O Ser, as pessoas e as coisas: ontologia, epistemologia e ética (1)

Deus não pode ser apreendido pela mente humana. É mister que Ele se revele através de Sua Palavra; e é à medida que Ele desce até nós que podemos, por sua vez, subir até os céus. – João Calvino (1509-1564).[1]

Nenhuma perfeição expressa plenamente o ser de Deus –  Herman Bavinck (1854-1921).[2]  

Se nos recusarmos a honrar a Deus como Deus, toda nossa visão sobre a vida e o mundo torna-se distorcida. –  R.C. Sproul (1939-2017).[3]

O anti-intelectualismo encontrado na igreja representa uma calamidade, principalmente à luz do fato de que os cristãos deste lado do céu são o povo de um Livro e, portanto, são inevitavelmente pensadores. – David Mathis.[4]

Nunca se pode ter moral verdadeira sem absolutos. Nós podemos chamá-la de moral, mas sempre termina com ‘eu gosto’, ou contrato social, nenhum dos quais é a moral. (…) E não tendo nenhum absoluto, o homem moderno não tem categorias. Não se podem ter respostas verdadeiras sem categorias, e estes homens não podem ter outras categorias, além das pragmáticas e tecnológicas. – Francis A. Schaeffer (1912-1984).[5]

Introdução

         O já falecido, piedoso e respeitado teólogo Saucy (1930-2015), esclarecendo por que não podemos apresentar uma “definição rigorosa da ideia de Deus”, lança luz sobre o conceito de definição: “Definir, que significa limitar, envolve a inclusão do objeto dentro de certa classe ou proposição universal conhecida e a indicação dos seus aspectos distintivos comparados com outros objetos daquela mesma classe”.[6]

         Agostinho (354-430), de forma iluminadora trata da necessidade de definição:

A ciência da definição, da divisão e da classificação, ainda que seja empregada muitas vezes para coisas falsas, não é por si só falsa; nem foi instituída pelos homens, mas descoberta pela própria razão das coisas.[7]

           Algo fundamental para a compreensão e eventual solução de um problema, é ter uma definição clara e correta sobre ele. Definição é delimitação. A definição, sendo apropriada, nos permite ver o objeto como ele de fato é.[8] A  conceituação de Espinosa (1632-1677) é-nos orientadora: “A verdadeira definição de cada coisa não envolve nem exprime senão a natureza da coisa definida”.[9]

            Em uma entrevista concedida em 1991, Thomas Kuhn  (1922-1996) queixando-se do uso excessivo e inadequado da expressão “paradigma”, que marca o seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas, admite que no livro não definira “paradigma” tão rigorosamente como deveria”.[10]

O princípio que deve orientar a definição, é primar pela essência, não pelos “acidentes” que normalmente são efêmeros e não indicam as qualidades intrínsecas do ser.

O historiador Huizinga (1872-1945), apresenta-nos um bom princípio:

Uma boa definição deve ser concisa, ou seja, expor o conceito que se trata de definir com toda precisão e de um modo completo, no menor número de palavras. A definição descreve o significado de uma determinada palavra, usada para designar um determinado fenômeno. Na definição deve ficar inscrito, incluído o fenômeno em sua totalidade. Se permanecem fora dela partes essenciais do fenômeno, a definição não é boa. Por outro lado, uma definição não precisa entrar em detalhes.[11]

            Se Aristóteles (384-322 a.C.) estiver correto, como creio que esteja, ao dizer que “uma definição é uma frase que significa a essência de uma coisa”,[12] de fato, não podemos definir Deus. Ele, como falaremos mais à frente, é só essência, não existindo acidente, e a sua essência é inesgotável, não apenas no aspecto fenomenológico, mas, também, no que é em si. O fenômeno não esgota a essência e, nesse caso, de modo especial, o fenômeno é grandioso e a nossa percepção se revela limitadíssima.(Jó 26.14).[13]

Deus se acomoda à nossa linguagem

Considerando a distância qualitativa entre Deus e o homem, Calvino (1509-1564) sustenta que Deus em sua graça se acomoda à nossa compreensão, se adaptando de forma condescendente à nossa limitação.[14] Empregando as palavras de Calvino, Deus na sua revelação “se acomodava[15] à nossa capacidade”,[16] balbuciando a sua Palavra a nós como as amas fazem com as crianças.[17]

Deus se vale de analogias, recorrendo a metáforas – comparando-se a um leão, ao urso e ao homem –, visando ser entendido por nós.

Quando o Senhor às vezes se compara a um leão, a um urso, a um homem, ou a outros objetos, isto nada tem a ver com imagens, como imaginam os papistas, senão que, por meio de tais metáforas, ou a benignidade e mercê de Deus, ou sua ira e desprazer, e outras coisas da mesma natureza se expressam. Pois Deus não pode revelar-se a nós de qualquer outra maneira senão por meio de uma comparação com coisas que conhecemos.[18]

Portanto, Deus não pode ser definido nem comparado. As comparações bíblicas são formas humanas concedidas pelo próprio Deus Criador, a fim de que possamos ter um conhecimento adequado de sua natureza.[19] As nossas analogias podem se tornar extremamente perigosas porque não fatíveis de erros, distorções e esvaziamento da plenitude do revelado. Parece-me um bom princípio ater-nos às figuras que o próprio Senhor usou em sua Palavra e, mesmo assim, dentro do seu propósito estrito. Fora disso, é caminhar por uma trilha muito escorregadia e arriscada por pura imaturidade ou vaidade leviana.

            A Escritura reconhece que Deus não tem comparação nem pode ser sondado. Ele é incomparável e insondável.

            Não há com que ou com quem comparar Deus. Ele está muito além de nossas referências. A sua grandeza é inexaminável e indecifrável. Não temos parâmetros para decifrá-la ainda que de forma aproximada.[20] Assim se expressaram os salmistas:

Grande (lAdG”) (gadol) é o SENHOR e mui digno de ser louvado; a sua grandeza (hL’WdG>) (gedullah) é insondável (rq,xe !yIa;) (ayin cheqer). (Sl 145.3).
Ó SENHOR, Deus dos Exércitos, quem é poderoso como tu és, SENHOR, com a tua fidelidade ao redor de ti?! (Sl 89.8).
Com efeito, eu sei que o SENHOR é grande e que o nosso Deus está acima de todos os deuses. (Sl 135.5).
Todos os meus ossos dirão: SENHOR, quem contigo se assemelha? (Sl 35.10).
“Ora, a tua justiça, ó Deus, se eleva até aos céus. Grandes coisas tens feito, ó Deus; quem é semelhante a ti?” (Sl 71.19).

Tentação de esquadrinhar Deus

            Considerando o que disse Salomão – “A glória de Deus é encobrir as coisas, mas a glória dos reis é esquadrinhá-las (rq;x’) (chaqar) (= sondar, investigar, pesquisar) (Pv 25.2) –, devemos nos precaver de  uma tentação na qual podemos incorrer; especular sobre o ser de Deus e seus atos, perdendo a dimensão de que o nosso conhecimento é de servo, limitado e fraccionado, dependendo essencialmente da revelação (Is 40.28).[21]

Desejo de anunciar os feitos de Deus

            Ao contrário dessa tentação, o salmista oferece-nos um caminho a seguir: anunciar os feitos de Deus ainda que não tenhamos, naturalmente, a compreensão de todos eles:

São muitas, SENHOR, Deus meu, as maravilhas que tens operado e também os teus desígnios para conosco; ninguém há que se possa igualar contigo. Eu quisera anunciá-los e deles falar, mas são mais do que se pode contar. (Sl 40.5).

Tu me tens ensinado, ó Deus, desde a minha mocidade; e até agora tenho anunciado as tuas maravilhas (al’P’) (pala). (Sl 71.17).

            Todo o nosso conhecimento de Deus deve nos conduzir à adoração e  à glorificação do seu Nome por meio de nossa obediência humilde e sincera. Com tal espírito, continuemos nossos apontamentos.


Maringá, 17 de junho de 2022.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa




[1] João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6,São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, (Dn  3.2-7), p. 186.

[2] Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 98.

[3] R.C. Sproul, A Santidade de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, 206.

[4] David Mathis, Introdução – Pensar, amar, fazer: na perspectiva do Evangelho. In: John Piper; David Mathis, orgs. Pensar – Amar – Fazer,  São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 14.

[5]Francis A. Schaeffer, Poluição e a Morte do Homem, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 24.

[6] R.L. Saucy, Doutrina de Deus: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã,São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 1, p. 440. Sobre a importância das definições no âmbito geral, veja-se: Hermisten M.P. Costa, Introdução à Metodologia das Ciências Teológicas, Goiânia: Cruz, 2015, p. 63-65.

[7] Santo Agostinho, A Doutrina Cristã, São Paulo: Paulinas, 1991, II.36 p. 143.

[8]“Uma definição não arbitrária deve afirmar o conjunto de características singulares compartilhado por todas as coisas do tipo que está sendo definido” (Roy A. Clouser, O mito da neutralidade religiosa: Um ensaio sobre a crença religiosa e seu papel no pensamento teórico, Brasília, DF.: Editora Monergismo, 2020. Edição do Kindle. (Posição 287 de 11450).

[9]Baruch Espinosa, Ética, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 17), 1973, I.8. Escólio 2, p. 91.

[10]John Horgan, O Fim da Ciência: uma discussão sobre os limites do conhecimento Científico, 3. reimpressão, São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 64.

[11]Johan Huizinga, El Concepto de la Historia y Otros Ensayos, 4. reimpresión, México: Fondo de Cultura Econômica, 1994, p. 87.

[12]Aristóteles, Tópicos, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 4), 1973, I.5. p. 13.

[13]“Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos! Que leve sussurro temos ouvido dele! Mas o trovão do seu poder, quem o entenderá?” (Jó 26.14).

[14]Cf. Alister E. McGrath, Historical Theology: An Introduction to the History of Christian Thought, Massachusetts: Blackwell Publishers, 1998, p. 210. A Confissão de Westminster fala também da “condescendência” de Deus em firmar um Pacto com o homem caído (Ver: Confissão de Westminster, VII.1).

[15] Battles  (1915-1979) nos adverte que Calvino nunca empregou a palavra “acomodação” na forma substantivada (accommodatio) nas Institutas e, possivelmente em qualquer de seus escritos. Porém, utilizou os verbos accommodare ou attemperare. (acomodar). (Cf. Ford L. Battles, Interpreting John Calvin,Grand Rapids, MI.: Baker Books, 1996, p. 117).

[16]J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 2.7), p. 82.  “Deus não pode ser compreendido por nós, a menos que se acomode ao nosso padrão” (John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 11/2, (Ez 9.3,4), p. 304). “Não podemos compreender plenamente a Deus em toda a sua grandeza, mas que há certos limites dentro dos quais os homens devem manter-se, embora Deus acomode à nossa tacanha capacidade toda declaração que faz de si mesmo. Portanto, somente os estultos é que buscam conhecer a essência de Deus” (João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Edições Paracletos, 1997,(Rm 1.19), p. 64). “O Espírito Santo propositadamente acomoda ao nosso entendimento os modelos de oração registrados na Escritura” (João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 13.3), p. 265). “Porque se viesse a nós em Sua majestade estaríamos perdidos; porém quando Se nos apresenta por meio de homens se acomoda a nossas debilidades para que possamos conhecer mais convenientemente sua verdade a qual Ele nos propõe” (Juan Calvino, Autoridad y Reverencia que Debemos a la Palabra de Dios: In: Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 17), p. 212).  “Porque, uma vez que em si mesmo seja incompreensível, ele assume, quando quer manifestar-se, aquelas marcas pelas quais possa ser conhecido” (John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 1/1, (Gn 3.8), p. 161). “Este é aquele arrependimento tão amiúde referido nas Escrituras. Não que Deus seja em si mutável, mas Ele usa a linguagem humana para que sejamos afetados com o mais profundo senso de sua ira” (J. Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 106.23), p. 685]. “O Espírito Santo não teve intenção de ensinar astronomia; e, com o propósito de instruir procurou ser comum às pessoas mais simples e iletradas” (John Calvin, Commentary on the Book of Psalms, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House (Calvin’s Commentaries, v. 6/4), 1996 (Reprinted), (Sl 136.7), p. 184]. Veja-se: James Orr, Ciência e Fé Cristã: In: R.A. Torrey, ed. Os Fundamentos, (Edição atualizada por L. Feinberg), São Paulo: Hagnos Editora, 2005, p. 129-139. Ver também: Herman Bavinck, Reformed Dogmatics: Volume 1: Prolegomena, Grand Rapids, Michigan: Baker Academic, 2003, p. 214.

[17]Calvino usou deste recurso hermenêutico para explicar assuntos aparentemente contraditórios na Bíblia. Falando sobre os antropomorfismos bíblicos, diz em lugares diferentes: “Pois quem, mesmo que de bem parco entendimento, não percebe que Deus assim conosco fala como que a balbuciar, como as amas costumam fazer com as crianças? Por isso, formas de expressão que tais não exprimem, de maneira clara e precisa, tanto quê Deus seja, quanto Lhe acomodam o conhecimento à paucidade da compreensão nossa. Para que assim se dê, necessário Lhe é descer muito abaixo de Sua excelsitude” (J. Calvino, As Institutas, I.13.1). “A descrição que dele se nos outorga tem de acomodar-se-nos à capacidade, para que seja de nós entendida. Esta é, na verdade, a forma de acomodar-se: que tal se nos represente, não qual é em Si, porém, qual é possível de ser de nós apreendido” (J. Calvino, AsInstitutas, I.17.13). Ver também: João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 13.3), p. 265; (Sl 19.4-6), p. 420-421/ v. 2, (Sl 50.14), p. 409; v. 3, (Sl 78.65), p. 241; (Sl 91.4), p. 447; (Sl 93.2), p. 474; (Sl 106.23), p. 685; João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.1), p. 30;  (Jo 3.12), p. 127; v. 2, (Jo 14.28), p. 111; (Jo 21.25), p. 327; As Institutas,I.14.3,11; I.16.9; IV.17.11; As Institutas, (1541) III.8. Deste princípio derivado da Retórica (Cf. Alister E. McGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 154ss.) ele tirou um princípio pedagógico: “Um sábio mestre tem a responsabilidade de acomodar-se ao poder de compreensão daqueles a quem ele administra o ensino, de modo a iniciar-se com os princípios rudimentares quando instrui os débeis e ignorantes, não lhes dando algo que porventura seja mais forte do que podem suportar” (J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios,(1Co 3.1), p. 98-99. Ver também: João Calvino, As Pastorais, (2Tm 2.15), p. 235]. Hooykaas (1906-1994) sustenta que a “teoria da acomodação de Calvino” exerceu poderosa influência sobre os astrônomos protestantes (Ver: R. Hooykaas, A Religião e o Desenvolvimento da Ciência Moderna,Brasília, DF.: Editora Universidade de Brasília, 1988, p. 160ss.; Alister E. McGrath, Historical Theology: An Introduction to the History of Christian Thought, Massachusetts: Blackwell Publishers, 1998, p. 210. Em que pese o marxismo do autor, veja-se a obra de Christopher Hill, A Bíblia Inglesa e as Revoluções do Século XVII,Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 43ss.).

[18] John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted),  v. 8/1,  (Is 40.18), p.  223

[19] Vejam as pertinentes observações de Frame  (John M. Frame,  A doutrina de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 166ss.).

[20] “Quando chegamos a conhecer Deus, ficamos temerosos, esmagados; vemos nele uma grandeza que torna como anões todos os outros objetos de conhecimento, reais ou potenciais” (John M. Frame,  A doutrina de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 166).

[21]“Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o SENHOR, o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se fatiga? Não se pode esquadrinhar (rq;x’) (chaqar) o seu entendimento” (Is 40.28).

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