Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (29)

Discernimento necessário

 

Jesus Cristo afirma que aquele que deseja fazer a vontade de Deus deve examinar a doutrina: “Se alguém quiser fazer a vontade (qe/lhma) dele (Deus), conhecerá (ginw/skw) a respeito da doutrina (didaxh/), se ela é de Deus” (Jo 7.17).

 

O fato de a vontade de Deus estar revelada nas Escrituras não significa que a Bíblia seja um manual repleto de regras minuciosas para cada circunstância de nossa vida, por meio do qual possamos encontrar sempre uma regra explícita para a nossa situação específica. Não. A Palavra é a fonte e norma de todo o conhecimento e prática cristã. Nela temos os princípios de Deus que se adequam a todas as nossas necessidades, em quaisquer épocas e circunstâncias. Todavia, a Bíblia não é um livro mágico, por meio do qual exercitamos a nossa “sorte espiritual” abrindo-o ao acaso, e procurando saber qual a vontade de Deus para a nossa vida em determinada situação, mediante o texto que o nosso dedo (“sensor espiritual”) apontar.

 

Sem dúvida, precisamos conhecer a vontade de Deus, mas isto fazemos lendo e meditando na sua Palavra, fazendo-o com discernimento e entendimento, rogando a Deus que nos dê compreensão do que lemos e como isso se aplica à nossa vida.

 

É isto que Paulo recomenda à Igreja de Éfeso: “Vede prudentemente como andais, não como néscios, e, sim, como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão não vos torneis insensatos, mas procurai compreender (Suni/hmi)[1] qual a vontade (qe/lhma) do Senhor” (Ef 5.15-17).

 

Paulo estimula a Igreja a usar positivamente a sua capacidade de raciocínio a fim buscar compreender a vontade de Deus. Somente assim aqueles irmãos poderiam ter um discernimento claro do propósito de Deus em sua vida.

 

Negativamente considerando, podemos dizer que o mesmo princípio de discernimento deve ser aplicado às mensagens que ouvimos com frequência, a respeito da “vontade de Deus para a nossa vida”.

 

É necessário que entendamos que a nossa mente não é um “acessório” descartável de nossa existência, o qual pode ser poupado – deixado em casa, quem sabe, em uma gaveta – quando vamos à Igreja, lemos livros, ouvimos mensagens ou simplesmente conversamos sobre aspectos da vida cristã. Deus criou o homem completo a fim de que ele possa, com o auxílio do Espírito Santo, usar de todos os recursos que Ele lhe outorgou.

 

Já na década de 60 do primeiro século encontramos em Colossos vestígios de uma heresia que tentava fundir a simplicidade do evangelho com especulações filosóficas – caracterizadas por práticas ascéticas – estando estes ensinamentos a prejudicar a Igreja (Cl 2.8, 16,18,20,21). Paulo, acompanhado por Timóteo e Epafras (Cl 1.1; 4.12), escreve aos colossenses, mostrando a supremacia de Cristo sobre todas as coisas (Cl 1.15,19; 2.3,19).

 

Juntamente com o ensino correto, Paulo declara que ele próprio, Timóteo e Epafras estão orando pela Igreja: “Não cessamos de orar por vós, e de pedir que transbordeis de pleno conhecimento da sua vontade (qe/lhma), em toda a sabedoria (sofi/a) e entendimento (su/nesij)”[2] (Cl 1.9). “Saúda-vos Epafras que é dentre vós, servo de Cristo Jesus, o qual se esforça sobremaneira, continuamente, por vós, nas orações, para que vos conserveis perfeitos e plenamente convictos em toda a vontade (qe/lhma) de Deus” (Cl 4.12).

 

Por isso, insistimos: é necessário discernimento para interpretar as doutrinas que nos são transmitidas a fim de saber se são de Deus, ou não (Jo 7.17). Portanto, devemos desejar conhecer a vontade de Deus (Ef 5.17). Paulo orava para que os colossenses “transbordassem” (plhrwqh=te). A voz passiva indica aqui a ação de Deus; para que “Deus encha vocês” deste genuíno conhecimento (Cl 1.9[3]/Cl 4.12/Hb 13.21).

 

Devemos dar crédito à verdade procedente de Deus (1Ts 2.10-13). Contudo como muitos falsos mestres têm saído pelo mundo, faz-se necessário provar os espíritos. Precisamos exercitar o “ceticismo cristão” que não aceita tudo, contudo não rejeita a procura da verdade:[4]

 

Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai (dokima/zw)[5] os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora. Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo. Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo. Eles procedem do mundo; por essa razão, falam da parte do mundo, e o mundo os ouve. Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos ouve; aquele que não é da parte de Deus não nos ouve. Nisto reconhecemos o espírito da verdade (a)lh/qeia) e o espírito do erro (1Jo 4.1-6).[6]

 

O fato bíblico, é que a verdade não gera mentira: “Mentira alguma jamais procede da verdade (a)lh/qeia)[7] (1Jo 2.21).

 

Maringá, 7 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]Suni/hmi, cujo sentido primário, empregado por Homero, é de “congregar”, metaforicamente, envolve a ideia de reunir as coisas, analisá-las, tentando chegar a uma conclusão por meio de uma conexão das partes. (* Mt 13.13,14,15,19,23,51; 15.10; 16.12; 17.13; Mc 4.12; 6.52; 7.14; 8.17,21; Lc 2.50; 8.10; 18.34; 24.45; At 7. 25 (duas vezes); 28.26,27; Rm 3.11; 15.21; 2Co 10.12; Ef 5.17.

[2] Su/nesij ocorre 7 vezes no NT.: Mc 12.33; Lc 2.47; 1Co 1.19; Ef 3.4; Cl 1.9; 2.2; 2Tm 2.7, significando, discernimento, inteligência, envolvendo, conforme vimos, a ideia de reunir as evidências para avaliar e chegar a uma conclusão. Este “entendimento” deve ser fruto de uma reflexão, recorrendo, contudo à iluminação de Deus (2Tm 2.7).

[3] “Quando todo o espaço das nossas mentes for preenchido até transbordar com o conhecimento da vontade do Senhor, já não teremos muito interesse em satisfazer egoisticamente a nossa própria vontade” (R. P. Shedd, Andai Nele: Exposição bíblica de Colossenses, São Paulo: ABU., 1979, p. 22).

[4] Vejam-se: François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 233; Gene Edward Veith, Jr., De Todo o teu entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 129-131.

[5]Dokima/zw ressalta o aspecto positivo de “provar” para “aprovar”, indicando a genuinidade do que foi testado (2Co 8.8; 1Ts 2.4; 1Tm 3.10).

[6]Archibald Alexander (1772-1851), um dos fundadores do Seminário de Princeton e seu primeiro professor de Teologia Sistemática, resumiu:

“Na avaliação da experiência religiosa é de todo importante manter continuamente à vista o sistema de verdade divina contido nas Sagradas Escrituras; caso contrário, nossa experiência, como ocorre muito frequentemente, se degenerará em entusiasmo. (…) Em nossos dias não há nada mais necessário que estabelecer na religião, uma cuidadosa distinção entre as experiências verdadeiras e as falsas; para ‘provar os espíritos se procedem de Deus’. E ao fazer esta discriminação, não há outro padrão de prova senão a infalível Palavra de Deus. Tragamos cada pensamento, motivo, impulso e emoção, ante esta pedra de toque. ‘À lei e ao testemunho, se não falam de acordo com estes, é porque não há luz neles’” (Archibald Alexander, Thoughts on Religious Experience, Carlisle, Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1989 (Reprinted), p. XVIII).

[7] Etimologicamente, a ideia da palavra verdade (a)lh/qeia) é de “não ocultamento”, mostrando-se tal qual é em sua pureza, sem falsificação. A palavra confere o sentido de confiabilidade, autenticidade, honradez, segurança. Jesus diz ao Pai que proclamou a Sua Palavra a qual é a verdade; nela não há ambiguidade, dupla intenção, antes, expressa as coisas como realmente são em sua essência.

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (37) (Final) – O uso de Catecismos e Confissões: Valor e importância (2)

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Continuando o post anterior, elenco mais alguns elementos que atestam a importância e o valor dos Credos:

 

3) É uma exigência natural da própria unidade da Igreja, que exige um acordo doutrinário[1] (Ef 4.11-14; Fp 1.27; 1Co 1.10; Jd 3/Tt 3.10/Gl 1.8,9; 1Tm 6.3-5).[2]

 

4) Visto que o cristianismo é um modo de vida fundamentado na doutrina, os Credos oferecem uma base sintetizada para o ensino das doutrinas bíblicas, facilitando a sua compreensão, a fim de que todos os crentes sejam habilitados para a obra de Deus.

 

Não deixa de ser curioso o fato de Spener (1635-1705), o “fundador” do “Pietismo” – que supostamente se opunha ao “Escolasticismo Protestante” –, insistir com os pastores que ensinem às crianças e aos adultos, juntamente com as Escrituras, o Catecismo,[3] visto ser este fundamental para a sedimentação da fé.[4]

 

5) Preserva a doutrina bíblica das heresias surgidas no decorrer da história, revelando-se de grande utilidade, especialmente, nas questões controvertidas, dando-nos uma exposição sistemática e norteadora a respeito do assunto.

 

6) No que se refere à compreensão bíblica, permite distinguir as nossas Igrejas das demais.

 

7) Serve como elemento regulador do ensino ministrado na Igreja bem como de seu governo, disciplina e liturgia.

 

James Orr (1844-1913), na sua obra prima O Progresso do Dogma, escrevendo sobre os “Credos da Reforma” disse:

 

A idade da Reforma se destacou por sua produtividade de credos. Faremos bem se não menosprezarmos o ganho que resulta para nós destas criações do espírito do século XVI. Cometeremos grave equívoco se, seguindo uma tendência prevalecente (1897), nos permitirmos crer que são curiosidades arqueológicas. Estes credos não são produtos ressecados como o pó, senão que surgiram de uma fé viva, e encerram verdades que nenhuma Igreja pode abandonar sem certo detrimento de sua própria vida. São produtos clássicos de uma época que se comprazia em formular credos, com o qual quero dizer, uma época que possuía uma fé que é capaz de definir-se de modo inteligente, e pela qual está disposta a sofrer se for necessário – e que, portanto, não pode por menos que expressar-se em formas que não tenham validade permanente –. (…) Estes credos se têm mantido erguidos como testemunhos, inclusive em período de decaimento, às grandes doutrinas sobre as quais foram estabelecidas as Igrejas; têm servido como baluartes contra os assaltos e a desintegração; têm formado um núcleo de reunião e reafirmação em tempos de avivamento; e talvez têm representado sempre com precisão substancial a fé viva da parte espiritual de seus membros….

Os credos da Reforma dão, e isto praticamente pela primeira vez, uma exposição conjunta de todos os grandes artigos da doutrina cristã.[5]

 

8) Quanto a nós hoje, os Credos servem, ou pelo menos deveriam servir,[6] como desafio para que continuemos nossa caminhada na preservação da doutrina e na aplicação das verdades bíblicas aos novos desafios de nossa geração, integrando-nos assim, à nobre sucessão daqueles que amam a Deus e a Sua Palavra e que buscam entendê-la e aplicá-la, em submissão ao Espírito, à vida da Igreja.

 

Uma tradição saudável tem compromisso com o passado na geração do futuro.[7] A declaração teológica terá sempre o compromisso de ser formulada em fidelidade à Palavra atentando para os problemas hodiernos. Esta formulação e proclamação não podem significar o barateamento da Verdade revelada, a insensibilidade para com os conflitos e indagações contemporâneos, nem uma síntese cinzenta de ambas as questões – visto que perderíamos a essência do Evangelho, que é poder de Deus (Rm 1.16) –, antes, consiste na proclamação fiel e autoritativa do Evangelho, sensível – como é o Evangelho em sua própria essência –, às necessidades dos seres humanos que continuam perecendo, em última instância, pelo pecado e a ignorância da graça redentiva de Deus.

 

Só estes fatos deveriam, por si só, nos conduzir a uma atitude mais humilde, como assinala Noll:

 

O estudo da história da igreja deve aumentar a nossa humildade sobre quem somos e aquilo em que cremos. Não há nada que a igreja moderna desfrute que não seja uma dádiva das gerações anteriores do povo de Deus. Na realidade, nós modificamos, adaptamos e ampliamos essas dádivas do passado, mas não as criamos.[8]

 

Portanto, como assinala Packer,

 

O conservadorismo criativo utiliza-se da tradição, não como autoridade final ou absoluta, mas como recurso importante colocado à nossa disposição pela providência de Deus, a fim de nos ajudar a entender o que a Escritura está nos dizendo sobre quem é Deus, quem somos nós, o que é o mundo ao nosso redor, e o que fomos chamados para fazer aqui e agora.[9]

 

Conforme já vimos, o Antigo e o Novo Testamento usaram deste recurso para auxiliar os crentes na sua vida doutrinária e prática cristã, expressando também o que a Igreja cria.

 

Karl Barth (1886-1968) nesse contexto fala de forma pertinente:

 

Reservamos à Bíblia uma estima e um amor que não temos, no mesmo grau, pela tradição, nem mesmo pelos mais valiosos de seus elementos. Nenhuma Confissão de Fé datando da Reforma ou da época atual pode, da mesma maneira que as Escrituras, elevar-se à pretensão de solicitar o respeito da Igreja.

Mas isso não retira nada do fato de que a Igreja escuta e aprecia o testemunho de seus Pais. Então, mesmo que nós não encontremos nele a Palavra de Deus como em Jeremias ou em Paulo, ele tem para nós um significado elevado. Obedecendo ao mandamento ‘honra teu pai e tua mãe’, nós não nos recusaremos a respeitar, seja na pregação, seja na elaboração científica da dogmática, as afirmações de nossos Pais. Diferentemente das Escrituras, as Confissões não têm autoridade que obrigue, mas devemos, todavia, levá-las seriamente em consideração e lhes atribuir uma autoridade relativa.[10]

 

Uma velha tradição pode ser apenas um antigo e consolidado erro. Por isso, toda tradição – já que não escapamos delas -, deve ser avaliada à luz da Escritura. O problema não é a tradição ou, se quiserem, a nossa teologia, mas, se ela é consistentemente bíblica ou não.[11] Somente a Palavra é infalível! Amém.

 

Maringá, 22 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] Veja-se: A.A. Hodge, Esboços de Theologia, p. 100; L. Berkhof, Introduccion a la Teologia Sistematica, p. 18.

[2]“E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Ef 4.11-14). “Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica” (Fp 1.27). “Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma coisa e que não haja entre vós divisões; antes, sejais inteiramente unidos, na mesma disposição mental e no mesmo parecer” (1Co 1.10). “Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). “Evita o homem faccioso, depois de admoestá-lo primeira e segunda vez” (Tt 3.10). “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema” (Gl 1.8,9). “Se alguém ensina outra doutrina e não concorda com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com o ensino segundo a piedade, é enfatuado, nada entende, mas tem mania por questões e contendas de palavras, de que nascem inveja, provocação, difamações, suspeitas malignas, altercações sem fim, por homens cuja mente é pervertida e privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro” (1Tm 6.3-5).

[3] No caso, o Catecismo Menor de Lutero, 1529. Spener era luterano.

[4]Veja-se: Ph. J. Spener, Mudança para o Futuro: Pia Desideria, Curitiba, PR.; São Bernardo do Campo, SP.: Encontrão Editora; Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, 1996, p. 32-33; 57-58; 118.

[5]James Orr, El Progreso del Dogma, Barcelona: CLIE., (1988), p. 226-227.

[6]Como já vimos, entre o final dos anos 50 e início dos anos 60, Lloyd-Jones lamenta: “No presente século há marcante aversão por credos, confissões e por definições precisas. O cristianismo tornou-se um vago e indefinido espírito de boa vontade e filantropia” (David M. Lloyd-Jones, A Unidade Cristã, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 213).

[7] “A tradição é o sangue da teologia. Separada da tradição a teologia é como uma flor cortada sem suas raízes e sem o solo, logo murcha na mão. Uma sã teologia nunca nasce de novo. Ao honrar a sã tradição, se assegura a continuidade teológica com o passado. Ao mesmo tempo a tradição cria a possibilidade de abrir novas portas para o futuro. Como diz o provérbio: ‘A tradição é o prólogo do futuro.’ Por isso, toda dogmática que se preze como tal, deve definir sua posição em uma ou outra tradição confessional” (Gordon J. Spykman, Teologia Reformacional: Um Nuevo Paradigma para Hacer la Dogmática, Jenison, MI.: The Evangelical Literature League, 1994, p. 5).

[8]Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, São Paulo: Cultura Cristã, 2000, p. 20.

[9]J.I. Packer, O Conforto do Conservadorismo: In: Michael Horton, ed. Religião de Poder, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998, p. 241.

[10]Karl Barth, Esboço de uma Dogmática, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, p. 13.

[11] Veja-se: R.C. Sproul, Somos todos teólogos: uma introdução à teologia sistemática, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2017, p. 28-30.1

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (36) – O uso de Catecismos e Confissões: Valor e importância (1)

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2. Valor e importância

A ideia de Credos desagrada a muitas pessoas porque os Credos pressupõem caminhos a serem seguidos. Assim, imaginam os Credos como um empobrecimento espiritual, um amordaçamento do Espírito. Dentro desta perspectiva, a doutrina tem pouco valor, o que importa de fato é a “vida cristã”; daí as ênfases de tais pessoas ou grupos nas “experiências” místicas – que, via de regra, pretendem convalidar a Palavra –, ou num “evangelho” puramente ético-social. Todavia, ambos os comportamentos, que revelam o mesmo equívoco, pecam por não compreender que a base de uma vida cristã autêntica é uma sólida doutrina vivenciada (Veja-se: 1Tm 4.16).[1]

 

Lloyd-Jones (1899-1981) acentuou bem este ponto, dizendo:

 

Toda a doutrina cristã visa levar, e foi destinada a levar a um bom resultado prático. (…) A doutrina visa levar-nos a Deus, e a isso foi destinada. Seu propósito é ser prática (…) a nossa vida cristã nunca será rica, se não conhecermos e não aprendermos a doutrina.[2]

Você não poderá ser santo, se não conhecer bem a doutrina. Doutrina é a ligação direta que leva à santidade. É somente quando compreendemos estas verdades fundamentais que podemos atender ao apelo lógico para a conduta e o comportamento agradáveis a Deus.[3]

 

Alinhemos agora, alguns elementos que atestam a importância e o valor dos Credos:

 

estudo-biblia1) A Confissão de nossa fé é uma obrigação natural de todo cristão.[4] Os Credos facilitam a confissão pública de nossa fé, organizando de forma sucinta os principais pontos doutrinários de uma denominação.

 

2) Oferecem-nos de forma abreviada o resultado de um processo cumulativo da história, reunindo as melhores contribuições de diversos servos de Deus na compreensão da Verdade. Devemos estar atentos de que a nossa leitura das Escrituras não é a primeira nem será a última.[5] As confissões refletem mais especificamente a compreensão de uma igreja, não de um teólogo em particular com suas pré-compreensões.[6]  Estas elaborações, ainda que revelem questões locais e circunstanciais, têm a sua fundamentação nas Escrituras, valendo-se de diversas contribuições da igreja, elaboradas, revistas, corrigidas e consolidadas ao longo da história.[7] Ainda que a confissão seja individual, um testemunho de nossa fé, os credos se constituem num patrimônio da igreja.[8] Não estamos sozinhos; podemos e devemos nos valer do que o Espírito tem operado por meio de seus servos ao longo da história.

 

Como vimos parcialmente no primeiro post dessa série, Veith nos desafia e consola:

Os cristãos modernos são os herdeiros de uma grande tradição intelectual cristã. Essa tradição de pensamento ativo e solução prática de problemas é uma aliada vital dos cristãos que lutam contra as tendências intelectuais do mundo contemporâneo. O uso das perspectivas do passado pode fornecer uma perspectiva valiosa sobre as questões atuais. Podemos, assim, livrar-nos da tirania do presente, a suposição de que a maneira que as pessoas pensam hoje é o único modo possível de pensar.[9]

Os cristãos de hoje podem fazer uso da tradição intelectual cristã, como também podem se tornar uma parte dela, que exerceu um tremendo impacto no mundo. Uma das chaves para solucionar os dilemas que um cristão enfrentará no mundo contemporâneo é perceber que nenhum cristão precisa encarar nenhum problema sozinho.[10]

 

Em outro lugar, referindo-nos à ciência, enfatizamos que ela não tem pátria nem idade; não sendo privilégio de um povo, menos ainda de um indivíduo; todo cientista – usando a figura de João de Salisbury (c. 1110-1180)[11] – equivale a um anão sobre os ombros de gigantes, valendo-se das contribuições de seus predecessores, a fim de poder enxergar um pouco além deles.

 

Podemos aplicar esta figura à teologia. Aliás, Packer já o fez, mais especificamente aplicando à tradição:

 

A tradição nos permite ficar sobre os ombros de muitos gigantes que pensaram sobre a Bíblia antes de nós. Podemos concluir pelo consenso do maior e mais amplo corpo de pensadores cristãos, desde os primeiros Pais até o presente, como recurso valioso para compreender a Bíblia com responsabilidade. Contudo, tais interpretações (tradições) jamais serão finais; precisam sempre ser submetidas às Escrituras para mais revisão.[12]

 

Continuaremos no próximo post elencando outros argumentos.

 

 

Maringá, 22 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] Veja-se uma boa discussão histórica sobre esse ponto em: Alister E. McGrath, A gênese da doutrina: fundamentos da crítica doutrinária, São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 84-90 (em especial).

[2]D.M. Lloyd-Jones, As Insondáveis Riquezas de Cristo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 85-86.

[3]D.M. Lloyd-Jones, As Insondáveis Riquezas de Cristo, p. 254. Alhures Jones insiste: “Uma das primeiras coisas que você deve aprender nesta vida cristã e nesta guerra é que, se você estiver errado em sua doutrina, estará errado em todos os aspectos da sua vida. Provavelmente estará errado em sua prática e em sua conduta; e certamente estará errado em sua experiência” (David Martyn Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 101-102). “Não existe nada que seja tão errôneo e tão completamente falso como não perceber a importância primordial da doutrina verdadeira” (Ibidem., 102). “A verdadeira doutrina cristã é sempre urgentemente importante. É de suma importância para toda a vida da Igreja” (Ibidem., p. 103). “Se me pedissem para mencionar o maior problema entre os cristãos atuais, incluindo-se os conservadores, eu diria que é a nossa falta de espiritualidade e de um verdadeiro conhecimento de Deus” (D.M. Lloyd-Jones, As Insondáveis Riquezas de Cristo, p. 8. Prefácio). “Jamais poderemos conhecer demasiadamente as grandes doutrinas da fé, mas se esse conhecimento não nos leva a uma experiência cada vez mais profunda do amor de Cristo, não passa de conhecimento que ‘incha’ (1Co 8.1)” (Ibidem., p. 8. Prefácio) “O conhecimento é absolutamente essencial; sem conhecimento não pode haver nenhum crescimento. Todavia o conhecimento, no sentido verdadeiramente cristão, nunca é meramente intelectual. É assim, e isso porque é o conhecimento de uma Pessoa. O propósito de toda doutrina, o valor de toda instrução, é levar-nos à Pessoa do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (Ibidem., p. 165). “O evangelho não começa com as minhas dores e penas, minha necessidade de orientação, minha aflição. Não, começa com conhecer a Deus (…). O objetivo do cristianismo é levar-nos ao conhecimento de Deus como Deus, e ao conhecimento do Senhor Jesus Cristo” (Ibidem., p. 127).

[4] “A confissão é a obrigação de todos os crentes, e é também um ditado deles aos seus próprios corações; a pessoa que realmente crê, com todo o seu coração e com toda a sua alma, não pode fazer outra coisa senão confessar, isto é, dar testemunho da verdade que a libertou e da esperança que foi plantada em seu coração por essa verdade (Mt 10.32; Rm 10.9,10; 2Co 4.13; 1Pe 3.15; 1Jo 4.2,3)” (Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara D’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 130).

[5] “Os evangélicos têm tido sempre a tendência de ler a Escritura como se fossem os primeiros a fazer isso. Precisamos lembrar que outros já estiveram lá antes de nós, e já leram antes que nós o fizéssemos. Esse processo de receber a revelação escritural é ‘tradição’ – não uma fonte de revelação somada à Escritura, e sim um modo particular de se entender a Bíblia que a igreja cristã tem reconhecido como responsável e confiável” (Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 81).

[6] “Ninguém vai à Bíblia sozinho, mas leva consigo toda uma multidão de influências. É infinitamente mais fácil distorcer a Palavra de Deus quando nos isolamos do consenso de outros crentes através dos tempos e do espaço” (Michael S. Horton, Os Sola’s de Reforma: In: J.M. Boice;  B. Sasse, Reforma Hoje,  São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p. 105).

[7] “A função das confissões ou credos não é puxar a Escritura para trás, mas mantê-la e protegê-la contra caprichos individuais (Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara D’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 130).

[8] Veja-se: W. Seibel, Confissão: In: Heinrich Fries, ed. Dicionário de Teologia, 2. ed. São Paulo: Loyola, 1987, v. 1, p. 274.

[9]Gene Edward Veith, Jr., De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 97.

[10]Gene Edward Veith, Jr, De Todo o Teu Entendimento, p. 99.

[11] Cf. N. Abbagnano; A. Visalberghi, Historia de la Pedagogía, Novena reimpresión, México: Fondo de Cultura Económica, 1990, p. 203. Parece que esta figura também foi empregada por outro teólogo medieval, “que morreu quase 300 anos antes de Lutero nascer….”, Pedro de Blois (Cf. Timothy George, Teologia dos Reformadores, São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 23). Newton mais tarde (05/02/1676) em carta a Robert Hooke (1635-1703 – seu ferrenho adversário (Cf. Paolo Casini, Newton e a Consciência Européia, São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995, p. 26ss) -, supostamente referindo-se a Kepler (1571-1630), Galileu (1564-1643) e Descartes (1596-1650), entre outros, também faria uso desta analogia. (Veja-se: N. Abbagnano; A. Visalberghi, Historia de la Pedagogía, p. 280; Stephen Hawking, Os Gênios da Ciência: Sobre os ombros do Gigante: as mais importantes ideias e descobertas da física e da astronomia, Rio de Janeiro: Elsevier Editora, 2005, p. XI, 441).

[12] J.I. Packer, O Conforto do Conservadorismo: In: Michael Horton, ed. Religião de Poder, p. 235. “Quem examina a tradição encontra aberta diante de si a sabedoria de todas as épocas” (J.I. Packer, Ibidem., p. 237). “Humildade no juízo particular quer dizer que continuamos a examinar as Escrituras até ficar claro o que Deus disse, proibindo nosso intelecto orgulhoso de tirar conclusões sobre aquilo que o Deus da Bíblia deixa em aberto ou de recusar-nos a aceitar ajuda da tradição cristã na interpretação das Escrituras sob a suposição de que um estudante da Bíblia ‘se vira’ perfeitamente bem sem essa ajuda” (J.I. Packer, O Conforto do Conservadorismo: In: Michael Horton, ed. Religião de Poder, p. 241). Carson de forma particular ilustra isso: “Em meu próprio horizonte, reconheço alegremente um senso de dívida para com uma hoste de eruditos de cujo entendimento me beneficio, embora um tanto inadequadamente” (John Piper; D.A. Carson, O Pastor como Mestre e o Mestre como Pastor, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 112).

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (35) – O uso de Catecismos e Confissões: Limites

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1. Limites

 

Creio ter ficado evidente a relevância dos Credos Evangélicos[1] no que se refere à sua formulação doutrinária. O ato de depreciar os Credos significa deixar de usufruir as contribuições dos servos de Deus no passado referentes à compreensão bíblica; “é uma negação prática da direção que no passado deu o Espírito Santo à Igreja”.[2]

 

Por outro lado, temos de entender – aliás, como sempre foi entendido pelos Reformados –, que os Credos têm o seu limite. O Credo é uma resposta do homem à Palavra de Deus, sumariando os artigos essenciais da fé cristã.[3] “Eles (os credos) não são revelação divina, mas parte da resposta da Igreja à revelação que a criou e a renovou na história, e que tem continuidade no presente”.[4]

 

Desta forma, eles pressupõem fé; mas não a geram; esta é obra do Espírito Santo por meio da Palavra (Rm 10.17). Os credos podem, equivocadamente, ser professados sem, de fato, a experiência de seu conteúdo, sem o conhecimento experimental do que lhe deu significado. Neste caso, temos um símbolo vazio, que nada diz, esgota-se em si mesmo. O símbolo que se autoesgota nega a sua condição de símbolo: é uma contradição. Contudo, ele serve de itinerário, de rota que auxilia extremamente o que crê a conhecer melhor os caminhos que conduzem ao fim da nossa fé (1Pe 1.9). O crer é obra da graça![5]

 

Os Credos baseiam-se na Palavra, porém não são a Palavra – nem jamais foi isto cogitado pelos seus formuladores –; eles não podem substituir a Palavra de Deus; somente Ela gera vida pelo poder de Deus (1Pe 1.23; Tg 1.18).[6]

 

Para nós Reformados, os Credos têm a sua autoridade decorrente da Palavra de Deus; em outras palavras, o seu valor não é intrínseco, mas sim, extrínseco: eles são recebidos e cridos enquanto permanecem fiéis à Escritura; assim, a sua autoridade é relativa e derivada.[7] Se isto é assim, alguém poderia insistir: “Para que então, os Credos, se nós temos a Bíblia?”. O Dr. A. A. Hodge (1823-1886), apresenta uma observação relevante:

 

Todos os que estudam a Bíblia fazem isso necessariamente no próprio processo de compreender e coordenar o seu ensino; e pela linguagem de que os sérios estudantes da Bíblia se servem em suas orações e outros atos de culto, e na sua ordinária conversação religiosa, todos tornam manifesto que, de um ou outro modo, acharam nas Escrituras um sistema de fé tão completo como no caso de cada um deles lhe foi possível. Se os homens recusarem o auxílio oferecido pelas exposições de doutrinas elaboradas e definidas vagarosamente pela Igreja, cada um terá de fazer seu próprio credo, sem auxílio e confiando só na própria sabedoria. A questão real entre a Igreja e os impugnadores de credos humanos não é, como eles muitas vezes dizem, uma questão entre a Palavra de Deus e os credos dos homens, mas é questão entre a fé provada do corpo coletivo do povo de Deus e o juízo privado e a sabedoria não auxiliada do objetor individual.[8]

 

Os Credos são somente uma aproximação e relativa exposição correta da verdade revelada. Desta forma, podem ser modificados pelo progressivo conhecimento da Bíblia, a qual é infalível e inesgotável. Por isso, não devemos tomar os Credos como autoridade final para definir um ponto doutrinário: os limites de nossa reflexão teológica estão na Palavra, não nos Credos. Os Credos não estabelecem o limite de nossa fé, antes, o norteiam. Conforme ressaltamos, a Palavra de Deus sempre será mais rica do que qualquer pronunciamento eclesiástico por melhor que seja elaborado e por mais fiel que seja às Escrituras.[9] No entanto, como ressalta Packer: “Na verdade a abordagem impiedosa seria tentar aprender de Deus como cavaleiro solitário que orgulhosamente ou impacientemente virasse as costas para a igreja e sua herança: isso seria receita certeira para esquisitices sem fim!”.[10] “A instrução transmite conhecimento, mas também presume conhecimento”.[11]

 

A Confissão de Westminster, capítulo I, seção 10, diz:

 

O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura.

 

A firmeza e a vivacidade da Teologia Reformada estão justamente em basear o seu sistema em todo o desígnio de Deus, submetendo-o ao próprio Deus que fala por meio da Sua Palavra.[12]

 

Maringá, 22 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1]Chamo aqui de “Credos”, os Credos propriamente ditos (Apostólico, Niceno, Constantinopolitano, etc), os Catecismos e Confissões. Sabemos, contudo, que podemos distingui-los de maneira mais precisa, conforme o faz McGrath, dizendo que devido ao fato dos credos sintetizarem os “principais pontos da fé cristã, os quais são compartilhados por todos os cristãos”, o termo “jamais é empregado em relação a declarações de fé que sejam associadas a denominações específicas. Essas são geralmente chamadas de ‘confissões’ (…). A ‘confissão’ pertence a uma denominação e inclui dogmas e ênfases especificamente relacionados a ela; o ‘credo’ pertence a toda a igreja cristã e inclui nada mais, nada menos do que uma declaração de crenças, as quais todo cristão deveria ser capaz de aceitar e observar. O ‘credo’ veio a ser considerado como uma declaração concisa, formal, universalmente aceita e autorizada dos principais pontos da fé cristã” (Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, p. 54). (Da mesma forma, Alister E. McGrath, Teologia Histórica: uma introdução à história do Pensamento Cristão, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 44). (Vejam-se também: Arthur C. Cochrane (Edited, with Historical Introductions), Reformed Confessions of the 16th Century, London: SCM Press, 1966, p. 26; Ulisses H. Simões, A Subscrição Confessional: necessidade, relevância e extensão. Belo Horizonte, MG.: Efrata Publicações e Distribuição, 2002, p. 18). Contudo, as Confissões podem ser chamadas de Credos ainda que qualificados como luteranos, calvinistas, batistas, presbiterianos, metodistas, etc.

[2]Louis Berkhof, Introduccion a la Teologia Sistematica, Grand Rapids, Michigan: The Evangelical Literature League, © 1932, p. 22. Stott coloca bem esta questão: “Desrespeitar a tradição e a teologia histórica é desrespeitar o Espírito Santo que tem ativamente iluminado a Igreja em todos os séculos” (John R.W. Stott, A Cruz de Cristo, Miami: Editora Vida, 1991, p. 8). Retomo as palavras já citadas de Dabney eTrueman: Dabney diz que tais pessoas deveriam rejeitar também a pregação, visto que somente os autógrafos originais foram inspirados, não as traduções (Veja-se: Robert L. Dabney, The Doctrinal Contents of the Confession: its Fundamental and Regulative ideas and the necessity and Value of Creeds, Greenville, South Carolina: Greenvile Presbyterian Theological Seminary, 1993 (Reprinted), p. 17). Também, não deveríamos cantar: “Cantar hinos é da mesma forma uma recitação em conjunto com música; e nenhum hino de que me recordo contém tanta teologia sã, de modo tão coerente, cláusula por cláusula, quanto os Credos apostólico ou niceno” (Carl R. Trueman, O imperativo confessional, Brasília, DF.: Editora Monergismo, 2012, p. 210).

[3] Ver: Arthur C. Cochrane (Edited, with Historical Introductions), Reformed Confessions of the 16th Century, London: SCM Press, 1966, p. 25.

[4] Edward A. Dowey Jr., Documentos Confessionais como Hermenêutica: In: Donald K. Mckim, ed. Grandes Temas da Teologia Reformada, São Paulo: Pendão Real, 1999, p. 12.

[5] “Deus é o único Pai no âmbito da fé, porquanto regenera a todos os crentes pela instrumentalidade de sua Palavra e pelo poder de seu Espírito, e é exclusivamente Ele que confere a fé” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 1.2), p. 27).

[6] Veja-se: J.M. Boice, O Pregador e a Palavra de Deus: In: J.M. Boice, ed. O Alicerce da Autoridade Bíblica, São Paulo: Vida Nova, 1982, p. 162.

[7]“Corretamente empregados, os padrões confessionais devem guiar, formatar e enriquecer nossa exegese; mal empregados, eles se divorciam dos textos bíblicos que os nutriram e desenvolveram” (D.A. Carson, Jesus, o Filho de Deus: O título cristológico muitas vezes negligenciado, às vezes mal compreendido e atualmente questionado, São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 81-82).

[8] A.A. Hodge, Esboços de Theologia, Lisboa: Barata Sanches, 1895, p. 99.

[9] Veja-se: G.C. Berkouwer, A Pessoa de Cristo, São Paulo: ASTE., 1964, p. 76.

[10] J.I. Packer, O Conforto do Conservadorismo: In: Michael Horton, ed. Religião de Poder, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998, p. 236.

[11]Gene Edward Veith, Jr, De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 26. No mesmo parágrafo, Veith escrevera: “O conhecimento, se for preservado e transmitido, pode ser acumulado. Muitos artistas, filósofos e teólogos modernos rejeitam o conhecimento do passado. Assim, eles têm que recomeçar de novo continuamente do zero, sendo sua visão restrita à sua própria perspectiva estreita, tornando-se artificialmente primitivos. (…) A instrução transmite conhecimento, mas também presume conhecimento”.

[12] O teólogo Reformado Geerhardus Vos (1862-1949), conceituou corretamente a teologia, afirmando: “Toda genuína Teologia Cristã é necessariamente Teologia Bíblica porque aparte da Revelação Geral, a Escritura constitui o único material com o qual a ciência Teológica pode tratar” (Geerhardus Vos, Biblical Theology: Old and New Testament, Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing Co., 1985 (reprinted), “Preface“, p. v.).

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (34) – A Igreja Presbiteriana do Brasil e os Símbolos de Fé (7)

Confissão de Westminster em português

Em 1876, a Igreja Presbiteriana publicou em português a Confissão de Fé de Westminster,[1] constando também da “Epitome da Fórma de Governo e Disciplina da Igreja Presbyteriana”, que em seu prefácio, à pagina 78, dizia:

 

O seguinte Epítome de Forma de Governo e Disciplina da Igreja Presbiteriana, foi preparado por uma comissão do Presbitério do Rio de Janeiro, para de alguma maneira suprir a falta de uma edição autorizada em sua Forma de Governo e Disciplina, que até agora não tem sido possível oferecer ao público; o que porém se espera seja realizado sem muita demora.

 

Durante o ano de 1881 saiu publicado em vários fascículos, na Imprensa Evangélica, o “Livro de Ordem da Igreja Presbyteriana no Brazil”. No capítulo VII, da Primeira Parte, dizia:

 

A Constituição da Igreja Presbiteriana no Brasil consiste de seus Símbolos Doutrinais compreendidos na Confissão de Fé, nos Catecismos Maior e Breve, juntamente com o Livro de Ordem Eclesiástica, que abrange a Forma de Governo, as Regras de Disciplina, e o Diretório do Culto.

 

Para os pastores, presbíteros e diáconos serem ordenados, tinham que responder afirmativamente à seguinte pergunta: “Recebeis e adotais sinceramente a Confissão de Fé e Catecismos desta Igreja, como fiel exposição do sistema doutrinário ensinado nas Santas Escrituras?”.[2]

Como exemplo, cito que o Rev. Eduardo Carlos Pereira (1855-1923) e o Rev. José Zacharias de Miranda (1851-1926), foram ordenados após cumprirem os exames previstos pelo “Livro de Ordem”. [3]

 

O Primeiro Sínodo Nacional

Rev. G.W. Chamberlain

Em 1888, a Igreja Presbiteriana no Brasil constava de três Presbitérios,[4] a saber: do Rio de Janeiro (organizado em 16/12/1865); de Campinas-Oeste de Minas (organizado em 14/4/1887) e o de Pernambuco (organizado em 17/8/1888). Assim, autorizados pelas Assembleias Gerais das Igrejas Presbiterianas dos Estados Unidos (Norte e Sul), estes Presbitérios se reuniram no dia 6 de setembro de 1888, no templo da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, sob a direção do Rev. G.W. Chamberlain, para constituir o primeiro Sínodo nacional. Na ocasião, pregou o Rev. Eduardo Lane. Em seguida, procedeu-se à chamada dos respectivos representantes dos Presbitérios. A convite do presidente, o Rev. A.L. Blackford leu o Ato Constitutivo do Sínodo que, aprovado previamente pelos presbitérios, foi aprovado unanimemente pelo Sínodo, o qual recebeu o seguinte nome: “Synodo da Egreja Presbyteriana no Brazil”. O Rev. Blackford no primeiro escrutínio foi eleito Moderador do Sínodo.

 

Aqui, os Padrões de Westminster são confirmados como símbolos de Fé da Igreja Nacional. No Ato Constitutivo, Art 1º, § 2º, lemos:

 

Os símbolos da igreja assim constituída serão a Confissão de Fé e os Catecismos da assembleia de Westminster, recebidos atualmente pelas igrejas presbiterianas nos Estados Unidos, e o Livro de Ordem publicado na Imprensa Evangélica de 1881, com as emendas já adotadas pelos presbitérios.

 

A nossa Igreja fiel à sua compreensão bíblica e ao seu compromisso histórico, continua adotando os mesmos Símbolos de Fé. A Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil, promulgada em 20 de julho de 1950 e, ainda hoje em vigor, diz no Capítulo I, Art 1º:

 

A Igreja Presbiteriana do Brasil é uma federação de igrejas locais, que adota como única regra de fé e prática as Escrituras Sagradas do Velho e Novo Testamento e como sistema expositivo de doutrina e prática a sua Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve.

 

Como já indicamos, os Padrões de Westminster são os Símbolos de Fé de todas as Igrejas Presbiterianas do mundo que tiveram a sua origem inglesa ou escocesa.[5]

 

 

Maringá, 15 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1] Confissão de Fé de Westminster, Rio de Janeiro: Livraria Evangélica, 1876, 96p.

[2] Livro de Ordem, I.6. Seções 5 e 6.

[3] Vejam-se: Livro de Atas da Igreja Evangélica Presbiteriana de Brotas, Ata nº 154, p. 1 (Fonte manuscrita); Imprensa Evangélica e Revista Christã, set/1881, p. 287.

[4]Perfazendo um total de 50 igrejas locais, e mais de três mil membros professos, e não menos de dez mil assistentes. (Cf. Imprensa Evangélica, 5/1/1889, p. 4).

[5] Cf. A.A. Hodge, Esboços de Theologia, Lisboa: Barata & Sanches, 1895, p. 112.

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (33) – A Igreja Presbiteriana do Brasil e os Símbolos de Fé (6)

Licenciatura e Ordenação

 

Retomando a nossa linha principal, destacamos que após a Licenciatura de Carvalhosa, Torres e Trajano, o Presbitério do Rio de Janeiro decide que os referidos Licenciados se preparem para a próxima reunião do Presbitério (1871) com vistas à sua Ordenação ao Sagrado Ministério, estudando os capítulos 1 a 14 da Confissão de Fé (Westminster), a fim de serem “examinados minuciosamente”. Recomendou-se também que os candidatos “estudassem particularmente sobre estes assuntos Hodge’s Commentary on the Confession of Faith e Hodge’s Outhines of Theology”.[1]

 

Em 1895 é publicada a tradução feita por Schneider (1832-1910) da obra de A.A. Hodge (1823-1886) (Esboços de Theologia, Lisboa: Barata & Sanches, 1895, 620p). Por esta época – o livro não indica a data –, apareceu também outra obra traduzida por Schneider, escrita pelo pai de A.A. Hodge, Charles Hodge, O Caminho da Vida, New York, Sociedade Americana de Tractados (s.d.), 300p. A outra obra de A.A. Hodge indicada pelo Presbitério, só seria traduzida para o português no final do século XX .[2]

 

Seminário de Princeton

Estes trabalhos representam a fina teologia de Princeton que aqui foi implantada, modelando a nossa teologia. Sigo aqui Boanerges Ribeiro (1919-2013):

 

A Teologia de Princeton modelou a prédica, a polêmica e a ação pastoral dos introdutores presbiterianos da Reforma no Brasil.[3]

Creio que se pode afirmar que nosso núcleo inicial de reformadores, com variantes individuais inevitáveis, foi modelado pela teologia de Princeton.[4]

 

De fato, a matriz teológica do presbiterianismo nacional, foi de Princeton, sintetizando a teologia de Turretini (1623-1687)[5] e a experiência religiosa (puritana-pietista). A autoridade das Escrituras considerada como Palavra de Deus foi sustentada como algo axiomático. Assim, a pregação e a distribuição de Bíblias estavam no centro de seus trabalhos. Toda orientação da vida cristã partia de princípios extraídos da Bíblia; em todas as questões buscava-se respaldo bíblico, considerando-a a fonte para todo o pensar e agir protestante

 

Retornando ao método de tutela, inadequado e provisório, ele foi utilizado desde então para a formação de pastores, permanecendo até 1892 quando seria organizado o novo Seminário, agora em Friburgo.[6] No entanto, neste período, o Presbitério manifesta a sua preocupação com o currículo adotado neste novo sistema. Em 1878, o “Presbitério adotou um plano curricular de estudos, que uniformizaria esse preparo individual, e impediria que o ministério presbiteriano se tornasse heterogêneo”.[7]

 

Décadas depois, o pastor e historiador V.T. Lessa (1874-1939), comentando o período da licenciatura de Cerqueira Leite em relação à época em que ele próprio escrevia (1938), diz:

 

Naquele tempo havia mais rigor. Sua licenciatura durou o espaço de três anos. O Rev. Trajano esperou cinco. Para cada ano eram marcados estudos especiais. Em nossos dias um ano é tido como muita cousa. São frequentes os casos de meses. Até mesmo é dispensada, às vezes, a licenciatura.[8]

 

 

Maringá, 15 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1] Ata do Presbitério do Rio de Janeiro, Sessão de 29/08/1870.

[2] Archibald A. Hodge, Confissão de Fé Westminster Comentada por A.A. Hodge, São Paulo: Editora os Puritanos, 1999, 596p.

[3] Boanerges Ribeiro, Igreja Evangélica e República Brasileira (1889-1930), São Paulo: O Semeador, 1991, p. 201.

[4] Boanerges Ribeiro, Igreja Evangélica e República Brasileira (1889-1930), p. 203. Bavinck (1854-1921) assim resume a Teologia de Princeton: “A assim chamada teologia de Princeton está, em grande parte, na reprodução do Calvinismo do século 17 como expresso na Confissão de Westminster e no Consensus Helveticus e elaborada especialmente por T. Turretin, em sua Theologia Elenctica” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada,  São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 202).

[5] A influência de Turretini tornar-se-ia também evidente não apenas em Princeton, mas também em outros teólogos presbiterianos do século XIX, de diferentes escolas, tais como Robert L. Dabney (1820-1898), professor de Teologia no Union Seminary de Richmond [Lectures in Systematic Theology, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1985] e W.G.T. Shedd (1820-1894), professor de Teologia do Union Seminary de New York [W.G.T.  Shedd,  Dogmatic  Theology, 2. ed. Nashville: Thomas Nelson Publishers, 1980]. O próprio A.H. Strong (1835-1921), o grande teólogo batista do século XIX, usa e cita Turretini umas dez vezes, referindo-se a ele como um “claro e vigoroso teólogo”  (Augustus H. Strong, Systematic Theology, 35. ed. Philadelphia: The Judson Press, 1993, p. 46).

[6] Boanerges Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, p. 263; Boanerges Ribeiro, A Igreja Presbiteriana no Brasil, Da Autonomia ao Cisma, p. 212.

[7] Boanerges Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1981, p. 263.  O Currículo foi publicado na Imprensa Evangélica, 17/01/1878, p. 22, sob o título: “Estudos para os candidatos ao Ministério Evangélico”. Este currículo consta em anexo no livro de Boanerges Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, p. 355-356.

[8]Vicente T. Lessa, Annaes da 1ª Egreja Presbyteriana de São Paulo, p. 141.

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (32) – A Igreja Presbiteriana do Brasil e os Símbolos de Fé (5)

 

Criação do “Seminário Primitivo”

Seminário Primitivo do Rio de Janeiro

No dia 14 de maio de 1867 foi organizado o Seminário do Rio de Janeiro, num sobrado no Campo de Sant’Anna, 49.[1]

O Seminário funcionava em um dos andares do edifício alugado pela Missão, que visava concentrar ali todo o trabalho Presbiteriano do Rio de Janeiro. O prédio dispunha de três andares; a parte térrea era uma fábrica de cerveja. [2] Os três andares alugados, eram assim distribuídos: no primeiro, funcionava a Igreja, com um auditório para mais de 400 pessoas. Atrás do salão de culto, funcionava numa sala o depósito de tratados evangélicos e, no salão dos fundos, a escola paroquial frequentada por mais de 70 alunos[3] dirigida pela organista da Igreja, D. Gervásia Neves, esposa de Sanctos Neves.

 

No segundo andar ficava o Seminário propriamente dito: alojamento e sala de aula. No terceiro, residia o poeta Sanctos Neves, chamado por Themudo Lessa, de “o cisne presbiteriano”[4] e, sua esposa.

 

Os professores do Seminário eram três: Rev. A.G. Simonton, que ensinava Teologia; Rev. Charles Wagner, pastor luterano (que desejava transferir-se para a nossa denominação com o apoio do Rev. Blackford),[5] lecionava Grego e História Eclesiástica e o Rev. F.J.C. Schneider, Ciências e Matemática.

 

Notamos aqui a ausência do estudo da língua hebraica. Mais tarde, no exame com vistas à Licenciatura os alunos desse Seminário serão dispensados do exame desta língua por não a terem podido estudar. Esta foi a coerente decisão do Presbitério do Rio de Janeiro.[6]

 

Os primeiros alunos do Seminário, que mais tarde viriam a ser peças fundamentais no Ministério nacional, foram:

 

1) Antonio Bandeira Trajano (1843-1921), português, naturalizado brasileiro, professou a sua fé e foi batizado na organização da Igreja Presbiteriana de São Paulo (5/3/1865). Foi um profícuo colportor de bíblias e literatura evangélica. Licenciado em 22/08/1870, designado para os campos das Igrejas de Brotas, Jacutinga e Rio Novo. Foi ordenado ao Ministério em 10/8/1875 na 11ª Reunião do Presbitério do Rio de Janeiro, realizada em Rio Claro.[7] Foi empossado como pastor da Igreja de Brotas em 03/10/1875.[8]

 

2) Modesto Perestrello Barros de Carvalhosa (1846-1917), português, professou a sua fé e foi batizado na Igreja Presbiteriana de São Paulo em 25/03/1866, sendo o celebrante o Rev. A.L. Blackford (1829-1900). Acompanhou diversas vezes o Rev. José Manoel da Conceição em suas viagens. Foi licenciado em 22/08/1870, designado para a Igreja de Lorena; ordenado em 20/07/1871.[9]

 

3) Miguel Gonçalves Torres: (1849-1892), português, professou a sua fé e foi batizado na mesma ocasião de Trajano, em 5/3/1865. Viajou por diversas cidades de Minas com o Rev. José Manoel da Conceição (1867). Durante o seu curso no Seminário sofreu bastante com a tuberculose que contraíra. Quando concluiu seus estudos ministeriais foi encaminhado pelo médico para Caldas, em Minas Gerais, onde o clima e a altitude ajudariam no tratamento de sua enfermidade. Creio que a sua licenciatura foi retardada devido à sua saúde, que era precária. Isso se torna ainda mais evidente pelo fato de Miguel Torres ter chegado a Caldas transportado numa liteira.[10]

A sua licenciatura ocorreu em 19/07/1871,[11] sendo designado para o campo de Caldas (chamada depois de Parreiras[12] e, novamente Caldas) e outras cidades de Minas. Ordenado ao Ministério juntamente com Trajano em 10/8/1875 na Reunião do Presbitério do Rio de Janeiro em Rio Claro.[13] Assumiu as Igrejas de Caldas, Machado e Borda da Mata.

 

4) Antonio Pedro de Cerqueira Leite (1845-1883), o único brasileiro da turma. Era natural de São João do Morro Azul,[14] interior de São Paulo. Recebeu também boa influência do então Pe. José Manoel da Conceição, visto que ainda na adolescência o tinha como seu professor de latim. Professou a sua fé e foi batizado em 30 de dezembro de 1866, na Igreja Presbiteriana de São Paulo. Simonton estava presente. 

 

Cerqueira Leite que fizera um intenso trabalho de colportagem, só ingressou no Seminário no dia 8/3/1868, quase um ano depois do início das aulas (14/05/1867). Nesse período ele não chegou a concluir o seu curso teológico, voltando em 1870 para Brotas.[15] Em 1872, persuadido pela Srª Chamberlain, voltou aos estudos em São Paulo, sendo primeiramente recebido como candidato ao Ministério pelo Presbitério do Rio de Janeiro, reunido em São Paulo (30/12/1872).

 

A manutenção do Seminário foi difícil. No ano de sua criação Simonton veio a falecer (09/12/1867). No Natal de 1867, o Rev. Blackford (aluno de W.S. Plumer (1802-1880) que também estudara em Princeton e, possivelmente foi aluno de C. Hodge)[16] vem de São Paulo para o Rio, a fim de substitui-lo. O Rev. Wagner foi para a Suíça, aonde viria a falecer. Permaneceu apenas Blackford e Schneider. Com a formatura em 1870, o Rev. Schneider vai para São Paulo e depois para a Bahia, a fim de “estabelecer uma missão na cidade da Bahia”. Lá chegou em 9/2/1871. As portas do Seminário se fecham. As tarefas eram gigantescas.

 

A capa de Simonton foi herdada por Blackford.[17] Mas, como dissera Simonton à sua irmã uns três dias antes de falecer: “Deus levantará outro para por no meu lugar. Ele fará Sua própria obra com Seus próprios instrumentos. (…) Devemos apenas nos recostar nos braços Eternos e estar sossegados”.[18]

 

O Senhor continuou cuidando da igreja levantando novos futuros ministros. Os candidatos ao Ministério passaram a estudar sob o sistema de tutela.

 

Cerqueira Leite, foi novamente recebido como candidato ao Ministério pelo Presbitério do Rio de Janeiro, reunido em São Paulo, na sessão de 30/12/1872. Estudou sob a tutela dos Revs. G.W. Chamberlain (1839-1902) e Emmanuel Vanorden (1839-1917).[19] Em 10/08/1873, Cerqueira Leite foi licenciado. Ordenado em 08/08/1876. Foi designado para o campo de Sorocaba, indo até Faxina (Itapeva), onde foi organizada igreja sob o seu pastorado em 04/05/1879.[20]

 

 

Maringá, 15 de janeiro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 


 

[1]O Campo de Sant’Anna foi renumerado. O edifício passou a ter o nº 39 e, também mudou de nome, passando a se chamar Praça da Acclamação e depois, até os nossos dias, Praça da República. (Vejam-se: Rev. Antonio Trajano, Esboço Histórico da Egreja Evangelica Presbyteriana: In: Álvaro Reis, ed. Almanak Historico do O Puritano, p. 16, 64; Júlio A. Ferreira, História da Igreja Presbiteriana do Brasil, v. 1, p. 85; J.A. Ferreira, Galeria Evangélica, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1952, p. 59; Vicente T. Lessa, Annaes da 1ª Egreja Presbyteriana de São Paulo, p. 111; Boanerges Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, p. 258).

[2]Álvaro Reis, ed. Almanak Historico do O Puritano, p. 87.

[3]Cf. Rev. Antonio Trajano, Esboço Histórico da Egreja Evangelica Presbyteriana: In: Álvaro Reis, ed. Almanak Historico do O Puritano, p. 16.

[4]Vicente T. Lessa, Annaes da 1ª Egreja Presbyteriana de São Paulo, p. 118.

[5]Ver: Relatório de Blackford apresentado ao Presbitério do Rio de Janeiro, Sessão de 18/08/1869. In: Coleção Carvalhosa Relatórios Pastorais, 1866-1875 (Fonte manuscrita) e Atas do Presbitério do Rio de Janeiro. (Original manuscrito).

[6] Atas do Presbitério do Rio de Janeiro, Sessão de 20/08/1870.

[7]Atas do Presbitério do Rio de Janeiro, Sessão de 10/08/1875.

[8] Livro de Atas da Igreja Evangélica Presbiteriana de Brotas, Livro I, Ata nº 79, p. 57. (Fonte manuscrita).

[9]Atas do Presbitério do Rio de Janeiro, Sessão de 20/07/1871.

[10]Cf. Júlio A. Ferreira, História da Igreja Presbiteriana do Brasil, v. 1, p. 133.

[11]Atas do Presbitério do Rio de Janeiro, Sessão de 19/07/1871.

[12]Cf. Júlio Andrade Ferreira, O Apóstolo de Caldas, Franca, SP.: Edição da Gráfica Renascença, (s.d.), p. 209.

[13]Torres e Trajano foram ordenados juntos. (Atas do Presbitério do Rio de Janeiro, Sessão de 10/08/1875).

[14]Ele foi para o Seminário proveniente de Brotas, todavia nasceu em São João de Morro Azul, comarca de Limeira, São Paulo. (Cf. Eduardo C. Pereira, Rev. Antonio Pedro de Cerqueira Leite: In: O Estandarte, 4 e 11/01/1912, p. 17).

[15]Cerqueira Leite já enfrentava problemas acadêmicos e sentimentais, acabou por não mais resistir ao Seminário em 1870. O episódio que culminou com a sua saída, é contado por Eduardo C. Pereira, no referido artigo d’O Estandarte: “Reunira-se um vasto auditório para ouvir os candidatos ao ministério. Antonio Pedro galga a tribuna. Prepara um esplêndido discurso, decora, e era natural que esperasse no auditório o bom efeito de seu esforço.

“Entretanto, em extremo nervoso, embarga-se-lhe a voz ao começar, fogem-lhe as idéias. Força lhe pedir desculpas e descer da tribuna. Firme, porém, no seu posto, passa a dirigir o canto de seus alunos.

“Terminada a reunião, desaparece, e, dias depois, surge em Brotas resolvido a abandonar os seus estudos” (O Estandarte, 4 e 11/01/1912, p. 25).

[16]Plumer estudou no Seminário de Princeton (1826) sendo licenciado em 1826 e ordenado em 1827. Ele foi professor no Seminário Western desde 1854/1855 até 1866, quando foi lecionar no Seminário Columbia. (Veja-se: Moses D. Hoge, William Swan Plumer: in: Philip Schaff, ed. A Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, Chicago: Funk Wagnalls, Publishers, 1887 (Revised Edition), v. 3, p. 1855-1856). A.A. Hodge  (1823-1886), também aluno de Princeton (1843) foi quem sucedeu a Plumer no Seminário Western. A.A. Hodge em 1877 foi lecionar no Seminário de Princeton como assistente de seu pai C. Hodge (Veja-se: Boanerges Ribeiro, Igreja Evangélica e República Brasileira (1889-1930), São Paulo: O Semeador, 1991, p. 202-203). (Ver em especial a sua obra: William S. Plumer, Psalms, Carlisle, Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1978 (Reprinted). Esta obra foi publicada originalmente em 1867.

[17]   Após a morte de Simonton, Blackford registrou no seu Diário:

“Sua  capa  caiu  sobre  os meus ombros e tenho de ocupar o seu  lugar.  Não  espero  fazer  o que ele fazia. Queira Deus conceder-me  a  graça  de  substituí-lo  para a glória do seu próprio nome” (Journal Record, São Paulo, 10/12/1867, Apud Carl  J. Hahn, História do Culto Protestante no Brasil, p.167).

[18]Joseph  M. Wilson, The Presbyterian Historical Almanack, 1868, v. 10, In: Coleção Boanerges Ribeiro, p. 6-7. (Coleção de textos transcritos de documentos americanos pelo Rev. Boanerges Ribeiro, assim denominada pelo Rev. Júlio Andrade Ferreira).

[19]Cf. Vicente T. Lessa, Annaes da 1ª Egreja Presbyteriana de São Paulo, p. 101; Boanerges Ribeiro, A Igreja Presbiteriana no Brasil, Da Autonomia ao Cisma, São Paulo:O Semeador, 1987, p. 211; Boanerges Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, p. 262; O Estandarte, 4 e 11/01/1912, p. 26.

[20]Ele visitou a cidade de Faxina pela primeira vez em outubro de 1875 e, novamente em abril de 1877 (Cf. Álvaro Reis, ed. Almanak Historico do O Puritano, p. 66-67. A Igreja de Faxina foi organizada por ele em 4/5/1879 com três membros: José Rodrigues de Carvalho, Antonio Borges Paks e Agueda Maria da Conceição. (Veja-se: V. T. Lessa, Annaes da 1ª Egreja Presbyteriana de São Paulo, p. 169).

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (31) – A Igreja Presbiteriana do Brasil e os Símbolos de Fé (4)

Este artigo é continuação do artigo: Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (30) – A Igreja Presbiteriana do Brasil e os Símbolos de Fé (3)

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O Presbitério e seus símbolos

Primeira Igreja Presbiteriana de Filadélfia, onde aconteceu o primeiro encontro do Presbitério

Com a organização de um Presbitério nacional ligado ao Sínodo de Baltimore, significa que o sistema de liturgia, disciplina e doutrina daquele Sínodo é também adotado aqui. Pois bem, em 1716 os três Presbitérios americanos de Filadelphia, Newcastle e Long Island[1] constituíram o Sínodo de Filadélfia que, em 19/09/1729, adotou como Símbolo de Fé a Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Menor de Westminster, com exceção dos capítulos que se referiam aos magistrados civis.[2] Esta decisão ficou conhecida como “Ato de Adoção”.[3] Refletindo a teologia calvinista no presbiterianismo americano, os símbolos de Westminster foram revisados e emendados em 1787 e confirmados em maio de 1789, na organização da Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos.[4] Desta forma, podemos concluir que os Símbolos de Westminster foram adotados no Presbiterianismo brasileiro desde a sua implantação.

 

A Escola Dominical entre os Presbiterianos

 

O ensino de Catecismo era parte integrante do pastorado de Simonton. Como vimos, o seu primeiro trabalho em português foi uma Escola Dominical em 22/04/1860. Os textos usados com as cinco crianças presentes (três americanas da família Eubank e duas alemãs da família Knaack) foram: A Bíblia, O Catecismo de História Sagrada[5] e o Progresso do Peregrino, de Bunyan.[6] Duas das crianças, Amália e Mariquinhas (Knaack), confessaram ou demonstraram na segunda aula (29/04/1860) terem dificuldade em entender John Bunyan.[7]

 

Aqui nós vemos delineados os princípios que caracterizariam a nossa Escola Dominical: O estudo das Escrituras, o estudo da história Bíblica por meio do Catecismo de História Sagrada[8] e com uma aplicação ética e mística, por intermédio do Progresso do Peregrino.

 

Na edição de 04/02/1865 da Imprensa Evangélica, deu-se início à publicação de um “Breve catecismo para meninos”, com uma nota de agradecimento:

 

Sumamente gratos à digna senhora que nos ofereceu esta tradução do inglês, nós chamamos a atenção dos senhores pais de família para estas doutrinas tão puras e salutares; e o fazemos com a melhor boa vontade, porquanto também nos lisonjeia a colaboração de tão eminente tradutora.[9]

 

No seu relatório ao Presbitério de 1867, Simonton diz que havia dois cultos na Igreja e um às quartas-feiras, fazendo uma modificação no culto matinal, realizando “um exercício mais familiar, os membros da igreja tomando parte mais ativa nas orações e meditação que são o fim dessa reunião”.[10]

 

Entendendo que a Igreja deve ser uma escola para o crente, adotou a prática de uma vez por mês substituir o sermão “pelo estudo e a explicação do breve catecismo (de Westminster?)”, crendo que “a excelência desta exposição das doutrinas da salvação é reconhecida por todos”. Seu objetivo era preparar os crentes para defender-se dos ataques incrédulos; portanto, “estou fazendo o que está em mim para gravar este catecismo na memória de todos”.[11]

 

Maringá, 15 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] O Rev. Francis Makemie (1658-1708) foi enviado pelas Igrejas da Escócia como missionário a América, pregando exaustivamente em várias cidades, estabelecendo a primeira Igreja Presbiteriana em Maryland no ano de 1684. (Morton H. Smith, Studies in Southern Presbyterian Theology, New Jersey: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1987, p. 18-20; Mark A Noll, A History of Christianity in the United States and Canada, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1993 (Reprinted), p. 68).

[2] Cf. E.F. Hatfield, Presbyterian Churches: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, Chicago: Funk Wagnalls, Publishers, 1887 (Revised Edition), v. 3, p. 1906-1907; Archibald A. Hodge, Confissão de Fé Westminster Comentada por A.A. Hodge, São Paulo: Editora os Puritanos, 1999, p. 45; Morton H. Smith, Studies in Southern Presbyterian Theology, p. 23,25; Kevin Reed, Introductory Essay. In: Samuel Miller, Doctrinal Integrity, Dallas, Texas: Presbyterian Heritage Publicacions, 1989, p. xv; E.E. Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos, São Paulo:  Vida Nova, 1984, 315; George S. Hendry, La Confesion de Fe de Westminster, para el día de hoy, Bogotá: CCPAL, 1966, p. 14.

[3] “Este Ato de Adoção convocava também os presbitérios a providenciarem para que nenhum candidato ao ministério fosse admitido sem subscrever todos os artigos essenciais e necessários da Confissão ou dos Catecismos. Providenciava também para que, caso qualquer ministro do Sínodo não pudesse aceitar algum artigo julgado necessário e essencial pelo presbitério, este presbitério o declarasse impossibilitado de continuar como membro daquele corpo” (C. Gregg Singer, Os Irlandeses-escoceses na América: In: W. Stanford Reid, editor. Calvino e Sua Influência no Mundo Ocidental, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 333-334).

[4] Morton H. Smith, Studies in Southern Presbyterian Theology, p. 29; Archibald A. Hodge, Confissão de Fé Westminster Comentada por A.A. Hodge, p. 45.

[5]Estou convencido de que este Catecismo seja o mesmo que ele publicou parcialmente na Imprensa Evangélica, em geral uma parte por mês, a partir da edição de 16/02/1867 até 16/11/1867, sob o título “Catecismo da historia da nossa redempção”.

[6]Diário, 28/04/1860.

[7]Diário, 01/05/1860.

[8]Em 1867, A Imprensa dá a publicação do Catecismo (Catecismo da História da nossa Redenção), iniciando com uma nota explicativa:

     “A Bíblia em grande parte é história, e o plano da nossa redenção atravessa longos séculos, começando a descobrir-se a Adão e Eva e alcançando o seu perfeito desenvolvimento com a descida do Espírito Santo no dia de Pentecoste.

            “Se queremos compreender a Bíblia e torná-la compreensível aos outros, é mister darmos a devida importância à sua forma histórica. É necessário acompanhar passo a passo o desenvolvimento do plano de Deus em relação à nossa raça e comentar os fatos na ordem em que se sucedem” (Imprensa Evangélica, 16/02/1867, p. 27).

Conforme mencionei, este Catecismo seria publicado até a Imprensa de 16/11/1867, com a promessa de continuar. No entanto, Simonton morreria semanas depois, o que me leva a crer que o referido trabalho era de sua autoria.

[9] Imprensa Evangélica, 04/02/1865, p. 8. Este Catecismo foi publicado até a edição de 06/5/1865 (o jornal saiu erradamente com a data de 1864), perfazendo um total de 203 perguntas. Não consegui identificar a origem do referido Catecismo; todavia sabemos que não é o Breve Catecismo de Westminster.

[10] Relatório de Simonton apresentado ao Presbitério do Rio de Janeiro no dia 12/07/1867, p. 3

[11] Relatório de Simonton apresentado ao Presbitério do Rio de Janeiro no dia 12/07/1867, p. 5 do seu relatório individual.

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (30) – A Igreja Presbiteriana do Brasil e os Símbolos de Fé (3)

Este artigo é continuação do artigo: Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (29) – A Igreja Presbiteriana do Brasil e os Símbolos de Fé (2)

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Primeiro Presbitério

A Igreja crescia: agora temos um Presbitério. Assim, no sábado, 16/12/1865,1 organizou-se o Presbitério do Rio de Janeiro, em reunião na casa de Blackford, à Rua São José, nº 1, São Paulo.2 O Presbitério era composto por três pastores: A.G. Simonton, do Presbitério de Carlisle; A. L. Blackford, do Presbitério de Washington e F.J.C. Schneider, do Presbitério de Ohio. Mediante proposta de Simonton, Blackford foi escolhido moderador, ficando Schneider como secretário temporário e Simonton como Secretário Permanente. O Presbitério do Rio de Janeiro (organizado em São Paulo), ficou sob a jurisdição do Sínodo de Baltimore.3 Segundo Landes, na ocasião os missionários apresentaram cartas de transferência dos seus respectivos presbitérios para o Presbitério do Rio.4

Primeiro Pastor brasileiro

Nesse mesmo dia o ex-padre José Manoel da Conceição (1822-1873) foi examinado quanto ao seu desejo de ser Ministro do Evangelho: “principiando pelo exame de costume sobre os motivos que influíram nele para que desejasse ser incumbido do Ministério do Evangelho”,5 feitos outros de praxe e depois Conceição declarou aceitar a Confissão de Fé (de Westminster) e a Forma de Governo da Igreja Presbiteriana. Mediante proposta de Simonton, o Presbitério votou favorável, dispensando-o inclusive dos “demais exames e formalidades exigidos”, não, porém de um sermão pregado como de praxe. Foi marcado o dia seguinte às 10h30, sendo inclusive indicado o texto do sermão: Evangelho de Lucas, capítulo 4, versos 18 e 19.6

No dia seguinte, à hora marcada, após a abertura da Sessão, pregou Conceição com uma audiência de cerca de 25 pessoas. O sermão foi aprovado. Às 17 horas, com a parênese de Simonton, baseada em 2Coríntios 5, verso 20, o Presbitério procedeu a ordenação do Rev. José Manoel da Conceição;7 o primeiro pastor brasileiro. O Presbitério passou a contar agora com quatro pastores.8

Ainda não havia presbíteros na Igreja Presbiteriana no Brasil.9 O Presbitério era formado por três igrejas: a do Rio de Janeiro, São Paulo e Brotas.

 

 

Maringá, 15 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


1 Simonton na ata citou janeiro de 1866; todavia mais tarde verificou-se o erro e corrigiu-se na própria ata apresentando a data de 16/12/1865. Para a verificação correta, o Presbitério do Rio de Janeiro nomeou uma Comissão que deu seu relatório explicando o equívoco de Simonton. Veja-se relatório da mesma Reunião do Presbitério do Rio de Janeiro de 06/09/1884, “nona sessão”, p. 371-372. A comissão era composta pelos pastores: A.L. Blackford (relator), F.J.C. Schneider e Robert Lenington. Ao Rev. Modesto P.B. Carvalhosa, como Secretário Permanente do Presbitério, coube a tarefa de providenciar a retificação onde coubesse. No final da primeira ata do Presbitério a correção é feita com a assinatura de Carvalhosa. (Veja-se: Atas do Presbitério do Rio de Janeiro, p. 7. Fonte manuscrita).

2 O livro de atas tem em sua primeira página a inscrição: “Actas do Presbyterio do Rio de Janeiro constituído em São Paulo a 16 de dezembro de 1865 – Livro Primeiro”.

3 Atas do Presbitério do Rio de Janeiro, p. 2.

4 Philip S. Landes, Ashbel Green Simonton, Fort Worth, Texas: Don Cowan Company, 1956, p. 67. A ata de organização não cita esse fato, no entanto, é possível e até natural que tenha ocorrido.

5 Atas do Presbitério do Rio de Janeiro, p. 2-3.

6 Atas do Presbitério do Rio de Janeiro, p. 4-5.

7 Atas do Presbitério do Rio de Janeiro, p. 6; Boanerges Ribeiro, O Padre Protestante, 2. ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1979, p. 138-141.

8 O cirurgião americano radicado no Brasil desde o fim da Guerra Civil, James McFadden Gaston (1824-1903), um dos participantes da reunião, referindo-se à ordenação de Conceição, escreveu de forma profética: “Este acontecimento representa um passo importante no progresso do protestantismo neste país papal; o caráter desse homem, e sua influência entre o povo, vão ter, fora de toda dúvida, efeito considerável sobre a mente popular” (James F. Hunting a Home in Brazil, p. 271-272. Apud Júlio A. Ferreira, História da Igreja Presbiteriana do Brasil, v. 1, p. 61)

9Os primeiros oficiais só seriam eleitos em 1866: Os Diáconos (02/04/1866) e os Presbíteros em 07/07/1866. (Veja-se: Relatório de Simonton apresentado ao Presbitério do Rio de Janeiro no dia 10/07/1866, p. 7-8; Vicente T. Lessa, Annaes da 1ª Egreja Presbyteriana de São Paulo, p. 41).

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (29) – A Igreja Presbiteriana do Brasil e os Símbolos de Fé (2)

Este artigo é continuação do artigo: Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (28) – A Igreja Presbiteriana do Brasil e os Símbolos de Fé (1)

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Segunda Igreja Presbiteriana no Brasil

Primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo e segunda do Brasil

A segunda Igreja, foi organizada em São Paulo, por Blackford, em 5/3/1865, à Rua São José, nº 1 (hoje Líbero Badaró), permanecendo neste endereço até 1876.1 Na ocasião foi celebrada a Santa Ceia pela terceira vez em São Paulo. Dezoito pessoas comungaram e a Igreja recebeu seis novos membros por Profissão de Fé e Batismo.2 Simonton pregou na ocasião.3 Lessa observa que não há registro de organização de Igreja, apenas se menciona a celebração da Ceia e a recepção de membros; todavia “a data ficou tradicional.”4

Terceira Igreja Presbiteriana no Brasil

Blackford

A terceira Igreja foi organizada também por Blackford, em Brotas, interior de São Paulo, numa terça feira, em 13/11/1865, na casa do Sr. Antônio Francisco de Gouveia.5 Conceição foi o pregador. À ocasião, 11 pessoas foram recebidas por Profissão de Fé e Batismo; eram todas provenientes do Catolicismo. Celebrou-se a Ceia do Senhor.6 O Rev. Blackford visitara Brotas pela primeira vez em fevereiro de 1865, “onde pregou o Evangelho pela primeira vez no domingo 5 do mesmo mês a 10 pessoas, em casa de Dª Antonia Justina do Nascimento na vila. Em seguida pregou (…) em casa do Sr. Antonio (ilegível) Gouvêa a 40 pessoas e duas vezes em casa do Sr. Manoel José Ribeiro a 15 e 30 pessoas respectivamente”.7

O trabalho fora intenso; havia um revezamento constante e dedicado: Blackford, Simonton, Chamberlain, Conceição,8 Pitt e Pires.9

Blackford relata:

Em fevereiro de 1865 visitei pela primeira vez a vila e o Distrito de Brotas…. em março e abril os Srs. Simonton e Chamberlain também foram lá…. em junho do mesmo ano, o Sr. Bastos10 visitou o lugar com livros e trabalhou com sucesso. Em outubro e novembro desse ano, Conceição e eu passamos uns 20 dias pregando e ensinando constantemente na vila e nos sítios do Distrito.11

O trabalho crescia rapidamente; em cada registro das “Actas da Sessão ou dos Pastores”, constava o número de novos convertidos que professavam sua fé: Como vimos, na organização da Igreja: 11 pessoas (13/11/1865). A Igreja aumentava: sete pessoas (maio de 1866); quatro Profissões de Fé e Batismo, e nove Batismos Infantil (20/10/1866); oito Profissões de Fé e Batismo, uma Profissão de Fé (a pessoa já fora batizada) (21/10/1866). Este ritmo continuou.12 Brotas se tornará o grande celeiro de Reforma Evangélica.13

Brotas só viria ter um pastor residente em 04/09/1868, com a vinda do Rev. Robert Lenington (1833-1903),14 quem mais tarde organizaria a Igreja de Borda da Mata, a primeira em Minas Gerais.

 

 

Maringá, 15 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

1Cf. O Estandarte 18/01/1912, p. 9.
2Cf. Relatório de Blackford apresentado ao Presbitério do Rio de Janeiro, Sessão de 10/07/1866. In: Coleção Carvalhosa Relatórios Pastorais, 1866-1875, p. 19-20. (Fonte manuscrita)
3Vicente T. Lessa, Annaes da 1. Egreja Presbyteriana de São Paulo, São Paulo: Edição da 1. Egreja Presbyteriana Independente, 1938, p. 31; Boanerges Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, p. 49; B. Ribeiro, O Padre Protestante, 2. ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1979, p. 134.
4Vicente T. Lessa, Annaes da 1. Egreja Presbyteriana de São Paulo, p. 31.
5O Rev. Blackford visitou Brotas pela primeira vez em fevereiro de 1865, “onde pregou o Evangelho pela primeira vez no domingo 5 do mesmo mês a 10 pessoas, em casa de D. Antonia Justina do Nascimento na vila. Em seguida pregou (…) em casa do Sr. Antonio (ilegível) Gouvêa a 40 pessoas e duas vezes em casa do Sr. Manoel José Ribeiro a 15 e 30 pessoas respectivamente” (Livro de Atas da Igreja Evangélica Presbiteriana de Brotas, Livro I, p. 2 (Fonte manuscrita)).
6Cf. Relatório de Blackford apresentado ao Presbitério do Rio de Janeiro, Sessão de 10/07/1866. In: Coleção Carvalhosa Relatórios Pastorais, 1866-1875, p. 23. (Fonte manuscrita); Livro de Atas da Igreja Evangélica Presbiteriana de Brotas, Livro I, p. 3 e 31 (Fonte manuscrita); Blackford, In: Boanerges Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, p. 311; Vicente T. Lessa, Annaes da 1. Egreja Presbyteriana de São Paulo, p. 34-35.
7Livro de Atas da Igreja Evangélica Presbiteriana de Brotas, Livro I, p. 2 (Fonte manuscrita).
8 O próprio Conceição relata ao Presbitério suas andanças:“Aos 28 de fevereiro de 1866 saí de São Paulo pregando o Evangelho. Tomei a estrada do Sul para Sorocaba…. Segui para Capivari e Piracicaba, onde não preguei, cheguei a São João do Rio Claro, onde preguei e segui para Brotas, onde por muitos dias me conservei com os revs. srs. Schneider e Chamberlain visitando e pregando na vila e pelos sítios com resultados abençoados por Deus pois que muitas conversões tiveram lugar em famílias inteiras.“Depois de aí termos celebrado a Ceia do Senhor partimos ficando eu doente em casa do sr. José de Castilho e seguindo os revs. Schneider e Chamberlain para Rio Claro.“Logo que me senti melhor preguei e visitei os crentes na Serra do Itaqueri, estive alguns dias em casa do sr. Paula Lima no campo, preguei no Bairro da fazenda onde moços e meninos deram muita vaia.“Segui para Rio Claro onde preguei em casa do rev. sr. Schneider, pastor, ouvindo o Vigário e grande número de povo. Segui para Limeira, onde preguei em casa do sr. Manoel Joaquim de Melo, que tem casa de jogo, e muitos entre os quais alguns doutores em direito e medicina….” (Relatório de Conceição apresentado ao Presbitério do Rio de Janeiro, Sessão de 10/07/1866)
9Livro de Atas da Igreja Evangélica Presbiteriana de Brotas, Livro I, p. 2-4 (Fonte manuscrita); Boanerges Ribeiro, José Manoel da Conceição e a Reforma Evangélica, São Paulo: Livraria O Semeador, 1995, p. 49ss.
10 Certamente o Sr. Manoel Pereira Bastos, agente da Sociedade Bíblica Americana (Cf. Livro de Atas da Igreja Evangélica Presbiteriana de Brotas, Livro I, p. 2-3 (Fonte manuscrita); Relatório de Blackford apresentado ao Presbitério do Rio de Janeiro, Sessão de 10/07/1866. In: Coleção Carvalhosa – Relatórios Pastorais, 1866-1875, p. 18. (Fonte manuscrita).
11Relatório de Blackford apresentado ao Presbitério do Rio de Janeiro, Sessão de 10/07/1866. In: Coleção Carvalhosa Relatórios Pastorais, 1866-1875, p. 22-23 (Fonte manuscrita).
12Veja-se: Livro de Atas da Igreja Evangélica Presbiteriana de Brotas, Livro I, p. 31ss. (Fonte manuscrita).
13 Veja-se: Boanerges Ribeiro, O Padre Protestante, p. 123-132; Émile G. Léonard, O Protestantismo Brasileiro, p. 58-60.
14Livro de Atas da Igreja Evangélica Presbiteriana de Brotas, Livro I, p. 4 (Fonte manuscrita); Blackford, In: Boanerges Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, p. 311; Boanerges Ribeiro, José Manoel da Conceição e a Reforma Evangélica, p. 52; Boanerges Ribeiro, O Padre Protestante, p. 132.