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A Objetividade na oração (Mt 6.6-8) (1)

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Imagem: Eran Menashri (Unplash)

 

Jesus nos ensina a não usarmos em nossas orações “vãs repetições” (ARA; ACR; BJ) ou “palavras vãs” (ARC). A expressão usada por Cristo (Battaloge/w “battalogeõ”), que só ocorre aqui, parece ser onomatopeica, significando “falar sem sentido”, “balbuciar”, “repetir palavras ou sons inarticulados”, “falar sem pensar”, “falar futilmente”, “gaguejar”, “dizer sempre a mesma coisa”, “tagarelar”, “uma repetição supérflua e exagerada”, “repetir uma fórmula muitas vezes”[1] etc. Tyndale traduz: “Tagareleis demais”; Knox: “Useis muitas frases”; Velha Versão Siríaca: “Não digais coisas ociosas”.[2]

 

John Stott (1921-2011), comentando o sentido do verbo, diz: “A maioria a considera como uma expressão onomatopeica, o som da palavra indicando o seu significado. Assim, batarizõ significa gaguejar; e qualquer estrangeiro cuja língua parecesse aos ouvidos gregos como uma interminável repetição da sílaba ‘bar’ era chamado de barbaros, um bárbaro”.[3]

 

Broadus (1827-1895) acrescenta: “É possível que como um gago repete muitas vezes a mesma palavra, a palavra grega viesse a ser usada para exprimir as vãs repetições, em geral”.[4]

 

A referência de Jesus é direta e intencional aos gentios, ainda que não exclusivamente: “E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios” (Mt 6.7). Os pagãos criam que as repetições contribuíam para pressionar os seus deuses a conceder-lhes favores. Ao que parece, era esta crença que estimulou os profetas de baal a permanecerem durante horas orando ao seu deus sem serem respondidos (1Rs 18.25-29). Do mesmo modo, os efésios indignados com a pregação cristã, gritaram por quase duas horas: “Grande é a Diana dos efésios!” (At 19.34). De modo semelhante procedem os católicos romanos com suas repetições do “Pai Nosso” e “ave-maria”[5] e a “roleta de orações dos budistas tibetanos”.[6]

 

Havia também entre os gentios o costume de usar de repetições intermináveis com o objetivo de informarem aos seus deuses da sua situação, “atualizarem” o seu deus.

 

Este era o quadro religioso entre os pagãos, inclusive durante os dias de Jesus Cristo. Que tipo de “Deus” era este em que os povos criam, que precisava ser informado ou que ficava hesitante, precisando ser convencido a agir pela insistência dos homens?!

 

No entanto, a alusão aos gentios não se configura como exclusiva. Sabemos que entre os judeus, alguns escribas gostavam de fazer orações longas para poder se engrandecer e esconder a sua impiedade. Jesus Cristo nos advertiu quanto a isso, dizendo:

 

“Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes talares e das saudações nas praças; e das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos primeiros lugares nos banquetes; os quais devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem longas orações; estes sofrerão juízo muito mais severo” (Mc 12.38-40).

 

Agostinho (354-430) observa que

 

Toda essa abundância de palavras vem dos gentios, que se preocupam mais em exercitar sua língua do que purificar o coração. Esforçam-se eles em aplicar também esse linguajar frívolo na oração para tentar dobrar a Deus. Julgam que alguém pode incliná-lo com o fluxo de palavras.[7]

 

Mas, afinal, a questão toda está na quantidade de palavras? Veremos isso amanhã.

 

 

Maringá, 08 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] John Calvin, Commentary on a Harmony of the Evangelists, Matthew, Mark, and Luke, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries, v. 16/1), 1981, p. 313.

[2] Esta palavra é constituída de (Ba/ttoj = “gago” & loge/w = “falar”). Ela é de derivação incerta. Talvez possa ser derivada do aramaico “battal” (“vão”, “inútil”). Erasmo (1467-1536), por exemplo, entendia que esta expressão era proveniente de “Bato”, personagem descrito por Heródoto: “Chegando a Teras, Polineto, homem de alta posição, tomou a jovem como concubina, e o casal teve, no fim de certo tempo, um filho que gaguejava e sibilava. Essa criança, segundo os Tereus e Cireneus, recebeu o nome de Bato” (Heródoto, História, Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.], IV.155. Veja-se: Ba/ttoj: In: A Lexicon Abridged from Liddell and Scott’s Greek-English Lexicon, London, Clarendon Press, 1935, p. 128b). No entanto, Heródoto, que discorda desta explicação para o nome do menino, diz que “batus significa rei na língua dos Líbios” (Heródoto, História, IV.155). Também especula-se que esta expressão viria por derivação de um poeta medíocre, Battus, que teria feito hinos extensos, cheios de repetições (Veja-se: A.B. Bruce, The Gospel According to Matthew: In: W. Robertson Nicoll, ed. The Expositor’s Greek Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 1, p. 118-119; John R.W. Stott, A Mensagem do Sermão da Montanha, 3. ed. São Paulo: ABU., 1985, p. 146). O fato é que ninguém consegue precisar a origem da palavra. (Para maiores detalhes, vejam-se: G. Delling, Battaloge/w, In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, v. 1, p. 597; Battologe/w: In: James Hope Moulton; George Mulligan, The Vocabulary of the Greek New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (reprinted), p. 107; H. Balz, Battaloge/w, In: Horst Balz; Gerhard Schneider, eds. Exegetical Dictionary of New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1978-1980, v.1, p. 209; Battaloge/w: In: Walter Bauer, A GreekEnglish Lexicon of the New Testament, 5. ed. Chicago: The Chicago Press, 1958, p. 137).

[3] J.R.W. Stott, A Mensagem do Sermão da Montanha, p. 146. Neste caso, a palavra não teria nenhuma derivação explícita, equivalendo apenas a uma imitação repetitiva de sons sem qualquer sentido (Veja-se: Alford’s Greek Testament, 7. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker, 1874, (Reprinted: 1980), v. 1, p. 58).

[4] John A. Broadus, Comentário do Evangelho de Mateus, 3. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1966, v. 1, p. 199.

[5] Marvin R. Vincent, Word Studies in the New Testament, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, (s.d), v. 1, (Mt 6.7), p. 43.

[6] William Hendriksen, Mateus, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, v. 1, (Mt 6.8), p. 455.

[7] Agostinho, O Sermão da montanha, São Paulo: Paulinas, 1992, II.3.12, p. 113.

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