A Trindade e a nossa salvação

É uma grande bênção ter um Deus que não é uma Pessoa senão três. Constitui uma Trindade abundante. Porque não só um Pai que nos ama e cuida de nós, senão também um Cristo que trouxe salvação e intercede por nós e um Espírito Santo que mora dentro de nós e aplica a salvação à nossa vida. – Edwin H. Palmer.[1]

 

“É somente sob a direção do Espírito que tomamos posse de Cristo e de todos os seus benefícios”.[2] O Espírito é chamado de “Espírito da Graça” (Hb 10.29/Zc 12.10), porque é ele quem aplica a graça de Deus aos pecadores eleitos, conduzindo-os progressivamente à conformação da imagem de Cristo.

 

O Espírito é “comunicador da graça”.[3] Este ministério tem início, quando o Espírito nos leva a aceitar a mensagem de perdão dos nossos pecados. O Espírito anuncia que chegou o tempo da salvação, o qual é caracterizado pelo perdão para todos aqueles que se arrependem de seus pecados. Portanto, quando tratamos deste assunto, não estamos simplesmente especulando, antes, mostrando como esta doutrina (Trindade) está amparada nas Escrituras e como ela tem uma relação direta com a experiência do cristão resultante da sua salvação em Cristo.[4]

 

Sem as obras da Trindade, jamais seríamos salvos pela graça. A graça de Deus, que é personificada em Cristo, é apenas um lado das obras redentoras do Deus Triúno. Toda a Trindade está comprometida na salvação do Seu povo, tendo cada uma das Pessoas da Santíssima Trindade, conforme o Conselho trinitário, um papel fundamental.

 

A obra do Espírito é distinta da obra do Pai e do Filho, porém, não é independente. A Trindade opera conjuntamente, tendo o mesmo propósito eterno: a glória do próprio Deus por intermédio da salvação do Seu povo (Is 43.7/Ef 1.6; 1Pe 2.9,10).[5] A Teologia Reformada, fiel aos ensinamentos das Escrituras, ensina esta verdade. J. I. Packer, comentando este ponto, disse:

 

Deus – O Jeová Triúno, Pai, Filho e Espírito Santo; três pessoas trabalhando em conjunto, em sabedoria, poder e amor soberanos, a fim de realizar a salvação de um povo escolhido. O Pai escolhendo, o Filho cumprindo a vontade do Pai de remir, o Espírito executando o propósito do Pai e do Filho mediante a renovação do homem.[6]

 

É precisamente isto que estamos dizendo quando declaramos que a nossa salvação é por Deus: O Deus Triúno é o Autor e o executor da nossa salvação; do princípio ao fim, a salvação é obra do Deus da graça. Paulo estimulando os filipenses, inspirado por Deus, fala de sua convicção inabalável: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).[7]

 

A Obra do Espírito torna efetivo em nós aquilo que Cristo realizou definitivamente por nós. Podemos afirmar, que sem as operações do Espírito, o Ministério Sacrificial de Cristo não teria valor objetivo para os homens, visto que os méritos redentores e salvadores de Cristo não seriam comunicados aos pecadores. Calvino (1509-1564) afirmou corretamente que é necessário que Cristo habite em nós para que compartilhe conosco o que recebeu do Pai. Ele conclui dizendo que: “O Espírito Santo é o elo pelo qual Cristo nos vincula efetivamente a Si”.[8] Em outro lugar declara: “Sabemos que nosso bem, nossa alegria e repouso é estar unido ao Filho de Deus.[9]

 

Cristo cumpriu perfeitamente as demandas da Lei e adquiriu todas as bênçãos que envolvem a salvação. A Obra do Espírito consiste em aplicar os merecimentos de Cristo aos pecadores, capacitando-os a receberem a Graça da salvação.[10] Somente através do Espírito “recebemos todos os bens e dons que nos são dados em Jesus Cristo”.[11] É Ele quem derrama sobre nós as bênçãos da graça, obtidas pela obra eficaz de Cristo. Desta forma, podemos dizer que o Ministério soteriológico do Espírito se baseia nos feitos de Cristo e que o Ministério Sacrificial de Cristo reclama a ação do Espírito (Jo 7.39/Jo 14.26; 16.13-14).[12] “A obra do Espírito na aplicação da redenção de Cristo é descrita como tão essencial quanto a própria redenção”.[13] “A condição prévia indispensável para a outorga do Espírito é a obra de Cristo”.[14]

 

A Palavra nos ensina que o Espírito Santo é o Espírito de Cristo (Gl 4.6; Fp 1.19);[15] por isso, a presença do Espírito em nós é a presença do Filho (Rm 8.9).[16] Quando evangelizamos, o fazemos confiantes de que Deus, pelo Espírito, aplicará os méritos de Cristo no coração do Seu povo. Portanto, aí está a nossa responsabilidade e o nosso conforto, conforme bem observou Billy Graham (1918-2018):

 

O Espírito Santo é o grande comunicador do Evangelho, usando como instrumento pessoas comuns como nós. Mas é dele a obra. Assim, quando o Evangelho é fielmente proclamado, o Espírito Santo é quem o envia como dardo flamejante aos corações dos que foram preparados.[17]

 

Portanto, desprezar esta doutrina bíblica equivaleria a perder o significado do Evangelho,[18] sustentando uma fé indefinida e, por isso mesmo, superficial, não condizente com a plenitude da revelação bíblica.

 

Lembremo-nos: “Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece, não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem assim o Pai, como o Filho” (2Jo 9).

 

 

São Paulo, 13 de dezembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] Edwin H. Palmer, El Espiritu Santo, Edinburgh: El Estandarte de la Verdad, (s.d.), Edição Revista, p. 14.

[2] João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 13.13), p. 271.

[3] A.W. Pink, Os Atributos de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985, p. 74.

[4] Ver: Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 378.

[5] Veja-se: Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 54.

[6]J.I. Packer, O “Antigo” Evangelho, São Paulo: Fiel, 1986, p. 9.

[7] “A graça começa, continua e termina a obra da salvação no coração de uma pessoa.” (C.H. Spurgeon, Sermões Sobre a Salvação, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 45). “… Em sua inteireza a nossa salvação procede do Senhor. É sua realização. Ele mesmo apresenta Sua noiva a Si mesmo por que ninguém mais pode fazê-lo, ninguém mais é competente para fazê-lo. Somente Ele pode fazê-lo. Ele fez tudo por nós, do princípio ao fim, e concluirá a obra apresentando-nos a Si mesmo com toda esta glória aqui descrita.” (D.M. Lloyd-Jones, Vida No Espírito: No Casamento, no Lar e no Trabalho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, (Ef 5.27), p. 137). Do mesmo modo acentua Murray: “A salvação é do Senhor, tanto em sua aplicação como em sua concepção e realização” (John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 98).

[8] João Calvino, As Institutas, III.1.1.

[9]Juan Calvino, Sermones Sobre La Obra Salvadora De Cristo, Jenison, Michigan: T.E.L.L. 1988, “Sermon nº 2”, p. 23.

[10] “De fato a graça reina, mas uma graça reinante à parte da justiça não é apenas inverossímil, mas também inconcebível” (John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, p. 19).

[11] Catecismo de Genebra, (1541/2), Perg. 91.

[12]“Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado” (Jo 7.39). “Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito” (Jo 14.26). “Quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar” (Jo 16.13-14).

[13] Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos Editora, 2001, p. 390.

[14]Frederick D. Bruner, Teologia do Espírito Santo, São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 179.

[15]“E, porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” (Gl 4.6). “Porque estou certo de que isto mesmo, pela vossa súplica e pela provisão do Espírito de Jesus Cristo, me redundará em libertação” (Fp 1.19).

[16] “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se, de fato, o Espírito de Deus habita em vós. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9).

[17] Billy Graham, Por que Lausanne?: In: A Missão da Igreja no Mundo de Hoje, São Paulo; Belo Horizonte, MG.: ABU; Visão Mundial, 1982, p. 30. A consciência de que os “resultados” da Evangelização dependem do Deus soberano, traz como implicação a nossa ousada confiança em Deus, não em nossos métodos. Packer analisou bem este ponto, fazendo aplicações complementares: “Se esquecermos que a prerrogativa de Deus é produzir resultados quando o evangelho é pregado, acabaremos pensando que é nossa responsabilidade assegurá-los. E, se nos esquecermos de que somente Deus pode infundir fé, acabaremos pensando que a conversão, em última análise, depende não de Deus, mas de nós, e que o fator decisivo é a maneira como evangelizamos. E essa linha de pensamento, coerentemente seguida, nos fará desviar em muito” (J.I. Packer, Evangelização e Soberania de Deus, 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 22).

[18] Ver: Albertus Pieters, Fundamentos da Doutrina Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1979, p. 179-180.

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (9) – A Doutrina de Cristo antes da Reforma – Um panorama histórico (2)

Este artigo é continuação do: Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (8) – A Doutrina de Cristo antes da Reforma – Um panorama histórico (1))

Acesse aqui esta série de estudos completa


C. Monarquianismo

 

 O nome é derivado de duas palavras gregas, mo/noj & a)rxh/, daí, “Um só Princípio”, “Um só Deus”. O Monarquianismo modalista foi a heresia mais influente do terceiro século.[1]

 

A sua preocupação era a defesa do monoteísmo, negando toda e qualquer ideia de diversidade no Ser divino, daí a tentativa de conciliar a doutrina do “Logos”, com a unicidade de Deus.

 

Os monarquianos criam numa espécie de divindade de Jesus (monarquianismo dinâmico),[2] contudo afirmavam ser a Trindade irreconciliável com a unidade de Deus. Dentro desta perspectiva, não há relação trinitária e está totalmente fora de questão a doutrina da Expiação e da intercessão do Espírito.

 

1. Monarquianismo Dinâmico: Também conhecido como “Humanitariano”. Seu primeiro representante foi o curtidor Teodoto, que chegou a Roma de Bizâncio no ano 190, como resultado de uma perseguição. Teodoto foi excomungado pelo bispo de Roma, Vítor (186-198). Contudo, suas ideias foram preservadas e difundidas por outro Teodoto, banqueiro, e um tal Asclepiodoto.[3] No entanto, o mais destacado defensor desta doutrina foi Paulo de Samosata, bispo de Antioquia por volta do ano 260.

 

Paulo de Samosata ensinava que Jesus era originariamente um mero homem,[4] sendo elevado a uma posição superior no batismo, quando recebeu o poder (“du/namij“) do céu. Este poder, que passou a residir na pessoa humana de Jesus – como em mero recipiente –, qualificou-o para uma tarefa especial. Assim, Jesus foi elevado a uma posição intermediária entre Deus e os homens, no entanto, Jesus não é essencialmente divino. A consciência de ser o portador do Logos, foi crescendo gradativamente em Jesus a partir do seu batismo. O Logos o capacitou a exercer um ministério especial e era Ele quem controlava todas as palavras e obras de Jesus.

 

Na visão deles, Jesus era o filho adotivo de Deus; portanto, a sua “divindade” era apenas de honra, de adoção e não de essência; ela ocorria pela graça. No entanto, dentro da plenitude da revelação bíblica, não há lugar para nenhum tipo de teologia adocionista. O fato bíblico é o oposto: O verbo eterno de Deus se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.14). A encarnação tem início lá em cima, de onde vem o nosso Senhor (Jo 8.23) (Veja-se: Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 52-53).

 

Essa teologia adopcionista foi condenada no Sínodo de Antioquia (268), sendo ele excomungado (Eusébio, Historia Eclesiastica, Madrid: La Editorial Catolica, [Biblioteca de Autores Cristianos, v. 349-350], 1973, VII.29.1).

 

2. Monarquianismo Modalista: Seu principal representante foi Sabélio, presbítero de Ptolemaida (250), tendo ensinado em Roma por volta do ano 215.

 

Esta forma de modalismo, foi conhecida no Ocidente como “Patripassianismo” (O Pai se encarnou e também sofreu)[5] e no Oriente como “Sabelianismo“.

 

Para Sabélio não havia Trindade; Pai, Filho e Espírito Santo eram apenas nomes diferentes para a mesma realidade; deste modo, os três eram apenas (Pro/swpata) (semblantes, faces) e não seres independentes (Veja-se: P. Tillich, História do Pensamento Cristão, São Paulo: ASTE., 1988, p. 73). Ele considerava as três Pessoas da Trindade como três diferentes modos de ação ou manifestação divina, as quais Deus assume sucessivamente, revelando-se como Pai na criação e na doação da Lei; como Filho na encarnação[6] e como Espírito na regeneração e santificação. Deus na realidade seria como um ator representando três papéis no enredo da história revelacional; três máscaras para três personagens encenados pelo mesmo ator.[7] Deste modo há apenas uma única Pessoa; ficando a Trindade reduzida a três modos de manifestação.

 

Epifânio, bispo de Salamis, descrevendo os ensinamentos do Sabelianismo, escreveu por volta do ano 375:        “Ensinam que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são uma só e mesma essência, três nomes apenas dados a uma só e mesma substância”.

 

À frente, Epifânio cita uma analogia utilizada:

 

Tome-se o sol: o sol é uma só substância, mas com tríplice manifestação: luz, calor e globo solar. O calor… é (análogo a) o Espírito; a luz, ao Filho; enquanto o Pai é representado pela verdadeira substância. Em certo momento, o Filho foi emitido como um raio de luz; cumpriu no mundo o que cabia à dispensação do Evangelho e à salvação dos homens, e retirou-se para os céus, semelhantemente ao raio enviado pelo sol que é novamente incorporado a ele. O Espírito Santo é enviado mais sigilosamente ao mundo e, sucessivamente, aos indivíduos dignos de o receberem.[8]

 

Implicações desta doutrina:

 

1) Não há Trindade.

2) As três formas de Revelação não são coeternas.

3) Há apenas três MODOS da mesma Pessoa, e não três Pessoas.

 

D. Arianismo

Nome derivado de seu maior representante, Ário (c. 250-c.336), natural da Líbia e educado em Antioquia da Síria, tendo como mestre a figura enigmática de Luciano de Antioquia († 312), que teria sido discípulo de Paulo de Samosata (Cf. J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 174).

 

Ário teve os seus ensinamentos condenados em Antioquia (02/325); e no Primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia (20/05/325), sendo então deportado para o Ilírico. Mesmo no exílio, ele continuou escrevendo, aumentando consideravelmente a sua influência, contando sempre com um bom número de amigos fiéis, sendo o grande articulador político do grupo ariano, o bispo Eusébio de Nicomédia († 342). Em 335, num encontro com Constantino (274-337), Ário subscreveu uma confissão considerada pelo Imperador “ortodoxa”, que na realidade é mais eloquente no seu silêncio.[9] Em 336/337, quando jazia no seu leito de morte em Constantinopla, foi solenemente readmitido à comunhão da Igreja pelo Sínodo de Jerusalém.[10]

 

Atanásio, grande opositor ao Arianismo

O Arianismo a despeito de sua condenação em Nicéia, juntamente com os anátemas emitidos por este Concílio, desfrutou de ampla aceitação no quarto século, só começando a perder força no Concílio de Constantinopla (381), quando a posição de Nicéia foi reafirmada; no entanto, o arianismo permaneceu vivo até o final do século sétimo.[11] Se por um lado o arianismo desfrutou de boa aceitação devido ao grande número de seguidores influentes e a tolerância explícita do imperador – que desejava a tudo custo manter a unidade do império –,[12] ele encontrou um adversário perseverante que, apesar da pequena estatura, tornou-se um gigante na defesa da ortodoxia bíblica: Atanásio (c 296-373), o jovem bispo de Alexandria (328-373),[13] que mesmo sendo perseguido e exilado, conseguiu exercer poderosa influência na teologia ocidental, preservando a unidade da igreja e uma sã teologia bíblica, sustentando a divindade e a humanidade de Jesus.[14]

 

O ponto focal de Ário é de que há um só Deus (Pai) não-gerado, sem começo, único, verdadeiro, único detentor de imortalidade. Para os arianos, Jesus Cristo não era da mesma substância do Pai (o(moou/sioj) (“da mesma natureza”), mas sim de uma substância similar (o(moio/usioj)(“de natureza semelhante”). Esse “iota” grego fazia toda a diferença entre um cristianismo bíblico e um cristianismo forjado pela imaginação do homem.[15]

 

Desta premissa, como observa Kelly (Veja-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 172-174), decorrem quatro outras:

 

1) O Filho é uma criatura; uma criatura perfeita, distinta da criação, mas que veio à existência pela vontade do Pai;

2) Como criatura, o Filho teve um começo. Logo, a afirmação de que Ele era coeterno com o Pai implicaria na existência de dois princípios, o que assinalaria uma negação do monoteísmo;

3) O Filho não tem nenhuma comunhão substancial com o Pai. Ele é uma criatura que recebeu o título de “Palavra” e “Sabedoria” de Deus porque participa da Palavra e Sabedoria essenciais;

4) O Filho está sujeito à mudanças e ao pecado, e poderia cair como o diabo caiu. Contudo, Deus prevendo a sua firmeza de caráter, agiu preventivamente com a Sua graça.

 

Ário e seus discípulos, buscando apoio em textos tais como Jo 1.14; 3.16,18; Cl 1.15; 1Jo 4.9, ensinavam que Deus, o Pai, criou o Filho primeiro e, por meio do Filho criou o Espírito, os homens e o mundo; portanto: Jesus é o primogênito do Pai e o Espírito é o primogênito do Filho. O Filho foi criado do nada; Ele veio à existência antes da fundação do mundo, mas ele não é eterno porque foi criado (Ver: Louis Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 78). Daí o “chavão” ariano: “Tempo houve em que Ele não existia” (Cf. J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 173). Portanto, sendo o Filho criado, não é Deus; consequentemente, Jesus não é da mesma essência ou natureza do Pai. A atribuição de títulos “Deus” e “Filho” feita a Jesus, era apenas de cortesia, resultante da graça.

 

Quando perseguido em 321, Ário buscou ajuda no seu antigo e poderoso amigo, o bispo Eusébio de Nicomédia († 342) – que batizaria o imperador Constantino, moribundo em maio de 337 –, escrevendo: “Somos perseguidos porque afirmamos que o Filho tem um início, enquanto que Deus é sem início (a)/narxoj).[16]

 

O historiador W. Walker (1860-1922), resume a posição de Ário:

 

Para Ário, Cristo era, na verdade, Deus em certo sentido, mas um Deus inferior, de modo algum uno com o Pai em essência ou eternidade. Na encarnação, esse Logos entrou em um corpo humano, tomando o lugar do espírito racional humano.[17]

 

Tillich (1886-1965) especula: “A vitória do arianismo teria transformado o cristianismo em apenas mais uma entre as religiões já existentes” (P. Tillich, História do Pensamento Cristão, p. 77).

 

São Paulo, 26 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 


 

[1] Compare as informações de L. Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, p. 71 com as de J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 89. Berkhof diz que foi Tertuliano o primeiro a dar este designativo (monarquiano) a este tipo de concepção (História das Doutrinas Cristãs, p. 71).

[2] A força propulsora por trás do modalismo era a dupla convicção, defendida com vigor, da unicidade de Deus e da plena divindade de Cristo” (J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 89).

[3]Eusébio, Historia Eclesiastica, Madrid: La Editorial Catolica, (Biblioteca de Autores Cristianos, v. 349-350), 1973, V.28.1-3,6,9.

[4]Eusébio, Historia Eclesiastica, V.28.2; VII.27.2.

[5] Na sua obra contra Práxeas (c. 213), Tertuliano escreveu: “O demônio tem lutado contra a verdade de muitas maneiras, inclusive defendendo-a para melhor destruí-la. Ele defende a unidade de Deus, o onipotente criador do universo, com o fim exclusivo de torná-la herética. Afirma que o próprio Pai desceu ao seio da Virgem, dela nascendo, e que o próprio Pai sofreu; que o Pai, em suma, foi pessoalmente Jesus Cristo…. Práxeas foi quem trouxe esta heresia da Ásia para Roma…. Ele afugentou profecia, e trouxe heresia; expulsou o Paráclito e crucificou o Pai” (Against Praxeas, 1. In: ANF., v. 3, p. 597-598). Devido à obscuridade da pessoa de Práxeas, pensa-se que este nome era apenas um apelido (“intrometido”), dado a algum proponente destas ideias, tais como, Noeto, Epígono ou o papa Calixto (217-222). (Veja-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 90).

[6] Boettner comenta: “A encarnação foi reduzida a ser simplesmente uma união temporária das naturezas Divina e humana no homem, Jesus Cristo” (Loraine Boettner, Studies in Theology, 9. ed. Philadelphia, The Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1970, p. 128).

[7] Ver: Roger Olson, História das Controvérsias na Teologia Cristã: 2000 anos de unidade e diversidade, São Paulo: Editora Vida, 2004, p. 198.

[8]In: H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, São Paulo: ASTE, 1967, p. 71. Do mesmo em: Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 382-383.

[9]Veja-se o texto da sua confissão In: Socrates Scholasticus, The Ecclesiastical History, I.26. In: Philip Schaff; Henry Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of Christian Church, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (reprinted). (Second Series), 1978, v. 2, p. 28-29; Salaminus Hermias Sozomen, The Ecclesiastical History, I.27. In: Philip Schaff; Henry Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of Christian Church, v. 2, p. 277-278; o texto grego está reproduzido In: Philip Schaff, The Creeds of Christendom, 6. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Revised and Enlarged), 1977, v. 2, p. 28-29. Veja-se também, Carlos Ignacio Gonzalez, El Desarrollo Dogmatico en los Concilios Cristologicos, Santafé de Bogotá: CELAM., 1991, p. 316.

[10] Cf. V.L. Walter, Arianismo: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 1, p. 105 e Eusebius of Nicomedia: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, Chicago: Funk Wagnalls, Publishers, 1887 (Revised Edition), v. 1, p. 772-773.

[11]Os visigodos (= godos do oeste) que invadiram e pilharam Roma em 24/08/410, conseguiram com muita dificuldade se manter sobre o território conquistado. Contudo, no período de apogeu, os visigodos estenderam os seus domínios sobre a maior parte da Espanha, comandados pelo rei Eurico (466-484). Os suevos, entretanto, conservaram o seu território independente no extremo noroeste da península. (Cf. Justo L. Gonzalez, A Era das Trevas, São Paulo: Vida Nova, (Uma História Ilustrada do Cristianismo), 1980-1988, v. 3, p. 12. Veja-se também: Vários autores, Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, Madrid, Espasa-Calpe, 70 Vols. (mais apêndices e suplementos), XXI, p. 902).

Apesar do indiscutível domínio dos visigodos, a unificação política dos seus domínios só se desenvolveu satisfatoriamente sob o reinado de Leovigildo (568-586), que estabeleceu a capital em Toledo, derrotando finalmente o reino dos suevos.

Os visigodos eram arianos, tendo sido doutrinados ao norte do Danúbio pelo missionário cristão Ulfilas (311?-383). Embora seja discutida a amplitude da influência do trabalho de Ulfilas sobre os visigodos, o fato é que ela existiu. (Cf. Kenneth S. Latourette, Historia del Cristianismo, 3. ed. Buenos Aires: Casa Bautista de Publicaciones, 1977, v. 1, 174 e Williston Walker, História da Igreja Cristã, São Paulo: ASTE, 1967, v. 1, p. 175. Vejam-se, também: Stephen Neill, História das Missões, São Paulo: Vida Nova, 1989, p. 57 e Ruth A. Tucker, “…Até aos Confins da Terra.”: Uma História Biográfica das Missões Cristãs, São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 36-39). “Os arianos se consideravam a si mesmos como os verdadeiros cristãos e as suas igrejas, como a Igreja Católica” (Kenneth S. Latourette, Historia del Cristianismo, v. 1, p. 399).

Leovigildo tentou impor o arianismo a seus súditos na península; todavia, com a sua morte (21/04/586)(1), encerra-se a sucessão de reis visigodos “arianos”. O seu filho Recaredo I,(2) assume o trono, governando de 586 a 601. Recaredo, que ao que parece, era cristão, declarou-se oficialmente em 587, quando reinava apenas há dez meses. O bispo de Sevilha, Leandro (540-596), por certo, teve grande influência em sua decisão, como também tivera na de seu irmão Hermenegildo (564-586).

Após Recaredo dominar três conspirações arianas, visto que estes não se conformavam com a sua conversão, ele convocou o Terceiro Concílio de Toledo, que se celebrou em 06/05/589, com a assistência de 62 bispos e 5 metropolitanos de Espanha e das Gálias, sendo Leandro de Sevilha (540-596) o grande personagem deste evento. À ocasião, Recaredo e sua esposa Bada, reafirmaram as suas conversões ao catolicismo – proclamando deste modo a conversão de todo o reino –, e muitos outros abjuraram o arianismo, entre eles cinco magnatas e oito bispos. (Veja-se: Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XLIX, p. 1137). Alguns arianos aristocratas fizeram oposição ao rei, todavia, como não dispunham de apoio popular, nada conseguiram. (Cf. Jacques Heers, História Medieval, 3. ed. (corrigida), São Paulo: Difel, 1981, p. 31).

O crescente desaparecimento do arianismo “facilitou a unidade religiosa e cultural da Europa Ocidental”. (Kenneth S. Latourette, Historia del Cristianismo, v. 1, p. 400).

 

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(1) Parece que Leovigildo se fez católico no leito de morte (Veja-se: Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XXI, p. 904A; XXVII, p. 1205A; XXIX, p. 1234A), entregando seu filho Recaredo aos cuidados espirituais de     Leandro de Sevilha.

(2) O primeiro filho de Leovigildo foi Hermenegildo (564-586), nascido do seu primeiro casamento com a católica Riquilde (Richilde), que teve vida breve (ou Teodora, que segundo alguns, era irmã do bispo Leandro (Cf. Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XXIX, p. 1234a)). Hermenegildo se converteu ao catolicismo por volta do ano 580, mudando o seu nome para João. Mais tarde, por questões políticas e, finalmente, por se negar voltar ao arianismo, rejeitando inclusive, receber a Comunhão das mãos de um bispo ariano, Hermenegildo foi martirizado em 13/04/586, provavelmente em Sevilha (Veja-se: Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XXI, p. 903b; XXVII, p. 1204). Em sua homenagem, o Rei Fernando VII, de Espanha (1784-1833), criou em 10/07/1815, “A Real e Militar Ordem de São Hermenegildo”, que objetivava premiar os oficiais dos Reais Exércitos e Armada pela constância no serviço militar. (Veja-se: Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XXVII, p. 1203-1204).

Recaredo foi o segundo filho de Leovigildo, rebento do seu casamento com Goisuintha, viúva de Atanagildo, sendo uma “ariana furiosa” (Cf. Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XXI, p. 903b). Todavia, na Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XIL, p. 1136b, encontramos a informação de que esta era a sua madrasta.

[12] Vejam-se: Philip Schaff, History of the Christian Church, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1996, v. 3, § 119, p. 621; Atanásio: In: Tony Lane, Pensamento Cristão: Dos Primórdios à Idade Média, São Paulo: Abba Press Editora, 1999, v. 1, p. 45; P. Tillich, História do Pensamento Cristão, p. 75-76.

[13] Desses 45 anos, 17 foram passados em cinco exílios diferentes. (Cf. Samuel J. Mikolaski, Atanasio: In: Wilton M. Nelson, ed. ger. Diccionario de Historia de la Iglesia, Miami: Florida: Editorial Caribe, 1989, p. 100 e Atanásio: In: Tony Lane, Pensamento Cristão: Dos Primórdios à Idade Média, v. 1, p. 45).

[14]Veja-se: Samuel J. Mikolaski, Atanasio: In: Wilton M. Nelson, ed. ger. Diccionario de Historia de la Iglesia, p. 99-100.

[15] Vejam-se: Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, p. 179-180; P. Tillich, História do Pensamento Cristão, p. 73-74.

[16] Ário a Eusébio, In: Socrates Scholasticus, Ecclesiastical History, I.5. In: Philip Schaff; Henry Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of Christian Church, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (reprinted). (Second Series), 1978, v. 2, p. 3. Ver também: H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, p. 72 e Carlos Ignacio Gonzalez, El Desarrollo Dogmatico en los Concilios Cristologicos, p. 314.

[17] W. Walker, História da Igreja Cristã, São Paulo: ASTE., 1967, v. 1, p. 158.

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (7) – A Doutrina da Trindade: Formulação doutrinária – Um panorama histórico (2)

Este artigo é continuação do: Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (7) – A Doutrina da Trindade: Formulação doutrinária – Um panorama histórico (1)

Acesse aqui esta série de estudos completa.


Relação Trinitária

Outro ponto foi a questão da relação Trinitária. Ela foi compreendida pela Igreja da seguinte forma: Quando falamos do Filho em relação ao Pai, dizemos que aquele é gerado (gennhqe/nta) do Pai e quando nos referimos ao Espírito, declaramos que Ele é procedente (e)kporeuo/menon)1 do Pai e do Filho.2 Esta relação ocorre eternamente, sem princípio nem fim, jamais havendo qualquer tipo de mudança na essência (ou)si/a) divina,3 nem qualquer tipo de subordinação ontológica; “a subordinação pretendida consiste apenas naquilo que concerne ao modo de subsistência e operação, implícito nos fatos bíblicos de que o Filho procede do Pai, e o Espírito procede do Pai e do Filho, e de que o Pai opera através do Filho, e o Pai e o Filho operam através do Espírito” (Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Editora Hagnos, 2001, p. 346). Portanto, a subordinação não é ontológica (“imanente”),4 mas sim existencial (econômica). Deste modo, a nomenclatura Pai, Filho e Espírito Santo, é apenas um designativo que implica uma correlação intertrinitária que é necessária e eterna, não uma primazia de essência, no que resultaria em diferenças de honra e glória.5 Insisto: A relação Trinitária tem sido compreendida pela Igreja como uma procedência eterna e necessária, do Espírito da parte do Pai e do Filho. As palavras de Agostinho (354-430) tornaram-se basilares na compreensão Ocidental: “O Espírito Santo, conforme as Escrituras, não é somente Espírito do Pai, nem somente o Espírito do Filho, mas de ambos”.6 Daí que, a Confissão de Westminster (1647), refletindo esta compreensão bíblica conforme a tradição teológica ocidental, diz: “O Espírito Santo é eternamente procedente do Pai e do Filho” (II.3) (Jo 15.26; Gl 4.6).

Edwin H. Palmer (1922-1980), coloca a questão da “procedência” do Espírito nos seguintes termos:

Sua procedência não quer dizer que seja inferior ao Pai e ao Filho, do mesmo modo que pelo fato do Filho ser gerado tampouco significa que não esteja num plano de igualdade com o Pai. O segredo está no fato de que o Espírito foi ETERNAMENTE espirado, do mesmo modo que o Filho foi eternamente gerado. Nunca houve um tempo em que o Espírito não fosse espirado. Tem coexistido eternamente com o Pai e o Filho. Dizer que procedeu de, ou foi espirado do Pai e do Filho não implica que seja menos Deus; só fala da relação que sustenta eternamente com as outras duas Pessoas da Trindade.7

Termos limitados

Os nossos termos serão sempre limitados, meras alusões à complexidade do Ser divino,8 por isso, podemos no máximo, trabalhando dentro dos limites da Revelação, ter uma compreensão pálida deste mistério, que certamente ultrapassa em muito a nossa percepção e, mais ainda, a nossa linguagem, no esforço de expressar o que percebemos;9 no entanto, se a doutrina da Trindade foi-nos revelada nas Escrituras, fazendo parte do desígnio de Deus, tem por certo “utilidade” para a vida da Igreja;10 nada na Escritura é ocioso (At 20.27/2Tm 3.16); ocioso e ingrato (Veja-se: J. Calvino, As Institutas, III.21.4), é deixar de considerar “todo o desígnio de Deus”11 ou tentar ultrapassá-lo. Quanto a este último perigo, talvez mais tentador para nós teólogos, cabe a advertência de Calvino (1509-1564), ao encerrar o capítulo sobre a Trindade:

Espero que pelo que temos dito, todos os que temem a Deus verão que ficam refutadas todas as calúnias com que Satanás tem pretendido até o dia de hoje perverter e obscurecer nossa verdadeira fé e religião. Finalmente confio em que toda esta matéria haja sido tratada fielmente, para que os leitores refreiem sua curiosidade e não suscitem, mais do que é lícito, molestas e intrincadas disputas, pois não é minha intenção satisfazer aos que colocam seu prazer em suscitar sem medida algumas novas especulações.

Certamente, nem conscientemente nem por malícia omiti o que poderia ser contrário a mim. Mas como meu desejo é servir à Igreja, me pareceu que seria melhor não tocar nem revolver outras muitas questões de pouco proveito e que resultariam enfadonhas aos leitores. Porque, de que serve discutir se o Pai gera sempre? Tendo como indubitável que desde a eternidade há três Pessoas em Deus, este ato contínuo de gerar não é mais que uma fantasia supérflua e frívola.12

Por outro lado, se os termos são imperfeitos e imprecisos, devemos sempre lembrar que somente a Escritura é inspirada e infalível, não os nossos termos e interpretações. O ponto, portanto, que deve ser priorizado, é a realidade por trás dos termos. “Procede esta compreensão?”, deve ser sempre a pergunta do estudante sincero, desejoso de conhecer mais a Palavra de Deus.

Bavinck é-nos imprescindível em suas observações a respeito da elaboração doutrinária da Igreja:

Para satisfazer a essa exigência (tratar da diversidade e unidade) a Igreja Cristã e a teologia cristã primitiva fizeram uso de várias palavras e expressões que não podem ser encontradas literalmente nas sagradas Escrituras. A Igreja começou a falar da essência de Deus e de três pessoas nessa essência do Ser divino. Ela falava de características triúnas e trinitárias, ou essenciais e pessoais, da eterna geração do Filho e da procedência do Espírito Santo do Pai e do filho, e outros termos semelhantes.

Não há razão pela qual a Igreja Cristã e a teologia cristã não devam usar esses termos e expressões, pois as Sagradas Escrituras não foram dadas por Deus à Igreja para ser desconsideradamente repetida, mas para ser entendida em toda a sua plenitude e riqueza, e para ser reafirmada em sua própria linguagem para que dessa forma possa proclamar os poderosos feitos de Deus. Além disso, tais termos e expressões são necessários para manter a verdade da Escritura contra seus oponentes e colocá-la em segurança contra equívocos e erros humanos. E a história tem mostrado através dos séculos que a despreocupação com esses nomes e a rejeição deles conduz a vários afastamentos da confissão.

Ao mesmo tempo nós devemos, no uso desses termos, nos lembrar que eles são de origem humana e, portanto, limitados, sujeitos a erro e falíveis. Os Pais da Igreja sempre reconheceram isso. Por exemplo, eles afirmavam que o termo pessoas, que foi usado para designar as três formas de existência no Ser divino não fazem justiça à verdade, mas servem de ajuda para manter a verdade e eliminar o erro. A palavra foi escolhida, não porque fosse a mais precisa, mas porque nenhuma outra melhor foi encontrada. Nesse caso a palavra está atrás da ideia, e a ideia está atrás da realidade. Apesar de não poder preservar a realidade a não ser dessa forma, nós nunca devemos nos esquecer de que é a realidade que conta, e não a palavra. Certamente na glória outras e melhores palavras e expressões serão colocadas em nossos lábios.13

Na procedência do Espírito da parte do Pai e do Filho temos uma relação trinitária ontológica e econômica. Em outros termos, partindo do princípio de que a revelação de Deus alude à essência de Deus; por intermédio da manifestação da Trindade, vemos, limitadamente, aspectos da relação essencial da Trindade. Privar-nos desta compreensão (procedência do Pai e do Filho) equivale a empobrecer a nossa compreensão de Deus conforme nos foi dado conhecer na Palavra e definitivamente em Jesus Cristo, perdendo assim, a amplitude de nossa salvação, que passa necessariamente pela declaração de que Deus se fez carne (Jo 1.14). Corremos o risco de cair parcialmente num agnosticismo teológico. (Veja-se: Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 102).

O Quarto Concílio Ecumênico, realizado em Calcedônia (8-31/10/451) ratificou o Credo de Nicéia (325) e o de Constantinopla (381). O seu objetivo era estabelecer uma unidade teológica na Igreja. Apesar de sua preocupação dominante ser concernente às questões referentes ao Filho, encontramos na sua declaração termos que se tornaram padrão dentro da teologia para se referirem à Trindade.

A Igreja reafirma a sua fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo reconhecendo a sua grande dívida histórica para com diversos servos de Deus que, guiados pelo Espírito, em suas limitações e piedade, puderam deixar para nós uma compreensão mais ampla de tão grande doutrina. Glorifiquemos ao Deus Triúno!

 

Maringá, 21 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


1 gennhqe/nta e e)kporeuo/menon são expressões usadas no Credo Niceno-Constantinopolitano (381). Quanto à distinção das expressões, e o significado da “procedência”, confesso minha ignorância, juntamente com Agostinho (354-430) e João Damasceno (c. 675-749) (Veja-se: F. Turretin, Institutes of Elenctic Theology, Phillipsburg, New Jersey: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1992, v. 1, III.31.3; J. Oliver Buswell, A Systematic Theology of the Christian Religion, Grand Rapids, Michigan: Zondervan, © 1962, I, p. 119-120).

2 Como já mencionamos supra, a expressão “e do Filho” em latim “Filioque”, foi acrescentada no Concílio local de Toledo (589).

3“O Pai é entendido como o primeiro princípio (archê) da Trindade e, por conseguinte, como o princípio unificador da hypostases (u/po/stasij). O Filho é gerado do Pai, e o Espírito procedente do Pai através do Filho” (Trinitas: In: Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms, 4. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1993, p. 308). No entanto, a expressão do autor, “o Espírito procedente do Pai através do Filho” não corresponde à compreensão de Nicéia e Constantinopla, visto que esta fórmula, de certo modo, inspirada em Gregório de Nissa (c. 335-c.394) – que modelou a teologia oriental –, foi rejeitada por Agostinho (354-430), para evitar qualquer tipo de subordinação (Agostinho, A Trindade, V.14.15. p. 208-210).(Veja-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã, p. 198).

4 Conforme expressão de Olson (Roger Olson, História das Controvérsias na Teologia Cristã: 2000 anos de unidade e diversidade, São Paulo: Editora Vida, 2004, p. 196).

5 “A propriedade peculiar e pessoal da terceira pessoa é expressa pelo título Espírito. Esse título não pode expressar sua essência, visto que sua essência é também a essência do Pai e do Filho. Ele deve expressar sua eterna relação pessoal com as outras pessoas divinas, visto ser ele uma pessoa constantemente designada como o Espírito do Pai e o Espírito do Filho” (Archibald A. Hodge, Confissão de Fé Westminster Comentada por A.A. Hodge, São Paulo: Editora os Puritanos, 1999, Capítulo II, p. 91). (Veja-se: também, A.A. Hodge, Esboços de Theologia, Lisboa: Barata & Sanches, 1895, p. 151-152).

6Agostinho, A Trindade, São Paulo: Paulus, 1994, XV.17.27. p. 522. Veja-se: também: IV.20.29; V.14.15; XV.17.29; 26.47; 27.50.

7 Edwin H. Palmer, El Espiritu Santo, Edinburgh: El Estandarte de la Verdad, (s.d.), Edição Revista, p. 15. Berkhof interpreta desta forma: “O eterno e necessário ato da primeira e da segunda pessoas da Trindade pelo qual elas, dentro do Ser Divino, vêm a ser a base da subsistência pessoal do Espírito Santo, e propiciam à terceira pessoa a posse da substância total da essência divina, sem nenhuma divisão, alienação ou mudança” (L. Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 98). (Veja-se: também, A.H. Strong, Systematic Theology, 35. ed. Valley Forge, Pa.: Judson Press, 1993, p. 340-343; F. Turretin, Institutes of Elenctic Theology, v. 1, III.31.3ss. p. 308-310; A.A. Hodge, Esboços de Theologia, p. 151-152; Charles Hodge, Teologia Sistemática, p. 394; Loraine Boettner, Studies in Theology, p. 122-124; Herman Bavinck, The Doctrine of God, The Doctrine of God, 2. ed. Grand Rapids, Michigan: W. M. Eerdmans Publishing Co., 1955. p. 310ss; L. Berkhof, Teologia Sistemática, p. 97-98; R.L. Dabney, Lectures in Systematic Theology, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1985 (Reprinted), XIX, p. 210-211).

8 Este tipo de comentário poderia induzir o leitor à compreensão de que desvalorizamos os termos teológicos; o que estaria extremamente distante de nossa convicção e perspectiva. Os termos teológicos, em grande parte, são expressões humanas na elaboração da fé conforme revelada nas Escrituras; portanto, limitados; no entanto, servem de referências para expressar a compreensão bíblica formulada no decorrer da história. Desprestigiar gratuitamente as expressões teológicas, tem, em geral, contribuído para o empobrecimento da doutrina bíblica e, consequentemente o enfraquecimento da vida cristã.

9 “A linguagem é a primeira tentativa do homem para articular o mundo de suas percepções sensoriais. Esta tendência é uma das características fundamentais da linguagem humana” (Ernst Cassirer. Antropologia Filosófica, 2. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1977, p. 328).

10 “O artigo sobre a santa Trindade é o coração e o núcleo de nossa confissão, a marca registrada de nossa religião, e o prazer e o conforto de todos aqueles que verdadeiramente crêem em Cristo.

“Essa confissão foi a âncora na guerra de tendências através dos séculos. A confissão da santa Trindade é a pérola preciosa que foi confiada à custódia da Igreja Cristã” (Herman Bavinck, Our Reasonable Faith, 4. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1984, p. 145).

11 Calvino também aqui tem algo dizer: “A Escritura é a escola dO Espírito Santo, na qual, como nada é omitido não só necessário, mas também proveitoso de conhecer-se, assim também nada é ensinado senão o que convenha saber” (J. Calvino, As Institutas, III.21.3).

12Juan Calvino, Institución de la Religión Cristiana, Rijswijk, Países Bajos: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1967 (Nueva Edición Revisada), I.13.29.

13Herman Bavinck, Our Reasonable Faith, p. 157-158.

A Trindade e o culto legítimo

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“Nós adoramos a Deus porque Ele nos criou para adorá-Lo” – Hughes Oliphant Old.[1]

 

Paulo em sua maravilhosa doxologia (Ef 1.3-14) declara que Deus nos tem abençoado continuamente em Cristo. Ele bendiz a Deus com uma expressão de ação de graças, considerando as bênçãos de Deus que recebemos por Cristo: que nos tem abençoado (eu)logh/saj) (eulogésas)(3). O particípio aoristo (eu)logh/saj), indica dentro deste contexto, um fato consumado e a ação continuada de Deus.

 

Podemos interpretar que Deus na eternidade já nos abençoou definitivamente; a sua bênção é completa; todavia, ela é-nos comunicada constantemente ao longo da história. Essas bênçãos são multifacetadas: “toda sorte” (pa/sh), na realidade, “todas” e “cada” bênção que temos, sem exceção, provém do Senhor. As “regiões celestiais” (e)n toi=j e)pourani/oij = lit. “dos céus”, “celestiais”)[2] indicam a procedência das bênçãos. Elas provêm de Deus, o Pai que habita os céus (Mt 6.9) e, para onde Ele mesmo nos levará (2Tm 4.18).

 

Devemos estar atentos ao fato de que tudo que temos provém de Deus, por meio de Cristo, sendo comunicado pelo Espírito. De modo especial, o texto destaca algumas dessas bênçãos: a eleição (4-5), a redenção (7), o selo do Espírito (13-14). Portanto, “é uma tentação muito grave, ou seja, avaliar alguém o amor e o favor divinos segundo a medida da prosperidade terrena que ele alcança”.[3] As bênçãos são espirituais porque se originam em Deus, sendo-nos comunicadas pelo Espírito. Essas bênçãos relacionam-se diretamente ao ministério de Cristo, que é celestial (2Tm 4.18), tendo um alcance cósmico (Ef 3.10).

 

Isso também denota a nossa nova condição: Deus “nos fez assentar nos lugares celestiais (e)pourani/oij) (epouraníois) (Ef 2.6) juntamente com Cristo (Ef 1.20). Essa realidade é altamente estimulante: cada bênção de Deus, o Seu cuidado mantenedor e preservador constitui-se na administração de Sua graça, concedida em Cristo Jesus desde a eternidade. Devemos, então, considerar que “se desejamos refrear nossas paixões, devemos recordar que todas as coisas nos têm sido dadas com o propósito de que possamos conhecer e reconhecer o seu autor”.[4]

 

Considerando essas bênçãos, que ultrapassam em muito a nossa capacidade de pensar, sentir ou imaginar (Ef 3.20), devemos buscar o reino de Deus (Mt 6.33); as “coisas lá do alto” onde Cristo está à direita de Deus (Cl 3.1).

 

Tudo que temos é “em Cristo”. “Vê-se então que a fé nos ensina que todo o bem que nos é necessário e que em nós mesmos não existe está em Deus e em Seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, em quem o Senhor constituiu toda a plenitude das Suas bênçãos e da Sua liberalidade”.[5] Neste texto, Efésios 1.3-14, há pelo menos 12 referências diretas a Cristo, indicando a verdade de que, fora de Cristo nada somos e nada temos; Ele é o fundamento da Igreja. Juntamente com os dons celestiais, Cristo dá-se a Si mesmo por nós (Rm 8.32). A eleição tem um sentido escatológico: é da eternidade para a eternidade em santificação: até que a nossa salvação seja consumada na glorificação. Contudo, a grande, a maior bênção Cristã quer aqui, quer na eternidade é o próprio Jesus Cristo. Todas as demais coisas, por mais relevantes que sejam – e são –, decorrem de uma Pessoa: Jesus Cristo, o Deus encarnado.[6]

 

Paulo inicia a doxologia bendizendo a Deus, demonstrando que Deus é digno de ser bendito. A palavra bendito, (Eu)loghto\j = “louvado”, “bem-aventurado”) (Hebraico: Baruk; Latim: Benedictus) ocorre oito vezes no Novo Testamento e é sempre usada para Deus (Mc 14.61; Lc 1.68; Rm 1.25; 9.5; 2Co 1.3; 11.31; Ef 1.3; 1Pe 1.3).[7] A fraseologia desta saudação, também empregada em 2Co 1.3, assemelha-se à de Pedro em 1Pedro 1.3. Na Epístola aos Coríntios, Paulo bendiz a Deus considerando o fato de que é Ele quem nos conforta em toda a nossa tribulação; Pedro, bendiz a Deus considerando a nossa regeneração efetuada pela misericórdia de Deus, para que tenhamos uma viva esperança por intermédio da ressurreição de Cristo. Em Efésios, Paulo, contemplando a extensão da obra do Deus triúno de eternidade a eternidade efetuando a nossa eleição, dá graças a Deus. (Ver o Salmo 103).[8]

 

Paulo diz que Deus, o Pai, tem, ao longo da história, manifestado as suas bênçãos eternas para conosco – Paulo, os efésios e todos os santos em todos os tempos – nas regiões celestiais em Cristo Jesus. Notemos aqui, que Deus é Pai do “nosso Senhor Jesus Cristo” (path\r tou= kuri/ou h)mw=n )Ihsou= Xristou=).

 

Paulo dá graças a Deus considerando então as bênçãos de Deus derramadas sobre o seu povo: No passado: (Eleição) (Ef 1.3,4); No presente: (Redenção) (Ef 1.7); No futuro: (Posse definitiva da vida eterna) (Ef 1.12-14).

 

O mesmo Espírito que nos abençoa, orienta-nos em nossa adoração, a fim de que ofereçamos a Deus «hinos e cânticos espirituais» (Ef 5.19), conforme acentuou Old: “Os hinos e salmos que são cantados na adoração sãos músicas espirituais, isto é, elas são as músicas do Santo Espírito (At 4.25; Ef 5.19)”.[9] (Ver: Cl 3.16).

 

Paulo bendiz a Deus contemplando a extensão da obra do Deus triúno de eternidade a eternidade efetuando a nossa eleição. Os eleitos bendizem a Deus pelo que Ele é e pelo que Ele fez por nós. A gratidão deve nortear o nosso relacionamento com Deus. “Não há um caminho mais direto (à gratidão), do que o de tirarmos nossos olhos da vida presente e meditar na imortalidade do céu”.[10]

 

 Deus deve ser sempre o alvo de nossa adoração sincera, resultante de um coração consciente e agradecido, que reconhece a Sua Glória e os Seus atos salvadores e abençoadores (2Ts 2.13/Ef 5.20). Comentando o Salmo 6, Calvino assim se expressa: “Depois de Deus nos conceder gratuitamente todas as coisas, ele nada requer em troca senão uma grata lembrança de seus benefícios”.[11]

 

Fomos eleitos por Deus na eternidade para que O adoremos. Portanto, no culto a igreja vivencia o propósito de sua eleição: o fim principal do homem é glorificar a Deus! A igreja é a comunidade de adoradores que se congrega para testemunhar publicamente os atos graciosos de Deus.

 

Maringá, 21 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1]Hughes Oliphant Old, Worship: That Is Reformed According to Scripture, Atlanta: John Knox Press, 1984, p. 1.

[2]E)poura/nioj: Mt 18.35 (variante textual); Jo 3.12; 1Co 15.40,48,49; Ef 1.3,20; 2.6; 3.10; 6.12; Fp 2.10; 2Tm 4.18; Hb 3.1; 6.4; 8.5; 9.23; 11.16; 12.22.

[3] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 17.14), p. 346.

[4]João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 72.

[5] João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 91.

[6]D.M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 42.

[7] Na Septuaginta, a única vez que a palavra é usada para referir-se ao homem é em Gênesis 24.31.

[8]Ver: R.C.H. Lenski, The Interpretation of St. Paul´s Epistles to the Ephesians, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1998, (Ef 1.3), p. 349.

[9]Hughes Oliphant Old, Worship: That Is Reformed According to Scripture, Atlanta: John Knox Press, 1984, p. 6.

[10]João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 73.

[11]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999,  v. 1, (Sl 6.5), p. 129. Por sua vez, “os ímpios e hipócritas correm para Deus quando se vêem submersos em suas dificuldades; mas assim que se vêem livres delas, olvidando seu libertador, se regozijam com frenética hilaridade” (João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 28.7), p. 608).

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (5) – A Doutrina da Trindade: Definição, compreensões e incompreensões

Este artigo é continuação do: Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (4) – Os Credos e as Confissões como expressões de fé e conhecimento

Acesse aqui esta série de estudos completa.


Um único Deus é a Trindade. – Décimo Primeiro Concílio de Toledo (675).1

 

Ela (Trindade) é, em certo sentido, a mais excelsa e a mais gloriosa de todas as doutrinas, a coisa mais espantosa e estonteante que aprouve a Deus revelar-nos sobre Si mesmo – D.M. Lloyd-Jones.2

 

Na quarta-feira interrompi a sequência desse assunto para tratar da oração. Creio que entramos em um tema difícil para o qual a nossa mente, como em tantos outros, é incapaz de tratar adequadamente. Por outro lado, tudo o que foi revelado deve ser alvo de nossas pesquisas visando a conhecer mais a Deus a fim de cultuá-lo de forma mais intensa e reverente. Com esse espírito, continuemos nossos esboços.

Para expressar a verdade bíblica de que o Ser de Deus subsiste em Três Pessoas, a teologia cristã usa o termo Trindade, palavra esta que não se encontra na Bíblia, mas, sim, o seu ensinamento. A expressão Trindade é proveniente do latim trinitas, derivando-se do termo trinus (= triplo), ao que veio corresponder outro sinônimo: tríade, do grego tri/aj que significa um conjunto de três.

Até onde sabemos, Teófilo de Antioquia (c. 115-181) – em uma apologia a respeito do Cristianismo –, foi possivelmente o primeiro a usar a palavra Trindade (tri/aj) (trías).3 Tertuliano (c. 155-220) foi o primeiro a usar o termo latino Trinitas4 e, também, o primeiro a tentar sistematizar esta doutrina, ainda que o tenha feito de forma deficiente, subordinando o Filho e o Espírito ao Pai.5

Esta doutrina é uma das marcas características do Cristianismo, sendo fundamentalmente dependente da revelação bíblica.6 Ela, conforme veremos, sofreu ao longo da história diversos ataques, muitos dos quais resultantes de uma compreensão limitada e errada dos ensinamentos bíblicos.

Herman Bavinck (1854-1921) acentua:

O artigo sobre a santa Trindade é o coração e o núcleo de nossa confissão, a marca registrada de nossa religião, e o prazer e o conforto de todos aqueles que verdadeiramente creem em Cristo.

Essa confissão foi a âncora na guerra de tendências através dos séculos. A confissão da santa Trindade é a pérola preciosa que foi confiada à custódia da Igreja Cristã.7

Ainda à guisa de introdução, devemos enfatizar que este ensinamento não é decorrente – como alguns equivocadamente pensam –, de especulação humana; antes, a nossa dependência na formulação e compreensão desta doutrina é unicamente da iluminação do Espírito por intermédio da Palavra. As Escrituras Sagradas contém elementos suficientes para a formulação deste ensino. Esta doutrina é tão surpreendente que jamais poderia ter sido inventada pelo homem; ela é resultado da Revelação Especial de Deus que nos foi concedida para que conheçamos o Trino Deus e o adoremos.

Preferimos a palavra Triunidade por acreditar que ela expressa melhor o ensinamento bíblico de que há um só Deus que subsiste em Três Pessoas. No entanto, usaremos os termos Trindade e Triunidade de forma intercambiável.

É necessário enfatizar que quando nos aproximamos deste tema para estudá-lo, temos de fazê-lo com reverente temor e humildade, reconhecendo a grandiosidade do assunto e a nossa limitação para entendê-lo de forma adequada e explicá-lo de modo correto.

A palavra Triunidade traz em seu bojo quatro ideias fundamentais embasadas nas Escrituras, a saber:

1) O Pai é Deus;

2) O Filho é Deus;

3) O Espírito é Deus;

4) Estes três são um só Deus.8

Vejamos agora algumas definições e exposições Confessionais desta doutrina:

 

Confessamos e reconhecemos um só Deus (…). Um em substância e, contudo, distinto em três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.9

 

Cremos e ensinamos que o mesmo Deus imenso, uno e indiviso é inseparavelmente e sem confusão, distinto em pessoa – Pai, Filho e Espírito Santo – e, assim como o Pai gerou o Filho desde a eternidade, o Filho foi gerado por inefável geração, e o Espírito Santo verdadeiramente procede de um e outro, desde a eternidade e deve ser com ambos adorado.

Assim, não há três deuses, mas três pessoas, consubstanciais, coeternas e coiguais, distintas quanto às hipóstases e quanto à ordem, tendo uma precedência sobre a outra, mas sem qualquer desigualdade. Segundo a natureza ou essência, acham-se tão unidas que são um Deus, e a essência divina é comum ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.10

 

Na unidade da Divindade há três pessoas de uma mesma substância, poder e eternidade – Deus o Pai, Deus o Filho e Deus o Espírito Santo. O Pai não é de ninguém – não é nem gerado, nem procedente; o Filho é eternamente gerado do Pai; o Espírito Santo é eternamente procedente do Pai e do Filho.11

 

As igrejas ensinam entre nós com magno consenso que o decreto do Concílio de Nicéia sobre a unidade da essência divina e sobre as três pessoas é verdadeiro e deve ser crido sem qualquer dúvida. A saber: que há uma só essência divina, a qual é chamada Deus e é Deus, eterno, incorpóreo, impartível, de incomensurável poder, sabedoria, bondade, criador e conservador de todas as coisas, visíveis e invisíveis. E, contudo há três pessoas, da mesma essência e poder, e coeternas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. E a palavra ‘pessoa’ usam-na no sentido em que a usaram, nesta questão, os escritores eclesiásticos, para significar não uma parte ou qualidade em outra coisa, mas aquilo que subsiste por si mesmo.12

 

Conforme esta verdade e esta palavra de Deus, cremos em um só Deus, que é um único ser, em que há três Pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Estas são, realmente e desde a eternidade, distintas conforme os atributos próprios de cada Pessoa.

O Pai é a causa, a origem e o princípio de todas as coisas visíveis e invisíveis. O Filho é o Verbo, a sabedoria e a imagem do Pai. O Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, é a eterna força e o poder.

Esta distinção não significa que Deus está dividido em três. Pois a Sagrada Escritura nos ensina que cada um destes três, o Pai e o Filho e o Espírito Santo, tem sua própria existência, distinta por seus atributos, de tal maneira, porém, que estas três pessoas são um só Deus. É claro, então, que o Pai não é o Filho e que o Filho não é o Pai; que, também, o Espírito Santo não é o Pai ou o Filho.

Entretanto, estas Pessoas, assim distintas, não são divididas nem confundidas entre si. Porque somente o Filho se tornou homem, não o Pai ou o Espírito Santo. O Pai jamais existiu sem seu Filho e sem seu Espírito Santo, pois todos os três têm igual eternidade, no mesmo ser. Não há primeiro nem último, pois todos os três são um só em verdade, em poder, em bondade e em misericórdia.13

Esta doutrina pode decompor-se nas seguintes proposições:14

1) Há no Ser Divino uma só essência (ou)si/a)(ousía) indivisível

No “Shemá” a instrução iniciava com a afirmação de que há somente um Deus: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4).

No Novo Testamento Paulo instrui aos Efésios: “Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (Ef 4.4-6). (Tg 2.19).

A compreensão da Igreja é de que não há diferença na essência de Deus; Deus é um ser simples, não composto. A afirmação da Igreja, conforme veremos em outro momento, é de que há apenas uma essência na Trindade partilhada pelas três pessoas,15 havendo distinção, mas não separação entre elas. A essência “é o fundamento de sua unidade comum, apesar da distinção em suas manifestações exteriores” (Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 376).

2) No Ser de Deus há três Pessoas

A Bíblia demonstra haver três pessoas na Triunidade; entretanto, sabemos que o termo Pessoa é uma expressão imperfeita e, portanto, inadequada para retratar a mensagem bíblica. Naturalmente as expressões são limitadas16 para descrever o Ser de Deus. O nosso esforço é no sentido de utilizar os termos que melhor exprimem o ensinamento bíblico.17

As Escrituras afirmam haver um só Deus, mas, que subsistem em três Pessoas. Calvino (1509-1564) assim define Pessoa: “Designo como pessoa, portanto, uma subsistência na essência de Deus que, enquanto relacionada com as outras, se distingue por uma propriedade incomunicável”.18 Adiante, acrescenta: “Com efeito, em cada e qualquer das hipóstases a natureza inteira se compreende, com isto, que lhe subjaz, a cada uma, a sua propriedade específica. O Pai está todo no Filho, o Filho todo no Pai….”.19 (Ver: Mt 3.16-17; 4.1; Jo 1.1-3,18; 3.16; 5.20-22; 14.26; 15.26; 16.13-15).

Berkhof (1873-1957) comentando a primeira distinção feita por Calvino, observa:

 

Isso é perfeitamente permissível e pode proteger-nos de entendimento errôneo, mas não deve levar-nos a perder de vista o fato de que as autodistinções do Ser Divino implicam um “Eu” e “Tu” no Ser de Deus, que assumem relações pessoais uns para com os outros.20

 

3) A essência de Deus pertence totalmente por igual a cada uma das Três Pessoas

A essência divina não está dividida entre as três pessoas como se fossem modulares e independentes. Deus é plenamente as Três Pessoas com todas as Suas perfeições; isto equivale a dizer que as Três Pessoas da Trindade tem a mesma essência: O Deus Pai é tanto Deus Filho como Deus Espírito Santo. Portanto, não há subordinação de essência (ontológica); não há nenhuma diferença em dignidade pessoal. A única subordinação que podemos falar é a da que se refere à ordem e à relação.21

4) A Igreja confessa que a Triunidade é um Mistério que transcende a compreensão do homem

A Triunidade “é inteligível em algumas de suas relações e de seus modos de manifestação, mas é ininteligível em sua natureza essencial”.22 As especulações sobre o assunto no decorrer da história geraram heresias como o triteísmo e o modalismo23 que ora negava a essência una de Deus, ora negava as distinções pessoais dentro da essência.24

É preciso que entendamos que não compete à Igreja explicar o mistério da Trindade; ela, partindo da Escritura, apenas o descreve de forma mais ou menos sistemática, formulando a doutrina de tal forma que evite os erros e as heresias.

Calvino com a cautela costumeira diante do mistério, nos adverte pastoralmente sobre o perigo da especulação indevida:

Aqui, mui certamente, se alguma vez, em qualquer parte, nos recônditos mistérios da Escritura, importa discorrer sobriamente e com muita moderação, aplicada, ademais, muita cautela, para que, seja o pensamento, seja a língua, não avance além do ponto a que se estendam os limites da Palavra de Deus. Pois, como haja a mente humana, que ainda não pode estatuir ao certo de que natureza seja a massa do sol, que, entretanto, diariamente com os olhos se vê, de à sua parca medida reduzir a imensurável essência de Deus? (…) Pelo infelicíssimo resultado de qual temeridade importa-nos ser advertidos, para que tenhamos o cuidado de aplicar-nos a esta questão com docilidade mais do que com sutileza, nem incutamos no espírito ou investigar a Deus em qualquer outra parte que em Sua Sagrada Palavra, ou a Seu respeito pensar qualquer cousa, a não ser que lhe vá à frente a Sua Palavra, ou falar que não o tomado dessa mesma Palavra.

Ora, se a distinção que em uma só é única divindade subsiste de Pai, Filho e Espírito, posto que é difícil de apreender-se, causa a certos espíritos mais dificuldade e problema do que é justo, lembrar-se devem de que as mentes humanas penetram em um labirinto25 quando cedem à sua curiosidade e, destarte, por mais que não alcancem a altura do mistério, deixem-se reger dos oráculos celestes.26

Agostinho (354-430), conclui a sua monumental obra Da Trinitate – que se tornaria decisiva para toda formulação cristológica posterior – com uma humilde e reverente oração: “Senhor, único Deus, Deus Trindade, tudo o que disse de ti nestes livros, de ti vem. Reconheçam-no os teus, e se algo há de meu, perdoa-me e perdoem-me os teus. Amém”.27

Maringá, 21 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


 

1Apud Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 384.

2D. M. Lloyd-Jones, Deus o Pai, Deus o Filho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, (Grandes Doutrinas Bíblicas, v. 1), 1997, p. 114.

3“Os três dias que precedem a criação dos luzeiros são símbolo da Trindade….” (Theophilus to Autolicus, II.15. In: Alexander Roberts; James Donaldson, eds. The Ante-Nicene Fathers, Buffalo: The Christian Literature Company, 1886, v. 2, p. 101. Em português: Teófilo de Antioquia, Segundo Livro a Autólico, 15. In: Padres Apologistas, São Paulo: Paulus (Patrística, 2), 1995, p. 246. Ver também: William G.T. Shedd, Dogmatic Theology, Grand Rapids, Michigan: Zondervan, © 1888 (Reprinted), v. 1, p. 267; A.A. Hodge, Esboços de Theologia, Lisboa: Barata & Sanches, 1895, p. 148; B. Studer, Trindade: In: Ângelo Di Berardino, org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Petrópolis, RJ.; São Paulo: Vozes; Paulinas, 2002, p. 1387.

4 Tertuliano foi pródigo na criação de neologismos na língua latina (Ver estatísticas em: Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 375). Veja-se: Jaroslav Pelikan, A tradição cristã: uma história do desenvolvimento da doutrina: O surgimento da tradição católica 100-600, v. 1, São Paulo: Shedd Publicações, 2014, p. 121.

5 Ver: Tertullian, Agains Praxeas, II. In: Alexander Roberts; James Donaldson, eds. The Ante-Nicene Fathers, Buffalo: The Christian Literature Company, 1886, v. 3, p. 598. Extratos do texto encontram-se também em: Cirilo Folch Gomes, (compilador). Antologia dos Santos Padres, 2. ed. (revista e ampliada), São Paulo: Paulinas, 1980, p. 165-167. Berkhof diz que “Tertuliano foi o primeiro a declarar claramente a tri-personalidade de Deus e a manter a unidade substancial das três Pessoas. Mas não chegou a exprimir de forma clara a doutrina da Trindade” (Louis Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 77).

6 Cf. Augustus H. Strong, Teologia Sistemática, São Paulo: Editora Hagnos, 2003, v. 1, p. 452.

7 Herman Bavinck, Our Reasonable Faith, 4. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1984, p. 145.

8 Para uma classificação um pouco diferente, ver: Augustus H. Strong, Teologia Sistemática, São Paulo: Editora Hagnos, 2003, v. 1, p. 452.

9 A Confissão Escocesa (1560), Cap. I. In: Livro de Confissões, São Paulo: Missão Presbiteriana do Brasil Central, 1969, § 3.01.

10 A Segunda Confissão Helvética (1562-1566), Cap. III. In: Livro de Confissões, São Paulo: Missão Presbiteriana do Brasil Central, 1969, §§ 5.016-5.017.

11 Confissão de Westminster, Cap. II.3. Ver também: Catecismo Maior de Westminster, Perguntas 9-11 e Catecismo Menor de Westminster, Pergunta 6.

12 A Confissão de Augsburgo, São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1980, Art. I, p. 17.

13 Confissão Belga, Art. 8.

14 Esquema adaptado de Berkhof (Louis Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 88-91).

15 “Pai, Filho e Espírito Santo, cada um possui toda a substância e todos atributos da divindade. A pluralidade de Deus não é, portanto, pluralidade de essência, mas de distinções hipostáticas ou pessoais” (Augustus H. Strong, Teologia Sistemática, São Paulo: Editora Hagnos, 2003, v. 1, p. 492).

16“Tendo criado o homem para ser uma criatura sociável, Deus não só lhe inspirou o desejo e o colocou na necessidade de viver com os de sua espécie, mas outorgou-lhe igualmente a faculdade de falar, faculdade que deveria constituir o grande instrumento e o laço comum desta sociedade. É daí que provêm as palavras, as quais servem para representar, e até para explicar as ideias” (G.W. Leibniz, Novos Ensaios São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 19), 1974, III.1. § 1, p. 167).

17 Ver: João Calvino, As Institutas, I.13.3; Augustus H. Strong, Teologia Sistemática, São Paulo: Editora Hagnos, 2003, v. 1, p. 491; Albertus Pieters, Fundamentos da Doutrina Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1979, p. 179.

18João Calvino, As Institutas, I.13.6.

19 João Calvino, As Institutas, I.13.19.

20Louis Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 89. Veja-se também: A. B. Langston, Esboços de Teologia Sistemática, 7. ed. Rio de Janeiro: JUERP., 1983, p. 119ss.

21 Ver: Louis Berkhof, Teologia Sistemática, p. 90; João Calvino, As Institutas, I.13.19.

22Louis Berkhof, Teologia Sistemática, p. 91.

23 Termo introduzido por Adolf von Harnack (1851-1930) para descrever as heresias de Noetus, Práxeas e Sabélio (Cf. Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 382).

24 Como acentua Berkhof, “Os numerosos esforços feitos para explicar o mistério foram especulativos, e não teológicos. Invariavelmente redundaram no desenvolvimento de conceitos triteístas ou modalistas de Deus, na negação ou da unidade da essência divina ou da realidade das distinções pessoais dentre da essência” (Louis Berkhof, Teologia Sistemática, p. 91).

25 Figura semelhante Calvino empregou para falar a respeito da doutrina da Eleição. “Quando os homens quiserem fazer pesquisa sobre a predestinação, é preciso que se lembrem de entrar no santuário da sabedoria divina. Nesta questão, se a pessoa estiver cheia de si e se intrometer com excessiva autoconfiança e ousadia, jamais irá satisfazer a sua curiosidade. Entrará num labirinto do qual nunca achará saída. Porque não é certo que as coisas que Deus quis manter ocultas e das quais Ele não concede pleno conhecimento sejam esquadrinhadas dessa forma pelos homens. Também não é certo sujeitar a sabedoria de Deus ao critério humano e pretender que este penetre a Sua infinidade eterna. Pois Ele quer que a Sua altíssima sabedoria seja mais adorada que compreendida (a fim de que seja admirada pelo que é). Os mistérios da vontade de Deus que Ele achou bom comunicar-nos, Ele nos testificou em Sua Palavra. Ora, Ele achou bom comunicar-nos tudo o que viu que era do nosso interesse e que nos seria proveitoso” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.8.1), p. 38). “Aprendamos, pois, a evitar as inquirições concernentes a nosso Senhor, exceto até onde Ele nos revelou através da Escritura. Do contrário, entraremos num labirinto do qual o escape não nos será fácil” (João Calvino, Romanos, 2. ed. São Paulo: Parakletos, 2001, (Rm 11.33), p. 426-427).

26João Calvino, As Institutas, I.13.21.

27Santo Agostinho, A Trindade, São Paulo: Paulus, 1994, (Patrística, 7), XV.28, p. 557.