Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (47)

10.3. O “Espírito da Graça” e a Igreja[1]

 

É uma grande bênção ter um Deus que não é uma Pessoa senão três. Constitui uma Trindade abundante. Porque não só um Pai que nos ama e cuida de nós, senão também um Cristo que trouxe salvação e intercede por nós e um Espírito Santo que mora dentro de nós e aplica a salvação à nossa vida. – Edwin H. Palmer (1922-1980).[2]             

 

É somente sob a direção do Espírito que tomamos posse de Cristo e de todos os seus benefícios”, comenta Calvino.[3]. De fato, o Espírito é chamado de “Espírito da Graça” (Hb 10.29/Zc 12.10), porque é ele quem aplica a graça de Deus aos pecadores eleitos, conduzindo-os progressivamente à conformação da imagem de Cristo. O Espírito é “comunicador da graça”.[4] Este ministério tem início, quando o Espírito nos leva a aceitar a mensagem de perdão dos nossos pecados. O Espírito anuncia que chegou o tempo da salvação, que é caracterizado pelo perdão para todos aqueles que se arrependem de seus pecados.

 

Sem as obras da Trindade, jamais seríamos salvos pela graça. A graça de Deus, que é personificada em Cristo, é apenas um lado das obras redentoras do Deus Triúno. Toda a Trindade está comprometida na salvação do seu povo, tendo cada uma das Pessoas da Santíssima Trindade, conforme o Conselho trinitário, um papel fundamental.

 

Conforme já tratamos, a obra do Espírito é distinta da obra do Pai e do Filho, porém, não é independente. A Trindade opera, conjuntamente, tendo o mesmo propósito eterno: a glória do próprio Deus através da salvação do seu povo (Is 43.7/Ef 1.6; 1Pe 2.9,10).[5]

 

O Espírito está tão essencialmente ligado à igreja que, na linguagem de Pedro, mentir à igreja é o mesmo que mentir ao Espírito (At 5.3,9).[6] A Igreja é a comunidade do Espírito formada e preservada por ele. Ao longo da História, “Deus tem preservado sua Igreja de uma maneira comum ou ordinária, porém com terrível majestade”, alegra-se Calvino.[7]

 

Dentro de outra perspectiva, declara Bavinck (1854-1921):

 

Assim como Cristo em Sua concepção assumiu a natureza humana e nunca colocou-a de lado, assim também o Espírito Santo no dia de Pentecostes passou a usar a Igreja como Sua morada e como Seu santuário e nunca se separará dela.[8]

 

A Igreja de fato é de Deus. Vejamos alguns pontos concernentes a este fato.

 

10.3.1. Estabelece a igreja

 

Sem o Espírito não haveria Igreja, isto, porque não haveria crente em Cristo. A Igreja é composta por pessoas que confessam o Senhorio de Cristo. Esta confissão só é possível pela ação poderosa do Espírito (Cf. 1Co 12.3/Rm 10.9-10).[9] A igreja é o reflexo dos atos da Trindade.

 

O Deus Trino atua de tal forma que a sua igreja foi constituída e é preservada até a consumação definitiva da obra de Cristo, quando ele será glorificado na Igreja e a Igreja nele:

 

Quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram, naquele dia (porquanto foi crido entre vós o nosso testemunho). Por isso, também não cessamos de orar por vós, para que o nosso Deus vos torne dignos da sua vocação e cumpra com poder todo propósito de bondade e obra de fé, a fim de que o nome de nosso Senhor Jesus seja glorificado em vós, e vós, nele, segundo a graça do nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo. (2Ts 1.10-12).

 

A Igreja é uma comunidade de pecadores regenerados. A regeneração é efetuada pelo Espírito (Cf. Jo 3.3,5; Tt 3.5).[10] Logo, sem a ação regeneradora do Espírito, não existiriam cristãos nem Igreja.

 

O Espírito é a alma da Igreja, é quem lhe dá ânimo e vitalidade. É o Espírito quem dirige os homens à porta de salvação que é Cristo (Jo 10.9).[11] Ao longo da História, o Espírito tem estabelecido a Igreja, chamando, através da Palavra, os homens para constituírem a Igreja de Deus. “Do mesmo modo, escreve Palmer, que o Espírito Santo formou o corpo físico de Jesus Cristo, na encarnação, assim também forma o corpo místico de Jesus Cristo, ou seja, a igreja”.[12]

 

Boanerges Ribeiro (1919-2003) acentua a especificidade e especialidade da Igreja:

 

A Igreja resulta de uma ação especial, não ‘rotineira’, de Deus entre os homens. O que organiza a Igreja, o que faz dos indivíduos de outra forma dispersos uma comunidade é a presença permanente de uma pessoa certa e determinada, o Santo Espírito Divino.[13]

 

A Igreja é a comunidade daqueles que foram chamados do mundo para Deus pela operação do Espírito, daqueles “que têm a mesma fonte genética, o sangue de Cristo, o novo nascimento”.[14]

 

 

São Paulo, 13 de maio de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Leia esta série completa aqui.

 


[1] Para um estudo mais detalhado concernente ao Espírito e a nossa salvação e à sua ação na Igreja, consulte: Hermisten M.P. Costa, O Espírito Santo e a Igreja, Goiânia, GO.: Cruz, 2018.

[2] Edwin H. Palmer, El Espiritu Santo, Edinburgh: El Estandarte de la Verdad, (s.d.), Edição Revista, p. 14.

[3] João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 13.13), p. 271.

[4] A.W. Pink, Os Atributos de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985, p. 74.

[5] Veja-se: Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 54.

[6]“…. certo homem, chamado Ananias, com sua mulher Safira, vendeu uma propriedade, mas, em acordo com sua mulher, reteve parte do preço e, levando o restante, depositou-o aos pés dos apóstolos. Então, disse Pedro: Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do valor do campo?” (At 5.1-3). Tornou-lhe Pedro: Por que entrastes em acordo para tentar o Espírito do Senhor? Eis aí à porta os pés dos que sepultaram o teu marido, e eles também te levarão” (At 5.9).

[7] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Edições Parakletos, 1999, v. 2, (Sl 65.5), p. 614.

[8]Herman Bavinck, Our Reasonable Faith, 4. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1984, p. 386.

[9]Por isso, vos faço compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus afirma: Anátema, Jesus! Por outro lado, ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo(1Co 12.3). Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação(Rm 10.9-10).

[10]3 A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus (…) 5 Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus(Jo 3.3,5).

“Não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo (Tt 3.5).

[11] Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem(Jo 10.9).

[12]Edwin H. Palmer, El Espiritu Santo, p. 198.

[13]Boanerges Ribeiro, O Senhor que Se Fez Servo, São Paulo: O Semeador, 1989, p. 36.

[14]Boanerges Ribeiro, O Senhor que Se Fez Servo, p. 46.

3 comentários em “Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (47)”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *