Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (10) – A Doutrina de Cristo antes da Reforma – Um panorama histórico (3)

Este artigo é continuação do: Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (9) – A Doutrina de Cristo antes da Reforma – Um panorama histórico (2)

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E. O Apolinarismo

Nome derivado de Apolinário, o jovem (c. 310-c.390) bispo de Laodicéia, na Síria (c. 360), tendo seus ensinamentos condenados em vários Concílios: Alexandria (362) (aqui somente o apolinarismo, não Apolinário; o seu nome não foi mencionado);[1] Roma (377)[2] (Apolinário e o apolinarismo); Antioquia (378), no 2º Concílio Ecumênico de Constantinopla (381) (Apolinário e o apolinarismo). Atanásio (c 296-373), mais uma vez foi o campeão da ortodoxia do século IV, escrevendo contra esta heresia (371).[3] Ainda que alguns apolinaristas voltassem à Igreja, Apolinário conseguiu adeptos que perseveraram em seus ensinamentos;[4] um de seus discípulos, Vitális, fundou uma congregação em Antioquia (375), sendo consagrado bispo por Apolinário. “Os apolinarianos tiveram pelo menos um sínodo em 378, e há evidência no sentido de ter ocorrido um segundo sínodo. Depois da morte de Apolinário, seus seguidores dividiram-se em dois partidos, os vitalianos e os polemeanos ou sinusiatos. Por volta de 420, os vitalianos já estavam reunidos com a Igreja Grega. Pouco mais tarde, os sinusiatos fundiram-se no cisma monofisita”.[5]

 

Devido à sua concepção tricotômica do homem, bem como o seu desejo de preservar a divindade e a unipersonalidade de Cristo, terminou por concebê-Lo como sendo totalmente divino e apenas 2/3 humano. Baseando-se supostamente em Jo 1.14, admitiu que Jesus era uma unidade composta de elementos divinos e humanos; o Verbo divino teria assumido apenas a carne humana, não toda a humanidade; deste modo Jesus, ainda que humano fisicamente, não o era psicologicamente (Veja-se: Millard J. Erickson, Introdução à Teologia Sistemática, p. 291). Esta compreensão pode ser comparada com a ideia de uma alma humana ser implantada num leão; a pergunta é: quem governaria quem; no caso, a alma humana governaria o leão em seu corpo.[6]

 

A ideia de total humanidade envolvia o conceito de pecaminosidade, por isso, a sua tentativa de resguardar o Filho (Cf. Louis Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, p. 94). Para ele, o homem era constituído de Sw=ma (carne ou corpo); Yuxh/ (alma animal) e Pneu=ma (alma racional). O Pneu=ma é que torna o homem o que ele é. Aplicando estes conceitos a Jesus, Apolinário dizia que Jesus tinha Sw=ma e Yuxh/ iguais a de um homem comum; já o Pneu=ma fora substituído pelo Lo/goj (Logos); assim, Jesus possuía um corpo, uma alma, mas não possuía um espírito humano.

 

Kelly acentua que Apolinário deixa claro o seu pensamento nas seguintes considerações:

 

A carne por depender de algum outro princípio de movimento e ação (qualquer que seja este princípio) para se movimentar, não é por si só uma entidade viva completa, mas, a fim de se tornar uma, entra em fusão com alguma outra coisa. Dessa maneira, ela se uniu ao princípio celestial governante (isto é, o Logos) e fundiu-se com ele… Assim, a partir do movido e do motor, foi composta uma única entidade viva – não duas entidades, nem uma única composta de dois princípios completos e automáticos.[7]

 

Assim, para Apolinário há uma única vida; uma perfeita fusão do homem (carne) com o divino, sendo a carne de Jesus glorificada pelo Logos, daí ele falar de “carne divina”, “carne de Deus”, “natureza encarnada da Palavra divina” (Veja-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 221-222).

 

Os ensinamentos de Apolinário foram censurados pelo fato de que se o Logos não tomou sobre si a integridade da natureza humana – estando toda ela afetada pelo pecado –, esta natureza não poderia ser redimida, visto que aquilo que o Filho não levou sobre si não pode ser alvo de sua redenção.[8]

 

Pintura de parede do século VII ou VIII em uma igreja nestoriana na China (Wikipedia)

F. Nestorianismo

Nome proveniente de Nestório (380-451), Bispo de Constantinopla (428-431). Adversário voraz do Arianismo, seu primeiro ato oficial como patriarca foi incendiar uma capela ariana (Cf. H. Griffith, Nestório, Nestorianismo: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, v. 3, p. 18).

 

Nestório, numa série de sermões proferidos em 428, combateu uma designação popular dada à Maria de “Qeoto/koj” (“Mãe de Deus”). (Cf. H. Griffith, Nestório, Nestorianismo: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, v. 3, p. 18). Esta fórmula seria usada pouco depois pelo Concílio de Éfeso (431), alcunhada por Cirilo de Alexandria.[9]

 

Deve ser dito que o Concílio de Éfeso utilizou esta expressão não como uma atribuição de majestade a Maria,[10] mas como reconhecimento de que o que dela nasceu, por obra do Espírito Santo, era o Filho de Deus, o Deus encarnado desde à concepção. A expressão também ressalta que Maria não foi mãe simplesmente da natureza humana de Jesus, mas sim da pessoa Teantrópica de Jesus Cristo (Cf. P. Schaff, The Creeds of Christendom, v. 2, p. 64). A expressão é boa? Não. Talvez ela seja inspirada em Lc 1.43, quando Isabel diz à Maria, grávida: “E de onde me provém que me venha visitar a mãe do meu Senhor?” (Lc 1.43). Contudo, foi a melhor que se pôde elaborar naquele contexto para expressar a afirmação desta verdade bíblica. Parece-nos melhor a declaração de que Maria é mãe de Jesus Cristo, Aquele que é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. O fato é que mesmo involuntariamente, o Concílio de Éfeso contribuiu para a deificação de Maria (Cf. Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Editora Hagnos, 2001, p. 1235-1236).

 

Nestório, por sua vez – fugindo do que considerava o extremo oposto, que dizia ser Maria “a)nqropoto/koj” (“Mãe do homem”)[11] – entendia que a expressão correta seria “Xristoto/koj” (“Mãe de Cristo”) (Ver: G. C. Berkouwer. A Pessoa de Cristo, São Paulo: ASTE, 1964, p. 218-219), ou mesmo, “Qeodo/xoj” (“que recebe[12] a Deus”), por considerar distintas as qualidades da divindade e da humanidade. Deste modo, aceitando a sua posição, podemos perceber logo de início o problema da encarnação do Verbo: o menino que nasceu de Maria era Deus-Homem?.

 

Nestório, tentando refutar o Eutiquianismo, ensinava (?)[13] que Jesus Cristo era constituído de duas pessoas e duas naturezas. Sustentava que cada uma das duas naturezas de Jesus tinha a sua própria subsistência e personalidade; a união entre elas não era ontológica, mas apenas moral, simpática e afetiva.

 

Os seus ensinamentos foram rejeitados no Concílio de Éfeso (431) e de Calcedônia (451). Ele foi mandado para um mosteiro em Antioquia, depois exilado (435/436) na distante cidade de Petra, na Arábia, e finalmente foi para o oásis de Upper, no Egito, onde passaria o resto de seus dias.[14]

 

O Nestorianismo permaneceu na Pérsia, onde seus seguidores estabeleceram um eficiente trabalho missionário que permitiu a sua proliferação na Arábia, Índia, Turquestão e China, espalhando-se por diversas regiões da Ásia. Ainda hoje sobrevive o Nestorianismo (“Caldeus Uniatos”) na Mesopotâmia, Pérsia e Síria, havendo um grupo alinhado com a Igreja de Roma e outro independente (“Igreja Nestoriana Não-Unida”).

 

G. Eutiquianismo

 

Nome derivado de Êutico (= Eutiques, Eutíquio) (c.378-454), arquimadrita[15] de um mosteiro em Constantinopla, discípulo de Cirilo de Alexandria. A sua doutrina consiste numa reação ao Nestorianismo. Ele sustentou que a encarnação é o resultado da fusão do divino com o humano em Jesus, sendo a natureza humana absorvida pela divina, ou que desta fusão surgisse uma nova substância “híbrida”;[16] um “terceiro tipo de natureza.”[17] Assim, sua posição envolvia uma pessoa e uma natureza. Ele foi o fundador do “Monofisismo”: Cristo tem uma única natureza; a divina revestida de carne humana. Observem que dentro desta perspectiva, Jesus não salvaria ninguém, já que Ele não seria verdadeiro homem nem verdadeiro Deus…

 

O Eutiquianismo foi condenado no Sínodo Permanente de Constantinopla (22/11/448).[18] Todavia, em outro Concílio, convocado pelo imperador Teodósio II (408-450), realizado em Éfeso (08/449), Êutico foi reabilitado.[19] Isto ocorreu à revelia do bispo de Roma Leão I, “o Grande”,[20] que havia elaborado uma “Carta Dogmática” ouTomo[21] (13/06/449) combatendo a doutrina da natureza única de Cristo. Dióscoro, sucessor de Cirilo († 444) como patriarca de Antioquia, foi quem presidiu este Concílio – com plenos poderes imperiais[22] –, impedindo inclusive que os três legados do bispo de Roma lessem a sua “Carta Dogmática” perante o Concílio.[23]

 

No entanto, dois anos depois, foi convocado o Concílio de Calcedônia (23/05/451)[24] pelo imperador Marciano, que casou-se com Pulquéria (irmã do imperador Teodósio II, falecido prematuramente numa queda de cavalo (28/07/450)). Calcedônia anulou a decisão de Éfeso e o invalidou como Concílio verdadeiramente ecumênico, condenando o Eutiquianismo, exilando Êutico e Dióscoro. Contudo, o Eutiquianismo continuou vigorando como ensinamento genuíno na Igreja Egípcia.

 

São Paulo, 26 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

 

[1] Cf. Herzog, Appolinarianism: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, Chicago: Funk Wagnalls, Publishers, 1887 (Revised Edition), v. 1, p. 109.

[2] Em 376 foi censurado pelo Papa Damaso I. Foi então que Atanásio desenvolveu a sua obra, Demonstração da Encarnação Divina, firmando a sua posição.

[3]Cf. Herzog, Appolinarianism: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, v. 1, p. 109.

[4]Cf. Herzog, Appolinarianism: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, v. 1, p. 109.

[5] V.L. Walter, Apolinarismo: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 1, p. 98.

[6] Veja-se: Loraine Boettner, Studies in Theology, 9. ed. Philadelphia, The Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1970, p. 263.

[7] Apud J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 220.

[8] Vejam-se: Louis Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, p. 94-95; Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 458.

[9] Quanto aos possíveis empregos da expressão antes deste período, ver: Maurice Jourjon; Bernard Meunier, Maria: In: Jean-Yves Lacoste, dir. Dicionário Crítico de Teologia, São Paulo: Paulinas/Loyola, 2004, p. 1095; G.I. Söll, et. al. Maria: In: Angelo Di Berardino, org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Petrópolis, RJ.; São Paulo: Vozes; Paulus, 2002, p. 885-886.

[10] O que viria a acontecer por volta do sexto século, quando Maria começaria a ser adorada (Cf. W.C.G. Proctor, Madre de Dios: In: E.F. Harrison, ed. Diccionario de Teologia, Grand Rapids, Michigan: T.E.L..L., 1985, p. 325).

[11] Cf. Lorenzo Perrone, De Nicéia (325) a Calcedônia (451): In: Giuseppe Alberingo, org. História dos Concílios Ecumênicos, São Paulo: Paulus, 1995, p. 74.

[12] Proveniente de “Doxh/”, “recipiente”, “vasilha”, “depósito”. (A palavra é usada no NT. com o sentido de “banquete” (* Lc 5.29; 14.13))

[13]Em 1895 descobriu-se na Síria um escrito de Nestório, O Livro de Heraclides, (publicado em 1910) no qual ele ensina algo que vai justamente de encontro à heresia que supunham que ele sustentava. Referindo-se a Cristo, Nestório afirma que “o mesmo que é um é duplo”; ele também se dizia satisfeito com a Cristologia de Calcedônia. Na atualidade os estudiosos estão divididos quanto à interpretação de seu pensamento e, consequentemente, se foi justo ou não condená-lo. (Vejam-se: H. Griffith, Nestório, Nestorianismo: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, v. 3, p. 19; J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento,p. 235-240; B. Hägllund, História da Teologia, Porto Alegre, RS.: Concórdia, 1973, p. 79-82; G.C. Berkouwer, A Pessoa de Cristo, São Paulo: ASTE, 1964, p. 54; Johannes Quasten, Patrology, 7. ed. Westminster, Maryland: Christian Classics. INC., 1994, v. 3, p. 516; Charles Hodge, Teologia Sistemática, p. 781-782).

[14] Cf. Justo L. Gonzalez, A Era das Trevas, p. 96; W. Möller, Nestorius: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, v. 2, p. 1630b.

[15] Arquimadrita, significava, na Igreja oriental, o chefe de um ou mais mosteiros. O título também se aplicava aos padres celibatários de destaque.

[16] Cf. Millard J. Erickson, Introdução à Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 303.

[17]Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, p. 459.

[18]Lorenzo Perrone, De Nicéia (325) a Calcedônia (451): In: Giuseppe Alberingo, org. História dos Concílios Ecumênicos, p. 87. Quanto às articulações políticas de Dióscoro, patriarca de Antioquia, neste Concílio, Vejam-se: Ibidem., p. 88ss.; Justo L. Gonzalez, A Era das Trevas, p. 98.

[19] Vejam-se: Lorenzo Perrone, De Nicéia (325) a Calcedônia (451): In: Giuseppe Alberingo, org. História dos Concílios Ecumênicos, p. 89-90.

[20]Latourette diz que Leão I “foi um dos homens mais capazes que já ocuparam o chamado trono de Pedro” (Kenneth S. Latourette, Historia del Cristianismo,v. 1, p. 220).

[21] Este “Tomo”, que Berkhof chama de “um compêndio da cristologia ocidental”, contribuiria decisivamente para a formulação de Calcedônia (Veja-se: Louis Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, p. 97-98). Do mesmo modo, declara Perrone: “O Tomus ad Flavianum representa uma contribuição decisiva para a solução da questão cristológica, tal como tomará forma na definição de Calcedônia” (Lorenzo Perrone, De Nicéia (325) a Calcedônia (451): In: Giuseppe Alberingo, org. História dos Concílios Ecumênicos, p. 88). Boa parte deste “Tomo”, encontra-se In: H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, p. 83-86.

[22] Veja-se: Justo L. Gonzalez, A Era das Trevas, São Paulo: Vida Nova, (Uma História Ilustrada do Cristianismo), 1980-1988, p. 98.

[23] Este Concílio seria conhecido na História como o “Sínodo dos Ladrões”, alcunha dada por Leão, bispo de Roma, em carta dirigida a Pulquéria, irmã do imperador Teodósio II, em 20/07/451. Isto porque a sua decisão não coincidia com a ortodoxia da Igreja e também, porque o seu documento não foi lido. (Vejam-se mais detalhes, In: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 249-252; Justo L. Gonzalez, A Era das Trevas, p. 98-99).

[24] O Concílio foi convocado primariamente para realizar-se em Nicéia, todavia, em 22/09/451, transfere-o para Calcedônia. (Cf. Lorenzo Perrone, De Nicéia (325) a Calcedônia (451): In: Giuseppe Alberingo, org. História dos Concílios Ecumênicos, p. 93).

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (9) – A Doutrina de Cristo antes da Reforma – Um panorama histórico (2)

Este artigo é continuação do: Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (8) – A Doutrina de Cristo antes da Reforma – Um panorama histórico (1))

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C. Monarquianismo

 

 O nome é derivado de duas palavras gregas, mo/noj & a)rxh/, daí, “Um só Princípio”, “Um só Deus”. O Monarquianismo modalista foi a heresia mais influente do terceiro século.[1]

 

A sua preocupação era a defesa do monoteísmo, negando toda e qualquer ideia de diversidade no Ser divino, daí a tentativa de conciliar a doutrina do “Logos”, com a unicidade de Deus.

 

Os monarquianos criam numa espécie de divindade de Jesus (monarquianismo dinâmico),[2] contudo afirmavam ser a Trindade irreconciliável com a unidade de Deus. Dentro desta perspectiva, não há relação trinitária e está totalmente fora de questão a doutrina da Expiação e da intercessão do Espírito.

 

1. Monarquianismo Dinâmico: Também conhecido como “Humanitariano”. Seu primeiro representante foi o curtidor Teodoto, que chegou a Roma de Bizâncio no ano 190, como resultado de uma perseguição. Teodoto foi excomungado pelo bispo de Roma, Vítor (186-198). Contudo, suas ideias foram preservadas e difundidas por outro Teodoto, banqueiro, e um tal Asclepiodoto.[3] No entanto, o mais destacado defensor desta doutrina foi Paulo de Samosata, bispo de Antioquia por volta do ano 260.

 

Paulo de Samosata ensinava que Jesus era originariamente um mero homem,[4] sendo elevado a uma posição superior no batismo, quando recebeu o poder (“du/namij“) do céu. Este poder, que passou a residir na pessoa humana de Jesus – como em mero recipiente –, qualificou-o para uma tarefa especial. Assim, Jesus foi elevado a uma posição intermediária entre Deus e os homens, no entanto, Jesus não é essencialmente divino. A consciência de ser o portador do Logos, foi crescendo gradativamente em Jesus a partir do seu batismo. O Logos o capacitou a exercer um ministério especial e era Ele quem controlava todas as palavras e obras de Jesus.

 

Na visão deles, Jesus era o filho adotivo de Deus; portanto, a sua “divindade” era apenas de honra, de adoção e não de essência; ela ocorria pela graça. No entanto, dentro da plenitude da revelação bíblica, não há lugar para nenhum tipo de teologia adocionista. O fato bíblico é o oposto: O verbo eterno de Deus se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.14). A encarnação tem início lá em cima, de onde vem o nosso Senhor (Jo 8.23) (Veja-se: Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 52-53).

 

Essa teologia adopcionista foi condenada no Sínodo de Antioquia (268), sendo ele excomungado (Eusébio, Historia Eclesiastica, Madrid: La Editorial Catolica, [Biblioteca de Autores Cristianos, v. 349-350], 1973, VII.29.1).

 

2. Monarquianismo Modalista: Seu principal representante foi Sabélio, presbítero de Ptolemaida (250), tendo ensinado em Roma por volta do ano 215.

 

Esta forma de modalismo, foi conhecida no Ocidente como “Patripassianismo” (O Pai se encarnou e também sofreu)[5] e no Oriente como “Sabelianismo“.

 

Para Sabélio não havia Trindade; Pai, Filho e Espírito Santo eram apenas nomes diferentes para a mesma realidade; deste modo, os três eram apenas (Pro/swpata) (semblantes, faces) e não seres independentes (Veja-se: P. Tillich, História do Pensamento Cristão, São Paulo: ASTE., 1988, p. 73). Ele considerava as três Pessoas da Trindade como três diferentes modos de ação ou manifestação divina, as quais Deus assume sucessivamente, revelando-se como Pai na criação e na doação da Lei; como Filho na encarnação[6] e como Espírito na regeneração e santificação. Deus na realidade seria como um ator representando três papéis no enredo da história revelacional; três máscaras para três personagens encenados pelo mesmo ator.[7] Deste modo há apenas uma única Pessoa; ficando a Trindade reduzida a três modos de manifestação.

 

Epifânio, bispo de Salamis, descrevendo os ensinamentos do Sabelianismo, escreveu por volta do ano 375:        “Ensinam que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são uma só e mesma essência, três nomes apenas dados a uma só e mesma substância”.

 

À frente, Epifânio cita uma analogia utilizada:

 

Tome-se o sol: o sol é uma só substância, mas com tríplice manifestação: luz, calor e globo solar. O calor… é (análogo a) o Espírito; a luz, ao Filho; enquanto o Pai é representado pela verdadeira substância. Em certo momento, o Filho foi emitido como um raio de luz; cumpriu no mundo o que cabia à dispensação do Evangelho e à salvação dos homens, e retirou-se para os céus, semelhantemente ao raio enviado pelo sol que é novamente incorporado a ele. O Espírito Santo é enviado mais sigilosamente ao mundo e, sucessivamente, aos indivíduos dignos de o receberem.[8]

 

Implicações desta doutrina:

 

1) Não há Trindade.

2) As três formas de Revelação não são coeternas.

3) Há apenas três MODOS da mesma Pessoa, e não três Pessoas.

 

D. Arianismo

Nome derivado de seu maior representante, Ário (c. 250-c.336), natural da Líbia e educado em Antioquia da Síria, tendo como mestre a figura enigmática de Luciano de Antioquia († 312), que teria sido discípulo de Paulo de Samosata (Cf. J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 174).

 

Ário teve os seus ensinamentos condenados em Antioquia (02/325); e no Primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia (20/05/325), sendo então deportado para o Ilírico. Mesmo no exílio, ele continuou escrevendo, aumentando consideravelmente a sua influência, contando sempre com um bom número de amigos fiéis, sendo o grande articulador político do grupo ariano, o bispo Eusébio de Nicomédia († 342). Em 335, num encontro com Constantino (274-337), Ário subscreveu uma confissão considerada pelo Imperador “ortodoxa”, que na realidade é mais eloquente no seu silêncio.[9] Em 336/337, quando jazia no seu leito de morte em Constantinopla, foi solenemente readmitido à comunhão da Igreja pelo Sínodo de Jerusalém.[10]

 

Atanásio, grande opositor ao Arianismo

O Arianismo a despeito de sua condenação em Nicéia, juntamente com os anátemas emitidos por este Concílio, desfrutou de ampla aceitação no quarto século, só começando a perder força no Concílio de Constantinopla (381), quando a posição de Nicéia foi reafirmada; no entanto, o arianismo permaneceu vivo até o final do século sétimo.[11] Se por um lado o arianismo desfrutou de boa aceitação devido ao grande número de seguidores influentes e a tolerância explícita do imperador – que desejava a tudo custo manter a unidade do império –,[12] ele encontrou um adversário perseverante que, apesar da pequena estatura, tornou-se um gigante na defesa da ortodoxia bíblica: Atanásio (c 296-373), o jovem bispo de Alexandria (328-373),[13] que mesmo sendo perseguido e exilado, conseguiu exercer poderosa influência na teologia ocidental, preservando a unidade da igreja e uma sã teologia bíblica, sustentando a divindade e a humanidade de Jesus.[14]

 

O ponto focal de Ário é de que há um só Deus (Pai) não-gerado, sem começo, único, verdadeiro, único detentor de imortalidade. Para os arianos, Jesus Cristo não era da mesma substância do Pai (o(moou/sioj) (“da mesma natureza”), mas sim de uma substância similar (o(moio/usioj)(“de natureza semelhante”). Esse “iota” grego fazia toda a diferença entre um cristianismo bíblico e um cristianismo forjado pela imaginação do homem.[15]

 

Desta premissa, como observa Kelly (Veja-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 172-174), decorrem quatro outras:

 

1) O Filho é uma criatura; uma criatura perfeita, distinta da criação, mas que veio à existência pela vontade do Pai;

2) Como criatura, o Filho teve um começo. Logo, a afirmação de que Ele era coeterno com o Pai implicaria na existência de dois princípios, o que assinalaria uma negação do monoteísmo;

3) O Filho não tem nenhuma comunhão substancial com o Pai. Ele é uma criatura que recebeu o título de “Palavra” e “Sabedoria” de Deus porque participa da Palavra e Sabedoria essenciais;

4) O Filho está sujeito à mudanças e ao pecado, e poderia cair como o diabo caiu. Contudo, Deus prevendo a sua firmeza de caráter, agiu preventivamente com a Sua graça.

 

Ário e seus discípulos, buscando apoio em textos tais como Jo 1.14; 3.16,18; Cl 1.15; 1Jo 4.9, ensinavam que Deus, o Pai, criou o Filho primeiro e, por meio do Filho criou o Espírito, os homens e o mundo; portanto: Jesus é o primogênito do Pai e o Espírito é o primogênito do Filho. O Filho foi criado do nada; Ele veio à existência antes da fundação do mundo, mas ele não é eterno porque foi criado (Ver: Louis Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 78). Daí o “chavão” ariano: “Tempo houve em que Ele não existia” (Cf. J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 173). Portanto, sendo o Filho criado, não é Deus; consequentemente, Jesus não é da mesma essência ou natureza do Pai. A atribuição de títulos “Deus” e “Filho” feita a Jesus, era apenas de cortesia, resultante da graça.

 

Quando perseguido em 321, Ário buscou ajuda no seu antigo e poderoso amigo, o bispo Eusébio de Nicomédia († 342) – que batizaria o imperador Constantino, moribundo em maio de 337 –, escrevendo: “Somos perseguidos porque afirmamos que o Filho tem um início, enquanto que Deus é sem início (a)/narxoj).[16]

 

O historiador W. Walker (1860-1922), resume a posição de Ário:

 

Para Ário, Cristo era, na verdade, Deus em certo sentido, mas um Deus inferior, de modo algum uno com o Pai em essência ou eternidade. Na encarnação, esse Logos entrou em um corpo humano, tomando o lugar do espírito racional humano.[17]

 

Tillich (1886-1965) especula: “A vitória do arianismo teria transformado o cristianismo em apenas mais uma entre as religiões já existentes” (P. Tillich, História do Pensamento Cristão, p. 77).

 

São Paulo, 26 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 


 

[1] Compare as informações de L. Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, p. 71 com as de J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 89. Berkhof diz que foi Tertuliano o primeiro a dar este designativo (monarquiano) a este tipo de concepção (História das Doutrinas Cristãs, p. 71).

[2] A força propulsora por trás do modalismo era a dupla convicção, defendida com vigor, da unicidade de Deus e da plena divindade de Cristo” (J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 89).

[3]Eusébio, Historia Eclesiastica, Madrid: La Editorial Catolica, (Biblioteca de Autores Cristianos, v. 349-350), 1973, V.28.1-3,6,9.

[4]Eusébio, Historia Eclesiastica, V.28.2; VII.27.2.

[5] Na sua obra contra Práxeas (c. 213), Tertuliano escreveu: “O demônio tem lutado contra a verdade de muitas maneiras, inclusive defendendo-a para melhor destruí-la. Ele defende a unidade de Deus, o onipotente criador do universo, com o fim exclusivo de torná-la herética. Afirma que o próprio Pai desceu ao seio da Virgem, dela nascendo, e que o próprio Pai sofreu; que o Pai, em suma, foi pessoalmente Jesus Cristo…. Práxeas foi quem trouxe esta heresia da Ásia para Roma…. Ele afugentou profecia, e trouxe heresia; expulsou o Paráclito e crucificou o Pai” (Against Praxeas, 1. In: ANF., v. 3, p. 597-598). Devido à obscuridade da pessoa de Práxeas, pensa-se que este nome era apenas um apelido (“intrometido”), dado a algum proponente destas ideias, tais como, Noeto, Epígono ou o papa Calixto (217-222). (Veja-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 90).

[6] Boettner comenta: “A encarnação foi reduzida a ser simplesmente uma união temporária das naturezas Divina e humana no homem, Jesus Cristo” (Loraine Boettner, Studies in Theology, 9. ed. Philadelphia, The Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1970, p. 128).

[7] Ver: Roger Olson, História das Controvérsias na Teologia Cristã: 2000 anos de unidade e diversidade, São Paulo: Editora Vida, 2004, p. 198.

[8]In: H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, São Paulo: ASTE, 1967, p. 71. Do mesmo em: Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 382-383.

[9]Veja-se o texto da sua confissão In: Socrates Scholasticus, The Ecclesiastical History, I.26. In: Philip Schaff; Henry Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of Christian Church, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (reprinted). (Second Series), 1978, v. 2, p. 28-29; Salaminus Hermias Sozomen, The Ecclesiastical History, I.27. In: Philip Schaff; Henry Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of Christian Church, v. 2, p. 277-278; o texto grego está reproduzido In: Philip Schaff, The Creeds of Christendom, 6. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Revised and Enlarged), 1977, v. 2, p. 28-29. Veja-se também, Carlos Ignacio Gonzalez, El Desarrollo Dogmatico en los Concilios Cristologicos, Santafé de Bogotá: CELAM., 1991, p. 316.

[10] Cf. V.L. Walter, Arianismo: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 1, p. 105 e Eusebius of Nicomedia: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, Chicago: Funk Wagnalls, Publishers, 1887 (Revised Edition), v. 1, p. 772-773.

[11]Os visigodos (= godos do oeste) que invadiram e pilharam Roma em 24/08/410, conseguiram com muita dificuldade se manter sobre o território conquistado. Contudo, no período de apogeu, os visigodos estenderam os seus domínios sobre a maior parte da Espanha, comandados pelo rei Eurico (466-484). Os suevos, entretanto, conservaram o seu território independente no extremo noroeste da península. (Cf. Justo L. Gonzalez, A Era das Trevas, São Paulo: Vida Nova, (Uma História Ilustrada do Cristianismo), 1980-1988, v. 3, p. 12. Veja-se também: Vários autores, Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, Madrid, Espasa-Calpe, 70 Vols. (mais apêndices e suplementos), XXI, p. 902).

Apesar do indiscutível domínio dos visigodos, a unificação política dos seus domínios só se desenvolveu satisfatoriamente sob o reinado de Leovigildo (568-586), que estabeleceu a capital em Toledo, derrotando finalmente o reino dos suevos.

Os visigodos eram arianos, tendo sido doutrinados ao norte do Danúbio pelo missionário cristão Ulfilas (311?-383). Embora seja discutida a amplitude da influência do trabalho de Ulfilas sobre os visigodos, o fato é que ela existiu. (Cf. Kenneth S. Latourette, Historia del Cristianismo, 3. ed. Buenos Aires: Casa Bautista de Publicaciones, 1977, v. 1, 174 e Williston Walker, História da Igreja Cristã, São Paulo: ASTE, 1967, v. 1, p. 175. Vejam-se, também: Stephen Neill, História das Missões, São Paulo: Vida Nova, 1989, p. 57 e Ruth A. Tucker, “…Até aos Confins da Terra.”: Uma História Biográfica das Missões Cristãs, São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 36-39). “Os arianos se consideravam a si mesmos como os verdadeiros cristãos e as suas igrejas, como a Igreja Católica” (Kenneth S. Latourette, Historia del Cristianismo, v. 1, p. 399).

Leovigildo tentou impor o arianismo a seus súditos na península; todavia, com a sua morte (21/04/586)(1), encerra-se a sucessão de reis visigodos “arianos”. O seu filho Recaredo I,(2) assume o trono, governando de 586 a 601. Recaredo, que ao que parece, era cristão, declarou-se oficialmente em 587, quando reinava apenas há dez meses. O bispo de Sevilha, Leandro (540-596), por certo, teve grande influência em sua decisão, como também tivera na de seu irmão Hermenegildo (564-586).

Após Recaredo dominar três conspirações arianas, visto que estes não se conformavam com a sua conversão, ele convocou o Terceiro Concílio de Toledo, que se celebrou em 06/05/589, com a assistência de 62 bispos e 5 metropolitanos de Espanha e das Gálias, sendo Leandro de Sevilha (540-596) o grande personagem deste evento. À ocasião, Recaredo e sua esposa Bada, reafirmaram as suas conversões ao catolicismo – proclamando deste modo a conversão de todo o reino –, e muitos outros abjuraram o arianismo, entre eles cinco magnatas e oito bispos. (Veja-se: Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XLIX, p. 1137). Alguns arianos aristocratas fizeram oposição ao rei, todavia, como não dispunham de apoio popular, nada conseguiram. (Cf. Jacques Heers, História Medieval, 3. ed. (corrigida), São Paulo: Difel, 1981, p. 31).

O crescente desaparecimento do arianismo “facilitou a unidade religiosa e cultural da Europa Ocidental”. (Kenneth S. Latourette, Historia del Cristianismo, v. 1, p. 400).

 

*****

 

(1) Parece que Leovigildo se fez católico no leito de morte (Veja-se: Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XXI, p. 904A; XXVII, p. 1205A; XXIX, p. 1234A), entregando seu filho Recaredo aos cuidados espirituais de     Leandro de Sevilha.

(2) O primeiro filho de Leovigildo foi Hermenegildo (564-586), nascido do seu primeiro casamento com a católica Riquilde (Richilde), que teve vida breve (ou Teodora, que segundo alguns, era irmã do bispo Leandro (Cf. Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XXIX, p. 1234a)). Hermenegildo se converteu ao catolicismo por volta do ano 580, mudando o seu nome para João. Mais tarde, por questões políticas e, finalmente, por se negar voltar ao arianismo, rejeitando inclusive, receber a Comunhão das mãos de um bispo ariano, Hermenegildo foi martirizado em 13/04/586, provavelmente em Sevilha (Veja-se: Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XXI, p. 903b; XXVII, p. 1204). Em sua homenagem, o Rei Fernando VII, de Espanha (1784-1833), criou em 10/07/1815, “A Real e Militar Ordem de São Hermenegildo”, que objetivava premiar os oficiais dos Reais Exércitos e Armada pela constância no serviço militar. (Veja-se: Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XXVII, p. 1203-1204).

Recaredo foi o segundo filho de Leovigildo, rebento do seu casamento com Goisuintha, viúva de Atanagildo, sendo uma “ariana furiosa” (Cf. Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XXI, p. 903b). Todavia, na Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XIL, p. 1136b, encontramos a informação de que esta era a sua madrasta.

[12] Vejam-se: Philip Schaff, History of the Christian Church, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1996, v. 3, § 119, p. 621; Atanásio: In: Tony Lane, Pensamento Cristão: Dos Primórdios à Idade Média, São Paulo: Abba Press Editora, 1999, v. 1, p. 45; P. Tillich, História do Pensamento Cristão, p. 75-76.

[13] Desses 45 anos, 17 foram passados em cinco exílios diferentes. (Cf. Samuel J. Mikolaski, Atanasio: In: Wilton M. Nelson, ed. ger. Diccionario de Historia de la Iglesia, Miami: Florida: Editorial Caribe, 1989, p. 100 e Atanásio: In: Tony Lane, Pensamento Cristão: Dos Primórdios à Idade Média, v. 1, p. 45).

[14]Veja-se: Samuel J. Mikolaski, Atanasio: In: Wilton M. Nelson, ed. ger. Diccionario de Historia de la Iglesia, p. 99-100.

[15] Vejam-se: Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, p. 179-180; P. Tillich, História do Pensamento Cristão, p. 73-74.

[16] Ário a Eusébio, In: Socrates Scholasticus, Ecclesiastical History, I.5. In: Philip Schaff; Henry Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of Christian Church, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (reprinted). (Second Series), 1978, v. 2, p. 3. Ver também: H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, p. 72 e Carlos Ignacio Gonzalez, El Desarrollo Dogmatico en los Concilios Cristologicos, p. 314.

[17] W. Walker, História da Igreja Cristã, São Paulo: ASTE., 1967, v. 1, p. 158.

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (8) – A Doutrina de Cristo antes da Reforma – Um panorama histórico (1)

Este artigo é continuação do: Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (7) – A Doutrina da Trindade: Formulação doutrinária – Um panorama histórico (2)

Acesse aqui esta série de estudos completa


 

Figura representativa dos gnósticos

Já nos primeiros séculos da Era Cristã, surgiram diversas heresias concernentes à Pessoa de Cristo e à relação das suas duas Naturezas. Essas heresias ora negavam a divindade, ora diminuíam a humanidade de Cristo. Alguns teólogos, no afã de combater alguma forma de erro, caíram com frequência em outro; passando a existir daí, não mais uma heresia, mas duas! Segundo Grudem, essas heresias surgiram da negação de um desses princípios fundamentais, a saber: a) Deus é três pessoas; b) Cada pessoa é plenamente Deus e, c) Só há um Deus. (Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 177). Notemos também, que nos primeiros séculos a Igreja confessou direta e indiretamente a Santíssima Trindade, a divindade do Filho e do Espírito; isto estava implícito de várias formas: no batismo, na “bênção apostólica” e no recitar do Credo Apostólico. O problema surge na elaboração desta verdade de modo compreensível. Na formulação da doutrina é que a Igreja se viu em sérias dificuldades: como tornar compreensível doutrinas entremeadas de mistérios? Este foi um dos problemas. Na tentativa da verbalização da doutrina é que muitas heresias surgiram…

Quanto à segunda pessoa da trindade, a preocupação predominante concentrava-se em tentar responder à pergunta concernente à divindade de Jesus. Segundo resume bem a questão:

Durante os quatro primeiros séculos que se seguiram à morte de Cristo, mais exatamente até os concílios de Nicéia (325), Éfeso (431) e Calcedônia (451), grande parte dessa criatividade cristológica foi dirigida a responder, de maneira cabal, à pergunta (…) Jesus de Nazaré é Deus1

Veremos abaixo, em forma de esboço, apenas os principais erros:

1. As heresias

A. Os Ebionitas

Heresia surgida nos círculos judaicos, no final do primeiro século. O nome é derivado do hebraico: }Oy:be) (‘ebheyôn), que significa “pobre”, “necessitado”, “miserável”, “mendigo”, “pedinte de esmolas”.2 Eusébio de Cesaréia (c. 262-339), com uma dose de maldade, diz que este nome “manifesta a pobreza de sua inteligência”.3 Informa que eles tinham a respeito de Cristo “pensamentos pobres e de baixa estima” (Eusébio, Historia Eclesiastica, III.27.1). Criam que a fé não era suficiente para a salvação, sendo preciso que os homens observassem a Lei. (Eusébio, Historia Eclesiastica, III.27.2). Determinado grupo de ebionitas “heterodoxo” cria que Jesus era um mero homem, filho de José e Maria, porém um sincero observante da Lei. (Eusébio, Historia Eclesiastica, III.27.2/VI.17). Ele foi qualificado mediante o batismo pela descida do Espírito Santo para ser um profeta e mestre; porém o Espírito Santo o abandonou no Calvário (Veja-se: 1Jo 5.6-12). No entanto, como Messias predestinado, Ele voltaria à terra para reinar (J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 103).

Este grupo desejava manter a qualquer preço o monoteísmo do Antigo Testamento – preservando a Lei mosaica e uma forma de ascetismo: todos os cristãos deveriam ser circuncidados –, nem que para isso tivessem de negar a divindade de Cristo e a Sua concepção virginal… o que de fato fizeram. Na tentativa de preservar o monoteísmo bíblico, os ebionitas sacrificaram todos os textos que falam da divindade e eternidade do Filho.

Rejeitavam os escritos de Paulo, chamando-o de “apóstata da lei” (Eusébio, Historia Eclesiastica, III.27.4); todavia, honravam a Tiago e Pedro.

Devemos acentuar que todo ebionismo é subordinacionista. A divindade do Filho, quando aceita, é menor do que a de Deus. O Filho é ontologicamente subordinado ao Pai.

Ebionita, na Teologia moderna, passou a significar aqueles que negam a divindade ou a plena divindade de Cristo.

B. O Gnosticismo

Nome derivado do grego gnw/sij, “conhecimento”. Este grupo extremamente “amorfo”,4 surgiu provavelmente no primeiro século.5 Os gnósticos pretendiam ter um conhecimento esotérico, secreto e especulativo de Deus. Ensinavam que somente aqueles que tivessem acesso a uma forma secreta – conhecida pelos gnósticos – de interpretar a Bíblia poderiam entendê-la e, portanto, obter a salvação.6 Na busca de um conhecimento maior, o gnosticismo se caracterizava por ser altamente especulativo, fazendo um sincretismo de elementos gregos, judeus, cristãos e orientais, buscando uma explicação peculiar para a origem do mal. Irineu (c. 130- c. 200) os retrata como hereges que corromperam a doutrina cristã, mesclando-a com a filosofia pagã (Irineu, Irineu de Lião, São Paulo: Paulus, 1985, II.14.1. p. 161ss). No entanto, ao que parece, muitos dos mestres gnósticos eram cristãos sinceros, desejosos de expressar o Evangelho de forma que parecesse satisfatória aos seus contemporâneos. Contudo, foram infelizes em sua tentativa, sacrificando o conceito bíblico do Logos divino, em prol de seus pressupostos filosóficos (Veja-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 20).

Uma das preocupações dominantes nos sistemas gnósticos era com a questão da dualidade, caracterizada pela miséria e futilidade da vida humana neste mundo: vida aprisionada pelo corpo material, e o contraste com a ordem superior, inteiramente espiritual, que não se comunica com a matéria.

Criam que a matéria é má e Deus, o Pai supremo (Bythos), é o Éon perfeito; por isso, Deus não pode ter criado o mundo:

“o que Deus fez foi lançar uma série de emanações (30).7 Cada uma destas emanações distanciou-se mais de Deus, até que por último houve uma emanação tão distante que pôde tocar a matéria. Esta emanação (Demiurgo, identificado como o Deus do Antigo Testamento) foi a que criou o mundo (…). Os gnósticos sustentavam que cada emanação conhecia cada vez menos a Deus, até chegar a um ponto que as emanações não só ignoravam a Deus senão que lhe eram hostis. Assim chegaram, finalmente, à conclusão de que o deus criador não só era distinto do Deus verdadeiro, senão que o ignorava e lhe era ativamente hostil”.8

Para os gnósticos, Deus (Bythos) não tinha nada a ver com este universo, daí, possivelmente, a afirmação de João: “Todas as cousas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3).

Márcion (? – c. 165) o herege de Sinope9 – cujos ensinamentos perduraram no Oriente até o século VII – ainda que sustentasse alguns conceitos gnósticos, ensinando também a ideia de dois deuses, diferentemente do “gnosticismo tradicional”, não identificou o “Demiurgo” como o autor do mal.10

A respeito da Pessoa de Cristo, havia dentro do gnosticismo uma variedade de ideias, a saber:

a) Jesus era uma das 30 emanações “aeons” do Deus bom “Bythos”, emitidas para entrar em contato com a matéria que é má. Assim sendo, Jesus não é divino, é apenas uma espécie de semideus, uma entidade entre Deus e os homens.

b) Partindo do princípio filosófico de que a matéria é essencialmente má, afirmavam que Jesus não tinha corpo real; deste modo, ele era uma espécie de fantasma, sem carne e sangue reais. Jesus era uma ilusão; parecia homem, mas não era (docetismo);11 o filho de Deus, que era real, apenas usava o Jesus humano como meio de expressão; a encarnação, portanto, era apenas uma ilusão.12 Por trás deste conceito, estava a concepção de que Deus não pode sofrer; logo, se Cristo sofreu, ele não era Deus; e se ele era Deus, não poderia sofrer. Então, o sofrimento de Cristo teria sido apenas na aparência, não real. Inácio, bispo de Antioquia, no início do segundo século (c. 110) combateu ferreamente o docetismo, afirmando a divindade e a humanidade de Cristo.13 Do mesmo modo, Policarpo (c. 75-c. 160), bispo de Esmirna, escreve aos filipenses: “Qualquer que não confesse que Jesus Cristo veio em carne, é um anticristo. E quem não confessa o testemunho da cruz, é do diabo”.14

Alguns diziam que quando Ele andava, não deixava pegadas, porque seu corpo não tinha peso nem substância. João, de modo especial, combateu este tipo de conceito em seus escritos (Vejam-se: Jo 1.14; 20.31; Cl 1.19; 2.9; 1Jo 2.22; 4.1-3,15; 5.1,5,6; 2Jo 7).15

c) Jesus era um homem comum que foi usado pelo Espírito de Deus e abandonado no Calvário, não havendo de fato encarnação. (Vejam-se: Jo 1.14; 20.31; Cl 1.19; 2.9; 1Jo 2.22; 4.1-3,15; 5.1,5,6; 2Jo 7).

No próximo artigo, continuarei a tratar das principais heresias, abordando o Monarquianismo e o Arianismo. Até lá!

 

 

São Paulo, 26 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

1Juan Luis Segundo, O Homem de Hoje Diante de Jesus de Nazaré, (II/2), São Paulo: Paulinas, 1985, p. 17.

2 Apesar de haver alusões (Hipólito e Tertuliano) a um suposto Ebião como fundador da seita, esta palavra relembra o título com que a igreja judaico-cristã de Jerusalém gostava de ser reconhecida (Vejam-se: Rm 15.26; Gl 2.10) (Cf. J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 103).

3Eusébio de Cesarea, Historia Eclesiastica, Madrid: La Editorial Catolica, (Biblioteca de Autores Cristianos, v. 349-350), 1973, III.27.6.

4 Conforme expressão de C.H. Dodd, A Interpretação do Quarto Evangelho, São Paulo: Paulinas, 1977, p. 134 e de J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 16. Do mesmo modo entende, A.F. Walls, Gnosticismo: In: J. D. Douglas, ed. ger. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 2, p. 674.

5 Há um certo consenso por parte dos Pais da Igreja em atribuírem a Simão, o Mágico (At 8.9ss), a origem do gnosticismo (Veja-se por exemplo, Irineu, Irineu de Lião, São Paulo: Paulus, 1995, I.23.2. p. 99s.); todavia, nos detalhes são divergentes, devido à variedade de grupos gnósticos. (Vejam-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 16ss; B. Hägglund, História da Teologia, Porto Alegre, RS.: Concórdia, 1973, p. 27).

6 Veja-se: Alister E. McGrath, Teologia Histórica: uma introdução à História do Pensamento Cristão, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 54-55.

7 Irineu, Irineu de Lião, I.1.3. p. 33. “Esses trinta éons constituem o Pleroma, ou a plenitude da Divindade” (J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 17).

8 William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora (Juan I), 1974, v. 5, p. 20. Para uma descrição mais detalhada deste processo de emanações, Vejam-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 17ss; B. Hägglund, História da Teologia, p. 29-30; L. Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 45-47.

9 A respeito de seus ensinamentos, Vejam-se, entre outros: Tertulian, The Five Books Against Marcion. In: Alexander Roberts; James Donaldson, editors. Ante-Nicene Fathers, 2. ed. Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1995, v. 3, p. 269-475; Irineu, Irineu de Lião, São Paulo: Paulus, 1995, I.27.2-4. p. 109-110; Justino de Roma, I Apologia, São Paulo: Paulus, 1995, 58, p. 73-74.

10 Vejam-se: Justino de Roma, I Apologia, 26, p. 42-43; J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 42; Márcion: In: R.N. Champlin; João M. Bentes, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, São Paulo: Editora e Distribuidora Candeia, 1991, v. 4, p. 119-121; A. Skevington Wod, Marcionitas: In: E.F. Harrison, ed. Diccionario de Teologia, Grand Rapids, Michigan: T.E.L..L., 1985, p. 333; Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, p. 49-50. “Márcion não foi um Gnóstico verdadeiro ou típico a despeito do seu dualismo e docetismo.” (John Knox, Marcion: In: Harry S. Ashmore, Editor in Chief. Encyclopaedia Britannica, Chicago: Encyclopaedia Britannica Inc., 1962, v. 14, p. 868a. Do mesmo modo, ver: B. Aland, Marcião – Marcionismo: In: Ângelo Di Berardino, org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Petrópolis, RJ.; São Paulo: Vozes; Paulinas, 2002, p. 881-882). No entanto, ele foi o “teólogo mais proeminente a popularizar uma cristologia docética” (Carl E. Braaten, A Pessoa de Jesus Cristo: In: Carl E. Braaten; Robert W. Jenson, eds. Dogmática Cristã, São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1995, v. 1, p. 485).

11 Como sabemos este nome é derivado do verbo grego doke/w = “parecer”. Este ensinamento foi primariamente difundido por volta do ano 85 por Cerinto, natural de Alexandria, discípulo de Fílon.

12 Vejam-se: M.C. Tenney, Docetismo: In: E.F. Harrison, ed. Diccionario de Teologia, p. 175; Docetismo: In: R.N. Champlin; João M. Bentes, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v. 2, p. 203-205; J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 104-105

13 Vejam-se: Suas Cartas: Aos Efésios, 7,18,19,20; Aos Magnésios, 11; Aos Tralianos, 9; Aos Esmirnenses, 1-3, 7. (Veja-se a coleção de Cartas In: Cartas de Santo Inácio de Antioquia, 3. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1984). Devemos mencionar que apesar de Inácio combater os “docetas”, este nome só iria aparecer como designação deste tipo de pensamento, por volta do ano 200, em Serapião, que denomina este grupo de Dokhta\j. (Cf. Eusébio, Historia Eclesiastica, VI.12.6).

14Polycarp, The Epistle of Polycarp to the Philippians, VII. In: Alexander Roberts; James Donaldson, editors. Ante-Nicene Fathers, 2. ed. Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1995, v. 1, p. 34. Quanto a um testemunho antigo sobre o procedimento de Policarpo, Vejam-se: Irineu, Irineu de Lião, III.1.3. p. 251-252).

15 Notemos que nem todo “docetismo” era gnóstico, no entanto, como este era uma das características do gnosticismo, os termos foram identificados.