Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (4)

1.3. É preservada por Cristo

“Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18).

 

Creio que aqui há uma promessa que envolve conquista e preservação. Dentro desse semitismo, “as portas do inferno (da morte) não prevalecerão”, temos algumas possibilidades de interpretação. Parece-me que o sentido primário não é necessariamente de que as portas do inferno avançarão contra a igreja, ou, nem que as portas da morte iriam dominar ou separar a igreja, mas, que as portas do inferno (da morte) não resistirão à igreja em seu avanço na pregação do Evangelho libertando os homens do poder de satanás − a sua casa será invadida (Mc 3.27)[1] − para o Reino de Deus.

 

Ninguém poderá deter a igreja em sua caminhada de fé (conquista). Também creio que há o aspecto defensivo (preservação). As portas da morte não vencerão a igreja a despeito de todas as armadilhas de satanás. Jesus, o Cristo, mesmo sofrendo e morrendo pelas mãos dos anciãos, ressuscitaria (Mt 16.21)[2] e continuará preservando o seu povo.

 

Temos uma promessa com grande teor escatológico: Por meio da igreja que o Senhor edifica, o império das trevas não resistirá o poder do Evangelho anunciado. O Senhor consumará a sua obra. A Igreja será guardada e preservada intacta (Rm 1.16/Cl 1.13/1Co 15.24/Ef 5.25-27; Jd 24-25).[3]

 

Em síntese, a Igreja nesta vida se deparará sempre com as investidas do diabo que tentará bloquear o seu avanço e, se possível, destruí-la, mas, o Deus fiel a sustentará.

 

Obviamente Jesus não está se referindo a uma igreja em particular, a uma denominação, mas sim, à sua Igreja, composta por todos aqueles que permanecem unidos a Cristo, “e que por um só Espírito guarda e observa a união da fé, junto com a concórdia e caridade fraterna”, escreve Calvino.[4]

 

Aqui Jesus se refere provavelmente às tentativas de satanás, que se concentrarão na Igreja, visando destruí-la.

 

Paulo fala dos “desígnios[5] de Satanás (2Co 2.11), indicando a ideia de que ele tem metas definidas, estratégias elaboradas, um programa de ação com variedades de técnicas e opções a serem aplicadas conforme as circunstâncias. Satanás, comenta Lloyd-Jones, “fará qualquer coisa para conseguir vantagem sobre nós, diz o apóstolo, fará qualquer coisa para derrubar-nos, para fazer-nos parecer ridículos e para pôr em desgraça o nome de Deus”.[6] Ele emprega toda a sua “energia” para realizar os seus propósitos.[7]

 

Satanás age contra nós como um brilhante estrategista, buscando a melhor tática para nos vencer. “A astúcia é a grande característica do diabo”, conclui Lloyd-Jones.[8]

 

Paulo, interpretando o acontecimento histórico registrado em Gênesis, diz: “Mas receio que, assim como a serpente enganou (e)capata/w = desviou, seduziu, desencaminhou) a Eva com a sua astúcia (panourgi/a[9] = “ardil”, “truque”, “maquinação”, “trapaça”), assim também sejam corrompidas as vossas mentes, e se apartem da simplicidade e pureza devidas a Cristo” (2Co 11.3).

 

Sem dúvida, a grande arma de Satanás é a sagacidade, a astúcia, a artimanha, o ardil. Isto faz com que ele aja de forma variada, tenha um repertório multiforme, sinistro de ataques. A sua força está de modo especial na sua inteligência, associada à sua perspicácia, que foram desenvolvidas ao longo de séculos de história.

 

Um dos métodos de Satanás, é aproveitar a nossa distração; quando relaxamos a nossa defesa em determinado ponto, ali tornar-se-á a sua prioridade. Satanás sabe escolher e manusear com sagacidade as suas armas. Como disse Spurgeon (1834-1892): “Se você for um gigante, ele não vai aparecer diante de você com estilingue e uma pedra. Virá armado até os dentes para derrubá-lo”.[10]

 

Aliás, este fato vem indicar que Satanás não é uma força impessoal; uma força não planeja, não faz tramas, nem arma ciladas; isto é próprio de um ser pessoal. O seu nome Satana=j[11] indica de fato aquilo que ele é: “O adversário”.

           

Ele prepara ciladas para que, dominados por ele, façamos a sua vontade. Paulo exorta aos efésios: “Revesti-vos de toda a armadura de Deus,[12] para poderdes ficar firmes contra as ciladas (meqode/ia)[13] do diabo”(Ef 6.11).

 

Esta palavra envolve um “plano ou sistema deliberado”.  Ela é da mesma raiz da nossa palavra “método” (me/qodoj).[14] As ciladas de Satanás visam sempre nos induzir ao erro. Ele, portanto, atua de forma metódica, seguindo sempre um plano para obter êxito nos seus propósitos.

 

Paulo, falando dos critérios necessários para o presbiterato, diz: É necessário que ele tenha bom testemunho dos de fora, a fim de não cair no opróbrio e no laço (pagi/j)[15] do diabo” (1Tm 3.7).  Nos laços e armadilhas preparados pelo diabo.

 

            Não é à toa que no Apocalipse, Satanás é denominado de “o sedutor (plana/w) (= enganador, extraviador, desencaminhador) de todo o mundo” (Ap 12.9).

 

Considerando a astúcia de Satanás, temos que admitir que ele tem um bom discernimento do tempo, do momento adequado. Ele procura agir sempre na hora mais propícia para obter vantagem dentro dos seus propósitos. O Novo Testamento ilustra o que estamos dizendo: Quando Jesus sentiu fome; Satanás tenta com o pão (Mt 4.2,3); após a tentação de Jesus no deserto, Satanás se retira estrategicamente até o momento “oportuno” (kairo/j)[16](Lc 4.13). Quando Cristo falou aos seus discípulos que era preciso que Ele fosse preso e morto, Satanás, certamente considerando que este era o momento próprio, usa a Pedro – que havia acabado de confessar a Jesus como o Cristo – para tentar o Senhor (Mt 16.21-23). Percebam, portanto, a sua ousadia.[17]

 

Calvino é enfático:

 

Satanás labora muito mais do que imaginamos para banir de nossas mentes, por todos os meios possíveis, a fé na sã doutrina; e visto que nem sempre é fácil fazer isso através de um franco ataque à nossa fé, ele se arma contra nós secretamente e pelo uso de métodos indiretos e a fim de destruir a credibilidade de seu ensino, ele desperta suspeitas acerca da vocação dos santos mestres.[18]

 

Pouco mais de trinta anos depois dessa experiência, Pedro, inspirado por Deus, instrui as igrejas da Dispersão, dizendo que Satanás anda em derredor, como um leão rugindo continuadamente, procurando quem possa atacar (1Pe 5.8).[19] Ele está atento, vigilante, arquitetando seu plano para nos pegar, nos enlaçar. Ele procura aperfeiçoar as suas técnicas, observa também a nossa maneira de pensar, agir e responder, verificando os nossos pontos visivelmente mais resistentes e analisando as situações mais apropriadas.

 

Ele não tem nenhuma pressa que o conduza à afobação; sabe esperar para dar o bote, no momento que considera “oportuno”. E, se há alguma coisa que satanás tem, é o senso de tempo, de oportunidade, ele é um “perito”[20] em tentar;[21] por isso, não nos iludamos, satanás está à espreita de forma vigilante, aguardando e propiciando as suas condições favoráveis de ataque.

 

Packer, nos fala sobre isso:

 

Se formos vigilantes contra Satanás em um ponto da muralha de nosso viver, ele tentará rompê-la em outro ponto, esperando por um momento quando nos sentirmos seguros e felizes, e quando, provavelmente, nossas defesas estarão fracas. Assim prosseguem os seus ataques, o dia inteiro e todos os dias.[22]

 

No Apocalipse lemos que Satanás sabe do pouco tempo que lhe resta (Ap 12.12),[23] por isso, a sua urgência devoradora, que obedece sempre a sua estratégia. Quanto a nós, devemos estar atentos constantemente (1Pe 5.8), cuidando para não dar “lugar ao diabo” (Ef 4.27).

 

Murray nos alerta:

 

O reconhecimento da presença de Satanás é extremamente importante. Ele mantém diante de nós o fato de que o mal não é meramente uma ideia, mas um grande poder pessoal. Ensina-nos que os erros em relação ao evangelho não é um engano inocente, mas são enganos demoníacos: há cristos falsos e evangelhos falsos. A existência de Satanás, como dirigente de todos os homens e mulheres não-regenerados, é, também, prova de que a diferença entre cristãos e não-cristãos é absoluta e radical.[24]

 

Maringá, 6 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Acesse todos os textos dessa série aqui.


[1]“Ninguém pode entrar na casa do valente para roubar-lhe os bens, sem primeiro amarrá-lo; e só então lhe saqueará a casa” (Mc 3.27).

[2]“Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia” (Mt 16.21).

[3]Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1.16). “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Cl 1.13). “E, então, virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder” (1Co 15.24). 25Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, 26para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, 27 para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.25-27). 24 Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória, 25 ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos os séculos. Amém!” (Jd 24-25).

[4]Juan Calvino, Resposta ao Cardeal Sadoleto, 4. ed. Barcelona: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1990, p. 30-31.

[5] A palavra traduzida por “desígnio” (no/hma) ocorre cinco vezes no NT., sendo utilizada apenas por Paulo: 2Co 2.11; 3.14; 4.4; 10.5; 11.3; Fp 4.7, tendo o sentido de “plano” (Platão, Política, 260d), “intenção maligna”, “intrigas”, “ardis”. Com exceção de Fp 4.7, a palavra sempre é usada negativamente no NT. No/hma é o resultado da atividade do nou=j (mente). (J. Behm; E. Würthwein, nou=j, etc.: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds., Theological Dictionary of the New Testament, v. 4, p. 960). “É a faculdade geral do juízo, que pode tomar decisões e pronunciar certos ou errados os vereditos, conforme as influências às quais tem sido expostas” (J. Goetzmann, Razão: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 4, p. 32).

[6]D. M. Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 90.

[7] “Satanás aplica toda sua energia pra tirar qualquer coisa de Cristo” (João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.3), p. 35).

[8] D.M. Lloyd-Jones, O Combate Cristão, p. 75.

[9] Ocorre 5 vezes no NT.: Lc 20.23; 1Co 3.19; 2Co 4.2; 11.3; Ef 4.14.

[10]C.H. Spurgeon, Um Antídoto contra os Artifícios de Satanás: In: Bruce H. Wilkinson, ed. ger. Vitória sobre a Tentação, 2. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p. 184.

[11] NT. * Mc 1.13; At 26.18; 2Co 2.11; 12.7; 2Ts 2.9; 1Tm 5.15; Ap 2.9,13; 3.9.

[12]Quanto à armadura romana e o treinamento do exército, Veja-se: Flavio Josefo, La Guerras de los Judios, Barcelona: CLIE., [1985], Tomo I, III.3. p. 311ss.

[13] A palavra “cilada” significa, “tramas, “ardis”, “maquinações”, “astúcia”. [* Ef. 4.14 (aqui traduzida por “induzir” (ARA); “enganar” (ARC); 6.11]. Este é o significado original da palavra, variando conforme a conjunção com outras (Veja-se: entre outras obras, H.E. Dana; Julius R. Mantey, Manual de Gramatica del Nuevo Testamento Griego, Buenos Aires: Casa Bautista de Publicaciones, 1975, p. 104-105).  Meqode/ia é da mesma raiz da nossa palavra “método”, que também provém do grego me/qodoj, termo formado por meta/ (“no meio de”, “no centro de”) e o(do/j (“caminho”). Em Aristóteles (384-322) a palavra (me/qodoj) tinha o sentido de “investigação”, sendo por vezes usada como sinônimo de “teoria” (qewri/a) e “ciência” (e)pisth/mh).(Veja-se: Aristóteles, Física, III, 1; 200 b 13; VII, 1; 251 a 7, etc. Cf. Método: In: A. Lalande, Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia, São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 678. [Observações de R. Eucken e J. Lachelier]). Etimologicamente, portanto, método é o emprego de um caminho, andar dentro e por meio dele. Podemos definir operacionalmente método, como o conjunto de elementos e processos necessários a se obter determinado objetivo. É o caminho para a consecução de um objetivo proposto. Lalande (1867-1963) acentua que etimologicamente a palavra significa demanda e, “por consequência, esforço para atingir um fim, investigação, estudo” (Método: A. Lalande, Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia, p. 678).

[14] Esta não ocorre nas Escrituras.

[15] pagi/j significa “armadilha”, “rede”, “laço” [* Lc 21.34 (ARA) na ACR e BJ, no verso 35; Rm 11.9; 1Tm 3.7; 6.9; 2Tm 2.26].

[16]A ideia da palavra no contexto sugere “oportunidade”, “tempo certo”, “tempo favorável”, etc. (Veja-se: Mt 24.45; Mc 12.2; Lc 20.10; Jo 7.6,8; At 24.25; Gl 6.10; Cl 4.5; Hb 11.15).

[17] Veja-se: Hermisten M.P. Costa, O Pai Nosso, São Paulo: Cultura Cristã, 2001.

[18]João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (2Tm 1.11), p. 210.

[19]“Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar” (1Pe 5.8).

[20]O verbo peira/w que traduzimos por tentar (O substantivo é peira/zw, tentação) é de onde provém o termo latino “peritus”, português “perito”, aquele que tem perícia, habilidade, destreza, instrução; sabe por experiência, experimentado. Aliás, esta era uma das conotações de peira/w no grego secular, indicando “saber por experiência” (Vejam-se: H. Seesemann, peira/w: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds., Theological Dictionary of the New Testament, v. 6, p. 23-36; peira/zw: In: William F. Arndt; F.W. Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature, 2. ed. Chicago: University Press, 1979, p. 640).

[21] Como diz Packer: “Satanás testa o povo de Deus ao manipular as circunstâncias dentro dos limites que lhe são permitidos por Deus” (J.I. Packer, Tentação: In: J.D. Douglas, editor org. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo, SP.: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 3, p. 1581).

[22]J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 83.

[23]“Por isso, festejai, ó céus, e vós, os que neles habitais. Ai da terra e do mar, pois o diabo desceu até vós, cheio de grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta” (Ap 12.12).

[24]Iain Murray, A controvérsia não resolvida: unidade com não-evangélicos, São Paulo: Os Puritanos, 2002, p. 38-39.

5 comentários em “Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (4)”

  1. Olá reverendo.
    Muito agradável o texto.
    Sua reflexão sobre a astúcia e organização estratégica de Satanás me fez refletir sobre a perigosa vida desorganizada de alguns pastores.

    Quando olho para a criação vejo o quanto somos instruídos pelo exemplo do criador que no momento de trazer as coisas a existência o faz de modo extremamente organizado.

    De maneira muito simplificada entendo que a organização de nossas tarefas, o zelo pelo uso do tempo, a atenção contra as distrações são atitudes que precisamos constantemente aperfeiçoar em nossa vida.

    Aqui em Sapucaia do Sul – RS, estamos estudando o livro de Neemias (parágrafo por parágrafo) e temos percebido como o inimigo é astuto e dinâmico quanto a investida na paralisação da obra de Deus. Tanto agindo de modo externo quanto sorrateiramente levantando de dentro do povo do SENHOR impecílios para continuação da obra revitalizadora.

    Organização, resiliência e perseverança, apontaria (como reflexão pessoal em resposta ao teu texto) estas 3 atitudes como urgência a ser desenvolvida na vida de cada cristão e em especial aos pastores.

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