Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (45)

10.2.2. A palavra também tem algo a dizer a respeito do serviço pastoral

1) Paulo recomenda a Timóteo que se apresente a Deus como obreiro aprovado, que maneja bem a Palavra:

 

Procura (spouda/zw = “esforçar-se com zelo”, “apressar-se”)[1] apresentar-te a Deus aprovado (do/kimoj = “aprovado após exame”),[2] como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem (o)rqotome/w)[3]a palavra da verdade (a)lh/qeia) (2Tm 2.15).

 

Calvino traduz a metáfora usada por Paulo, “maneja bem” (2Tm 2.15) por “dividindo bem”, fazendo a seguinte aplicação:

 

Paulo (…) designa aos mestres o dever de gravar ou ministrar a Palavra, como um pai divide um pão em pequenos pedaços para alimentar seus filhos. Ele aconselha Timóteo a ‘dividir bem’, para não suceder que, como fazem os homens inexperientes que, cortando a superfície, deixam o miolo e a medula intactos. Tomo, porém, o que está expresso aqui como uma aplicação geral e como uma referência à judiciosa ministração da Palavra, a qual é adaptada para o proveito daqueles que a ouvem.[4] Há quem a mutile, há quem a desmembre, há quem a distorce, há quem a quebre em mil pedaços, e há quem, como observei, se mantém na superfície, jamais penetrando o âmago da doutrina. Ele contrasta todos esses erros com a boa ministração, ou seja, um método de exposição adequado à edificação. Aqui está uma regra que devemos julgar cada interpretação da Escritura.[5]

 

       2) É recomendado que aquele que lidera (preside), deve fazê-lo com empenho: “O que exorta faça-o com dedicação; o que contribui, com liberalidade; o que preside, com diligência (spoudh/); quem exerce misericórdia, com alegria” (Rm 12.8).

                  

3) Pedro demonstrou esta mesma diligência em ensinar o Evangelho às Igrejas: “Mas, de minha parte, esforçar-me-ei, diligentemente, (Spouda/zw) por fazer que, a todo tempo, mesmo depois da minha partida, conserveis lembrança de tudo” (2Pe 1.15).

 

       4) Judas revela o mesmo ao escrever a sua Epístola: “Amados, quando empregava toda a diligência (spoudh/) em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3).

 

       5) Paulo diz aos tessalonicenses do seu esforço para poder visitá-los: “Ora, nós, irmãos, orfanados, por breve tempo, de vossa presença, não, porém, do coração, com tanto mais empenho diligenciamos (Spouda/zw), com grande desejo, ir ver-vos pessoalmente” (1Ts 2.17).

 

       6) Paulo, identificando em Tito o mesmo zelo para com os Coríntios assim o descreve, aludindo também a outro irmão, que pode ser Lucas, que também compartilhava do mesmo sentimento:

 

Mas graças a Deus, que pôs no coração de Tito a mesma solicitude (spoudh/) por amor de vós; porque atendeu ao nosso apelo e, mostrando-se mais cuidadoso (spoudai=oj), partiu voluntariamente para vós outros. (…) Com eles, enviamos nosso irmão cujo zelo (spoudai=oj), em muitas ocasiões e de muitos modos, temos experimentado; agora, porém, se mostra ainda mais zeloso (spoudai=oj) pela muita confiança em vós. (2Co 8.16,17,22).

 

 

Maringá, 13 de maio de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Leia esta série completa aqui.

 


[1]A ideia da palavra é de fazer todo o possível – de modo intensivo, urgente, diligente e zeloso –, para cumprir a sua tarefa. Denota uma diligência que se esforça por fazer todo o possível para alcançar o seu objetivo.

[2]O verbo dokima/zw ressalta o aspecto positivo de “provar” para “aprovar”, indicando a genuinidade do que foi testado (2Co 8.8; 1Ts 2.4; 1Tm 3.10). Este verbo se refere à ação de Deus, nunca é empregado para a “tentação” de satanás, “visto que ele nunca prova aquele que ele pode aprovar, nem testa aquele que ele pode aceitar” (Richard C. Trench, Synonyms of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1985 (Reprinted), p. 281). (Vejam-se mais detalhes sobre a “tentação”, em Hermisten M.P. Costa, O Pai Nosso, São Paulo: Cultura Cristã, 2001).

No entanto, ambos os verbos podem ser usados indistintamente, mesmo não sendo “perfeitamente sinônimos” (Veja-se: H. Seesemann, peira/w: In: Gerhard Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, 8. ed. (reprinted) Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing Co., 1982, v. 6, p. 23; H. Haarbeck, Tentar: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1983, v. 4, p. 599; Richard C. Trench, Synonyms of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1985 (Reprinted), p. 278ss.).

[3]O verbo o)rqotome/w – “cortar em linha reta”, “endireitar” –, que só ocorre neste texto, é formado por o)rqo/j (“direito”, “reto”, “certo”, “correto”) (* At 14.10; Hb 12.13) e te/mnw (“cortar”), verbo que não aparece no Novo Testamento. Na LXX o)rqotome/w é empregado em Pv 3.6 e 11.5 com o sentido de endireitar o caminho. Analogias e aplicações variadas são possíveis, tais como: a ideia de lavrar a terra fazendo os sulcos em linha reta; construir uma estrada em linha reta a fim de que o viajante alcance com facilidade o seu objetivo sem se desviar por atalhos; o alfaiate que corta o tecido de forma correta a fim de fazer a roupa (Paulo como fabricante de tendas estava acostumado a este serviço no que se refere ao corte dos tecidos de pelo de cabra); o pedreiro que corta a pedra de forma correta para o seu perfeito encaixe, etc. A partir de 2Tm 2.15 várias analogias são feitas, tais como: a ideia de conduzir a Palavra pelo caminho correto para atingir de modo eficaz seu objetivo, manuseá-la bem, ministrá-la conforme o seu propósito, expô-la de maneira correta, ensinar correta e diretamente a Palavra, etc. (Vejam-se, entre outros: Helmut Köster, o)rqotome/w: In: G. Friedrich; Gerhard Kittel, eds. Theological Dictionary of the New Testament, 8. ed. Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing Co., (reprinted) 1982, v. 8, p. 111-112; Joseph H. Thayer, “Thayer’s Greek-English Lexicon of the NT,” The Master Christian Library, Verson 8.0 (CD-ROM), (Albany, OR: Ages Sofware, 2000, v. 2, p. 270; A. Barnes, “Notes on the Bible,” The Master Christian Library, Verson 8.0 (CD-ROM), (Albany, OR: Ages Sofware, 2000, v. 15, p. 795; Adam Clark, “Commentary the New Testament,” Master Christian Library, Verson 8.0 (CD-ROM), (Albany, OR: Ages Sofware, 2000, v. 8, p. 222-223; R. Klöber, Retidão: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1983, v. 4, 217-219; William F. Arndt; F.W. Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature, Chicago: University of Chicago Press, 1957, p. 584; Russel N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado, Guaratinguetá, SP.: A Voz Bíblica, (s.d.), v. 5, p. 379; John R.W. Stott, Tu, Porém, A mensagem de 2 Timóteo, São Paulo: ABU Editora, 1982, p. 59-60; J.N.D. Kelly, I e II Timóteo e Tito: introdução e comentário, São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1983, p. 170; William Hendriksen, 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, p. 323-324; Newport J.D. White, Second Epistle to Timothy: In: W. Robertson Nicoll, ed. The Expositor’s Greek Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 4, p. 165; p. 798-799; R.C.H. Lenski, Commentary on the New Testament, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1998, v. 10, p. 425; W.C. Taylor, Dicionário do Novo Testamento Grego, 5. ed. Rio de Janeiro: JUERP., 1978, p. 152-153; A.T. Robertson, “Word Pictures in the New Testament,” The Master Christian Library, Verson 8.0 (CD-ROM), (Albany, OR: Ages Sofware, 2000, v. 4, p. 703; William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora, 1974, v. 12, (2Tm 2.15-18), p. 183; John F. MacArthur, Jr., Princípios para uma Cosmovisão Bíblica: uma mensagem exclusivista para um mundo pluralista, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 49-50).

[4]Este era o seu princípio pedagógico: “Um sábio mestre tem a responsabilidade de acomodar-se ao poder de compreensão daqueles a quem ele administra o ensino, de modo a iniciar-se com os princípios rudimentares quando instrui os débeis e ignorantes, não lhes dando algo que porventura seja mais forte do que podem suportar” (João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 3.1), p. 98-99). Do mesmo modo, ver: João Calvino, As Pastorais, (Tt 2.10), p. 333.

[5] João Calvino, As Pastorais, (2Tm 2.15), p. 235.

Um comentário em “Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (45)”

  1. “Quem ensina não sabe fazer” é um dito popular que, no que tange ao obreiro de Deus, não se aplica. Ele ensina bem porque sabe fazer e faz.

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