Uma fé que investiga e uma ciência que crê (3)


2. O Deus que se revela

            Por meio de Isaías, Deus faz registrar: “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e vivificar o coração dos contritos”(Is 57.15).

            A Palavra de Deus nos ensina que Deus não pode estar limitado pelo universo, que é sua criação: Deus é infinito e, por isso, é imenso e eterno, transcendendo de forma perfeita todas as limitações espaciais e temporais, que são próprias da criatura, não do Criador – entretanto, Deus está presente em todas as suas criaturas e em todos os lugares.

            Com isso não queremos dizer que Deus esteja presente no mesmo sentido em todas as suas criaturas. Deus está em todo ser de acordo com a natureza deles. Desse modo, afirmamos que Deus habita de uma forma no homem e de outra no mundo orgânico, de outro no mundo inorgânico etc. O modo como Deus está em nós, seu povo, é diferente da forma como Ele habita nos incrédulos. Deus está presente agindo soberanamente numa interminável variedade de maneiras.[1]

            Desta forma, afirmamos a transcendência de Deus, negando com isso o panteísmo; e, afirmamos a imanência de Deus, partindo de um fato real: a Revelação de Deus, negando, portanto, o deísmo. A fé cristã sustenta a criação de todas as coisas pela vontade livre, que nos é inacessível, e soberana de Deus e, ao mesmo tempo, a manutenção desta realidade por meio deste Deus pessoal e que se revela, se relacionando conosco.

            A Bíblia ensina estas duas verdades:

1) O Céu e a Terra não podem conter Deus: 1Rs 8.27; Is 66.1; At 7.48,49.

2) Todavia, Ele sustenta os Céus e a Terra, estando especialmente próximo daqueles que sinceramente o buscam: Sl 139.7-10; Is 57.15; Jr 23.23,24; At 17.27,28. Calvino (1509-1564) exulta: “A glória de nossa fé é que Deus, o Criador do mundo, não descarta nem abandona a ordem que Ele mesmo no princípio estabelecera”.[2]

            Foi com este Deus que nossos primeiros Pais se relacionavam, mas, optaram por rejeitarem-no, justamente porque tinham a pretensão de serem iguais a Ele.

Um dos aspectos fundamentais na tentação de Adão e Eva não foi justamente o desejo de conhecer além do que lhes seria permitido? Adão e Eva desejaram a autonomia. Ter um conhecimento independentemente de Deus. Ser iguais a Deus: Autossuficientes.[3] Satanás lhes ofereceu uma cosmovisão concorrente onde o ponto de referência não era mais Deus, mas o desejo pessoal deles.[4]  

            O desejo de independência os leva a aceitar qualquer aceno secular em detrimento da fé em Deus. Aqui, a tentativa de independência de Deus, ao invés de vida, é morte. “A autonomia humana pecaminosa, longe de ser o caminho para a autorrealização humana, é, em si mesma, uma distorção daquilo que é humano”, comenta Knudsen (1924-2000).[5]

A partir desse novo ponto umbilical de referência, excluindo Deus ou o deixando em um canto, à margem da história e da sua vida, o homem começa a construir seus ídolos de acordo com a sua nova imagem eticamente caída. Temos aqui o início do humanismo, considerando de forma teórica e prática o homem como centro e medida de toda a realidade.[6] Por isso é que todo humanismo autônomo não passa de um ato idólatra onde Deus é destronado e o homem colocado como centro da realidade, perdendo assim todas as referências metafísicas.

Depois de redigir essas anotações, esbarrei com o texto de Vanhoozer que, inspirando-se em uma antiga pergunta de Richard Dawkins, velho conhecido de McGrath, propõe que o teólogo tem um papel importante na universidade:

Justamente porque estão atentos contra a criação de ídolos, os teólogos também servem de sentinelas contra o reducionismo científico – a tentação que aflige incessantemente o acadêmico. O reducionismo é a concupiscência dos olhos teóricos, o desejo de ser capaz de explicar todos os fenômenos relevantes por meio de suas próprias ferramentas conceituais – saber como Deus sabe.[7]

            O homem, em seu pretenso humanismo autônomo, não consegue encontrar um ponto de integração que confira sentido à realidade. Portanto, o sentimento constante de insatisfação e frustração, como descrito por McGrath:

Deixar de relacionar-se com Deus é deixar de ser completamente humano. Ser realizado é ser plenificado por Deus. Nada transitório pode preencher esta necessidade. Nada que não seja o próprio Deus pode esperar tomar o lugar de Deus. Assim mesmo, por causa da decadência da natureza humana, há hoje a tendência natural de se tentar fazer com que outras coisas preencham essa necessidade. O pecado nos afasta de Deus e nos leva a pôr outras coisas em seu lugar. Essas vêm para substituir Deus. Elas, porém, não satisfazem. E, como a criança que experimenta e expressa insatisfação quando o pino quadrado não se encaixa no orifício redondo, passamos a experimentar um sentimento de insatisfação. De alguma forma, permanece em nós a sensação de necessidade de algo indefinível de que a natureza humana nada sabe, só sabe que não o possui.[8]         

            Jacques Monod (1910-1976) – ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, em 1965 – retrata de forma sombria a solidão do homem. Na melancólica conclusão de seu livro, disse:

Talvez se trate de uma utopia, mas não de um sonho incoerente. É uma ideia que se impõe pela força única de sua coerência lógica. Tal é a conclusão a que a busca da autenticidade leva necessariamente. Rompeu-se a antiga aliança. Enfim, o homem sabe que está sozinho na imensidão indiferente do universo, de onde emergiu por acaso. Não mais do que seu destino, seu dever não está escrito em lugar algum. Cabe-lhe escolher entre o Reino e as trevas.[9]

A história tem demonstrado o fracasso dessa tentativa e, que mais cedo do que poderiam imaginar os mais pessimistas, esse humanismo que pretendia restaurar o homem à sua dignidade é, na realidade, um anti-humanismo. Na tentativa de matar a Deus, o secularismo matou o homem em sua plenitude – ele passou a ser apenas o resultado de uma evolução casuística – restando apenas um arremedo de nossa real natureza, felizmente ainda preservada em misericórdia pelo Deus vivo, que nos sustenta como sua imagem.

O pecado como algo paradoxal

            Algo paradoxal aconteceu aqui: O ser que eu mais admiro é justamente o que eu rejeito por meio de minha desobediência a fim de me tornar igual a Ele por via inversa. A lógica seria que eu desejasse me aproximar cada vez mais da sabedoria de Deus por meio da obediência aos seus preceitos. No entanto, mediante a tentação satânica, sou convencido de que o caminho para me tornar tão ou mais sábio do que Deus é o da subversão de sua autoridade, deificando o homem e a sua vontade.[10] Negando a sabedoria de Deus é que conseguirei ser tão sábio quanto Ele.

            Temos aqui uma suspeita moral sobre a integridade do ser de Deus. Ele – começam a inferir – não é tão santo, justo e bondoso como quer nos fazer crer (Gn 3.1-5). O caminho do crescimento, pensam Adão e Eva, é o da desobediência. Isso consumado, instalou-se o caos na sua vida, em suas relações e na criação. (Gn 3.7-24). A paz da criação estabelecida por Deus foi quebrada ali,[11] ainda que antes, já estivera trincada no coração do homem e da mulher.

            As Escrituras nos mostram com insistência, que é Deus mesmo quem nos instrui (Sl 32.8-9).[12] No entanto, curiosamente, nossos primeiros Pais que tinham a presença contínua de Deus com eles, rejeitaram a instrução divina, preferindo a sabedoria que supostamente viria da árvore no Jardim do Éden.

            Narra Moisés: “Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento (שׂכל) (śâkal), tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu”(Gn 3.6). Eles desejavam o sucesso por seus próprios meios, mas, conheceram o fracasso por serem guiados simplesmente por suas sensações em oposição à ordem divina.

            O entendimento proposto por Deus nunca pode começar por um ato de falta de entendimento que se concretize em desobediência à sua Palavra. Antes, deve começar pela obediência aos seus preceitos e, ele amadurece no processo de aprendizado da obediência.

Em outras palavras, aprendo a obedecer obedecendo. E, enquanto obedecemos, vamos nos afeiçoando à instrução de Deus e experimentando os seus frutos em nossa vida.

A falta de entendimento

A atitude de Adão e Eva, diferentemente, revelou falta de entendimento que se agravaria na concretização consumada deste comportamento carente de fé em Deus. Esse quadro de desobediência só seria revertido definitivamente por meio da obediência perfeita de Cristo, nosso Senhor.[13]

Aqui temos também outra lição preciosa para nós que muitas vezes tendemos a trocar a instrução de Deus por outra, estranha à sua Palavra. Esta é uma tendência normal do homem pecador. Portanto, todos nós sem exceção estamos, ainda que por vezes de modo sutil, dispostos a substituir o Criador pela criatura (Rm 1.25),[14] criando e cultuando a deuses afeitos aos nossos desejos e circunstâncias.

No próximo post, começaremos e estudar alguns aspectos do ser de Deus conforme Deus nos deu a conhecer por intermédio de sua Palavra.

Maringá, 25 de março de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Veja-se: João Calvino, As Institutas, I.16.3.

[2] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 11.4-5), p. 241.

[3] Tillich (1886-1965), assim define este conceito: “Representa a vida humana vivida segundo a lei da razão em todos os aspectos da atividade espiritual (…). Para os indivíduos, autonomia é a coragem de pensar; coragem de se valer dos próprios poderes racionais (Paul Tillich, Perspectivas da Teologia Protestante nos Séculos XIX e XX,São Paulo: ASTE, 1986, p. 48).

[4]Veja-se: R.K. Mc Gregor Wright, A Soberania Banida, São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p. 248.

[5] Robert D. Knudsen, O Calvinismo como uma força cultural: In: W. Stanford Reid, ed. Calvino e sua influência no mundo ocidental, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 20.

[6]“A forma extrema da idolatria é o humanismo, que vê o homem como a medida de todas as coisas” (R.C. Sproul, O que é a teologia reformada: seus fundamentos e pontos principais de sua soteriologia, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 33). Veja-se também: R.C. Sproul, A santidade de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 205. Na provável primeira carta que Calvino escreveu depois de ter se fixado em Genebra (1536), alegra-se com o avanço da Reforma e a consequente diminuição da superstição e idolatria. Então diz: “Deus permita que os ídolos sejam erradicados também do coração” (Carta escrita ao seu amigo Francis Daniel no dia 13 de outubro de 1536. In: João Calvino, Cartas de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 30). Veja-se também: João Calvino, Instrução na Fé, Goiânia, GO: Logos Editora, 2003,Cap. 8, p. 22.

[7] Kevin J. Vanhoozer, A Trindade, as Escrituras e a função do teólogo: contribuições para uma teologia evangélica, São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 99. Lembrei-me da figura empregada por Barth (1886-1968):

“Não se pode despedir-se da vida e da sociedade. Elas nos cercam por todos os lados; elas nos impõem questões; elas nos confrontam com decisões. Nós devemos sustentar nossa base. O fato de que hoje nossos olhos estão mais amplamente abertos às realidades da própria vida se dá porque desejamos algo mais. Nós gostaríamos de estar fora desta sociedade, e em outra. Mas isto é apenas um desejo; nós ainda estamos dolorosamente cônscios de que, a despeito de tudo, as mudanças sociais e as revoluções, tudo é como era antigamente. Se fora desta situação nós perguntamos: ‘Vigia, o que há na noite?’, a única resposta que carrega alguma promessa é, ‘O cristão’.” (Karl Barth, A Palavra de Deus e a Palavra do homem, São Paulo: Novo Século, 2004, p. 207-208)

[8]Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 68.

[9]Jacques Monod, O acaso e a necessidade, Petrópolis, RJ.: Vozes, 1971, p. 198.

[10] Devo parcialmente essa observação ao Rev. Ricardo Rios que, em correspondência privada (08.06.18), disse: “A minha tese é que o ateísmo é uma resposta aos ditames de Deus. Como eu não posso seguir suas ordenanças, eu nego que elas existam. A autonomia é uma deificação humana”.

[11] Cf. P. Tripp, Admiração, São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 22.

[12]“Instruir-te-ei (שׂכל) (śâkal) e te ensinarei o caminho que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te darei conselho” (Sl 32.8). A palavra aqui traduzida por “instrução”, é traduzida também por “entendimento”(Gn 3.6; Sl 14.2; 53.2; 2Cr 30.22); “inteligência” (Jr 3.15); “atentar” (Sl 106.7);“prudência” (1Sm 18.5; Sl 2.10; 94.8; 111.10; Is 52.13); “êxito” (1Sm 18.14,15,30; 2Rs 18.7); “discernimento” (Sl 36.3); acudir (Sl 41.1). A palavra se refere “à ação de, com a inteligência, tomar conhecimento das causas. (…) Designa o processo de pensar como uma disposição complexa de pensamentos que resultam numa abordagem sábia e bastante prática do bom senso. Outra consequência é a ênfase no ser bem-sucedido” (Louis Goldberg, Sakal: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p 1478). Vejam-se: William Gesenius, Hebrew-Chaldee Lexicon to the Old Testament,3. ed. Michigan: WM. Eerdmans Publishing Co. 1978, 789-790; Louis Goldberg, Sakal: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1478-1480; Robert B. Girdlestone, Synonyms of the Old Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (1897), Reprinted, 1981, p. 74, 224-225.

[13]“Ele [Jesus Cristo] tornou-se o Autor de nossa salvação, visto que se fez justo aos olhos de Deus, quando remediou a desobediência de Adão através de um ato contrário de obediência” (João Calvino, Exposição de Hebreus,São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 5.9), p. 137-138).

[14]20Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; 21porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. 22Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos 23 e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis. 24 Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si; 25pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!” (Rm 1.20-25).

Um comentário em “Uma fé que investiga e uma ciência que crê (3)

  • 29 de julho de 2020 em 10:28
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    Bom dia! Estou lendo sua série de textos sobre fé e ciência, e estou gostando… Parabéns pelo trabalho, que Deus lhe abençoe! Tô até fazendo umas anotações.

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