Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (59)

10.4.3. A natureza da paz

10.4.3.1. É diferente

 

Jesus Cristo, nos preparativos para se despedir de seus discípulos, os consola: “Deixo-vos a paz (ei)rh/nh), a minha paz (ei)rh/nh) vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo” (Jo 14.27). À frente, acrescenta: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz (ei)rh/nh) em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33).

 

Paulo, em sua oração em favor dos tessalonicenses, demonstra de forma prática a experiência desse ensinamento: “Ora, o Senhor da paz (ei)rh/nh), ele mesmo, vos dê continuamente a paz (ei)rh/nh) em todas as circunstâncias. O Senhor seja com todos vós” (2Ts 3.16). Do mesmo modo, Judas roga a Deus que multiplique a sua paz sobre a Igreja: “A misericórdia, a paz (ei)rh/nh) e o amor vos sejam multiplicados” (Jd 2).

 

Como temos insistido, a paz é resultante de nossa comunhão com Deus, implicando a nossa total confiança na sua promessa.

 

Calvino (1509-1564) comenta:

 

Não há nenhuma paz genuína que seja desfrutada neste mundo senão na atitude repousante nas promessas de Deus. Os que não lançam mão delas podem ser bem sucedidos por algum tempo em abafar ou expulsar os terrores da consciência, mas sempre deixarão de desfrutar do genuíno conforto íntimo.[1]

 

A paz de Deus independe das circunstâncias. Ela é conferida por Deus e é subjetivada em nós pela confiança na justiça e cuidado de Deus. Portanto, essa paz tenderá a ser melhor desenvolvida em nós à medida em que amadurecemos em nossa fé e formos aprendendo contínua e progressivamente a descansar em Suas promessas (Sl 37.3-7).

 

 

10.4.3.2. Excede ao nosso entendimento

 

A paz de Deus não pode ser explicada com argumentos. Ela está além de nossa capacidade de planejamento – vejam-se os esforços ainda que notáveis, mas, fracassados de paz no Oriente – e compreensão.

 

Por isso Paulo fala à igreja que passava por perseguição e, ao mesmo tempo, enfrentava dissensões internas: E a paz (ei)rh/nh) de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus” (Fp 4.7/p 1.29; 2.1-4; 4.1-6).

 

Ilustremos isso com a experiência de Davi: o salmo 4 foi provavelmente redigido quando Davi fugia da perseguição de Absalão. Ele é do entardecer, quando há a ocasião, muitas vezes involuntária, de rememorar e remoer as angústias e o mal que nos fizeram. No entanto, Davi, se vale deste período para sossegar confiantemente em Deus e transmitir confiança aos seus amigos abalados em sua fé devido às vicissitudes que os cercavam. Temos aqui um brado de fé e estímulo à confiança em Deus nas aflições.

 

Surpreendentemente, Davi fala do seu descanso porque confia no cuidado de Deus.[2] Metaforicamente, podemos dizer que porque Deus não dorme nem cochila, posso descansar de modo unicamente seguro nele:[3] Só (dd’B‘) (badad) tu me fazes repousar seguro(Sl 4.8). Somente Deus pode nos conceder esta paz,[4] inclusive nos momentos de solidão (Sl 102.7).[5]

 

De fato, a paz concedida por Deus excede a todo o entendimento visto que, mesmo ela tendo elementos de racionalidade resultantes de nosso conhecimento de Deus, ultrapassa em muito a nossa lógica; a forma natural de estruturar o nosso pensamento.

 

A paz de Deus é uma característica do Reino de Deus.O Reino de Deus se revela na igreja.[6] Portanto, vivenciá-la significa antegozar o Reino: “O reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz (ei)rh/nh), e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). Isto se torna possível pelo Espírito, já que Ele mesmo produz esse fruto em nós: “O fruto do Espírito é: amor, alegria, paz (ei)rh/nh), longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio (Gl 5.22-23).

 

Muitas de nossas angústias resultantes de pequenas coisas e algumas incertezas são o resultado da nossa falta de confiança em Deus e do seu cuidado. Um dos pontos distintivos do Cristianismo é a certeza de que Deus não nos deixa à mercê de nossa sorte, antes, que Ele cuida pessoalmente de nós, amparando-nos, disciplinando, consolando, estimulando e fortalecendo.

 

O Deus Todo-Poderoso cuida de nós. Jesus Cristo nos instrui e consola:

 

29 Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai. 30 E, quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados. 31 Não temais, pois! Bem mais valeis vós do que muitos pardais. (Mt 10.29-31/Mt 6.25-34).[7]

 

Paulo apresenta uma instrução formal aos filipenses:

 

6 Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças. 7 E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus. (Fp 4.6-7).

 

Aqui, o apóstolo não combate a ansiedade puramente com argumentos e racionalizações. Ele nos desafia a canalizar as nossas energias não para um sentimento inoperante e destrutivo, mas para oração com ações de graça (Fp 4.6).

 

A oração oferece-nos um abrigo onde podemos nos ocultar das preocupações mundanas, um lugar onde ficamos a sós com Deus, um refúgio onde renovamos a esperança, onde nossos cuidados, expostos a Deus, ficam amortecidos e renovamos a nossa confiança em Deus.[8]

 

O melhor antídoto[9] contra o veneno da ansiedade[10] que tenta nos dominar diante dos problemas próprios de nossa existência, é a oração sincera e confiante, por meio da qual expomos a Deus as nossas dúvidas, temores e confiança.

 

Não podemos combater a ansiedade apenas argumentando contra ela. A oração sincera e submissa é o caminho para a paz em nossa mente e coração.

 

O período de adversidade é propício para que abundemos em oração. De certo modo, a oração é educativa na escola da adversidade. Portanto, “a oração é um antídoto para todas as nossas aflições”, comenta Calvino.[11] Por meio da oração podemos encontrar o lenitivo para as nossas almas e a resposta para as nossas inquietações.

 

Quando confiamos em Deus e depositamos sobre Ele as nossas angústias, podemos usufruir da sua paz que nos guarda de toda ansiedade destrutiva e paralisante.

 

A paz de Deus não significa, necessariamente, o escape do problema, ou um estado ideal de imperturbabilidade como queriam os gregos;[12] mas, a paz em meio à dificuldade resultante da nossa confiança em Deus.

 

Notemos o contraste estabelecido por Calvino: Orar, contando as nossas ansiedades:

 

Os crentes (…) oram para que assim possam despertar-se e buscá-Lo, e assim exercitem sua fé na meditação das suas promessas, e aliviem suas ansiedades, deixando-as nas mãos dele; numa palavra, oram com o fim de declarar que sua esperança e expectativa das coisas boas, para eles mesmos e para os outros, está só nele.[13]

 

No entanto, não devemos nos precipitar. A aparente demora de Deus em nos atender visa a nos estimular à prática perseverante da oração.

 

Calvino (1509-1564) nos consola quanto a isso:

 

O Pai, cheio de clemência, jamais dorme nem cessa o seu cuidado. Todavia, às vezes parece dormir e cessar, a fim de que por isso sejamos incitados a dirigir-lhe orações e súplicas; recurso divino válido para corrigir a nossa preguiça e o nosso esquecimento. Portanto, é grande perversidade querer alguém fazer com que deixemos de orar, alegando que é coisa supérflua solicitar, por nossas preces, a providência de Deus, a qual, sem ser solicitada, vela pela preservação de todas as coisas. O que ao contrário se vê é que o Senhor não testifica em vão que estará perto de todos os que invocarem seu nome em verdade.[14]

 

Por isso, continua o Reformador: “Todo crente deve ter o desejo fervoroso de contar com Deus em cada momento de sua vida”.[15]

 

Deus tem o controle preciso de todas as coisas: “Embora, segundo o juízo da carne, Deus pareça retardar demais seus passos, todavia ele mantém supremo domínio sobre todas as coisas, para que Ele, por fim, realize no devido tempo o que determinara”, consola-nos Calvino.[16]

 

A oração é o caminho pelo qual iniciamos a caminhada indicada por Pedro: “Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade (Me/rimnan),[17] porque Ele tem cuidado de vós” (1Pe 5.7).

 

Quando assim procedemos, experimentamos o resultado indicado por Paulo no texto de Filipenses: “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus” (Fp 4.7).

 

Comentando o Salmo primeiro, Calvino ressalta:

 

Era um sinal de inusitada fé quando, golpeado por tão grande consternação, se aventura a fazer francamente sua queixa a Deus e, por assim dizer, derramar sua alma no seio divino. E certamente que este é o único remédio que pode aplacar nossos temores, a saber, lançar sobre ele todas as preocupações que nos atribulam.[18]

 

No texto de filipenses, Paulo nos diz que a paz de Deus, que ultrapassa a nossa capacidade de compreensão, guardará o nosso coração (dos maus sentimentos) e a nossa mente (dos maus pensamentos). A oração sincera é a porta que Deus nos abre para que vençamos a ansiedade e a angústia. “Aquele que confia na providência divina deve fugir para Deus com orações e forte clamor”, ensina-nos Calvino.[19]

 

Temos este consolo: “O Pai está sempre à disposição de seus filhos e nunca está preocupado demais que não possa ouvir o que eles têm a dizer. Esta é a base da oração cristã”, consola-nos Packer.[20]

 

Portanto, estamos nós passando grandes ou pequenos problemas; não conseguimos entender o que Deus deseja de nós; o porquê de ele permitir que isto nos aconteça. Deixemos a nossa perplexidade e a nossa presunção hermenêutica (interpretativa). Contemos a Deus, falemos de nossa dificuldade de entender e até mesmo de aceitar a realidade dos fatos. Quando assim procedermos, estaremos na trilha certa conforme a Palavra de Deus.

 

São Paulo, 22 de maio de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 *Leia esta série completa aqui.

 


[1] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 51.8-9), p. 436. Em outro lugar: “Não há outro método de aliviar nossas almas da ansiedade, senão repousando sobre a providência do Senhor (…). Nossos desejos e petições devem ser oferecidos com a devida confiança em sua providência, pois quem há que ore com clamor de espírito e que, com inusitada ansiedade e vencido pela inquietação, parece resolvido a ditar termos ao Onipotente? Em oposição a isso, Davi a recomenda como sendo a devida parte da modéstia em nossas súplicas para que transfiramos para Deus o cuidado daquelas coisas que pedimos, e não pode haver dúvida de que o único meio de refrear nossa excessiva impaciência é mediante a absoluta submissão à divina vontade quanto às bênçãos que queremos nos sejam concedidas” (João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 55.22), p. 488-489).

[2] Da mesma forma, no Salmo 3.5: “Deito-me e pego no sono; acordo, porque o SENHOR me sustenta”.

[3] “É certo que não dormita, nem dorme o guarda de Israel” (Sl 121.4).

[4]“Assim, (dd’B‘) (badad) o SENHOR o guiou, e não havia com ele deus estranho” (Dt 32.12).

[5] “Não durmo e sou como o passarinho solitário (dd’B) (badad) nos telhados” (Sl 102.7/ Jr.15.17; Lm 1.1; 3.28; Os 8.9; Mq 7.14).

[6] Cf. Herman Ridderbos,  La Venida del Reino,  Buenos Aires:  La Aurora, 1988, v. 2,  p. 66.

[7] Bridges desenvolve bem as implicações desta compreensão. Veja-se: Jerry Bridges, A Vida Frutífera, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 75-77.

[8]Ver: John MacArthur Jr., Abaixo a Ansiedade, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, especialmente, p. 27-38.

[9] Calvino comentando Rm 12.12, enfatiza que “a diligência na oração é o melhor antídoto contra o risco de soçobrarmos” (João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 12.12), p. 438). Da mesma forma, Bridges: “O grande antídoto para ansiedade é aproximar-se de Deus em oração” (Jerry Bridges, A Vida Frutífera, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 76).

[10] “A oração é o nosso principal meio de combater a ansiedade” (John MacArthur Jr., Abaixo a Ansiedade, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, p. 31). “Este [a oração] é o único remédio que pode aplacar nossos temores, a saber, lançar sobre ele todas as preocupações que nos atribulam” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 3.1-2), p. 82).

[11]John Calvin, Commentary of the Book of Psalms, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House (Calvin’s Commentaries, v. 6/4), 1996 (Reprinted), (Sl 118.5), p. 379.

[12] Veja-se: W. Foerster, ei)rh/nh: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 2, p. 400-402.

[13]John Calvin, Commentary on a Harmony of the Evangelists, Mattew, Mark, and Luke, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1981 (Reprinted), p. 314.

[14]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 93-94.

[15]João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 31.

[16]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 105.19), p. 648.

[17] A palavra tem o sentido de solicitude, preocupação e inquietação. Ela ocorre 18 vezes no NT. O seu uso no Novo Testamento não tem um sentido apenas negativo; Paulo a emprega positivamente, como por exemplo no texto citado (1Co 12.25). Do mesmo modo, quando se refere a Timóteo: “Poque a ninguém tenho de igual sentimento, que sinceramente cuide (Merimnh/sei) dos vossos interesses” (Fp 2.20) e, também quando descreve as suas lutas em favor da Igreja: “Além das cousas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, a preocupação (Me/rimna) com todas as Igrejas” (2Co 11.28).

            O termo também é usado negativamente: Jesus, o emprega duas vezes neste sentido: “Não andeis ansiosos (merimna=te) pela vossa vida…” (Mt 6.25). A Marta, inquieta com os seus afazeres e diante da aparente inércia de Maria, diz: “Marta! Marta! andas inquieta (Merima=j) e te preocupas com muitas coisas” (Lc 10.41).

[18] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 1.1-2), p. 80.

[19] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 31.17), p. 27.

[20]J.I. Packer, O Conhecimento e Deus, São Paulo: Mundo Cristão, 1980, p. 194.

2 thoughts on “Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (59)

  • 28 de maio de 2019 em 09:15
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    Tem sido uma benção.

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  • 28 de maio de 2019 em 19:57
    Permalink

    Se temos paz com Deus e desenvolvemos, lidamos dia a dia com mais sabedoria com as adversidafes.

    Resposta

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