Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (27)

A agradável vontade de Deus

 

A vontade de Deus é boa, mas, num plano imediato, ela nem sempre nos parece agradável. A rigor, ela nunca nos parecerá agradável enquanto não submetermos os nossos desejos ao desejo de Deus, a nossa mente à mente de Deus, a nossa vontade à vontade de Deus. Precisamos aprender a pensar, a sentir e a desejar biblicamente; educar a nossa mente, emoções e vontade à luz da Palavra; somente assim poderemos nos agradar no agrado de Deus; nos aprazer no caminho de Deus. Portanto, a questão é: agradável a quem?

 

A palavra usada por Paulo (Eu)a/restoj)[1] prescreve sempre o sentido de agradável a Deus; quer direta, quer indiretamente – por estarmos obedecendo aos Seus preceitos. A vontade de Deus não tem o propósito de nos agradar num plano puramente superficial, antes ela nos agrada quando a conseguimos entender pelo Espírito de Deus ou, numa primeira instância, quando, pelo Espírito, podemos nos alegrar na esperança que emana de Deus (Rm 12.12).

 

Por outro lado, quando nos submetemos a Deus, encontramos a alegria de obedecê-Lo, descobrindo a agradabilidade da vontade de Deus na submissão a ela, no seu exercício. Deste modo, temos o testemunho de alguns servos de Deus, entre os quais destacamos três: Davi pôde escrever: Agrada-me (#pex’)(thaphets) fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro em meu coração está a tua lei” (Sl 40.8).

 

O Salmista descrevendo o caminho dos justos diz que         “O seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite” (Sl 1.2).[2]

 

A “Lei do Senhor” refere-se a toda Escritura (contextualmente, a todo o Antigo Testamento), não simplesmente à Lei de Moisés.[3]

 

Em outro lugar o salmista diz: “Com efeito, os teus testemunhos são o meu prazer (#pex’) (thaphets), são os meus conselheiros  (hc'[e) (‘etsãh) (Sl 119.24). (Vejam-se: Sl 119.16,47,77,92,111,143,174).

 

O homem que se compraz na lei do Senhor é bem-aventurado. Parte da bem-aventurança já é o deleite na Palavra de Deus: Aleluia! Bem-aventurado o homem que teme ao SENHOR e se compraz (#pex’) (thaphets) nos seus mandamentos” (Sl 112.1).

 

Por mais prazeroso que seja o estudo da Palavra, o maravilhar-se com a majestade de Deus revelada e a sua instrução, nem sempre temos o discernimento correto na aplicação desta lei absoluta às nossas circunstâncias, cheias de ambiguidades, daí a oração do salmista: Guia-me pela vereda dos teus mandamentos, pois nela me comprazo (#pex’) (thaphets) (Sl 119.35).

 

Palavra doce a um paladar espiritualmente refinado

 

     O salmista testemunha: [Os juízos do Senhor] São mais doces (qAtm’) (mathoq) do que o mel e o destilar (= gotejar) dos favos” (Sl 19.10).

 

No antigo Oriente, o açúcar não era algo abundante.[4] A referência ao mel era unívoca; todos entenderiam. No Salmo 119, a mesma analogia é feita:  “Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Mais que o mel à minha boca” (Sl 119.103/Pv 16.24). No banquete de Deus oferecido por meio de sua Palavra, tem até sobremesa; o mel com seu gosto agradabilíssimo e renovador.[5]

 

Paladar tem muito a ver com educação e memória. Em geral gostamos de alimentos que estão associados à nossa educação: fomos criados comendo aquela – considerada agora – iguaria. Isto traz a questão da memória: um alimento, um lugar, um aroma. Com todos eles vêm elementos agregados, por vezes, totalmente desconhecidos ou irrelevantes ao estrangeiro deste universo repleto de símbolos.

 

Em virtude do nosso pecado, a Palavra de Deus não soa agradável e doce ao nosso paladar. Precisamos, portanto, educar o nosso paladar espiritual para que aprendamos a nos agradar da Palavra de Deus. Para isso, necessitamos meditar nela, ingeri-la e digeri-la com assiduidade. Meditar na Palavra, praticá-la, crer nos seus ensinamentos. Somente assim poderemos aprender a sentir prazer na Lei do Senhor, como é descrito o homem bem-aventurado no Salmo 1: “Antes, o seu prazer (#pex’)(thaphets) está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite” (Sl 1.2).

 

Essa meditação é centrada em Deus e em sua Palavra. Não é uma mera meditação introspectiva ou transcendental, mas centrada em Deus e dirigida por ele.[6]

 

Em outro lugar o salmista diz: “Com efeito, os teus testemunhos são o meu prazer (#pex’)(thaphets), são os meus conselheiros  (hc'[e)(’eçah) (Sl 119.24).

 

O homem que se compraz na lei do Senhor é bem-aventurado. Parte da bem-aventurança já é o deleite na Palavra de Deus: Aleluia! Bem-aventurado o homem que teme ao SENHOR e se compraz (#pex’) (thaphets) nos seus mandamentos” (Sl 112.1).

 

Por mais prazeroso que seja o estudo da Palavra, o maravilhar-se com a majestade de Deus revelada e a sua instrução, nem sempre temos o discernimento correto na aplicação desta lei absoluta aos nossos dilemas cotidianos. Por isso a oração do salmista: “Guia-me pela vereda dos teus mandamentos, pois nela me comprazo (#pex’) (thaphets) (Sl 119.35).

 

É preciso que cultivemos o hábito de ler a Palavra e descobrir dentro de um processo de aprendizado, o prazer em cumpri-la: Agrada-me (#pex’)(thaphets) fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei” (Sl 40.8).

 

A Palavra de Deus sempre será doce para aqueles que querem agradar a Deus confiando nas suas promessas. “Mais me regozijo com o caminho dos teus testemunhos  (tWd[e) (`eduth) do que com todas as riquezas” (Sl 119.14).

 

Maringá, 5 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] * Rm 12.1,2; 14.18; 2 Co 5.9; Ef 5.10; Fp 4.18; Cl 3.20; Tt 2.9; Hb 13.21. O verbo Eu)areste/w ocorre apenas três vezes indicando especificamente agradar a Deus   (* Hb 11.5.6; 13.16). Na LXX este verbo é usado basicamente com o sentido de “andar com Deus” ou na presença de Deus (Veja-se: Gn 5.22,24; 6.9; 17.1; 24.40; 48.15; Sl 26.3). O advérbio eu)are/stwj ocorre uma única vez, com o mesmo sentido de servir a Deus de modo agradável (Hb 12.28).

[2] Calvino comenta: “Só são dignos estudantes da lei aqueles que se achegam a ela com uma mente disposta e se deleitam com suas instruções, não considerando nada mais desejável e delicioso do que extrair dela o genuíno progresso. Desse amor pela lei procede a constante meditação nela” (João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 1.2), p. 53).

[3] Entre outros, vejam-se: Willem A. VanGemeren,  Psalms: In: Frank E. Gaebelein, ed. ger., The Expositor’s Bible Commentary,  Grand Rapids, Michigan: Zondervan,  1991, v.  5, (Sl 1), p. 54-55; John Stott, Salmos Favoritos, São Paulo: Abba Press, 1997, p. 8. Compare com Bruce K. Waltke; James M. Houston; Erica Moore, The Psalms as Christian Worship: A Historical Commentary,  Grand Rapids, MI.: Eerdmans, 2010, (Sl 1.2), p. 136 e  Mark D. Futato, Interpretação dos Salmos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 48-50.

 

[4] “Os únicos gêneros alimentícios doces, conhecidos na antiguidade, foram açucares naturais, do tipo frutose produzida, por exemplo, pelas tâmaras, damascos, uvas, ou mel produzido pelas abelhas” (W. White Jr., Mel: In: M.C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 4, p. 207).

[5] A figura da “sobremesa” foi tirada da obra de Francisco L. Schalkwijk, Meditações de um peregrino, São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 18.

[6] Veja-se: Bruce K. Waltke; James M. Houston; Erica Moore, The Psalms as Christian Worship: A Historical Commentary, Grand Rapids, MI.: Eerdmans, 2010, (Sl 1.2), p. 139.

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