Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (50)

2) A Trindade como fundamento da unidade

 

A unidade cristã tem como pressuposto a fé na Trindade. Deus é essencialmente relacional: Pai, Filho e Espírito Santo falam não de uma casualidade acidental ou meramente didática, antes, de sua essência. Há um só Deus que coexiste eternamente como Pai, Filho e Espírito Santo.[1] Contudo, mais do que uma simples fórmula – ainda que essencialmente verdadeira – crer no Deus Triúno requer compromisso com a sua Palavra revelada, um desafio à obediência.[2]

 

Sem esta fé comprometida, a nossa perspectiva de unidade estará totalmente equivocada. Podemos até trabalhar em prol de uma harmonia, contudo, não a favor da unidade bíblica, aquela que tem o seu modelo na Trindade.

 

A oração de Jesus Cristo em favor da unidade não se tratava de mero artifício retórico ou de tentar gerar uma unidade artificial, antes é um apelo para que a igreja vivesse a naturalidade de sua sobrenaturalidade, estamos todos nós unidos em Cristo, somos o seu Corpo, temos o mesmo Pai e Espírito, estamos unidos na Trindade. Ele ora ao Pai, que propiciou esta unidade agenciando-se trinitariamente, para que torne isto visível.

 

A unidade cristã tem a sua origem em possuirmos um só Pai, um só Salvador, e um só Espírito que habita em nós. Não podemos, portanto, de modo algum, acalentar uma unidade agradável a Deus se negarmos a doutrina da Trindade ou se não tivermos chegado a conhecer Deus Pai através da obra reconciliadora do seu Filho Jesus Cristo e pelo poder do Espírito Santo.[3]

 

 

A unidade da Trindade é a base e o fundamento da unidade cristã, em outras palavras, a unidade da Igreja existe, porque Deus a tornou possível (Jo 17.22-24). A unidade da Igreja existe, porque a Igreja é o Corpo de Cristo, portanto, ela está fundamentada em Cristo que a criou, a alimenta e dirige.[4]

 

À igreja cosmopolita de Roma, Paulo escreve: “Assim também nós, conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros” (Rm 12.5). Em outro contexto, discorrendo sobre a ressurreição gloriosa de Cristo descreve a igreja como Corpo de Cristo, sendo ele mesmo o cabeça, quem a comanda e a nutre: E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.22-23) (Cl 1.24).[5]

 

Assim sendo, a unidade cristã passa necessariamente pela união mística: estamos unidos definitivamente a Cristo. Calvino (1509-1564) talvez tenha sido o teólogo que mais deu ênfase a este fato. Para ele, toda a vida cristã inicia-se com a nossa união com Cristo: “Em primeiro lugar devemo-nos lembrar que a obra da redenção de Cristo de nada nos aproveita, enquanto não estivermos unidos a ele, enquanto ele não estiver em nós”.[6] A meta de toda vida cristã é a nossa total união com Cristo:[7] “Nossa verdadeira plenitude e perfeição consiste em estarmos unidos no Corpo de Cristo”.[8]

 

Jesus disse:

Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; aquele que me ama, será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele (…). Se alguém me ama guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada. (Jo 14.21,23).

 

Observem a relação estabelecida: quem ama o Filho é amado pelo Pai e pelo Filho e, este amor de Deus se manifestará na vinda do Pai e do Filho para habitarem em nós pelo Espírito (Cf. Jo 14.26).

 

São Paulo, 13 de maio de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Leia esta série completa aqui.

 


[1] Veja-se: Luder G. Whitlock, Jr., A Busca Espiritual, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 42-43.

[2] Veja-se: John R.W. Stott, A Verdade do Evangelho: um apelo à Unidade, Curitiba, PR.; São Paulo, SP.: Encontro; ABU Editora, 2000, p. 125.

[3]John R.W. Stott, A Mensagem de Efésios, São Paulo: ABU Editora, 1986, p. 110.

[4]Veja-se: Herman Bavinck, Our Reasonable Faith, p. 397.

[5] “É-nos suficiente saber que Cristo e seu povo são realmente um. São tão verdadeiramente um como a cabeça e os membros do mesmo corpo, e pela mesma razão; são envolvidos e animados pelo mesmo Espírito. Não se trata meramente de uma união de sentimentos, ideias e interesses. Esta é só a consequência da união vital na qual as Escrituras põem tanta ênfase” (Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos, 2001, p. 1004).

[6]J. Calvino, As Institutas da Religião Cristã, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1984, III.1. p. 205. (Edição abreviada por J.P. Wiles). “Por meio da fé, Cristo nos é comunicado, através de quem chegamos a Deus, e através de quem usufruímos os benefícios da adoção” (João Calvino, Efésios, (Ef 1.8), p. 30). “Aos olhos de Deus só somos verdadeiramente gerados quando somos enxertados em Cristo, fora de quem nada é encontrado senão morte” (João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 4.15), p. 143).

[7] “O genuíno descanso dos fiéis, o qual dura por toda a eternidade, é segundo o descanso de Deus. Como a mais sublime bem-aventurança humana é estar o homem unido com Deus, assim deve ser também o seu propósito último, ao qual todos os seus planos e ações devem ser dirigidos” (João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 4.3), p. 103).

[8]João Calvino, Efésios, (Ef 4.12), p. 124.

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