Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (25)

Segundo Charles Hodge (1797-1878),[1] a palavra apóstolo é usada em três sentidos especiais no Novo Testamento:

 

  1. Em seu sentido primário de mensageiro: Jo 16; Fp 2.25; 2Co 8.23;
  2. No sentido de missionários, homens enviados pela igreja para pregar o Evangelho. É neste sentido que Paulo e Barnabé são chamados apóstolos (At 14.4,14), bem como Andrônico e Júnias[2] (Rm 16.7) e, penso eu, possivelmente, Silas e Timóteo (1Ts 2.7/1Ts 1.1/At 17.1-4,10,14).[3]
  3. No sentido de “plenipotenciários de Cristo”; homens que ele pessoalmente escolheu e enviou investindo-lhes com toda autoridade para ensinar e governar em seu nome. Neste sentido, a palavra é empregada para referir-se aos doze apóstolos, aqueles que foram testemunhas de sua vida, morte e ressurreição: Jo 26; At 1.22; 2.32; 3.15; 13.31; 26.16; 1Co 9.1; Gl 1.12. Guiados pelo Espírito, a sua função primordial era dar testemunho do que viram e experimentaram em companhia de Jesus Cristo, culminando com a sua morte e ressurreição.[4]

 

O apostolado, portanto, sempre pressupõe alguém que o antecede, que o envia.  Biblicamente ninguém é apóstolo de si mesmo. Também, o apóstolo não é maior do que aquele que o envia, como nos ensina Jesus Cristo: “Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado (apo/stoloj), maior do que aquele que o enviou (pe/mpw) (Jo 13.16). Por isso, o enviado, busca a glória daquele que o enviou: “Quem fala por si mesmo está procurando a sua própria glória; mas o que procura a glória de quem o enviou (pe/mpw), esse é verdadeiro, e nele não há injustiça” (Jo 7.18).

 

Paulo reconhece o seu apostolado pela “vontade” (Qe/lhma) de Deus. Este substantivo é derivado do verbo Qe/lw, que significa “vontade”, “desejo”, “intenção”. Apesar do verbo ser amplamente empregado na literatura clássica, o substantivo Qe/lhma aparece raramente. No Novo Testamento, ele ocorre 61 vezes [o verbo 207 vezes].

 

Mesmo sendo esta palavra utilizada para a vontade do homem, ela é predominantemente atribuída a Deus, e, neste sentido, enfatiza mais o elemento volitivo do que o deliberativo, assinalando que Deus cumprirá a sua vontade, o seu propósito.

 

Nos próximos posts farei uma digressão explorando um pouco mais a questão da vontade de Deus.

 

Maringá, 4 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Confira esta série completa aqui


[1] Charles Hodge, “Epistle to the Ephesians,” The Master Christian Library, (Albany, OR: Ages Sofware, 2000, Version 8), (Ef 1.1), p. 20-21. Veja também: Charles Hodge, Commentary on the Epistle to the Romans, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1994 (Reprinted), (Rm 1.1). p. 15-17. Para um sumário crítico das controvérsias a respeito da palavra e do seu emprego, veja-se: C.G. Kruse; P.W. Barbett, Apóstolo: Novo Testamento: In: Daniel G. Reid, ed. Dicionário Teológico do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 122-139. Para uma abordagem mais apologética, veja-se: Augustus N. Lopes, Apóstolos – A verdade bíblica sobre o apostolado, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2014.

[2] Júnias é nome masculino, forma contraída de Junianus (Cf. A.F. Walls, Andrônico e Júnias: In: J.D. Douglas, ed. org. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 1, p. 79).

[3] Embora pudéssemos, como enviados (a)po/stoloj) de Cristo, exigir de vós a nossa manutenção, todavia, nos tornamos carinhosos entre vós, qual ama que acaricia os próprios filhos” (1Ts 2.7).

[4]É neste sentido que entendo a distinção feita por Inácio (30-110 AD), bispo de Antioquia da Síria, que quando se dirigia preso para Roma, conduzido ao seu martírio por se negar a adorar os deuses do Império, redigiu sete cartas à sete Igrejas. Na carta endereçada à Igreja de Roma, Inácio demonstra fazer distinção entre ele e os apóstolos Pedro e Paulo. Rogando aos irmãos romanos que não tentassem impedir o seu martírio, num trecho emocionante diz:

“….Sou trigo de Deus e sou moído pelos dentes das feras para encontrar-me como pão puro de Cristo. Acariciai antes as feras, para que se tornem meu túmulo e não deixem sobrar nada de meu corpo, para que minha morte não me torne peso para ninguém. Então de fato serei discípulo de Jesus Cristo, quando o mundo nem mais vir meu corpo. Implorai a Cristo em meu favor, para que por estes instrumentos me faça vítima de Deus. Não é como Pedro e Paulo que vos ordeno. Eles eram apóstolos, eu um condenado; aqueles livres, e eu até agora escravo. Mas, quando tiver padecido, tornar-me-ei alforriado de Jesus Cristo, e ressuscitarei n’Ele, livre. E agora, preso, aprendo a nada desejar” (Aos Romanos, 4.1-3. In: Cartas de Santo Inácio de Antioquia, 3. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1984, p. 66).

 

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