de não permanecer no pecado.

 

Ridderbos (1909-2007) faz um resumo esclarecedor:

 

Quando Jesus dá a Seus discípulos Seu corpo e Seu sangue, o milagre consiste no fato de que Ele está dando a Si próprio aos Seus, para que eles possam comer e beber e assim ser participantes no Seu sacrifício. Pois o fruto do sacrifício que Jesus oferece é comida e bebida sempre presentes, é a fonte da força e alegria para a Sua Igreja. Quando, na Sagrada Comunhão Jesus dá aos Seus o pão e o vinho como Seu corpo e Seu sangue, Ele os faz participantes destes benefícios de Sua morte.[13]

 

Considerações finais

 

Daqui, alguns devem ser enfatizados:

 

 1) A eficácia da Ceia não depende de quem a administra

 

Os benefícios espirituais da Ceia não estão restritos à fidelidade daqueles que a ministram. Deus pode abençoar-nos até mesmo por intermédio de um falso servo Seu. O que realmente faz, Se assim O quiser. Portanto, a eficácia da Ceia depende da ação abençoadora de Deus.[14]

 

     2) A eficácia reside no Espírito, não nos elementos da Ceia

 

Os elementos da Ceia permanecem o que são, pão e vinho. Eles não passam por nenhuma transformação metafísica: “A relação entre o pão e o vinho, e o corpo e o sangue, é puramente moral ou representativa”.[15]

 

Calvino comenta:

 

Deus usa o sinal como instrumento. Não que o poder de Deus esteja encarcerado no sinal, mas Ele no-lo distribui por meio destes expedientes, em virtude da fragilidade de nossa capacidade (…). Nada mais é atribuído ao sinal além de ser ele um instrumento, por si mesmo destituído de qualquer valor, exceto até onde ele deriva seu poder de outra fonte.[16]

 

Portanto, a graça que recebemos não é automática, como se os elementos tivessem poder em si mesmos. É o Espírito Quem nos abençoa por meio da Eucaristia. O sinal é ineficaz sem o Espírito.

 

 

3) É necessária fé daqueles que recebem os elementos

A efetividade do sacramento é o que é, porém, somente aqueles que creem em Cristo e participam condignamente da Ceia usufruem dos benefícios que o Espírito nos comunica.[17] “Os incrédulos podem receber os elementos externos, mas não recebem as coisas simbolizadas por eles”.[18] Recebem o sacramento, mas não o Cristo que dá sentido ao mesmo.[19] Por isso, a Ceia não é um meio indiscriminado de graça; ela o é para o povo eleito de Deus que participa condignamente deste sacramento.[20] Os elementos não operam por si mesmos (ex opera operato), independentemente de Deus.[21] O Espírito é Quem opera em nós “para que os ouvidos não percuta em vão a Palavra, para que aos olhos não verberem em vão os sacramentos”.[22] Continua o Reformador: “Deus assim age por meio do sinal, para que toda a eficácia dependa do Seu Espírito”.[23]

 

Deve ser enfatizado, que o valor dos sacramentos não está puramente no âmbito subjetivo da fé. Eles são o que são porque o Senhor estabeleceu esta relação abençoadora. Foi Ele Quem disse: “Tomai, comei; isto é o meu corpo” e “Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança”.[24]

 

Por intermédio da Ceia Deus comunica-nos bênçãos espirituais; no entanto, se participarmos “carnalmente” da Ceia, não diminuiremos o seu valor objetivo, no entanto, deixaremos de receber as bênçãos de Deus.[25] Na Ceia, portanto, há um valor objetivo, real e abençoador. E, também, um sentido subjetivo, que só se tornará concreto, para aqueles que se alimentam e se fortalecem de Cristo neste sacramento participando dele com fé.

 

Na questão 81 do Catecismo de Heidelberg (1563), lemos: “Quem deve aproximar-se da Mesa do Senhor?”:

R. Aqueles que estão descontentes consigo mesmos por causa dos seus pecados, e que contudo confiam que estes lhes foram perdoados e que a sua fraqueza remanescente é coberta pela paixão e morte de Cristo, e que também desejam mais e mais fortalecer sua fé e melhorar sua vida. Mas, os impenitentes e hipócritas comem e bebem para si mesmos julgamento.

 

A nossa participação na Ceia importa no nosso compromisso voluntário de nos dedicar inteiramente ao serviço do Senhor até que Ele venha. Maranata!

 

 

Maringá, 19 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


 

[1] Agostinho, On The Gospel of St. John: In: Philip Schaff, ed. Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, 2. ed. (First series), Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1995, v. 7, Tractate XXV.15, p. 165b.

[2] Aliás, pelas narrativas da instituição da Ceia (Mt 26.26-29; Mc 14.22-25; Lc 22.15-20), provavelmente Jesus Cristo não comeu do pão nem bebeu do vinho. “É difícil imaginar Jesus comendo simbolicamente seu próprio corpo” (Herman Ridderbos, A Vinda do Reino, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 296).

[3] Juan Calvino, Breve Tratado Sobre La Santa Cena: In: Tratados Breves, Buenos Aires; México: La Aurora; Casa Unida de Publicaciones, 1959, p. 10.

[4]Veja-se: A.A. Hodge, Comentario de La Confesion de Fe de Westminster, Barcelona: CLIE., (1987), p. 336.

[5]Cf. Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Espírito Santo, igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 585.

[6] Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Espírito Santo, igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 574. Vejam-se também: Confissão Belga (1561), Art. 35; Thomas Watson, A Ceia do Senhor, Recife, Pe.: Os Puritanos, 2015, p. 55.

[7] Herman Ridderbos, A Vinda do Reino, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 298.

[8]João Calvino,  Pequeno tratado da Santa Ceia (1541): In: Eduardo Galasso Faria, ed. João Calvino: Textos Escolhidos, São Paulo: Pendão Real, 2008, p. 157.

[9]Veja-se: Juan Calvino, Catecismo de la Iglesia de Ginebra, Perg. 341.

[10] “Os sacramentos verdadeiramente se chamam testemunhos da graça de Deus e como dir-se-ão selos da benevolência de que foi possuído para conosco, os quais, em no-la selando, deste modo nos sustêm, nutrem, firmam, aumentam a fé” (João Calvino, As Institutas, IV.14.7). Veja-se: Segunda Confissão Helvética (1566), 21.6,8

[11] João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 6.56), p. 290.

[12] “Em vão seria instituída a Ceia se ninguém fosse capaz de recebê-la senão o que de todo fosse perfeito. (…) Se fôssemos perfeitos, nenhuma necessidade teríamos da Ceia, porque nos é dada para socorro de nossa imperfeição, e para ajuda e alívio de nossa fraqueza” (Juan Calvino, Catecismo de la Iglesia de Ginebra, Pergs. 360-361). Vejam-se: João Calvino, Pequeno tratado da Santa Ceia (1541): In: Eduardo Galasso Faria, ed. João Calvino: Textos Escolhidos, São Paulo: Pendão Real, 2008, p. 158-160; João Calvino, As Institutas, IV.17.10; João Calvino, Confissão Gaulesa, (1559), Arts. 36-37.

[13]H.N. Ridderbos, O Testemunho de Mateus Acerca de Jesus Cristo, Patrocínio, MG.: CEIBEL, 1980, p. 85.

[14] Vejam-se: J. Calvino, As Institutas, IV.14.17; Catecismo Menor de Westminster, Perg. 91.

[15] A.A. Hodge, Comentario de La Confesion de Fe de Westminster, Barcelona: CLIE., (1987), p. 336.

[16]J. Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef. 5.26), p. 169.

[17] Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Espírito Santo, igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 584. “Quando o sacramento é recebido com fé, a graça de Deus o acompanha” (L. Berkhof, Teologia Sistemática, p. 623).

[18] L. Berkhof, Teologia Sistemática, p. 662. “Ainda que os ignorantes e os ímpios recebam os elementos visíveis deste sacramento, não recebem a coisa por eles significada, mas, pela sua indigna participação, tornam-se réus do corpo e do sangue do Senhor para a sua própria condenação; portanto eles como são indignos de gozar comunhão com o Senhor, são também indignos da sua mesa, e não podem, sem grande pecado contra Cristo, participar destes santos mistérios nem a eles ser admitidos, enquanto permanecerem nesse estado” (Confissão de Westminster, 29.8). A.A. Hodge, comenta: “Este (o incrédulo) recebe o sinal externo com sua boca, porém não recebe a graça interna em sua alma, e só aumenta sua própria condenação e endurece seu coração por fazê-lo indignamente” (A.A. Hodge, Comentario de La Confesion de Fe de Westminster, Barcelona: CLIE., (1987), p. 336). Do mesmo modo: Consensus Tigurinus, Art. 17; Joel R. Beeke; Mark Jones, orgs. Teologia Puritana: Doutrina para a vida.  São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 1057.

[19] Veja-se: Confissão Belga, Art. 35.

[20] Cf. Consensus Tigurinus, Art. 16. Vejam-se: Charles Hodge, Systematic Theology, v. 3, p. 632; Philip Schaff, The Creeds of Christendom, 6. ed. (Revised and Enlarged), Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1998 (Reprinted), v. 1, p. 472.

[21] Veja-se: Joel R. Beeke; Mark Jones, orgs. Teologia Puritana: Doutrina para a vida.  São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 1056.

[22] João. Calvino, As Institutas, IV.14.10. Veja-se também: As Institutas, IV.14.17.

[23] João Calvino, Efésios, (Ef 5.26), p. 169. Ver também: As Institutas, IV.14.8-10.

[24]Em outras palavras: “O sacramento, com respeito a Deus, é um sacramento mesmo sem a fé, mas, com respeito a nós, sem a fé ele é um sinal vazio” (François Turretini, Compêndio de Teologia, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 3, p. 619). Veja-se: Herman Ridderbos, A Vinda do Reino, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 314.

[25]Veja-se: Agostinho, On The Gospel of St. John: In: Philip Schaff, ed. Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, 2. ed. (First series), Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1995, v. 7, Tractate XXVII.7, p. 175-176.

A lenda do Corpus Christi e o significado real da Ceia do Senhor (3)

5. Testemunho de nossa esperança

A Igreja desfruta da Ceia em todos os tempos, declarando a sua fé e esperança no regresso triunfante de Cristo, aguardando alegremente o momento em que poderá participar com Ele “o vinho novo do novo reino”.[1] A participação da Ceia é um ato de testemunho e renovação da nossa esperança na promessa de Cristo: “Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha (1Co 11.26). “E digo-vos que, desta hora em diante, não beberei deste fruto da videira, até aquele dia em que o hei de beber, novo, convosco no reino de meu Pai” (Mt 26.29).

 

A impossibilidade de o Senhor beber novamente do fruto da videira em companhia de Seus discípulos é acompanhada da promessa: “até aquele dia em que o hei de beber, novo, convosco no reino de meu Pai”. A igreja é intimada a viver alegremente nesta promessa anunciando a sua vinda e aguardando o novo banquete, quando beberemos o vinho novo com o nosso Anfitrião.

 

Portanto, na Ceia, declaramos ao mundo que a História tem sentido, porque ela caminha de forma realizante para a volta majestosa de Cristo. Neste ato, está embutida a certeza de que Cristo é o centro da História para onde tudo converge; que os fatos não ocorrem por acaso, mas que são dirigidos por Deus para o Seu propósito final.

 

Sem Cristo, a História permanece como um enigma para todos nós. Jesus Cristo é o centro não apenas do calendário. Ele é o centro significativo da História. Sem Cristo não há futuro para nenhum de nós: O nosso futuro ampara-se nos feitos vitoriosos de Cristo.

 

Na Ceia, nós, como “representantes do novo povo de Deus”,[2] declaramos a nossa esperança no regresso de Cristo, fundamentados na Sua Promessa.

 

Aguardamos, portanto, as Bodas do Cordeiro, a qual, a Ceia, antecipa e se alegra:

 

Depois destas coisas, ouvi no céu uma como grande voz de numerosa multidão, dizendo: Aleluia! A salvação, e a glória, e o poder são do nosso Deus, 2 porquanto verdadeiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande meretriz que corrompia a terra com a sua prostituição e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos. 3 Segunda vez disseram: Aleluia! E a sua fumaça sobe pelos séculos dos séculos. 4 Os vinte e quatro anciãos e os quatro seres viventes prostraram-se e adoraram a Deus, que se acha sentado no trono, dizendo: Amém! Aleluia! 5 Saiu uma voz do trono, exclamando: Dai louvores ao nosso Deus, todos os seus servos, os que o temeis, os pequenos e os grandes. 6 Então, ouvi uma como voz de numerosa multidão, como de muitas águas e como de fortes trovões, dizendo: Aleluia! Pois reina o Senhor, nosso Deus, o Todo-Poderoso. 7 Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou, 8 pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos. 9 Então, me falou o anjo: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro. E acrescentou: São estas as verdadeiras palavras de Deus. 10 Prostrei-me ante os seus pés para adorá-lo. Ele, porém, me disse: Vê, não faças isso; sou conservo teu e dos teus irmãos que mantêm o testemunho de Jesus; adora a Deus. Pois o testemunho de Jesus é o espírito da profecia. (Ap 19.1-10).

 

6. Confiança exclusiva em Cristo

 

Paulo adverte os coríntios: “Aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice; pois quem come e bebe, sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si” (1Co 11.27-29).

 

Ninguém de fato poderia participar da Ceia de forma “digna” se dependesse exclusivamente dos seus merecimentos. A Ceia sempre realça a graça e a misericórdia de Deus. O nosso Anfitrião que nos convida, é Quem nos veste adequadamente e nos serve. Estes são os bem-aventurados que põem a sua confiança unicamente na misericórdia de Deus.

 

Por intermédio da Ceia, Deus nos desafia a confessar a nossa dependência total e exclusiva dele. A nossa dignidade provém não de nossa “santidade” pessoal, mas, sim, de sermos “santificados em Cristo”; em sermos lavados pelo sangue de Cristo, em sermos revestidos com os méritos de Cristo. Jesus Cristo é que é a nossa justiça; não a nossa fé ou obras.[3]

 

7. Manifestação de nossa união

 

Em uma antiga liturgia da Igreja Reformada Holandesa usada na Ceia do Senhor, apontando para a unidade que existe entre Cristo e a Sua Igreja e, entre os cristãos, os fiéis confessavam na Ceia:

 

Assim como, de muitos grãos, uma farinha é moída e um pão é assado e como, de muitas uvas, espremidas juntas, surge um só vinho, com todas as uvas misturadas juntamente, assim também todos aqueles que, pela fé, são incorporados em Cristo, devem ser, juntos, um só corpo.[4]

 

“A Ceia devia ser distribuída em reunião pública da Igreja, para nos ensinar sobre a comunhão em virtude da qual nos unimos todos em Jesus Cristo”, ensina João Calvino (1509-1564).[5]

 

Na Ceia o Senhor Se reúne pactualmente[6] com a Sua igreja e Sua igreja, como povo eleito e redimido, se reúne com o Seu Senhor (Ap 3.20). Nesta reunião revelamos a nossa irmandade sob o mesmo Senhor. A Santa Ceia destrói barreiras sociais, culturais, raciais, políticas e econômicas. Todos estão unidos na mesma fé, comendo do mesmo pão e bebendo do mesmo vinho, que simbolizam o sacrifício de Cristo por nós. Esta comunhão é propiciada por Cristo que nos amou e Se entregou por nós (Gl 2.20).

 

Paulo desenvolve esta ideia em outro lugar:

 

16 Porventura, o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão (koinwni/a) do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão (koinwni/a) do corpo de Cristo? 17 Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão (1Co 10.16-17).

 

Diz ainda: “Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito” (1Co 12.13).

 

Calvino, comentando sobre aquele que se ausenta da Ceia, perdendo o privilégio de participar da mesma, conclui: “porque ao fazê-lo se priva da comunhão da Igreja, na qual reside todo nosso bem”.[7]

 

8. Imperativo à santidade

 

Jesus instituiu a Ceia na mesma noite em que foi traído por um dos Seus discípulos (1Co 11.23). Judas Iscariotes, ao que parece, não participou da mesma, visto ter se ausentado antes (Ver: Jo 13.27,30). Participar da Ceia indignamente significa traí-Lo como Judas o fez, desconsiderando o seu sacrifício remidor. Por isso, a Palavra nos intima ao exame criterioso de nossa vida: “aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente (*a)naci/wj),[8] será réu do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se (dokima/zw), pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice; pois quem come e bebe, sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si” (1Co 11.27-29).

 

Notemos que o que Paulo ordena é que nos examinemos a nós mesmos, não a nossos irmãos. Acho bastante improvável que o irmão faltoso de 1Co 5, enquanto estivesse “entregue à Satanás”, fizesse parte daqueles aos quais Paulo recomendaria, “examine-se, pois, o homem a si mesmo”. Certamente este já estaria excluído da Ceia. Paulo recrimina a igreja de Corinto justamente por não ter removido de seu meio quem tal ato praticou, tornando-se, por isso mesmo, cúmplice: “Geralmente, se ouve (a)kou/w) que há entre vós imoralidade (pornei/a) (impureza,[9] devassidão,[10] prostituição,[11] relações sexuais ilícitas[12]) e imoralidade (pornei/a) tal, como nem mesmo entre os gentios, isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai. 2E, contudo, andais vós ensoberbecidos (fusio/w)[13] e não chegastes a lamentar, para que fosse tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou? 3Eu, na verd ade, ainda que ausente em pessoa, mas presente em espírito, já sentenciei, como se estivesse presente” (1Co 5.1-3).[14]

 

É certo que o Conselho da igreja não tem poderes nem condições de examinar minúcias do coração humano, contudo, ele pode e deve estar atento a evidências tangíveis e concretas de uma indignidade notória. Pode ser considerada uma atitude misericordiosa e responsável no sentido de preservar o irmão faltoso, que está sob disciplina, privá-lo de participar indignamente do Sacramento da Ceia.

 

Por outro lado, dizer que o exame é individual e não de um Concílio, parece-me ir além do texto. O contexto se refere aos membros da igreja, ainda que falhos, porém, em comunhão regular, mas, que estavam se portando indignamente na Ceia (1Co 11.20-22).

 

O Catecismo Maior de Westminster é bastante claro quanto a isso:

 173. Alguém que professa a fé, e deseja participar da Ceia do Senhor, pode ser excluído dela?

Os que forem achados ignorantes ou escandalosos, não obstante a sua profissão de fé e o desejo de participar da Ceia do Senhor, podem e devem ser excluídos desse sacramento, pelo poder que Cristo legou à sua Igreja, até que recebam instrução e manifestem mudança. 1Co 11.29; 1Co 5.11; Mt 7.6; 1Co 5.3.[15]

 

Portanto, a nossa participação na Ceia é um convite irrestrito a uma análise introspectiva, direcionada pela Palavra, dentro dos padrões das Escrituras. Isto pode ser extremamente difícil[16] e doloroso, porém, devemos buscar instrução na Palavra sob a orientação do Espírito ao fazê-lo.

 

O que não podemos fazer é participar da Ceia de forma desleixada. É preciso que tenhamos em vista o seu alto valor, entendendo-a e, de fato, considerando-a uma Ceia santa, distinta de todas as outras pelo seu rico significado para a Igreja.

 

Por sua vez, como nos lembra Morris:

 

Há um sentido em que todos têm que participar indignamente, pois ninguém jamais pode ser digno da bondade de Cristo para conosco. Mas noutro sentido podemos vir dignamente, isto é, com fé, e com a devida realização de tudo que é pertinente a tão solene rito. Negligenciar nisto é vir indignamente no sentido aqui censurado.[17]

 

Ou, como disse Calvino (1509-1564): “A fé, ainda que imperfeita, transforma o indigno em digno”.[18]

 

Ao participarmos da Ceia, devemos sair desejosos de nos aproximar mais de Cristo, crescendo na Sua graça e conhecimento (2Pe 3.18), buscando uma vida de santidade, tendo nele mesmo o padrão absoluto (Rm 8.29). Isto ocorre, não por um ato mecânico e externo, antes, pelo Espírito que opera em nós de forma poderosa e eficaz nos conduzindo neste propósito.[19]

 

Maringá, 19 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 


 

[1] Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Espírito Santo, igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 546.

[2]J. Jeremias, Isto é o Meu Corpo, p. 51.

[3] Vejam-se: J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 11.28), p. 364; João Calvino,  Pequeno tratado da Santa Ceia (1541): In: Eduardo Galasso Faria, ed. João Calvino: Textos Escolhidos, São Paulo: Pendão Real, 2008, p. 157, 159.

[4]Apud Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Espírito Santo, igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 587.

[5]João Calvino, As Institutas, (2006), IV.18.7. “Além disso, nos exorta a abraçarmo-nos mutuamente em uma unidade tal como a que une e liga os membros de um mesmo corpo. Nenhum incentivo mais forte ou agudo poderia ser dado para mover e incitar entre nós uma caridade mútua do que o convite de Cristo, ao dar-se a nós, a não apenas seguir seu exemplo, dando-nos e entregando-nos mutuamente uns aos outros, mas porque ele se faz comum a todos, ele também nos faz um em si mesmo” (João Calvino, Instrução na Fé, Goiânia, GO: Logos Editora, 2003, Cap. 29, p. 77).

[6]Veja-se: James Bannerman, A Igreja de Cristo: Um tratado sobre a natureza, poderes, ordenanças, disciplina e governo da igreja cristã, (v. 1 e 2), Recife, PE.: Editora Os Puritanos, 2014, p. 605.

[7] Juan Calvino, Breve Tratado Sobre La Santa Cena, p. 28.

[8] Este advérbio só ocorre aqui. Há uma variante textual em 1Co 11.29 que, evidentemente não fazia parte do texto original, sendo acrescentada apenas para ficar mais explícito o texto. Veja-se: Bruce M. Metzger, A Textual Commentary on the Greek New Testament, 2. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2000 (1Co 1.29), p. 496.

[9]1Co 6.13,18; 7.2.

[10] Ap 17.2.

[11]2Co 12.21; Cl 3.5; 1Ts 4.3, etc.

[12] Mt 5.32; At 15.20, etc.

[13] Característica comum entre os coríntios:* 1Co 4.6,18,19; 5.2; 8.1; 13.4; Cl 2.18.

[14] Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Espírito Santo, igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, mais especificamente, p. 431-432.

[15] Veja-se também: O Diretório de Culto de Westminster, São Paulo: Os Puritanos, 2000, especialmente, p. 47-48. Temos um bom comentário do texto do Catecismo em: Johannes G. Vos, Catecismo Maior de Westminster comentado, São Paulo: Os Puritanos; CLIRE, 2007, p. 560-565).  Hodge parece-me ambíguo na questão da interpretação da disciplina eclesiástica. (Veja-se: Charles Hodge, Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001, especialmente, p. 1481-1482).

[16] “O olho pode ver tudo, menos a si mesmo” (Thomas Watson, A Ceia do Senhor,  Recife, Pe.: Os Puritanos, 2015, p. 48).

[17] Leon Morris, 1 Coríntios: Introdução e Comentário, São Paulo: Mundo Cristão; Vida Nova, 1981, (1Co 15.27), p. 131. Do mesmo modo: R.C. Sproul, O que é a Ceia do Senhor?  São José dos Campos, SP.: Fiel, 2014, p. 66.

[18]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 11.28), p. 364.

[19] Veja-se: João Calvino, Pequeno tratado da Santa Ceia (1541): In: Eduardo Galasso Faria, ed. João Calvino: Textos Escolhidos, São Paulo: Pendão Real, 2008, p. 154-155, 158.

A lenda do Corpus Christi e o significado real da Ceia do Senhor (2)

3. Profissão da nossa fé

Pelo que já tratamos, fica evidente que a Ceia é para os crentes em Cristo. Quando participamos da Eucaristia, declaramos a nossa fé em Cristo,[1] naquele que Se ofereceu voluntariamente em nosso lugar, para nos redimir do pecado; deste modo, também atestamos a eficácia do Seu sacrifício em favor de Sua Igreja. É por isso que “assim que se erige um altar, a cruz de Cristo é subvertida. Ora, se na cruz Ele se ofereceu em sacrifício, para nos santificar para sempre e nos adquirir eterna redenção [Hb 9.12], indubitavelmente a força e eficácia deste sacrifício persiste sem fim”, enfatiza Calvino.[2]

     “Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha” (1Co 11.26)

A Ceia tem um sentido de rememoração pública dos benefícios conquistados por Cristo para nós; portanto, participar da Ceia assume um caráter de testemunho desses benefícios: “Sempre que eles [os crentes] comem o pão e bebem o vinho, professam sua fé em Cristo como seu Salvador, e sua fidelidade a Ele como o seu Rei, e solenemente se comprometem a uma vida de obediência aos Seus divinos mandamentos”.[3]

 

Por isso, não podemos participar da Ceia sem analisar o significado deste ato. A Ceia nos leva à reflexão e avaliação de nossa fé, sob o escrutínio da Palavra de Deus, a fim de que, pelo Espírito, possamos lapidá-la e solidificá-la em Cristo. A Ceia é, portanto, para os crentes, para aqueles que já declararam publicamente a sua fé. Assim sendo, quando comemos do pão e bebemos do vinho, estamos, neste ato, renovando publicamente a nossa fé, declarando que o sacrifício de Cristo não foi em vão; que Ele nos alcançou por Sua graça, que vivemos pela fé no Cristo que morreu e ressuscitou por nós. Na Ceia “protestamos que somos do povo de Deus, e fazemos profissão de nossa cristandade….”.[4]

 

4. Certeza de Sua presença

Esta foi talvez a questão mais problemática concernente à Ceia, mesmo entre os Protestantes. Antes de adentramos à questão teológica, passemos, ainda que rapidamente, pela questão epistemológica:

A questão da presença pode ser observada pelo menos a partir de dois critérios:[5]

 

  • De forma objetiva: Tomando como referência o objeto.
  • Do sujeito que percebe.

 

Decorrentemente:

 

A presença não indica necessariamente proximidade ou distância nem se opõe a uma ou a outra. Deste modo:

 

  1. Por eu não perceber o sol à noite e percebê-lo ao dia, não significa que ele esteja mais distante à noite e mais próximo durante o dia.
  2. A luz que incide com a mesma intensidade nos olhos daquele que tem o seu nervo ótico funcionando adequadamente bem como sobre aquele que não o tem, gera sensações diferentes. O primeiro percebe com maior intensidade a luz do que o segundo. Este de forma gradual conforme o seu nível de atrofia.

 

Em ambos os exemplos nós responderíamos conforme perceberíamos ou não os estímulos, no entanto, a verdade sendo o que é,[6] continuaria como tal.

 

Pois bem: Quando participamos da Ceia, com fé, sabemos:

 

a) Cristo está presente em nossas mentes e corações.

 

b) Cristo está presente como Aquele que confere eficácia aos elementos da Ceia.

 

Independentemente disso, também sabemos:

 

c) Que Cristo está presente como sustentador de todas as coisas.

 

Portanto, não há dúvida quanto à presença de Cristo no Sacramento da Ceia. A questão é como Ele está presente.

 

1) Para os católicos e luteranos, Ele está presente fisicamente no pão e no vinho.[7]

 

2) Para nós Reformados, Ele está presente espiritualmente, não estando fisicamente associado aos sinais. Não nos alimentamos fisicamente dele. E, se o fizéssemos, qual o proveito?[8] A Ceia nos fala de algo espiritual.[9]

 

3) Ainda que a Natureza humana de Cristo não possa estar em toda parte,[10] por meio de Sua Natureza divina Ele se faz presente como representante do Cristo encarnado, do qual a Natureza divina, infinita e onipresente, jamais esteve separada.

 

4) A Ceia é um memorial. Ele não é morto outra vez. (Lc 22.19).[11] Cristo instituiu a Ceia como memorial de sua despedida como meio de proclamação de sua graça que se manifesta em Sua entrega.[12] “Só se tem memória de coisas ausentes e passadas, não daquelas presentes”.[13] Como vimos, Cristo está fisicamente presente no Céu e espiritualmente presente na Ceia, usufruído por meio da fé. A sua presença espiritual, por meio do Espírito, que gera e alimenta a nossa fé, não é menos real do que seria a sua presença física. Essa comunhão com Cristo é bastante viva nos servos de Deus (Gl 2.20).

 

Ao participarmos da Mesa do Senhor, temos a certeza da Sua presença abençoadora por meio do Seu Espírito. Pela fé nós “comemos” o Seu corpo e “bebemos” o Seu sangue, sendo alimentados em nossa fé. Na Ceia, é Cristo mesmo Quem nos recebe e ministra as Suas bênçãos. “A Igreja é sua casa”.[14] Portanto, Ele é o nosso Anfitrião. Cristo está presente espiritual e eficazmente, comunicando as bênçãos do pacto ao Seu povo. É Ele quem nos convida, recebe, alimenta, fortalece, conserva e renova a nossa vida e a nossa alma nos dispondo à eternidade.

 

Jesus nos diz: “Tomai, comei; isto é o meu corpo. A seguir tomou um cálice e, tendo dado graça, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos” (Mt 26.26-27).

 

Calvino comenta:

 

Confesso, naturalmente, que a fracção do pão é um símbolo, não a própria cousa. Mas, isto posto, concluiremos corretamente que pela exibição do símbolo, no entanto, a própria cousa é exibida. Pois, a menos que haja alguém de querer chamar a Deus enganador, nunca ouse dizer se por Ele proposto um símbolo vão.[15] Portanto, se pela fração do pão representa verdadeiramente o Senhor a participação de Seu corpo, mui longe de duvidoso deve ser que verdadeiramente aí o depare e exiba. E aos pios esta regra é absolutamente de suster-se: que vezes quantas veem os símbolos instituídos pelo Senhor, aí cogitem e se persuadam por certo estar presente a verdade da cousa representada. Pois, a que propósito à mão te estende o Senhor o símbolo de Seu corpo, senão para que mais certo te faça de sua verdadeira participação? Ora, pois, se verdadeiro é um sinal visível oferecer-se-nos para selar a dádiva de uma cousa invisível, recebido o símbolo do corpo, confiemos não menos dar-se-nos, por certo, também o próprio corpo.[16]

Digo, portanto, que no mistério da Ceia, mediante os símbolos do pão e do vinho,[17] Cristo Se nos exibe verdadeiramente, e deveras, Seu corpo e sangue, nos quais cumpriu toda obediência no interesse de conseguir-se-nos a justiça, para que, com efeito, primeiro, com Ele coalesçamos em um só corpo, então, feitos partícipes de Sua substância, em plena participação de todos os Seus benefícios, também o poder Lhe sintamos.[18]

 

Durante o Seu Ministério terreno, Jesus dissera: “Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.20).

 

Agora Ele habita em nós e em Sua igreja, pelo Espírito (1Co 3.16; 6.19); Ele não nos deixou abandonados (Jo 14.1-3;16-18).

 

Portanto, participar da Ceia significa declarar publicamente a certeza da presença de Deus em nós por intermédio do Espírito de Seu Filho. A Santa Ceia assume, deste modo, o sentido de manifesto de companhia. Ainda que Jesus não esteja conosco fisicamente, não estamos sozinhos. O Cristo que foi para junto do Pai, voltará.

 

Maringá, 19 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 


[1]“Todos aqueles que participam da Ceia do Senhor professam assim serem cristãos. Porém para ser cristão um homem deve ter um competente conhecimento de Cristo e de Seu Evangelho” (Charles Hodge, Systematic Theology, Grand Rapids, Michigan: Wm. Eerdmans Publishing Co. 1986, v. 3, p. 623).

[2] João Calvino, As Institutas, (2006), IV.18.3.

[3]L. Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 657. Veja-se: Charles Hodge, O Caminho da Vida, New York: Sociedade Americana de Tractados, (s.d.), p. 222-223.

[4]João Calvino, Catecismo de la Iglesia de Ginebra: In: Catecismos de la Iglesia Reformada, Buenos Aires: La Aurora, 1962, Perg. 362.

[5] Veja-se esta argumentação de forma mais ampla em: François Turretini, Compêndio de Teologia, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 3, p. 606-608.

[6] “O verdadeiro é o que é em si (…) é o que é” (Agostinho, Solilóquios, São Paulo: Paulinas, 1993, II.5.8. p. 76-77.

[7] “Da ceia do Senhor se ensina que o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes na ceia sob a espécie do pão e do vinho e são nela distribuídos e recebidos. Por isso também se rejeita a doutrina contrária” (Confissão de Augsburgo, Art 10). (http://www.luteranos.com.br/conteudo/a-confissao-de-augsburgo – Consulta feita em 19.06.19).

[8] Veja-se a posição de Jonathan Edwards in: Joel R. Beeke; Mark Jones, orgs. Teologia Puritana: Doutrina para a vida.  São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 1053.

[9] Vejam-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Espírito Santo, igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 577; François Turretini, Compêndio de Teologia, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 3, p. 608-609.

[10] Veja-se: Consensus Tigurinus, Art. 25.

[11]“E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim” (Lc 22.19).

[12] Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Espírito Santo, igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 556.

[13]François Turretini, Compêndio de Teologia, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 3, p. 616.

[14] João Calvino, Pequeno tratado da Santa Ceia (1541): In: Eduardo Galasso Faria, ed. João Calvino: Textos Escolhidos, São Paulo: Pendão Real, 2008, p. 146.

[15] Veja-se: Confissão Belga, (1561), Art. 33.

[16] João Calvino, As Institutas, IV.17.10. Vejam-se também: As Institutas,  IV.17.1; J. Calvino, Catecismo de la Iglesia de Ginebra, Perguntas, 353-356. “Os sinais são o pão e o vinho, nos quais o Senhor nos apresenta a verdadeira, todavia espiritual, comunicação de seu corpo e sangue. Essa comunicação é satisfeita com o vínculo de seu Espírito e não requer a presença da carne encerrada sob o pão ou o sangue sob o vinho” (João Calvino, Instrução na Fé, Goiânia, GO.: Logos Editora, 2003, Art. 29, p. 75-76).

[17] Na ceia pascal o vinho tinto deveria ser servido sempre que possível (Cf. J. Jeremias, Isto é o Meu Corpo, São Paulo: Paulinas, 1978, p. 38). Calvino, por sua vez, não considera isso relevante (João Calvino, As Institutas, IV.17.43). Da mesma forma Hodge. Este ainda afirma que historicamente na Ceia do Senhor o vinho sempre foi misturado com água. (Veja-se: Charles Hodge, Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 1474-1476).

[18] J. Calvino, As Institutas, IV.17.11.

A lenda do Corpus Christi e o significado real da Ceia do Senhor (1)

A celebração da festa de Corpus Christi (Corpo de Cristo, ou Corpo de Deus), é originária do século XIII na Bélgica, estando entremeada de lendas e superstições. Ao que parece a sua criação visava, entre outras coisas, dar maior destaque na litúrgica da “quinta-feira santa” à Ceia ao invés de enfatizar, como estava acontecendo, à traição de Judas.[1] A sua alusão histórica é à quinta feira anterior à autoentrega de Jesus Cristo na cruz, quando nosso Senhor instituiu a Ceia com seus discípulos, que também é conhecida como Santa Ceia, Mesa do Senhor e Eucaristia.

 

A Santa Ceia foi instituída por Cristo, o Senhor e Cabeça da Igreja, para o nosso benefício espiritual, visando ao nosso alimento, fortalecimento e crescimento. Verifica-se, desde o início da igreja do Novo Testamento que a Ceia do Senhor é uma das mais importantes instituições da igreja cristã. Paulo recrimina os crentes de Corinto, justamente porque eles não estavam discernindo este ponto fundamental em suas reuniões: “Nisto, porém, que vos prescrevo, não vos louvo, porquanto vos ajuntais, não para melhor; e, sim, para pior” (1Co 11.17).

 

Os crentes de Corinto faziam da Santa Ceia uma ceia comum e ainda mais, da pior espécie, “transformando a igreja em um piquenique para glutonaria”,[2] visto que servia para ostentação dos mais ricos, dando ocasião, de um lado, à vaidade, glutonaria e à embriaguez e, de outro, à humilhação e fome (1Co 11.21,22),[3] Ambas as consequências, eram o resultado do não discernimento do significado da Ceia do Senhor.

 

Analisemos alguns aspectos que devem reger a participação do fiel na Santa Ceia.

1. Participação na Ceia

 

Na narrativa da instituição da Ceia, lemos:

 

Enquanto comiam, tomou Jesus um pão e, abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. A seguir tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados. E digo-vos que, desta hora em diante, não beberei deste fruto da videira, até aquele dia em que o hei de beber, novo, convosco no reino de meu Pai (Mt 26.26-29).

 

O Apóstolo Paulo relatando este acontecimento, escreve:

 

Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é meu corpo que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado,      tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim (1Co 11.23-25).

 

Aqui temos também a indicação não somente de que a Ceia fazia parte da vida da Igreja, mas também, de que ela deveria continuar a ser praticada. O tempo verbal de “fazei isto” (1Co 11.24), indica uma atitude contínua: “Fazei isso e permanecei fazendo sempre…”.

2. “Recordação amorosa”

 

O sacrifício de Cristo, o Deus encarnado, em favor do Seu povo, é o marco decisivo de nossa salvação. Considerando isso, a participação na Ceia do Senhor exercita a nossa “memória amorosa”, fazendo-nos lembrar, com gratidão, do sacrifício remidor de Cristo. “Fazei isto em memória de mim” (1Co 11.24). A Ceia traz sempre à memória a nossa condição de pecadores totalmente impossibilitados de alcançar a salvação. Se não fosse a obra graciosa, voluntária e sacrifical de Cristo em nosso favor, jamais seríamos salvos (Gl 1.4; Ef 5.2).[4]

 

Ao mesmo tempo, a Ceia traz à tona o novo pacto feito por Deus com o Seu povo, que consiste na sua restauração. Aqui rememoramos:

 

a) O contexto da instituição da Ceia estava diretamente relacionado à Páscoa (Ex 12.1-13; Lc 22.7-22; 1Co 5.7). Jesus Cristo como Cordeiro sem defeito, por meio do seu sangue marcou para sempre o Seu povo, o reconciliando com Deus, o livrando da ira presente e futura.

Enquanto que a Páscoa nos falava de um sacrifício repetido como fato histórico, ela adquire na Ceia o sentido não mais de sacrifício, mas de fato consumado pelo sacrifício perfeito de Cristo.

 

b) A aliança de Deus feita com Israel, registrada no capítulo 24 do Livro de Êxodo.

 

     “Então tomou Moisés aquele sangue e o aspergiu sobre o povo, e disse: Eis aqui o sangue da aliança que o Senhor fez convosco a respeito de todas estas palavras” (Ex 24.8).

 

c) Bem como a aliança profetizada por Jeremias, que apontava para o futuro não muito distante:

 

Eis aí vem dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá (…). Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor. Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhes inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo (Jr 31.31,33).

 

d) O novo pacto firmado por Deus com a Sua Igreja também envolve o derramamento de sangue – já que “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9.22) –, só que agora, o sangue derramado não é de animais, mais o sangue precioso de Cristo, o “nosso Cordeiro pascal” (1Co 5.7 – Jo 19.33,36), que se entregou em favor de muitos. Portanto, “O novo concerto foi ratificado por meio de Seu sangue”.[5]

 

Jesus, conforme a narrativa de Mateus, diz: “… Isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26.28).

 

Participar da Ceia significa reavivar em nós a confiança no Pacto de Deus conosco firmado no passado, que nos garante a certeza da vida eterna.

 

E mais: o Senhor se despediu de sua igreja fisicamente (Mt 26.11; Jo 14.2,4; 16.7,28; 17.24; At 1.1.9-11; 7.56; Ef 4.10; Cl 3.1; Hb 7.26).[6] Da forma como Ele esteve com os Seus discípulos, fisicamente, Ele não está mais com a igreja nesta dispensação. Agora, fisicamente, com seu corpo glorificado Ele permanece no céu, de onde O aguardamos (At 1.11; Fp 3.20-21; 1Ts 1.10; 4.16).[7] Porém, Ele está conosco, não menos intensamente, por meio do Seu Espírito.[8] (Rm 8.9; Gl 4.6/Fp 1.19/At 16.7).[9] O Senhor Jesus não nos deixou órfãos. Ele, Ele mesmo está conosco aqui e agora, e para sempre (Jo 14.16-18/At 9.31).[10]

 

Ao participarmos da Ceia, enquanto aguardamos o Seu retorno, recordamos o feito do Deus encarnado a favor de Seu povo, realizado uma vez por todas e para sempre. Na cruz Ele mesmo declarou ter consumado a sua obra (Jo 19.30).

 

Maringá, 19 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 


[1] Cf. Maurice Carrez; Pierre-Marie Gy, Eucaristia: In: Jean-Yves Lacoste, dir., Dicionário Crítico de Teologia, São Paulo: Paulinas; Loyola, 2004, p. 682.

[2] R.C. Sproul, O que é a Ceia do Senhor?  São José dos Campos, SP.: Fiel, 2014, p. 64.

[3]21 Porque, ao comerdes, cada um toma, antecipadamente, a sua própria ceia; e há quem tenha fome, ao passo que há também quem se embriague. 22 Não tendes, porventura, casas onde comer e beber? Ou menosprezais a igreja de Deus e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto, certamente, não vos louvo” (1Co 11.21-22).

[4]“O qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai” (Gl 1.4). “Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave” (Ef 5.2).

[5]C. Hodge, O Caminho da Vida, New York: Sociedade Americana de Tractados, (s.d.), p. 229. Calvino comentando 1Co 11.25, diz que a aliança do Seu corpo “foi uma vez por todas ratificada pelo sacrifício de seu corpo” (João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1997, p. 358).

[6]“Porque os pobres, sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes” (Mt 26.11). 2 Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. (…) 4 E vós sabeis o caminho para onde eu vou” (Jo 14.2,4). “Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei” (Jo 16.7). “Vim do Pai e entrei no mundo; todavia, deixo o mundo e vou para o Pai” (Jo 16.28).“Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo 17.24). 9 Ditas estas palavras, foi Jesus elevado às alturas, à vista deles, e uma nuvem o encobriu dos seus olhos. 10 E, estando eles com os olhos fitos no céu, enquanto Jesus subia, eis que dois varões vestidos de branco se puseram ao lado deles 11 e lhes disseram: Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir” (At 1.1.9-11). “E disse: Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à destra de Deus” (At 7.56). “Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas” (Ef 4.10). “Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus” (Cl 3.1). “Com efeito, nos convinha um sumo sacerdote como este, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e feito mais alto do que os céus” (Hb 7.26).

[7]E lhes disseram: Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir” (At 1.11). 20 Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, 21 o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas” (Fp 3.20-21). “E para aguardardes dos céus o seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos, Jesus, que nos livra da ira vindoura” (1Ts 1.10). “Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro” (1Ts 4.16).

[8] Ferguson comenta: “Tão plena é a união entre Jesus Cristo e o Parácleto, que a vinda deste é a vinda do próprio Jesus Cristo no Espírito” (Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 74).

[9]“Vós porém, não estais na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vós. E se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9). “E, porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” (Gl 4.6).

[10]16 E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco,  17 o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não no vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós.  18 Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros” (Jo 14.16-18).

Eu quero sossego

A obra de Cristo é o que torna possível os pecadores viverem doxologicamente e trabalharem em obediência a Deus – Ray Pennings.[1]

 

Trabalho pode ser definido como o esforço físico ou intelectual, com vistas a um determinado fim. O verbo “trabalhar” é proveniente do latim vulgar tripaliar: torturar com o tripallium.

 

No entanto, o trabalho não está associado ao pecado, antes, faz parte do propósito primeiro de Deus para o homem e revela a sabedoria divina (Gn 1.28; 2.15; Ex 20.9; Sl 104.23; Is 28.23-29). Os rabinos, como exemplo desta perspectiva, além do estudo metódico da Lei, aplicavam-se ao trabalho manual para suprir às suas necessidades (Vejam-se: Mc 6.3; At 18.3). Este conceito foi perdido ao longo dos séculos.

 

A Reforma resgatou o conceito cristão de trabalho, fazendo uma crítica fundamental à concepção monástica medieval, eliminando, por exemplo, a distinção entre vida activa representada por Marta e a vida contemplativa representada por Maria (Lc 10.38-42), sendo este o modelo do caminho monástico.

 

Na ética do trabalho, Lutero (1483-1546) e Calvino (1509-1564) estavam acordes quanto à responsabilidade do homem de cumprir a sua vocação por meio do trabalho. Não há lugar para ociosidade. Com isto, não se quer dizer que o homem deva ser um ativista, mas sim, que o trabalho é uma vocação divina.

 

O amor ao próximo faz com que o nosso honesto trabalho não se limite a satisfazer as nossas necessidades, mas, também, a ajudar aos nossos irmãos.

 

O trabalho está relacionado com o progresso de toda a raça humana, logo, a um crescimento sustentável. Pregando no Livro de Efésios, Calvino instrui aos pais. Podemos resumir assim:

 

Atente cada um com diligência para consigo, e os pais, querendo dirigir os filhos a quaisquer empregos, não tenham esse costume a que se têm habituado de dizer: Qual profissão será a mais rendosa? Antes, estes dois aspectos se conjuguem, isto é, quando houver considerado em que é que meu filho poderá ganhar a vida e, quando estiver casado, como proverá para si e sua família? Que sirva ao próximo e o uso de sua arte e de sua profissão redunde no proveito comum de todos.

Assim, pois, por essa razão, impõe-nos ter sempre diante dos olhos que, em qualquer estado que vivamos, é necessário que Deus marche adiante, como se a si nos chamasse e nós seguíssemos o caminho que por sua Palavra nos mostra. Certo é que jamais profissão alguma será dele aprovada se não for útil, e se o público não for dela servido, e se também não redundar em proveito de todos.[2]

 

O ganho ilícito, por meio do qual o patrimônio de nosso próximo é dilapidado, é, na realidade – independentemente do nome que se dê –, não um sinal de inteligência, mas, de iniquidade: é, portanto, uma forma de furto.

 

O trabalho honesto, fruto do nosso labor é que deve ser a fonte de recursos para a manutenção de nossa família. Não devemos nos aproveitar das necessidades alheias, vivendo simplesmente de transações financeiras ou de explorações variadas. Um princípio justo é que em todas as negociações, haja benefícios para ambas as partes.

 

A grandeza de nosso trabalho não está simplesmente no que fazemos, mas como e com qual objetivo o fazemos. É agradável a Deus que por meio de nosso trabalho a sociedade seja beneficiada.

 

Precisamos aqui enfatizar alguns pontos já vistos. As Escrituras nos ensinam que Deus nos criou para o trabalho (Gn 2.8,15). O trabalho, portanto, faz parte do propósito de Deus para o ser humano, sendo objeto de satisfação humana (Sl 104.22-23).

 

Na concepção cristã, o trabalho dignifica o homem, devendo o cristão estar motivado a despeito do seu baixo salário ou do reconhecimento humano; embora as Escrituras também observem que o trabalhador é digno do seu salário (Lc 10.7). Seu trabalho deve ser entendido como uma prenda feita a Deus, independentemente dos senhores terrenos. Deste modo, o que de fato importa, não é o trabalho em si, mas sim o espírito com o qual ele é feito; a dignidade deve permear todas as nossas obras, visto que as realizamos para o Senhor e pela capacitação do Senhor. O nosso trabalho revela a nossa percepção de Deus e de Sua Criação.

 

A prestação de contas de nosso trabalho deverá ser feita a Deus; é Ele com o seu escrutínio perfeito e eterno Quem julgará as obras de nossas mãos, daí a recomendação do Apóstolo Paulo (Cl 3.17,22-4.1/Ef 6.5-9).

 

Portanto, não há desculpas para a fuga do trabalho, mesmo em nome de um motivo supostamente religioso (1Ts 4.9-12/Ef 4.28; 1Tm 5.11-13).

 

Deus abençoa o primeiro casal com a capacidade de procriar-se (Gn 1.22), colocando também, grande parte da criação para o seu alimento (Gn 1.26-30; 2.9). Como indicativo da posição elevada em que o homem foi colocado, o Criador compartilha com ele do poder de nomear os animais, e também de dar nome à sua mulher (Gn 2.19,20,23; 3.20). E mais: Deus delega-lhe poderes para cultivar e guardar o jardim do Éden (Gn 2.15), demonstrando a sua relação de domínio sobre a natureza. No entanto, todas estas atividades envolvem o trabalho compartilhado por Deus com o ser humano. O nomear, procriar, dominar, guardar e cultivar refletem a graça providente e capacitante de Deus.

 

Portanto, desde o início, o homem é um ser que trabalha. A sua mão é uma arma “politécnica”, instrumento exclusivo e incomparável de construção, reconstrução e transformação. Faz parte da essência do homem trabalhar.

 

O trabalho é algo bom em si mesmo, não simplesmente pelo que ele proporciona. O homem é um artífice que constrói, transforma, modifica; a sua vida é um eterno devir, que se realiza no fazer como expressão do seu ser orientado e direcionando para valores que acredita serem relevantes. Portanto, o trabalho deve ter sempre um sentido axiológico. O ser como não pode se limitar ao simples fazer, está sempre à procura de novas criações, que envolvem trabalho.

 

No trabalho o homem concretiza a sua liberdade de ser. Por isso, nunca poderemos ter como meta da sociedade, a ausência do trabalho. O homem foi criado para o trabalho não para permanecer na inatividade e indolência. Portanto, aposentar-me de um determinado trabalho não significa abandonar a condição de “ser” que trabalha.

 

No trabalho nós expressamos e aperfeiçoamos a nossa humanidade, cumprindo a nossa vocação. Deixar de trabalhar significa deixar de utilizar parte da sua potência, equivale a deixar parcialmente de ser homem; em outras palavras, seria uma desumanidade.

 

O nosso trabalho, portando, antes de a senhores terrenos, deve servir como uma prenda oferecida a Deus, Aquele que nos chama e capacita a servi-lo de forma glorificante. Nada mais repousante, do que a convicção de que estamos atendendo a nossa vocação na esfera que Deus nos colocou. Deste modo, o que eu quero, é sossego: o desafio, a alegria e o conforto de servir a Deus nas coisas mais simples e complexas que ele me chamar a fazer. Em síntese: o sossego da obediência.

 

 

São Paulo, 29 de abril de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 


[1] Ray Pennings, Trabalhando para a Glória de Deus. In:  Joel R. Beeke, Vivendo para a Glória de Deus: Uma introdução à Fé Reformada, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2012 (reimpressão), p. 375.

[2] John Calvin, Sermons on The Epistle to the Ephesians, Carlisile, Pennsylvania: The Banner of Truth Trust 1998 (Reprinted), Sermon 31, Ef 4.26-28, p. 447-460.

O poder do Trino Deus na ressurreição de Jesus Cristo e o seu significado

O apóstolo Paulo tomou como paradigma do poder de Deus, o que Pai operou em Cristo o ressuscitando, fazendo-o assentar-se à sua direita (Ef 1.20). Por meio da ressurreição Cristo venceu a morte, conquistou a vitória sobre ela para todo o seu povo (1Co 15.26).[1] Na ressurreição temos a validação da integridade e eficácia do ministério terreno de Cristo e a declaração do perdão para todos os que creem em Cristo como seu Salvador.[2]

 

Bavinck enfatiza que “a ressurreição é a inversão divina da sentença que o mundo impôs a Jesus”.[3] Nela temos a manifestação pública de sua filiação divina e da aprovação de seu ministério.[4] “A ressurreição é o ponto que marca o começo de uma nova época na existência do Filho de Deus. Sendo antes Filho de Deus em debilidade e humilhação, pela ressurreição torna-se o Filho de Deus em poder”.[5]

 

O Pai glorificou o Filho na ressurreição, conforme interpreta Hebreus: “Assim, também Cristo a si mesmo não se glorificou para se tornar sumo sacerdote, mas o glorificou aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Hb 5.5).

 

O Novo Testamento declara que a ressurreição de Cristo foi pelo poder do Trino Deus. Esta afirmação ora se refere simplesmente a Deus – denotando assim, o trabalho da Trindade –, ora se refere às pessoas distintamente. A ênfase, sem dúvida, é evidenciar a unidade da Trindade no mesmo propósito glorioso e salvador. O propósito eterno e harmonioso de Deus, envolve a ação trinitária.

 

Em alguns textos das Escrituras encontramos esta obra de modo distinto:

 

1. Poder do Pai

“Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida” (Rm 6.4).

 

 “Paulo, apóstolo, não da parte de homens, nem por intermédio de homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos” (Gl 1.1).

 

2. Poder do Espírito Santo

 

“Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito” (1Pe 3.18/Rm 8.11).[6]

 

O mesmo Espírito que gerou em Maria a Pessoa Divino-Humana de Cristo, o acompanhando e fortalecendo em todo o Seu Ministério, agiu decisivamente em sua ressurreição, a qual assinala a vitória de Deus sobre o pecado, a morte e Satanás (Mt 1.18/Lc 1.35; Mt 4.1/Lc 4.1; Is 11.1-2/Lc 4.18-19; Lc 3.31-32; 4.14; Mt 12.28; Jo 3.34; Hb 9.14).

 

3. Poder do Filho

 18 Perguntaram-lhe, pois, os judeus: Que sinal nos mostras, para fazeres estas coisas? 19Jesus lhes respondeu: Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei. 20 Replicaram os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este santuário, e tu, em três dias, o levantarás? 21 Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo. 22Quando, pois, Jesus ressuscitou dentre os mortos, lembraram-se os seus discípulos de que ele dissera isto; e creram na Escritura e na palavra de Jesus” (Jo 2.18-22).

 

 17 Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. 18 Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai” (Jo 10.17-18).

 

O verbo divino dispunha de todo o poder para ressuscitar o Cristo encarnado, o que realmente o fez.

 

Portanto, podemos entender biblicamente que a Trindade é responsável pela ressurreição de Jesus Cristo; o Pai, o Filho e o Espírito Santo manifestam o seu poder na ressurreição de Cristo. Por isso, o Novo Testamento com mais frequência atribui a ressurreição ao poder de Deus, sem mencionar a Pessoa (Ver: At 2.24; 3.15; 4.10; 5.30; 10.40; 13.30,37; Rm 10.9; 1Co 6.14; Cl 2.12 etc.).

 

Comentando Rm 8.11, Calvino explica:

 

Cristo certamente ressuscitou por si mesmo e pelo seu próprio poder, mas como costumava atribuir ao Pai o poder divino que possuía, então o apóstolo apropriadamente transferiu para o Pai aquilo que era em Cristo uma obra própria de sua divindade.[7]

 

Na ressurreição de Cristo, vemos aspectos de sua vitória. Os textos bíblicos referentes a Jesus Cristo como estando à direita de Deus, indicam o seu triunfo, honra, poder e glória. Por isso, Ele mesmo disse: “Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci, e me sentei com meu Pai no seu trono” (Ap 3.21).

 

O regresso de Jesus ao Pai evidencia a realização completa de toda a obra a qual viera realizar.

 

A ascensão do Filho ressalta o cumprimento de sua missão, revelando o Seu estado de Glória (Mc 16.19; At 2.32-36; 7.55; Cl 3.1; 1Tm 3.16; Hb 1.1-4) e Poder (Ef 1.20,21; 1Pe 3.22).

 

Na realidade Jesus Cristo, retornou ao seu estado anterior à encarnação, quando Ele, espontaneamente renunciara a manifestação da glória e da dignidade divinas que faziam parte do seu ser (2Co 8.9; Fp 2.5-11/Jo 1.1-3; 17.1-5/Jo 3.13; 6.62; 7.33; 16.5/Ef 4.10).

 

A sua humilhação e a sua exaltação não afetaram a essência da sua natureza Divina.

 

Vemos aqui, de passagem, a necessidade da ascensão: Aquele que veio num determinado momento histórico, no “estado de humilhação”, fazendo-se pobre (2Co 8.9); agora, após cumprir cabalmente a sua obra sacrificial, volta, no momento preciso, publicamente, no “estado de exaltação”, para Deus. A ascensão é uma das maiores evidências históricas da volta de Cristo ao seu estado de Glória (Jo 17.5,24).[8]

 

A ressurreição e ascensão de Cristo significam o poder de Deus sobre todos os demais poderes que lhe são hostis (Ef 1.21), indicando, também que tudo lhe pertence, no céu e na terra, na vida e na morte. Temos aqui a coroação pública de sua vitória. Ele é o Senhor de todas as coisas. “Por sua ascensão ao céu, Cristo tomou posse do domínio que lhe fora dado pelo Pai, para que ordenasse e governasse todas as coisas pelo exercício de seu poder”, conclui Calvino.[9]

 

Cristo já ressuscitou, aleluia! Ao Deus Triúno toda glória. Maranata! Amém!

 

 

São Paulo, 17 de abril de 2019

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

 


[1]“O último inimigo a ser destruído é a morte” (1Co 15.26).

[2]“A ressurreição de Cristo tinha como seu propósito trazer à luz o fato de que todos os que reconhecem a Jesus como seu Senhor e Salvador têm entrado num estado de justiça aos olhos de Deus. O Pai, ao ressuscitar a Jesus dentre os mortos, nos assegura que o sacrifício expiatório foi aceito; daí, nossos pecados são perdoados” (William Hendriksen, Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, (Rm 4.23-25), p. 214).

[3]Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 405.

[4] Veja-se: João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 2.7), p. 68-69. “Gerar [Sl 2.7], aqui, tem referência àquilo que foi feito conhecido. (…) Cristo foi declarado Filho de Deus pelo exercício público de um poder verdadeiramente celestial, ou, seja, o poder do Espírito, quando Ele ressuscitou dos mortos” (João Calvino, Romanos, 2. ed. São Paulo: Parakletos, 2001, (Rm 1.4), p. 39,40).

[5] Anders Nygren, Commentary on Romans, 5. ed. Philadelphia: Fortress Press, 1980, p. 51. “Por meio de sua gloriosa ressurreição, sua investidura com poder não só foi realçada, mas também começou a resplandecer em toda sua glória” (William Hendriksen, Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, (Rm 1.4), p. 58-59).

[6]“Se habita em vós o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos vivificará também o vosso corpo mortal, por meio do seu Espírito, que em vós habita” (Rm 8.11).

[7]João Calvino, Romanos, 2. ed. São Paulo: Parakletos, 2001, (Rm 8.11), p. 282.

[8]5E, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo. (…) 24 Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo 17.5,24).

[9]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1988, (Ef 4.10), p. 118.

O Jardim do Éden e a sua condição paradisíaca sem a mulher

Não foi feita da sua cabeça, como para ter domínio sobre ele, nem de seus pés, como para não ser pisoteada por ele, senão de seu lado, para ser igual a ele, de debaixo de seu braço para ser protegida, e de junto ao coração para ser amada. – Matthew Henry.[1]

 

A mulher foi criada para ser companheira do homem. Deste modo percebe-se a ideia de complemento. O homem sozinho estaria no paraíso. Contudo permaneceria só, sem uma companheira. O paraíso sem a mulher seria um paraíso incompleto, insatisfatório. No céu, seremos como os anjos, não nos casaremos (Mt 22.30). Adão, no seu estado terreno, felizmente ainda precisa do auxílio de uma esposa.[2]

 

Visto que a mulher completaria o homem, ela tornar-se-ia da mesma forma incompleta se não cumprisse a missão a ela conferida. Vemos então, aqui, que somente os dois juntos, tornando-se uma só carne, se encaminham para a plenificação como imagem e semelhança de Deus por meio da geração de filhos, a proliferação da raça humana, e o uso de seus talentos de forma criativa e construtiva.[3]

 

O rabino Cassuto (1883-1951) colocou esse evento de forma poética: “Assim como a costela se encontra no lado do homem e lhe é anexa, da mesma forma a boa esposa, a costela de seu esposo, fica a seu lado para ser sua auxiliar-sósia, e sua alma faz fronteira com a dele”.[4]

 

1. Auxiliadora idônea

   “Far-lhe-ei uma auxiliadora (rz<[e) (‘ezer)[5] que lhe seja idônea (dg<n<) (neged) (Gn 2.18), é a solução encaminhada por Deus.

 

A) Auxiliadora

(rz<[e) (‘ezer): “Auxiliadora”, “ajudadora”. Esta palavra que nos tempos modernos é com frequência olhada como se fosse uma diminuição da mulher, tem na realidade um tom extremamente significativo. Ela é empregada especialmente para descrever a ação de Deus que vem em socorro do homem.

 

Em sentido lato, Deus mesmo é o ajudador dos pobres (Sl 72.12), dos órfãos (Sl 10.14/Jó 29.12); daqueles que não podem contar com mais ninguém (Sl 22.11). Por isso, podemos contar com ele nos momentos de enfermidade (Sl 28.7); nas opressões de inimigos (Sl 54.4) e em períodos de grande aflição (Sl 86.17). Aqueles que vivem fielmente, buscando seu amparo nele, podem ter a certeza do seu cuidado (Sl 37.40/Sl 89.21), sendo a sua lei e as suas mãos os seus auxílios (Sl 119.173,175).[6] Por isso, os servos de Deus suplicam a sua ajuda na batalha e nas aflições (Dt 33.7/Sl 20.2; 30.10; 79.9; 109.26; 119.86). O rei Uzias tornou-se famoso internacionalmente porque, por trás de todos os seus empreendimentos, estava a maravilhosa ajuda de Deus (2Cr 26.15). Por outro lado, quando Israel deixou de confiar no sustento de Deus e buscou aliança com os egípcios para a sua proteção, Deus diz que isso de nada adiantaria contra a Babilônia (Is 30.5,7; 31.3/Os 13.9).

 

Somos desafiados então, a confiar em Deus, porque ele cuida de nós, é o nosso amparo (Sl 33.20; 70.5; 72.12; 115.9-11; 124.8; Is 44.2): de Deus vem o nosso socorro (Sl 121.1-2). Israel é feliz porque tem a Deus como aquele que o socorre (Dt 33.26,29). Felizes são todos aqueles que têm a Deus por auxílio (Sl 146.5).

 

Devido ao seu socorro, devemos entoar louvores ao seu nome (Sl 28.7). Dentro das profecias messiânicas de Isaías, vemos a confiança do Ungido do Senhor. Certo do socorro do Senhor, sabe que não será envergonhado (Is 50.7,9).

 

Harriet e Gerard fazem uma bela e real aplicação: “Que papel importante Deus dá a mulher. Ela se coloca ao lado do seu marido como auxiliadora, assim como Deus se coloca ao lado de seu povo”.[7]

B) Idônea

(dg<n<) (neged): “Idônea”, tem o sentido de “correspondente a ele”, “conforme”, “aquilo que corresponde”, “sua contrária”. Significa também, “estar em frente”, “defronte” (Êx 19.2; Js 3.16; 6.5,20; Dn 6.11).

 

A mulher foi formada como uma “contraparte” do homem. É uma semelhança perfeita dele, ainda que lhe seja oposta, no sentido de complemento. O homem aprovou a criação de Deus, porque pode perceber a mulher “não como sua rival, mas como sua companheira, não como uma ameaça, mas como a única capaz de realizar seus desejos íntimos”.[8]

 

Robertson analisa:

O propósito da existência do homem como ser criado não é ser um auxílio para a mulher no casamento. Mas o propósito da existência da mulher como ser criado é glorificar a Deus sendo um auxílio para o homem.

…. A mulher deve ser, na verdade, uma auxiliadora do homem. Mas deve ser auxiliadora ‘correspondente a ele’. O todo da criação de Deus serviria de auxílio ao homem de uma ou outra maneira. Mas em parte alguma da criação poder-se-ia achar um auxiliar ‘correspondente’ ao homem (Gn 2.20). Somente a mulher como ser criado do homem correspondeu a ele de tal maneira que fez dela o auxílio adequado de que ele necessitava.

Este traço distintivo da mulher indica que ela não é menos significativa do que o homem com respeito à pessoa dela. De maneira igual ao homem, ela traz em si mesma a imagem e semelhança de Deus (Gn 1.27). Somente como igual em pessoalidade podia a mulher ‘corresponder’ ao homem.[9]

 

2. A igualdade entre o homem e a mulher

 

Os textos também revelam a prioridade social e governamental do homem, não a sua superioridade essencial (Ef 5.22; 1Co 11.3-12; 1Pe 3.6,7).[10] É preciso que não confundamos a primazia e liderança com o domínio tirânico.

 

Ortlund, Jr., escreve:

 

A masculinidade e a feminilidade identificam seus respectivos papéis. Conforme Deus determinou, o homem, em virtude de sua masculinidade, é chamado a liderar. E a mulher, em virtude de sua feminilidade, é chamada para ajudar. (…) Mas, observe: dominação masculina é uma falha pessoal e moral, não uma doutrina bíblica.[11]

 

Deus, ao criar a mulher, não a fez inferior. Ela também foi feita conforme à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.27). A ordem divina quanto ao povoar, dominar, guardar e cultivar a terra é responsabilidade de ambos. Os dois partilham dos deveres e responsabilidades conferidos por Deus. Sozinhos, ambos são insuficientes para cumprirem o propósito de Deus em suas vidas.

 

Harriet e Gerard comentam:

 

A passagem [Gn 1.26-31] claramente indica que na sua origem a fêmea foi criada da mesma substância do macho; ela não é inferior quanto ao seu ser ou pessoa. Ela não é inferior como portadora da imagem, representante ou espelho de Deus na vida diária. A mulher é uma pessoa tanto quanto o homem. Assim como o macho é, a fêmea é feita à imagem e semelhança do Deus triúno e consequentemente tem o seu próprio relacionamento pessoal e espiritual com Deus. Neste particular ela é absolutamente igual ao homem. Ela também recebeu o mesmo mandato que o seu marido recebeu. Ela deveria cultivar o jardim com ele, dominar sobre ele e com o marido, ser frutífera e povoar a terra. No capítulo 2 ela, juntamente com o seu marido, recebeu o mandato espiritual de continuar a andar com Deus. Ela e o seu marido são proibidos de comer do fruto da árvore. Ambos recebem o mandato social de serem frutíferos.[12]

 

O paraíso sem a mulher seria solitário e, de certa forma, menos alegre. Deus retardou a criação da mulher para, entre outras coisas, mostrar ao homem, a sua importância e necessidade de complemento.

 

Agradeçamos a Deus por nossas mães, esposas e filhas, como representativas de todas as mulheres, criadas como nós, homens, à imagem de Deus, tendo como propósito mútuo, amadurecer em nossa fé conforme a imagem de Cristo, o modelo absoluto para todos nós (Rm 8.29-30).

 

 

São Francisco do Sul, 7 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa.

 


 

[1]Matthew Henry, “Commentary on The Whole Bible,” The Master Christian Library, (CD-ROM), (Albany, OR: Ages Sofware, 2000), v. 1, (Gn 2.21-25), p. 58-59.

[2]Cf. Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 574-575.

[3] Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 587-589.

[4] Apud Bruce K. Waltke; Cathi J. Fredericks, Gênesis, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, (Gn 2.21), p. 105.

[5] A Septuaginta traduz por bonqo\n, proveniente de bonqoj, “útil”, “auxiliador”, “ajudador” (*Hb 13.6).

[6] 173Venha a tua mão socorrer-me, (rz:[‘)(‘azar) pois escolhi os teus preceitos. (…) 175 Viva a minha alma para louvar-te; ajudem-me (rz:[‘)(‘azar) os teus juízos” (Sl 119.173, 175).

[7]Harriet; Gerard van Groningen, A Família da Aliança, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 99.

[8] Raymond C. Ortlund, Jr., Igualdade Masculino-Feminina e Liderança Masculina: In: John Piper; Wayne Grudem, compiladores, Homem e Mulher: seu papel bíblico no lar, na igreja e na sociedade, p. 39.

[9] O. Palmer Robertson, Cristo dos Pactos, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1997, p. 69.

[10] Veja-se: Bruce K. Waltke; Cathi J. Fredericks, Gênesis, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, (Gn 2.18), p. 104.

[11] Raymond C. Ortlund, Jr., Igualdade Masculino-Feminina e Liderança Masculina: In: John Piper; Wayne Grudem, compiladores, Homem e Mulher: seu papel bíblico no lar, na igreja e na sociedade, p. 40.

[12]Harriet; Gerard van Groningen, A Família da Aliança, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 94. Veja-se também: Gerard van Groningen, Criação e Consumação, São Paulo: Cultura Cristã, 2002, v. 1, p. 86.

O Espírito, o Natal e a Ressurreição

O Espírito Santo esteve presente e atuante em todo o Ministério terreno de Cristo (Veja-se: At 10.38-39), sendo Ele mesmo Quem revelou aos profetas o nascimento e obra do Messias (Is 53.1-12/1Pe 1.10-12/2Pe 1.21) e pregou a mensagem de arrependimento por meio de Noé (1Pe 3.18-19/2Pe 2.5). O Espírito, como dizia Basílio (330-379), era o companheiro inseparável do Filho em todos os seus atos; vida e morte. Na vida de Cristo não há alusão nem evidência de um crescimento da presença e direção do Espírito. Em Cristo vemos a plenitude do Espírito (Is 11.1ss; 42.1ss; 61.1ss). Nele, temos, pela primeira vez, a manifestação do poder do Espírito da “nova aliança” de forma completa e perfeita.

 

1. No seu nascimento (Mt 1.18,20; Lc 1.35)

 

 O nascimento de Cristo foi uma obra sobrenatural do Espírito Santo. Ele veio sobre Maria a revestindo com o Seu poder preservador.  O Espírito formou o corpo e qualificou a alma de Cristo para a sua obra. Este é um dos mistérios insondáveis da Palavra de Deus; no entanto, é este fato – miraculoso e incompreensível às nossas mentes finitas –, que dá sentido a todo o Novo Testamento. O Logos eterno tomou uma natureza humana naturalmente incapaz de qualquer ação santa sem o poder do Espírito Santo; daí a necessidade da ação santificadora e preservadora do Espírito. Na encarnação, o Espírito preservou a Jesus Cristo da mancha do pecado original que é a herança de todo ser humano, fazendo com que Ele tivesse uma natureza imaculada. O Espírito conservou a santidade e a impecabilidade daquele que nasceria. Se assim não fosse, Cristo não poderia se oferecer pelo Seu povo, apresentando um perfeito sacrifício vicário, sem mácula e de valor eterno (2Co 5.21; Hb 7.26,27; 1Pe 1.18-21; 3.18).

 

2. No seu batismo

 

No batismo não houve nenhuma mudança metafísica no ser de Cristo, nem Ele passou a ter uma relação nova com o Pai; entretanto, neste ato histórico, vemos a manifestação da Trindade num só propósito: a salvação do Seu povo.

 

Jesus Cristo foi ungido desde toda a eternidade; há referências no Antigo Testamento que falam da Sua habitação do Espírito, indicando desta forma, a sua unção, a sua capacitação eterna para o cumprimento da sua obra (Is 11.2; 42.1; 61.1). Todavia, historicamente, Ele foi ungido por ocasião da geração e santificação do “Filho de Deus” em Maria (Lc 1.35) e, também, no batismo (Mt 3.16; Mc 1.10; Lc 3.22; Jo 1.32; 3.34; At 10.38). A demonstração histórica foi a representação visível, no tempo, daquilo que é eterno. Jesus, o Cristo, esteve eternamente capacitado para ser o Salvador dos eleitos; e agora, encarnado recebe esta confirmação do Pai e do Espírito: a salvação é obra da Trindade; por isso, todas as três Pessoas estão empenhadas na execução deste Pacto salvador. O Filho se dispõe a salvar o Seu povo – assumindo a forma de servo até à morte (Fp 2.5-11) –, o Espírito O fortalece e o Pai manifesta verbalmente a Sua aprovação e prazer. (Cf. Lc 4.16-21).

 

3. Na sua tentação (Lc 4.1,14)

 

O Espírito guiou [“impeliu” (Mc 1.12)] Jesus ao deserto para ser tentado, permanecendo com Ele durante todos os quarenta dias (Lc 4.1,2). O relato de Lucas nos dá entender que Jesus foi tentado desde a sua chegada. A tentação faz parte do seu amadurecimento para o Ministério que o Pai lhe confiara. O primeiro Adão sucumbiu à tentação, desobedecendo a Deus; Jesus Cristo, o último Adão deve ser tentado para poder levar sobre Si o pecado dos eleitos.  A tentação foi crucial para o seu Ministério. Se Cristo não vencesse o presunçoso tentador, jamais poderia ser o Salvador daqueles que estavam sob o “domínio” de Satanás. É relevante observar, que o seu ministério público teve início após este episódio, começando com um sermão (Lc 4.16-21/Is 61.1-2).

 

4. No seu confronto com Satanás

 

Jesus realizou milagres no poder do Espírito. O Reino de Deus é o Reino de Cristo – o governo triunfante de Cristo sobre todas as coisas, visíveis e invisíveis – e, este Reino se faz presente por meio da obra de Cristo, libertando os homens do domínio de Satanás e dos poderes do mal, desmantelando a cidadela de Satanás (Mt 12.28,29). O pavor dos demônios diante de Cristo, aponta para o fato da chegada poderosa e vitoriosa do Reino (Mt 8.29).  Falar no Reino é apontar para a concretização do propósito de Deus em Cristo, libertando os homens do poder de satanás, conduzindo-os à liberdade concedida por Cristo, o Senhor.

 

5. Na sua obra sacrificial

 

A obra sacrificial de Cristo foi cumprida de forma completa e com o sentimento adequado pela operação do Espírito (Hb 9.14). Cristo, em total harmonia com o Espírito, se ofereceu a si mesmo, tendo plena consciência das implicações dessa oferta: a dor, a vergonha, a humilhação, o peso da ira de Deus, o abandono. Ele sabia que a cruz era a Sua rota obrigatória.  Os seus sofrimentos foram as dores do parto do nosso novo nascimento. Jamais poderemos avaliar corretamente a profundidade e a extensão dos seus sofrimentos. No entanto, em todo o seu sofrimento, Ele pôde usufruir do consolo do Espírito que sempre estivera plenamente nele.

 

O Espírito que esteve em Cristo durante todo o Seu Ministério terreno, O capacitou a apresentar-se voluntariamente (Gl 1.4/Jo 10.11,15,17,18) como sacerdote e vítima: o ofertante e a oferta – para resgatar os Seus (Hb 9.23-28).

 

6. Na sua ressurreição

  

O NT. declara que a ressurreição de Cristo foi obra do Trino Deus: Obra do Pai (Gl 1.1; Ef 1.17-20), do Filho (Jo 2.18-22; 10.17,18) e do Espírito Santo (1Pe 3.18/Rm 8.11). O mesmo Espírito que gerou em Maria a Pessoa Divino-Humana de Cristo, O acompanhando e fortalecendo em todo o Seu Ministério, agiu decisivamente em Sua ressurreição, a qual assinala a vitória de Deus sobre o pecado, a morte e Satanás. O Espírito que atuou em Cristo no Seu estado de humilhação é o mesmo na Sua exaltação.

 

Concluindo, observamos que o Ministério de Cristo foi marcado pela plenitude do Espírito (Jo 3.34/Lc 4.14). Ele foi guiado, apoiado e consolado em cada etapa de seu ministério.

 

Por ocasião do Natal, glorifiquemos ao Deus Triúno, que esteve totalmente envolvido nesse Evento e continua atuante na aplicação de seus efeitos na vida da humanidade.

 

 

 

São Paulo, 15/16 de dezembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

Jesus Cristo, o Senhor da igreja, vocaciona, dá autoridade e cuida de seus ministros – A propósito pelo dia do pastor

 

Uma das formas pelas quais Deus se vale para cuidar de sua Igreja, é vocacionando e habilitando seus pastores para, por meio deles, alimentar e cuidar de seu rebanho.

Lucas descreve de forma sucinta e reverente a vocação do Apóstolo Paulo e a comissão de Ananias:

 

Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome. Então, Ananias foi e, entrando na casa, impôs sobre ele as mãos, dizendo: Saulo, irmão, o Senhor me enviou, a saber, o próprio Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas, para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo. (At 9.15-17).

 

Mais tarde, Paulo pôde escrever a Timóteo: “Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério” (1Tm 1.12).

 

No seu chamado, Paulo reconhecia a autoridade apostólica conferida pelo Senhor para a edificação da Igreja:  “Porque, se eu me gloriar um pouco mais a respeito da nossa autoridade, a qual o Senhor nos conferiu para edificação e não para destruição vossa, não me envergonharei” (2Co 10.8/2Co 13.10;1Co 5.1-5).

 

Calvino acentuou a responsabilidade do presbítero. Entende que Deus Se dignou em consagrar a Si mesmo “as bocas e línguas dos homens, para que neles faça ressoar sua própria voz” (João Calvino, As Institutas, IV.1.5). Deste modo, os pastores não estão a seu próprio serviço, mas de Cristo; eles não buscam discípulos para si mesmos, mas para Jesus Cristo.

No primeiro dia de 1553, período turbulento, Calvino escreve a sua carta dedicatória dos comentários do Evangelho de João aos síndicos de Genebra. A certa altura diz:

 

Espontaneamente reconheço diante do mundo que mui longe estou de possuir a cuidadosa diligência e outras virtudes que a grandeza e a excelência do ofício requer de um bom pastor, e como continuamente lamento diante de Deus os numerosos pecados que obstruem meu progresso, assim me aventuro declarar que não estou destituído de honestidade e sinceridade na realização de meu dever.[1]

 

De fato, o Senhor que vocaciona os seus ministros também os capacita concedendo graça para realizarem a sua obra. Aliás, Deus sempre age assim. Ele não chama pessoas supostamente capacitadas. Quem de nós é suficiente? Também, não nos veste com fantasias com faixas e títulos que para nada mais servem senão para exibir a nossa vaidosa fragilidade. Não. A nossa suficiência vem de Deus. Isso é graça abundante (2Co 3.5/1Co 3.5; 4.7). Em síntese, Deus torna os seus escolhidos, por sua constante assistência, pessoas competentes para realizarem a obra por Ele designada. Isso não significa perfeição ou a impossibilidade de quedas e evidente fragilidade durante o processo.

 

Calvino sabia disso. Por volta de 1556, escreveria: “É Deus quem nos equipa com o Espírito de poder. Pois aqueles que, por outro lado, revelam grande força, caem quando não são sustentados pelo poder do Espírito de Deus” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (2Tm 1.7), p. 204).

 

Tornemos às Escrituras.

 

Paulo durante a sua Primeira Viagem Missionária já se ocupava em fortalecer as igrejas, inclusive, constituindo as lideranças, rogando a Deus o discernimento para isso. Assim, mesmo correndo risco de morte, corajosamente voltou à região onde sofrera grande perseguição,[2] para fortalecer os irmãos. Parece que em Atos a pregação do Evangelho e a difusão do Reino, envolviam ser alvo de perseguição e morte. Os “heróis” de Atos tinham a cruz como companheira constante. A glória pressupõe a cruz. Esta pavimenta por vezes o caminho do cristão (At 14.22; Rm 8.17/2Tm 2.10-12[3]).[4]

 

Dentro do propósito apostólico de fortalecer e consolidar as igrejas a fim de que o Evangelho não caísse no esquecimento e as igrejas seguissem estruturadas com seus ofícios ordinários,[5] a sua agenda envolvia a eleição de presbíteros para que continuassem o ensino na igreja.[6] A rapidez do processo descrito pode ser explicada pela conversão de muitos judeus que, certamente, estavam familiarizados com as Escrituras do Antigo Testamento e, também, pelo trabalho missionário judaico entre os pagãos.[7] Lucas narra:

 

Sobrevieram, porém, judeus de Antioquia e Icônio e, instigando as multidões e apedrejando a Paulo, arrastaram-no para fora da cidade, dando-o por morto. Rodeando-o, porém, os discípulos, levantou-se e entrou na cidade. No dia seguinte, partiu, com Barnabé, para Derbe. E, tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, e Icônio, e Antioquia, fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus. E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição[8] de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram (parati/qhmi = confiar, entregar) ao Senhor (ku/rioj) em quem haviam crido. (At 14.19-23).

 

Notemos que os presbíteros que foram eleitos eram entre os crentes; os que criam no Senhor (At 14.23). E mais: eles, como todos os demais crentes, foram confiados ao Senhor da Igreja. Os presbíteros terão responsabilidades espirituais maiores (At 20.28), contudo, por graça, não são autônomos; continuam sendo do Senhor. Somente o Senhor pode nos confirmar em nosso trabalho e ofício. É Ele quem dirige e preserva a Igreja. A igreja deve orar por seus presbíteros. Os presbíteros devem orar pela igreja, reconhecendo a sua total incapacidade em conduzir o povo de Deus sem a bênção do Senhor. Orar é expressar a convicção de nossa total incapacidade e, ao mesmo tempo, total confiança no Senhor. Portanto, os presbíteros devem buscar instrução, discernimento e amparo no Senhor, à quem foram confiados.

 

Calvino comentando o texto, fala dos motivos da oração por parte de igreja:

 

O primeiro era que Deus os dirigisse com o Espírito de sabedoria e discrição a fim de que todos escolhessem os homens melhores e mais aptos. Pois bem sabiam que não eram dotados com tão grande sabedoria, que fossem isentos de engano, nem pusessem demasiada confiança em sua diligência pessoal, que não soubessem que a ênfase primordial é posta na bênção divina. Assim vemos diariamente que os critérios dos homens erram onde não se manifesta nenhuma diretriz celestial, e que em todos os labores nada resulta se a mão divina não estiver com eles. Estes são os genuínos auspícios dos santos: invocar o Espírito de Deus para que presida seus conselhos. E se esta é a regra a observar-se em todas as nossas atividades, então, no que diz respeito ao governo da Igreja, o qual depende inteiramente de sua vontade, devemos tomar todo cuidado para nada tentarmos senão tendo-o por Líder e Presidente.

Ora, seu segundo propósito em orar era para que Deus dotasse com os necessários dons àqueles que eram eleitos pastores. Pois o cumprimento deste ofício, tão fielmente quanto se deve, é uma atividade mais árdua do que a força humana é capaz de suportar. Portanto, imploram o auxílio divino também nesta conexão, com Paulo e Barnabé assumindo a liderança.[9]

 

Em outro lugar, acrescenta:

 

Como compreendessem estarem a fazer cousa de todas a mais séria, nada ousavam tentar senão com suma reverência e solicitude. Mais do que tudo, porém, aplicaram-se às preces, nas quais a Deus pedissem o Espírito de conselho e discernimento.[10]

 

Aqui está um grande conforto para a igreja e, em especial para os presbíteros e líderes em geral. Permaneçamos no âmbito de nossa vocação. A nossa esfera é anunciar a Palavra, alimentar e cuidar do rebanho. No entanto, não temos autoridade para ultrapassar a Palavra, nem dispomos de poderes para converter ninguém. Não queiramos ir além do que nos foi proposto e confiado. Somos pregadores e testemunhas. O sobrenatural desta missão pertence a Deus que revela já de início o seu misericordioso poder ao transformar pecadores em pregadores. Sem esta compreensão, corremos o sério risco de nos esgotarmos terrivelmente em nossas ansiedades criadas pela falta de compreensão do Evangelho de Deus, do que somos e de nossa missão.[11] A Grande Comissão não falhará; ela está totalmente sob a autoridade e poder do Deus Triúno.[12]

 

Um dos graves problemas com os quais nos deparamos em todas as esferas em nosso país, ainda que não exclusivamente, é a falta de autoridade moral.[13] Quando ativa ou passivamente, o desleixo, a corrupção e os abusos são cometidos em todas as esferas, num primeiro momento podemos ter uma justa indignação. Com o passar do tempo e o agravamento da situação, esta indignação inicial tende a assumir a postura de revolta individual e coletiva ou, ainda que não necessariamente de modo excludente, a ironia e o deboche. Neste processo, quer de forma coletiva e pública, quer mais sutilmente, de modo velado, o desrespeito às autoridades constituídas se torna comum.

 

Na questão eclesiástica local, pelo fato de estarmos muito próximos de nossos irmãos, onde a sua vulnerabilidade se torna mais evidente, podemos perder a dimensão da nobreza e responsabilidade de seu ofício, nos tornando críticos e levianos, pouco ou em nada nos lembrando de orar por eles.

 

Paulo promoveu a eleição de presbíteros em cada igreja. A igreja deveria votar com apurado senso de reverência, confiando estes homens ao Senhor, conscientes de sua responsabilidade na condução da igreja.

 

A vocação para um ofício eclesiástico não significa a deificação de alguém, antes a graça do chamado na vida de um pecador que, como os demais irmãos, está em busca de uma maior obediência a Deus.

 

Ministros, sejamos fiéis a Deus no cumprimento de nosso chamado. Igreja, agradeça a Deus pelos seus Ministros, honre-os e lhes obedeçam enquanto permanecerem fiéis às Escrituras. Assim, a Igreja do Senhor será abençoada e Deus será glorificado.

 

 

São Paulo, 31 de outubro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1]João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, p. 23.

[2] “A popularidade universal está para os falsos profetas, assim como a perseguição para os verdadeiros” (John R.W. Stott, A Mensagem do Sermão do Monte, 3. ed. São Paulo: ABU, 1985, p. 44).

[3]“Fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus” (At 14.22). “Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados” (Rm 8.17). 10 Por esta razão, tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles obtenham a salvação que está em Cristo Jesus, com eterna glória. 11 Fiel é esta palavra: Se já morremos com ele, também viveremos com ele; 12 se perseveramos, também com ele reinaremos; se o negamos, ele, por sua vez, nos negará” (2Tm 2.10-12).

[4]“Sofrimento, aflição, tribulações e testes – estes são dons que Deus nos dá para nosso crescimento, as pedras de pavimentação necessárias no caminho que conduz à plenitude de caráter e de alegria” (Bruce Ware, Cristo Jesus homem: Reflexões teológicas sobre a humanidade de Jesus Cristo, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2013, p. 108).

[5]“O programa missionário, para ser completo, há de visar à fundação de igrejas que a si mesmas governem, sustentem e promovam os meios de sua propagação. Foi sempre este o propósito e a prática do apóstolo Paulo”, escreveu em 1919 Erdman (1866-1960), antigo professor de Princeton (Charles R. Erdman, Atos dos Apóstolos, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1960, p. 112).

[6]Veja-se: John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries), 1996 (Reprinted), v. 19, (At 14.23), p. 27.

[7] “Duvido que, em poucos meses, Paulo pudesse indicar presbíteros numa congregação inteiramente composta de ex-pagãos e ex-idólatras. Nesse caso, é quase certo que teria havido um período de transição de missão para igreja, enquanto os presbíteros estariam sendo ensinados e treinados” (John R.W. Stott, A Mensagem de Atos: Até os confins da terra, São Paulo: ABU, (A Bíblia Fala Hoje),1994, (At 14.21-28), p. 267).

[8] A eleição aqui descrita parece ter sido feita pelo levantar das mãos (Xeirotone/w = xei/r = “mão” & tei/nw = “estender”), ainda que não necessariamente (* At 14.23; 2Co 8.19). Aliás, este costume não era estranho na Antiguidade. A votação era normalmente feita pelo ato de levantar as mãos; em Atenas por aclamação, ou por folhas de votantes ou pedras; em caso de desterro, o voto era secreto. (Veja-se o enriquecedor artigo de Sir Ernest Barker, Eleições no Mundo Antigo. In: Diógenes (Antologia), Brasília, DF.: Editora Universidade de Brasília, 1982, n° 2, p. 27-36). Vejam-se também: William F. Arndt; F. Wilbur Gingrich A Greek-English Lexicon of the New Testament, Chicago: The University of Chicago Press, 1957, p. 889; E. Lohse, xeirotone/w: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 9, p. 437; Horst Balz; G. Schneider, eds. Exegetical Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, MI.: Eerdmans, 1999 (Reprinted), v. 3, p. 465; Simon J. Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 2, (At 14.23-24), p. 43-46; R.C.H. Lenski, The Interpretation of the Acts of the Apostles, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, (Commentary on the New Testament), 1998, (At 14.23), p. 585-588. Quanto à disputa entre presbiterianos e episcopais concernente à interpretação do texto, veja-se o presbiteriano: J.A. Alexander, A Commentary on The Acts of the Apostles, Edinburgh: The Banner of Truth Trust, © 1857, 1991 (Reprinted), v. 2, (At 14.23), p. 65-66. Calvino tem uma palavra equilibrada sobre a “eleição” dos presbíteros: “Daí, ao ordenar pastores, o povo tinha uma eleição soberana; mas, no caso de haver alguma desordem, Paulo e Barnabé presidem como moderadores. Esta é a maneira como devemos entender a decisão do Concílio de Laodicéia, o qual proíbe que a eleição seja entregue ao povo comum” (John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries), 1996 (Reprinted), v. 19, (At 14.23), p. 28).

[9]John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries), 1996 (Reprinted), v. 19, (At 14.23), p. 28.

[10]J. Calvino, As Institutas, IV.3.12.

[11]“As pessoas ansiosas são cativadas por toda e qualquer forma de certezas que se lhe ofereçam, não importando quão irracionais sejam elas. Tais pessoas tornam-se vulneráveis a influências estranhas, e fazem coisas tolas” (J.I. Packer, O Plano de Deus para Você, 2. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2005, p. 102).

[12] Veja-se: Michael Horton, A Grande Comissão, São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 27-39.

[13]“O problema básico do mundo de hoje é problema de autoridade. O caos no mundo se deve ao fato de que, em todas as áreas da vida, as pessoas perderam todo o respeito pela autoridade, quer entre as nações ou entre regiões, quer na indústria, quer em casa, quer nas escolas, ou em toda e qualquer parte. A perda da autoridade! E, em minha opinião, tudo começa realmente no lar e na relação matrimonial” (D.M. Lloyd-Jones, Vida No Espírito: No Casamento, no Lar e no Trabalho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 87).