A Objetividade na oração (Mt 6.6-8) (2)

Crédito: Patrick Fore (Unsplash)

Biblicamente aprendemos que “a finalidade da oração é expressar a Deus nosso reconhecimento de que Ele sabe o que temos necessidade”.[1] Não precisamos ficar com repetições gaguejantes e intermináveis porque Deus sabe do que necessitamos. A Bíblia, mesmo sem exclusivisar como corretas as orações breves, nos apresenta uma série de exemplos de orações que se expressam em poucas palavras (Vejam-se: Ex 32.31-32; 1Rs 3.6-9; 18.36-37; 2Rs 19.14-19; 1Cr 4.10; Pv 30.7-9; Mt 23.14; Lc 5.8; 18.13; 23.42; At 7.60; Ef 3.14-19).

 

Calvino (1509-1564) é cirúrgico:

 

Ele não proíbe a persistência nas orações, nem que elas sejam feitas demoradamente, nem com frequência nem com veemente fervor, mas nos ensina a não confiar em que se pode constranger Deus a atender às nossas petições pela nossa importunação com vã loquacidade, como se fosse possível dobrá-lo pelo muito falar, como se dá entre os homens.[2]

 

É lógico que as nossas orações não devem ser avaliadas por sua “extensão”. Se as “longas” orações não são sinônimo de piedade; do mesmo modo, a sua “brevidade” não indica necessariamente a nossa fé. O que realmente importa aqui é que as nossas orações sejam feitas ao Pai, com sinceridade, com objetividade, tendo como elemento norteador as promessas de Deus.

 

Calvino assim se expressou:

 

Os crentes não oram com a intenção de informar a Deus a respeito das coisas que Ele desconheça, ou para incitá-lo a cumprir o Seu dever, ou para apressá-Lo, como se Ele fosse relutante. Pelo contrário, eles oram para que assim possam despertar-se e buscá-Lo, e assim exercitem sua fé na meditação das Suas promessas, e aliviem suas ansiedades, deixando-as nas mãos dele; numa palavra, oram com o fim de declarar que sua esperança e expectativa das coisas boas, para eles mesmos e para os outros, está só nele.[3]

 

A Palavra de Deus é o manual de nossas orações: “Toda a Palavra de Deus é útil para nos dirigir em oração”.[4] Devemos ser guiados não pelos nossos pensamentos ou por aquilo que julgamos que Deus deveria nos conceder, mas sim, por tudo aquilo que Deus nos promete. “As promessas de Deus contêm a matéria da oração e definem as suas dimensões. Aquilo que Deus tem prometido, tudo quanto Ele tem prometido, e nada mais, sobre isso podemos orar”, instrui-nos Pink (1886-1952).[5]

 

A oração é um atestado da consciência de nossa fragilidade acompanhada da certeza do poder de Deus. “Orar não é tanto um ato, mas uma atitude – atitude de dependência de Deus. Orar é fazer confissão de nossa fraqueza, como criaturas que somos, de nossa total incapacidade. Orar é reconhecer nossa necessidade e expô-la”.[6]

 

Um outro aspecto é que a nossa oratória, constituída de grandes recursos linguísticos e frases bem montadas, nada tem a ver com a oração.

 

Comentando o Salmo 17, Calvino (1509-1564) acentua:

 

Quando nos apresentarmos diante de Deus em oração, não devemos fazer isso com os ornamentos e os artifícios da eloquência, pois a retórica mais excelente e a graça mais atraente que porventura possuamos diante dele consistem na mais pura simplicidade.[7]

 

Portanto, a oração objetiva não tem a ver necessariamente com o número de palavras, mas, com a integridade de nosso coração que, moldado e alinhado pela Palavra, se dirige a Deus conscientes de nossa total dependência dele.

 

Sem dúvida, todos nós precisamos aprender a orar com o Senhor.

 

Maringá, 08 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] A.W. Pink, Deus é Soberano, São Paulo: FIEL., 1977, p. 128.

[2] João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 111.

[3] John Calvin, Commentary on a Harmony of the Evangelists, Matthew, Mark, and Luke, Grand Rapids, Michigan: Baker, (Calvin’s Commentaries, v. 16/1), 1981, p. 314.

[4] Catecismo Menor de Westminster, Perg. 99.

[5] A.W. Pink, Enriquecendo-se com a Bíblia, São Paulo: FIEL. 1979, p. 47.

[6] A.W. Pink, Deus é Soberano, Atibaia, SP.: FIEL, 1977, p. 134.

[7] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 17.1), p. 327-328.

Um comentário em “A Objetividade na oração (Mt 6.6-8) (2)”

  1. Querido pastor Hermisten Maia. Expresso a minha grande admiração a obra que Deus executa através de seu ministério. Friso também, que estou me deliciando com seu livro Introdução a educação cristã, a obra principal, até agora, que escolheu para enriquecer as aulas de EBD que Deus determina que eu lecionei. Obrigado pela sua contribuições.

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