Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (42)

Deus conhece perfeitamente

            Deus nos conhece perfeita  e completamente. No seu juízo, discerne o que pode haver de mais oculto em nosso coração. Enfatizamos: Davi não se julgava sem pecado, contudo, inocente das acusações que lhe fizeram. Por isso pedir que Deus o julgue “segundo a minha retidão e segundo a integridade que há em mim” (Sl 7.8).

            Os atributos de Deus se completam em um todo perfeito e harmonioso. Ilustremos: Se o Senhor fosse apenas soberano, misericordioso, amoroso etc. poderia, em seu julgamento, se tornar injusto pela incapacidade de discernir as particularidades e os princípios envolvidos em cada caso. Nem sempre conseguimos ser justos ainda que pretendamos.

            Algumas vezes cometemos injustiças pela nossa precipitação, falta de informações ou, ainda que não faltem tais elementos, podemos ser conduzidos ‒ e como somos ‒, pela nossa passionalidade. Quão difícil é entender a nossa condição de suspeição para decidir determinadas questões. Como é difícil ser justo quando os nossos interesses, ainda que não necessariamente escusos, estão em jogo.[1] Por outro lado, como é fácil atribuir motivações santas aos nossos interesses e preocupações enquanto que as motivações dos outros, aos nossos olhos tão perspicazes, estão sempre mescladas e manchadas daquilo que pode ser, na realidade, um exalar de nossos desejos ocultos. Tendemos a condenar nos outros os desejos que, com frequência, são nossos, mas, que não ousamos admitir. Os nossos juízos sobre os outros podem ser, com facilidade, uma expressão de nossas próprias falhas e valores equivocados e disfarçados.

            No entanto, quando falamos do juízo de Deus, podemos dizer como Davi: “Deus é justo juiz”(Sl 7.11).

            Isto significa, entre inúmeras outras coisas, que ninguém pode manipular a Deus ou suborná-lo com orações e oferendas. Ele é santo, soberano e justo.

            Nada está oculto diante do Senhor: “O além e o abismo estão descobertos perante o SENHOR; quanto mais o coração (bl) (lebh) dos filhos dos homens!” (Pv 15.11).

Deus conhece as nossas motivações

            Por meio de uma figura, Salomão demonstra como é criterioso e preciso o exame do Senhor. Ele esquadrinha inteiramente o nosso coração: “O crisol prova a prata, e o forno, o ouro; mas aos corações (bl) (lebh) prova (!x;B’)(bahan) o SENHOR” (Pv 17.3/Jr 17.10).[2]

            Deus conhece as nossas motivações e intenções. Escreve Salomão:

Se disseres: Não o soubemos, não o perceberá aquele que pesa (!k;T’) (takan) (medir, examinar, considerar, calcular a grandeza)[3] os corações (bl) (lebh)? Não o saberá aquele que atenta para a tua alma? E não pagará ele ao homem segundo as suas obras? (Pv 24.12).

            O juízo de Deus está relacionado a este conhecimento:

Enganoso é o coração (bl) (lebh), mais do que todas as cousas, e desesperadamente corrupto, quem o conhecerá? Eu, o Senhor, esquadrinho o coração (bl) (lebh), eu provo (!x;B’) (bahan) os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto de suas ações. (Jr 17.9-10).

            Daí o conforto do salmista: “Deus é o meu escudo; ele salva os retos de coração (bl) (lebh)(Sl 7.10).

            Esta é a alegria própria dos retos de coração:“Alegrai-vos no SENHOR e regozijai-vos, ó justos; exultai, vós todos que sois retos de coração (bl) (lebh)(Sl 32.11).

            Por isso o salmista que inicia o salmo (Sl 7) rogando a salvação de Deus, conclui rendendo graças ao Senhor se alegrando na sua justiça: “Eu, porém, renderei graças ao SENHOR, segundo a sua justiça, e cantarei louvores ao nome do SENHOR Altíssimo” (Sl 7.17).

Maringá, 04/05 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “Não há nada mais difícil do que pronunciar juízo com total imparcialidade, de modo a evitar a demonstração de favoritismo injusto, ou dar margem a suspeitas, ou deixar-se influenciar por notícias desfavoráveis, ou ser excessivamente radical, e em toda causa nada considerar senão a matéria em mãos. Só quando fechamos nossos olhos a considerações pessoais é que podemos pronunciar um juízo equitativo” (João Calvino, As Pastorais,São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 5.21), p. 153).

[2]Vejam-se também: Sl 26.2; 66.10; 139.23; Pv 21.2; 24.12.

[3] Para uma discussão a respeito da origem e significado da palavra, vejam-se:   M. Delcor, Medir: In: E. Jenni; C. Westermann, Diccionario Teologico Manual del Antiguo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1978, v. 2, p. 1306-1310; Bruce K. Waltke, Takan: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1640-1641.

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