5. A eleição de Deus: considerações bíblico-teológicas

Analisaremos aqui de forma esquemática, as características da Eleição.

5.1. É um ato da vontade livre e soberana de Deus

 Lutero (1483-1546), comentando o Cântico de Maria (Magnificat) (1521), escreve:

 

“Creio em Deus-Pai, Todo-poderoso”. Ele é todo-poderoso, de modo que em todos e através de todos e sobre todos reina exclusivamente seu poder. (…) Este é um artigo muito elevado e que encerra muita coisa; ele põe por terra toda arrogância e petulância, todo orgulho, glória, falsa confiança e enaltece somente a Deus; sim, ele indica a razão porque se deve enaltecer somente a Deus.[1]

 

 O apóstolo Paulo descrevendo as contínuas bênçãos de Deus sobre o Seu povo, pontifica na predestinação e seu propósito:

 

Nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, (…) 11 nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade. (Ef 1.5,11).

 

Um dos aspectos fundamentais da soberania é a independência. Quando a nossa independência depende de algo alheio ao nosso controle, a nossa suposta capacidade de decidir livremente está ameaçada ou sofre de limitações que podem ser bastante comprometedoras. Na realidade, somente em Deus há a autonomia total e absoluta.

 

Spurgeon (1834-1892) enfatiza corretamente: “Deus é independente de tudo e de todos. Ele age de acordo com Sua própria vontade. Quando Ele diz: ‘Eu farei’, o que quer que diga será feito. Deus é soberano, e Sua vontade, não a vontade do homem, será feita”.[2]

 

Deus se apresenta nas Escrituras como de fato é, o Deus Todo-Poderoso (Onipotente), com capacidade para fazer todas as coisas conforme a Sua vontade (Sl 115.3; 135.6; Is 46.10; Dn 4.35; Ef 1.11);[3] entretanto, Deus também Se mostra coerente com as demais de Suas perfeições; ou seja, Deus exercita o Seu poder em harmonia com todas as perfeições de Sua natureza (2Tm 2.13);[4] a Sua vontade é eticamente determinada. O poder de Deus se harmoniza perfeitamente com a Sua vontade.[5]

 

A soberania de Deus se manifesta no fato dEle poder fazer tudo o que faz (poder ordenado) e mesmo aquilo que não realiza, visto que não determinou fazê-lo (poder absoluto). O poder absoluto de Deus envolve o seu poder ordenado.[6] Deus exerce o Seu poder no cumprimento do que decretou e nas obras da providência.

 

O Poder de Deus é soberanamente livre. Deus não tem primariamente compromissos com terceiros; em outras palavras, Deus é soberano em Si mesmo, a onipotência faz parte da sua essência, por isso para Ele não há impossíveis; apesar de qualquer oposição, Ele executa o Seu plano;[7] tudo o que Ele deseja, pode realizar (Mt 19.26; Jó 23.13[8]).[9] No entanto, Deus não precisa exercitar o Seu poder para ser o que é.

 

Declarar a liberdade soberana de Deus é reconhecer que Deus é Deus, contemplando-O na real esfera de Sua natureza e revelação.[10]

 

Se o homem pudesse antecipar-se à graça de Deus com algo que fosse agradável a Deus, a liberdade de Deus estaria condicionada ao feito humano, não haveria, portanto, na escolha divina a manifestação da Sua graça soberana.

 

Calvino indaga:

 

Caso pudesse o homem fazer algo para antecipar a graça de Deus, e a eleição cessaria de ser um apanágio divino, ainda que o direito e o poder dela sejam-lhe expressamente atribuídos. (…) Pode imaginar-se alguma razão por que não chamaria a todos igualmente, exceto o fato de que sua soberana eleição faz distinção entre uns e outros?.[11]

 

Deus nos elegeu conforme a Sua sábia, amorosa e eterna vontade. A escolha de Deus não sofre nenhum tipo de constrangimento no seu exercício. Por isso, não podemos, nem devemos tentar buscar razões para a nossa eleição fora do beneplácito de Deus. Deus não tem razões fora de Si mesmo para fazer o que fez (Mt 11.25,26; Jo 15.16,19; Rm 9.10-18; Ef 1.5-11; 2Tm 1.9).[12]

 

“Perguntando-se quais são os princípios que subjazem a escolha feita por Deus, a única resposta positiva que se pode dar é que Ele concede Seu favor aos homens, e os vincula a Si mesmo, unicamente com base em Sua própria decisão livre e no Seu amor que independe de quaisquer circunstâncias temporais”, escreve L. Coenen, [13]

 

Desejar ultrapassar estes limites, além de se constituir numa atitude iníqua e estéril, significa tentar a Deus, diminuindo a Sua liberdade soberana e, ao mesmo tempo supor pecaminosamente, que a vontade de Deus não seja por si só motivo suficiente para Deus fazer todas as coisas como faz (Sl 115.3; 135.3-6; Is 46.10).

 

Calvino (1509-1564), insiste neste ponto: Procurar relacionar a nossa eleição à causas externas, é tentar a Deus. A vontade de Deus deve ser suficiente para nós.[14] Nas Institutas ele interpreta como uma tentação maligna buscar a origem da nossa eleição fora da Palavra:

 

Nenhuma tentação do Diabo é mais perigosa para abalar os fiéis do que quando, fazendo com que os inquiete a dúvida quanto à sua eleição, provoca neles o estulto desejo de buscar essa certeza fora do caminho. Chamo buscar fora do caminho a atitude na qual o pobre homem se esforça para penetrar nos segredos incompreensíveis da sabedoria divina, e, para saber o que a respeito dele foi ordenado no juízo de Deus, quer ir ao princípio da eternidade em sua busca. Nessa tentativa ele se precipita como que num imenso e profundo golfo em que se afoga; enrosca-se como que em laços de armadilha dos quais jamais conseguirá se desembaraçar; e entra numa espécie de abismo de trevas do qual nunca poderá sair. Porque com justa razão a presunção do entendimento humano é assim punido com horrível desgraça, quando tenta elevar-se por seu poder ao altíssimo nível da sabedoria divina. Agora, a tentação que acabo de mencionar vê-se tanto mais perniciosa quanto é fato que quase todos nós somos inclinados a cair nela. Porque são bem poucos os que não se deixam tocar no coração por este pensamento: Donde vem que você obtém a salvação somente pela eleição de Deus? E como se revela essa eleição? Uma vez que esse pensamento encontre guarida no homem, ou lhe causará assombroso tormento, ou o fará sucumbir de espanto. Não pretendo ter argumento mais próprio para mostrar quão perversamente esse tipo de gente imagina a predestinação. Porque o espírito do homem não pode ser infeccionado por erro mais virulento que quando a consciência é destituída da sua tranquilidade e paz, que lhe cabe ter com Deus. Esta questão é como um mar, no qual, se tememos perecer, tenhamos cuidado acima de tudo com o rochedo que, se não for evitado, só nos causará desgosto. Entretanto, embora se considere a discussão sobre a predestinação um mar perigoso, a navegação é segura e calma, e até alegre, se não acontecer que alguém queira por vontade própria meter-se em perigo. Pois, assim como aqueles que, desejando ter certeza da sua eleição, invadem o conselho eterno de Deus sem a Sua Palavra, precipitam-se e afundam num abismo mortal, assim também, por outro lado, os que buscam certeza corretamente, e segundo a ordem revelada na Escritura, recebem singular consolação. Portanto, seja este o caminho que sigamos em nossa busca: começar pela vocação de Deus e terminar nela. Pois o Senhor quer que ela seja para nós como um marco ou um sinal para nos certificar de tudo o que nos é lícito saber do Seu conselho.[15]

 

Recife, 3 de abril de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Leia esta série completa aqui.

 


[1] Martinho Lutero, Magnificat: In: Obras Selecionadas, São Leopoldo, RS.; Porto Alegre, RS.: Sinodal; Concórdia, 1996, v. 6, p. 50-51.

[2]C.H. Spurgeon, Sermões Sobre a Salvação, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 42-43.

[3] “No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada” (Sl 115.3). “Tudo quanto aprouve ao SENHOR, ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos” (Sl 135.6). “O meu conselho permanecerá de pé, farei toda da minha vontade” (Is 46.10). “Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.35). “Nele [Jesus Cristo], digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11).

[4] “Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2.13).

[5] “Deus tem poder para fazer tudo quanto Ele queira; e com certeza a pessoa que tenta separar o poder de Deus de Sua vontade, ou retratá-lo como incapaz de fazer o que Ele queira, o que o tal faz é simplesmente tentar rasgá-lo em pedaços” (João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 3, (Sl 78.18), p. 212).

[6]Ver: Stephen Charnock, The Existence and Attributes of God, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Two Volumes in one), 1996 (Reprinted), v. 2, p. 12.

[7] Ver: Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 479-512.

[8] “Jesus, fitando neles o olhar, disse-lhes: Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível” (Mt 19.26). “Mas, se ele resolveu alguma coisa, quem o pode dissuadir? O que ele deseja, isso fará” (Jó 23.13).

[9] Stott coloca nestes termos: “A liberdade de Deus é perfeita, no sentido de que Ele é livre para fazer absolutamente qualquer coisa que Ele queira” (John Stott, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, São Paulo: ABU Editora, 1997, p. 58).

[10]Veja-se: A.W. Pink, Deus é Soberano, Atibaia, SP.: Editora Fiel, 1977, p. 19,21,138.

[11] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 65.4), p. 611.

[12] Veja-se, Cânones de Dort, I.10.

[13] L. Coenen, Eleger: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1982,  v. 2, p. 35.

[14] Vejam-se: J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.15), p. 331-333; J. Calvino, As Institutas, (1541), III.8. “Não busquemos a causa em parte alguma, senão na vontade divina. Notemos particularmente as expressões de quem quer e a quem lhe apraz. Paulo não permite que avancemos além disto” (J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.18), p. 337). Jorge Fisher acentua que “no calvinismo considerado como sistema teológico e em contraste com outros tipos da teologia protestante, se vê um princípio característico e elevado, a saber, o da soberania de Deus, não só de seu governo ilimitado dentro da esfera intelectual e material, senão também que a vontade divina é a causa última da salvação de alguns e do abandono de outros à perdição” (Jorge P. Fisher, Historia de la Reforma, p. 231-232).

[15]João Calvino, As Institutas, (1541), III.8.


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