Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (68)

A estrutura do pensamento de Calvino tornou-se uma força motriz poderosa para o trabalho missionário.[1] Acontece que o envio de missionários para outras cidades e países era uma questão delicada para a qual a Companhia de Pastores manteve, enquanto pôde, sigilo absoluto até mesmo do Conselho Municipal.[2] Os nomes dos missionários eram em geral mantidos no anonimato. A primeira vez[3] que tais nomes são mencionados na Companhia de Pastores de Genebra foi em 22 de abril de 1555, Jehan Vernoul e Jehan Lauvergeat, enviados para as igrejas dos vales de Piemonte e Jacques Langlois  Tours, Lausanne e Lyon, onde seria martirizado em 1572.[4]

 

Outro exemplo: o envio de dois ministros para a missão no Brasil, em resposta ao apelo de Villegagnon,[5] é descrita de forma sumaríssima: O registro simplesmente menciona (25/08/1556) que Pierre Richier († 1580)[6] e M.  Guillaume Charretier (Chartier)[7] foram enviados.[8] A própria correspondência que vinha dos franceses no Brasil para Calvino, recorria a algum de seus pseudônimos.[9]

 

Genebra se tornou um grande centro missionário, irradiando pelo mundo a sua teologia e o seu ardor evangelístico.[10] Em 1567, Genebra já tinha enviado mais de 120 missionários para França que atuavam de forma “clandestina” por causa das perseguições.[11]

 

Muitos dos alunos de Genebra quando voltavam para seus países, com o coração em chamas, levavam consigo a Palavra, esforçando-se por difundir o Evangelho consistentemente visto em Genebra. A perseguição e o martírio faziam parte involuntários deste nobre ideário. Contudo, vezes sem conta, este era o preço. Lawson diz que devido a isso, a Academia de Genebra ficou conhecida como a “Escola da Morte, de Calvino”.[12]

 

A proclamação do Evangelho objetiva glorificar a Deus. Escreve Calvino: “O nome de Deus nunca é melhor celebrado do que quando a verdadeira religião é extensamente propagada e quando a Igreja cresce, a qual por essa conta é chamada ‘plantações do Senhor, para que Ele seja glorificado’ [Is 61.3]”.[13]

 

Este objetivo da Academia faz jus à compreensão missionária de Calvino. Considerando que o reino de Deus envolve todos os povos – Jesus Cristo não foi enviado apenas aos judeus[14] –, a mensagem do Evangelho deve ser anunciada a todos.

 

Comentando 1Tm 2.4, afirma: “…. nenhuma nação da terra e nenhuma classe social são excluídas da salvação, visto que Deus quer oferecer o Evangelho a todos sem exceção”.[15] À frente: “Aqueles que se encontram sob o governo do mesmo Deus não são excluídos para sempre da esperança de salvação”.[16] Por isso, “O Senhor ordena aos ministros do Evangelho (que preguem) em lugares distantes, com o propósito de espalhar a doutrina da salvação em cada parte do mundo”.[17]

 

Analisando uma das implicações da petição “venha o Teu Reino”, comenta: “Portanto, nós oramos pedindo que venha o reino de Deus; quer dizer, que todos os dias e cada vez mais o Senhor aumente o número dos Seus súditos e dos que nele creem”.[18]

 

Em outro lugar, acrescenta: “Não existe outra forma de edificar a igreja de Deus senão pela luz da Palavra, em que o próprio Deus, por sua própria voz, aponta o caminho da salvação. Até que a verdade brilhe, os homens não podem se unir juntos, na forma de uma verdadeira Igreja”.[19]

 

Comentando o Salmo 96, Calvino sustenta que:

 

O salmista está exortando o mundo inteiro, e não apenas os israelitas, ao exercício da devoção. Isso não poderia ser efetuado, a menos que o evangelho fosse universalmente difundido como meio de comunicar conhecimento de Deus. (…) O salmista notifica, consequentemente, que o tempo viria quando Deus erigiria seu reino no mundo de uma maneira totalmente imprevista. Ele notifica ainda mais claramente como ele procede, ou, seja: que todas as nações partilhariam do favor divino. Ele convoca a todos a anunciarem sua salvação e, desejando que a celebrassem dia após dia, insinua que ela não era de uma natureza transitória ou evanescente, mas que duraria para sempre.[20]

 

Prudência recomendada:

 

Se alguém assim se dirige ao povo: “Se não credes é porque Deus já os há predestinado à condenação”, esse não somente alimentaria a negligência como também a malícia. Se alguém também para com o tempo futuro estenda a asserção de que não hajam de crer os que ouvem, porquanto hão sido condenados, isto seria mais maldizer do que ensinar. (…) Como nós não sabemos quem são os que pertencem ou deixam de pertencer ao número e companhia dos predestinados, devemos ter tal afeto, que desejemos que todos se salvem; e assim, procuraremos fazer a todos aqueles que encontrarmos, sejam participantes de nossa paz (…). Quanto a nós concerne, deverá ser a todos aplicada, à semelhança de um remédio, salutar e severa correção, para que não pereçam eles próprios, ou a outros não percam. A Deus, porém, pertencerá fazê-la eficaz àqueles a Quem preconheceu e predestinou”.[21]

 

Deste modo, a doutrina da eleição longe de ser um obstáculo à evangelização, é na realidade um estímulo vital e consolador.[22] Esta doutrina ainda que nem sempre tenha sido vista por este ângulo; tendo inclusive alguns tentado justificar a sua inércia partindo de uma interpretação racionalizada, a verdade é que o zelo missionário de Calvino tem muito a ver com este ensinamento da Escritura. A doutrina da predestinação não tornou a evangelização desnecessária; antes, a torna fundamental, já que é por meio do Evangelho que Deus chama o seu povo.

 

Devemos trabalhar com urgência dentro da esfera que nos foi confiada por Deus. O que não nos pertence deixemos onde está de modo firme e seguro: sob os cuidados de Deus.

 

O nosso trabalho deve ser feito com total confiança em Deus, sabendo que cabe a Ele converter o coração do homem e, que a rejeição do Evangelho neste momento não implica necessariamente na rejeição absoluta. Esta convicção nos estimula a trabalhar com fervor e alegre perseverança:

 

Visto que a conversão de uma pessoa está nas mãos de Deus, quem sabe se aqueles que hoje parecem empedernidos subitamente não sejam transformados pelo poder de Deus em pessoas diferentes? E assim, ao recordarmos que o arrependimento é dom e obra de Deus, acalentaremos esperança mais viva e, encorajados por essa certeza, aceleraremos nosso labor e cuidaremos da instrução dos rebeldes. Devemos encará-lo da seguinte forma: é nosso dever semear e regar e, enquanto o fazemos, devemos esperar que Deus dê o crescimento (1Co 3.6). Portanto, nossos esforços e labores são por si sós infrutíferos; e no entanto, pela graça de Deus, não são infrutíferos.[23]

 

A nossa responsabilidade é clara na concepção do reformador: “É nosso dever proclamar a bondade de Deus a toda nação”.[24]

 

A Academia tornou-se grandemente respeitada em toda a Europa.  O grau concedido aos seus alunos era amplamente aceito e considerado em universidades de países protestantes como, por exemplo, na Holanda. O historiador católico Marc Venard, (1929-2014) comenta que a Academia “será daí em diante um viveiro de pastores para toda a Europa reformada”.[25] A Academia contribuiu em grandes proporções para fazer de Genebra “um dos faróis do Ocidente” admite o católico Daniel-Rops (1901-1965).[26]  A formação dada em Genebra era intelectual e espiritual; os alunos participavam dos cultos das quartas-feiras bem como em todos os três cultos prestados a Deus no domingo.[27] Um escritor referiu-se a Genebra deste modo: “Deus fez de Genebra Sua Belém, isto é, Sua casa do pão”.[28]

 

Gaffarel (1843-1920) em notícia bibliográfica à edição francesa da obra do missionário Jean de Léry (1534-1611), escreveu com clareza em 1878:

 

Da França, da Itália, da Inglaterra, da Espanha e até da Polônia acorreram inúmeros prosélitos. Genebra tornou-se a cidadela do protestantismo e foi nessa fonte ardente, de fé e eloquência que ardorosos missionários vieram buscar sua inspiração, a fim de espalhar em seguida, mundo afora, a doutrina e as ideias do mestre.[29]

 

Sem dúvida, entre os Reformadores, Calvino foi quem mais amplamente compreendeu a abrangência das implicações do Evangelho, nas diversas facetas da vida humana,[30] entendendo que “o Evangelho não é uma doutrina de língua, senão de vida. Não pode assimilar-se somente por meio da razão e da memória, senão que chega a compreender-se de forma total quando ele possui toda a alma, e penetra no mais íntimo recesso do coração”.[31]

 

Cabe a nós, portanto, pregar o Evangelho com sinceridade, de forma inteligente, com amor e entusiasmo. Quanto aos resultados, estes pertencem a Deus, escapam da nossa esfera de ação.[32]

 

 

São Paulo, 04 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 *Leia esta série completa aqui.


[1] S.L. Morris, The relation of Calvin and Calvinism to Missions: In: R.E. Magill, ed., Calvin Memorial Addresses, Richimond VA.: Presbyterian Committee of Publication, 1909, p. 133.

[2] Vejam-se detalhes em Alister E. McGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 211-213.

[3] Cf. Alister E. McGrath, A Vida de João Calvino, p. 211.

[4] Robert-M. Kingdon; J.F. Bergier, Registres de La Compagnie des Pasteurs de Genève au Temps de Calvin, Tome II, 1553-1564, Genève: Librairie E. Droz, 1962, p. 62-63.

[5] Cf. Jean de Léry, Viagem à Terra do Brasil, 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, (1960), p. 51-52. Léry narra que “Ao receber as suas cartas e ouvir as notícias trazidas, a igreja de Genebra rendeu antes de mais nada graças ao Eterno pela dilatação do reino de Jesus Cristo em país tão longínquo, em terra estranha e entre um povo que ignorava inteiramente o verdadeiro Deus” (p. 51).

[6] Antes de aderir ao protestantismo era monge carmelita e doutor em teologia. Calvino achava que ele tinha algum problema no cérebro (Carta a Farel de 14/02/1558). Carta 2814. In: Herman J. Selderhuis, ed., Calvini Opera Database 1.0, Netherlands: Instituut voor Reformatieonderzoek, 2005, v. 17).

[7] Posteriormente Calvino demonstrou ter dúvida quanto à integridade de Chartier (Carta a Macarius de 15/03/1558). Carta 2833. In: Herman J. Selderhuis, ed., Calvini Opera Database 1.0, Netherlands: Instituut voor Reformatieonderzoek, 2005, v. 17). Macarius (pastor Jean Macard), no entanto, depois de investigar, atesta a fidelidade de Chartier (Cartas de Macarius a Calvino de 21/03/1558 e 27/03/1558). Cartas 2838 e 2841. In: Herman J. Selderhuis, ed., Calvini Opera Database 1.0, Netherlands: Instituut voor Reformatieonderzoek, 2005, v. 17).

[8] Robert-M. Kingdon; J.F. Bergier, Registres de La Compagnie des Pasteurs de Genève au Temps de Calvin, Tome II, 1553-1564, Genève: Librairie E. Droz, 1962, p. 68.

[9]Veja-se: Frans L. Schalkwijk, O Brasil na Correspondência de Calvino: In: Fides Reformata, São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, IX/1 (2004) 101-128. Vejam-se também as explicações a respeito dos pseudônimos e fac-símiles das respectivas assinaturas in: Emile Doumergue, Jean Calvin: Les hommes et les choses de son temps, Lausanne: Georges Bridel & Cie Editerurs, 1899, v. 1, p. 558-573 (Apêndice nº VIII).

[10]Veja-se: Philip E. Hughes, John Calvin: Director of Missions: In: John H. Bratt., org. The Heritage of John Calvin, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1973, p. 44-45.

[11] Cf. Carl Lindberg, As Reformas na Europa, São Leopoldo, RS.: Sinodal, 2001, p. 337.

[12]Steven J. Lawson, A Arte Expositiva de João Calvino, São José dos Campos, SP.: Fiel, © 2008, 2010, p. 26.

[13] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Edições Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 102.21), p. 581.

[14] Cf. John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 7, (Is 2.4), p. 99. Do mesmo modo: John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), (Mq 4.3), p. 101.

[15]João Calvino, As Pastorais, (1Tm 2.4), p. 60. Ver também: John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. XII, (Ez 18.23), p. 246-249.

[16] João Calvino, As Pastorais, (1Tm 2.5), p. 62.

[17]John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. XVII, (Mt 28.19), p. 384.

[18]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 124.

[19] Ver: John Calvin, Commentary on the Prophet Micah. In: John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), (Mq 4.1-2), p. 101.

[20] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 96.1), p. 514-515.

[21] João Calvino, As Institutas, III.23.14. Do mesmo modo assevera Packer: “Até onde os cristãos saibam, os reprovados não têm face, não nos cabendo tentar identificá-los. Devemos, antes, viver à luz da certeza de que qualquer um pode ser salvo, se ele ou ela arrepender-se e colocar sua fé em Cristo.

“Devemos ver todas as pessoas que encontramos como possivelmente incluídas entre os eleitos” (Eleição: In: J.I. Packer, Teologia Concisa: Síntese dos Fundamentos Históricos da Fé Cristã, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 142).

[22]Veja-se: Hermisten M.P. Costa, Breve Teologia da Evangelização, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996. O conceituado teólogo batista Millard Erickson, conclui: “A predestinação não anula o incentivo para a evangelização e as missões. Não sabemos quem são os eleitos e os não eleitos, portanto, precisamos continuar a divulgar a Palavra. Nossos esforços evangelísticos são os meios que Deus usa para levar a salvação aos eleitos. A ordenação de Deus para o fim também inclui a ordenação dos meios para atingir tal fim. O conhecimento de que as missões são o meio de Deus é uma forte motivação para o empenho e nos dá confiança de que será bem-sucedido” (Millard J. Erickson, Introdução à Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 390).

[23]João Calvino, As Pastorais, (2Tm 2.25), p. 246-247.

[24]John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 7, (Is 12.5), p. 403.

[25] Marc Venard, O Concílio Lateranense V e o Tridentino. In: Giuseppe Alberigo org. História dos Concílios Ecumênicos, São Paulo: Paulus, 1995, p. 339. Do mesmo modo escreve Willemart: “Genebra torna-se o centro de formação dos pastores que serão enviados para todas as comunidades francesas e que permitirão a unidade da Igreja Evangélica Reformada” (Philippe Willemart, A Idade Média e a Renascença na literatura francesa, São Paulo: Annablume, 2000, p. 42).

[26]Daniel-Rops, A Igreja da Renascença e da Reforma: I. A reforma protestante, São Paulo: Quadrante, 1996, p. 414.

[27]Cf. Charles W. Baird, A Liturgia Reformada: Ensaio histórico, Santa Bárbara D’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 29.

[28] Apud Charles W. Baird, A Liturgia Reformada: Ensaio histórico, p. 30.

[29] Paul Gaffarel, Notícias Biográficas: In: Jean de Léry, Viagem à terra do Brasil, 2. ed. São Paulo: Livraria Martins Fontes, (1951), p. 11.

[30] Veja-se: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 28; Wilson C. Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1985, p. 188-189.

[31]John Calvin, Golden Booklet of the True Christian Life, 6. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1977, p. 17. Do mesmo modo, ver: João Calvino, As Pastorais, (Fm 6), p. 368.

[32] Vejam-se: J. Calvino, As Institutas, II.5.5,7; III.24.2,15.

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