Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (43)

  C. Julga com justiça

Podemos ter um conhecimento adequado da matéria a ser avaliada, contudo, os meus critérios podem se revelar bastante flexíveis conforme aspectos de minha personalidade, interesse e circunstâncias.

Conforme a cidade na qual o juiz vive, o fato de ser solteiro ou casado, ter filhos ou não, ser muito jovem ou mais maduro, ser um religioso “praticante” ou não, homem ou mulher, considerar o assunto de extrema relevância ou não etc., todos estes elementos podem interferir em sua sentença.

O fato é, que se assim não fosse, como explicar os pareceres tão divergentes tratando da mesma matéria, sob a perspectiva das mesmas leis, por parte dos juízes do Supremo Tribunal Federal, a mais alta instância do poder judiciário brasileiro?

            Os seus padrões, por mais objetivos que sejam refletem aspectos também de sua formação e vivência. Não estamos imunes a estes elementos antropológicos, sociais, culturais, educacionais, geográficos e ideológicos.

Deus é o padrão absoluto

            Entretanto, quando falamos de Deus, afirmando que Ele julga com justiça, significa que há um padrão ético e moral para os seus atos. O padrão de Deus é o seu caráter santo e perfeito. A manifestação externa de seu juízo é perfeitamente conforme à sua justiça essencial; ou seja: é sempre uma expressão coerente do seu caráter santo. Por isso, a justiça consiste na constante vontade de Deus de dar a cada um o que lhe é devido.[1]

            A retidão de Deus é consoante à sua justiça. Em Deus não há injustiça porque Ele sempre age de modo coerente com a sua própria natureza que é santa, perfeita e justa. Portanto, o juízo de Deus não é presunçoso ou leviano, antes é resultado do seu governo soberano. “A justiça de Deus nunca está separada de sua retidão. (…) Sua justiça é perfeita”, resume Sproul (1939-2017).[2]

Ele é Rei autônomo

            Como vimos, Ele é Rei. O seu trono está fundamentado na sua autonomia eterna. O trono é de Deus, não é derivado de autoridade alguma fora dele mesmo. Existe trono porque Deus é o Rei. É Ele quem sustenta o direito e se assenta no seu trono com autoridade própria para julgar: “no trono te assentas e julgas” (Sl 9.4).

            Por isso, toda autoridade está sob a autoridade de Deus. Existe autoridade porque Deus é o seu Autor. (Jo 10.18; Rm 9.21; 13.1).

            Pilatos com sentimentos confusos diante do nosso Senhor, o adverte prepotentemente em seu interrogatório: “Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade (e)cousi/a) para te soltar e autoridade (e)cousi/a) para te crucificar?” (Jo 19.10).

            Ao que o Senhor Jesus, totalmente confiante na soberania de Deus e fiel no cumprimento do Pacto da Graça, responde ressaltando a injustificada arrogância de Pilatos que tinha autoridade delegada por seus superiores e, que teria de prestar contas a Deus: “Nenhuma autoridade (e)cousi/a) terias sobre mim, se de cima não te fosse dada; por isso, quem me entregou a ti maior pecado tem” (Jo 19.11).

Mesmo as maldades dos homens não escapam ao propósito de Deus. Todos são responsáveis pelos seus atos. Isso traz grande consolo para nós e, ao mesmo tempo, uma advertência: os nossos possíveis atos de perseguição, difamação e calúnia, não passam desapercebidos diante do reto Juiz.

Juízes devem se lembrar de Deus

            Por isso é que os juízes devem se lembrar em suas sentenças, que em última instância, o juízo é de Deus. Portanto, eles devem julgar com integridade conforme os padrões de Deus.

            É neste sentido que Moisés instrui os juízes de Israel: “Não sereis parciais no juízo, ouvireis tanto o pequeno como o grande; não temereis a face de ninguém, porque o juízo (jP’v.mi) (mishpat) é de Deus” (Dt 1.17).

            Independentemente dos juízos humanos, que podem ser expressão do juízo de Deus, Ele, Ele mesmo julga o mundo. O juízo definitivo é Dele. Deste modo, o burlar a lei ou ser injustiçado, nunca passa despercebido por Deus. O Senhor é quem julga! Como dissemos, isto traz conforto e responsabilidade.

Maringá, 04/05 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Cf. François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 315.

[2] R.C. Sproul, A santidade de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 121.

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