Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (41) – Final

Considerações finais (Continuação)

     Não podemos perder a dimensão de que todo o saber pertence a Deus. Ele rege a história e os acontecimentos aparentemente fortuitos. Se, como vimos, toda verdade pertence a Deus, como esboçou Justino, elaborou este pensamento mais tarde Agostinho, e o plenificou Calvino, podemos nos valer das contribuições que não por acaso, ocorreram no mundo “pagão”, porque se elas forem verdadeiras provieram de Deus. O pensamento cristão nos liberta do exclusivismo de guetos, quer acadêmicos, quer religiosos (conservadores ou liberais), que inibem a pesquisa e nos impede de uma visão mais plena da verdade de Deus, esteja onde estiver, surja onde surgir. Cristo e a sua Palavra se constituem nos aferidores de toda verdade. Jesus Cristo é o verdadeiro e absoluto cânon da verdade!

     A mensagem cristã parte do princípio da soberania de Deus sobre todas as coisas, por isso, nada existe nesse mundo que não pertença a Deus. A igreja como instituição missionária avança em todas as direções levando o Evangelho porque o mundo pertence a Deus.

     As “extremidades da terra” (Sl 2.8) são possessões do Senhor. Não há quem possa dizer-lhe: isto não lhe pertence. Não há um centímetro sequer de toda a criação que não seja abrangido pela totalidade do poder governativo de Deus.[1] Tudo pertence a Deus. Nenhum rei “governa senão pela vontade de Deus”.[2] Portanto, reivindicar qualquer autonomia ou qualquer forma de exclusão do poder de Deus. Mantendo-o alheio, consiste em um atentado à sua soberania.[3]

     Kuiper (1886-1966), observa que a declaração do Cristo ressurreto: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18), prefacia o mandamento evangelístico. “Isso torna a Grande Comissão uma afirmação da soberania mediatária de Cristo”.[4]

     Aqui vemos estampada parte da esfera do domínio de Cristo. Ele manda a Igreja evangelizar todo o mundo, porque o mundo todo lhe pertence. Ele é o Senhor! A Boa Nova do Evangelho envolve a mensagem de ambos os testamentos: Deus é o Senhor de toda realidade e de toda verdade.

     O senso de urgência da Igreja deve ser derivado do senso de urgência de Deus. A Missão é de Deus que se agencia por meio da Igreja.[5] A eleição do povo de Deus é para o serviço de Deus na sociedade. 

     A doutrina da vocação é o fundamento da teologia da vida cristã. Deus em seu amor eterno urgencia com a igreja a que compartilhe com todos, de forma “centrífuga” esta mensagem.[6]  A Pessoa de Cristo tem em si mesma e consequentemente em sua obra a força centrípeta que nos atrai e, num processo natural desta atração transformadora, exerce a sua força centrífuga que nos conduz a anunciar a Sua pessoa e os seus feitos gloriosos e redentores entre todos os povos.

     No Novo Testamento, Paulo instrui a Timóteo: “Prega a palavra (…) Pois haverá tempo (kairo/j)[7] em que não suportarão a sã doutrina” (2Tm 4.2,3). Hoje ainda temos ouvintes; mas, até quando? Hoje temos aqueles ouvintes; mas por quanto tempo? Pois haverá tempo (kairo/j) em que não suportarão a sã doutrina”.

     Aquelas pessoas que hoje ouvem a Palavra com interesse e avidez poderão não ouvir em outras épocas ou circunstâncias, daí a nossa responsabilidade de anunciar hoje a Palavra de Deus. “A Escritura nos adverte que, na perspectiva de Deus, o tempo é curto, a necessidade é grande e a tarefa é urgente”, alerta-nos Stott (1921-2011).[8]

     O senso de urgência deve nos levar a falar como se aquela fosse a última vez. A mensagem cristã deve ter sempre uma conotação de apelo ao homem para que assuma, pela graça de Deus, uma posição favorável e submissa à Sua Palavra. Contudo, devemos nos lembrar, conforme ensina-nos Kuiper (1886-1966), de que “o motivo da urgência da evangelização jaz em Deus. Porque Ele é quem é, insiste urgentemente com os pecadores para que se convertam a Ele”.[9]

Maringá, 13 de dezembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]É bastante conhecida a declaração de Kuyper, quando, realizando um antigo sonho, falou na Aula Inaugural na Universidade Livre de Amsterdã em 20 de outubro1880, expressando a sua cosmovisão que caracterizaria aquela Instituição: Nenhuma única parte do nosso universo mental deve ser hermeticamente fechado do restante. (…) Não existe um centímetro quadrado no domínio inteiro de nossa existência humana sobre o qual Cristo, que é Soberano sobre tudo, não reivindique: ‘É meu!’” (Abraham Kuyper, Sphere Sovereignty: In: James D. Bratt, ed. Abraham Kuyper: A centennial reader, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1998, p. 488).

[2]João Calvino, O Profeta Daniel: Capítulos 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, (Dn 2.36-39), p. 148.

[3] Veja-se: Vern S. Poythress, O Senhorio de Cristo: servindo o nosso Senhor o tempo todo, com toda a vida e de todo o nosso coração, Brasília, DF.: Monergismo, 2019, p. 13-14.

[4]R.B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1976, p. 46. Do mesmo modo: John Stott, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo,São Paulo: ABU Editora, 1997, p. 408-409.

[5] “Todos nós deveríamos concordar que a missão surge primariamente da natureza de Deus e não da natureza da Igreja” (John R.W. Stott, A Missão Cristã no Mundo Moderno, Viçosa, MG.: Ultimato, 2010, p. 24). “A missão primordial é a de Deus, pois foi Ele quem mandou seus profetas, seu Filho, seu Espírito” (John R.W. Stott, A Missão Cristã no Mundo Moderno, p. 25).

[6] Vejam-se: J. Blauw, A Natureza Missionária da Igreja, São Paulo: ASTE., 1966, p. 34ss.; John R.W. Stott, A Missão Cristã no Mundo Moderno, p. 24ss.

[7]A ideia da palavra é de “oportunidade”, “tempo certo”, “tempo favorável”, etc. (Vejam-se: Mt 24.45; Mc 12.2; Lc 20.10; Jo 7.6,8; At 24.25; Gl 6.10; Cl 4.5; Hb 11.15). Ela enfatiza mais o conteúdo do tempo. Este termo que ocorre 85 vezes no NT. é mais comumente traduzido por “tempo”, surgindo, então, algumas variantes, indicando a ideia de oportunidade. Assim temos (Almeida Revista e Atualizada): Tempo e tempos: Mt 8.29; 11.25; 12.1; 13.30; 14.1; Lc 21.24; At 3.20; 17.26; “Devidos tempos”: Mt 21.41; “Tempo determinado”: Ap 11.18; “Momento oportuno”: Lc 4.13; “Tempo oportuno”: Hb 9.10; 1Pe 5.6; Oportunidade: Lc 19.44; Gl 6.10; Cl 4.5; Hb 11.15; Devido tempo: Lc 20.10; Presente: Mc 10.30; Lc 18.30; “Circunstâncias oportunas”: 1Pe 1.11; Algum tempo: Lc 8.13; Hora: Lc 8.13; 21.8; Época: Lc 12.56; At 1.7; 1Ts 5.1 (Xro/nwn kai\ tw=n kairw=n); 1Tm 6.15; Hb 9.9; Ocasião: Lc 13.1; 2Ts 2.6; 1Pe 4.17; Estações: At 14.17; Vagar: At 24.25; Avançado: Hb 11.11.

[8] John Stott, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo,São Paulo: ABU Editora, 1997, p. 417.

[9]R.B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1976, p. 71.

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