Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (28)

O prazer da meditação e da obediência

O salmista descreve a sua experiência; como a sua familiaridade prazerosa com a Palavra de Deus o preservou num momento de grande angústia: “Não fosse a tua lei ter sido o meu prazer (#pex’)(thapets), há muito já teria eu perecido na minha angústia” (Sl 119.92).

 

Na angústia, muitos dos mitos de nosso pensamento e de nossa imaginação desaparecem. Percebemos então, para nossa tristeza, que muito do que críamos e propalávamos nada tem a dizer de relevante e significativo naquelas circunstâncias; eram pensamentos vãos, vazios de conteúdo e, por isso mesmo, irrelevantes. Descobrimos, então, a grandeza e praticidade da Palavra; no Seu conselho encontramos a disciplina educativa de Deus, as suas promessas passam a fazer sentido para nós; é como se um novo mundo se descortinasse à nossa frente. Pela Palavra não perecemos na angústia, antes, saímos fortalecidos em nossa fé, mais confiantes no Deus da Palavra e em Suas promessas.

 

O prazer na Palavra faz com que direcionemos nossos pensamentos e corações para ela. Ao invés de alimentarmos mágoas, ressentimentos e desejos de vingança, buscamos na Palavra, que é o nosso prazer, o suprimento para as nossas necessidades e a orientação em nossas decisões.

 

Quando descobrimos o prazer na Palavra de Deus, passamos mais tempo a lendo e refletindo sobre os seus ensinamentos. Daí o salmista dizer, como vimos, que os testemunhos de Deus são os meus conselheiros (hc'[e)(‘etsãh) (Sl 119.24).

 

Enquanto o homem sem discernimento busca conselho nos ímpios, culminando por assentar-se na companhia dos escarnecedores (Sl 1.1) – possivelmente para convalidar seus interesses e inclinações –, o homem bem-aventurado busca conselho nos mandamentos de Deus (Sl 119.24).

 

Os conselhos de Deus têm sentido para o tempo, em todas as circunstâncias próprias de nossa finitude, e para nos conduzir em segurança à eternidade, quando o Espírito será tudo em todos: “Tu me guias com o teu conselho (hc'[e) (‘etsãh) e depois me recebes na glória” (Sl 73.24). A Palavra de Deus é um “guia seguro para o céu”!

 

A vontade de Deus sempre será agradável àqueles que desejarem viver em comunhão com Ele. Portanto, quando oramos para que Deus concretize o seu propósito, estamos dizendo: Senhor, faze a Tua vontade, pois sei que à medida que eu me consagrar a Ti, mais prazer terei na Tua Palavra, mais agradável ela será a mim, como é para Ti.

 

A perfeita vontade de Deus

 

A vontade de Deus é eticamente perfeita; isto é, ela é completa, aplicando-se a todas as áreas de nossa vida, bem como em todas as épocas e circunstâncias.

 

Mais uma vez identificamos a vontade de Deus com Ele mesmo: Deus é perfeito, não muda, não se aperfeiçoa nem se deteriora (Mt 5.48; Hb 13.8; Tg 1.17). A perfeição não comporta ganho ou perda de qualidade. Deus é eternamente perfeito. Assim também é a sua vontade. Não há um centímetro sequer de toda a criação que não seja abrangido pela totalidade da sua vontade.

 

A Lei do Senhor reflete o Senhor que se manifesta na Criação com ordem e beleza. Por isso, o salmista após descrever esta sinfonia da Criação afirma que, como não poderia ser diferente, “A lei do Senhor é perfeita (~ymiT’) (tamiym) (Sl 19.7).

 

A Lei do Senhor é perfeita, completa, abarca todas as nossas necessidades físicas e espirituais. Na Lei de Deus temos os princípios fundamentais para todo o nosso viver, seja em que época for, em que cultura for. Ela é suficiente para nos gerar de novo e para nos conduzir em nossa caminhada, em nossa santificação.

 

Nada lhe escapa, nada lhe é estranho. Ela tem princípios que sendo seguidos, instruem, previnem e corrigem os nossos caminhos. “Ela não carece de nada que seja indispensável à perfeita sabedoria”, conclui Calvino.[1]

 

No caminho de Deus não há contradição. Por isso, as suas orientações são completas, sem mistura: “O caminho de Deus é perfeito (~ymiT’) (tamiym); a palavra do SENHOR é provada; ele é escudo para todos os que nele se refugiam” (Sl 18.30).

 

Quando assimilamos de coração a Palavra de Deus e a adotamos com integridade, independentemente das consequências e dos juízos dos outros, não teremos do que nos envergonhar.

 

O salmista almeja viver conforme a integridade da Palavra, orando neste sentido: “Seja o meu coração (ble)(leb) irrepreensível (~ymiT’) (tamiym) nos teus decretos, para que eu não seja envergonhado” (Sl 119.80).

 

Ainda que possamos, pela Graça Comum de Deus, encontrar aqui e ali entre os homens elementos de verdade, somente na integridade da Palavra temos o absoluto de Deus para todos os desafios próprios de nossa existência. Por isso, quem segue a Palavra de Deus, e busca praticá-la com integridade de coração, será irrepreensível em seu caminho, em todas as circunstâncias.

 

Esse será bem-aventurado: “Bem-aventurados os irrepreensíveis (~ymiT’) (tamiym) no seu caminho, que andam (%l;h’) (halak) na lei do SENHOR  2Bem-aventurados os que guardam as suas prescrições (hd'[e) (`edah) (= testemunhos) e o buscam (vrD) (darash)  de todo o coração (ble)(leb); 3 não praticam iniquidade e andam (%l;h’) (halak) nos seus caminhos” (Sl 119.1-3).  

 

Estive avaliando determinado produto na internet. Havia vários modelos. Li algumas opiniões. Deparei-me com uma opinião bem escrita, e pareceu-me bem fundamentada. A pessoa analisando uma nova versão do produto falava das inovações que ele trazia em relação à versão do ano anterior e, ainda assim, mesmo tendo bons resultados com a versão mais moderna, aguardava um pouco mais para ver se a impressão que tivera se confirmaria com o tempo. Considerei tal posição sensata e útil. É necessário cautela, ainda mais na utilização de um produto que pode evidenciar diferenças visíveis em nosso corpo afetando nossa saúde.

 

Quando, porém, falamos das Escrituras, podemos ter a certeza que a sua “versão” é divina, e por isso, perfeita. Ela é completa, suficiente para todas as nossas necessidades, em todos os tempos, em todos os momentos e circunstâncias de nossa existência. A Palavra não precisa de complemento. Ela é perfeita (Tg 1.25).[2] “A glória da Bíblia é que ela é suficientemente para cada época e suficiente para cada pessoa”.[3]

 

Temos aqui um argumento a favor da doutrina enfatizada pela Reforma: Sola Scriptura. A Palavra de Deus é completa, não precisa de complemento. Ela é perfeita e, por isso mesmo, infalível.

 

Desse modo, quando oramos pela concretização da vontade de Deus, estamos dizendo: “Senhor faze a Tua vontade; eu sei que ela envolve todas as minhas necessidades, mesmo aquelas que eu ainda desconheço; no entanto Tu o sabes, portanto, amparado nisso, dirige-me conforme a Tua Lei”.

 

Esta oração implica no fato de que estamos confiantes de que a vontade de Deus é a melhor para nós e, também, que elegemos o céu como o nosso padrão perfeito de cumprimento da vontade de Deus: “Assim na terra como no céu”.

 

Paralelamente a isso, declaramos estar dispostos a aceitar alegremente a vontade de Deus, renunciando os nossos desejos pessoais em prol daquilo que temos certeza de ser incomensuravelmente melhor: A vontade de Deus. O maior exemplo desta entrega sem reservas a Deus temos em Cristo Jesus, que diante da aproximação do momento em que daria a Sua vida pelo Seu povo ora: “Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero (qe/lw), e sim como tu queres” (Mt 26.39).  Aqui temos a declaração verbal e existencial de nosso Senhor: “seja feita  a Tua vontade!”.

 

Maringá, 5 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Confira esta série completa aqui


[1] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 19.7), p. 424.

[2]Mas aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar” (Tg 1.25).

[3] F.A. Schaeffer, O Deus que intervém, São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 251.

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