5.3. É em Cristo

 

4 Assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor 5 nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, 6 para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, 7 no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça. (Ef 1.4-7).

 

Calvino expõe o texto bíblico:

 

Assim, para resumir, depois de Paulo haver mostrado que não podíamos trazer coisa alguma a Deus, mas que esse atuou de antemão por sua livre graça elegendo-nos antes da criação do mundo, ele acrescenta uma prova ainda mais certa, a saber, que ele o fez em nosso Senhor Jesus Cristo, o qual é, por assim dizer, o verdadeiro registrador.[1]

 

Cristo é o representante e o fiador eterno do Seu povo. A eleição não ocorre de forma independente da pessoa de Cristo.[2] Fora de Cristo não há salvação (At 4.12), porque, de fato, fora dele não há eleição. Ele é ao mesmo tempo o Deus que elege e o Verbo Encarnado, Eleito de Deus. Jesus Cristo é o fundamento e o único meio de salvação. Fomos eleitos nele e para Ele. “O Escolhido de Deus é o agente divino da escolha”, resume Coenen.[3] (At 4.12; 2Tm 1.9/Ef 1.4-6/1Pe 1.18-20; Ap 13.8).

 

A nossa eleição repousa em Cristo, a Quem o Pai nos confiou (Jo 17.2,6,9). Jesus Cristo não frustrou nem frustrará a confiança de Seu Pai (Jo 17.4/Jo 19.30). Tudo que é do Pai também pertence ao Filho (Jo 16.15/Jo 17.9-10). A obra do Pai é a obra do Filho. O propósito do Pai é também do Filho. Somos salvos dentro de um propósito harmonioso, santo e eterno, como escreve o apóstolo Paulo: O qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai” (Gl 1.4).

 

Calvino (1509-1564) conclui:

 

A fonte donde nos advêm todas as bênçãos que Deus nos concede consiste em que ele nos escolheu em Cristo.[4]

(…) dos que Deus escolheu para serem Seus filhos não se diz que os escolheu neles mesmos, mas em Seu Cristo (Ef 1.4), visto que não os poderia amar senão nele, e não os poderia honrar com a Sua herança, a não ser fazendo-os primeiro partícipes dele. Pois bem, se fomos eleitos em Cristo, não encontramos em nós a certeza da nossa eleição; nem mesmo em Deus, o Pai, a encontramos, se é que podemos imaginá-lo nua e cruamente sem Seu Filho.[5]

 

A nossa eleição é a mais bela expressão do pacto da graça.[6] Jesus Cristo, o Cordeiro eterno, Se encarnou, morreu e ressuscitou na história para resgatar o que Lhe fora confiado na eternidade, cumprindo assim, uma das demandas do Pacto da Graça (Jo 6.39,44; 17.2,9,11,24).

 

A salvação e todas as bênçãos decorrentes dela, são-nos comunicadas em Cristo. Fora de Cristo não há herdeiros, porque só podemos ser “coerdeiros” de Deus, sendo Cristo o primogênito de Deus entre muitos irmãos (Rm 8.17/Rm 8.29).

 

Aparte do Filho ninguém seria digno da eleição, por isso, Jesus Cristo é o Eleito de Deus[7] e, por intermédio dele, e somente assim, também o somos. (Ef 1.4).[8] Jesus Cristo é o princípio, meio e fim da eleição. Fomos eleitos para Ele, tendo-o como modelo para onde a bendita Trindade nos conduz de forma santificadora (Rm 8.29-30).

 

Cristo é também o “espelho em que se impõe e se pode sem engano contemplar nossa eleição”, interpreta Calvino.[9] Uma evidência da eleição repousa em nossa comunhão com Cristo. A garantia de nossa eleição está em Cristo e na Sua obra eficaz: “Nossa verdadeira plenitude e perfeição consiste em estarmos unidos no Corpo de Cristo”, exulta Calvino.[10]

 

Calvino com justa razão conferiu à doutrina da união mística um grande valor soteriológico e pastoral. Insistiu no ponto de que o pecador não pode participar dos benefícios salvadores de Cristo, a menos que entre em comunhão com Ele.[11] “Aos olhos de Deus só somos verdadeiramente gerados quando somos enxertados em Cristo, fora de quem nada é encontrado senão morte”, afirma.[12] A eleição em Cristo nos liga a Ele de forma indissolúvel. Por isso, tudo o que temos e somos é em Cristo (Ef 1.3,7; Rm 8.1). Não há benefício salvador a ser aplicado fora de Cristo. O nosso consolo e alegria é que estamos definitivamente ligados a Cristo.

 

Herman Bavinck (1854-1921), de forma poética diz:

 

Os crentes estão em Cristo da mesma forma que todas as coisas, em virtude da criação e da providência, estão em Deus. Eles vivem em Cristo como os peixes vivem na água, os pássaros vivem nos ares, o homem em sua vocação, o erudito em seu estudo. Juntamente com Cristo os crentes foram crucificados, mortos e sepultados, e juntamente com Ele eles ressuscitaram e estão assentados à mão direita de Deus e glorificados (Rm 6.4ss.; Gl 2.20; 6.14; Ef 2.6; Cl 2.12,20; 3.3). Os crentes assumem a forma de Cristo e mostram em seu corpo tanto o sofrimento quanto a vida de Cristo e são aperfeiçoados (completados) nele. Em resumo, Cristo é tudo em todos (Rm 13.14; 2Co 4.11; Gl 4.19; Cl 1.24; 2.10; 3.11).[13]

 

A eleição eterna foi selada em Cristo, o representante e o fiador eterno do Seu povo. Mas, poderíamos indagar: por que em Cristo? A resposta é simples: porque não há nada em nós que possa se tornar agradável a Deus ou, “parceiro” em nossa eleição. A eleição em Cristo aponta para a nossa depravação total bem como para a perfeita suficiência em Cristo.

 

Aqui vemos também a manifestação da santa justiça de Deus. A nossa eleição não foi um ato isolado, caprichoso ou inconsequente; antes, foi em Cristo. A eleição envolve a justiça de Cristo; a sua vitória sobre o pecado, o mundo e satanás, representando assim o Seu povo.

 

Somente Jesus Cristo, por meio da Sua justiça, obtida na Sua encarnação, morte e ressurreição, poderia satisfazer as exigências de Deus para a nossa salvação. Portanto, como escreve Packer: “Quando Deus justifica pecadores à base da obediência e da morte de Cristo, está agindo com toda equidade. Dessa maneira, longe de comprometer Sua retidão judicial, esse método de justificação em realidade a exibe”.[14]

 

 

Recife-São Paulo, 05 de abril de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

*Leia esta série completa aqui.

 


[1] João Calvino, Sermões em Efésios, p. 59.

[2] Vejam-se: John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, p. 180-181; Anthony A. Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, especialmente, p. 62-64.

[3] L. Coenen, Eleger: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1982, v. 2, p. 34.

[4]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1 (Sl 28.8), p. 609.

[5] João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.8), p. 61.

[6] “Cristo amou a esta linhagem desde antes da fundação do mundo. É um pensamento nobre e glorioso – o mesmo lirismo da doutrina calvinista, a qual nós ensinamos – que antes que a estrela matutina conhecesse seu lugar, antes que do nada Deus criasse o universo, antes que a asa do anjo agitasse os virgens espaços etéreos, e antes que um solitário cântico perturbasse o silêncio no qual Deus reinava supremamente. Ele já havia entrado em conselho consigo mesmo, com Seu Filho e com Seu Espírito, e havia determinado, proposto e predestinado a salvação de Seu povo” (C.H. Spurgeon, Sermões no Ano do Avivamento, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 47-48).

[7] Ver: Agostinho, A Graça (II), 2. ed. São Paulo: Paulus, 2002, p. 187ss., 190.

[8] Veja-se: J. Calvino, As Institutas, III.22.1.

[9] João Calvino, As Institutas, III.24.5.

[10]João Calvino, Efésios, (Ef 4.12), p. 124.

[11]Veja-se: J. Calvino, Sermones Sobre La Obra Salvadora De Cristo, “Sermon nº 2”, p. 23.

[12]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 4.15), p. 143.

[13] Herman Bavinck, Our Reasonable Faith, 4. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1984, p. 398.

[14] J.I. Packer, Justificação: In: J.D. Douglas, ed. org. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 2, p. 899b.


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