Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (44)

Retidão consoante com sua justiça

            A retidão de Deus é consoante à sua justiça. A justiça é a manifestação do caráter essencialmente santo de Deus. Deus é justo em todos os seus atos, não se desvia de seu próprio padrão que é decorrente de sua santidade. A prática da justiça, que pode ser chamada de retidão, significa agir conforme o caráter de Deus, aquele que é justo absolutamente.

            Deus é o próprio padrão: “Deus é fidelidade, e não há nele injustiça: é reto e justo(qyDIc;) (tsadiyq)(Dt 32.4).

            O trono do Senhor está fundamentado em sua própria natureza santa, verdadeira e justa; é deste modo que Ele governa: “Justiça (qd,c) (tsedeq) e direito são o fundamento do teu trono; graça e verdade te precedem”(Sl 89.14).

            Deste modo, “a maior desonra que alguém poderia lançar sobre seu nome é a de contestar sua justiça”, interpreta Calvino.[1]

                 “Ele mesmo julga (jp;v) (shaphat) o mundo com justiça; administra (!yD) (diyn) os povos com retidão (rIv’yme.) (meshar)(Sl 9.8), escreve o salmista.

            Não há injustiça nos mandamentos de Deus. Não há contradição, equívocos ou parcialidade. Todos são igualmente justos. Essa convicção bíblica deve estimular o nosso louvor conforme vivenciou o salmista: “A minha língua celebre a tua lei, pois todos os teus mandamentos são justiça (qd,c,) (tsedeq) (Sl 119.172).

            Podemos, portanto, dizer que a justiça é a exteriorização da santidade de Deus em suas relações com as suas criaturas conforme revelada nas Escrituras.

A justiça de Deus se caracteriza por sua ação coerente com a sua natureza eterna. Por isso, suas ações são sempre perfeitas e retas, pois o seu padrão é a perfeição.

            Deus julga com justiça porque Ele, como o seu Filho, ama a justiça e aborrece a iniquidade: “Amas a justiça (qd,c) (tsedeq) e odeias a iniquidade; por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria, como a nenhum dos teus companheiros” (Sl 45.7/Hb 1.8-9).

Deísmo, Panteísmo e Panenteísmo

            O salmista parte de uma certeza: o mundo não está entregue ao acaso ou ao governo dos homens. Como vimos, Deus compartilha com o homem o seu poder, contudo, não abriu mão de sua soberania. Aqui não há espaço para nenhum tipo de Deísmo (Deus distante da Criação), Panteísmo (Deus se confunde com a matéria),  Teísmo Finito(Deus é bom, mas, limitado pelo mal) ou Panenteísmo(Deus e o mundo são eternos).[2]

            Como criador, preservador e proprietário de todas as coisas, Ele governa e julga com justiça: “Justo (qyDIc;) (tsadiyq) é o Senhor em todos os seus caminhos, benigno em todas as suas obras” (Sl 145.17).

O salmista ora a Deus: “Julga-me, SENHOR, Deus meu, segundo a tua justiça (qd,c) (tsedeq); não permitas que se regozijem contra mim” (Sl 35.24).

            Há a certeza de que “Justo (qyDIc;) (tsadiyq) és, SENHOR, e retos, os teus juízos” (Sl 119.137). 4Porque sustentas o meu direito e a minha causa; no trono te assentas e julgas (jp;v’) ((shaphat) retamente (qd,c) (tsedeq). (…) 8Ele mesmo julga o mundo com justiça (qd,c) (tsedeq); administra os povos com retidão (rIv’yme.) (meshar)[3] (Sl 9.4,8).

            A certeza de que há leis e de que somos governados por meio delas, não basta para nos fazer sentir confiantes em todo tempo.

            Muitas vezes as nossas causas nos parecem tão pequenas – perdidas entre tantas e tantas outras de maior proporção ou de maior importância conforme o grau de interesse de quem compete julgar -, que nem alimentamos grande esperança.

            Nestes casos cultivamos uma espécie de ceticismo resultante da convicção, sempre ilustrada, de que não há espaço para a justiça. A generalização indevida é pródiga na fomentação do ceticismo que, por sua vez, só retroalimenta a nossa insatisfação e a satisfação de a disseminarmos de forma corrosiva entre os crentes.

            O salmista, no entanto, afirma que o Deus que rege as nações e julga o mundo com justiça, também sustenta o seu direito e a sua causa (Sl 9.4). Ou seja: Deus cuida pessoalmente de nós e de nossas causas; nada fica esquecido ou perdido em meio aos “papéis”. Daí o salmista dizer:“Sei que o SENHOR manterá a causa (!yD) (diyn) do oprimido (ynI[‘)(`aniy) e o direito (jP’v.mi) (mishpat) do necessitado (!Ayb.a) (‘ebyon)(Sl 140.12).

            De fato, o Justo Senhor é o nosso pastor.

Águas de Lindóia, 8 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]João Calvino, O Livro dos Salmos,São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 50.21), p. 417.

[2]Veja-se: W. Gary Crampton; Richard E. Bacon, Em direção a uma cosmovisão cristã, Brasília, DF.: Monergismo, 2010, p. 93-106; Cosmovisão: In: Norman Geisler, Enciclopédia de apologética, São Paulo: Vida, 2002, (2. impressão), p. 188-189.

[3]A palavra retidão significa, entre outras coisas: Sinceridade (1Cr 29.17); Equidade (Sl 17.2; 96.10; 98.9; 99.4; Pv 1.3; 2.9); Retamente (Sl 75.2); Coisas retas (Pv 8.6; 23.16); Suavidade (Pv 23.31; Ct 7.9); Caminho plano (Metaforicamente) (Is 26.7); Reto (Is 33.15); Direito (Is 45.19); Concórdia (Dn 11.6).

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