Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (22)

3. Origem do Ofício de Diácono

 

A origem deste ofício eclesiástico deve ser buscada no texto de At 6.1-7.[1] Embora saibamos que nem todos concordem com isso[2] e outros não se decidam,[3] ficamos com aqueles que identificam o diaconato com At 6.[4]

 

No início da Igreja do Novo Testamento, competia aos apóstolos a responsabilidade de gerenciar os donativos, distribuindo-os conforme a necessidade dos crentes (At 2.45/At 4.37; 5.2). Com o crescimento da Igreja, esta atividade tornou-se por demais pesada para eles. Isso é natural. Conforme o desenvolvimento da Igreja, a situação foi ficando mais complexa, necessitando, portanto, de ajustes dentro dos padrões estabelecidos, para melhor atender aos fiéis no propósito em suas necessidades. Isso serve de alerta: por vezes criamos um sistema sofisticadíssimo com leis e regulamentos, no entanto, não temos pessoas. Ficamos com os regimentos e estrutura para um grupo inexistente. É preciso discernimento e cautela. Aqui, a Igreja crescia e as carências vão se manifestando.

 

Abro um parêntese para fazer algumas observações. Mesmo a igreja enfrentando dificuldades dentro de seu próprio seio, como o caso de Ananias e Safira (At 5.1-11) e perseguição (At 5.17-42), ela crescia.

 

O princípio da santidade passa a dar o tom da Igreja. A igreja crescia no temor do Senhor.

 

Por vezes, as dificuldades e provações se constituem em oportunidades de crescimento em vários sentidos. De modo semelhante, as bênçãos de Deus trazem consigo a oportunidade para amadurecermos com novos desafios.

 

A carência, por vezes, nos desafia à paciência e perseverança. A fartura, prova a nossa generosidade. Sei que as coisas não são tão estanques assim. O que ocorreu entre os crentes da Macedônia que em meio à ausência de recursos, foram generosos (2Co 8.1-5), apresenta uma linha transversal: tinham pouco materialmente, mas, foram generosos além de qualquer expectativa otimista. No entanto, os desafios assumem configurações diferentes dentro das situações mencionadas a partir de nossa visão dos fatos.

 

Atos 6 registra uma dificuldade própria da bênção de Deus: a igreja crescia e, havia generosidade da parte dos crentes para ajudar aos necessitados que, como o próprio Senhor dissera, sempre os teríamos (Mc 14.7; Dt 15.11).[5]

 

Nesse contexto é que se insere o diácono. O ofício de diácono teve a sua origem como resultado de uma necessidade: As viúvas dos helenistas (judeus de fala e cultura grega provenientes da Dispersão), estavam sendo habitualmente[6] “esquecidas na distribuição diária” (At 6.1).

 

Ao contrário do que já foi suposto, o “esquecimento”[7] ou uma provisão menor para as viúvas gregas,[8] não foi deliberado. A questão era mesmo de excesso de trabalho juntando a isso, a possível situação de severa penúria das viúvas.[9]

 

Os apóstolos manifestaram grande discernimento. Havia muito que fazer. A Igreja estava fundamentada e perseverava na doutrina dos apóstolos (At 2.42). O crescimento numérico de convertidos era evidente (At 6.1). Eles precisavam continuar ensinando, alimentando o rebanho. Isto era prioritário na sua vocação apostólica.[10] Não poderiam se desviar de sua tarefa principal, com o risco evidente de falharem em ambas as esferas. Portanto, reconhecendo o problema e ao mesmo tempo não tendo como resolver tudo sozinhos, encaminharam à comunidade, de forma direta, a eleição de “sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregariam deste serviço” (At 6.3). Detectando o problema, agiram de forma humilde, rápida e eficaz.

 

A eleição foi feita. Os apóstolos, então, se dedicaram mais especificamente a outra espécie de diaconia: “à oração e ao ministério (diakoni/a) da Palavra” (At 6.4), ofício para o qual foram especialmente chamados: Pregar a Palavra de Deus buscando sempre em tudo o discernimento em Deus.[11]

 

Eles sabiam o quão necessário é a oração para o desempenho de seu ofício. Havia grandes desafios à frente. Os apóstolos, ainda que não somente, precisavam continuar pregando e orando.[12] Deus haveria de dar-lhes discernimento. Estes homens sabiam de suas limitações; da grandiosidade da mensagem e da condição humana de total ignorância e aversão ao Evangelho, estando todos mortos espiritualmente (Ef 2.1,5).[13] Vemos aqui de passagem, o quão necessário é o tempo gasto com o preparo para o ensino da igreja.

 

Também sabemos, que somente Deus poderia capacitá-los a pregar com integridade, autoridade e poder, transformando os corações de seus ouvintes. A questão não era simplesmente de comunicação, antes de poder.

 

Anos depois, Paulo relembra aos tessalonicenses como foi o Evangelho por ele pregado: “Porque o nosso evangelho não chegou até vós tão-somente em palavra, mas, sobretudo, em poder, no Espírito Santo e em plena convicção, assim como sabeis ter sido o nosso procedimento entre vós e por amor de vós” (1Ts 1.5/1Co 2.1-5; 4.20).

 

E é deste modo, apenas para me valer de uma única ilustração, é que Lídia foi convertida. Paulo que fora pregar em Filipos dirigido pelo Espírito, registra Lucas, “Certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu (dianoi/gw) o coração para atender às coisas que Paulo dizia” (At 16.14).

 

Sem a operação transformadora de Deus, podemos falar à mente e ao coração, contudo, a transformação integral do homem, a regeneração, é obra de Deus. Precisamos, de fato, pregar e orar.

 

Packer sintetiza isso:

 

A pregação e a oração devem seguir juntas; nossa evangelização não estará de acordo com o conhecimento, nem será abençoada, se não agirmos dessa maneira. Cumpre-nos pregar, porque sem o conhecimento do evangelho nenhum homem pode ser salvo. E cumpre-nos orar, porque somente o soberano Espírito Santo em nós e nos corações dos nossos ouvintes pode tornar eficaz a nossa pregação, visando a salvação dos pecadores; e Deus não envia o Seu Espírito onde não há oração.[14]

 

O apostolado envolve essencialmente a tarefa de servir à igreja com especificidade no estudo e ensino da Palavra. Os diáconos, prioritariamente, alimentariam os fiéis com o pão material ‒ cuidariam mais especificamente da administração dos recursos: recebimento, abastecimento, preparação, organização, distribuição ‒[15] tão essencial à sua subsistência. Os apóstolos administrariam de modo mais específico o pão da vida, espiritual, pregando e intercedendo por eles.

 

Os diáconos devem ser vistos como braços da misericórdia de Deus em favor do seu povo carente. Eles exercem, em parte, o “socorro” de Deus para com o seu povo (1Co 12.28): “Os diáconos representam a Cristo em seu ofício de misericórdia, e o exercício da misericórdia está vinculado com o consolo dos aflitos”, acentua Kuiper (1886-1966).[16] Eles devem ser os braços solícitos de misericórdia de Deus no serviço aos mais necessitados.[17]

 

Historicamente este ofício permaneceu e se expandiu geograficamente, conforme atestam os documentos disponíveis.[18]

 

Maringá, 01 de julho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Confira esta série completa aqui

 


[1] Ora, naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos, houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição (diakoni/a) diária. 2 Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir (diakone/w) às mesas. 3 Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço; 4 e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério (diakoni/a) da palavra. 5 O parecer agradou a toda a comunidade; e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. 6 Apresentaram-nos perante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos. 7 Crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé (At 6.1-7).

[2]Kelly, T.C. Smith, Beyer, Bruce, Stam, Legrand, Fee (1Tm 3.8-13), entre outros.

[3]Stagg, Latourette, Stott, Vine.

[4]Irineu, Calvino, Bavinck, Vincent, Berkhof, Hendriksen (Fp 1.2), Ladd, R.B. Kuiper, Lloyd-Jones, Kistemaker, Grudem, entre outros.

[5] “Porque os pobres sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre me tendes” (Mc. 14.7). “Pois nunca deixará de haver pobres na terra” (Dt 15.11).

[6]O verbo paraqewre/w no imperfeito, sugere a ideia de algo frequente e habitual. Este verbo só ocorre aqui (At 6.1) no Novo Testamento.

[7] Assim pensa Barclay. (William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora, 1974, v. 7, p. 60).

[8] Calvino aventa sobre essa possibilidade (John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries), 1996 (Reprinted), v. 18/2, (At 6.1), p. 231).

[9] Vejam-se: I.H. Marshall, Atos: Introdução e Comentário, São Paulo: Mundo Cristão/Vida Nova, 1982, p. 123; John R.W. Stott, A Mensagem de Atos, São Paulo: ABU Editora, 1994, p. 133; Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 1, p. 295.

[10]“Portanto, quando os apóstolos põem a pregação do evangelho em primeiro plano, disso inferimos que nenhuma obediência é mais agradável a Deus do que esta. Não obstante, ao mesmo tempo realça-se a dificuldade, quando dizem que não estão aptos para exercerem aqueles dois ofícios. Por certo que de modo algum somos superiores a eles” (John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries), 1996 (Reprinted), v. 18/2, (At 6.2), p. 234).

[11] Stott lamentando a falta de seriedade moderna para com a Palavra, diz que se adotássemos esta mesma agenda apostólica, “…. envolveria para a maioria de nós, uma reestruturação radical do nosso programa e do cronograma, inclusive uma delegação considerável de outras responsabilidades aos líderes leigos, mas expressaria uma convicção verdadeiramente neotestamentária a respeito da natureza essencial do pastorado” (John Stott, Eu Creio na Pregação, São Paulo: Editora Vida, 2003, p. 132).

[12] “Nossa oração a Deus deve ser no sentido de desimpedir nossa vista e nos capacitar para a meditação sobre suas obras” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3. (Sl 92.6), p. 465).

[13] É muita proveitosa a exposição de Lloyd-Jones sobre a necessidade de oração declarada pelos apóstolos. Veja-se: D. M. Lloyd-Jones, Cristianismo Autêntico: Sermões sobre Atos dos Apóstolos, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2003, v. 3, p. 364-381.

[14]J.I. Packer, Evangelização e Soberania de Deus, 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 84.

[15] A palavra mesa utilizada em At 6.2 (tra/peza), de onde vem o nosso vocábulo “trapézio”, é empregada no NT para se referir à mesa de alimentos (At 16.34), à mesa de câmbio (Mt 21;12; Jo 2.15) e, simplesmente ao banco onde são feitas transações financeiras (Lc 19.23).

[16]R.B. Kuiper, El Cuerpo Glorioso de Cristo, Grand Rapids, Michigan: SLC., 1985, p. 141.

[17]Veja-se: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 4 (IV.13), p. 83.

[18]Vejam-se: Clemente de Roma, 1Coríntios, 42.4; 44.5; 47.6; 54.2; 57.1; Inácio, Cartas: Aos Efésios, 2.1; Aos Magnésios, 2.1; 3.1; 6.1; 13.1; Aos Tralianos, 2.3; 3.1; 7.2; 12.2; Aos Filadélfios, 10.2; Aos Esmirnenses, 8.1; À Policarpo, 6.1; Irineu, Contra as Heresias, V.36.1; Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica, III.39.3-5,7; VI.19.19; 43.2; 43.11; VII.28.1; 30.2.12. Para uma visão histórica das transformações de seu ofício, vejam-se: Hervé Legrand, Diácono: In: Jean-Yves Lacoste, dir., Dicionário Crítico de Teologia, São Paulo: Paulinas; Loyola, 2004, p. 554-555; Hermann W. Beyer, Servir, Serviço: In: G. Kittel, ed. A Igreja do Novo Testamento, São Paulo: ASTE, 1965, p. 288-290.

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