A Oração e o Reino de Deus: Uma oração comprometida (4)

 

B. Que o Reino de Deus seja o reinado de Deus em nossos corações

 

Oramos para que o Deus que habita em nós seja intensamente o Senhor de nossa vida; para que a sua vontade seja feita completamente em nós. Colocarmo-nos como súditos do Reino equivale a reconhecer o senhorio de Cristo sobre nós. “Orar pelo Reino de Deus é orar pela submissão total de nossos desejos à vontade de Deus”.[1]

 

“Venha o teu Reino” implica no desejo intenso e ardente de total consagração e submissão a Deus e à sua autoritativa Palavra, tendo unicamente a vontade de Deus valor decisório para a nossa vida. A Igreja que ora deste modo deseja, cada vez mais, ser a antecipação histórica do Reino; um sinal eloquente do “já” no “ainda não”. Portanto, nesta petição está embutida a busca sincera e consciente por vivenciar, dia após dia, a mesma experiência de vida descrita por Paulo: “Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.20).

 

C. Que o Reino de Deus se estabeleça completa e definitivamente

 

Esta oração tem um sentido escatológico. Ela envolve a petição da Igreja para que Deus cumpra a Sua promessa: a Igreja, quando suplica deste modo, está “esperando e apressando a vinda do dia de Deus” (2Pe 3.12).

 

A consumação do Reino se dará quando Cristo voltar; e nós que temos as primícias do Espírito, pelo Espírito, podemos dizer: “Vem, Senhor Jesus” (Ap 22.17,20).

 

Barclay (1907-1978) aqui pode ser usado com proveito:

 

Também pedimos que cada vez mais queira Ele revestir de glória a sua luz e a sua verdade, para que, assim, as trevas e as mentiras do Diabo e seus agentes se desvaneçam e sejam desarraigadas, confundidas e aniquiladas. Orando, pois, no sentido de que o reino de Deus venha, paralelamente estamos rogando que ele seja finalmente consumado e concretize o seu cumprimento, o que se dará no dia do juízo final, quando todas as coisas serão reveladas. Nesse dia, somente Ele será exaltado, e será ‘tudo em todos’ (1Co 15.28), após haver recebido os Seus na glória e haver reprimido, subjugado e arruinado todo o reino do Diabo.[2]

 

Na realidade, não podemos fazer esta oração sem o desejo sincero de Santificação: O Reino de Cristo intensamente em nós; Evangelização: O Reino de Cristo sobre todos os eleitos; Volta de Cristo: O estabelecimento definitivo do Reino de Deus sobre todas as coisas.

 

Antes de encerrarmos este ponto, gostaria de dizer algumas palavras sobre o Reino e a concretude de nossa esperança. Em alguns momentos de nossa vida podemos ser tentados a desanimar, ser impacientes, tendo a impressão de que o mal vence o bem, que a honestidade e a dignidade estão descaracterizadas, sendo premiados a esperteza, a falsidade, o logro. Todavia, a Palavra de Deus nos mostra que a vitória de Deus e de Seus ensinamentos é certa, por isso, somos mais do que vencedores em Cristo Jesus, ainda que esta vitória nem sempre seja perceptível aos nossos olhos.

 

A.A. Hoekema (1913-1988) comenta:

 

Quando o fermento (ou levedura) é colocado na farinha, nada parece acontecer por um momento, mas ao final toda a massa está fermentada. De maneira semelhante, o Reino de Deus está escondido agora, fazendo sua influência ser silenciosa, mas penetrante, até que um dia surgirá a céu aberto para ser visto por todos. Portanto, o Reino, em seu estado presente,       é objeto de fé, não de vista. Mas quando a fase final do Reino for instaurada pela segunda vinda de Jesus Cristo, “todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.11).[3]

 

Mais à frente Hoekema continua:

 

Nós estamos no Reino e, mesmo assim, aguardamos sua manifestação completa; nós compartilhamos de suas bênçãos, mas ainda aguardamos sua vitória total; nós agradecemos a Deus por ter-nos trazido para o Reino do Filho que Ele ama, e ainda assim continuamos a orar: “Venha o teu reino”.[4]

 

O Reino é uma realidade presente vivenciada por todos aqueles que creem em Cristo; todavia, ele não é estabelecido por nós. O Reino pertence a Deus (Mt 6.13); e nele se origina e se desenvolve. “Sua vinda unicamente se compreende sobre a base de sua ação milagrosa e todo-poderosa”.[5] Todavia, nem por isso deixamos de orar: “Venha o Teu Reino”. “A vinda do Reino é totalmente independente de nosso poder (…). Porém a vinda do Reino é objeto de nossa oração”, instrui-nos Barth (1886-1968).[6]

 

O Reino de Deus envolve a redenção cósmica, a consumação definitiva do propósito de Deus na história. A vinda do Reino será o shalom da igreja.[7]

 

Considerando que o Reino já se evidencia na igreja, cabe a nós de forma comprometida com o Reino e totalmente dependente do Rei soberano, orarmos: “Venha o Teu Reino”. Amém.

 

 

Maringá, 10 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora, 1973, (Mateo I), v. 1, p. 225.

[2]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 124.

[3] A.A. Hoekema, A Bíblia e o Futuro, p. 71.

[4]A.A. Hoekema, A Bíblia e o Futuro, p. 72.

[5] H. Ridderbos, El Pensamiento del Apóstol Pablo, Buenos Aires: La Aurora, 1987, v. 1, p. 43.

[6] K. Barth, La Oración, Buenos Aires: La Aurora, 1968, p. 52. “O reino é de todo obra de Deus, ainda quando opera em e através dos homens” (G.E. Ladd, Reino de Deus: In: E.F. Harrison, ed. Diccionario de Teologia, Michigan: TELL., 1985, p. 450b).

[7] Cf. Cornelius Plantinga Jr., O Crente no Mundo de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 107.

A Oração e o Reino de Deus: Uma oração comprometida (3)

Quando oramos pela vinda do Reino, estamos pedindo a Deus:

A. Que o Reino de Deus se estabeleça no coração de todos os seus escolhidos

cruzO estabelecimento do Reino significa a presença salvadora e soberana de Cristo no coração do homem. “O Reino de Deus é a vitória final sobre o pecado. É a reconciliação do mundo com Deus (2Co 5.19)”.[1]

 

O Reino inclui dois aspectos: um positivo e outro negativo. Ele significa a redenção, o perdão dos pecados para aqueles que se arrependerem, pela fé aceitam a sua mensagem e nele ingressam e, ao mesmo tempo, o Reino traz em seu bojo o juízo, a condenação para aqueles que o rejeitam.

 

O nome de Deus que deve ser santificado. Observamos que isto não ocorre de forma perfeita por causa do pecado. Os homens preferem adorar as criaturas em lugar de adorar o Criador. O pecado é que impede os homens de reconhecerem a glória de Deus, visto que Satanás, “o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo” (2Co 4.4).

 

Portanto, rogar “venha o teu Reino” significa dizer: “Senhor vem vencer o pecado e arrancar estes homens, como também fizeste conosco, do domínio da carne, do mundo e de Satanás”.

 

Oramos para que o mundo também veja o Reino presente que já é visto por nós, mas que permanece oculto aos seus olhos.

 

A Igreja ora para que Cristo reine no coração dos homens e, também, prega o Evangelho do Reino para que os homens, pela fé concedida por Deus, experimentem o governo redentivo de Cristo.

 

Comentando 1Tm 2.4, Calvino expressão a sua visão missionária: “Nenhuma nação da terra e nenhuma classe social são excluídas da salvação, visto que Deus quer oferecer o Evangelho a todos sem exceção”.[2] Por isso, “O Senhor ordena aos ministros do Evangelho (que preguem) em lugares distantes, com o propósito de espalhar a doutrina da salvação em cada parte do mundo”.[3]

 

Analisando uma das implicações da petição “venha o Teu Reino”, comenta:

 

Portanto, nós oramos pedindo que venha o reino de Deus; quer dizer, que todos os dias e cada vez mais o Senhor aumente o número dos Seus súditos e dos que nele creem; que seja neles e por eles glorificado em todos os aspectos, e aos que Ele já chamou e reuniu em Seu reino distribua e multiplique cada vez mais abundantemente as Suas graças; e que, mediante estas Suas graças, Ele viva e reine sempre e continuamente neles até que, tendo-os unido perfeitamente a Si, venha a cobri-los plena e completamente com Sua bênção.[4]

É nosso dever para proclamar a bondade de Deus a toda nação.[5]

 

Portanto, preguemos sinceramente, de forma inteligente, com amor e entusiasmo. Quanto aos resultados, estes pertencem a Deus, escapam da nossa esfera de ação.[6] Aproveitemos também as oportunidades concedidas por Deus: “Lembremo-nos de que a porta se nos abriu pela mão de Deus a fim de que proclamemos Cristo naquele lugar, e não recusemos aceitar o generoso convite que Deus assim nos oferecer”.[7]

 

Deus chama os seus eleitos por meio da pregação da Palavra. “Deus quer que o Evangelho seja proclamado ao mundo todo e em todo o tempo para que seja congregada a soma total dos eleitos”.[8] A Palavra de Deus é sempre um ato criador, por intermédio da qual Deus chama, convence, transforma e edifica os seus.

 

Cada um de nós que foi alcançado pela Graça de Deus, tornou-se um instrumento de testemunho da bendita salvação, a fim de que o povo de Deus seja salvo (Rm 10.14-17/At 18.9-11).[9] A Igreja é chamada para fora do mundo a fim de invadir o mundo com a pregação do Evangelho (Mt 5.14-16; Mc 16.15-16; At 1.8; 1Co 9.16).[10] A eleição eterna de Deus, inclui os fins e os meios.[11] Os meios de Deus são infalíveis porque Deus também o é.[12] Nós somos o meio ordinário estabelecido por Deus para que o mundo ouça a mensagem do Evangelho. Jesus Cristo confiou à Igreja a tarefa evangelística. A Igreja é “o agente por excelência para a evangelização”.[13] Nenhum homem será salvo fora de Cristo, mas para que isto aconteça ele tem que conhecer o Evangelho da Graça. Como crerão se não houver quem pregue? (Rm 10.13-15). “O evangelismo pelo qual Deus leva os seus eleitos à fé é um elo essencial na corrente dos propósitos divinos”.[14]

 

Herman Ridderbos (1909-2007), diz acertadamente que “A igreja é o povo que Deus separou para Si em sua atividade salvífica, para que mostrasse a imagem de Sua graça e Sua salvação”.[15]

 

Portanto, quando levamos o Evangelho a todos os homens, cumprindo prazerosamente parte de nossa missão, estamos de fato demonstrando o nosso amor pelo nosso próximo, desejando que ele conheça a Cristo e, segundo a misericórdia de Deus, se arrependa e creia.[16]

 

Calvino entendia que “a pregação é um instrumento para a consecução da salvação dos crentes” e, que “embora não possa realizar nada sem o Espírito de Deus, todavia, através da operação interior do mesmo Espírito, ela revela a ação divina muito mais poderosamente”.[17] “Deus, a Si prescrevendo a iluminação da mente e a renovação da mente e a renovação do coração, adverte ser sacrilégio, se o homem a si arroga alguma parte de uma e outra dessas duas operações”.[18]

 

Deste modo, a oração não exclui a nossa responsabilidade de pregar e viver o Evangelho do Reino, pelo contrário, ela indica o nosso compromisso com o anúncio do Evangelho. “‘Venha o teu reino’ é claramente uma oração para o progresso da atividade missionária”.[19] Portanto, a pregação da igreja é uma expressão de sua oração sincera e urgente: “Venha o Teu Reino”.

 

No livro de Atos encontramos registrados dois episódios que estabelecem, de forma clara, a relação entre a oração e o compromisso missionário. Pedro e João foram presos após um testemunho eloquente a respeito do poder de Cristo, que através deles curara um coxo de nascença à porta do Templo. Foram ameaçados e soltos. Libertos, procuraram seus irmãos para relatar o que lhes acontecera… Quando ouviram o que contaram, todos, a uma só voz começaram a orar, glorificando a Deus… Lucas relata que “tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo, e, com intrepidez, anunciavam a Palavra de Deus” (At 4.31). Lucas também registra que o envio de Barnabé e Saulo (Paulo), como missionários, foi precedido por jejuns e oração. “Então, jejuando e orando, e impondo sobre eles as mãos, os despediram” (At 13.3).

 

D.M. Lloyd-Jones (1899-1981) observa com acerto que,

 

Quando oramos: ‘venha o teu reino’, estamos orando pelo sucesso do Evangelho, em sua amplitude e poder; estamos orando pela conversão de homens e mulheres; estamos orando para que o reino de Deus tome conta da Europa, das Américas, da Ásia, da África e da Oceania, ou seja, do mundo inteiro. “Venha o teu reino” é uma oração missionária toda-inclusiva.[20]

 

Jesus Cristo, apresentando alguns sinais que precederão a consumação deste século, diz: “E será pregado evangelho do reino por todo o mundo para testemunho a todas as nações. Então virá o fim” (Mt 24.14).

 

Maringá, 10 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] K. Barth, La Oración, Buenos Aires: La Aurora, 1968, p. 51.

[2]João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 2.4), p. 60. Ver também: John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 12, (Ez 18.23), p. 246-249. Para um estudo sobre a visão missionária de Calvino, ver: James MacKinnon, Calvin and the Reformation, London: Longmans, Green, and Co. 1936, p. 195-205; Philip E. Hughes, John Calvin: Director of Missions. In: John H. Bratt, ed. The Heritage of John Calvin, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1973, p. 40-54; R. Pierce Beaver, The Genevan Mission to Brazil. In: J. H. Bratt, ed. The Heritage of John Calvin, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1973, p. 55-73; W. Stanford Reid, Calvin’s Genebra: A Missionary Centre. In: Richard C. Gamble, ed. Calvin’s work in Geneva, New York: Garland Pub., 1992; J. Vanden Berg, Calvino y las Misiones. In: Jacob T. Hoogstra, org. Juan Calvino, Profeta Contemporáneo, Barcelona: CLIE., 1973, p. 169-185; S.L. Morris, The Relation of Calvin and Calvinism to Missions: In: R.E. Magill, ed. Calvin Memorial Addresses, Richimond VA.: Presbyterian Committee of Publication, 1909, p. 127-146; Antonio Carlos Barro, A Consciência Missionária de João Calvino. In: Fides Reformata, São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, 3/1 (1998), 38-49; Ray Van Neste, John Calvin on Evangelism and Missions (freerepublic.com/focus/religion/1349519/posts) (Acessado em 10.01.2019). Frank A. James III, Calvin, the Evangelist. (rq.rts.edu/fall01/james.html) (Acessado em 10.01.2019).

[3]John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 17, (Mt 28.19), p. 384.

[4]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 124. “Como nós não sabemos quem são os que pertencem ou deixam de pertencer ao número e companhia dos predestinados, devemos ter tal afeto, que desejemos que todos se salvem; e assim, procuraremos fazer a todos aqueles que encontrarmos, sejam participantes de nossa paz (…). Quanto a nós concerne, deverá ser a todos aplicada, à semelhança de um remédio, salutar e severa correção, para que não pereçam eles próprios, ou a outros não percam. A Deus, porém, pertencerá fazê-la eficaz àqueles a Quem preconheceu e predestinou” (João Calvino, As Institutas, III.23.14).

[5]John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 7, (Is 12.5), p. 403.

[6] Veja-se: João Calvino, As Institutas, II.5.5,7; III.24.2,15.

[7]João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Edições Paracletos, 1995, (2Co 2.12), p. 52.

[8] R.B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1976, p. 21. (Veja-se, também, p. 39).

[9]“Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas! Mas nem todos obedeceram ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem acreditou na nossa pregação? E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.14-17). “Teve Paulo durante a noite uma visão em que o Senhor lhe disse: Não temas; pelo contrário, fala e não te cales; porquanto eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal, pois tenho muito povo nesta cidade. E ali permaneceu um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus” (At 18.9-11).

[10]Vejam-se: Michael Green, Estratégia e Métodos Evangelísticos na Igreja Primitiva: In: A Missão da Igreja no Mundo de Hoje,    São Paulo; Belo Horizonte, MG.: ABU; Visão Mundial, 1982, p. 67-68 e Bruce L. Shelley, A Igreja: O Povo de Deus, São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 127.

[11] Confissão de Westminster, (1647), III.6. Ver também: R.C. Sproul, Eleitos de Deus, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998, p. 190.

[12]“Os muitos meios para o fim de salvar cada um dos eleitos são tão eficazes que terminam sempre em resultados bem-sucedidos. Os meios são infalíveis porque Deus é infalível” (R.K. McGregor Wright, A Soberania Banida: Redenção para a cultura pós-moderna, São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p. 143).

[13] R.B. Kuiper, El Cuerpo Glorioso de Cristo, Grand Rapids, Michigan: Subcomision Literatura Cristiana de la Iglesia Christiana Reformada, 1985, p. 220. (Veja-se, todo o capítulo, p. 220-226).

[14] J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p.146.

[15] Herman Ridderbos, El Pensamiento del Apóstol Pablo, Buenos Aires: La Aurora, 1987, v. 2, § 53, p. 9.

[16] John Stott observou bem este ponto ao declarar em 1974: “A Grande Comissão não explica ou esgota, nem supera o Grande Mandamento. O que ela faz, na verdade, é acrescentar ao mandamento do amor e serviço ao próximo uma nova e urgente dimensão cristã. Se de fato amamos o nosso próximo, não há dúvida de que lhe diremos as boas novas de Jesus” (John R.W. Stott, A Base Bíblica da Evangelização: In: A Missão da Igreja no Mundo de Hoje, São Paulo; Belo Horizonte, MG. ABU; Visão Mundial, 1982, p. 37). De igual modo: John R.W. Stott, A Missão Cristã no Mundo Moderno, Viçosa, MG.: Ultimato, 2010, p. 34.

[17]João Calvino, Romanos, 2. ed. São Paulo: Parakletos, 2001, (Rm 11.14), p. 407.

[18] João Calvino, As Institutas, IV.1.6.

[19]William Hendriksen, Mateus, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, v. 1, (Mt 6.10), p. 465.

[20] D.M. Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, São Paulo: FIEL., 1984, p. 349.

A Oração e o Reino de Deus: Uma oração comprometida (2)

1. O significado do Reino

cruz

O Reino de Deus é o Reinado de Deus, o governo triunfante de Cristo sobre todas as coisas, visíveis e invisíveis. “O Reino de Deus significa que Deus é Rei e age na história para trazer a história a um alvo divinamente determinado”.[1] Como Rei, Deus dirige a história a conduzindo ao seu propósito eterno e glorioso.

 

Falar no Reino é apontar para a concretização do propósito de Deus em Cristo, libertando os homens do poder de Satanás, conduzindo-os à liberdade concedida por Cristo, o Senhor. Portanto, o Reino é um relacionamento pessoal com o Rei.[2]

 

2. A Experiência do Reino

 

A Igreja anela pela concretização plena das virtudes eternas, das quais ela já tem a amostra (Rm 14.17; 15.13; 1Ts 1.6/Gl 5.22,23). É neste espírito que a Igreja ora: “Venha o Teu Reino”. Quem ora pela vinda do Reino, é porque já o conhece, já usufrui das suas riquezas, já provou da sua bem-aventurança (Rm 14.17).[3]

 

A nossa experiência do Reino nos induz a orar pela sua manifestação plena, pela concretização perfeita do eterno propósito de Deus. Nós, somos filhos do Reino, por isso podemos orar pela sua manifestação, visto que o reino está entre nós os que cremos (Lc 17.21). Somente um cidadão do Reino pode dizer de forma consciente: “Venha o teu Reino”. Por isso, ele ora para que o Reino já presente venha em toda a sua plenitude sobre todos.

 

Jesus manifestou o fato de que os seus milagres, a expulsão dos demônios,[4] o perdão dos pecados e a pregação, se constituem em sinais da chegada do Reino. Ele mesmo declarou: “Se, porém, eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós” (Lc 11.20). Os milagres não têm um fim em si mesmo, antes, visam selar e confirmar a Palavra.[5] Como já indicamos, a presença de Jesus é a manifestação do Reino.

 

A presença do Espírito em nós é real, ainda que em parte ou, como disse Calvino de forma figurada, afirmando que temos apenas umas poucas gotas do Espírito”.[6]

 

O Espírito faz com que hoje desfrutemos das bênçãos da era futura, porém, não em toda sua plenitude. O Apóstolo Paulo escreve: “Nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (Rm 8.23). As “primícias do Espírito” trazem consigo a promessa da abundante colheita que teremos no futuro e, ao mesmo tempo, é o antegozo dela. Portanto, o Espírito é uma realidade presente que nos fala da nossa salvação passada (justificação) e presente (santificação), indicando também, a consumação futura da nossa salvação (glorificação) (Rm 8.23-24).

 

O Espírito comunica as “primícias” das bênçãos – sendo Ele próprio a principal –, concedidas por Deus, as quais serão plenamente manifestadas na eternidade. É Deus mesmo que por sua “primeira parcela” se compromete a comunicar-nos todas as bênçãos adquiridas para nós em Cristo Jesus.[7] O Espírito em nós revela-nos as venturas futuras que agora, apenas vislumbramos pela fé, e que já desfrutamos apenas embrionariamente.

 

A amostragem que temos hoje, pelo Espírito, indica a superioridade do que teremos no porvir: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm 8.18).[8]

 

A Igreja anela, portanto, pela “redenção do nosso corpo” (Rm 8.23), quando teremos um “corpo espiritual” (1Co 15.44), que deve ser entendido não como uma incorporeidade, mas, sim, “uma existência humana total, alma e corpo incluídos, que será criada, penetrada e controlada pelo Espírito de Cristo”.[9] Um corpo “totalmente pertencente à nova era, totalmente sob a direção do Espírito”;[10] glorioso, imperecível e totalmente consagrado a Deus, adequado, assim, à nova vida gerada e preservada pelo Espírito.[11] Ou, nas palavras de Calvino, um corpo no qual “O Espírito será muito mais predominante (…). Será muito mais pleno”.[12] A espiritualidade significa um total controle do Espírito Santo; esta é a perspectiva do Novo Testamento.[13]

 

Na eternidade já não haverá a luta contra o pecado e o mal; o Espírito será tudo em todos os salvos.  “A vitória total que Cristo imporá sobre Seus inimigos será uma vitória do Espírito Santo”, enfatiza Bavinck (1854-1921).[14]

 

O Espírito faz com que hoje desfrutemos das bênçãos da era futura. Porém, não em toda sua plenitude. O Apóstolo Paulo escreveu: “Nós que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (Rm 8.23). O Espírito comunica as “primícias” das bênçãos – sendo Ele próprio a principal –, concedidas por Deus, as quais serão plenamente manifestadas na eternidade. O Espírito em nós revela-nos as venturas futuras que agora, apenas vislumbramos pela fé, e que já desfrutamos apenas embrionariamente.

 

Comentando a petição do Pai Nosso, Joaquim Jeremias (1900-1979) escreveu: “O homem que reza assim leva a sério a promessa divina. Abandona-se totalmente, com uma confiança inabalável, entre as      mãos de Deus. Não duvida: ‘Hás de consumar tua obra gloriosa’”.[15]

 

Aquele que crê salvadoramente em Jesus Cristo faz parte do Reino presente, desfruta de suas bênçãos e compartilha de suas responsabilidades. Estes têm uma compreensão exata dos valores e atendem à ordem de Cristo: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas cousas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33).

 

Quando oramos pela vinda do Reino, o que de fatos estamos pedindo? Veremos isso amanhã.

 

Maringá, 10 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] George E. Ladd, The Presence of the Future: The Eschatology of Biblical Realism, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, Revised Edition, 1974, p. 331.

[2] Veja-se: J.I. Packer, A Oração do Senhor, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 46.

[3]Esta é a experiência da Igreja: Ela é na presente era a manifestação do Reino: “A igreja é o centro vivo e ardente do reino, uma testemunha de sua presença e poder, e um precursor de sua vinda final” (Enrique Stob, Reflexiones Éticas: Ensayos sobre temas morales, Grand Rapids, Michigan: T.E.L.L., 1982, p. 68).

[4] “Cada expulsão, que Jesus opera, dum espírito mau significa uma antecipação da hora em que satã será visivelmente dominado” (Joaquim Jeremias, Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Paulinas, 1977, p. 148). “A expulsão de demônios demonstra que o reino de Deus chegou aos homens. O expulsar demônios é em si uma obra do reino de Deus” (G.E. Ladd, El Evangelio del Reino, Miami: Editorial Vida, 1985, p. 59. Vejam-se, também: A.A. Hoekema, A Bíblia e o Futuro, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1989, p. 67 e William Hendriksen, Mateus, São Paulo: Cultura Cristã, 2000, v. 2 (Mt 12.29), p. 35-36).

[5] Vejam-se: João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 2.4), p. 55; João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 3.2), p. 114.

[6]João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 8.23), p. 287. Estejamos atentos à figura de Calvino. Comentando Tt 3.6, diz: “Uma gota do Espírito, por assim dizer, por menor que seja, é como uma fonte a fluir tão abundantemente que jamais secará” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (Tt 3.6), p. 351).

[7] Cf. William Hendriksen, Efésios, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, (Ef 1.14), p. 117.

[8]O Espírito Santo, pois, nos foi outorgado a fim de que pudéssemos nutrir algum tipo de ideia quanto ao que nos aguarda quando chegarmos na glória. Deus nos deu as primícias. (…) Por conseguinte, em certo sentido nossa salvação não é completada, mas será completada, e o Espírito nos é conferido a fim de que possamos, não só saber isso com toda certeza, mas também para podermos até começar a experimentá-lo. E tudo o que experimentamos nesta vida, num sentido espiritual, é simplesmente primícias, ou uma prelibação, algo posto por conta, uma espécie de prestação de Deus, a fim de que pudéssemos saber o que nos está por vir” (David M. Lloyd-Jones, Deus o Espírito Santo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1998, p. 334, 325).

[9]Hendrikus Berkhof, La Doctrina del Espíritu Santo, Buenos Aires: Junta de Publicaciones de las Iglesias Reformadas; Editorial La Aurora, (1969), p. 120.

[10]J.D.G. Dunn, Espírito: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 2, p. 144. De igual forma interpretam: Eduard Schweizer, pneu=ma, etc: In: Gerhard Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 6, p. 421; A.A. Hoekema, A Bíblia e o Futuro, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1989, p. 88-90; Idem., Criados à Imagem de Deus, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 268; W. Hendriksen, A Vida Futura Segundo a Bíblia, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1988, p. 193; Ray Summers, A Vida no Além, 2. ed. Rio de Janeiro: JUERP., 1979, p. 90-91; Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 520; Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 346-349; John Murray, Romanos, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2003, (Rm 8.23). p. 334-335. Charles Hodge, sem aludir ao texto, faz uma distinção entre o céu e o inferno, dizendo: “O céu é um lugar e estado em que o Espírito reina com absoluto controle. O inferno é um lugar ou estado em que o Espírito já não refreia nem controla. A presença ou ausência do Espírito estabelece toda a diferença entre céu e inferno” (Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos Editora, 2001, p. 983-984).

[11] Ferguson escreve: “O corpo no qual a vida futura é vivida será tanto Espiritual quanto gloriosa em sua própria constituição” (Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, p. 347).

[12]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 15.44), p. 483-484.

[13] Veja-se: John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 184.

[14] Herman Bavinck, Our Reasonable Faith, 4. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1984, p. 388.

[15]Jeremias, O Pai-Nosso: A Oração do Senhor, São Paulo: Paulinas, 1976, p. 41-42.

A Oração e o Reino de Deus: Uma oração comprometida (1)

cruz

Venha o teu reino” (Mt 6.10), é uma das petições ensinadas por Jesus Cristo a seus discípulos.

O Reino de Deus é o coração da mensagem de Cristo bem como dos apóstolos. O crente no Antigo Testamento aguardava a chegada do Reino de Deus que estava associada à figura do Filho do Homem, descrita por Daniel (Dn 7.13-14/Mt 16.27,28; 17.12,22; Lc 9.58; Jo 3.13,14). Por isso, podemos dizer que a presença do Espírito no Ministério de Jesus Cristo é uma presença escatológica, que marca o cumprimento da promessa e, também, de forma similar, a chegada do Reino.

 

Jesus Cristo, o Filho do Homem, inaugurou o Reino de Deus (Lc 11.20).[1] O Reino está indissoluvelmente ligado à sua Pessoa. Jesus Cristo, a sua mensagem e atos incorporam a presença do Reino que chegara.

 

Orígenes (c. 185-254), corretamente, disse que Jesus Cristo era a ”autobasileia”, o reino em pessoa.[2] “A relação entre o Reino de Deus e a revelação messiânica passa a ser uma correlação de força tal que quase se poderia falar de identificação de Jesus Cristo com o Reino de Deus; Ele não apenas proclama, mas é, na Sua pessoa, o Reino que está entre nós”.[3] Por isso, é que o Novo Testamento nos ensina que pregar o Reino é o mesmo que pregar a Jesus Cristo:

 

Todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe ou mulher, ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais, e herdará a vida eterna (Mt 19.29).

Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos, por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente…. (Mc 10.29-30).

Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou mulher, ou irmãos, ou pais, ou filhos por causa do reino de Deus(Lc 18.29).

Filipe, que os evangelizava a respeito do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo…. (At 8.12).

Pregando o reino de Deus, e, com toda a intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as cousas referentes ao Senhor   Jesus Cristo (At 28.31). (Grifos meus).

 

Retornando à petição da Oração do Senhor, devemos observar que a oração do cristão envolve sempre o desejo de que o Reino de Deus venha. Mas, o que é o Reino de Deus, o que significa a sua vinda? Ele já não está presente entre nós? Amanhã continuaremos esse assunto.

 

Maringá, 10 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1]Se, porém, eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente, é chegado o reino de Deus sobre vós” (Lc 11.20).

[2]Orígenes, Comentário de Mateus, 14.7. Apud M. Green, Evangelização na Igreja Primitiva, São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 58. Veja-se também: K.L. Schmidt, Basilei/a: In: Gerhard Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing Co., 1983 (Reprinted), v. 1, p. 593.

[3] J. Blauw, A Natureza Missionária da Igreja, São Paulo: ASTE., 1966, p. 72.

A Objetividade na oração (Mt 6.6-8) (2)

Crédito: Patrick Fore (Unsplash)

Biblicamente aprendemos que “a finalidade da oração é expressar a Deus nosso reconhecimento de que Ele sabe o que temos necessidade”.[1] Não precisamos ficar com repetições gaguejantes e intermináveis porque Deus sabe do que necessitamos. A Bíblia, mesmo sem exclusivisar como corretas as orações breves, nos apresenta uma série de exemplos de orações que se expressam em poucas palavras (Vejam-se: Ex 32.31-32; 1Rs 3.6-9; 18.36-37; 2Rs 19.14-19; 1Cr 4.10; Pv 30.7-9; Mt 23.14; Lc 5.8; 18.13; 23.42; At 7.60; Ef 3.14-19).

 

Calvino (1509-1564) é cirúrgico:

 

Ele não proíbe a persistência nas orações, nem que elas sejam feitas demoradamente, nem com frequência nem com veemente fervor, mas nos ensina a não confiar em que se pode constranger Deus a atender às nossas petições pela nossa importunação com vã loquacidade, como se fosse possível dobrá-lo pelo muito falar, como se dá entre os homens.[2]

 

É lógico que as nossas orações não devem ser avaliadas por sua “extensão”. Se as “longas” orações não são sinônimo de piedade; do mesmo modo, a sua “brevidade” não indica necessariamente a nossa fé. O que realmente importa aqui é que as nossas orações sejam feitas ao Pai, com sinceridade, com objetividade, tendo como elemento norteador as promessas de Deus.

 

Calvino assim se expressou:

 

Os crentes não oram com a intenção de informar a Deus a respeito das coisas que Ele desconheça, ou para incitá-lo a cumprir o Seu dever, ou para apressá-Lo, como se Ele fosse relutante. Pelo contrário, eles oram para que assim possam despertar-se e buscá-Lo, e assim exercitem sua fé na meditação das Suas promessas, e aliviem suas ansiedades, deixando-as nas mãos dele; numa palavra, oram com o fim de declarar que sua esperança e expectativa das coisas boas, para eles mesmos e para os outros, está só nele.[3]

 

A Palavra de Deus é o manual de nossas orações: “Toda a Palavra de Deus é útil para nos dirigir em oração”.[4] Devemos ser guiados não pelos nossos pensamentos ou por aquilo que julgamos que Deus deveria nos conceder, mas sim, por tudo aquilo que Deus nos promete. “As promessas de Deus contêm a matéria da oração e definem as suas dimensões. Aquilo que Deus tem prometido, tudo quanto Ele tem prometido, e nada mais, sobre isso podemos orar”, instrui-nos Pink (1886-1952).[5]

 

A oração é um atestado da consciência de nossa fragilidade acompanhada da certeza do poder de Deus. “Orar não é tanto um ato, mas uma atitude – atitude de dependência de Deus. Orar é fazer confissão de nossa fraqueza, como criaturas que somos, de nossa total incapacidade. Orar é reconhecer nossa necessidade e expô-la”.[6]

 

Um outro aspecto é que a nossa oratória, constituída de grandes recursos linguísticos e frases bem montadas, nada tem a ver com a oração.

 

Comentando o Salmo 17, Calvino (1509-1564) acentua:

 

Quando nos apresentarmos diante de Deus em oração, não devemos fazer isso com os ornamentos e os artifícios da eloquência, pois a retórica mais excelente e a graça mais atraente que porventura possuamos diante dele consistem na mais pura simplicidade.[7]

 

Portanto, a oração objetiva não tem a ver necessariamente com o número de palavras, mas, com a integridade de nosso coração que, moldado e alinhado pela Palavra, se dirige a Deus conscientes de nossa total dependência dele.

 

Sem dúvida, todos nós precisamos aprender a orar com o Senhor.

 

Maringá, 08 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] A.W. Pink, Deus é Soberano, São Paulo: FIEL., 1977, p. 128.

[2] João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 111.

[3] John Calvin, Commentary on a Harmony of the Evangelists, Matthew, Mark, and Luke, Grand Rapids, Michigan: Baker, (Calvin’s Commentaries, v. 16/1), 1981, p. 314.

[4] Catecismo Menor de Westminster, Perg. 99.

[5] A.W. Pink, Enriquecendo-se com a Bíblia, São Paulo: FIEL. 1979, p. 47.

[6] A.W. Pink, Deus é Soberano, Atibaia, SP.: FIEL, 1977, p. 134.

[7] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 17.1), p. 327-328.

A Objetividade na oração (Mt 6.6-8) (1)

palavras
Imagem: Eran Menashri (Unplash)

 

Jesus nos ensina a não usarmos em nossas orações “vãs repetições” (ARA; ACR; BJ) ou “palavras vãs” (ARC). A expressão usada por Cristo (Battaloge/w “battalogeõ”), que só ocorre aqui, parece ser onomatopeica, significando “falar sem sentido”, “balbuciar”, “repetir palavras ou sons inarticulados”, “falar sem pensar”, “falar futilmente”, “gaguejar”, “dizer sempre a mesma coisa”, “tagarelar”, “uma repetição supérflua e exagerada”, “repetir uma fórmula muitas vezes”[1] etc. Tyndale traduz: “Tagareleis demais”; Knox: “Useis muitas frases”; Velha Versão Siríaca: “Não digais coisas ociosas”.[2]

 

John Stott (1921-2011), comentando o sentido do verbo, diz: “A maioria a considera como uma expressão onomatopeica, o som da palavra indicando o seu significado. Assim, batarizõ significa gaguejar; e qualquer estrangeiro cuja língua parecesse aos ouvidos gregos como uma interminável repetição da sílaba ‘bar’ era chamado de barbaros, um bárbaro”.[3]

 

Broadus (1827-1895) acrescenta: “É possível que como um gago repete muitas vezes a mesma palavra, a palavra grega viesse a ser usada para exprimir as vãs repetições, em geral”.[4]

 

A referência de Jesus é direta e intencional aos gentios, ainda que não exclusivamente: “E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios” (Mt 6.7). Os pagãos criam que as repetições contribuíam para pressionar os seus deuses a conceder-lhes favores. Ao que parece, era esta crença que estimulou os profetas de baal a permanecerem durante horas orando ao seu deus sem serem respondidos (1Rs 18.25-29). Do mesmo modo, os efésios indignados com a pregação cristã, gritaram por quase duas horas: “Grande é a Diana dos efésios!” (At 19.34). De modo semelhante procedem os católicos romanos com suas repetições do “Pai Nosso” e “ave-maria”[5] e a “roleta de orações dos budistas tibetanos”.[6]

 

Havia também entre os gentios o costume de usar de repetições intermináveis com o objetivo de informarem aos seus deuses da sua situação, “atualizarem” o seu deus.

 

Este era o quadro religioso entre os pagãos, inclusive durante os dias de Jesus Cristo. Que tipo de “Deus” era este em que os povos criam, que precisava ser informado ou que ficava hesitante, precisando ser convencido a agir pela insistência dos homens?!

 

No entanto, a alusão aos gentios não se configura como exclusiva. Sabemos que entre os judeus, alguns escribas gostavam de fazer orações longas para poder se engrandecer e esconder a sua impiedade. Jesus Cristo nos advertiu quanto a isso, dizendo:

 

“Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes talares e das saudações nas praças; e das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos primeiros lugares nos banquetes; os quais devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem longas orações; estes sofrerão juízo muito mais severo” (Mc 12.38-40).

 

Agostinho (354-430) observa que

 

Toda essa abundância de palavras vem dos gentios, que se preocupam mais em exercitar sua língua do que purificar o coração. Esforçam-se eles em aplicar também esse linguajar frívolo na oração para tentar dobrar a Deus. Julgam que alguém pode incliná-lo com o fluxo de palavras.[7]

 

Mas, afinal, a questão toda está na quantidade de palavras? Veremos isso amanhã.

 

 

Maringá, 08 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] John Calvin, Commentary on a Harmony of the Evangelists, Matthew, Mark, and Luke, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries, v. 16/1), 1981, p. 313.

[2] Esta palavra é constituída de (Ba/ttoj = “gago” & loge/w = “falar”). Ela é de derivação incerta. Talvez possa ser derivada do aramaico “battal” (“vão”, “inútil”). Erasmo (1467-1536), por exemplo, entendia que esta expressão era proveniente de “Bato”, personagem descrito por Heródoto: “Chegando a Teras, Polineto, homem de alta posição, tomou a jovem como concubina, e o casal teve, no fim de certo tempo, um filho que gaguejava e sibilava. Essa criança, segundo os Tereus e Cireneus, recebeu o nome de Bato” (Heródoto, História, Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.], IV.155. Veja-se: Ba/ttoj: In: A Lexicon Abridged from Liddell and Scott’s Greek-English Lexicon, London, Clarendon Press, 1935, p. 128b). No entanto, Heródoto, que discorda desta explicação para o nome do menino, diz que “batus significa rei na língua dos Líbios” (Heródoto, História, IV.155). Também especula-se que esta expressão viria por derivação de um poeta medíocre, Battus, que teria feito hinos extensos, cheios de repetições (Veja-se: A.B. Bruce, The Gospel According to Matthew: In: W. Robertson Nicoll, ed. The Expositor’s Greek Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 1, p. 118-119; John R.W. Stott, A Mensagem do Sermão da Montanha, 3. ed. São Paulo: ABU., 1985, p. 146). O fato é que ninguém consegue precisar a origem da palavra. (Para maiores detalhes, vejam-se: G. Delling, Battaloge/w, In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, v. 1, p. 597; Battologe/w: In: James Hope Moulton; George Mulligan, The Vocabulary of the Greek New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (reprinted), p. 107; H. Balz, Battaloge/w, In: Horst Balz; Gerhard Schneider, eds. Exegetical Dictionary of New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1978-1980, v.1, p. 209; Battaloge/w: In: Walter Bauer, A GreekEnglish Lexicon of the New Testament, 5. ed. Chicago: The Chicago Press, 1958, p. 137).

[3] J.R.W. Stott, A Mensagem do Sermão da Montanha, p. 146. Neste caso, a palavra não teria nenhuma derivação explícita, equivalendo apenas a uma imitação repetitiva de sons sem qualquer sentido (Veja-se: Alford’s Greek Testament, 7. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker, 1874, (Reprinted: 1980), v. 1, p. 58).

[4] John A. Broadus, Comentário do Evangelho de Mateus, 3. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1966, v. 1, p. 199.

[5] Marvin R. Vincent, Word Studies in the New Testament, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, (s.d), v. 1, (Mt 6.7), p. 43.

[6] William Hendriksen, Mateus, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, v. 1, (Mt 6.8), p. 455.

[7] Agostinho, O Sermão da montanha, São Paulo: Paulinas, 1992, II.3.12, p. 113.

A quem oramos? (Mt 6.6,9) (3)

Este artigo faz parte de uma série. Confira os demais textos:

A quem oramos? (Mt 6.6,9) (1)

A quem oramos? (Mt 6.6,9) (2)

 


Assim como abordamos no texto anterior, precisamos “que o mesmo Deus nos ensine, conforme ao que Ele sabe que convém, e que Ele nos leve guiando como que pela mão, e que nós o sigamos”.[1] Orar como convém é orar segundo a vontade de Deus, colocando os nossos desejos em harmonia com o santo propósito de Deus;[2] isto só é possível pelo Espírito de Deus que Se conhece perfeitamente (1Co 2.10-12).[3] Assim, toda oração genuína é sob a orientação e direção do Espírito (Ef 6.18; Jd 20). O Catecismo Maior de Westminster diz: “Não sabendo nós o que havemos de pedir, como convém, o Espírito nos assiste em nossa fraqueza, habilitando-nos a saber por quem, pelo quê, e como devemos orar; operando e despertando em nossos corações (embora não em todas as pessoas, nem em todos os tempos, na mesma medida) aquelas apreensões, afetos e graças que são necessários para o bom cumprimento do dever”.[4]

 

O Espírito ora conosco e por nós; Ele, juntamente com Cristo, em esferas diferentes, intercede por nós: “Cristo intercede por nós no céu, e o Espírito Santo na terra. Cristo nosso Santo Cabeça, estando ausente de nós, intercede fora de nós; o Espírito Santo nosso Consolador intercede em nosso próprio coração quando Ele o santifica como Seu templo”, contrasta Kuyper (1837-1920).[5]

 

A intercessão de Cristo respalda-se nos Seus merecimentos, obtendo para os Seus eleitos, os frutos da Sua Obra expiatória (Rm 8.34; Hb 7.25; 1Jo 2.1).[6] O Espírito intercede por nós considerando as nossas necessidades vitais e costumeiramente imperceptíveis aos nossos próprios olhos.

 

Calvino (1509-1564) observou que na oração, “a língua nem sempre é necessária, mas a oração verdadeira não pode carecer de inteligência e de afeto de ânimo”,[7] a saber: “O primeiro, que sintamos nossa pobreza e miséria, e que este sentimento gere dor e angústia em nossos ânimos. O segundo, que estejamos inflamados com um veemente e verdadeiro desejo de alcançar misericórdia de Deus, e que este desejo acenda em nós o ardor de orar.”[8]

 

Spener (1635-1705), falando sobre a oração, segue uma linha semelhante: “Não é suficiente que se ore exteriormente, com a boca, pois a oração verdadeira e mais necessária acontece no nosso ser interior, podendo expressar-se em palavras ou permanecer na alma, mas, de qualquer maneira, lá acha e encontra Deus”.[9]

 

O Espírito, que procede do Pai e do Filho, é Quem nos guia em nossas orações, fazendo-nos orar corretamente ao Pai. De fato, Deus propiciou para nós todos os elementos fundamentais para a nossa santificação (2Pe 1.3); a ação do Espírito aponta nesta direção, indicando também, que as nossas orações são “imperfeitas, imaturas, e insuficientes”, por isso Ele nos auxilia, nos ensinando a orar como convém.

 

Paulo fala que nós, os crentes em Cristo, recebemos o Espírito de ousada confiança em Deus, que nos leva, na certeza de nossa filiação divina, a clamar ”Aba, Pai”. ”Porque não recebestes o espírito de escravidão para viverdes outra vez atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15). O fato de Paulo usar a mesma expressão de Cristo para nós “significa que, quando Jesus deu a Oração Dominical aos Seus discípulos, também lhes deu autoridade para segui-Lo em se dirigirem a Deus como ‘abbã’, dando-lhes, assim, uma participação na Sua condição de Filho”.[10] Somente pelo Espírito poderemos nos dirigir a Deus desta forma, como uma criança que se lança sem reservas nos braços do seu Pai Amoroso.

 

Quando oramos sabemos que estamos falando com o nosso Pai. Desta forma, a oração é uma prerrogativa dos que estão em Cristo. Somente os que estão em Cristo pela fé, têm a Deus como o seu legítimo Pai (Jo 1.12; Rm 8.14-17; Gl. 4.6; 1Jo 3.1-2). De onde se segue que esta oração (Pai Nosso), apesar de não mencionar explicitamente o nome de Cristo, é feita no Seu nome, visto que somos filhos de Deus – e é nesta condição que nos dirigimos a Deus –, através de Cristo Jesus (Gl 3.26).[11] Portanto, quando oramos o Pai Nosso sinceramente, na realidade estamos orando no nome de Jesus Cristo pois, foi Ele mesmo quem nos ensinou a fazê-lo. Assim, devemos, pelo Espírito – nosso intercessor –, no nome de Jesus – nosso Mediador –, orar: “Pai nosso que estás no céu….”.

 

O Espírito que em nós habita e nos leva à oração testemunha em nós que somos filhos de Deus. “O próprio Espírito testifica (summarture/w) com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16); O Pai Nosso é a “Oração dos Filhos”.[12]

 

Orar ao Pai não significa simplesmente usar o Seu nome, mas, sim, dirigir-nos de fato a Ele conforme os Seus preceitos, em submissão à Sua vontade. Uma oração francamente oposta aos ensinamentos de Jesus não pode ser considerada de fato uma oração dirigida ao Pai, por mais que usemos e repitamos o nome de Jesus.

 

O problema, dentro do contexto vivido por Jesus, é que muitos dos judeus, na realidade, ofereciam as suas orações aos homens, mesmo usando o nome de Deus. Usar o nome de Deus não é garantia de estarmos nos dirigindo a Ele. Do mesmo modo, podemos estar tão preocupados com a forma de nossas orações que nos esquecemos do Pai; é a Ele que a nossa oração é destinada; portanto, cabe a Ele, que vê em secreto, julgá-la. A nossa oração não necessita ter publicidade para que Deus a ouça; Ele vê em secreto e nos recompensa conforme o que vê (Mt 6.6).

 

No Antigo Testamento, por intermédio de Isaías, Deus recrimina os judeus dizendo que eles sacrificavam simplesmente porque gostavam de fazê-lo, não porque quisessem agradá-Lo. O ritual é que era prazeroso, não a satisfação de Deus: “Como estes escolheram os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações, assim eu lhes escolherei o infortúnio e farei vir sobre eles o que eles temem; porque clamei e ninguém respondeu, falei, e não escutaram; mas fizeram o que era mau perante mim, e escolheram aquilo em que eu não tinha prazer” (Is 66.3-4).

 

Bonhoeffer (1906-1945) faz uma analogia significativa:

 

Uma criança aprende a falar porque seu pai fala com ela. Ela aprende a falar a língua paterna. Assim também nós aprendemos a falar com Deus, porque Deus falou e fala conosco. Pela palavra do Pai no céu seus filhos aprendem a comunicar-se com Ele. Ao repetir as próprias palavras de Deus, começamos a orar a Ele. Não oramos com a linguagem errada e confusa de nosso coração, mas pela palavra clara e pura que Deus falou a nós por meio de Jesus Cristo, devemos falar com Deus, e Ele nos ouvirá.[13]

 

Orar é exercitar a nossa confiança no Deus da Providência, sabendo que nada nos faltará, porque Ele é o nosso Pai. A oração tem sempre uma conotação de submissão confiante. Portanto, orar ao Pai, significa sintonizar a nossa vontade com a dEle; sabendo que Ele é santo e a Sua vontade também o é (Mt 6.9,10).

 

A presença e direção do Espírito na vida do povo de Deus é uma realidade. Desconsiderar este fato significa desprezar o registro bíblico e o testemunho do Espírito em nós (Rm 8.16). “A vida cristã é companheirismo com o Pai e com o Filho, Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo”.[14]

 

O Espírito em nós é uma fonte de consolo e estímulo a perseverança e obediência devida a Deus. Consideremos este fato – à luz da Palavra e da nossa experiência – em todos os nossos caminhos, e o Espírito mesmo nos iluminará.

 

Maringá, 2 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1]J. Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 254.

[2]“A oração não é um recurso conveniente para impormos a nossa vontade a Deus, ou para dobrar a Sua vontade à nossa, mas, sim, o meio prescrito de subordinar a nossa vontade à de Deus. É pela oração que buscamos a vontade de Deus, abraçamo-la e nos alinhamos com ela. Toda oração verdadeira é uma variação do tema, ‘Faça-se a tua vontade’.” (John R.W. Stott, I,II e III João, Introdução e Comentário, São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1982, p. 159).

[3]Leenhardt, comenta: “Para orar ‘como convém’ é preciso orar ‘segundo a vontade de Deus’; isto, entretanto, não pode advir senão de Deus, Que só Se conhece. O mais é ação estéril.” (Franz J. Leenhardt, Epístola aos Romanos, São Paulo: ASTE., 1969, p. 226).

[4] Catecismo Maior de Westminster, Perg. 182.

[5] Abraham Kuyper, The Work of the Holy Spirit, Chaattanooga: AMG. Publishers, 1995, p. 670.

[6] “Não temos como medir esta intercessão pelo nosso critério carnal, pois não podemos pensar do Intercessor como humilde suplicante diante do Pai, com os joelhos genuflexos e com as mãos estendidas. Cristo contudo, com razão intercede por nós, visto que comparece continuamente diante do Pai, como morto e ressurreto, que assume a posição de eterno intercessor, defendendo-nos com eficácia e vívida oração para reconciliar-nos com o Pai e levá-lo a ouvir-nos com prontidão” (J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.34), p. 304).

[7]J. Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 240.

[8]J. Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 243.

[9]Ph. J. Spener, Mudança para o Futuro: Pia Desideria, São Paulo; Curitiba. PR.: Encontrão Editora/Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, São Bernardo do Campo, SP.: 1996, p. 119.

[10] O. Hofius, Pai: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 383.

[11] Veja-se: Calvino, As Institutas, III.20.36.

[12] Conforme expressão de Lloyd-Jones (1899-1981) (D.M. Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, São Paulo: FIEL., 1984, p. 358). Veja-se: a relação feita por Calvino entre a oração e a convicção de nossa filiação divina (João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.16), p. 279-280).

[13] Dietrich Bonhoeffer, Orando com os Salmos, Curitiba, PR.: Encontrão Editora, 1995, p. 12-13.

[14]D.M. Lloyd-Jones, Salvos desde a Eternidade, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 1), p. 98.

A quem oramos? (Mt 6.6,9) (2)

Este artigo faz parte de uma série. Confira os demais textos:

A quem oramos? (Mt 6.6,9) (1)

 


 

O que nos enche de alegria e mostra a nossa relação íntima com Deus é o fato de em Cristo, pelo Espírito, podermos nos dirigir ao Pai, como filhos adotivos de Deus, usando da mesma expressão empregada por Cristo.

 

Agostinho (354-430), comentando o Salmo 102.2 – quando o salmista diz: “… inclina-me os teus ouvidos; no dia em que eu clamar; dá-te pressa em acudir-me” –, faz uma paráfrase: “Escuta-me prontamente, pois peço aquilo que queres dar. Não peço como um homem terreno bens terrenos, mas já redimido do primeiro cativeiro, desejo o reino dos céus”.[1]

 

Paulo, discorrendo sobre a fraqueza humana, a exemplifica na vida cristã no fato de nem ao menos sabermos orar como convém (Rm 8.26-27). Por isso o Espírito que em nós habita nos auxilia em nossas orações, fazendo-nos pedir o que convém, capacitando-nos a rogar de acordo com a vontade de Deus. A oração eficaz é aquela que tem o Espírito como seu autor. Sem o auxílio do Espírito jamais oraríamos com discernimento.

 

Calvino (1509-1564), analisando o fato de que pedimos tantas coisas erradas a Deus e que, se Ele nos concedesse o que solicitamos, traria muitos males sobre nós, enfatiza: “Não podemos nem sequer abrir a boca diante de Deus sem grande perigo para nós, a não ser que o Espírito Santo nos guie à forma devida de orar”.[2] A oração genuína é sempre precedida do senso de necessidade e de uma fé autêntica nas promessas de Deus.[3]

 

Graças a Deus porque todos nós, em Cristo, temos o Espírito de oração (Zc 12.10), porque sem Ele jamais poderíamos orar de modo aceitável ao Pai. “A própria oração é uma forma de adoração”.[4]

 

Por outro lado, o auxílio do Espírito não deve servir de pretexto para a nossa indolência e irresponsabilidade espiritual. Interpreta Calvino:

 

Aqui não se diz que, lançando o ofício da oração sobre o Espírito de Deus, podemos adormecer negligentes ou displicentes, como alguns se acostumaram a blasfemar, dizendo: Devemos ficar à espera, sem nenhuma preocupação, até que o Espírito chame a atenção da nossa mente, até então ocupada e distraída com outras coisas. Muito ao contrário, aqui somos induzidos a desejar e a implorar tal auxílio, com aversão e desgosto por nossa preguiça e displicência.[5]

 

Em outro lugar, exorta-nos: “Quando nos sentirmos frios, e indispostos para orar, supliquemos logo ao Senhor que nos inflame com o fogo de seu Espírito, pelo qual sejamos dispostos e suficientes para orar como convém”.[6]

 

Muitas vezes estamos tão confusos diante das opções que temos, que não sabemos nem mesmo como apresentar os nossos desejos e as nossas dúvidas diante de Deus. Todavia o Espírito nos socorre. Ele “ora a nosso favor quando nós mesmos deveríamos ter orado, porém não sabíamos para que orar”.[7]

 

Comentando o Salmo 91.12, Calvino nos adverte: “Nunca podemos aquilatar os sérios obstáculos que Satanás poria contra nossas orações não nos sustentasse Deus da maneira aqui descrita”.[8]

 

Ele ilustra a sua tese:

 

Chamo tentação espiritual quando não somente somos açoitados e afligidos em nossos corpos; senão quando o diabo opera de tal modo em nossos pensamentos que Deus se nos converte em inimigo mortal, ao que já não podemos ter acesso, convencidos de que nunca mais terá misericórdia de nós.[9]

 

 

Maringá, 02 de janeiro de 2019.

Rev, Hermisten Maia Pereira da Costa

 

Leia também: A quem oramos? (Mt 6.6,9) (1)

 


 

[1] Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulus, (Patrística, 9/3), 1998, v. 3, p. 12.

[2]J. Calvino, Institución, III.20.34. Comentando o texto de Romanos 8.26, Calvino diz: “O Espírito, portanto, é Quem deve prescrever a forma de nossas orações” (João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 8.26), p. 291). Ver também, J. Calvino, O Catecismo de Genebra, Perg. 254.

[3] Veja-se: João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, p. 34.

[4] R.C. Sproul, O Ministério do Espírito Santo, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 187.

[5]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 95.

[6]J. Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 245.

[7] Edwin H. Palmer, El Espiritu Santo, , Edinburgh: El Estandarte de la Verdad, (s.d.), Edição Revista, p. 190.

[8] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 2002, v. 3, (Sl 91.12), p. 454.

[9]Juan Calvino, El Carácter de Job, Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 1), p. 28.

A quem oramos? (Mt 6.6,9) (1)

A Palavra de Deus nos ensina que a nossa oração deve ser dirigida ao Pai. Em nossas orações devemos aprender logo de início que estamos falando com o nosso Pai; o nosso Deus é Pai, de quem podemos nos aproximar com confiante amor, certos de que Ele está atento ao nosso clamor. “O Pai está sempre à disposição de seus filhos e nunca está preocupado demais que não possa ouvir o que eles têm a dizer. Esta é a base da oração cristã”. (J.I. Packer, O Conhecimento de Deus, São Paulo: Mundo Cristão, 1980, p. 194).

O conhecimento que temos do Deus Pai é-nos revelado por Cristo; por sua graça O conhecemos. Jesus declara: Ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27). Falamos com o Pai – não com um estranho” –, a Quem conhecemos pela graça.

Aqui há algo extremamente relevante que devemos mencionar. A paternidade de Deus sobre Israel é claramente reconhecida pelo povo do Antigo Testamento (Dt 32.6; Sl 103.13-14; Jr 31.9,20; Ml 2.10); a ideia está sempre presente nas páginas do Antigo Testamento. Apesar deste substantivo ser usado mais de 1200 vezes ali,1 só ocorre 14 vezes referindo-se a Deus; todavia, nestes casos, é sempre empregado de forma reveladora. (Cf. J. Jeremias, A Mensagem Central do Novo Testamento, 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1979, p. 12ss.) Curiosamente, os sumerianos, cerca de três mil anos antes de Cristo, já se referiam ao seu deus como um pai.2

A paternidade de Deus descrita no Antigo Testamento é exclusiva: Deus é Pai de Israel (Dt 7.6-8; 14.2; Is 63.15,16; 64.8) e esta paternidade encontra o seu fundamento num ato histórico e singular; o êxodo do Egito. J. Jeremias escreve sobre isto:

Associar a paternidade de Deus com um fato histórico implica uma profunda revisão do conceito de Deus como Pai. A certeza de que Deus é Pai e Israel seu filho não se funda no mito, mas em um ato único de salvação realizado por Deus, do qual Israel foi o alvo da história.3

Como já nos referimos, apesar dos judeus não usarem com frequência o título pai para Deus, estavam convictos desta realidade: Deus é pai de Israel. Entretanto, o que mais nos chamou a atenção é o fato de não ser encontrado no judaísmo nenhum exemplo convincente da utilização da expressão “meu pai” para Deus.4 Os judeus podiam dirigir-se a Deus, liturgicamente, como yiba) (‘abhi’) (“Meu Pai”); mas nunca empregavam a forma familiar, )fba) (’abhã’)5 (grego: a)bba=) (abba), que soaria desrespeitoso.

Agostinho (354-430), resume a questão dizendo:

Quem quer que leia a Sagrada Escritura poderá encontrar tais louvores de modo variado e extenso. Entretanto, em parte alguma encontra-se algum preceito ordenando ao povo de Israel que se dirigisse a Deus como Pai e o invocasse como Pai nosso.6

Portanto, o surpreendente para o judeu foi o fato de Jesus referir-se ao Pai de uma forma nunca vista, jamais praticada. Acontece que Jesus, em suas orações, não usava de um artifício para criar impacto ou para presumir, diante de seus ouvintes, ter uma relação inexistente com o Pai. Não. Jesus apenas revelou o fato do Seu relacionamento íntimo e especial com o Pai. Isto Ele fez, usando a expressão aramaica ’abba, que foi tomada por empréstimo do linguajar das crianças, equivalendo mais ou menos ao nosso “papai” ou “paizinho”.7 O Talmud diz que “quando uma criança saboreia o trigo (isto é, quando é desmamada), aprende a dizer ‘abba’ e ‘imma’ (Papai e mamãe)”.8 Com o passar do tempo o uso desta expressão também tornou-se comum entre os jovens e adultos para se referirem aos seus pais.9

Abba era um designativo tão familiar e íntimo que nenhum judeu ousaria usá-lo para Deus. Tal emprego, feito por Jesus, impressionou de tal forma os discípulos, que eles não traduziram a expressão para o grego.

Com exceção da oração de Mt 27.46, que seguiu a forma do Sl 22.1, em todas as suas orações, Jesus dirigiu-se a Deus como Abba.10

Permita-me mais uma vez usar as palavras de J. Jeremias, que pinta este quadro de forma singular:

Jesus dirigia-se a Deus como uma criancinha a seu pai, com a mesma simplicidade íntima, o mesmo abandono confiante (…). Jesus considerava este modo infantil de falar como a expressão do conheci­mento único de Deus que o Pai lhe dava, e de seus plenos poderes de Fi­lho.11

Isto implica em dizer que Jesus tinha plena consciência de ser, de modo único e singular, O Filho de Deus (Mt 11.27; Mc 13.32; 14.36). Quando a Igreja professou a sua fé na filiação divina de Jesus, o fez respaldada pelo próprio testemunho de Jesus, de ser o Filho de Deus. O que para os ouvintes foi uma novidade, a afirmação da Sua filiação divina por ocasião do batismo, para Ele foi apenas o testemunho público daquilo que Ele sempre soubera.

 

Maringá, 02 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


 

1 E. Jenni, Padre: In: Ernst Jenni; C. Westermann, eds. Diccionario Teologico Manual del Antiguo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1978, v. 1, p. 36.

2 Veja-se: J. Jeremias, A Mensagem Central do Novo Testamento, p. 11-12; J. Jeremias, O Pai-Nosso, São Paulo: Paulinas, 1976, p. 33-34. A referência ao seu deus como “Pai”, é um fenômeno comum na história das religiões, quer dos povos mais primitivos quer dos mais evoluídos culturalmente. (Cf. G. Schrenk, pa/thr: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 5, p. 951.

3 J. Jeremias, A Mensagem Central do Novo Testamento, p. 13.

4 J. Jeremias, A Mensagem Central do Novo Testamento, p. 20.

5 Cf. A. Richardson, Introdução à Teologia do Novo Testamento, São Paulo: ASTE., 1966, p. 149ss.

6 Agostinho, O Sermão da Montanha, São Paulo: Paulinas, 1992, II.4. p. 115.

7 “O emprego inteiramente novo, e, para os judeus, nunca imaginado, do termo infantil e familiar ‘abbã’ na oração é uma expressão de confiança e obediência para com o Pai (Mc 14.36), como também de Sua autoridade incomparável (Mt 11.25ss)” (O. Hofius, Pai: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 383).

8 J. Jeremias, O Pai Nosso, p. 36,37; O. Hofius, Pai: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 3, p. 382.

9 Cf. O. Hofius, Pai: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 3, p. 382.

10 J. Jeremias, A Mensagem Central do Novo Testamento, p. 20ss.

11 J. Jeremias, O Pai Nosso, p. 37. Veja-se também, G. Kittel, a)bba=: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, v. 1, p. 6.

Saber ouvir, uma virtude teológica (1)

duas pessoas conversando

“Por isso, também eu, tendo ouvido” (Ef 1.15).

 

Na Carta aos Efésios, o Apóstolo Paulo, após descrever em forma doxológica aspectos dos grandes feitos de Deus de eternidade à eternidade, tendo como ponto fundamental a sua graça abençoadora que nos elege, redime, adota e sela (Ef 1.3-14), agora, volta-se à igreja como alvo de sua intercessão a Deus (Ef 1.15-23). Como sumariou Stott (1921-2011): “Primeiro, bendiz a Deus por nos ter abençoado em Cristo; depois, ora pedindo que Deus abra nossos olhos para entendermos plenamente esta bênção” (John R.W. Stott, A Mensagem de Efésios, São Paulo: ABU Editora, 1986, p. 29).

O “por isso” (dia\ tou=to) (Ef 1.15), certamente refere-se à toda doxologia (Ef 1.3-14). Paulo começa então destacando a fé e o amor dos efésios que têm sido motivo de testemunho entre as igrejas. Paulo ouviu a respeito (Ef 1.15). Ele era grato a Deus por isso. O último contato de Paulo com a igreja de Éfeso havia uns 5 anos. Muitas pessoas novas chegaram à igreja. Os falsos ensinamentos também se disseminavam aqui e ali. Saber que aqueles irmãos perseveram íntegros em sua fé e amor era uma grata notícia.

Mesmo preso, ele tem ouvido a respeito de tão viva fé depositada no Senhor Jesus como também o amor para com todos os santos.

Aqui, aprendemos de início algo a respeito da vida cristã. Como é bom divulgar as boas notícias, aprender com os nossos irmãos e compartilhar a respeito. As pessoas ficaram bem impressionadas com o testemunho dos efésios e falavam a respeito.

Paulo ouviu e agiu. O que ouvimos? Como ouvimos? O que fazemos quando ouvimos? O que ouvimos por um ouvido pode simplesmente sair por outro, conforme se diz popularmente, sem processar o que ouvimos? A Escritura nos fala sobre a importância de saber ouvir. Analisemos isso começando pelo próprio Deus.

1. Deus, o Ouvinte interessado

Em 336 a.C., Ctesifonte, cidadão ateniense, propôs, possivelmente de forma ilegal, que o povo de Atenas concedesse uma coroa de ouro ao orador Demóstenes pelos seus serviços prestados à pátria no período crítico da imposição macedônia. Ésquines, no entanto, partidário de outro grupo político, é contrário a tal premiação, argumentando de forma contundente. O processo se arrastou por seis anos. O debate público seria inevitável. Após o discurso de Ésquines, Demóstenes (c. 384-322 a.C.) apresentou a sua defesa, reconhecendo a dificuldade, visto falar em causa própria. Assim, temos a origem da obra A Oração da Coroa. Já no segundo parágrafo de seu discurso, o hábil orador deseja ter dos seus ouvintes, “ouvidos benignos” para com a sua fala (Demóstenes, A Oração da Coroa, Rio de Janeiro: Edições de Ouro, (s.d.), p. 19).

Ele foi coroado. Obter ouvidos benignos nem sempre é uma tarefa fácil e simples. Em certa ocasião fui surpreendido por um taxista que durante um percurso de meia hora falou-me com entusiasmo de determinado personagem de sua cidade no Piauí que foi muito marcante em sua formação. Confesso que o narrador era bastante eloquente. O personagem descrito me causou uma sincera admiração pelos seus princípios éticos. No entanto, o mais surpreendente estava por vir. Ao final da corrida, como era uma conta com centavos, pedi que arredondasse para cima. Ele gentilmente, além de não fazer isso, deu-me o equivalente a um desconto de quase 10%, me agradecendo alegremente por eu, sendo professor (dedução dele por ter embarcado em seu carro em uma das ruas de frente do Instituto Presbiteriano Mackenzie e estar de terno) tê-lo ouvido. Confesso que o fiz com alegria e aprendizado.1

O apóstolo Paulo, antes de ser um escritor profícuo, era um ouvinte interessado. Como sabemos, saber ouvir é mais do que simplesmente ficar calado. Paulo sabia ouvir, analisar o que ouviu e agir. Sabemos que, por vezes, é muito difícil ouvir àqueles que aparentemente, em parte pelo nosso preconceito, nada nos tem a acrescentar. Em Eclesiastes lemos esta constatação: “Melhor é a sabedoria do que a força, ainda que a sabedoria do pobre é desprezada, e as suas palavras não são ouvidas” (Ec 9.16). Por sua vez, continua Salomão: “As palavras dos sábios, ouvidas em silêncio, valem mais do que os gritos de quem governa entre tolos” (Ec 9.17).

Dentro de outra perspectiva, notamos biblicamente que os salmistas, entre tantos outros servos de Deus, em suas angústias, diversas vezes se alimentavam na certeza de que Deus ouve as suas orações.

Dentro de outra perspectiva, notamos biblicamente que os salmistas, entre tantos outros servos de Deus, em suas angústias, diversas vezes se alimentavam na certeza de que Deus ouve as suas orações. “Tens ouvido ([m;v’) (shama),2 SENHOR, o desejo dos humildes; tu lhes fortalecerás o coração e lhes acudirás” (Sl 10.17), expressa o salmista de modo confiante a sua fé.

Ainda que sejamos tentados em nossa precipitação a achar que Ele está distante ou muito ocupado, Deus sempre ouve com atenção as nossas súplicas. É o que demonstra Davi em outro salmo: “Eu disse na minha pressa: estou excluído da tua presença. Não obstante, ouviste ([m;v’) (shama) a minha súplice voz, quando clamei por teu socorro. (Sl 31.22).

Novamente: “8Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade, porque o SENHOR ouviu a voz do meu lamento; 9 o SENHOR ouviu a minha súplica; o SENHOR acolhe a minha oração” (Sl 6.8-9). Diferentemente dos ídolos (Sl 115.6; 135.17), Deus ouve a nossa oração. A palavra hebraica quando se refere a Deus como aquele que ouve, tem o sentido de ouvir e responder.

Deus nos ouve até mesmo quando estamos sofrendo devido à nossa desobediência. Ele é misericordioso. Certamente uma das narrativas mais marcantes sobre este assunto é a do profeta Jonas desesperado no ventre do peixe: “Então, Jonas, do ventre do peixe, orou ao SENHOR, seu Deus,2 e disse: Na minha angústia, clamei ao SENHOR, e ele me respondeu; do ventre do abismo, gritei, e tu me ouviste a voz” (Jn 2.1-2).

Devemos aprender a confiar em Deus, expor-lhe em oração as nossas angústias (Sl 18.6) e aguardar com fé a sua resposta: “De manhã, SENHOR, ouves a minha voz; de manhã te apresento a minha oração e fico esperando” (Sl 5.3). Ele entende as nossas necessidades e nos responde em Sua misericórdia (Sl 4.1,3; 22.24; 27.7; 28.2,6; 34.6,17; 39.12; 40.1; 54.2; 55.17; 61.1; 116.1; 119.149; 130.2 143.1; 145.19). Não tenhamos a pretensão de estabelecer para Deus o caminho da justiça. Exponhamos a Deus as nossas carências e aguardemos a sua resposta. Deus nos ouve. Ele jamais está “atarefado” demais que não nos possa ouvir. Amparados nesta certeza, exercitemos este privilégio com intensidade e, descansemos em Deus. Ele nos responderá. Talvez, em muitos casos, já em nossa história presente, terá até mesmo nos respondido (Is 65.24).

Deus nos deu a sua Palavra e também, nos concedeu seus ouvidos para que possamos falar com Ele. Como Pai, nos escuta atentamente quando nos dirigimos a Ele com fé e, até mesmo, por vezes, em nossos desatinos e confusões espirituais.

2. Paulo: saber ouvir e agir

Entre tantas outras virtudes, algo admirável em Salomão é a sua capacidade de ouvir. O mesmo rei que ouviu com atenção as inquietantes perguntas da rica rainha de Sabá, apresentando respostas que a deixaram “sem ar” (1Rs 10.1-7), ouviu também aquelas duas prostitutas que tinham uma questão certamente mais grave: a vida ou morte de um filho (1Rs 3.16-28). A sabedoria que Deus lhe concedeu foi socializada nas questões cotidianas (1Rs 10.4-8) e excepcionais de seu reinado

Em muitas ocasiões em que o apóstolo Paulo ouviu algo a respeito de seus irmãos, ele estava preso, aparentemente pouco ou nada podendo fazer. Tinha os seus próprios, intensos e graves problemas que envolviam enfermidades e mesmo a sua condenação iminente, que poderia significar a morte. Como é difícil nos sentir, como se diz, “com as mãos atadas”, sem capacidade de agir eficazmente na solução do problema e, mesmo assim, manter sincero interesse pelos problemas alheios. Talvez, muitos de nós já tenhamos nos sentido assim: grave enfermidade de um ente querido; total falta de recursos, distância geográfica, impedimentos dos mais variados.

No caso do apóstolo, percebemos que muito de suas cartas tem a ver com o que ouviu, avaliou, interpretou e, sob a direção do Espírito, orou e escreveu. No próximo post ilustraremos com alguns exemplos.

 

 

 

São Paulo, 28 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


1Não pense que esta prática seja rotineira. Certa ocasião, um tanto constrangido, ao embarcar no taxi no ponto oficial do aeroporto, não tendo opção (passava das 20 horas de sábado; poucos voos saem esta hora, logo, é difícil ter um taxi desembarcando passageiro), me desculpei com o taxista por minha corrida ser curta. Ele, curto e grosso demonstrou verbalmente que eu deveria apenas dizer o local para onde deveria me conduzir e pronto… Também não me foi oferecido nenhum desconto.

2 A palavra quando se refere a Deus como aquele que ouve, tem o sentido de ouvir e responder.