A Objetividade na oração (Mt 6.6-8) (2)

Crédito: Patrick Fore (Unsplash)

Biblicamente aprendemos que “a finalidade da oração é expressar a Deus nosso reconhecimento de que Ele sabe o que temos necessidade”.[1] Não precisamos ficar com repetições gaguejantes e intermináveis porque Deus sabe do que necessitamos. A Bíblia, mesmo sem exclusivisar como corretas as orações breves, nos apresenta uma série de exemplos de orações que se expressam em poucas palavras (Vejam-se: Ex 32.31-32; 1Rs 3.6-9; 18.36-37; 2Rs 19.14-19; 1Cr 4.10; Pv 30.7-9; Mt 23.14; Lc 5.8; 18.13; 23.42; At 7.60; Ef 3.14-19).

 

Calvino (1509-1564) é cirúrgico:

 

Ele não proíbe a persistência nas orações, nem que elas sejam feitas demoradamente, nem com frequência nem com veemente fervor, mas nos ensina a não confiar em que se pode constranger Deus a atender às nossas petições pela nossa importunação com vã loquacidade, como se fosse possível dobrá-lo pelo muito falar, como se dá entre os homens.[2]

 

É lógico que as nossas orações não devem ser avaliadas por sua “extensão”. Se as “longas” orações não são sinônimo de piedade; do mesmo modo, a sua “brevidade” não indica necessariamente a nossa fé. O que realmente importa aqui é que as nossas orações sejam feitas ao Pai, com sinceridade, com objetividade, tendo como elemento norteador as promessas de Deus.

 

Calvino assim se expressou:

 

Os crentes não oram com a intenção de informar a Deus a respeito das coisas que Ele desconheça, ou para incitá-lo a cumprir o Seu dever, ou para apressá-Lo, como se Ele fosse relutante. Pelo contrário, eles oram para que assim possam despertar-se e buscá-Lo, e assim exercitem sua fé na meditação das Suas promessas, e aliviem suas ansiedades, deixando-as nas mãos dele; numa palavra, oram com o fim de declarar que sua esperança e expectativa das coisas boas, para eles mesmos e para os outros, está só nele.[3]

 

A Palavra de Deus é o manual de nossas orações: “Toda a Palavra de Deus é útil para nos dirigir em oração”.[4] Devemos ser guiados não pelos nossos pensamentos ou por aquilo que julgamos que Deus deveria nos conceder, mas sim, por tudo aquilo que Deus nos promete. “As promessas de Deus contêm a matéria da oração e definem as suas dimensões. Aquilo que Deus tem prometido, tudo quanto Ele tem prometido, e nada mais, sobre isso podemos orar”, instrui-nos Pink (1886-1952).[5]

 

A oração é um atestado da consciência de nossa fragilidade acompanhada da certeza do poder de Deus. “Orar não é tanto um ato, mas uma atitude – atitude de dependência de Deus. Orar é fazer confissão de nossa fraqueza, como criaturas que somos, de nossa total incapacidade. Orar é reconhecer nossa necessidade e expô-la”.[6]

 

Um outro aspecto é que a nossa oratória, constituída de grandes recursos linguísticos e frases bem montadas, nada tem a ver com a oração.

 

Comentando o Salmo 17, Calvino (1509-1564) acentua:

 

Quando nos apresentarmos diante de Deus em oração, não devemos fazer isso com os ornamentos e os artifícios da eloquência, pois a retórica mais excelente e a graça mais atraente que porventura possuamos diante dele consistem na mais pura simplicidade.[7]

 

Portanto, a oração objetiva não tem a ver necessariamente com o número de palavras, mas, com a integridade de nosso coração que, moldado e alinhado pela Palavra, se dirige a Deus conscientes de nossa total dependência dele.

 

Sem dúvida, todos nós precisamos aprender a orar com o Senhor.

 

Maringá, 08 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] A.W. Pink, Deus é Soberano, São Paulo: FIEL., 1977, p. 128.

[2] João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 111.

[3] John Calvin, Commentary on a Harmony of the Evangelists, Matthew, Mark, and Luke, Grand Rapids, Michigan: Baker, (Calvin’s Commentaries, v. 16/1), 1981, p. 314.

[4] Catecismo Menor de Westminster, Perg. 99.

[5] A.W. Pink, Enriquecendo-se com a Bíblia, São Paulo: FIEL. 1979, p. 47.

[6] A.W. Pink, Deus é Soberano, Atibaia, SP.: FIEL, 1977, p. 134.

[7] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 17.1), p. 327-328.

A Objetividade na oração (Mt 6.6-8) (1)

palavras
Imagem: Eran Menashri (Unplash)

 

Jesus nos ensina a não usarmos em nossas orações “vãs repetições” (ARA; ACR; BJ) ou “palavras vãs” (ARC). A expressão usada por Cristo (Battaloge/w “battalogeõ”), que só ocorre aqui, parece ser onomatopeica, significando “falar sem sentido”, “balbuciar”, “repetir palavras ou sons inarticulados”, “falar sem pensar”, “falar futilmente”, “gaguejar”, “dizer sempre a mesma coisa”, “tagarelar”, “uma repetição supérflua e exagerada”, “repetir uma fórmula muitas vezes”[1] etc. Tyndale traduz: “Tagareleis demais”; Knox: “Useis muitas frases”; Velha Versão Siríaca: “Não digais coisas ociosas”.[2]

 

John Stott (1921-2011), comentando o sentido do verbo, diz: “A maioria a considera como uma expressão onomatopeica, o som da palavra indicando o seu significado. Assim, batarizõ significa gaguejar; e qualquer estrangeiro cuja língua parecesse aos ouvidos gregos como uma interminável repetição da sílaba ‘bar’ era chamado de barbaros, um bárbaro”.[3]

 

Broadus (1827-1895) acrescenta: “É possível que como um gago repete muitas vezes a mesma palavra, a palavra grega viesse a ser usada para exprimir as vãs repetições, em geral”.[4]

 

A referência de Jesus é direta e intencional aos gentios, ainda que não exclusivamente: “E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios” (Mt 6.7). Os pagãos criam que as repetições contribuíam para pressionar os seus deuses a conceder-lhes favores. Ao que parece, era esta crença que estimulou os profetas de baal a permanecerem durante horas orando ao seu deus sem serem respondidos (1Rs 18.25-29). Do mesmo modo, os efésios indignados com a pregação cristã, gritaram por quase duas horas: “Grande é a Diana dos efésios!” (At 19.34). De modo semelhante procedem os católicos romanos com suas repetições do “Pai Nosso” e “ave-maria”[5] e a “roleta de orações dos budistas tibetanos”.[6]

 

Havia também entre os gentios o costume de usar de repetições intermináveis com o objetivo de informarem aos seus deuses da sua situação, “atualizarem” o seu deus.

 

Este era o quadro religioso entre os pagãos, inclusive durante os dias de Jesus Cristo. Que tipo de “Deus” era este em que os povos criam, que precisava ser informado ou que ficava hesitante, precisando ser convencido a agir pela insistência dos homens?!

 

No entanto, a alusão aos gentios não se configura como exclusiva. Sabemos que entre os judeus, alguns escribas gostavam de fazer orações longas para poder se engrandecer e esconder a sua impiedade. Jesus Cristo nos advertiu quanto a isso, dizendo:

 

“Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes talares e das saudações nas praças; e das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos primeiros lugares nos banquetes; os quais devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem longas orações; estes sofrerão juízo muito mais severo” (Mc 12.38-40).

 

Agostinho (354-430) observa que

 

Toda essa abundância de palavras vem dos gentios, que se preocupam mais em exercitar sua língua do que purificar o coração. Esforçam-se eles em aplicar também esse linguajar frívolo na oração para tentar dobrar a Deus. Julgam que alguém pode incliná-lo com o fluxo de palavras.[7]

 

Mas, afinal, a questão toda está na quantidade de palavras? Veremos isso amanhã.

 

 

Maringá, 08 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] John Calvin, Commentary on a Harmony of the Evangelists, Matthew, Mark, and Luke, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries, v. 16/1), 1981, p. 313.

[2] Esta palavra é constituída de (Ba/ttoj = “gago” & loge/w = “falar”). Ela é de derivação incerta. Talvez possa ser derivada do aramaico “battal” (“vão”, “inútil”). Erasmo (1467-1536), por exemplo, entendia que esta expressão era proveniente de “Bato”, personagem descrito por Heródoto: “Chegando a Teras, Polineto, homem de alta posição, tomou a jovem como concubina, e o casal teve, no fim de certo tempo, um filho que gaguejava e sibilava. Essa criança, segundo os Tereus e Cireneus, recebeu o nome de Bato” (Heródoto, História, Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.], IV.155. Veja-se: Ba/ttoj: In: A Lexicon Abridged from Liddell and Scott’s Greek-English Lexicon, London, Clarendon Press, 1935, p. 128b). No entanto, Heródoto, que discorda desta explicação para o nome do menino, diz que “batus significa rei na língua dos Líbios” (Heródoto, História, IV.155). Também especula-se que esta expressão viria por derivação de um poeta medíocre, Battus, que teria feito hinos extensos, cheios de repetições (Veja-se: A.B. Bruce, The Gospel According to Matthew: In: W. Robertson Nicoll, ed. The Expositor’s Greek Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 1, p. 118-119; John R.W. Stott, A Mensagem do Sermão da Montanha, 3. ed. São Paulo: ABU., 1985, p. 146). O fato é que ninguém consegue precisar a origem da palavra. (Para maiores detalhes, vejam-se: G. Delling, Battaloge/w, In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, v. 1, p. 597; Battologe/w: In: James Hope Moulton; George Mulligan, The Vocabulary of the Greek New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (reprinted), p. 107; H. Balz, Battaloge/w, In: Horst Balz; Gerhard Schneider, eds. Exegetical Dictionary of New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1978-1980, v.1, p. 209; Battaloge/w: In: Walter Bauer, A GreekEnglish Lexicon of the New Testament, 5. ed. Chicago: The Chicago Press, 1958, p. 137).

[3] J.R.W. Stott, A Mensagem do Sermão da Montanha, p. 146. Neste caso, a palavra não teria nenhuma derivação explícita, equivalendo apenas a uma imitação repetitiva de sons sem qualquer sentido (Veja-se: Alford’s Greek Testament, 7. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker, 1874, (Reprinted: 1980), v. 1, p. 58).

[4] John A. Broadus, Comentário do Evangelho de Mateus, 3. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1966, v. 1, p. 199.

[5] Marvin R. Vincent, Word Studies in the New Testament, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, (s.d), v. 1, (Mt 6.7), p. 43.

[6] William Hendriksen, Mateus, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, v. 1, (Mt 6.8), p. 455.

[7] Agostinho, O Sermão da montanha, São Paulo: Paulinas, 1992, II.3.12, p. 113.

A quem oramos? (Mt 6.6,9) (3)

Este artigo faz parte de uma série. Confira os demais textos:

A quem oramos? (Mt 6.6,9) (1)

A quem oramos? (Mt 6.6,9) (2)

 


Assim como abordamos no texto anterior, precisamos “que o mesmo Deus nos ensine, conforme ao que Ele sabe que convém, e que Ele nos leve guiando como que pela mão, e que nós o sigamos”.[1] Orar como convém é orar segundo a vontade de Deus, colocando os nossos desejos em harmonia com o santo propósito de Deus;[2] isto só é possível pelo Espírito de Deus que Se conhece perfeitamente (1Co 2.10-12).[3] Assim, toda oração genuína é sob a orientação e direção do Espírito (Ef 6.18; Jd 20). O Catecismo Maior de Westminster diz: “Não sabendo nós o que havemos de pedir, como convém, o Espírito nos assiste em nossa fraqueza, habilitando-nos a saber por quem, pelo quê, e como devemos orar; operando e despertando em nossos corações (embora não em todas as pessoas, nem em todos os tempos, na mesma medida) aquelas apreensões, afetos e graças que são necessários para o bom cumprimento do dever”.[4]

 

O Espírito ora conosco e por nós; Ele, juntamente com Cristo, em esferas diferentes, intercede por nós: “Cristo intercede por nós no céu, e o Espírito Santo na terra. Cristo nosso Santo Cabeça, estando ausente de nós, intercede fora de nós; o Espírito Santo nosso Consolador intercede em nosso próprio coração quando Ele o santifica como Seu templo”, contrasta Kuyper (1837-1920).[5]

 

A intercessão de Cristo respalda-se nos Seus merecimentos, obtendo para os Seus eleitos, os frutos da Sua Obra expiatória (Rm 8.34; Hb 7.25; 1Jo 2.1).[6] O Espírito intercede por nós considerando as nossas necessidades vitais e costumeiramente imperceptíveis aos nossos próprios olhos.

 

Calvino (1509-1564) observou que na oração, “a língua nem sempre é necessária, mas a oração verdadeira não pode carecer de inteligência e de afeto de ânimo”,[7] a saber: “O primeiro, que sintamos nossa pobreza e miséria, e que este sentimento gere dor e angústia em nossos ânimos. O segundo, que estejamos inflamados com um veemente e verdadeiro desejo de alcançar misericórdia de Deus, e que este desejo acenda em nós o ardor de orar.”[8]

 

Spener (1635-1705), falando sobre a oração, segue uma linha semelhante: “Não é suficiente que se ore exteriormente, com a boca, pois a oração verdadeira e mais necessária acontece no nosso ser interior, podendo expressar-se em palavras ou permanecer na alma, mas, de qualquer maneira, lá acha e encontra Deus”.[9]

 

O Espírito, que procede do Pai e do Filho, é Quem nos guia em nossas orações, fazendo-nos orar corretamente ao Pai. De fato, Deus propiciou para nós todos os elementos fundamentais para a nossa santificação (2Pe 1.3); a ação do Espírito aponta nesta direção, indicando também, que as nossas orações são “imperfeitas, imaturas, e insuficientes”, por isso Ele nos auxilia, nos ensinando a orar como convém.

 

Paulo fala que nós, os crentes em Cristo, recebemos o Espírito de ousada confiança em Deus, que nos leva, na certeza de nossa filiação divina, a clamar ”Aba, Pai”. ”Porque não recebestes o espírito de escravidão para viverdes outra vez atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15). O fato de Paulo usar a mesma expressão de Cristo para nós “significa que, quando Jesus deu a Oração Dominical aos Seus discípulos, também lhes deu autoridade para segui-Lo em se dirigirem a Deus como ‘abbã’, dando-lhes, assim, uma participação na Sua condição de Filho”.[10] Somente pelo Espírito poderemos nos dirigir a Deus desta forma, como uma criança que se lança sem reservas nos braços do seu Pai Amoroso.

 

Quando oramos sabemos que estamos falando com o nosso Pai. Desta forma, a oração é uma prerrogativa dos que estão em Cristo. Somente os que estão em Cristo pela fé, têm a Deus como o seu legítimo Pai (Jo 1.12; Rm 8.14-17; Gl. 4.6; 1Jo 3.1-2). De onde se segue que esta oração (Pai Nosso), apesar de não mencionar explicitamente o nome de Cristo, é feita no Seu nome, visto que somos filhos de Deus – e é nesta condição que nos dirigimos a Deus –, através de Cristo Jesus (Gl 3.26).[11] Portanto, quando oramos o Pai Nosso sinceramente, na realidade estamos orando no nome de Jesus Cristo pois, foi Ele mesmo quem nos ensinou a fazê-lo. Assim, devemos, pelo Espírito – nosso intercessor –, no nome de Jesus – nosso Mediador –, orar: “Pai nosso que estás no céu….”.

 

O Espírito que em nós habita e nos leva à oração testemunha em nós que somos filhos de Deus. “O próprio Espírito testifica (summarture/w) com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16); O Pai Nosso é a “Oração dos Filhos”.[12]

 

Orar ao Pai não significa simplesmente usar o Seu nome, mas, sim, dirigir-nos de fato a Ele conforme os Seus preceitos, em submissão à Sua vontade. Uma oração francamente oposta aos ensinamentos de Jesus não pode ser considerada de fato uma oração dirigida ao Pai, por mais que usemos e repitamos o nome de Jesus.

 

O problema, dentro do contexto vivido por Jesus, é que muitos dos judeus, na realidade, ofereciam as suas orações aos homens, mesmo usando o nome de Deus. Usar o nome de Deus não é garantia de estarmos nos dirigindo a Ele. Do mesmo modo, podemos estar tão preocupados com a forma de nossas orações que nos esquecemos do Pai; é a Ele que a nossa oração é destinada; portanto, cabe a Ele, que vê em secreto, julgá-la. A nossa oração não necessita ter publicidade para que Deus a ouça; Ele vê em secreto e nos recompensa conforme o que vê (Mt 6.6).

 

No Antigo Testamento, por intermédio de Isaías, Deus recrimina os judeus dizendo que eles sacrificavam simplesmente porque gostavam de fazê-lo, não porque quisessem agradá-Lo. O ritual é que era prazeroso, não a satisfação de Deus: “Como estes escolheram os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações, assim eu lhes escolherei o infortúnio e farei vir sobre eles o que eles temem; porque clamei e ninguém respondeu, falei, e não escutaram; mas fizeram o que era mau perante mim, e escolheram aquilo em que eu não tinha prazer” (Is 66.3-4).

 

Bonhoeffer (1906-1945) faz uma analogia significativa:

 

Uma criança aprende a falar porque seu pai fala com ela. Ela aprende a falar a língua paterna. Assim também nós aprendemos a falar com Deus, porque Deus falou e fala conosco. Pela palavra do Pai no céu seus filhos aprendem a comunicar-se com Ele. Ao repetir as próprias palavras de Deus, começamos a orar a Ele. Não oramos com a linguagem errada e confusa de nosso coração, mas pela palavra clara e pura que Deus falou a nós por meio de Jesus Cristo, devemos falar com Deus, e Ele nos ouvirá.[13]

 

Orar é exercitar a nossa confiança no Deus da Providência, sabendo que nada nos faltará, porque Ele é o nosso Pai. A oração tem sempre uma conotação de submissão confiante. Portanto, orar ao Pai, significa sintonizar a nossa vontade com a dEle; sabendo que Ele é santo e a Sua vontade também o é (Mt 6.9,10).

 

A presença e direção do Espírito na vida do povo de Deus é uma realidade. Desconsiderar este fato significa desprezar o registro bíblico e o testemunho do Espírito em nós (Rm 8.16). “A vida cristã é companheirismo com o Pai e com o Filho, Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo”.[14]

 

O Espírito em nós é uma fonte de consolo e estímulo a perseverança e obediência devida a Deus. Consideremos este fato – à luz da Palavra e da nossa experiência – em todos os nossos caminhos, e o Espírito mesmo nos iluminará.

 

Maringá, 2 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1]J. Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 254.

[2]“A oração não é um recurso conveniente para impormos a nossa vontade a Deus, ou para dobrar a Sua vontade à nossa, mas, sim, o meio prescrito de subordinar a nossa vontade à de Deus. É pela oração que buscamos a vontade de Deus, abraçamo-la e nos alinhamos com ela. Toda oração verdadeira é uma variação do tema, ‘Faça-se a tua vontade’.” (John R.W. Stott, I,II e III João, Introdução e Comentário, São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1982, p. 159).

[3]Leenhardt, comenta: “Para orar ‘como convém’ é preciso orar ‘segundo a vontade de Deus’; isto, entretanto, não pode advir senão de Deus, Que só Se conhece. O mais é ação estéril.” (Franz J. Leenhardt, Epístola aos Romanos, São Paulo: ASTE., 1969, p. 226).

[4] Catecismo Maior de Westminster, Perg. 182.

[5] Abraham Kuyper, The Work of the Holy Spirit, Chaattanooga: AMG. Publishers, 1995, p. 670.

[6] “Não temos como medir esta intercessão pelo nosso critério carnal, pois não podemos pensar do Intercessor como humilde suplicante diante do Pai, com os joelhos genuflexos e com as mãos estendidas. Cristo contudo, com razão intercede por nós, visto que comparece continuamente diante do Pai, como morto e ressurreto, que assume a posição de eterno intercessor, defendendo-nos com eficácia e vívida oração para reconciliar-nos com o Pai e levá-lo a ouvir-nos com prontidão” (J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.34), p. 304).

[7]J. Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 240.

[8]J. Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 243.

[9]Ph. J. Spener, Mudança para o Futuro: Pia Desideria, São Paulo; Curitiba. PR.: Encontrão Editora/Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, São Bernardo do Campo, SP.: 1996, p. 119.

[10] O. Hofius, Pai: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 383.

[11] Veja-se: Calvino, As Institutas, III.20.36.

[12] Conforme expressão de Lloyd-Jones (1899-1981) (D.M. Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, São Paulo: FIEL., 1984, p. 358). Veja-se: a relação feita por Calvino entre a oração e a convicção de nossa filiação divina (João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.16), p. 279-280).

[13] Dietrich Bonhoeffer, Orando com os Salmos, Curitiba, PR.: Encontrão Editora, 1995, p. 12-13.

[14]D.M. Lloyd-Jones, Salvos desde a Eternidade, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 1), p. 98.

A quem oramos? (Mt 6.6,9) (2)

Este artigo faz parte de uma série. Confira os demais textos:

A quem oramos? (Mt 6.6,9) (1)

 


 

O que nos enche de alegria e mostra a nossa relação íntima com Deus é o fato de em Cristo, pelo Espírito, podermos nos dirigir ao Pai, como filhos adotivos de Deus, usando da mesma expressão empregada por Cristo.

 

Agostinho (354-430), comentando o Salmo 102.2 – quando o salmista diz: “… inclina-me os teus ouvidos; no dia em que eu clamar; dá-te pressa em acudir-me” –, faz uma paráfrase: “Escuta-me prontamente, pois peço aquilo que queres dar. Não peço como um homem terreno bens terrenos, mas já redimido do primeiro cativeiro, desejo o reino dos céus”.[1]

 

Paulo, discorrendo sobre a fraqueza humana, a exemplifica na vida cristã no fato de nem ao menos sabermos orar como convém (Rm 8.26-27). Por isso o Espírito que em nós habita nos auxilia em nossas orações, fazendo-nos pedir o que convém, capacitando-nos a rogar de acordo com a vontade de Deus. A oração eficaz é aquela que tem o Espírito como seu autor. Sem o auxílio do Espírito jamais oraríamos com discernimento.

 

Calvino (1509-1564), analisando o fato de que pedimos tantas coisas erradas a Deus e que, se Ele nos concedesse o que solicitamos, traria muitos males sobre nós, enfatiza: “Não podemos nem sequer abrir a boca diante de Deus sem grande perigo para nós, a não ser que o Espírito Santo nos guie à forma devida de orar”.[2] A oração genuína é sempre precedida do senso de necessidade e de uma fé autêntica nas promessas de Deus.[3]

 

Graças a Deus porque todos nós, em Cristo, temos o Espírito de oração (Zc 12.10), porque sem Ele jamais poderíamos orar de modo aceitável ao Pai. “A própria oração é uma forma de adoração”.[4]

 

Por outro lado, o auxílio do Espírito não deve servir de pretexto para a nossa indolência e irresponsabilidade espiritual. Interpreta Calvino:

 

Aqui não se diz que, lançando o ofício da oração sobre o Espírito de Deus, podemos adormecer negligentes ou displicentes, como alguns se acostumaram a blasfemar, dizendo: Devemos ficar à espera, sem nenhuma preocupação, até que o Espírito chame a atenção da nossa mente, até então ocupada e distraída com outras coisas. Muito ao contrário, aqui somos induzidos a desejar e a implorar tal auxílio, com aversão e desgosto por nossa preguiça e displicência.[5]

 

Em outro lugar, exorta-nos: “Quando nos sentirmos frios, e indispostos para orar, supliquemos logo ao Senhor que nos inflame com o fogo de seu Espírito, pelo qual sejamos dispostos e suficientes para orar como convém”.[6]

 

Muitas vezes estamos tão confusos diante das opções que temos, que não sabemos nem mesmo como apresentar os nossos desejos e as nossas dúvidas diante de Deus. Todavia o Espírito nos socorre. Ele “ora a nosso favor quando nós mesmos deveríamos ter orado, porém não sabíamos para que orar”.[7]

 

Comentando o Salmo 91.12, Calvino nos adverte: “Nunca podemos aquilatar os sérios obstáculos que Satanás poria contra nossas orações não nos sustentasse Deus da maneira aqui descrita”.[8]

 

Ele ilustra a sua tese:

 

Chamo tentação espiritual quando não somente somos açoitados e afligidos em nossos corpos; senão quando o diabo opera de tal modo em nossos pensamentos que Deus se nos converte em inimigo mortal, ao que já não podemos ter acesso, convencidos de que nunca mais terá misericórdia de nós.[9]

 

 

Maringá, 02 de janeiro de 2019.

Rev, Hermisten Maia Pereira da Costa

 

Leia também: A quem oramos? (Mt 6.6,9) (1)

 


 

[1] Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulus, (Patrística, 9/3), 1998, v. 3, p. 12.

[2]J. Calvino, Institución, III.20.34. Comentando o texto de Romanos 8.26, Calvino diz: “O Espírito, portanto, é Quem deve prescrever a forma de nossas orações” (João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 8.26), p. 291). Ver também, J. Calvino, O Catecismo de Genebra, Perg. 254.

[3] Veja-se: João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, p. 34.

[4] R.C. Sproul, O Ministério do Espírito Santo, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 187.

[5]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 95.

[6]J. Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 245.

[7] Edwin H. Palmer, El Espiritu Santo, , Edinburgh: El Estandarte de la Verdad, (s.d.), Edição Revista, p. 190.

[8] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 2002, v. 3, (Sl 91.12), p. 454.

[9]Juan Calvino, El Carácter de Job, Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 1), p. 28.

A quem oramos? (Mt 6.6,9) (1)

A Palavra de Deus nos ensina que a nossa oração deve ser dirigida ao Pai. Em nossas orações devemos aprender logo de início que estamos falando com o nosso Pai; o nosso Deus é Pai, de quem podemos nos aproximar com confiante amor, certos de que Ele está atento ao nosso clamor. “O Pai está sempre à disposição de seus filhos e nunca está preocupado demais que não possa ouvir o que eles têm a dizer. Esta é a base da oração cristã”. (J.I. Packer, O Conhecimento de Deus, São Paulo: Mundo Cristão, 1980, p. 194).

O conhecimento que temos do Deus Pai é-nos revelado por Cristo; por sua graça O conhecemos. Jesus declara: Ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27). Falamos com o Pai – não com um estranho” –, a Quem conhecemos pela graça.

Aqui há algo extremamente relevante que devemos mencionar. A paternidade de Deus sobre Israel é claramente reconhecida pelo povo do Antigo Testamento (Dt 32.6; Sl 103.13-14; Jr 31.9,20; Ml 2.10); a ideia está sempre presente nas páginas do Antigo Testamento. Apesar deste substantivo ser usado mais de 1200 vezes ali,1 só ocorre 14 vezes referindo-se a Deus; todavia, nestes casos, é sempre empregado de forma reveladora. (Cf. J. Jeremias, A Mensagem Central do Novo Testamento, 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1979, p. 12ss.) Curiosamente, os sumerianos, cerca de três mil anos antes de Cristo, já se referiam ao seu deus como um pai.2

A paternidade de Deus descrita no Antigo Testamento é exclusiva: Deus é Pai de Israel (Dt 7.6-8; 14.2; Is 63.15,16; 64.8) e esta paternidade encontra o seu fundamento num ato histórico e singular; o êxodo do Egito. J. Jeremias escreve sobre isto:

Associar a paternidade de Deus com um fato histórico implica uma profunda revisão do conceito de Deus como Pai. A certeza de que Deus é Pai e Israel seu filho não se funda no mito, mas em um ato único de salvação realizado por Deus, do qual Israel foi o alvo da história.3

Como já nos referimos, apesar dos judeus não usarem com frequência o título pai para Deus, estavam convictos desta realidade: Deus é pai de Israel. Entretanto, o que mais nos chamou a atenção é o fato de não ser encontrado no judaísmo nenhum exemplo convincente da utilização da expressão “meu pai” para Deus.4 Os judeus podiam dirigir-se a Deus, liturgicamente, como yiba) (‘abhi’) (“Meu Pai”); mas nunca empregavam a forma familiar, )fba) (’abhã’)5 (grego: a)bba=) (abba), que soaria desrespeitoso.

Agostinho (354-430), resume a questão dizendo:

Quem quer que leia a Sagrada Escritura poderá encontrar tais louvores de modo variado e extenso. Entretanto, em parte alguma encontra-se algum preceito ordenando ao povo de Israel que se dirigisse a Deus como Pai e o invocasse como Pai nosso.6

Portanto, o surpreendente para o judeu foi o fato de Jesus referir-se ao Pai de uma forma nunca vista, jamais praticada. Acontece que Jesus, em suas orações, não usava de um artifício para criar impacto ou para presumir, diante de seus ouvintes, ter uma relação inexistente com o Pai. Não. Jesus apenas revelou o fato do Seu relacionamento íntimo e especial com o Pai. Isto Ele fez, usando a expressão aramaica ’abba, que foi tomada por empréstimo do linguajar das crianças, equivalendo mais ou menos ao nosso “papai” ou “paizinho”.7 O Talmud diz que “quando uma criança saboreia o trigo (isto é, quando é desmamada), aprende a dizer ‘abba’ e ‘imma’ (Papai e mamãe)”.8 Com o passar do tempo o uso desta expressão também tornou-se comum entre os jovens e adultos para se referirem aos seus pais.9

Abba era um designativo tão familiar e íntimo que nenhum judeu ousaria usá-lo para Deus. Tal emprego, feito por Jesus, impressionou de tal forma os discípulos, que eles não traduziram a expressão para o grego.

Com exceção da oração de Mt 27.46, que seguiu a forma do Sl 22.1, em todas as suas orações, Jesus dirigiu-se a Deus como Abba.10

Permita-me mais uma vez usar as palavras de J. Jeremias, que pinta este quadro de forma singular:

Jesus dirigia-se a Deus como uma criancinha a seu pai, com a mesma simplicidade íntima, o mesmo abandono confiante (…). Jesus considerava este modo infantil de falar como a expressão do conheci­mento único de Deus que o Pai lhe dava, e de seus plenos poderes de Fi­lho.11

Isto implica em dizer que Jesus tinha plena consciência de ser, de modo único e singular, O Filho de Deus (Mt 11.27; Mc 13.32; 14.36). Quando a Igreja professou a sua fé na filiação divina de Jesus, o fez respaldada pelo próprio testemunho de Jesus, de ser o Filho de Deus. O que para os ouvintes foi uma novidade, a afirmação da Sua filiação divina por ocasião do batismo, para Ele foi apenas o testemunho público daquilo que Ele sempre soubera.

 

Maringá, 02 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


 

1 E. Jenni, Padre: In: Ernst Jenni; C. Westermann, eds. Diccionario Teologico Manual del Antiguo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1978, v. 1, p. 36.

2 Veja-se: J. Jeremias, A Mensagem Central do Novo Testamento, p. 11-12; J. Jeremias, O Pai-Nosso, São Paulo: Paulinas, 1976, p. 33-34. A referência ao seu deus como “Pai”, é um fenômeno comum na história das religiões, quer dos povos mais primitivos quer dos mais evoluídos culturalmente. (Cf. G. Schrenk, pa/thr: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 5, p. 951.

3 J. Jeremias, A Mensagem Central do Novo Testamento, p. 13.

4 J. Jeremias, A Mensagem Central do Novo Testamento, p. 20.

5 Cf. A. Richardson, Introdução à Teologia do Novo Testamento, São Paulo: ASTE., 1966, p. 149ss.

6 Agostinho, O Sermão da Montanha, São Paulo: Paulinas, 1992, II.4. p. 115.

7 “O emprego inteiramente novo, e, para os judeus, nunca imaginado, do termo infantil e familiar ‘abbã’ na oração é uma expressão de confiança e obediência para com o Pai (Mc 14.36), como também de Sua autoridade incomparável (Mt 11.25ss)” (O. Hofius, Pai: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 383).

8 J. Jeremias, O Pai Nosso, p. 36,37; O. Hofius, Pai: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 3, p. 382.

9 Cf. O. Hofius, Pai: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 3, p. 382.

10 J. Jeremias, A Mensagem Central do Novo Testamento, p. 20ss.

11 J. Jeremias, O Pai Nosso, p. 37. Veja-se também, G. Kittel, a)bba=: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, v. 1, p. 6.

“Com que me apresentarei ao Senhor?” (Mq 6.6).

A indagação que intitula esse texto é, certamente, a grande pergunta com a qual todo ser humano se deparará um dia. O homem foi criado para se relacionar com o Seu Criador. Deus ao criar o homem conferiu-lhe uma identidade própria que o distinguiria de toda a criação. Enquanto os outros seres criados (peixes, aves, animais domésticos, animais selváticos etc.) o foram conforme as suas respectivas espécies, o homem, diferentemente, teve o seu modelo no próprio Deus Criador – “Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança….” (Gn 1.26); “e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus….” (Ef 4.24) – sendo distinto, assim, de toda a criação, partilhando com Deus de uma identidade desconhecida por todas as outras criaturas, visto que somente o homem foi criado “à imagem e semelhança de Deus”.

 

Somente o homem pode partilhar de um relacionamento pessoal, voluntário e consciente com Deus. Por isso, quando se trata de encontrar uma companheira para o homem com a qual ele possa se relacionar de forma pessoal – já que não se encontra em todo o resto da criação –, a solução é uma nova criação, tirada da costela de Adão e transformada por Deus em uma auxiliadora idônea, com a qual Adão se completará, passando a haver uma “fusão interpessoal”, “unidade essencial”, constituindo-se os dois uma só carne (Gn 2.20-24; Mc 10.8),[1] unidos por Deus (Mt 19.6; Mc 10.9).[2]

 

Mas se o homem e a mulher se completam física, psíquica e afetivamente, constituindo assim a vida social – o que de fato está longe de ser isso irrelevante –, ambos têm uma matriz metafísica, transcendente: ambos procedem de Deus para viverem com e para Deus.  Por isso, a questão que permanece na tela das atenções do homem, ainda que costumeiramente ele não saiba defini-la, é o seu encontro com Deus.

 

Pela perda da dimensão do eterno, o homem trilha por atalhos que, quando muito, servem como paliativos para as suas angústias, mas, que ao final, aumentam ainda mais a sua dor e desilusão. Assim, o homem procura alento na filosofia, na arte, na filantropia, na religião, na diversão, no consumo, no sexo, no trabalho e nas drogas. Ainda que algumas dessas fugas possam ser úteis intelectual e socialmente, elas, por si só não resolvem a questão fundamental do ser humano: “Com que me apresentarei ao Senhor?” (Mq 6.6).

 

Sem a dimensão metafísica da existência, todo o nosso labor carece de sentido, pois o sentido não é conferido intrinsecamente pelo que pensamos por nós mesmos ou fazemos, mas em Deus, Aquele que confere significado ao nosso real. O homem como uma “síntese de infinito e de finito”[3] carece de um referencial que vá além de si mesmo. Em outras palavras, como ser finito que é, “ele não representa um ponto de integração suficiente para si mesmo”.[4] Sem esse “ponto” o homem  buscará referência apenas em tendências, moda, estatísticas ou no seu “bom senso”; ou seja: carecerá de absolutos. Sem princípios universais não existem absolutos. Sem absolutos, tudo é possível.  Assim, a vida transforma-se em uma “novela das nove”: Tudo é permitido dentro do consenso do produtor, diretor e do grande público…

 

No entanto, Deus existe e o homem foi criado à sua imagem e semelhança. No relato histórico da criação do homem, encontramos o registro inspirado: “Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança….” (Gn 1.26). Deus se aconselha consigo mesmo e delibera. Aqui podemos ver a singularidade da criação do homem; em nenhum outro relato encontramos esta forma relacional.

 

Conforme acentua Bavinck (1854-1921):

 

Ao chamar à existência as outras criaturas, nós lemos simplesmente que Deus falou e essa fala de Deus trouxe-as à existência. Mas quando Deus está prestes a criar o homem Ele primeiro conferencia consigo mesmo e decide fazer o homem à Sua imagem e semelhança. Isso indica que especialmente a criação do homem repousa sobre a deliberação, sobre a sabedoria, bondade e onipotência de Deus. (…) O conselho e a decisão de Deus são mais claramente manifestos na criação do homem do que na criação de todas as outras criaturas.[5]

 

Aqui temos o decreto Trinitário que antecede o tempo e que agora se executa historicamente conforme o eternamente planejado.

 

O “Façamos”  de Deus, conforme usado em Gênesis 1.26,[6] indica que o homem foi criado após deliberação ou consulta, como explica Calvino: “Até aqui Deus tem se apresentado simplesmente como comandante; agora, quando ele se aproxima do mais excelente de todas as suas obras, ele entra em consulta”.[7]

 

O fato de Deus ter criado o homem após deliberação, tem dois objetivos na concepção de Calvino (1509-1564): 1) nos ensinar que o próprio Deus se encarregou de fazer algo grande e maravilhoso; 2) dirigir a nossa atenção para a dignidade de nossa natureza.[8] Assim, conclui ele:

 

Verdadeiramente existem muitas coisas nesta natureza corrupta que podem induzir ao desprezo; mas se você corretamente pesa todas as circunstâncias, o homem é, entre outras criaturas, uma certa preeminente espécie da Divina sabedoria, justiça, e bondade, o qual é merecidamente chamado pelos antigos de microcosmos  “um mundo em miniatura”.[9]

 

Davi, contemplando a majestosa criação de Deus, escreveu:  “Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as suas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem” (Sl 139.14).

 

É justamente pelo fato de o homem ter a impressão pessoal de Deus no mais alto grau é que ele necessita voltar-se para Deus. A nossa fome espiritual nada mais é do que o revelar do nosso vazio e a necessidade de que ele seja preenchido com algo que ultrapassa as nossas possibilidades. Daí o vazio ser o tema recorrente da humanidade.[10] Algo nos falta, somos como que um recipiente rachado que não consegue se completar; por isso, de certa forma podemos dizer que  “o  desejo  é a própria essência do homem”.[11] Mas, o trágico é que o que buscamos para nos satisfazer nos escapa, a felicidade que procuramos torna-nos, vezes sem conta, ainda mais frustrados. Aqui está algo desalentador: “Parte da cruel ironia da existência humana parece ser que as coisas que, em nossa opinião, iriam nos fazer felizes, deixam de fazê-lo.”[12]  “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até o fim” (Ec 3.11).

 

“Com que me apresentarei ao Senhor?” (Mq 6.6).

 

Fomos criados para adorar a Deus. A Igreja é vocacionada por Deus para prestar-Lhe culto (1Pe 2.9-10).[13] No culto, mais do que cânticos, orações e ofertas, nós oferecemos a nós mesmos a Deus. Apresentemo-nos ao Senhor como oferta suave, colocando os nossos talentos ao seu serviço em nome de Cristo, o nosso único Mediador. Que Deus nos abençoe.

 

 

Florianópolis, 15/16 de dezembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1]“Deu nome o homem a todos os animais domésticos, às aves dos céus e a todos os animais selváticos; para o homem, todavia, não se achava uma auxiliadora que lhe fosse idônea. Então, o SENHOR Deus fez cair pesado sono sobre o homem, e este adormeceu; tomou uma das suas costelas e fechou o lugar com carne. E a costela que o SENHOR Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe. E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada.  Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (Gn 2.20-24).

            “Por isso, deixará o homem a seu pai e mãe e unir-se-á a sua mulher,  e, com sua mulher, serão os dois uma só carne. De modo que já não são dois, mas uma só carne” (Mc 10.7-8).

[2]“…. o que Deus ajuntou não separe o homem” (Mc 10.9).

[3]S.A. Kierkegaard Desespero Humano, Doença Até à Morte, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, v. 31), 1974, p. 337.

[4] F.A. Schaeffer, O Deus que Se Revela, São Paulo: Cultura Cristã,  2002, p. 39-40.

[5] Herman Bavinck, Our Reasonable Faith, 4. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1984, p. 184.

[6]he&A(an (na’aseh), qal, imperfeito.

[7]John Calvin, Commentaries on The First Book of Moses Called Genesis, Grand Rapids, Michigan: Eerdamans Publishing Co., 1996 (Reprinted),  v. 1, p. 91.

[8]Cf. John Calvin, Commentaries on The First Book of Moses Called Genesis, v. 1, p. 92. Cf. João Calvino, As Institutas, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1985, I.15.3.

[9]John Calvin, Commentaries on The First Book of Moses Called Genesis, v. 1, p. 92. Comentando Gênesis 5.1, Calvino diz que Moisés repetiu o que ele havia dito antes, porque “a excelência e a dignidade desse favor não poderia ser suficientemente celebrada. Foi sempre uma grande coisa, que o principal lugar entre as criaturas foi dado ao homem” (John Calvin, Commentaries on The First Book of Moses Called Genesis, v. 1, p. 227. Ver: J. Calvino, As Institutas, II.1.1).

[10] Ver: Alister McGrath, O Deus Desconhecido: Em busca da realização espiritual, São Paulo: Loyola, 2001, p. 7.

[11]B.  Espinosa, Ética, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 17), 1973, IV.18. p. 244.

[12] Alister McGrath, O Deus Desconhecido: Em Busca da Realização Espiritual, p. 9. Calvino (1509-1564) comenta que “…. enquanto todos os homens naturalmente desejam e correm após a felicidade, vemos quão quanta determinação se entregam a seus pecados; sim, todos aqueles que se afastam ao máximo da justiça, procurando satisfazer suas imundas concupiscências, se julgam felizes em virtude de alcançarem os desejos de seu coração” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1 (Sl. 1.1), p. 51).

[13] “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia” (1Pe 2.9-10).